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Desenvolvimento sustentável na produção agroalimentar

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Academic year: 2021

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Editores

Marciel J. Stadnik

Aline C. Velho

Susana E. Zorrilla

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA PRODUÇÃO

AGROALIMENTAR

DESARROLLO SOSTENIBLE EN LA PRODUCCIÓN

AGROALIMENTARIA

1º Edição

Florianópolis

UFSC

2019

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Versão eletrônica disponível gratuitamente nos seguintes endereços:

Laboratório de Fitopatologia UFSC - http://labfitop.paginas.ufsc.br/livros/ Asociación de Universidades Grupo Montevideo (CA Agroalimentario) - http:// grupomontevideo.org/ndca/caagroalimentario/

Versão impressa pode ser solicitada ao:

LABFITOP - Laboratório de Fitopatologia

Universidade Federal de Santa Catarina-Centro de Ciências Agrárias Rodovia Admar Gonzaga, 1346, Itacorubi

Fone: (48) 37215423 Fax: (48) 37215335

[email protected]

Projeto Editorial e Diagramação

Marciel J. Stadnik & Aline Cristina Velho

Capa

Sarah Kirchhofer de O. Cabral

Comitê de revisores

Aline C. Velho Cláudia Luna Diego F. Roters

Gabriela Cristiano Marciel J. Stadnik María Verónica Baroni

Marianela de Batista Patricia Lema Roberta Paulert

Rosana Rotondo Susana E. Zorrilla

Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina

D451

Desenvolvimento sustentável na produção agroalimentar [recurso eletrônico] = Desarrollo sostenible en la producción agroalimentaria / editores, Marciel J. Stadnik, Aline C. Velho, Susana E. Zorrilla. – Dados eletrônicos . - 1. ed. – Florianópolis : CCA/UFSC, 2019.

318 p. : il., gráf. Inclui bibliografia

Disponível em: <labfitop.paginas.ufsc.br/livros/>

ISBN 978-65-80460-51-9 E-book (PDF) ISBN 978-65-80460-53-3 Impresso 1.Agricultura. 2. Sustentabilidade –

Agricultura. 3. Desenvolvimento sustentável. I. Stadnik, Marciel J. II. Velho, Aline C. III. Zorrilla, Susana E. IV. Título: Desarrollo

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O desenvolvimento sustentável é con-siderado atualmente o paradigma do-minante que guia o planejamento do desenvolvimento mundial e em parti-cular, dos países latino-americanos. É um novo modelo de uso dos recursos naturais que não compromete a dis-ponibilidade destes elementos para as gerações futuras, e além disso in-clui componentes econômicos e so-ciais. Isso significa adotar um padrão de produção e consumo de modo a não afetar o futuro da humanidade, combinando harmônicamente o de-senvolvimento econômico com a res-ponsabilidade social e ambiental.

A Associação de Universida-des Grupo de Montevidéu, também conhecida pelo acrônimo AUGM, é uma associação formada por univer-sidades da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Foi criada em 9 de agosto de 1991 com os obje-tivos de fortalecer e consolidar os re-cursos humanos, a pesquisa científica e tecnológica, a formação contínua e a interação de seus membros com a sociedade. A AUGM possui treze co-mitês acadêmicos, entre eles o Comi-tê Agroalimentar, que foram concebi-dos para abordar, com enfoque multi e interdisciplinário, grandes configu-rações temáticas qualificadas como estratégicas, por serem transversais e de caráter regional.

Durante as XXVI Jornadas de Jovens Pesquisadores da AUGM, realizadas em 2018 em Mendoza, Ar-gentina, discutiu-se dentro do Comitê

El desarrollo sostenible es conside-rado actualmente el paradigma do-minante que guía la planificación del desarrollo mundial y en particular, de los países latinoamericanos. Es un nuevo modelo de uso de recursos y bienes naturales que no compromete la disponibilidad de estos elementos para las generaciones futuras y que además, incluye componentes eco-nómicos y sociales. Esto significa que se debe adoptar un patrón de produc-ción y consumo para no afectar el fu-turo de la humanidad, combinando el desarrollo económico con la respon-sabilidad social y ambiental.

La Asociación de Universida-des Grupo Montevideo, también co-nocida por el acrónimo AUGM, es una asociación compuesta por universida-des de Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Paraguay y Uruguay. Fue creada el 9 de agosto de 1991 con el propósito de fortalecer y consolidar los recursos humanos, la investigación científica y tecnológica, la capacitación continua y la interacción de sus miembros con la sociedad. AUGM cuenta con trece comités académicos, incluido el Comi-té Agroalimentario, que fueron con-cebidos para abordar, con un enfoque multi e interdisciplinario, las principa-les configuraciones temáticas califi-cadas como estratégicas, ya que son transversales y de carácter regional.

