UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
LEANDRO ALOISIO KOLLER
OS FATORES PSICOSSOCIAIS DO TRABALHO
Ijuí (RS) 2019
LEANDRO ALOISIO KOLLER
OS FATORES PSICOSSOCIAIS DO TRABALHO
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso - TCC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: MSc. Paulo Marcelo Scherer
Ijuí (RS) 2019
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso faz uma análise sobre a possível correlação entre os fatores psicossociais do trabalho e o acometimento dos trabalhadores a transtornos mentais e comportamentais, visitando os institutos legais que regulamentam o tema. Apura as condições de trabalho ao longo da história e os fatores de risco à saúde psíquica resultantes desta relação, bem como os indicadores de doenças a nível nacional e internacional. Faz uma breve análise sobre a contribuição dos sistemas e dos órgãos de proteção do trabalho e do trabalhador, frente à competitividade peculiar ao mercado atual e a fragilidade das estruturas estatais de amparo. Por fim, de forma sucinta, investiga a atuação do judiciário mediante os casos levados à sua resolução, presente a inerente complexidade no diagnóstico e na atribuição de causas.
Palavras-Chave: Transtornos mentais e comportamentais. Fatores psicossociais do trabalho. Sistemas de proteção do trabalhador. Relações de trabalho.
ABSTRACT
This graduation course paper analyzes the possible correlation between psychosocial factors of work and the involvement of workers in mental and behavioral disorders, visiting the legal institutes that regulate the theme. This paper also establishes working conditions throughout history and risk factors for psychic health resulting from this relationship, as well as disease indicators in national and international levels. It has been done a brief analysis on contribution’s systems and protection’s organs of work and workers, aiming a peculiar competitiveness to the current market and the fragility of the supporting structural systems. Concluding, in a brief way, it investigates the judiciary’s actions through the cases that have been brought to its resolution, presenting a inherent complexity in the diagnosis and attribution of causes.
Keywords: Mental and behavioral disorders. Psychosocial factors of work. Worker protection systems. Work relationships.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 5
1 O HOMEM, O TRABALHO E SUA CONDIÇÃO PSICOSSOCIAL ... 7
1.1 O homem, o trabalho e sua interação social – Importância do trabalho ... 8
1.2 A observação das condições de trabalho ao longo da história ... 12
1.3 O meio ambiente de trabalho e os fatores psicossociais ... 16
1.4 A Segurança, Saúde e Medicina do Trabalho ... 20
2 OS FATORES PSICOSSOCIAIS DO TRABALHO ... 25
2.1 O direito ao trabalho digno e à saúde mental ... 26
2.2 O sistema de proteção trabalhista e previdenciário ... 34
2.3 Condições de trabalho e indicadores de transtornos mentais e comportamentais ... 42
2.4 Os tribunais brasileiros e a análise dos casos de transtornos mentais ... 50
CONCLUSÃO ... 56
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um estudo a cerca dos Fatores Psicossociais do Trabalho frente à constante veiculação de expressões tais como: “depressão – o mal do século”; “doenças psíquicas aumentam no ambiente de trabalho”; “transtornos mentais, o acidente que ninguém vê”, buscando identificar a possível contribuição das relações de trabalho modernas no desencadeamento ou agravamento de tais patologias, mediante condições resultantes da organização; do ambiente; dos métodos e das práticas adotadas.
Para realização foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, além da consulta à legislação pertinente, buscando analisar ainda os indicadores de saúde; de acidentes de trabalho e de concessões de benefícios previdenciários, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no estudo, aferindo então a proporcionalidade e a eficácia das medidas preventivas regulamentadas, diante do problema explicitado.
Inicialmente, no primeiro capítulo, foi feita a abordagem sobre a relação histórica entre o homem e o trabalho, bem como a importância do mesmo para sua interação social e sanidade mental, investigando com isso as condições de desenvolvimento e a origem das doenças ocupacionais, principalmente àquelas vinculadas aos fatores psicossociais presentes no ambiente, com a iniciativa de identificar os aspectos favoráveis e os prejudiciais à saúde do homem, sem desprezar os fatores atribuídos a vida moderna.
Já no segundo capítulo, a ênfase é dada ao aprofundamento das questões inerentes à saúde do trabalhador, buscando maior especificidade, exemplificação e conceituação de fatores que estão diretamente relacionados com os indicadores de doenças psíquicas. Para isso são analisados os sistemas de proteção e o emanar do direito ao trabalho digno e do direito à
saúde, compreendendo a interferência de um sobre o outro. Na iniciativa de mensurar aquilo que tange o problema, as constatações remetem à diversidade de fatores, vindo a se deparar com barreiras como o preconceito, a omissão e as particularidades deste acometimento, a citar a própria subjetividade do mesmo. Por fim se ingressa nos casos levados ao judiciário, onde se evidencia a aplicação prática da legislação pertencente ao sistema de proteção do trabalhador.
A partir desse estudo se verifica que a crescente de ordem global nos casos de Transtornos Mentais e Comportamentais, demanda a adoção de medidas mais efetivas frente as condições de trabalho e as perturbações inerentes ao meio social, que extrapolam o suporte estrutura psíquico humano.
1 O HOMEM, O TRABALHO E SUA CONDIÇÃO PSICOSSOCIAL
Sendo visto pelo aspecto de subsistência tanto quanto pelo âmbito da realização pessoal, é inegável a importância do trabalho para o homem. As horas; dias; meses; anos de vida desprendidos com o exercício do mesmo, por si só traduzem o quão expressivo para uma condição de vida plena e digna.
Neste sentido, reconhecido que ao longo da história sofreu grandes transformações no campo de sua percepção, sendo por longo período associado a atividades depreciáveis, bem como, por ser manual, penoso e degradante considerado próprio de escravos, dos desprezíveis, onde em contrapartida, o ócio relacionava-se à criação, às descobertas, garantindo a estes controle e poder.
De certa forma a estigmatização persiste até os dias de hoje, sendo eventualmente atribuído como sinônimo do árduo, do sofrível, do exaustivo, de dor, embora em sua prática, tenham sido desconstituídos métodos iniciais, evoluindo da caça e do extrativismo, passando pela fase do domínio sobre as técnicas de agricultura e, chegando à industrialização, à mecanização, quando então atinge a fase tecnológica, afastando cada vez mais as atividades braçais, pesadas.
Contudo, embora superados muitos dogmas, as relações modernas de trabalho assujeitadas ao sistema globalizado, pautadas no predomínio do capital, atreladas às inimagináveis transformações da vida em sociedade principalmente nos grandes centros, emergiram perturbações que vem afetando a saúde mental do trabalhador, vinculadas em grande parte à inobservância dos fatores psicossociais envolvidos.
Feitas as primeiras considerações, destaca-se que o presente capítulo tem por objetivo analisar as interações do homem com o trabalho ao longo da história, identificando desta forma, as condições e as práticas que representam conduta preventiva e as que potencialmente configuram-se como fator de risco à saúde psíquica.
1.1O homem, o trabalho e sua interação social – Importância do trabalho
Ao analisar o contexto histórico de desenvolvimento das sociedades, não restam dúvidas de que o trabalho sobrepõe-se como uma necessidade natural, constitutiva do ser humano, elementar a sua existência. A humanização propriamente dita possui relação direta com o domínio que o homem gradativamente obtém sobre o mesmo, formando subsídio para que em determinado ponto de corte, se visse emancipado e com poderes de manipulação sobre a natureza, desmistificando a total submissão a esta.
Assim explicita Santos (2012, p. 24):
Trabalhar é uma atividade eminentemente humana, porque é consciente, deliberada e com um propósito. Ela pode ter como fim a criação de bens materiais que supram as necessidades humanas de sobrevivência (moradia, alimentação, proteção, etc), ou necessidades culturais e psíquicas (arte, educação, etc). Resumidamente o trabalho é a atividade ou ação que necessita de capacidades físicas e mentais, destinada a satisfazer as necessidades humanas.
