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Ilha do Cardoso : contribuições para compartimentação do relevo

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Instituto de Geociências

PEDRO MICHELUTTI CHELIZ

ILHA DO CARDOSO – CONTRIBUIÇÕES PARA COMPARTIMENTAÇÃO DO RELEVO

CAMPINAS 2015

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NÚMERO: 288/2015

PEDRO MICHELUTTI CHELIZ

“ILHA DO CARDOSO – CONTRIBUIÇÕES PARA COMPARTIMENTAÇÃO DO RELEVO”

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA AO INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DA UNICAMP PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM GEOGRAFIA NA ÁREA DE ANÁLISE AMBIENTAL E DINÂMICA TERRITORIAL

ORIENTADOR: PRFA DRA REGINA CELIA DE OLIVEIRA

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE A VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO PEDRO MICHELUTTI CHELIZ E ORIENTADO PELA PROFA DRA REGINA CELIA DE OLIVEIRA

CAMPINAS 2015

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“...e, apesar de tudo, a vida encontra um

caminho...”

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Dedicado aos moradores da Comunidade do Pereirinha-

Itacuruça, seus familiares e amigos (da Ilha e fora dela), sem o

apoio e o acolhimento dos quais não teria sido realizado este

trabalho.

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AGRADECIMENTOS

Para a professora Regina Célia de Oliveira, pelo apoio e orientação. Aos professores Francisco Ladeira, Pedro Gonçalvez, Cenira Cunha, à CAPES e ao Instituto Florestal pelas contribuições a elaboração deste material.

Aos familiares, colegas e funcionários da Universidade e do Parque Estadual do Cardoso que apoiaram este trabalho.

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ILHA DO CARDOSO – CONTRIBUIÇÕES PARA COMPARTIMENTAÇÃO DO RELEVO. RESUMO

Dissertação de Mestrado

Temáticas referentes a morfogênese costeira ganham crescente evidência, incluindo debate sobre processos atuais de formação do relevo litorâneo mostrarem-se discrepantes ou compatíveis com magnitudes e intensidades das oscilações morfodinâmicas do tempo histórico. A Ilha do Cardoso, situada no Complexo Lagunar Cananéia-Iguapé do litoral sul de São Paulo, insere-se neste quadro. Ponderação sobre sua inserção nos paradigmas propostos para morfogênese litorânea realça-se por Ilha apresentar padrões geomórficos de exceção no setor costeiro que situa-se. Pauta-se como ilha continental com predomínio de escarpas rochosas localizada em segmento de recuo pronunciado dos alinhamentos serranos litorâneos. Intenso histórico de mudanças nos seus processos morfodinâmicos – com destaque para oscilações de magnitudes e intensidades na alternância entre períodos de retrogradação e de progradação de amplos setores de seu litoral – contribui para realçar Ilha dentro da temática relatada. Recente retomada dos processos de recuos aparentes da linha de costa também contribuem para realçar interesse da Ilha do ponto de vista deste segmento de estudos da geomorfologia costeira. O presente trabalho buscou realizar diante deste contexto estudo geomorfológico da Ilha do Cardoso, dialogando com a proposta tríade de Ab’SAber (1969). Foco do trabalho se deu no nível de tratamento da compartimentação da paisagem e de elementos da estrutura superficial e fisiologia da paisagem como subsídios para discussão da dinâmica geomorfogenética da Ilha do Cardoso. Procurou-se usar dados levantados para problematizar inserção da Ilha nos modelos morfogenéticos propostos para o Complexo Lagunar Cananéia-Iguapé e ponderar se processos atuais de retrogradação predominantes apresentam-se discordantes ou condizentes em relação aos registrados no tempo histórico. Para subsidiar a pesquisa foram confeccionadas cartas morfométricas, litológicas e de coberturas vegetais articulando mapeamentos em campo e processamento de imagens aéreas; coletadas amostras de rochas, solos e sedimentos para análises petrográficas, químicas e granulométricas; identificados e descritas feições geomórficas de detalhe, perfis pedológicos e sedimentares, confeccionados atributos praiais de sua linha de costa e realizado monitoramento das oscilações da dinâmica das marés. Sumariamente foi realizado mapa sintético de compartimentação do relevo em escala 1:50.000, inicialmente para o ano de 2013 e – usando de análise de imagens aéreas a partir da extrapolação dos padrões texturais associados nas imagens aéreas atuais – para os anos de 1962, 1972 e 2002. Ilha foi delimitada em dois grandes compartimentos de relevo, Serranias e Planícies Diversificadas - pautadas por específicas sobreposições de atributos morfométricos, litológicos e diferentes conjuntos referentes a estrutura superficial e fisiologia da paisagem. Compartimentos foram desmembrados em diversos subcompartimentos próprios. A subdivisão foi pautada por considerar não somente dados morfométricos e litológicos mas também condições morfodinâmicas predominantes no fluxo de matéria. Ponderou-se graus distintos de compatibilidade dos dados advindos da compartimentação morfológica da Ilha com os modelos geomorfogenéticos tradicionais, e verificou-se que magnitude dos processos em curso encontra procedentes em oscilações morfogenéticas históricas pretéritas. Intensidade dos processos atuais, porém, não pode pelos procedimentos usados ser adequadamente ponderada em relação ao registro histórico, suscitando maiores reflexões e aprofundamentos na busca de interface entre conhecimento de processos pretéritos em diferentes profundidades de tempo e os atualmente predominantes.

Palavras- chave: Geomorfologia Costeira, Mapeamento Geomorfológico, Morfodinâmica, Geomorfologia - Ilha do Cardoso (SP).

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ILHA DO CARDOSO – CONTRIBUTIONS TO GEOMORPHOLOGICAL MAPPING. ABSTRACT

Masters Degree

Issues relateds to coastal morphogenesis have been showing growing importance, including elements about current processes of formation of the coastal relief show up discrepancies or compatibles with magnitudes and intensities of the morphodynamic variations of historical time. The Ilha do Cardoso (Cardoso´s Island), located in the Lagoon Complex of Cananéia- Iguape on southern coast of Brazil, is part of this framework. Consideration of its inclusion in the proposed paradigms for coastal morphogenesis is enhanced by the island present geomorphic patterns of exception on the coastal sector where is located. Show up like as a continental island with a predominance of rocky hills located on segment of pronounced retreat of coastal scarps alignments. Historical intense change in its morphodynamic processes - especially fluctuations in magnitudes and intensities involving alternating periods of retrogradation and progradation of sectors of its coastline - and the recent resumption of apparent setbacks processes shoreline also contribute to enhance interest of Ilha do Cardoso for the coastal geomorphology. Behond this context, this work attempts to make a geomorphologic study of Ilha do Cardoso using dialogue with the triad of Ab'Sáber´s (1969) proposal . Focus took place at the subdivision level of treatment of the relief and elements of the surface structure and landscape physiology as subsidies for discussion of the morfodynamic of Ilha do Cardoso. Research tried to use data gathered to discuss inclusion of the island in the proposed morphogenetic models for the Lagoon Complex Cananéia-Iguape and consider whether prevailing current erosive processes are presented conflicting or consistent compared to that recorded in historical time. To support research were made morphometric, lithological and vegetation cover´s maps articulating field work and aerial imagery processing; collected rocks, soils and sediments samples for petrographic, chemical and grain size analysis; indentified geomorphic features of details, made soil and sediment profiles, realized beach profiles and conducted monitoring of the dynamic oscillations of the tides. Summarily was carried out mapping of partitioning of relief, initially for the year of 2013 and - using aerial images analysis from the extrapolation of textural patterns associated in the 2013 aerial imagery - for the years 1962, 1972 and 2002. Island was bordered on two large relief units, Scarps and Diversified Plains - guided by specific overlapping morphometric attributes, lithological and different sets relating to surface structure and landscape physiology. Those two units were broken in diverse subunits. Subdivision was guided by considering not only morphometric and lithological data but also prevalent morphodynamic conditions. Collected data were integrated and problematized, discussing degrees of the island inclusion of compatibility in major morphogenetic models proposed for Lagoon Complex and the Southeast Coast of Brazil. Summarized information was also used to weigh comparatively distribution of changes in historical time of compartments and sub-compartments of relief and morphodynamic conditions attaching to them. It was found that the apparent actual process of its coastline mostly show up framed proximal historical precedent in terms of the maximum magnitudes module achieved associated. Methods used do not allow, however, discuss about the intensity of the ongoing processes being supported by past historic oscilations. Reinforced is the need for review of methodological and procedures used for achieve more accurate interface between ratios of current and past morphogenetic processes