Durante las XXVI Jornadas de Jóvenes Investigadores de AUGM, el Comité Agroalimentario discutió la importancia y la necesidad de

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produ-Agroalimentar, a importância e neces-sidade de se produzir uma publicação envolvendo diferentes atores em prol do desenvolvimento sustentável nos países da Associação. Na sequência, tivemos muitas sugestões de temas e de autores, por diversos membros do Comitê Agroalimentar que esta-vam presentes na reunião. Após uma árdua seleção, convidamos dezoito grupos de excelência para que regissem seus capítulos em temas di-versos e que se encontram reunidos nesta publicação.

O mérito e a responsabilida-de responsabilida-de cada capítulo são responsabilida-devidos aos autores, aos quais expressamos os nossos agradecimentos. Queremos ainda agradecer àqueles que atuaram como revisores dos capítulos, bem como a todas as Instituições e aos colegas que acreditaram e apoiaram esta proposta.

Por fim, esperamos que esta coletânea se transforme em uma fer-ramenta útil de consulta àqueles que se interessam e se dedicam a estudos sobre o desenvolvimento sustentável na produção agroalimentar.

Os editores

cir una publicación incluyendo a dife-rentes actores para el desarrollo sos-tenible en los países de la Asociación. Como consecuencia, tuvimos nume-rosas sugerencias de temas y autores por parte de los miembros del Comi-té Agroalimentario que estuvieron presentes en la reunión. Después de una ardua selección, invitamos a die-ciocho grupos de excelencia a escribir sus capítulos sobre los temas que se reúnen en esta publicación.

El mérito y la responsabili-dad de cada capítulo son de los au-tores, a quienes expresamos nuestro agradecimiento. También queremos agradecer a quienes actuaron como revisores de los capítulos, así como a todas las instituciones y colegas que creyeron en esta propuesta.

Finalmente, esperamos que esta colección se transforme en una herramienta de consulta útil para todos aquellos que se interesan y se dedican a estudios sobre el desarrollo sostenible en la producción agroali-mentaria.

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Marciel J. Stadnik é Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal

de Santa Catarina (UFSC), Mestre em Fitopatologia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Doutor em Ciências Agrárias pela Universität Hohenheim (Ale-manha). Realizou estágio pós-doutoral na Embrapa Meio Ambiente (Jaguariú-na-SP) e foi professor visitante na University of Kentucky (EUA). Atualmente é pesquisador (PQ-1D) do CNPq e Professor Titular no curso de Agronomia e nos programas de pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais e em Agroecos-sistemas da UFSC, nos quais desenvolve estudos sobre produção sustentável de alimentos e métodos alternativos para o controle de doenças de plantas. Desde 2013, vem atuando como representante da UFSC no Comitê Agroali-mentar da AUGM.

Aline C. Velho é Engenheira Agrônoma e Mestre em Produção Vegetal pela

Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), e Doutora em Ciências com ênfase em Recursos Genéticos Vegetais (RGV) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Realizou estágios pós-doutorais na Université du Littoral Côte d’Opale (França) e em RGV na UFSC. Atualmente é pesquisadora de pós doutorado (PNPD-CAPES) no Programa de Pós Graduação em Agroecossiste-mas (UFSC), no qual realiza estudos sobre diversidade populacional de fungos fitopatogênicos e manejo ecológico de doenças de plantas.

Susana E. Zorrilla es Ingeniera Química de la Universidad Nacional de Salta

(UNSa, Argentina) y Doctora en Ingeniería Química de la Universidad Nacional del Litoral (UNL, Argentina). Ha realizado estancias de investigación en la Uni-versity of California (Estados Unidos) y en KU Leuven (Bélgica) como Profesor Visitante. Actualmente, es Investigadora Principal de CONICET en el Instituto de Desarrollo Tecnológico para la Industria Química (INTEC, UNL-CONICET) y Profesora Adjunta en el Departamento de Ingeniería de Procesos de la Facultad de Ingeniería Química (FIQ, UNL), en Santa Fe (Argentina). Ha realizado contri-buciones en el área de modelado y simulación de procesos de la industria de alimentos. Es Representante de UNL en el Comité Académico Agroalimentario de AUGM desde 2010 y Coordinadora del mismo desde 2018.

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INSTITUIÇÕES pARTICIpANTES

ARGENTINA

Consejo de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (INTA) Universidad Católica de Córdoba (UCC)

Universidad Nacional de Córdoba (UNC) Universidad Nacional de La Rioja (UNLaR) Universidad Nacional de Rosario (UNR) Universidad Nacional de San Luis (UNSL) Universidad Nacional del Litoral (UNL) Universidad Nacional del Nordeste (UNNE) Universidad Nacional del Sur (UNS)

BRASIL

Centro Nacional de Pesquisas em Agrobiologia (CNPAB-EMBRAPA) Universidade Federal de Lavras (UFLA)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)

Universidade Federal do Paraná Setor Palotina (UFPR)

CHILE

Universidad de Playa Ancha (UPLA)

pARAGUAY

Universidad Nacional de Asunción (UNA)

URUGUAY

Instituto Nacional de Investigación Agropecuaria (INIA) Universidad de la República (UdelaR)