Entretanto, as práticas da antiguidade se viram marcadas pela escravatura, pela crueldade convalidada, onde os trabalhadores da época sequer detinham o caráter de seres humanos. Esta mão de obra, exemplificando seus feitos, esteou edificações faraônicas, de notável exuberância, mediante práticas inimagináveis frente aos recursos existentes naquele tempo, sendo ainda, a duras penas, responsável pelo avanço das sociedades amparadas em um regime visto com naturalidade, questão de justiça, vontade divina, dentre outros atributos.
Neste sentido, em compreensão inconcebível para o pós-modernismo, restaram como memória, expressões filosóficas sombrias construídas à época. “Diziam os romanos que ‘os escravos nascem ou são feitos’. Claro o aforismo; sem necessidade de explicações adicionais porque intuitivo”. Eis o entendimento convicto e predominante neste referido período histórico (MARTINS FILHO; NASCIMENTO; FERRARI, 2011, p. 28).
Ilustrando e mensurando o percentual do povo submetido à escravidão, ainda sob a expansão do sistema, as apurações remetem a um impressionante quantificar. “No século I, A.C a terça parte de Atenas e, em igual número, Roma, formava a população escrava” (MARTINS FILHO; NASCIMENTO; FERRARI, 2011, p. 28). Contudo, para chegarmos a
novos patamares evolutivos, impreterível que sejam vislumbrados novos horizontes, avanço de etapas, superação de fases, frente à insustentabilidade óbvia das referidas práticas.
Daí os primeiros esboços do trabalho agrícola pelo homem, sendo também um divisor de águas para principiar a longínqua superação da escravatura, aparentemente muito mais pelo rumo tomado à época, ou como supra referido, pela impraticabilidade dos métodos, que demandavam a descontinuação. Acolhe-se, dado contexto deste período, não se tratar de um eventual processo de sensibilização ou humanização das relações, algo incomum a um lapso temporal caracterizado pela rudez e selvageria nas disputas sociais.
Assim podemos compreender em Martins Filho, Nascimento e Ferrari e (2011, p. 28), sobre o período transitório que possibilita ao homem o abandono à vida nômade:
De fato, com a escravidão deu-se a fixação do escravo a territórios determinados, logo após a domesticação dos animais e a introdução da agricultura, tornando o homem, ainda que escravo, um produtor dos alimentos que consumia, eis que anteriormente a esse estágio o homem caçava, pescava e recolhia frutos que nem sequer plantava.
Adquire ênfase então o processo de ruralização, que dá origem aos primeiros domínios territoriais constituídos pelos invasores germânicos, importante avanço nas relações do homem com o trabalho, principiando o pagamento à mão de obra mediante execução de atividades propostas. Registra-se, portanto, aquilo que, dadas as proporções, perdura até os dias de hoje, ou seja, a cessão do próprio trabalho como objeto de contrato:
O trabalho, depois disso, passou a ser objeto de locações de obras e serviços. Na locação de obra (locatio condutio operis), havia a execução de uma obra mediante pagamento de um resultado. Configura-se, de certa forma, como o trabalho autônomo ou por conta própria (MARTINS FILHO; NASCIMENTO; FERRARI, 2011, p. 29, grifo do autor).
Eis que num rápido percurso pelas práticas dos povos antigos, avançados outros inúmeros grandes marcos históricos evolutivos, até chegarmos aos primeiros esboços do que contemporaneamente se preceitua como relação de trabalho, torna-se possível a compreensão sobre o caráter de infinitude daquilo que tange o tema, reconhecendo que as modificações são fatores que acompanharão eternamente estes vínculos.
Considera-se, portanto, que o trabalho é essencialmente uma ação própria do homem, pela qual modifica a natureza conforme suas descobertas e necessidades, prática indispensável a sua sobrevivência, onde numa relação salutar, é posicionado em função do homem, ao ponto que se for contravertido, temos o homem vivendo em função do trabalho. Complementa-se ainda com a leitura de Benzoni e Zavatarro (2018, s.p.):
O valor do trabalho não reside no fato de que se façam coisas, mas em que coisas são feitas pelo homem e, portanto, as fontes de dignidade do trabalho devem buscar-se, principalmente, não em sua dimensão objetiva, mas em sua dimensão subjetiva. Mesmo que todos saibam o que é trabalho, esta categoria central da vida humana se subtrai de uma definição ou operacionalização em todos os sentidos satisfatória evidenciadas por diversas tentativas apresentadas por autores das mais variadas disciplinas, particularmente das ciências sociais.
Por tudo isso, permissiva a conclusão de que a própria constituição humana detém intrinsicamente o preceito fundamental de modificar a natureza, estabelecendo relações ao usufrui-la, seja com a própria natureza, ou com os outros homens. Portanto a construção de sua história pauta-se no trabalho, implicando diretamente na salutar interação com os demais indivíduos, condição elementar à sua saúde física e psíquica.
Neste sentido expõe Martins Filho, Nascimento e Ferrari (2011, p. 22),
Seja na caça, seja na pesca, seja na fabricação de instrumentos para execução de serviços, o trabalho sempre foi um fator individual de conquista e também um fator social de cooperação na busca de idênticos ideais. A espécie humana, de geração a geração, mantem-se viva pelo trabalho, sob a forma de cooperação ou trabalho coletivo, determinando entre os indivíduos participantes, relações sociais que são de ordem econômica, pela produção, distribuição e troca de produtos; de ordem ética, por normas religiosas, morais e jurídicas e que regulam a vida de cada um em meio à corporação, classe ou sociedade.
Segundo França (2018, p. 2553), “O trabalho continua a ser o eixo fundamental da sociabilidade humana; a dimensão capaz de criar uma natureza humana, isto é, a atividade capaz de nos tornar seres portadores de uma natureza diversa da dos outros seres naturais [...]”.
Portanto, a concepção de trabalho como fundador da sociabilidade humana é hegemonicamente aceita dentre os doutrinadores, pois sempre estiveram lado a lado, sendo inerentes à própria existência, podendo determinar o êxito e a plenitude de vida. Assim, no contexto da interação social, se não houver oportunidade de trabalho, sobressairão os
fenômenos de exclusão, propiciando um sistema de isolamento que afeta também a dignidade e a saúde mental das pessoas, desvendando-se a imprescindibilidade de ações intervencionistas.
Entretanto, observa-se que o interesse utópico numa perfeita relação harmônica nas interações do homem com o trabalho e o meio social onde vive, supera o alcance de sua própria vontade, devendo ser objeto de estudos e programas que mobilizem as organizações, para que de alguma forma, promovam ou criem mecanismos compensatórios à desconstituição da personalidade do trabalhador, risco eminente diante de um sistema anômalo à sua condição existencial.
Assim podemos observar sobre as modificações concernentes:
O trabalho, se por um lado, deu ao homem algum poder, por outro, tornou-o impotente diante de um enorme instrumental que o obriga a pensar em por a salvo a própria existência humana. De uma parte eleva, libera e civiliza o homem para o mundo; de outra, reduz o homem a tarefas que o embrutecem, pela rotina desgastante (MARTINS FILHO; NASCIMENTO; FERRARI, 2011, p. 42).
O labor mecânico e rotineiro, pautado na divisão do trabalho, embora represente expressivo ganho de produtividade quando comparado a outros meios, em contrapartida, subtrai o pensar, o desenvolvimento da inteligência, mesmo que o homem sempre tenha encontrado seus meios para o crescimento pessoal e social. Torna-se, portanto uma exigência, um direito-dever, pela sua importância individual, à família e à comunidade, merecendo atenção dos segmentos políticos, com o devido enfoque à saúde e a educação (MARTINS FILHO; NASCIMENTO; FERRARI, 2011, p. 42).