Key – Words: Coastal Geomorphology, Relief maping, Morphodynamic,

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Localização da Área de Estudo... pg 39 Figura 2 – Esquema Cartográfico do Complexo Lagunar...pg 47 Figura 3 – Composição de foto de rochas Graníticas Diversificadas...pg 65 Figura 4 - Composição de fotos de Rochas Graníticas Miscigenadas...pg 68 Figura 5 – Composição de microfotografias de rochas em lâminas delgadas...pg 69 Figura 6 – Composição de imagens com perfis ilustrando transições morfométricos da Ilha...pg 78 Figura 7 – Composição ilustrando perfis ilustrando variações das vertentes serranas....pg 98 Figura 8 – Composição ilustrando traços dos canais e coberturas de blocos das baixas

vertentes serranas...pg 115 Figura 9 – Composição de fotos ilustrando estrutura superficial das Médias Vertentes.pg117 Figura 10 – Composição com fotos de Costões da Ilha...pg121 Figura 11 – Perfis associados a Planícies Diversificadas...pg 134 Figura 12 – Composição com Imagens Aéreas, Nordeste da Ilha... pg 146 Figura 13 – Imagem Aérea, praia do Cambriu... pg 151 Figura 14 – Composições ilustrando feições biogênicas praiais...pg 167 Figura 15 - Composição de Imagens Aereas do Cordão de Ararapira...pg 189 Figura 16 - Composição ilustrando alterações geomorfogenéticas em estrito do Cordão de Ararapira...pg 192 Figura 17 - Segmento de Planícies do Nordeste da Ilha, Pereirinha e Itacuruça, imagens de 2009 e 2013...pg 194 Figura 18 - Segmento de Planícies do Nordeste da Ilha, Itacuruça, imagens de 2009 e

2013...pg 196 Figura 19 - Composições ilustrando processos erosivos da Enseada da Baleia...pg 200

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LISTA DE FOTOS

Foto 1 – Fachada da Ilha, vista de segmento norte... pg 41 Foto 2 – Fachada da Ilha, vista de segmento sul... pg 41 Foto 3 – Tomada de Serranias a partir do Canal de Ararapira... pg 87 Foto 4 - Tomada das Serranias a partir da Praia de Itacuruça... pg 87 Foto 5 – Costão do Cambriu... pg 90 Foto 6 – Costões do Segmento Sul da Ilha... pg 90 Foto 7 – Vertentes Serranas e Interflúvios vistos do segmento norte... pg 94 Foto 8 – Vertentes Serranas e Interflúvios vistos do Marujá... pg 94 Foto 9 – Terraços do costão do Cambriu...pg 109 Foto 10 – Nível Erosivo do Costão de Itacuruça...pg 109 Foto 11 – Planícies Diversificadas do Cambriu... pg 126 Foto 12 – Planícies Diversificadas do Perequê... pg 126 Foto 13 - Praia de Ipanema... pg 128 Foto 14 – Praia de Foles... pg 128 Foto 15 – Cordão do Ararapira, visto do segmento lagunar... pg 130 Foto 16 – Cordão do Ararapira, visto segmento oceânico... pg 130 Foto 17 – Planícies Litorâneas, segmento nuclear... pg 138 Foto 18 – Planícies Litorâneas, sob ataque erosivo marítimo... pg 138 Foto 19 – Planícies Costeiras, em área nuclear... pg 141 Foto 20 – Planícies Costeiras, sob ataque erosivo marinho... pg141 Foto 21 – Planícies Alagáveis, visão geral... pg 144 Foto 22 – Planícies Alagáveis, detalhes de aspectos vegetacionais... pg 144 Foto 23 – Instalação de Cerco de Pesca no segmento norte, em segmento de atenuação

hidrodinâmica marinha...pg 149 Foto 24 – Detalhe do Cerca de Pesca...pg 149 Foto 25 – Instalações da Enseada da Baleia, em Planícies Diversificadas...pg 156 Foto 26 – Instalações do Pontal, em Planícies Diversificadas...pg 156 Foto 27 – Praias ilíadas (Praia do Marujá), segmento sul...pg 165 Foto 28 – Praias ilíadas (Praia do Pereirinha), segmento norte...pg165

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Dados Pluviométricos (Itacuruça)... pg 57 Tabela 2 - Porcentual da Área Total da Ilha por Intervalos de Cotas Altimétricas...pg79 Tabela 3 - Porcentual da Área Total da Ilha por Intervalos de Inclinação Média...pg80 Tabela 4 - Características Sumárias da Cobertura de Blocos das Médias Vertentes do Canal do Poço dos Antas, afluente do Rio Perequê... pg 112 Tabela 5 - Características Sumárias da Cobertura de Blocos das Médias Vertentes do Rio Perequê...pg 113 Tabela 6 - Atributos de Segmentos de Serranias Expostos a Ação das Águas

Circundantes...pg 119 Tabela 7 - Características Diagnósticas de Regimes Morfodinâmicos Associados a

Manguezais... pg 147 Tabela 8 – Granulometria de Praias Ilíadas... pg 159 Tabela 9 – Granulometria de Planícies Costeiras... pg 160 Tabela 10 – Granulometria de Planícies Litorâneas... pg 160 Tabela 11 – Granulometria de Planícies Alagáveis... pg 161 Tabela 12 – Atributos Sumários de Perfis Praias Confeccionados... pg 162 Tabela 13 – Parâmetros Apreendidos por Medições Periódicas de Perfis Praias do

Pereirinha... pg 164 Tabela 14 – Distribuição de Subcompartimentos de Relevo (1962)... pg 181 Tabela 15 – Distribuição de Subcompartimentos de Relevo (1972)... pg184 Tabela 16 - Distribuição de Subcompartimentos de Relevo (2002)... pg 186 Tabela 17 - Distribuição de Subcompartimentos de Relevo (2013)... pg 187 Tabela 17 - Largura Total de Transectos no Cordão de Ararapira...pg 188 Tabela 18 - Largura de Transectos entre Margem Lagunar do Cordão de Ararapira e de Superagui...pg 188 Tabela 19 - Largura Total - Transectos entre bordos dos terraços da Praia de Ararapira e Margens Lagunares de Superagui ...pg 188 Tabela 20 - Extensões em Planta Equivalentes ao Transecto A, próximo a Esporão na Enseada da Baleia...pg 191 Tabela 21 - Extensão em Planta de Transectos no Segmento Nordeste da Ilha do Cardoso - Peririnha e Itacuruça - para os anos de 2009 e 2013...pg 195

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Tabela 22 - Extensão em Planta de Transectos no Segmento Nordeste da Ilha do Cardoso - Itacuruça - para os anos de 2009 e 2013... pg 197

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LISTA DE MAPAS

Mapa 1 – Associações Vegetais da Ilha do Cardoso... pg 58 Mapa 2 – Carta Litológica da Ilha do Cardoso... pg 63 Mapa 3 – Carta Hipsométrica da Ilha do Cardoso... pg 75 Mapa 4 – Carta Clinográfica da Ilha do Cardoso... pg 76 Mapa 5 – Carta de Compartimentação do Relevo da Ilha do Cardoso... pg 84 Mapa 6 – Distribuição de Compartimentos de Relevo (1962)... pg 180 Mapa 7 - Distribuição de Compartimentos de Relevo (1972)... pg 183 Mapa 8 - Distribuição de Compartimentos de Relevo (2002)... pg 185

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ÍNDICE

CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO...pg16

1.1 Aspectos iniciais...pg17

CAPÍTULO II - REFERÊNCIAIS TEÓRICOS E PROCEDIMENTOS DE TRA- BALHO...pg21

2.1 Aspectos Gerais dos Procedimentos de Trabalho ... ...pg22 2.2 Compartimentação da Paisagem...pg28 2.3 Estrutura Superficial e Fisiologia da Paisagem...pg35

