LAGUNAR CANANÉIA IGUAPE
3.1 Ilha do Cardoso Como Segmento de Exceção do Complexo Lagunar
A Ilha do Cardoso se distribui em planta de maneira assemelhada a uma grande elipse de cerca de 150 quilômetros quadrados, com seus limites seccionados em diferentes intensidades. Encontra-se acrescida a sudoeste de um cordão estirado de cerca de duas dezenas de quilômetros de extensão e área de aproximados 20 quilômetros quadrados. A norte, a Ilha encontra-se voltada para as águas lagunares da Baia de Trapandé - “Mar de Dentro” - enquanto a sul encontra-se defronte as linhas de arrebentação do Oceano Atlântico - “Mar de Fora” ou “Mar Revolto”, como designado na toponimia local. A leste e nordeste os limites da Ilha são dados pela Barra de Cananéia, estreito confinado entre a própria Ilha do Cardoso e a adjacente Ilha Comprida. A oeste cabe ao Canal de Ararapira segmentar a Ilha do continente próximo (Souza, 2012) – ver figura 1.
Desde tempos além do alcance da memória a Ilha foi abrigo dos homens. Sob a sombra de suas grandes escarpas abriram clareiras em meio as matas para o cultivo de solos dos sopés serranos. Nos costões e franjas dos cordões arenosos rentes as águas abrigaram-se das tempestades e lançaram-se ao mar em pequenos barcos, originalmente entalhados a partir do tronco de suas árvores serranas e mais recentemente incorporando materiais metálicos e modernos motores a combustão. Os registros de sambaquis presentes (Silva, 2014) sugerem que a ocupação humana se fazia presente há milhares de anos antes do presente. Grupos humanos de caçadores e coletores que viviam das conchas e peixes já então singravam em suas pequenas canoas pelos mais ocultos de suas lagunas, rios e estuários. Toponimias de diversos de suas feições geomórficas com reminiscências do tronco linguístico tupi se fazem presente até os dias de hoje, sugerindo que presença de horticultores do referido grupo etnográfico se pautou presente na Ilha e tiveram contato com os colonizadores europeus.
A presença da Ilha é registrada desde ao menos as cartas do Atlas do Brasil de Albernaz (1664), ainda que ali não receba designação. Teria sido tomada, por sua grande dimensão e presença de imponentes Serranias, como parte do continente pela expedição demarcatória de Américo Vespúcio em 1502 (Carvalho, 2002). Caravelas portuguesas teriam aportado nas praias da Ilha e deixado um condenado ao exílio - o Bacharel de Cananéia, que viria a ser percursor da ocupação colonial regional. Gadelha (2008) aponta que a primeira designação que a Ilha recebeu inclusive foi a de “Ilha do Marco”. Trata-se de referência ao monumento de pedra deixado pelas naus portuguesas em referência ao tratado de Tordesilhas na Ilha no século XVI em um dos seus costões rochosos.
A designação de “Cardoso” viria somente posteriormente, em referência a João Domingos Cardoso – senhor de um dos primeiros engenhos que ao longo do período colonial viria a ser instalado na Ilha (Gadelha, 2008). Posteriormente as incursões pioneiras, Ilha inseriu-se nas rotas de navegação coloniais e nos fluxos históricos entre as províncias do sul e sudeste. Assumiu referência nas rotas de navegação e eventual reabastecimento de viveres. Integrou-se também aos ciclos produtivos históricos regionais do Complexo Lagunar de Cananéia-Iguape e de seu papel como fachada litorânea da região histórica do Vale do Ribeira. Ao menos desde o século XVIII existe registro de antigos casarões, e unidades produtivas como engenhos de açúcar e olarias. Além do limite das antigas construções de pedra desde então se registrava discretas casas de madeira e roçadas, destinada a plantio diversificado para sustento das comunidades de agricultores e pescadores ali estabelecidos. Herdeiros de mescla das tradições lusitanas e indígenas, seriam os antepassados dos núcleos de pequenas roças e práticas pesqueiras que mais tarde iriam predominar após esgotamento dos impulsos produtivos regionais.