Compreendido o caráter não optativo e elementarmente constitutivo do trabalho, oportuno frisar a importância de que sua prática seja objeto de estudos, de aprimoramentos, regulamentações e controle, objetivando a harmonia entre as pessoas, o bem estar social, por meio de relações sustentáveis que se sobressaiam a fatores como a lei da oferta e da procura, equalizando direitos e deveres. Assim sendo, indispensável à análise sobre as condições de trabalho.
1.2 A observação das condições de trabalho ao longo da história
Primeiramente, guardadas eventuais ressalvas anteriormente explicitadas, resta então possibilitada à compreensão sobre as severas mudanças que marcaram as relações de trabalho ao longo da história, abrangendo as práticas, modelos, regimes, alcançando até mesmo a finalidade deste desprendimento de força, caracterizando e ressaltando a motilidade prevista, quanto mais frente ao mercado moderno.
Posteriormente, segundo Dejours (1987, p. 19) englobam o contexto das condições de trabalho os seguintes fatores:
Por condição de trabalho é preciso entender, antes de tudo, ambiente físico (temperatura, pressão, barulho, vibração, irradiação, altitude etc), ambiente químico (produtos manipulados, vapores e gases tóxicos, poeiras, fumaças etc), o ambiente biológico (vírus, bactérias, parasitas, fungos), as condições de higiene, de segurança, e as características antropométricas do posto de trabalho.
Em continuidade, mostra-se inicialmente oportuna a abordagem sobre as condições de trabalho na Era Antiga, conteúdo introduzido no item anterior e que dispensa largas explanações, mediante inexistência de estruturas que visassem uma condição digna aos trabalhadores da época, enjeitando-se até mesmo a elevação dos escravos à categoria de seres humanos. Previstos com isso os maus tratos e as exposições degradante a que eram submetidos.
Por conseguinte, o período da Idade Média decorre sem grandes registros relacionados às condições de trabalho, havendo ainda um desinteresse no assunto dada prevalência da mão de obra escrava (BRAGA et al. apud SÉPE, 2018, grifo nosso). Contudo, no início da Idade Moderna, nos séculos XVI e XVII,enfermidades provocadas pela atividade extrativa mineral mobilizaram estudos, tendo em vista que a importância de uma nação era diretamente associada ao quanto produzia, havendo portando um viés econômico de interesse.
Deste modo, perdurantes alguns reflexos até os dias de hoje, registra-se como grande marco histórico, já entre a Idade Moderna e a Contemporânea, a Revolução Industrial. Esta, por sua vez, detém gigantesca expressividade para o contexto das relações e das condições de trabalho, ao assentar o modo de produção capitalista, promovendo transformações
econômicas, sociais, nos meios de produção e na organização do trabalho, desencadeando efeitos catastróficos à ótica da saúde do trabalhador. Assim ensina Tavares (2018, s.p.):
Com a invenção da máquina a vapor, nasce na Inglaterra a Revolução Industrial (1760/1830). Assim, galpões, estábulos e velhos armazéns eram rapidamente transformados em fábricas, colocando-se no seu interior o maior número possível de
máquinas de fiação e tecelagem.
Com isso, circunstâncias inimagináveis nos tempos atuais, dado reconhecimento da condição insalubre e da afronta a princípios humanos constitutivos, marcaram a realidade da época:
Os ambientes improvisados destinados às fábricas mantinham em seu interior temperatura elevada, não tinham ventilação suficiente para a renovação do ar respirável e a umidade era constante. As máquinas ofereciam constante risco de acidentes aos trabalhadores, uma vez que não foram desenvolvidas levando-se em consideração seu usuário. A improvisação das fábricas e a mão-de-obra constituída por homens, mulheres e crianças, sem qualquer processo seletivo quanto ao seu estado de saúde e desenvolvimento físico, culminaram em doenças e mortes (TAVARES, 2018, p. 10).
Vistas pelo âmbito dos registros de enfermidades, doenças e de acidentes incapacitantes, talvez se tenha a melhor expressão sobre as condições a que eram submetidos os trabalhadores, tornando impraticáveis as relações, inviabilizando-as, confrontando com as mais revolucionárias invenções, que aprimoradas, ainda são presentes nos mais diversos segmentos produtivos. No entanto, nos moldes apresentados à época, a mecanização nos processos desencadeou diversos males, dentre eles os de cunho psíquico.
Neste sentido, Pereira, Pastório e Oliveira (2018, s.p.):
Assim como desde o inicio da humanidade as doenças mentais eram estigmatizadas, como loucura, desatinos, alguém alheio de si e sem produzir, fator de repulsa de exclusão nos asilos, hospitais, porões, naus de loucos, abandonados a própria sorte, devido as crenças e a cultura capitalista de excluir, selecionar e descartar o que não agrega valor, ou seja, o que está com a capacidade de produzir limitada assim como Foucault (1978, p.131) salienta que ao “[...] pensar que velhas crenças, ou apreensões próprias do mundo burguês, fecham os alienados numa definição da loucura que os assimila confusamente aos criminosos ou a toda a classe misturada dos a-sociais”.
Por sua vez, diante dos notórios abusos sofridos, penosa condição de vida e alto índice de acidentes e doenças, a constatação é de que a classe trabalhadora acaba se organizando, impelindo medidas atenuadoras, contando ainda com fatores inerentes ao
próprio sistema explorador, que a partir de determinado período se via ameaçado pela incapacitação de sua mão de obra, que incluindo até mesmo crianças, ainda assim perdia volume e produtividade diante dos maus tratos.
Para esta direção é que apontam os ensinamentos obtidos em Silva (2018, p. 232):
Frente ao processo de exploração capitalista que levou ao exponencial aumento de acidentes e doenças do trabalho, bem como ao desenvolvimento de saberes científicos que visavam controlar esses eventos – tais como a Medicina e a Psicologia do trabalho, a Ergonomia, a Engenharia de segurança, entre outras áreas marcadamente vinculadas à lógica burguesa em sua nascença – é evidente que os trabalhadores se articularam com vistas a, pelo menos, refrear o sucateamento de seu maior bem, dentro do sistema capitalista: sua força de trabalho. Como consequência desse processo, a legislação social de proteção ao trabalhador incapacitado para o trabalho, principalmente quando resultado de acidentes de trabalho, foi uma das primeiras a serem erigidas no mundo capitalista ocidental, a partir do Século XIX.
Assim, avançadas as fases evolutivas dos sistemas de produção, sobrepõe-se então o mundo tecnológico em detrimento das práticas supra referenciadas. Desta forma, o contexto das relações e condições de trabalho também passa por drásticas transfigurações, superando grande parte de seus efeitos danosos, mas ao mesmo tempo, identificando outros novos ou renovados fatores, também com capacidade de implicações à saúde.
Com isso, no Pós-Modernismo, os estudos concentram-se nas lesões por esforços repetitivos e nos transtornos psíquicos, embora as apurações históricas encontrem esboços do período da antiguidade, junto aos egípcios e aos greco-romanos, mesmo reconhecido o desinteresse, atribuído e fundamentado no item anterior. Demonstra-se com isso, que as condições laborais sempre detiveram relação com a saúde do trabalhador, ensejando maior ou menor ênfase, a depender do tamanho do problema ou do valor atribuído a esta classe em cada época (SÉPE, 2018).
Daí o enfoque na compreensão dos meios e dos sistemas de produção, bem como os reflexos sobre os indivíduos que obrigatoriamente com eles interagem. A medida que a ciência avança em suas descobertas, abrangendo elementos constitutivos do ser humano, aprimoram-se também as técnicas de identificação e determinação de fatores organizacionais evidentemente ou potencialmente prejudiciais à saúde, permitindo assim as devidas ponderações críticas.