CAPÍTULO III – O COMPLEXO LAGUNAR CANANÉIA-IGUAPÉ E A ILHA DO CARDOSO...pg37

3.1 Apresentação Geral da Ilha...pg38 3.2 Revisão de Pesquisas Prévias das Bases Físicas do Complexo Lagunar. . ...pg43 3.3 Caracterização Climatológica e Vegetacional...pg54 3.4 Caracterização Litológica e de Coberturas Regolíticas Associadas………...pg61 3.5 Atributos Baltimétricos e Morfométricos Essenciais...….………..…pg73

CAPÍTULO IV- COMPARTIMENTOS DE RELEVO E ASPECTOS DA GEO- MORFOGÊNESE...pg82

4.1 Bases Gerais da Compartimentação do Relevo...pg83 4.2.1 Serranias...………...pg85 4.2.2 Planícies Diversificadas...………...pg122 4.2.3 Inserção no Contexto Geomorfogenético do Complexo Lagunar e Litoral Sudeste...….………….pg168 4.4.3 Oscilações no Tempo Histórico da Distribuição dos Compartimentos de Relevo e

Condições Morfodinâmicas Associadas...……..pg179

CAPÍTULO V- CONSIDERAÇÕES FINAIS...………..pg203

aaaaaREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...………...pg207

aaaaaAPENDICES...pg217

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CAPÍTULO I -

INTRODUÇÃO

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1.1 Aspectos Iniciais

Aproximando-se do vigésimo quinto paralelo no litoral brasileiro, massivas silhuetas erguem-se defronte a linha de costa em meio aos nevoeiros noturnos que comumente dominam tais paragens. Ao raiar dos dias, conforme abrem-se frestas em meio as névoas, fachos de luzes douradas aos poucos rompem o cinza onipresente. Dispersam densas cortinas de neblinas e revelam o verde de escarpas florestadas ascendentes e majestosas, ornadas por um céu azul celeste de leves toques rosados e resguardadas por vastas planícies de restingas e manguezais. A moldura colossal do alinhamento de altos picos revela toda sua fortaleza e desmembra-se em um sem fim de cumeadas e vales, seccionados por inúmeras discretas reentrâncias, baias e estuários - tomadas como refúgios pelos pescadores que na Ilha há muito vivem, erguendo ali suas vilas e moradas.

A figura imponente da Ilha do Cardoso se faz presente já há várias léguas de distância. Seus mais de 100 quilômetros quadrados de extensões emersas realçam-se em diferentes pontos de observação. De navegantes que em pequenas embarcações singram pelas águas costeiras e lançam seus olhares ao horizonte tomado pelos contornos cerrados das serras ilíadas, a estudiosos que analisam o Litoral Sul Paulista das mais elevadas alturas do firmamento por imagens de aeronaves e satélites. A Ilha rompe aparente suavidade do relevo local alçando-se centenas de metros aos céus através de monumentais escarpas rochosas, em meio às vastas planícies rentes ao oceano e lagunas prevalecentes do Complexo Lagunar Cananéia-Iguapé (Besnard, 1950).

Firma-se como massivo anteparo que resguarda as plácidas águas lagunares da inclemente ação das forças do Oceano Atlântico. Movimentado relevo da Ilha constituiu ainda referencial para a navegação no tempo histórico - das frágeis embarcações de ancestrais homens de sambaqui as imponentes caravelas coloniais. Dos densos navios de cabotagem a vapor às criativas e ágeis canoas e barcos caiçaras. Cumpriu longamente o papel de selar o limite meridional do Litoral Sul, servindo-lhe de marco terminal natural (Ab`Saber, 2000).

Padrões geomórficos da Ilha pautam-se como discrepantes no setor da costa que situa-se. Apresenta-se como ilha continental com predomínio de escarpas rochosas em um segmento costeiro pautado por interiorização e distanciamento da linha de costa dos principais alinhamentos serranos litorâneos. Sua localização de exceção realça a Ilha diante de vários enfoques possíveis dentro da Geomorfologia Costeira, inclusive no contexto dos estudos da morfogênese litorânea. Batida há muito pelas águas do oceano profundo e da laguna

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circuvizinha, usualmente é tida como resquício de um anteriormente mais vasto contraforte litorâneo. Estima-se que violentas tempestades subtropicais, potentes vagas e ressacas marinhas, intensas correntes de vento, oscilantes regimes fluvio-marinhos, processos paleoclimáticos e mesmo longínquos terremotos derruíram amplamente o embasamento rochoso original da Ilha. Em conjunto ou alternadamente exumaram profundezas plutônicas sieníticas do edifício ígneo primordial e trouxeram a tona litologias de distintas fácies metamórficas, cujos reminiscentes formam as escarpas centrais ilíadas. Contribuíram ainda para criar espaço de acomodação suficiente para deposição de extensos depósitos sedimentares inconsolidados em planícies e cordões litorâneos que bordejam as fundações rochosas da Ilha.

O dinamismo da geomorfogênese na Ilha se manifesta também no tempo histórico, particularmente através de ativos processos de movimentos de massa nas Serranias e de sedimentação e erosão marinha nas Planícies. A intensidade destes últimos processos é tal que foi capaz de promover no espaço de décadas registro de progradações e retrogradações da linha de costa que podem atingir dezenas de metros de magnitude em planta (Tesler et al, 1990). Ao longo dos últimos anos vem se registrando novos episódios desta dinâmica em áreas que permaneceram até então sob agradação, evidenciados entre outros por ação erosiva agressiva em setores diversos das Planícies ilíadas.

Ao analisar algumas destas dinâmicas registradas no contexto da Ilha, Mialy e Agudo (2002) e Ângulo, Sousa e Muller (2007) sustentam que em certo sentido envolvem magnitudes sem precedentes referentes a oscilação das condições morfodinâmicas em relação ao registro histórico. Defendem ainda que tais processos levariam em poucos anos à mudanças radicais no traçado dos bordos da Ilha e mesmo a rupturas na continuidade das próprias Planícies Costeiras. Souza (2012) por sua vez aponta que os processos atuais podem ser compreendidos como inseridos dentro da magnitude registrada no tempo histórico para episódios pretéritos. Observações citadas feitas para segmento específico da Ilha dialogam com contexto mais amplo, a respeito dos debates se processos morfogenéticos litorâneos atuais mostram-se discrepantes ou condizentes com episódios pretéritos registrados em diferentes profundidades de tempo.

Diante deste quadro presente trabalho buscou realizar estudo geomórfológico da Ilha do Cardoso em escala 1:50.000 dialogando com a proposta tríade de Ab’Saber (1969). Acredita-se que a despeito da área total relativamente diminuto, os quadros de relevo da Ilha são suficientemente variados para justificar um estudo morfológico de semi-detalhe como o

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aqui proposto. Visou-se constituir caracterização geomórfica da Ilha objetivando fornecer contribuições para compartimentação do relevo local. Espera-se com base nos dados levantados discutir inserção dos quadros geomórficos de exceção da Ilha do Cardoso nos modelos morfogenéticos do Litoral Sul e Complexo Lagunar Cananéia-Iguapé (Besnard; 1950). Secundariamente visou-se ponderar possibilidade dos processos morfogenéticos atuais enquadrarem-se dentro da magnitude associada a processos pretéritos referentes ao tempo histórico.

Foco da dissertação se deu em interface com primeiro nível de tratamento da já mencionada concepção tríade para geomorfologia - a Compartimentação da Paisagem. Neste trabalho deu-se centralidade em fornecer contribuições para compartimentação do relevo capazes de constituir subsídios para discussão de influências morfogenéticas no modelado geomórfico em diferentes profundidades de tempo. Para tal procedimento visou-se delimitar inicialmente padrões relativamente homogêneos de atributos morfométricos e litológicos, capazes de balizar discussão de influência de processos de maior distanciamento temporais nos quadros de relevos atuais. Buscou-se num segundo momento desmembrar caracterização de tais grandes unidades descritivas em grupamentos menores, os subcompartimentos de relevo, incorporando nesta etapa também peso específico em seus critérios de delimitação os processos morfodinâmicos atualmente predominantes.