Presença das amplas Serranias e dos solos derivados de seu embasamento rochoso, em contraponto as de mais difícil trato coberturas regolíticas das planícies, facultavam aos grupos humanos ali fixados terem acesso simultâneo a agricultura e a pesca - tanto lagunar, quanto oceânica. Abundância de fontes de água potável, difíceis de serem obtidas em localidades
Figura 1 – Localização da Ilha do Cardoso. Fonte: o autor (2015), a partir de composições do World Imaginary
próximas como a adjacente Ilha Comprida, fornecida pelos múltiplos riachos e nascentes das Serras também destacam a Ilha no contexto regional (ver fotos 1 e 2).
Profusão e diversidade das coberturas vegetais ainda forneciam um amplo leque de opções para a vida diária das comunidades que ali se fixaram. Da coleta individual de ervas medicinais à confecção de cordas e redes a partir dos extratos vegetais mais resistentes. Forneciam respaldo para obras de trabalho coletivo amplo, como a esculturação de embarcações a partir dos troncos de árvores mais espessas trazidos do coração da Ilha para a costa através de grandes mutirões de auxílio mútuo entre as comunidades de agricultores e pescadores que ali se fixaram. Conferiam também diversificados subsídios para instalação de variadas unidades produtivas, que aproveitam desde a energia das corredeiras da Serra para obtenção de energia aos montes de conchas de sambaqui como matéria-prima para confecção de argamassas.
A Ilha chegou ao inicio do século XX com polaridade entre pontuais unidades produtivas remanescentes– de fábrica de telha a serralheria – com predominantes núcleos sitiantes familiares voltados para agricultura diversificada de subsistência e colheita de eventuais excedentes, trocado com outros núcleos e/ou comercializado no núcleo urbano de Cananéia. Até meados da primeira metade do XX setores expressivos da população do segmento sul do Complexo Lagunar fixava-se na Ilha do Cardoso. Para a adjacente Ilha de Cananéia coube longamente no período histórico pós-cabralino o papel de abrigo e refúgio das incursões marítimas de corsários e piratas. Foi com a configuração judicial da Ilha do Cardoso como Unidade de Conservação na segunda metade do século XX que tal quadro recebeu incrementos de modificações mais significativos (Silva, 2014 e Gadelha, 2008).
Com as restrições resultantes a prática de agricultura e manutenção das unidades produtivas residuais, iniciou-se massivo processo de êxodo rumo aos centros urbanos da vizinha Ilha de Cananéia. Permaneceram na Ilha os grupos melhor adaptados à prática da pesca, com ocupação deslocando-se dos sopés das escarpas para a orla litorânea1.
1 – A discussão envolvendo a conversão da Ilha em Unidade de Conservação é vasta e complexa. Ao mesmo tempo que preservou os moradores, comunidades e ecossistemas da ação mais agressiva da especulação imobiliária como ocorreu em setores como a faixa Peruíbe- Praia Grande na Baixada Santista, implicou também em mudanças profundas no seu modo de vida ou mesmo dificultou e/ou impossibilitou a permanência dos antigos moradores tradicionais. A análise e ponderação mais aprofundada destes processos, porém fogem ao foco deste trabalho, que apenas a tangencia em alguns momentos. Existe porém na literatura trabalhos dedicados especificamente a esta te mática, como por exemplo os trabalhos de Silva (2014) e Gadelha (2008).
Fotos 1 e 2 – Fachada da Ilha do Cardoso vista do norte, a partir da Baia de Trapandé, e do segmento sul, a partir da praia do Cambriú. Fonte: Manoel Junior Neves, ano desconhecido, e o autor (2013)
Concomitantemente antigos clarões destinados as roças em meio às serras e mesmo planícies foram sendo substituídos gradativamente pela restauração de associações vegetais primordiais (Gadelha, 2008). Matas retomam extensões perdidas, enquanto os homens que se dispunham a permanecer buscam caminhos e estratégias para se adequarem ao novo cenário.