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1-Desenvolvimento sustentável na produção agroalimentar da 3 América do Sul

Marciel J. Stadnik, Aline C. Velho, Susana E. Zorrilla

2-Conservação da biodiversidade nos agroecossistemas 19 Renata Evangelista de Oliveira & Luiz Fernando D. de Moraes

3-Fertilidade do solo e nutrição na produção e sanidade de plantas 35 Cledimar R. Lourenzi, Jucinei J. Comim, Arcângelo Loss,

Paulo A. A. Ferreira, Monique Souza, Lucas Benedet, Guilherme W. Ferreira, Lucas D. Giumbelli

4-Manejo ecológico de pragas e doenças na produção agroalimentar 53 Aline C. Velho, Marciel J. Stadnik, Alex S. Poltronieri,

Pedro Mondino

5-Cultivo de plantas medicinais: integração do conhecimento 73 tradicional e científico

Roberta Paulert, Patricia da Costa Zonetti, Juliano Cordeiro, Carina Kozera, Suzana Stefanello

6-Productos del nordeste argentino destinados a infusiones 89 Marcos G. Maiocchi, Elisa M. Petenatti, Luis Á. Del Vitto

7-Metodologías para el desarrollo de ecofungicidas basados 111 en aceites esenciales

Elena Perez Faggiani & Eduardo Dellacasa Beltrame

8-Sistemas agroforestales y silvopastoriles 131 Mónica Dorado, Mónica Arias, Marcos Sánchez

9-Estrategias para una producción sustentable en ganadería 149 María Verónica Aimar

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10-Repensando los territorios para generación de bioenergía 169 Gabriela Cristiano & Marianela de Batista

11-Paisajes productivos 181 Ana Ruth Meehan, Alicia Elena Bobone, María Virginia Piñero,

Isabel Alejandra Francia

12-Quesos artesanales ancestrales y el agregado de valor 193 Olga Myriam Vasek & Natan de Jesus Pimentel Filho

13-Economía circular: valorización de residuos orgánicos 213

provenientes del sector agroalimentario Gabriela Cristiano

14-Utilización de residuos de la industria agroalimentaria para 235 el desarrollo de biomateriales

Agustín González & Cecilia I. Alvarez Igarzabal

15-Técnicas amigables con el medio ambiente para la 249 descontaminación de frutas finas

Franco Van de Velde, María P. Méndez-Galarraga, Andrea M. Piagentini, María E. Pirovani

16-Inocuidad alimentaria: una necesidad camino a la 267 sustentabilidad

Laura Mereles & Eleuterio Umpiérrez

17-Pérdidas en la cadena de producción y comercialización 287 de alimentos

Rosana Rotondo, Mauricio O. Mackinson, David Balaban, Rodolfo Grasso, María C. Mondino, Paula Calani, Eduardo Vita Larrieu, Gabriela Montian

18-Alternativas de mercado para o desenvolvimento da 307

agricultura familiar

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1

AGROALIMENTAR DA AMÉRICA DO SUL

Marciel J. Stadnik1, Aline C. Velho1, Susana E. Zorrilla2,3 1 Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Centro de Ciências Agrárias, Programa de

Pós-graduação em Agroecossistemas, Rod. Admar Gonzaga, 1346, 88034-001, Florianópolis-SC, Brasil. E-mail: [email protected]

2 Universidad Nacional del Litoral (UNL), Facultad de Ingeniería Química, Santiago del Estero

2829, (3000) Santa Fe, Argentina.

3 Universidad Nacional del Litoral-CONICET, Instituto de Desarrollo Tecnológico para la Industria

Química, Güemes 3450, (3000) Santa Fe, Argentina. E-mail: [email protected]

INTRODUÇÃO

Diariamente acompanhamos notícias sobre as instabilidades das eco-nomias, a destruição ambiental e a degradação social em diferentes países, os quais almejam acelerar suas economias, na expectativa de gerar mais riquezas que possam atender as necessidades de suas populações. O desenvolvimento é, portanto, necessário. No entanto, há necessidade de se respeitar o meio ambiente e as relações de trabalho, pois dependemos disso para garantir o equilíbrio e sobrevivência do planeta. Encontrar um modelo que possa favo-recer o desenvolvimento sustentável não é algo simples, pois muitas vezes os interesses econômico, social e ambiental parecem ser antagônicos. O desenvolvimento sustentável é considerado atualmente o paradig-ma dominante que guia o planejamento do desenvolvimento mundial (Costa 2010a). Na verdade, por ser uma atividade fornecedora de alimento, fibras, biocombustíveis e outros bens básicos de consumo, a agricultura desempenha um papel central na elaboração de estratégias para a solução dos problemas da humanidade dentro da perspectiva do desenvolvimento sustentável (FAO 2014). Por outro lado, transformar produtos primários em produtos de valor agregado é um desafio indispensável para o desenvolvimento dos países da região. Neste contexto, o presente capítulo aborda inicialmente alguns aspec-tos conceituais e o processo de transição para o desenvolvimento sustentável na produção agroalimentar. Em seguida, discute estratégias para implementa-ção da sustentabilidade, bem como metodologias e indicadores adotados na sua avaliação. Por fim, discorre sobre alguns desafios e oportunidades dentro da realidade da América do Sul.