Adicionalmente intentou-se elencar, de maneira subordinada, a delimitação de elementos dos níveis de tratamento da Estrutura Superficial e Fisiologia da Paisagem. A análise da Estrutura Superficial buscou – sobretudo a partir da identificação e caracterização de atributos essenciais das coberturas sedimentares, de alteração e feições geomórficas de detalhe – entre outros aspectos fornecer elementos para discussões crono-morfológicas, de aspectos da sucessão de quadros geomorfológicos quaternários que precederam o atual. A Fisiologia da Paisagem por sua vez objetivou identificar processos pedogenéticos e morfogenéticos em franca atividade e capazes de influenciar no modelado atual do relevo. Neste contexto foi dada atenção a procedimentos visando reconstituir quadros crono- morfológicos referentes ao tempo histórico (1962, 1972 e 2002) que permitissem ponderação referente a comparação com processos atuais e subatuais em curso.

Sumariamente, o presente trabalho buscou através de comparação dos dados e discussões referentes a compartimentação do relevo da Ilha fornecer subsídios para inseri-la nos modelos geomorgenéticos do Complexo Lagunar, e também discutir caráter dos processos

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morfogenéticos atuais dentro do contexto de oscilações históricas no qual manifestam-se. Acredita-se que prática do trabalho é válida não somente para aprofundamento dos conhecimentos da dinâmica morfológica da própria Ilha do Cardoso. Questões particulares suscitadas pelo contexto da Ilha intersecta debates mais amplos, referentes ao uso de dados advindos dos quadros do relevo na interface dos conhecimentos de processos morfodinâmicos ligados a distintas escalas temporais aos atuantes nos dias atuais. Trata-se de discussão em curso e de múltiplas ramificações. Desta maneira ao explorar a caracterização dos quadros de relevo da Ilha e usa-los como subsídio para discussões sobre dinâmicas morfogenéticas espera-se adicionalmente realizar incursão dentro dos citados debates, buscando obter ponderações e reflexões referentes a complexidade da temática em questão.

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CAPÍTULO II -

REFERÊNCIAIS TEÓRICOS

E PROCEDIMENTOS DE

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2.1 Abordagens Gerais dos Procedimentos de Trabalho

Discussões metodológicas se diversificaram e especializaram-se sensivelmente dentro do campo da geomorfologia desde que foi idealizada a concepção de estudos geomorfológicos de Ab`Saber (1969). Muitas delas inclusive receberam influência direta do mencionado paradigma, ou se fracionaram ao aprofundar aspectos específicos dentro do conjunto de apontamentos originais. Existem mesmo múltiplas propostas metodológicas para mapeamento geomorfológico voltadas para contextos específicos dentro da superfície terrestre. Referente a propostas para aplicação em ambientes litorâneos de sedimentação recente cabem ser lembrados – dentre outros – as propostas de Tricart (1965) e Nunes et al. (1994), como sumarizado por Cunha e Souza (2010). Num contexto mais amplo, também diversificaram-se propostas que visem discutir a integração do relevo aos demais componentes do meio físico e mensurar o impacto antrôpico na dinãmica físico-natural. Na direção citada cabe recordar a abordagem dos geossistemas, como na concepção defendida por Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2004).

Afora multiplicação de métodos voltados a necessidades específicas – algumas das quais compartilhadas pela presente pesquisa - a geomorfologia insere-se num contexto marcado por crescente especialização do conhecimento científico. Neste cenário cabe problematizar a escolha da concepção de estudos em geomorfologia de Ab`Saber (1969) como referência para o presente trabalho. Proposta citada foi feita num contexto anterior ao mais elevado grau de especialização técnica que a geomorfologia e ciências da terra atualmente vivenciam no Brasil. Realização de análise holística que contemple desde a delimitação e caracterização da compartimentação do relevo até ao inventário e controle dos processos morfodinâmicos atuais torna-se mais complexa. Estudos na temática do presente trabalho em geral encontram-se voltados para sínteses de áreas amplas – sobretudo através de análise de imagens de sensoriamento remoto – ou pesquisas tecnicamente densas de feições pontuais da paisagem – seja singularizando uma única bacia hidrográfica, ou mesmo segmentando um terraço ou vertente em particular.

A despeito das ponderações realizadas, acreditamos que o diálogo com a concepção tripartide mencionada possa no contexto atual fornecer contribuições e discussões significativas. Pensamos que ela pode auxiliar a fornecer integração entre os mencionados estudos de feições específicas da paisagem e as grandes sínteses de escala mais ampla. Pauta- se como capaz de integrar os dois conjuntos de informações tendo as unidades de relevo como referenciais. Cabe ressaltar a ênfase nos incrementos de escalas temporais ao longo dos

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sucessivos níveis de análise propostos pela concepção de estudos geomorfológicos pautado neste trabalho. Sobretudo a busca de interface entre processos morfogenéticos pretéritos referentes ao tempo geológico profundo, dinâmicas paleoclimáticas e sucessão de quadros crono-morfológicos quaternários para os processos e dinâmicas atuais e subatuais. Ab`Saber (1969) enfatiza em sua proposta a necessidade de crescentes controles de tempo nas sucessivas etapas do trabalho para uma mesma escala espacial, fator menos enfatizado por propostas como a de Rodrigues, Silva e Cavalcanti (2004) que focam-se no controle e taxonomia areais.

Cabe registrar a ressalva que outras abordagens dentro da geomorfologia também atribuem peso significativo a dinâmica temporal dos processos morfogenéticos. Cumpre lembrar propostas como a de Caileux e Tricart (1956), onde as feições da superfície da terra são correlacionadas conforme sua ordem de grandeza em área a processos ligados a distintas profundidades de tempo. Tanto maior a extensão em área da feição em questão, mais distante e duradoura a dimensão temporal atribuída aos processos responsáveis por seus traços essenciais. Talvez a singularidade da abordagem escolhida como foco deste trabalho se dá na maneira como realiza esta interface. No lugar de alterar simultaneamente a ordem de grandeza areal e temporal, dá-se peso maior ao aspecto cronológico. O nível da dimensão areal para o estudo permanece constante, e é seguidamente discutido sob os prismas de diferentes níveis de análises temporais. Envolve num sentido mais amplo a concepção implícita da paisagem terrestre como a materialidade pela qual se intersectam uma sobreposição de distintas dimensões temporais, herança simultânea de processos longínquos e de outros mais recentes.

Feita breve problematização da escolha das opções balizadoras da presente pesquisa, cabe realizar caracterização de seus fundamentos. Estudos como o de Cruz (1998) que buscam estabelecer discussões entre caracterização de padrões geomórficos e processos atuais ou pretéritos de morfogênese tem na proposta de Ab`Saber (1969) um referencial relevante. As orientações mencionadas já haviam sido ensaiadas previamente em trabalho sobre geomorfologia do sítio urbano de São Paulo (Ab`Saber, 1956). Posteriormente foi aplicada a inúmeros outros estudos de escala local-intermediária, incluindo pesquisas desenvolvidas em geomorfologia costeira e litorânea (Cruz, 1974).

A concepção tripartite de geomorfologia defendida por Ab`Saber (1969) é fortemente atrelada ao entendimento a partir das feições atuais dos processos morfogenéticos predominantes em diversas profundidades de tempo. Considera num primeiro nível de análise a geomorfologia como responsável pelo conhecimento da compartimentação da topografia

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regional. Destaca também papel na caracterização e descrição do relevo, tão próximas da realidade quanto às possibilidades técnicas e de observação permitirem. Aponta que nesta etapa dos trabalho dados obtidos devem ser analisados para obter elementos dos processo remontantes a profundidades de tempo mais distantes.

Num segundo nível de compreensão, afirma que a geomorfologia deve levantar informações sistemáticas a respeito de estrutura superficial das paisagens ligadas aos compartimentos e feições geomórficas anteriormente delimitadas. Informações aqui elencadas deveriam ser problematizadas diante da possibilidade de compreensão dos processos morfogenéticos quaternários. Envolvendo terceiro nível, afirma que deve se entender processos e inter-relações entre fatores morfoclimáticos e pedogênicos atuais com a paisagem herdada. Realça busca de compreender a funcionalidade atual e geral (climática e hidrodinâmica) da área em estudo.

A concepção tripartite de geomorfologia apresentada se traduz em três níveis de tratamento seriados e encadeados: a Compartimentação da Paisagem, a Estrutura Superficial da Paisagem e a Fisiologia da Paisagem.