Sobre a referida identificação de fatores, Dejours (1987, p. 128) enfatiza a organização do trabalho:
Quanto mais rígida for a organização do trabalho, menos ela facilitará estruturações favoráveis à economia psicossomática individual. A organização do trabalho é causa de uma fragilização somática, na medida em que ela pode bloquear os esforços do trabalhador para adequar o modo operatório às necessidades de sua estrutura mental. 'É provável que uma parte não negligenciável da morbidade somática observada entre os trabalhadores tenha sua origem numa organização do trabalho inadequada. As mesmas observações aplicam-se à diminuição da longevidade dos trabalhadores à medida que se desce na hierarquia socioprofissional, pois - via de regra - quanto mais se desce no status social, mais rigidamente determinada é a organização do trabalho que os trabalhadores enfrentam.
No mesmo sentido, Benzoni e Zavatarro (2018), utilizando como exemplo o Taylorismo desenvolvido por Frederick Winslow Taylor (1856-1915) no final do século XIX e início do século XX, mesmo o reconhecendo como um marco histórico em termos de organização ressaltam que a excessiva divisão do trabalho e a separação entre concepção e execução, roubou do trabalhador a possibilidade de criação e de elaboração psíquica que o trabalho proporciona ao ser humano, criando na verdade um agente alienado.
Ainda sobre este sistema de produção, reserva Dejours (1987, p. 18 e 19) particular atenção ao seu estudo, dadas as consequências para a saúde mental:
[...] é preciso assinalar as repercussões do sistema Taylor na saúde do corpo. Nova tecnologia de submissão, de disciplina do corpo, a organização científica do trabalho gera exigências fisiológicas até então desconhecidas, especialmente as exigências de tempo e ritmo de trabalho. As performances exigidas são absolutamente novas, e fazem com que o corpo apareça como principal ponto de impacto dos prejuízos do trabalho. O esgotamento físico não concerne somente aos trabalhadores braçais, mas ao conjunto dos operários da produção de massa. Ao separar, radicalmente, o trabalho intelectual do trabalho manual, o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários.
Ratificando as leituras interpretativas sobre estes sistemas e, ao mesmo tempo, buscando possível afinidade com a presente realidade, percebe-se que de alguma forma a referida alienação tende a perdurar, mediante constatações que apontam para o crescimento dos fatores de risco psicossociais, os quais, por este motivo, serão abordados no próximo item, juntamente com o ambiente de trabalho, local onde os mesmos se manifestam.
1.3 O meio ambiente de trabalho e os fatores psicossociais
Analisadas anteriormente as condições de trabalho ao longo da história, diretamente relacionadas com os valores resguardados por cada sociedade à sua época, torna-se indispensável, portanto a compreensão sobre o ambiente onde as atividades são desenvolvidas, o local, o posto, a estrutura física, os métodos, as práticas, a forma de convívio e o trato que o trabalhador recebe quando no desempenho de suas tarefas, todos com potencial de interferência positiva ou negativa sobre os fatores psicossociais.
Segundo a OIT, o termo trabalho decente engloba uma série de questões como remuneração justa, segurança no local de trabalho e proteção social para as famílias, com perspectivas de desenvolvimento pessoal e integração social, bem como, liberdade para as pessoas expressarem suas preocupações, organizarem-se e participarem das decisões que afetam suas vidas (FONSECA, 2018).
Conceituando portanto o Meio Ambiente do Trabalho, objeto de análise do presente item, obtém-se a definição em Fiorillo (2013, s.p.):
Constitui meio ambiente do trabalho o local onde as pessoas desempenham suas atividades laborais relacionadas à sua saúde, sejam remuneradas ou não, cujo equilíbrio está baseado na salubridade do meio e na ausência de agentes que comprometam a incolumidade físico-psíquica dos trabalhadores, independente da condição que ostentem (homens ou mulheres, maiores ou menores de idade, celetistas, servidores públicos, autônomos etc.). Caracteriza-se pelo complexo de bens imóveis e móveis de uma empresa ou sociedade, objeto de direitos subjetivos privados e invioláveis da saúde e da integridade física dos trabalhadores que a frequentam.
Em continuidade, necessária a apuração sobre os Fatores Psicossociais do
Trabalho, que quando indevidamente administrados, são apontados como agentes causadores
de doenças e transtornos de ordem mental e comportamental, merecendo portanto especial atenção (SOBOLL, 2018, grifo nosso). Conforme OMS - Organização Mundial da Saúde, podem ser definidos como os aspectos que envolvem a interação subjetiva entre o trabalhador e seu trabalho, interferindo diretamente na vivência de bem-estar e também nos processos de descompensações da saúde física ou mental, podendo ser sistematizados em dois grupos principais: organização e gestão do trabalho e interações socioprofissionais.
A forma de organização e de gestão do trabalho define a divisão hierárquica, os procedimentos para a realização das tarefas, os indicadores e as metas de produtividade, o ritmo e a intensidade do trabalho e os critérios de promoção na carreira. As interações socioprofissionais contemplam o padrão das relações entre as pessoas, o qual é definido também nos limites dados pela forma de organização e de
gestão do trabalho (SOBOLL, 2018, s.p.).
Especificamente sobre a referida Organização do Trabalho, para Dejours (1987, p. 19), designa-se como a ”[...] divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de responsabilidade etc.” Da interação entre o trabalhador e esta organização é que resultam os fatores psicossociais, podendo ser ela prejudicial ou salutar, a depender das condições envolvidas.
Remetendo atenção ao apanhado evolutivo histórico abordado no item anterior, evidenciam-se as expressivas mudanças econômicas, nos meios de produção, nas relações e condições de trabalho, exercendo assim influência direta sobre o meio ambiente do trabalho, mediante modernização dos parques fabris; controle de agentes nocivos; conforto térmico, visual e acústico; redução do esforço físico; dentre outros fatores determinantes à salubridade e ergonomia.
Entretanto, em relação aos fatores psicossociais a realidade parece ser outra, apontando para um desequilíbrio neste meio, trazendo desta forma consequências negativas como o adoecimento dos trabalhadores. Não obstando a existência de vínculo com a ingerência sobre o meio ambiente de trabalho, importante ressaltar a inevitável exposição às condições da vida social moderna, sujeita a rotinas estressantes; ao caos no trânsito; dificuldades com a harmonização das finanças e ausência de tempo ou recursos para o laser, vez que até certo ponto, um implica na renúncia do outro.
Existe, portanto uma propensão aos efeitos danosos do adoecimento mental, relacionado ou não ao trabalho, que de forma sorrateira vem afetando a qualidade de vida das pessoas, gerando transtornos e prejuízos à estas, ao Estado e às próprias corporações, porém com maior ênfase ao trabalhador acometido, que sucumbe à dor e ao sofrimento, sendo esta uma tendência mundial que alcança inclusive os países desenvolvidos, economicamente fortalecidos.
Na tentativa de conhecer e controlar o problema, podem ser observadas diretrizes presentes em um programa de gestão de riscos, conforme Fischer (2018, s.p.):
Na União Europeia, dada a alta prevalência de problemas de saúde (principalmente de saúde mental) relacionados às condições de trabalho, tais como elevado estresse, violência no trabalho, assédio moral, entre outros, foram estabelecidas diretrizes de um programa de gestão de riscos psicossociais no trabalho Psychosocial Risk
Management – European Framework (PRIMA EF). Esse programa objetiva
fornecer um modelo de promoção de políticas e práticas de gestão desses riscos nos quais se prevê identificação dos riscos, intervenções e avaliação das intervenções.
Ratificando e complementando informações quanto às mudanças significativas nas relações de trabalho no contexto mundial, enfatiza-se a pressão exercida pelas demandas da vida laboral moderna, ditada pela velocidade de comunicações instantâneas e pelo alto índice de competição global, apagando com isso as linhas que separam trabalho e vida pessoal (BRASIL, 2017).