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1. DEFINIÇÃO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O conceito de desenvolvimento sustentável foi consagrado no rela-tório “O Nosso Futuro Comum”, publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, chefiada pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. O Relatório Brundtland (1987), como ficou conhecido, definia desenvolvimento sustentá-vel como: “(...) o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das próximas gerações satisfazerem as suas próprias necessidades”. Isso significa em outras palavras que as pessoas, agora e no futuro, podem apresentar um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso racional dos recursos da terra e preservando as espécies e os seus ha-bitats naturais. Portanto, a noção de desenvolvimento sustentável implica em um compromisso de solidariedade com as gerações do futuro, no sentido de assegurar a transmissão do patrimônio capaz de suprir as suas necessidades. Implica também na integração equilibrada dos sistemas econômico, sócio-po-lítico e ambiental, e dos aspectos institucionais relacionados com o conceito muito atual de boa governança.

Os resíduos sólidos e efluentes líquidos tanto urbanos como rurais constituem em um dos maiores problemas ambientais da atualidade. Os núme-ros só fazem crescer e os problemas aparecem com todos os tipos de resíduos. Por outro lado, o interesse por esses materiais orgânicos na agricultura vem chamando atenção do ponto de vista de reciclagem de nutrientes, ambiental e econômico. Por isso, é fundamental adotar políticas públicas e métodos que permitam reciclar os resíduos agropecuários. Neste contexto, os capítulos 10 e 13 deste livro tratam respectivamente da produção de energia renovável e va-lorização de resíduos orgânicos provenientes do setor agropecuário, enquanto que o capítulo 14 aborda a utilização de resíduos da indústria agroalimentar para o desenvolvimento de biomateriais.

Desenvolvimento sustentável é um conceito sistêmico que incorpo-ra os aspectos de um sistema de produção e consumo em massa no qual a preocupação com a natureza deve ser sempre otimizada. Na verdade, existem vários conceitos sobre sustentabilidade. Costa (2010a), após a análise de um conjunto de definições apresentadas na literatura, conclui que (a) é impossível formular uma definição universal de desenvolvimento sustentável (ou susten-tabilidade), pois a diversidade de interesses, problemas, perspectivas e escalas relacionadas é muito grande para um consenso; (b) a transição para a susten-tabilidade é um processo permanente e dinâmico, pois ela, de fato, nunca será alcançada; (c) a sustentabilidade não se esgota à questão ambiental, como usualmente tem sido associada. Para caracterizá-la é imprescindível ter uma perspectiva global que considere também, os aspectos econômicos e sociais, apesar destes últimos serem, geralmente, negligenciados.

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A sustentabilidade procura harmonizar três componentes principais da área ambiental, econômica e social, de modo que cada um participe igualita-riamente no modelo (Fig. 1). Os componentes (ambiental, econômico e social) interagem por sua vez entre si criando realidades distintas, onde se busca como resultado um desenvolvimento socioeconômico equitativo, socioambiental su-portável e econômico-ambiental viável. Por fim, quando os três interagem de modo equilibrado, temos o que chamamos de desenvolvimento sustentável, onde há sustentabilidade ambiental, econômica e sociopolítica (Dalal-Clayton 2019). Em outras palavras, pode-se dizer que o desenvolvimento é ambiental-mente (ecologicamente) sustentável quando os recursos naturais são usados de maneira racional, e quando os custos de produção não excedem o seu valor comercial e socialmente justo (equitativo) quando atende às necessidades cul-turais e materiais das pessoas a longo prazo. SOCIAL AMBIENTAL ECONÔMICO suportável equitativo viável

S

Figura 1. Diagrama representativo do desenvolvimento sustentável, contendo os componentes das áreas ambiental, social e econômica, bem como as qualificações desejadas resultantes de suas interações (interse-ções). S: Sustentável.

A proteção do meio ambiente e a preservação dos recursos naturais são extremamente importantes na promoção da sustentabilidade das gera-

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ções futuras. Assim, a produção de agroalimentos deve respeitar as leis eco-lógicas para que a agricultura e o meio ambiente estejam em harmonia. Por outro lado, sociedades sem justiça social e equidade econômica são instáveis e insustentáveis ao longo do tempo. Em geral, tais sistemas são caracterizados pela ocorrência de conflitos sociais que resultam em danos severos aos com- ponentes ambiental e econômico. Por fim, o componente econômico influen-cia diretamente a atividade e a permanência dos agricultores no meio rural. Para isso, a produção agrária deve promover retornos apropriados, de modo a possibilitar o uso mais eficiente dos recursos disponíveis, a condução a siste-mas autossuficientes e viáveis ao longo prazo (Costa 2010a).