A Compartimentação do Relevo busca elencar o entendimento da divisão da topografia da área em grandes unidades de padrões morfométricos e ossatura rochosa relativamente homogêneos. Ab`Saber denota que este nível de tratamento permite inferir aspectos gerais da influência da ossatura rochosa nas formas de relevo atuais, partindo do princípio entretanto que ela representa apenas uma base prévia onde irão atuar sucessivos processos paleoclimáticos e morfoclimáticos. Ab`Saber (1969), como mencionado antes, enfatiza reflexões sobre a hierarquização dos compartimentos de relevo. Liga-os a dimensão cronológica e intensidade e extensão temporal dos processos responsáveis por sua geomorfogênese. A ideia de que compartimentação nesta concepção visaria agrupar a influência no modelado atual de processos referentes a uma extensão temporal mais profunda e distanciada se faz presente repetidamente ao longo de sua proposta. Destaca em especial o que considera a assimetria entre a escala da abrangência do modelado no relevo entre o pré- quaternário e o atual, como depreendido pelo seguinte trecho (AB`SABER, 1969, p 8):

Alguns dos compartimentos que foram essenciais para retenção de grandes massas de detritos finos (Bacia de São Paulo, Bacia de Taubaté), ficaram sujeitos, durante quase todo o Quartenário, a fases alternadas de erosão fluvial e de pedimentação restrita, respectivamente associada a processos areolares de mamelonização e de plainação lateral restrita. Foram tais acontecimentos que responderam por uma nova

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compartimentação superimposta a outra mais antiga e maior. Note-se que esta compartimentação quartenária é de caráter forçadamente menor, em escala, e, de aspecto geral nitidamente embutida, já que se localiza no interior daqueles vales e alvéolos que responderam pelo próprio re-entalhamento dos vastos plainos regionais oriundos de pediplanação ou da tectônica neogênica. Por diversas razões, acreditamos que a compartimentação neogênica ainda constitua o melhor ponto de partida para nortear os estudos sobre o Quartenário no Estado de São Paulo. Partindo-se da unidade regional maior, representada por um dos aludidos compartimentos, das depressões periféricas, depressões monoclinais, bacias de compartimentos de planalto – pode-se realizar uma analisar minuciosa das feições geomórficas e depósitos quartenários, localizados em diferentes posições em seu interior.

As observações do trecho acima dialogam com a inter-relação entre a compartimentação do relevo e o nível seguinte de análise da paisagem proposto por Ab`Saber, a análise da Estrutural Superficial da Paisagem. Este segundo nível de tratamento visa restabelecer com base, dentre outros, no registro sedimentar superficial, pedológico e feições geomórficas de detalhe da paisagem conjunto de alterações paleoambientais e processos exógenos pretéritos da área de estudo que podem ter influência no modelado do relevo.

O nível de tratamento da Estrutura Superficial da Paisagem visa elencar e interpretar elementos que permitam compreender aspectos da trajetória paleoclimática e de processos morfodinâmicos predominantes em extensões temporais quaternárias. Ainda que o registro sedimentar, pedológico e coberturas de alteração sejam as fontes mais usuais para tais tipos de abordagem não tratam-se das únicas possíveis. Cabe recordar apontamentos de Almeida (1968) que em certas condições padrões de distribuição da cobertura vegetal ou mesmo as próprias feições de detalhe relevo podem ser usados como elementos para balizar tais discussões.

A Compartimentação do Relevo não é assim apresentada como o único dos níveis de tratamento passível de incluírem os padrões morfométricos e feições geomórficas. O primeiro nível de tratamento seria responsável por buscar apreender influência dos processos pré- quaternários, com enfoque especial na compreensão da influência da ossatura geológica no relevo atual. Diante desta proposta, a caracterização dos grandes conjuntos dos quadros de relevo seria a fonte de dados a ser enfatizada. Não havendo porém impedimento de que feições particulares dos quadros de relevo sejam usados para ponderar discussões nos níveis seguintes

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de tratamento da paisagem. O trecho seguinte da proposta de AB`SABER (1969, p 2-3) sintetiza suas preposições neste sentido:

Em um segundo nível de tratamento, a Geomorfologia – além dessas preocupações topográficas e morfológicas básicas e elementares – procura obter informações sistemáticas sobre a estrutura superficial das paisagens referentes a todos os compartimentos e formas de relevo observados. Através desses estudos, por assim dizer estruturais superficiais, e, até certo ponto estáticos, obtém-se idéias da cronogeomofologia e as primeiras proposições interpretativas sobre a sequência de processos paleo-climáticos e morfoclimáticos quartenários da área de estudo. Desta forma, observações geológicas dos depósitos, e observações geomorfológicas das feições antigas (superfícies de aplainamento, relevos residuais) e recentes do relevo (formas de vertentes, pedimentos, terraços etc), conduzem a visualização de uma plausível cinemática recente da paisagem.

Proposta apresentada realiza ênfase especial que o entendimento da estrutura superficial deve ser feito dando grande peso a uma inter-relação intensa com a compartimentação da paisagem. Argumenta que os depósitos superficiais, coberturas de alteração e feições de relevo de detalhe não devem ser interpretados isoladamente, mas considerados no compartimento de relevo em que se inserem. Através da ponderação entre atributos específicos da estrutura superficial da paisagem, e das características dos compartimentos de relevo no qual se mesclam permitiria-se chegar a propostas interpretativas sobre a sequência de processos geomórficos pretéritos atuantes na área de estudo.

A Fisiologia da Paisagem por sua vez busca compreender influência no relevo da dinâmica morfogenética atual ligada aos processos morfoclimáticos e pedogenéticos na área de estudo, o que inclui influência da sobreposição da ação antropica. Pondera-se considerar a fisiologia da paisagem o nível de tratamento mais complexo e de menor aplicação. Realça que tal quadro persiste ainda que as Ciências da Terra tenham em suas bases conceituais e históricas a observação dos processos atuais como base para compreender os do passado.

Dependendo do tipo de ponto de vista utilizado a concepção tripartide de geomorfologia em discussão pode muito mais ser considerada uma proposta conceitual ou mesmo paradigmática do que uma proposta metodológica. Mesmo que se considere que toda abordagem metodológica está atrelada a um modelo conceitual e paradigmático, não pode-se dizer que encontre-se no modelo apresentado uma proposta rígida de procedimentos a serem seguidos atrelados a concepção de geomorfologia que defende.

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Mesmo os níveis de tratamento do relevo propostos pelo geógrafo apresentam caráter amplo, passíveis de serem entendidos como mecanismos conceituais de entendimento da geomorfologia. Centram-se mais em discutir as diferenciadas dimensões atribuídas aos distintos fatores do relevo e suas magnitudes e escalas de abrangência do que em propor procedimentos pontuais de análise. Em verdade em vários momentos o texto de Ab`Saber (1969) enfatiza a noção de ponderação dos atributos e complexidades essenciais a serem considerados em trabalhos de geomorfologia. Lega algumas sugestões de procedimentos possíveis de serem utilizados em casos de contextos específicos mas não apresenta propostas específicas rígidas e delimitadas.

Desta maneira o trabalho de Ab`Saber (1969) pode ser entendido como uma proposta conceitual de geomorfologia do Quaternário. A partir dela os pesquisadores poderiam incorporar procedimentos e técnicas diversificadas que se mostrassem adequados a construir metodologias que atendessem aos fins específicos de seus trabalhos. Presente capítulo busca, com base neste entendimento, detalhar como este trabalho procurou dialogar com os níveis de tratamento da paisagem propostos pelo autor no estudo da Ilha do Cardoso.

Para este fim, a presente pesquisa concentrou-se em abordar o nível de tratamento da Compartimentação do Relevo. A Estrutura Superficial e Fisiologia da Paisagem são abordadas de maneira secundária e subordinada, inclusive devido a na Ilha a Estrutura Superficial e a Fisiologia da Paisagem em alguns setores se confundirem. Repetição dos processos atuais e subatuais aparentam serem responsáveis por expressivo segmento dos padrões geomórficos, depósitos sedimentares e coberturas de alteração presentes no conjunto do Ilha. Os dois níveis de tratamento foram para fins de apresentação dos métodos desta pesquisa conjugados num único tópico de análise.