Acrescenta-se ainda sobre estes aspectos:
Os riscos psicossociais, como competição crescente, expectativas mais altas quanto à performance e longas jornadas de trabalho estão contribuindo para um ambiente laboral mais estressante. Além disso, devido à atual recessão econômica que está intensificando o ritmo das mudanças e reestruturações organizacionais, trabalhadores estão experimentando cada vez mais trabalhos precarizados, oportunidades de trabalho reduzidas, medo da perda do emprego, demissões em massa, desemprego e estabilidade financeira reduzida, o que resulta em sérias consequências para sua saúde mental e seu bem-estar (BRASIL, 2017, p. 6, grifo
do autor).
Persistindo com o rol de fatores impulsionadores do adoecimento mental, segundo Brasil (2017, p. 6), encontram-se inseridas situações típicas do mercado de trabalho moderno, como a “[...] banalização da violência, como o assédio moral institucionalizado, as relações interpessoais norteadas por autoritarismo e competitividade, a demanda constante por produtividade e a desvalorização das potencialidades e subjetividades dos trabalhadores.”
Já a EU-OSHA - Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, aponta como os principais fatores de risco, cargas de trabalho excessivas; exigências contraditórias e falta de clareza na definição das funções; falta de participação na tomada de decisões que afetam o trabalhador e falta de controle sobre a forma como executa o trabalho; má gestão de mudanças organizacionais; insegurança laboral; comunicação ineficaz, falta de apoio da parte
de chefias e colegas; assédio psicológico ou sexual, bem como a violência de terceiros (INSS, 2018).
À medida que o problema ganha corpo e expressividade, quebrando-se as barreiras do medo e do preconceito, os estudos também se voltam com maior ênfase a estes agentes causadores dos nominados Transtornos Mentais e Comportamentais, desvendando deste modo outros aspectos organizacionais das relações de trabalho que detém potencialidade ou comprovada vinculação com o adoecimento psíquico, conforme Fischer (2018, p. 401):
Mais recentemente, na década de 1990, uma variável conhecida como “desequilíbrio esforço-recompensa” (ERI), que expressa a percepção dos trabalhadores quanto à relação entre os esforços empreendidos e os retornos obtidos em seu trabalho, foi também reconhecida como outro fator psicossocial com importante associação na saúde dos trabalhadores (Siegrist10 1996). Algumas publicações que incluíram essa variável são: Peter et al9 2002; Niedhammer et al8 2004; Gillen et al4 2007.
Não bastassem as constatações feitas, evidenciam-se fatores que dificultam a apuração sobre a eficácia das medidas preventivas de controle, sejam elas discricionárias ou positivadas, coercitivas. Incide, portanto neste meio a subnotificação dos casos de doenças vinculadas ao trabalho, atribuindo supremacia dos fatores alheios às condições laborais, o que na prática pode não transmitir fidedignidade.
Não obstante, também entra em cena o aspecto da dificuldade no diagnóstico destes distúrbios psíquicos:
O motivo dessa constatação parece estar relacionado à intangibilidade do adoecimento mental. A decisão quanto à permanência deste adoecimento, assim como sobre sua relação com o trabalho, se mostra muito mais complexo do que aquele referente ao adoecimento físico, que pode se basear com maior frequência em lesões evidentes (visíveis) e exames conclusivos. Outro aspecto a ser considerado é a resistência ao reconhecimento da relação do trabalho com a doença mental: é sempre difícil para a direção de uma empresa, ou para o empregador, reconhecer que sua atividade tem sido disfuncional e levado os trabalhadores a desenvolverem agravos psíquicos (BRASIL, 2017, p. 11).
Mesmo assim, de acordo com a OIT, os problemas de saúde relacionados ao trabalho afetam cerca de 40 milhões de pessoas na Europa, representando entre 50 e 60% de todos os dias de trabalho perdidos. Já no Brasil, “[...] os transtornos mentais e comportamentais foram a terceira causa de incapacidade para o trabalho, considerando a concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez, no período de 2012 a 2016 [...]” (BRASIL, 2017, p. 5).
Mediante conceituação dos termos, observa-se que os fatores psicossociais no âmbito do trabalho, quando em descontrole, podem levar ao adoecimento dos trabalhadores, tornando-se indispensáveis medidas administrativas sobre os mesmos. Estas medidas recebem representação através dos órgãos de Saúde e Segurança do Trabalho, responsáveis pelo estudo e aplicação de técnicas pertinentes, conforme menção que se segue.
1.4 A Segurança, Saúde e Medicina do Trabalho
Objeto de tratados internacionais que visam a proteção dos Direitos Humanos, a saúde é bem tutelado reconhecido como um dos mais valiosos a serem resguardados, tendo portanto o Brasil aderido aos mesmos. Preceituado ainda como direito fundamental na Constituição da República, importante destacar os conceitos universais atribuídos a este bem, tendo em vista a amplitude que supera as presunções primárias.
Assim, todos os seres humanos têm direito ao melhor estado de saúde, independente de raça, religião, opinião política, condição econômica ou social. Temos, portanto, segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde o entendimento de que saúde é o “[...] estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consistindo somente da ausência de uma doença ou enfermidade [...]” (FONSECA, 2018, s.p. grifo nosso).
Assim quando se fala em saúde no trabalho, pressupõe-se um ambiente salubre, com mapeamento e administração sobre os fatores de risco, respeitando as condições humanas e adaptando o trabalho ao homem, em detrimento das práticas de adaptação do homem ao trabalho, reconhecendo ainda as diferenças de gênero, físicas e psíquicas, de cada indivíduo que compõe a classe trabalhadora (SOBOLL, 2018, grifo nosso).
Assim, como um mecanismo operante neste contexto, temos a Saúde, Segurança e Medicina do Trabalho, podendo ser entendido como o conjunto de medidas que visam proteger a integridade física e psíquica do trabalhador, bem como sua capacidade de trabalho. Suas vertentes estariam diretamente vinculadas à própria existência humana, conforme referencia Tavares (2018, s.p.):
[...] têm-se notícias de que Aristóteles – 384-322 a.C. – estudou as enfermidades dos trabalhadores nas minas e, principalmente, a forma de evitá-las. Hipócrates – 460- 375 a.C. – pai da Medicina, quatro séculos antes de Cristo, estudou a origem das doenças das quais eram vítimas os trabalhadores que exerciam suas atividades em minas de estanho.
Porém, o grande marco histórico em se tratando da Medicina do Trabalho, especialidade responsável pela avaliação e monitoramento da condição de saúde dos trabalhadores frente suas relações com as exposições da atividade laboral, figura registrado à Idade Moderna. Conforme colacionado, a origem
[...] se deu em 1700, na Itália, com a publicação da obra “De Morbis Artificium Diatriba”- As Doenças dos Trabalhadores, de autoria do médico Bernardino Ramazzini (1633-1714) que, por esse motivo, é considerado o “Pai da Medicina do Trabalho” (TAVARES, 2018, s.p.).
Compreende-se, portanto, que a Medicina do Trabalho visa a adaptação do trabalhador à sua função, levando em consideração as suas aptidões fisiológicas, bem como o exercício do monitoramento biológico compatível com as condições de riscos ocupacionais (ALVES JÚNIOR, 2018, grifo nosso). Concretiza-se por meio de exames médicos admissionais e periódicos e pelo desenvolvimento de programas de reabilitação e readaptação funcional.