2. PROCESSO DE TRANSIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A realização de uma agricultura sustentável tem se mostrado de gran-de complexidade e ambiguidade, e que em termos práticos somente pode ser implementada gradativamente através de uma série de condições. O desen- volvimento sustentável é a solução que traz paz e segurança, estabilidade eco-nômica e política a nível macro e microrregional. No entanto, a determinação de definições e metodologias operacionais que permitam a aplicação destes conceitos no processo de tomada de decisão tem apresentado uma série de di-ficuldades, revelando-se uma clara necessidade de aprofundamento da noção dos mesmos. Verifica-se a existência de muitas definições distintas, com pres-supostos e dimensões semelhantes, concluindo-se que se tratam de conceitos dinâmicos ainda em construção (Costa 2010a). De uma forma geral, o desenvolvimento sustentável pressupõe: (a) a preservação do equilíbrio global e das reservas de capital natural; (b) a rede-finição dos critérios e instrumentos de avaliação de custo-benefício, de forma que se reflita sobre os efeitos sócio-econômicos e os valores reais do consumo e da conservação; (c) a distribuição e utilização equitativa dos recursos entre as nações e as regiões tanto a nível global como regional. O processo de transição de agricultura convencional para agricultura sustentável adquire enorme complexidade, tanto tecnológica como metodoló-gica, dependendo dos objetivos e das metas que se estabeleçam, para atingir o nível de transição proposto. Os níveis de transição não são lineares, herméticos ou determinados pelo tempo, sendo necessário entender que se trata de um processo de evolução constante (Abreu et al. 2012).

De acordo com Gliessman (2007), pode-se distinguir quatro níveis fundamentais no processo de transição ou conversão para agroecossistemas sustentáveis. O primeiro diz respeito ao incremento da eficiência das práticas convencionais para reduzir o uso e consumo dos chamados inputs externos, geralmente caros e escassos, e que muitas vezes são nocivos ao meio ambien- te. Esta tem sido a principal ênfase da investigação agrária convencional, re-sultando disso muitas práticas e tecnologias que ajudam a reduzir os impactos negativos desse tipo de agricultura. Como exemplo, pode-se citar os Sistemas

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de Produção Integrada e as Boas Práticas (Garrido et al. 2004) entre outros, os quais têm contribuído para reduzir o uso de insumos, tais como fertilizantes minerais e de agrotóxicos nas lavouras, diminuindo assim os custos de produ-ção e aumentando a inocuidade dos alimentos colhidos. Discussões referentes à fertilidade do solo e nutrição de plantas são abordadas no capítulo 3, en-quanto à inocuidade alimentar se encontram discutidas nos capítulos 15 e 16. Além disso, Boas Práticas Pecuárias são apresentadas no capítulo 9 deste livro. O segundo nível da transição se refere à substituição dos inputs e prá-ticas convencionais por práticas alternativas. A meta seria a substituição de insumos e práticas intensivas por outras mais benignas sob o ponto de vista ecológico. Algumas destas práticas relacionadas ao manejo de doenças e pra-gas de plantas, bem como ao desenvolvimento de ecofungicidas podem ser encontradas nos capítulos 4 e 7, respectivamente. Neste nível, a estrutura bá-sica do agroecossistema seria ainda pouco alterada, podendo ocorrer, por isso, problemas semelhantes àqueles que se verificam nos sistemas convencionais. Dando prosseguimento, o terceiro e mais complexo nível da transição é representado pelo redesenho dos agroecossistemas, para que estes funcio- nem em base a um novo conjunto de processos ecológicos. Nesse caso, procu-ra-se eliminar as causas daqueles problemas que não foram resolvidos nos dois níveis anteriores (Gliessman 2000, 2007). Em termos de pesquisa científica, já foram realizados bons avanços em relação à transição do primeiro ao segundo nível, porém os estudos visando alcançar o terceiro nível são recentes e ain-da incipientes. Neste livro, os capítulos 10 e 11 contribuem debatendo alguns aspectos dos temas de desenvolvimento territorial sustentável e de paisagens produtivas. No quarto nível de transição, busca-se restabelecer uma ligação direta entre produtor e consumidor, que também possui sua complexidade e espe-cificidades. Algumas das alternativas de mercado para o desenvolvimento da agricultura familiar encontram-se discutidas no capítulo 18 deste livro. Além disso, aborda-se no capítulo 17 métodos para minimização de perdas na cadeia de produção e comercialização de alimentos. Vale por fim dizer que não há, em termos práticos, impedimento em se trabalhar em mais de um nível de transi-ção simultaneamente.