O trabalho procurou dedicar empenho especial em evitar que a necessidade de desenvolvimento de procedimentos específicos para cada um dos níveis de trabalho levasse a uma fragmentação das discussões. Procurou buscar tal proposito através da promoção de uma inter-relação constante entre os níveis de tratamento propostos. Buscou combinar informações fornecidas pelas técnicas analíticas empregadas com um esforço para realizar uma análise holística que visasse correlacionar este conjunto de resultados alcançados. De forma a tentar manter-se fiel a esta proposta de abordagem, o texto deste capítulo se estrutura na forma de dois tópicos diferenciados para detalhar os procedimentos de cada nível de tratamento da

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paisagem. Procura, porém, ao detalhar como será feita a análise dos resultados, reforçar mecanismos usados para interação dos níveis de tratamento..

2.2 Procedimentos Correlatos a Compartimentação da Paisagem

Antes de iniciar o nível de análise da compartimentação da paisagem propriamente dita, o presente trabalho de pesquisa realizou uma série de levantamentos e preparação de materiais cartográficos prévios em escala de semi-detalhe (1:50.000). Foram realizados a confecção de cartas morfométricas (hipsométricas e clinográficas) e cartas litológicas. Foram também coletadas amostras de rochas representativas das unidades litoestratigráficas na área de estudo para descrição macroscópica e posteriormente preparo para análise laboratorial em escala microscópica. Buscou-se realizar adicionalmente confecção de material cartográfico referente à distribuição dos principais tipos de associação vegetal da Ilha do Cardoso, desenvolvida com base em conjunto de reconhecimentos de campo e análise de imagens de sensoriamento remoto.

Como etapa preliminar para a confecção dos mapas morfométricos foram preparadas em ambiente SIG cartas bases (Carta Topográfica e de Drenagem) necessárias. As cartas bases foram feitas com base na sobreposição da análise de imagens orbitais obtidas de satélite Landsat no espectro da luz visível, fotografias aéreas disponíveis e mapeamento topográfico do IBGE de 1972. A digitalização deste material foi feita através de vetorização, usando representações características de ambientes SIG (Elementos Pontuais, Linhas e Polígonos).

O modelo digital de terreno foi confeccionado com base numa sobreposição das cartas cartográficas, fotografias aéreas disponíveis e imagens de satélite Aster tratadas em ambiente de Sistemas de Informação Georreferenciadas. Na sequência foi transferido o mosaico das imagens para os software ArcMap 9.3, e a partir dos dados raster foi gerado um MDE pelo método de Interpolação TIN (Triangulated Irregular Network ).

A carta hipsométrica (Mapa 1) foi elaborada a partir do MDE gerado no programa ArcMap 9.3, que foi submetido a uma classificação da altimetria pelo comando 3D Analyst Tools e converteu os vetores. Adotou-se o critério de cotas com distância graduando de 200 em 200 metros, abrangendo da cota de 0 metros até a cota de 720 metros. A exceção deste padrão foi o primeiro intervalo delimitado, abrangendo como limite superior 20 metros acima do nível do mar. Tal diferença foi feita para melhor destacar altimetricamente as Planícies

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Diversificadas da Ilha, contidas neste intervalo. De outro modo permaneceriam indistintas neste prisma de análise dos segmentos basais das Serranias.

A carta clinográfica (Mapa 2) foi produzida em meio digital originalmente utilizando o software Arcgis 9.3 a partir do comando slope da ferramenta 3D analyst tool, como sugerido por Giglioti (2010). A ferramenta Slope (declividade) calcula a máxima taxa de mudança entre cada célula e as suas vizinhas. Enfatiza a descida mais íngreme para a célula (a máxima mudança em elevação pela distância entre a célula e suas oito vizinhas). Cada célula no raster de saída foi dado um valor de declividade. Quanto menor o valor de declividade, mais plano o terreno; quanto maior o valor de declividade, mais íngreme.

Após a confecção do material digital referente as cartas clinográficas e hipsométricas, o mesmo foi comparado com cartas topográficas, fotos aéreas e levantamentos de campo realizados. Através desta comparação aspectos da classificação foram revisados, buscando adequar o levantamento digital realizado a escala de mapeamento utilizada no presente trabalho. Procuramos neste trabalho entender os dados morfométricos originados de tratamento por ferramentas de classificação automática ou semi-automática em ambiente digital como uma base prévia e preliminar, passiva de ser aprimorada e revista por levantamentos manuais.

A revisão de cartas de unidades litológicas pré-existentes foi feita por métodos tradicionais de mapeamento geológico (Lilse, 2011). Procurou-se percorrer a área de forma a realizar descrição de afloramentos rochosos e depósitos sedimentares de forma a serem o mais representativos possíveis do conjunto. Atentou-se para suas características mineralógicas e também estruturais (tais como presença de fraturas, juntas e dobras), e realização do registro de localizações dos afloramentos e depósitos sedimentares. Procedimentos foram feitos com uso do equipamento necessário (incluindo martelo petrográfico, aparelho de GPS, lupa de bolso e bússola Brunton) para se poder realizar a descrição em termos precisos o suficiente para embasar discussão dos fatores do relevo da Ilha do Cardoso. Nesta etapa foram também coletadas amostras de rocha e sedimentos nos afloramentos de maior interesse e representatividade. Materiais recolhidos foram encaminhados a posterior preparação para análise laboratorial por meio da petrografia ótica, de maneira a somar as descrições macroscópicas levantadas outras de caráter microscópicos.

A petrografia baseia-se no uso das propriedades de reflexão, refração e absorção da luz pelos minerais para identificá-los com o uso de microscópio petrográfico (Winchell, 1951).

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Sua utilização pode contribuir para os estudos de geomorfologia pela caracterização que permite fazer da mineralogia dos corpos rochosos e sedimentares. A técnica é capaz de relevar sutilezas que podem ter importância crucial na compreensão do modelado do relevo. Ainda que não difundida amplamente em trabalhos de geomofologia no Brasil, a petrografia ótica já chegou a ser usada pontualmente em trabalhos prévios visando problematizar fatores do relevo, como nos trabalhos de Dorr (1969) no Quadrilátero Ferrífero.

Dorr (1969) chegou inclusive a apontar que em sua área de estudo era a mesma formação litológica – quartzitos da Formação Moeda - a responsável tanto pela sustentação das mais elevadas serras quanto dos mais profundos vales. Atribui tal diferenciação a sutis alterações mineralógicas na matriz dos quartzitos as responsáveis por dotá-los de maior ou menor sensibilidade a processos de intemperismo químico e posteriormente desagregação granular. Almeida (1968, 1970) aplicou-a em estudos de geomorfologia costeira. Documentou como por vezes mesmo discretas variações mineralógicas e/ou texturais podiam levar a interações diferenciadas com os mesmos agentes morfodinâmicos marinhos e litorâneos de maneira a originar padrões geomórficos significativamente distintos.

O profundo grau de remobilização por movimentos de massa dos níveis superficiais das escarpas rochosas na Ilha, o íngreme relevo e a presença de densa cobertura de matas foram fatores que dificultaram e limitaram o mapeamento e coleta de amostras. Desta maneira procurou-se usar os trajetos dos leitos dos rios que percorrem as escarpas rochosas como caminhos preferenciais para as atividades de mapeamento, realizando a partir deles incursões nos segmentos adjacentes. O acesso a eles foi feito por terra nos segmentos onde haviam núcleos de povoação próximos - em especial no nordeste e sudeste da Ilha. Nos demais - sobretudo noroeste e oeste - o acesso foi feito através de embarcações de pequeno porte, conduzidas por pescadores ali residentes. Adentrou-se nos rios a partir de seus estuários e seguiu-se por seus cursos até o início dos segmentos rochosos das Serranias. Também por embarcações de pequeno porte foi feito o acesso aos afloramentos rochosos vinculados a morros residuais afastados dos principais núcleos de povoamento.

Com base nos dados coletados, releitura e análise cuidadosa do conjunto de mapas anteriores e suas bases de dados se confeccionou-se o material cartográfico de unidades litológicas usado para balizar a presente pesquisa. Para realizar ilustração das variações morfométricas encontradas e sua associação com atributos litológicos, realizou-se uma série de croquis e perfis esquemáticos. Foram realizados através de medidas das cartas topográficas,

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clinográficas, altimétricas e litológicas em conjunto com observações de campo. Buscou-se através deles mostrar tanto a transição entre diferentes compartimentos e subcompartimentos como destacar algumas de suas heterogeneidades internas.