A dinâmica que longamente pautou a Ilha, inicialmente ligada ao esgotamento dos ciclos econômicos regionais e posteriormente reforçada pela transformação em Unidade de Conservação, bem ilustra a questão do chamado desenvolvimento desigual da Região Lagunar e do próprio Vale do Ribeira (Braga, 1999). Para pouco além das cabeceiras mais distanciadas do Ribeira, nos grandes centros urbanos que erguem-se nos planaltos que circundam o Vale, promoveu-se sobretudo a partir da segunda metade do século XX intensas transmutações do espaço habitado. Concentrou-se ali os esforços desenfreados de urbanização e industrialização tardia no contexto brasileiro. Vias de ligação entre os centros em profusão cortavam a região histórica do Vale, e deram origem a intenso fluxo de mercadorias e materiais de suporte entre as metrópoles paulistana e curitibana.
A despeito destas intensas transformações dos entornos, o Vale, a sua fachada litorâ- nea e a própria Ilha permaneciam em grande sentido a margem do processo. Nos grandes cen- tros em frenética expansão além de suas cabeceiras legiões de homens chegados às pressas de diversos recantos do país erguiam novos mundos de aço, concreto e eletricidade. Na Ilha, grupos de pescadores reminiscentes permaneciam nascendo e crescendo rentes as sombras das mesmas escarpas florestadas que seus avós conheceram. Seguiam singrando lentamente os rios e mares em seus discretos barcos e canoas, e regulando seus dias e noites pela passagem das estações e das luas.
Enquanto nos centros metropolitanos em profusão os olhares se direcionavam para as promessas do progresso e do futuro, na Ilha voltava-se para suas tradições e se reforçava os valores e laços simples do passado profundo. A vida e seus caminhos tinham seus limites da- dos pelos bordos das clareiras em que erguiam suas vilas e pelas águas que batiam suas praias e costões, onde o que ocorria além delas chegava ali apenas como mais um murmúrio margi- nal em meio a arrebentação das ondas noturnas.
Mundo longamente fechado em si abre-se lentamente. Possibilidades como as advin- das de modificações na regulação da politica de conservação da Ilha no início do século XXI passa a modificar quadro ilíada, ampliando contato e circulação de pessoas externas com mo- radores locais. Modos de vida passam a sofrer modificações com incorporação de fluxo con- trolado de turismo, e grupos escolares envolvidos em atividades de estudo do meio a seus caminhos anteriores. Abrem-se encontros e desencontros de valores distintos, dentro do con-
texto narrado por Candido (1965) entre interfaces tardias de comunidades isoladas que pre- servaram as antigas tradições e um conjunto externo que se modificou profundamente.
Atualmente na Ilha vivem residem cerca de 500 habitantes distribuídos em sete comunidades. Núcleo Pereirinha-Itacuruça - localizado voltado para faceta lagunar - comunidades do Cambriu e Foles – voltados para face oceânica – e núcleos de Marujá, Vila Rápida, Enseada da Baleia e Pontal do Leste – com acesso proximal simultaneamente tanto a segmento oceânico quanto lagunar. Existe ainda duas bases instaladas nas comunidades do Pereirinha e Marujá vinculadas ao governo paulista para suporte de atividades de pesquisa e resguardo da reserva, com fluxo diário de guardas, monitores ambientais e pesquisadores.
O próprio fato de uma das razões institucionais ligadas a criação do parque relaciona- se ao apoio e incentivos a pesquisa, leva a necessidade de revisão de conhecimentos de temas capazes de fornecer subsídios a compartimentação do relevo. Desta maneira os tópicos seguintes do presente capítulo buscam atender tal demanda. No primeiro deles que se segue procurou-se realizar revisão geral sobre os elementos das bases físicas do Complexo Lagunar e sua interface com a Ilha do Cardoso. Em seguida, foram elencados tópicos buscando sumarizar respectivamente caracterização das dinâmicas climáticas, tipos de associação vegetais predominantes e aspectos litológicos e morfométricos ilíadas. Buscou-se realizar sumários dos temas elencados por meio de mescla de revisão bibliográfica e dados próprios levantados ao longo da pesquisa. Esperou-se que o conjunto de informações reunidas pudesse fornecer subsídios para posterior detalhamento da compartimentação de relevo, temática aborda no capítulo seguinte do presente trabalho.
3.2 Revisão de Pesquisas Prévias de Caracterização das Bases Físicas do