Complementando, ensinam Freitas, Zamberlan e Ilha (2014, p. 15) sobre as causas de adoecimento, objeto da Medicina do Trabalho:
As doenças apresentam diversas causas, as quais podem ser geradas pela atividade produtiva, conhecidas como doenças específicas e, as inespecíficas, que não possuem suas causas relacionadas diretamente com o trabalho. As doenças específicas são geradas por uma única causa e estão reconhecidas pela Organização Internacional do Trabalho. As doenças inespecíficas são geradas por causas diversas, podendo apresentar alguma causa relacionada com a atividade produtiva, como gastrite, úlcera, enxaqueca, dentre outras, e na maioria das vezes está relacionada a algum fator estressante.
Dentre os Agentes de Risco do trabalho, supra referidos, temos aqueles classificados como físicos, químicos e biológicos (FREITAS; ZAMBERLAN; ILHA, 2014, grifo nosso). A título exemplificativo, os agentes físicos são calor, ruídos e radiações diversas; os químicos são o benzeno, asbesto, fumos metálicos, entre outros; os agentes biológicos são bactérias, fungos, bacilos, que podem ser causadores de doenças específicas do trabalho. Sem
monitoramento e controle a atividade produtiva pode deixar o trabalhador exposto ao risco de adoecimento ou até mesmo a morte
Salienta-se, no entanto, que existem outros agentes causadores de doenças, tais como movimentos repetitivos, ansiedade, estresse, tabagismo, alcoolismo, habitação inadequada e assim por diante. Cabe à empresa adotar medidas, desenvolver programas, promover campanhas e conscientizar os trabalhadores para um agir preventivo, de forma responsável e humana, complementarmente amparada pelo sistema de proteção social de ordem estatal, conforme resguardo e imposição legal.
Sobre este agir preventivo, compreende-se que são estabelecidos requisitos mínimos a serem seguidos, conforme se segue:
Para evitar a ocorrência de doenças, a melhor maneira é a prevenção, sendo criadas leis que obrigam as empresas a dedicarem maior atenção à saúde de seus empregados, realizando os exames médicos (periódicos, admissionais, demissionais, de retorno ao trabalho e de mudança de função), ou cumprindo o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional, que visa a dar melhores condições de trabalho aos empregados, monitorando os problemas de saúde detectados; identificando os locais de risco e adotando medidas para evitar a doença, além, de realizar a educação sanitária, e outras medidas necessárias ao contexto de trabalho (FREITAS; ZAMBERLAN; ILHA, 2014, p. 16).
Em nosso ordenamento jurídico, a proteção normativa que visa a efetivação dos direitos no que refere à Saúde e Segurança do Trabalho, ampara-se numa relação tripartite de responsabilidades, entre poder público, empregador e empregado, incumbindo-os de algumas atribuições distintas, específicas de cada parte, bem como de outras em caráter de solidariedade, configurando assim, ao mesmo tempo, um direito e um dever compartilhados.
Ampliando-se a definição conceitual, compreende-se que a Segurança do Trabalho é o conjunto de medidas tomadas com o objetivo de prevenir acidentes, atuando de forma estratégica na atenuação, mitigação ou eliminação das condições inseguras do ambiente de trabalho, conscientizando trabalhadores e empregadores para adoção de condutas preventivas, no alcance de suas atribuições e responsabilidades(ALVES JÚNIOR, 2018, grifo nosso).
Sobre as práticas elementares à prevenção, partem do princípio do reconhecimento dos agentes risco. “O primeiro passo para o combate aos acidentes de trabalho é, naturalmente, a identificação dos fatores que proporcionam a sua ocorrência. Tais fatores
podem estar mais diretamente relacionados aos trabalhadores ou ao ambiente de trabalho” (ALVES JÚNIOR, 2018, s.p., grifo nosso). Consistem, portanto no levantamento dos Fatores
Pessoais de Insegurança; dos Comportamentos Inseguros; e das Condições Inseguras
existentes(ALVES JÚNIOR, 2018, grifo nosso).
Exemplificando, representam “fator pessoal de insegurança”, as características pessoais, problemas relacionados à personalidade, à motivação, aptidões sensoriais e motoras debilitadas, falta de experiência, imperícia, comportamentos disfuncionais, como desatenção, esquecimento, dentre outros (ALVES JÚNIOR, 2018). Em resumo, integra este rol, aquilo que prejudica perfeita interação do trabalhador com sua atividade.
Já o “comportamento inseguro”, pode ser representado basicamente pelas condutas desidiosas, imprudentes, negligentes às medidas de segurança instituídas pelo empregador, sendo atribuído portanto às ações ou omissões do empregado. Sobre este, que figurou por longo período nominado como “ato inseguro”, vale frisar que restou desabilitado por meio da Portaria n° 84/09, que removeu o termo da alínea "b" do item 1.7 da NR1, tendo em vista sua única e inconsistente atribuição como agente causador dos acidentes ou doenças ocupacionais (ALVES JÚNIOR, 2018).
Por último, mas com expressividade ainda maior no contexto dos fatores de risco, advém a “condição insegura”, que constitui-se na estrutura física do estabelecimento, compreendendo assim as máquinas, os equipamentos, bem como a própria organização do trabalho. Exemplos clássicos desse tipo de agente são os equipamentos mal projetados, altamente depreciados; o arranjo físico inadequado, com leiaute layout mal definido e sem sinalização de segurança; instalações elétricas precárias; dentre outros.
Vale ressaltar que todas as causas de acidente, devidamente apuradas, podem demandar a responsabilização do(s) agente(s), sendo esta a compreensão se visitados os institutos legais pertinentes. Para os atos inseguros cometidos pelo empregado, conta o empregador com as medidas disciplinares cabíveis, assim como o poder de admitir e demitir, inclusive por justa causa se configurados os requisitos. Em contrapartida, nos eventuais desmandos por parte da empresa, fica suscetível a ação dos agentes fiscais, mediante notificações, autuações, interdições, dentre outros.
Assim, o desinteresse com os aspectos que envolvem a saúde e segurança por parte de quem assume o risco da atividade econômica, representa um passivo de ordem cível, trabalhista, previdenciária e até mesmo criminal, ficando sujeito à responsabilização e ao desembolso de valores indenizatórios, bem como o reembolso aos entes estatais, que por meio de ação regressiva podem requerer os valores subsidiados em amparo ao trabalhador, conforme evidenciado em Filgueiras (2017, p. 240):
Ainda que focado na perspectiva reparatória, quando demandado por meio de ações indenizatórias individuais, a forma como se desenvolve essa atuação regulatória do Judiciário, seja com relação ao reconhecimento do dever de indenizar, seja com relação ao valor fixado para as condenações, tem o potencial de figurar como estímulo positivo ou negativo a que as empresas revejam, em suas dinâmicas produtivas, as causas do adoecimento. Assim, as decisões judiciais também contribuem, em grande medida, para que a supressão de fatores de risco nos ambientes de trabalho torne-se ou não conveniente às empresas.
Por fim destacam-se nas abordagens deste capítulo, contextos como os que envolvem a vida do trabalhador e a sua relação histórica com o trabalho, implicando diretamente em sua interação social. Conceituados e nominados ainda fatores como as Condições de Trabalho; o Meio Ambiente do Trabalho; a Saúde, Segurança e Medicina do Trabalho, introduzindo a temática que envolve os Fatores Psicossociais do Trabalho, objeto de aprofundamento no capítulo a seguir.
2 OS FATORES PSICOSSOCIAIS DO TRABALHO
Embora constatadas e referenciadas circunstâncias diversas, todas com poder de influência sobre a condição de saúde mental das pessoas, a citar a própria formação estrutural da personalidade psíquica, qual detém caráter único, individualizado, associada dentre outros, a fatores genéticos, bem como à influências do meio e condição de desenvolvimento, ainda assim, impossível desvincular o adoecimento dos trabalhadores de algumas práticas corriqueiras ou, eventualmente encontradas nos ambientes e ou nas relações de trabalho.