Concluídos as cartas Hipsométrica, Morfométrica e Litológica, foi realizada a sobreposição do conjunto delas ponderada pelas observações de campo e interpretação de imagens aéreas anteriormente mencionadas para delimitação dos compartimentos de relevo da Ilha. No que se refere à cartografia geomorfológica destinada a embasar a delimitação das unidades de relevo e seu registro cartográfico, as discussões metodológicas diversificaram-se sensivelmente desde que a proposta original de Ab`Saber (1969) foi escrita. Aos processos que o geógrafo trata holisticamente como “compartimentação do relevo” foram somadas inúmeras metodologias e técnicas de trabalho que delimitam métodos diversos para delimitação de formas de relevo em diferentes escalas areais. Para fins desta pesquisa destacamos a proposta de taxonomia geomorfológica de Ross (1992). Ross (1992) procura expor organização do relevo de forma hierárquica de acordo com a escala de trabalho a ser utilizada. Apresenta classificação do relevo em seis táxons distintos, sendo eles:

1°. Táxon – o relevo terrestre pertence a uma determinada estrutura que apresentam origens e idades distintas, que não podem ser consideradas como um substrato passivo, mas um elemento ativo no processo de desenvolvimento do relevo. O caracterizado por um determinado padrão de formas grandes do relevo. Exemplos de morfoestruturas são as regiões de plataformas ou crátons, bacias sedimentares e cadeias orogênicas;

2°. Táxon – a morfoescultura é fruto de ações climáticas subseqüentes e a morfoclimática é o tipo de agente climático atuante em uma determinada época. Os domínios morfoclimáticos atuais não são obrigatoriamente coincidentes com as Unidades Morfoesculturais identificáveis na superfície terrestre. São geradas pela ação climática ao longo do tempo geológico, no seio da morfoestrutura. Assim, uma unidade morfoestrutural como a Bacia do Paraná apresenta várias Unidades Morfoesculturais como às Depressões Periféricas, Depressões Monoclinais, Planaltos em Patamares Intermediários entre outros.

3°. Táxon – é denominado de Unidade de Padrão de Formas Semelhantes. São conjuntos de formas menores do relevo encontrados em Unidades Morfoesculturais, que apresentam distinções de aparência entre si em função da rugosidade topográfica ou índice de dissecação do relevo, bem como o formato dos topos, vertente e vales de cada padrão existente.

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4°. Táxon – é denominado como formas de relevo individualizadas dentro de cada Unidade padrão de Formas Semelhantes. As formas de relevo desta categoria tanto podem ser as de agradação tais como as planícies fluviais, terraços fluviais ou marinhos, planícies marinhas, planícies lacustres entre outros ou as de denudação resultante do desgaste erosivo, como colinas, morros, cristas, enfim, formas com topos planos, aguçados ou convexos.

A área de estudo inclusive ilustra a afirmação de Ross (1992) de não haver necessariamente coincidência na aplicação de critérios morfoclimáticos, morfoesculturais e morfoestruturais para se delimitar a compartimentação da paisagem. Em classificações geomorfológicas que incorporem também a influência da ação climática e dos processos esculturais e sedimentares atuais e pretéritos a área pode ser inserida numa única unidade de análise (Almeida, 1964). Sob o ponto de vista porém de critérios morfoestruturais alguns trabalhos a segmentam em duas unidades diferentes, segregando-a no que consideram Cinturões Orogenéticos e Bacias Sedimentares Cenozóicas (Diniz, 2011). Na elaboração do Mapa de Compartimentação Geomorfológica (Mapa 4) do presente trabalho, por motivos que serão abordados posteriormente, partiu-se da concepção na escala de trabalho abordada que a Ilha abrange apenas uma unidade morfoestrutural. Tal consideração se faz sem prejuízo para considerar que Ilha se apresente em dois grandes conjuntos de padrões geomórficos e coberturas superficiais associadas bastante distintas - Serranias e Planícies Diversificadas.

Sumariamente os trabalhos de campo e análises de revisão bibliográfica apontam dificuldade de correlacionar as planícies da Ilha a unidades morfoestruturais de Bacias Sedimentares de idade Cenozóica. Constatou-se em diversos setores que o embasamento rochoso encontra-se a apenas poucos metros abaixo do nível dos solos e camadas sedimentares superficiais, em contraste com as bacias sedimentares da Baixada Santista ou mesmo da adjacente Ilha Comprida onde a espessura das seqüência pedo-sedimentares atingem dezenas ou mesmo centenas de metros. Dados gravimétricos disponíveis também sugerem interpretação parecida, na medida que apontam nível do embasamento rochoso rente a superfície ao menos para as planícies situadas no nordeste da Ilha. Parece-nos que as evidências disponíveis sugerem ´planícies da Ilha estarem mais estreitamente ligados a uma delgada cobertura sedimentar e pedogenética instalada sob níveis erosionais do embasamento rochoso do que a áreas que passaram por expressivo processo de subsidência.

Procurou-se, tendo em vista considerações mencionadas, representar

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se a representação de unidades morfoesculturais, sendo cada uma delas segmentadas em distintas unidades de formas semelhantes. Na delimitação de unidades de formas semelhantes procurou-se enfatizar além dos critérios morfométricos sugeridos por Ross (1992) também dar uma ênfase a critérios morfodinâmicos predominantes. Espera-se que assim a compartimentação pautada pelas formas de terceiro táxon possam fornecer subsídios para discussão centrada em mecanismos morfogenéticos referentes a mais distanciadas profundidades de tempo. Subcompartimentação ligadas ao quarto táxon de análise por sua vez permitiria discussão de interface entre processos pré-quaternários e quaternários, posteriormente complementada pela análise dos dados referentes a estrutura superficial.

Procurou-se no mapa geomorfológico adotar opções de legendas que ajudassem a destacar as prioridades escolhidas para o presente estudo. Escolhas em questão merecem detalhamento mais curado, sobretudo por apresentam diversidade mais ampla de simbologia que demais mapas confeccionados para o presente trabalho. Delimitou-se cinco grande conjuntos de símbolos - “Compartimentos do Relevo”, “Litologia”, “Ação Marinha e Litorânea”, “Ações das Águas Correntes” e “Outros” – para a legenda. Símbolos mencionados foram apresentados na forma de polígonos preenchidos por cores, linhas e pontos.

O primeiro dos conjuntos, “Compartimentos de Relevo”, foi subdivido em símbolos associados a Serranias e Planícies Diversificadas. Cada um destes conjuntos agrupou representações dos subcompartimentos de relevo da Ilha, na forma de polígonos preenchidos por cores. Os subcompartimentos ligados a Planícies foram representados por tons similares ao verde enquanto os das Serranias em tons próximos ao vermelho. Optou-se por usar extensões de cores contínuas para representar as variações na compartimentação de relevo, de maneira a realçar seu papel como unidade de referência usada no presente estudo.

O conjunto de símbolos denominados no grupo de “Litologia” procura representar as unidades litoestratigráficas delimitadas para o estudo através de rachuras. Símbolos citados foram sobrepostas as cores que representam os subcompartimentos. O conjunto “Ação Marinha e Litorânea” distingue-se em formas de entalhe e formas de acumulação. Destacou-se distintas maneiras que rompem o contato gradacional com que se faz transição entre bordos da Ilha e águas circundantes – como costões rochosos e terraços de bordos abruptos.

Foram também realçados a presença de padrões geomórficos de detalhes – dunas – superimposta aos subcompartimentos de relevo já descritos, representadas por feições de pontos. Optou-se por representar as praias arenosas como um símbolo linear sobreposto a

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determinadas faixas dos subcompartimentos. Opção mencionada é distinta da usada em alguns outros trabalhos de cartografia morfológica litorânea (Cunha e Souza, 2010), que preferem integrar as praias a subcompartimentos de relevo (como as denominadas Planícies de Acumulação Marinha). Justificamos nossa opção pela significativa variabilidade sazonal e mesmo diária da extensão em planta das praias da Ilha do Cardoso em razão da sobreposição de condições atmosféricas, de correntes das águas lagunares e oceânicas e da oscilação das marés. Preferimos desta maneira representar as praias genericamente como feições lineares e, ao longo do texto, apresentar detalhes de sua caracterização e oscilação de sua extensão em planta e atributos morfométricos.