3. ESTRATÉGIAS PARA PROjETOS VISANDO A SUSTENTABILIDADE

Estratégias objetivando a sustentabilidade de um sistema deve se con-verter em desenvolvimento sustentável por meio de objetivos, indicadores, ações e avaliação contínua de resultados. A característica de uma estratégia de sustentabilidade é a sua abordagem em programas comuns definindo inicial- mente objetivos, que servem como diretrizes para ações na política e na socie- dade, mas sem a força vinculativa de regras comuns, como leis ou regulamen-tos. Em primeiro plano, há processos de aprendizado e melhoria contínua. A

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estratégia central é criar um modelo de retroalimentação que permite sempre evoluir, ou seja, aperfeiçoar o sistema.

O aperfeiçoamento contínuo do sistema é possível graças aos aspectos de tomada de decisão participativa, bem como aos processos de planejamen-to, implementação e monitoramento das estratégias de sustentabilidade. O monitoramento das ações e dos indicadores previamente selecionados, após a sua sumarização e avaliação, podem conduzir a alterações, as quais fluem então em um novo ciclo (Fig. 2). Os elementos centrais no círculo devem apoiar o desenvolvimento, o que enfatiza tanto o significado especial do processo de pesquisa e aprendizado como também mostra a necessidade de novas for-mas de participação, comunicação e coordenação das atividades (Masera et al. 2000, FAO 2014, von Hauff 2014). Um ponto central no processo inteiro é a compreensão de que o homem se situa no centro, mas também há neces-sidades vitais e funções enriquecedoras provenientes das experiências e da natureza. 1.DECISÃO 3. IMPLEMENTAÇÃO 2. P LA NE jA ME NT O 4. MO NI TO RA ME NT O Integração geral, controle e estímulo Avaliação e Priorização Consenso conceitual e delimitação de objetivos Sumarização dos resultados relevantes Monitoramento dos

indicadores seleção de indicadoresInvestimento e Comunicação Participação Coordenação Informação Aprendizagem Novo ciclo

Figura 2. Processo contínuo de aperfeiçoamento de sistemas de produção

sustentável, contendo as fases de decisão, planejamento, implemen-tação e monitoramento de estratégias adotadas. Adaptado de von Hauff (2014) e Masera et al. (2000).

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3.1 Indicadores

Avaliar o grau de desenvolvimento sustentável alcançado em um siste- ma de produção não é uma tarefa simples, porém é essencial para que se pos-sa promover uma agricultura sustentável. Para isso, faz-se necessário conhecer as metodologias e indicadores usados nas avaliações de sustentabilidade que mostrem explicitamente as vantagens e desvantagens ambientais, sociais e econômicas das diferentes estratégias e sistemas de produção. Um indicador de sustentabilidade ambiental permite a partir de sua interpretação definir se a condição de um sistema de produção é ou não sus-tentável. Os assim denominados indicadores de sustentabilidade, isolados ou integrados em modelos mais complexos, constituem, portanto, em uma impor-tante ferramenta de avaliação da sustentabilidade (Masera et al. 2000). Eles são encontrados na literatura e vêm sendo usados empiricamente. Entretanto, tanto a identificação dos mesmos como a sua forma de medição podem afetar o valor obtido e a avaliação da sustentabilidade. Neste sentido, Costa (2010c) apresentaram algumas considerações relevantes relativas ao desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade, que permitem concluir sobre a infinidade de indicadores passível de serem identificados em diversas metodologias para a avaliação da sustentabilidade, bem como a limitação dos critérios usados quando da sua seleção e medição.

De modo geral, pode-se dizer que os indicadores de sustentabilidade devem refletir a integração do desenvolvimento social, ambiental e econômi-co bem como as suas inter-relações. Os indicadores econômicos existem há várias décadas, mas são insuficientes para determinação do bem-estar social ou do nível de desenvolvimento dos povos. Mais tarde se ampliou esses in-dicadores em diferentes áreas de desenvolvimento das sociedades, devido à preocupação crescente com a avaliação da sustentabilidade (Marzall e Almeida 2000). De acordo com van Cauwenbergh et al. (2007), os indicadores de sus-tentabilidade devem descrever aspectos dos agroecossistemas, ou condições de gestão indicativas do estado do sistema de uma forma objetiva e verificá-vel. Trata-se de um importante ponto de partida na gestão de um sistema de exploração. Masera et al. (2000) propõem a seleção de indicadores por uma equipe multidisciplinar, e que esta seja baseada na seleção participativa dos próprios envolvidos da avaliação. Como ainda lembrado por van Cauwenbergh et al. (2007), os indicadores podem mudar com o passar do tempo, em função de novas demandas originadas por novos conhecimentos científicos e/ou por novas preocupações sociais. Nem tudo que influencia a sustentabilidade é um bom indicador (Cos-ta 2010c). Os indicadores descrevem um processo específico e são particulares a esses processos. Portanto, não há um conjunto de indicadores universais que possam ser adotados a qualquer realidade. Os indicadores devem refletir os objetivos delineados no início do processo e serem construídos e monitorados de uma forma participativa (Deponti et al. 2002).