Entretanto, de outra perspectiva, frente às variantes que muitas vezes impossibilitam atribuição de causa, há de se convir que fatores como o desemprego, ausência de uma relação de trabalho, que como visto, detém caráter elementar para o homem, capaz de promover a sua subsistência e interação social, podem levar a consequências de mesmo porte ou ainda maiores do que aquelas resultantes dos eventuais infortúnios oriundos da atividade laborativa inadequada.
Assim sendo, para os órgãos dotados de prerrogativa ou sujeição à análise destes casos, como o judiciário ou mesmo o órgão pericial previdenciário, o vislumbrar de um nexo de causalidade entre fato gerador e o resultado doença, torna-se tarefa árdua, cercada de subjetividades e incertezas. Através de seus vereditos é que muitas vezes se expressam os sistemas prevencionistas, protecionistas, compensatórios, implicando em sérias consequências jurídicas, como a configuração da infortunística, por exemplo.
Neste contexto, diante da amplitude, complexidade e instabilidade, origina conclusões individualizadas ou, grupos de opiniões que orientam o afastamento do Direito do Trabalho deste tipo de caso, não os compreendendo como propriedade de conhecimento da disciplina e, portanto, classificando-o como incapaz de construir teses doutrinárias, ensinamentos pertinentes, oportunos ao debate, evidenciado na leitura de Vidal (2019, p. 153):
A polêmica emerge quando o alegado sofrimento se diz relacionado aos chamados riscos psicossociais e outros de tipos abertos, como “condições gerais de trabalho”, “problemas relacionados com o emprego e o desemprego”, “desacordo com o patrão e colegas”, “ritmo de trabalho”, “divisão de tarefas” e toda uma gama de questões subjetivas e objetivas envolvendo a convivência diária das pessoas no ambiente de trabalho, sendo essas as causas mais presentes que vêm determinando o aumento do
número de pedidos de indenizações por dano moral e material em reclamações trabalhistas, ficando o desenlace dos pedidos, em grande parte, dependente das conclusões da perícia médica.
Contudo, sem ingressar no mérito da responsabilidade, mas compreendendo que a dinâmica organizacional do trabalho pode ter influências negativas diretas, a percepção advém do fato que, não aleatoriamente desenvolvem-se atividades desgastantes, intensas, com alta exigência de concentração, pautadas por pressão constante, necessidade de desempenho e resultados, onde a competitividade pode levar a um esgotamento na busca por oportunidades de crescimento. Por fim, manifesta-se ainda gritante desequilíbrio entre esforço desprendido e recompensa recebida.
2.1 O direito ao trabalho digno e à saúde mental
Primeiramente, reconhecido o problema de ordem global, mostra-se indispensável o estudo dos aspectos garantistas de proteção do trabalhador, com a finalidade de resguardar o equilíbrio das referidas relações, a ponto de preservar a condição de saúde humana, respeitando para isso, inclusive as particularidades, os limites, a originalidade inerente. Indispensável, portanto o estudo do Direito ao Trabalho Digno e do Direito à Saúde, da ótica conceitual à regulamentação vigente.
Sobre esta regulamentação, no topo do ordenamento jurídico temos a Constituição Federal de 1988 (CF/88), a qual já preceitua o Direito à Saúde e ao Trabalho Digno em todos os seus gêneros, em patamar de igualdade com outros pilares, como a educação, a assistência e o acesso à justiça, apontando assim para o rumo que a legislação infraconstitucional deverá tomar.
Essa perspectiva pode-se visualizar em Marques (2015, s.p.), com o artigo “O direito à saúde mental e sua eficácia na relação empregatícia”:
É harmônico entre os doutrinadores que o princípio guia do ordenamento jurídico brasileiro, a dignidade da pessoa humana, tem um centro mínimo de realização composto por quatro elementos matérias que, em particular, seriam: a saúde, a educação fundamental, a assistência e o acesso à justiça. Isso desponta que a ordem social consagrada pela Constituição de 1988, ao fundamentar-se sobre o princípio da dignidade da pessoa humana, impõe a proteção a um núcleo mínimo ético intransponível, ou um mínimo existencial, no qual se insere a saúde, sendo a mesma direito pessoal exigível perante o Poder Judiciário.
Desta forma a CF/88 inscreve o direito à saúde e ao trabalho, ambos objetos de estudo, no rol dos direitos e garantias fundamentais, Capítulo II, “Dos Direitos Sociais”, artigo 6°. Ainda em seu artigo 196, no título VIII, “Da Ordem Social”,
[...] estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988, s.p., grifo nosso).
Nesta linha encontra-se o caput do artigo 6° da CF/88:
Artigo 6º CF/88. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a
proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição (BRASIL, 1988, s.p., grifo nosso).
Já sobre o aspecto do trabalho digno, possível evidenciar logo em seu primeiro artigo, inciso IV, a elevação dos “valores sociais do trabalho e da livre iniciativa” ao rol dos princípios fundamentais, juntamente com a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana e; o pluralismo político. Posteriormente, em seu artigo 7°, estabelece o sistema de proteção do trabalhador, explicitando os direitos e consequentemente os deveres do empregador e do Estado em prol de quem exerce a força laboral, reconhecidos os fins sociais intrínsecos:
Artigo 7º CF/88. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social: [...]
XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;
[...]
XXVIII - seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;
[...]
(BRASIL, 1988, s.p., grifo nosso).
Assim compreende-se que o direito à saúde é social e fundamental, onde todos são titulares, incluindo neste rol também os trabalhadores, ratificação interpretativa extraída do artigo 196, em conjunto com outros da Constituição Federal. “Essa conclusão é reafirmada pelo art. 7°, XXII da Constituição Federal, que assegura a todos os trabalhadores urbanos e rurais o direito a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança” (MARQUES, 2015, s.p.).
No mesmo sentido, em seu título VIII, no artigo 193, determina que a “Ordem Social” “[...] tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais” (BRASIL, 1988, s.p.). Identifica-se aí a reafirmação de valores apreciados no item 1.1, quando abordada à importância do trabalho para o homem, à medida que relaciona diretamente o primado do trabalho à justiça social e ao bem-estar.
Prosseguindo com os comandos normativos constitucionais que elevam a proteção à saúde ao rol dos direitos fundamentais, observa-se que os dispositivos persistem em consonância, pois “[...] o art. 197 dispõe que a saúde é serviço de relevância pública, e o artigo 198, inciso II, dispõe que as ações e serviços públicos de saúde devem ter atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais” (MARQUES, 2015, s.p.).
Ainda, tendo o Brasil constituído o Sistema Único de Saúde (SUS), qual possui regulamentação dada pelo artigo 198 da CF/88, é possível destacar, que dentre as atribuições expressas em seu artigo 200, encontra-se a de “[...] executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador, e colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho” (MARQUES, 2015, s.p.). Observa-se, portanto a interação entre saúde e trabalho desde a ordem máxima em termos de proteção jurídica.
Explícito o interesse do país, qual ganha expressão por meio do legislador constituinte, em promover os aspectos que englobam o direito a saúde de sua população, aqui abordados aqueles específicos ou, que de forma abrangente, alcançam os trabalhadores de todos os segmentos de atuação. Também saliente a incorporação da saúde mental em suas regulamentações, reconhecendo sua posição e até mesmo, implicitamente, o déficit de ações e medidas, frente a importância que detém.
Harmonicamente persiste a leitura de Marques (2015, s.p.):
Por exemplo, o Brasil aprovou em 1990, a Convenção n.161 da OIT sobre segurança e saúde dos trabalhadores. Posteriormente em 1992 o Estado brasileiro ratificou a Convenção n. 155 da OIT, onde ao estabelecer normas e princípios a respeito da segurança e saúde dos trabalhadores e o meio ambiente de trabalho, destacou a importância do elemento mental para o alcance da perfeita saúde do trabalhador, tal destaque decorreu do aumento da incidência de enfermidades relacionadas à mente dos empregados.