Símbolos do conjunto “Ação das Águas Correntes” por sua vez foram divididos também em dois grupos, sendo eles “Feições Hidrográficas” e “Formas de Entalhe”. As “Feições Hidrográficas” abrangeram representação de canais permanentes de drenagem das águas, estuários e lagoas e também meandros abandonados. O conjunto das “Formas de Entalhe” procurou destacar segmentos em que calhas dos rios destoa das declividades médias do subcompartimento no qual insere-se, através da feição linear denominada “Vales de fundo plano”. Também procurou, nas Serranias, destacar por feições lineares o conjunto de “divisores principais” - os alinhamentos de picos que cruzam a Ilha de oeste a leste, grosseiramente separando os rios que alcançam a laguna e os que alcançam oceano – e “divisores secundários” - os segmentos de interflúvios de maior referência entre os que se alinham paralelos aos canais fluviais da Ilha.

Designou-se por fim em “Outros” o subconjunto de símbolos destinados a representar traçados de perfis esquemáticos e identificar os pontos de coletas de amostras de sedimentos e solos usados no presente trabalho.

Adicionalmente foi elaborado um Mapa de Associações Vegetais Predominantes, fruto de mescla de trabalhos de campo de reconhecimento e identificação de padrões texturais e estruturais associados em imagens aéreas. Nesta etapa o trabalho pode contar com o auxílio de biólogos do Departamento de Ecologia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-UNICAMP). A inserção do mapa de unidades vegetacionais na etapa de trabalho da Compartimentação da Paisagem se justifica por, na Ilha do Cardoso, cada compartimento de relevo estar intimamente associado a padrões específicos de associações vegetais (Cheliz, 2011). Desta maneira mapas das unidades de relevo e de associações vegetais

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chegam a se confundirem em alguns níveis de análise, sendo um dos critérios usados para extrapolação e confecção da compartimentação proposta.

2.3 Abordagens efetuadas referentes a Estrutura Superficial e Fisiologia da Paisagem

Foram mapeados e identificados depósitos sedimentares e seções sedimentares, perfis pedológicos, feições biogênicas e padrões geomórficos de detalhe relevantes em cada um dos compartimentos de relevo delimitados. Pontos foram selecionados onde realizou-se coleta de amostras de cobertura superficiais. Realizou-se a descrição e registro delas através de fotografias, bem como descrições granulométricas texturais macroscópicas do material exposto. Dentre as amostras coletados foram selecionadas parte delas para encaminhar análise de granulometria em laboratório da Unithal em Campinas, pelo método da Pipeta. Procurou-se correlacionar caracterização granulométrica das amostras a distintos ambientes de sedimentação presentes na Ilha, dentro do que seriam considerados próximos aos elementos de quarta ordem na proposta de Miall (1985).

Também procurou-se descrever atributos sedimentares de perfis e depósitos de blocos rochosos registrados em segmentos diversos da ilha, em especial a determinação de granulometria média, grau de seleção, maximum particule size e graus de arredondamento (Nichols, 1998; Miall, 1985 e Wendel, 2014). Procedimento elencado foi efetuado com o fim de subsidiar ponderações sobre fatores morfodinâmicos atuais e subatuais e a formação dos mencionados depósitos. Para classifcação granulométrica, usou-se os critérios postulados por Wendel (2014).

Cabe citar que os trabalhos feitos pela abordagem aqui proposta não poderiam alcançar um grau de aprofundamento similar a um trabalho especificamente voltado para caracterizar a sedimentologia e estratigrafia dos depósitos costeiros da Ilha. Espere-se, no entanto que possam orientar fornecer elementos gerais capazes de permitir auxiliar a identificar fatores morfodinâmicos predominantes presentes em cada um dos compartimentos e subcompartimento de relevo da Ilha.

O trabalho não perde de vista que os atributos mensurados, como as coberturas regolíticas, podem atingir variações expressivas mesmo em áreas muito próximas e morfologicamente aparentemente indivisas. Buscou-se apenas apreender a caracterização das

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semelhanças e contrastes mais evidentes, realizando discussão correlacionando-os aos compartimentos e subcompartimentos de relevo nos quais se inserem.

O conjunto de procedimentos anteriores combinados a observações de campo e revisão bibliográfica permitiram realizar caracterização geral das estruturas superficiais associadas a cada compartimento geomórfico, e a identificar quais os agentes morfodinâmicos litorâneos predominantes em cada uma delas. Também permitiram identificar quais os traços texturais que facultavam a identificação destes compartimentos e suas estruturas superficiais predominantes através de imagens aéreas e de satélite de resolução e escalas adequadas. Chegou-se a noção princípio que a presença de determinados compartimento aponta para a predominância de determinadas condições morfodinâmicas e morfogênicas.

Com base neste princípio de associação entre condições morfodinâmicas e unidades do relevo bem como possibilidade de identificá-las por imagens aéreas, procurou-se realizar mapas geomórficos da Ilha de diversos cenários do passado (1962, 1972, e 2002). Confecção dos mapas de cenários pretéritos foi uma maneira de apreender elementos gerais das mudanças dos fatores morfodinâmicos e morfogenéticos ao longo do tempo histórico. Como fontes de informação para estes procedimentos foram digitalizados e inseridos em ambiente SIG imagens de levantamentos aerofotométricos de 1962 e 1972 e imagens orbitais Landsat e composições do World Imaginary para o ano de 2002. A interface dos elementos advindos destes documentos cartográficos e dados anteriormente levantados permitiram uma discussão ponderada inicial das oscilações temporais das influências morfodinâmicas predominantes.

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CAPÍTULO III - ILHA DO

CARDOSO E O COMPLEXO

LAGUNAR CANANÉIA-

IGUAPE

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3.1 Ilha do Cardoso Como Segmento de Exceção do Complexo Lagunar

A Ilha do Cardoso se distribui em planta de maneira assemelhada a uma grande elipse de cerca de 150 quilômetros quadrados, com seus limites seccionados em diferentes intensidades. Encontra-se acrescida a sudoeste de um cordão estirado de cerca de duas dezenas de quilômetros de extensão e área de aproximados 20 quilômetros quadrados. A norte, a Ilha encontra-se voltada para as águas lagunares da Baia de Trapandé - “Mar de Dentro” - enquanto a sul encontra-se defronte as linhas de arrebentação do Oceano Atlântico - “Mar de Fora” ou “Mar Revolto”, como designado na toponimia local. A leste e nordeste os limites da Ilha são dados pela Barra de Cananéia, estreito confinado entre a própria Ilha do Cardoso e a adjacente Ilha Comprida. A oeste cabe ao Canal de Ararapira segmentar a Ilha do continente próximo (Souza, 2012) – ver figura 1.

Desde tempos além do alcance da memória a Ilha foi abrigo dos homens. Sob a sombra de suas grandes escarpas abriram clareiras em meio as matas para o cultivo de solos dos sopés serranos. Nos costões e franjas dos cordões arenosos rentes as águas abrigaram-se das tempestades e lançaram-se ao mar em pequenos barcos, originalmente entalhados a partir do tronco de suas árvores serranas e mais recentemente incorporando materiais metálicos e modernos motores a combustão. Os registros de sambaquis presentes (Silva, 2014) sugerem que a ocupação humana se fazia presente há milhares de anos antes do presente. Grupos humanos de caçadores e coletores que viviam das conchas e peixes já então singravam em suas pequenas canoas pelos mais ocultos de suas lagunas, rios e estuários. Toponimias de diversos de suas feições geomórficas com reminiscências do tronco linguístico tupi se fazem presente até os dias de hoje, sugerindo que presença de horticultores do referido grupo etnográfico se pautou presente na Ilha e tiveram contato com os colonizadores europeus.

A presença da Ilha é registrada desde ao menos as cartas do Atlas do Brasil de Albernaz (1664), ainda que ali não receba designação. Teria sido tomada, por sua grande dimensão e presença de imponentes Serranias, como parte do continente pela expedição demarcatória de Américo Vespúcio em 1502 (Carvalho, 2002). Caravelas portuguesas teriam aportado nas praias da Ilha e deixado um condenado ao exílio - o Bacharel de Cananéia, que viria a ser percursor da ocupação colonial regional. Gadelha (2008) aponta que a primeira designação que a Ilha recebeu inclusive foi a de “Ilha do Marco”. Trata-se de referência ao monumento de pedra deixado pelas naus portuguesas em referência ao tratado de Tordesilhas na Ilha no século XVI em um dos seus costões rochosos.

Referências

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