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Costa (2010c) sistematizou alguns dos principais atributos, critérios de diagnóstico, indicadores e índices para avaliação da sustentabilidade dos sistemas agropecuários, dentro das áreas de avaliação ambiental, econômica e social. Os atributos são propriedades inerentes aos sistemas e servem para guiar a análise de aspectos relevantes. Os critérios de diagnóstico, por sua vez, consistem num nível mais detalhado dos atributos. Em sua revisão, o autor classificou um total de 52 indicadores/ índices passíveis de serem utilizados, sendo 19 ambientais, 13 sociais e 20 econômicos; agrupados em 14 critérios de diagnóstico e 5 conjuntos de atributos de sustentabilidade. Por exemplo, no que concerne ao atributo estabilidade/ resiliência, usando o critério de di-versidade, pode-se adotar os indicadores/ índices econômicos diversificação de atividades (pluriatividade) e de produtos vendidos, bem como o indicador ambiental diversidade de espécies exploradas.

3.2 Metodologias de avaliação de sustentabilidade

Existem diversas propostas metodológicas para avaliar o desempenho em termos de sustentabilidade de países, regiões, locais e, mesmo, sistemas de produção. Essas metodologias podem, no entanto, adotar diferentes abor-dagens. A maioria desses procedimentos disponíveis leva em consideração principalmente aspectos ambientais, enquanto os aspectos econômicos e so-ciais são deixados em um segundo plano (Costa 2010b). De um modo geral, pode-se ainda dizer que muitas metodologias usadas têm ainda um certo grau de subjetividade, pois tanto a forma de monitoramento como a seleção dos in-dicadores não é algo rígido, variando dentro do contexto em que se encontram inseridos. Segundo Marzall e Almeida (2000), as análises de sustentabilidade, mesmo relacionando indicadores que abordam diferentes dimensões, concen-tram-se nos indicadores e não em suas possíveis interações. A realização de uma análise sistêmica, permitindo o entendimento de quais e como se estabe-lecem as interações, possibilitaria tirar o melhor proveito delas. O desenvolvimento de metodologias e modelos usados na mensura-ção da sustentabilidade é algo relativamente recente, apresentando por isso ainda dificuldades para retirar afirmações conclusivas. As principais propostas metodológicas internacionais para avaliar a sustentabilidade da produção de agroalimentos foram sumarizadas e discutidas por Costa (2010b), a saber: (a) SARN - Sostenibilidad de la agricultura y los recursos naturales; (b) FESLM – Framework for evaluation of sustainable land management; (c) MESMIS – Mar-co para la evaluación de sistemas de manejo de recursos naturales mediante indicadores de sustentabilidad (Masera et al. 2000); (d) KUL – Kriterien umwel-tvertraglicher landbewirtschftung; ARBRE – Arbre de l’exploitation agricole durable; (e) DIALECTE – Diagnostic agri-envionnmental liat environnement et contrat territorial d’exploition; (f) IDEA – Indicateurs de durabilitie des exploi-tations agricoles; INDIGO – Indicateurs de diagnostic global a la parcele; (g) DIALOGUE – Diagnostic agri-environmental de l’exploitation agricole; (h) SAFE

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– Sustainability assessment of farming and the envionment; RISE – Respon-se-inducing sustainability evaluation e SSP – Sustainability solution space. Por fim, o autor conclui que, na maioria dos casos, inexiste qualquer tipo de inte-ração entre essas metodologias quando da sua elaboração, mas que uma visão integral das mesmas seria desejável pois poderia gerar melhores alternativas metodológicas.

4. NOVOS PARADIGMAS NA PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL DE ALIMENTOS

Paradigma é um conceito das ciências e da epistemologia (a teoria do conhecimento) que define um exemplo típico ou modelo para algo. Em re-sumo, é a representação de um padrão a ser seguido. Os termos paradigma e mudança de paradigmas se tornou popular após a publicação do livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” pelo físico e filósofo da ciência Thomas S. Kuhn, em 1962. Para ele, as realizações científicas são paradigmáticas pois geram modelos que, por períodos mais ou menos longos e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusi-vamente na busca de soluções para os problemas por elas criados (Kuhn 1970, Mendonça 2012). A agricultura é uma atividade que permite não somente produzir ali-mentos e recursos renováveis, mas também possibilita o desenvolvimento do meio rural. Como consequência, a produção agrária tem desenhado paisagens diversas e de grande beleza e, podendo contribuir para a preservação da bio- diversidade através da utilização das terras de uma forma adequada às con-dições naturais (agricultura tradicional ou familiar) (Costa 2010a). Por outro lado, o aumento exponencial da população, a adoção de políticas agrárias para produção intensiva e o estabelecimento de novos padrões de consumo têm originado um outro tipo de agricultura (agricultura convencional) que vem re-fletindo negativamente sobre o meio ambiente e as relações sociais existentes no campo. Como consequência, vale destacar o esgotamento dos recursos na-turais, a diminuição da biodiversidade e o êxodo rural. As consequências negativas associadas a esses modelos de produção têm induzido a procura de paradigmas alternativos para o desenvolvimento de uma agricultura que visa a sua sustentabilidade. Como exemplos de novos modelos, movimentos (linhas de pensamento) alternativos ou de agricultura não industrial, vale citar: a Agricultura Biodinâmica, a Agricultura Biológica, a Agricultura Ecológica, a Agricultura Natural, a Agricultura Regenerativa, a Per-macultura, entre outros (Assis 2005, Darolt 2002). De acordo com Darolt (2002), o movimento orgânico representa a fu- são de diferentes correntes de pensamento tais como a agricultura biodinâmi- ca, biológica, orgânica e natural. Possivelmente, a origem desse tipo de produ-ção de alimentos seja na Europa. Contudo, somente a partir do início do século XX, esses movimentos começaram a se tomar mais organizados.