Também em consonância com o digno desenvolvimento humano, compreendido o trabalho como um dos principais, se não o principal pilar para tal obtenção, aspiramos que a sua humanização deve ser elevada ao topo, sendo o Estado agente promotor, garantidor, regulador e fiscalizador:
A Constituição Federal de 1988, conhecida como constituição cidadã, inaugura uma fase de fundamental evolução do ordenamento jurídico brasileiro, fundado na valorização da pessoa humana. A intervenção estatal traz inúmeras garantias ao cidadão e assegura-lhe direitos imprescindíveis à manutenção e aprimoramento de sua condição, principalmente, no que se refere à inclusão social. Nesse processo de crescimento democrático, os direitos trabalhistas e previdenciários consistem em verdadeiros instrumentos inclusivos que, através da formalização da relação de emprego, tornam o indivíduo verdadeiro cidadão, potencializando-o em face do mercado (TEIXEIRA, 2019, s.p.).
Estreitando, portanto ao objeto de análise, ou seja, o contexto da saúde mental, conclui-se que embora não haja regulamentação exclusiva para cada elemento que integra o amplo conceito de saúde, temos que o direito à saúde mental encontra-se implícito em todas as abordagens do legislador, quanto mais frente ao poder de impactar na condição de bem estar das pessoas, bem como na própria força de trabalho. Portanto, as medidas preventivas impostas, sem dúvida o abrangem:
O direito à saúde mental do trabalhador surge como espécie do gênero direito à saúde, e como tal, constitui direito fundamental social que com outros direitos fundamentais compõem o núcleo mínimo da dignidade humana, e cuja efetivação está vinculada à realização de uma prestação estatal (MARQUES, 2015, s.p.).
Destacando a importância dos tratados; convenções; declarações; recomendações; dentre outros, os quais constituem o Sistema Internacional de Proteção Social, importante ressaltar que mesmo os mecanismos internos amparam-se em três grandes eixos, ou seja, um de ordem global, outro de ordem regional e, por fim o de ordem nacional, todos em congruência, atuando de forma progressiva, sob “[...] o Princípio da Vedação do Retrocesso Jurídico e Social no Direito do Trabalho [...]” (TEIXEIRA, 2019, s.p.).
Assimila-se o referido entendimento na conceituação deste primeiro eixo:
O primeiro eixo de proteção é formado pelos direitos previstos na ordem internacional, “que refletem um patamar civilizatório universal de direitos compartilhados pelos estados.” Regras que preveem proteção ao trabalho podem ser identificadas na quase totalidade dos diplomas internacionais de Direitos Humanos. A título de exemplo, compõem este eixo a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948; o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966. Também
necessário destacar que as Convenções da OIT exercem fundamental papel dentro deste eixo universal. Especialmente no Brasil, quando ratificadas pelo nosso país, conforme previsão da Constituição Federal Brasileira, tais Convenções assumem fundamental papel de fonte formal do Direito (TEIXEIRA, 2019, s.p.).
Portanto não se tratam de regulamentações e garantias exclusivas de nosso ordenamento jurídico, à medida que, nitidamente se subtrai o anseio de ordem global sobre aquilo que tange os direitos humanos, sofrendo então a legislação nacional influências externas, onde tornar-se signatário muitas vezes, implica em requisito mínimo de admissibilidade nas relações comerciais que, no capitalismo atual, prescindem do transcender de fronteiras. O fortalecimento desta influência garantista detém o condão de exercer forças contra a avidez lucrativa do capital.
É o que se extrai ao interpretar a vasta gama de diretrizes de ordem internacional, em sua grande maioria ratificadas pelo Brasil, restando mesmo em caso contrário, a obrigação de respeitar e agir em conformidade com estes princípios fundamentais, mediante condição de dignidade humana envolvida:
A garantia do trabalho digno tende a atenuar a desigualdade entre os seres que pactuam a relação de emprego, sendo, pois, uma das formas mais eficazes de potencializar o trabalhador dentro da sociedade capitalista. O trabalho humano realizado e reconhecido em atenção aos direitos fundamentais tem o condão de fomentar a democracia e desencadear “um círculo virtuoso que tende a alimentar o processo de construção da cidadania baseada em direitos sociais e na desmercantilização da força de trabalho.” Através do trabalho digno “o homem encontra sentido para a vida” e torna sua relação com o empregador menos dependente. Assim, promove considerável manumissão em relação às chagas da exclusão social (TEIXEIRA, 2019, s.p.).
Estes mecanismos de proteção do trabalhador, respeitadas as devidas circunstâncias e dadas às devidas proporções dos modelos, regimes das relações e, dos sistemas administrativo-políticos de cada época, sempre se expressaram transcendendo fronteiras, nos atos de pioneirismo, gerando influência para os demais, conceituando e estabelecendo princípios norteadores salutares às relações de trabalho.
Integra portanto o rol dos mais expressivos, o Tratado de Versalhes (1919), já que em sua parte XIII, constitui juridicamente a OIT – Organização Internacional do Trabalho, disposição textual posteriormente complementada em outros acordos e eventos marcantes. Para o Direito do Trabalho trata-se de um grande marco de conquista no que refere ao humanismo das relações aqui examinadas (NASCIMENTO A.; NASCIMENTO S., 2014).
Sobrelevando a participação do Direito do Trabalho, destaca-se o seu momento histórico de surgimento a nível nacional, sua importância na concretização das diretrizes legais garantistas estabelecidas, possibilitadas por suas construções interpretativas e doutrinárias, atuando na defesa, no esclarecimento e na disseminação do que se compreende como uma relação justa e salutar nos vínculos de trabalho:
O garantismo, em nosso país, nasceu com o direito do trabalho como exigência social da proteção dos operários de fábrica, solidificou -se com a evidência da necessidade de reconhecer cidadania ao trabalhador, ganhou moldura jurídica de grande destaque com a Consolidação das Leis do Trabalho (1943), encontrou suporte no princípio protetor do direito do trabalho e encontrou na Justiça do Trabalho o epicentro da sua aplicação. E é natural que assim tivesse ocorrido. O trabalhador e o trabalho entram juntos nos portões das fábricas e nas portarias dos prédios de escritórios. Se este não é protegido aquele pode ser precarizado (NASCIMENTO A.; NASCIMENTO S., 2014, grifo nosso).
Complementando, temos que sua emersão também se vincula à Revolução Industrial, quando então se posicionou como instrumento garantidor e mobilizador de iniciativas em prol dos trabalhadores. Por meio de seus estudos e influencias sobre a ordem normativa positivada, conquistada de forma árdua ao longo da história, figura como moderador, a ponderar o interesse das partes.
Nesta banda lecionam Nascimento A. e Nascimento S. (2014, s.p.):
O direito do trabalho surgiu como consequência da questão social que foi precedida pela Revolução Industrial do século XVIII e da reação humanista que se propôs a garantir ou preservar a dignidade do ser humano ocupado no trabalho das indústrias, que, com o desenvolvimento da ciência, deram nova fisionomia ao processo de produção de bens na Europa e em outros continentes. A necessidade de dotar a ordem jurídica de uma disciplina para reger as relações individuais e coletivas de trabalho cresceu no envolvimento das “coisas novas” e das “ideias novas” [...]
Como efeito continuado deste processo do capital, que muda de forma, mas que se fundamenta em estrutura de mesma principiologia temos referências da intervenção recente feita pela Organização Internacional do Trabalho junto à OMC – Organização Mundial do Comércio. “A OIT defende as suas Convenções como mínimos éticos de proteção da dignidade do trabalhador diante da sua absorção pelo processo econômico” (NASCIMENTO A.; NASCIMENTO S., 2014, s.p.).