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A Agricultura Orgânica baseia-se na melhoria da fertilidade do solo por um processo biológico natural, com uso de matéria orgânica. Marcadamente influenciada pela teoria da Trofobiose (Chaboussou 1987), é totalmente con- trária ao uso de agrotóxicos e adubos químicos solúveis. Apresenta um conjun- to de normas bem definidas para produção e comercialização da produção de-terminadas e aceitas a nível nacional e internacional, por meio de um processo de certificação. A Agroecologia, enquanto disciplina teórica, com uma base integrado-ra das ciências como agronomia, ecologia e outras de caráter socioeconômico analisa os efeitos das tecnologias sobre os sistemas de produção agrícola e a sociedade como um todo (Altieri 1987). Faz a aplicação dos princípios ecológi-cos no manejo de agroecossistemas sustentáveis (Gliessman 2000). Pode ser entendida também como um novo enfoque científico que reúne e sintetiza conhecimentos de diferentes áreas em uma abordagem sistêmica, com forte componente ético, para geração de novas estratégias para o desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis. Outra abordagem da Agroecologia é como uma ciência capaz de estudar, analisar, desenhar e avaliar agroecossistemas, com objetivo de permitir a implantação de uma agricultura com maior nível de sustentabilidade (Darolt 2002). Segundo Altieri (1987, 1995) o redesenho dos agroecossistemas e a agrobiodiversidade são fundamentais na Agroecologia, sendo que quatro com- ponentes desempenham um papel central para um agroecossistema susten-tável: (a) o uso da cobertura vegetal; (b) o aumento de matéria orgânica no solo para promover atividades bióticas; (c) a aplicação de práticas associadas ao ciclo de nutrientes tais como as rotações, lavouras em consórcio e o uso de leguminosas, etc., e (d) o manejo de pragas e doenças através de controle biológico e da biodiversidade. A Agroecologia é tratada como um enfoque científico de estudos dos agroecossistemas, mas existem interpretações que não são exclusivas, mas complementares: como aquelas relacionadas ao campo científico, movimento sociais e práticas agrícolas (Wezel et al. 2009). De forma semelhante, Agricultu-ra orgânica não pode ser resumida como um conjunto de práticas certificadas. Todavia, sob o ponto de vista da prática agrícola, onde os agricultores assu- mem uma atitude pragmática, as noções de Agricultura Orgânica e Agroecolo-gia muitas vezes se confundem (Abreu et al. 2012). Sistema Agroflorestal ou Agrofloresta se constitui em um sistema que reúne culturas de importância agronômica consorciadas com a floresta. Um sistema agroflorestal é um sistema de produção de alimentos que é sustentá-vel em termos ecológicos, e ainda faz a recuperação de uma floresta (Laura et al. 2015). As agroflorestas representam sistemas de uso e ocupação do solo em que plantas lenhosas perenes (árvores e arbustos) pertencentes às mais varia-das espécies, são manejadas em consórcios com plantas herbáceas, culturas agrícolas e/ou forrageiras e/ou em integração com animais, em uma mesma

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área, de acordo com um arranjo espacial predefinido, ocorrendo inúmeras in- terações ecológicas entre os elementos da composição do sistema, caracteri-zando assim um modelo agroecológico de sistema integrado (Laura et al. 2015, Miccolis et al. 2016). Apesar da crescente utilização do uso de Sistemas Agroflorestais em países da América do Sul, por conta da busca por um sistema de exploração agrícola sustentável em que se possa produzir alimentos sem prejuízos ao meio ambiente, é necessário estudar uma melhor adequação técnica dos modelos escolhidos às inúmeras realidades presentes no subcontinente. Neste sentido, são apresentadas no capítulo 8 algumas experiências de sistemas agroflores-tais e silvo pastoris aplicadas na região de Córdoba, Argentina. Em resumo, o ideal compartilhado entre as diferentes correntes que formam a base da agricultura orgânica/ agroecologia é a busca de um sistema de produção sustentável no tempo e no espaço, mediante o manejo e a prote-ção dos recursos naturais, sem a utilização de produtos químicos agressivos à saúde humana e ao meio ambiente, mantendo o incremento da fertilidade e a vida dos solos, a diversidade biológica, bem como respeitando a integridade cultural dos agricultores. A transição para sistemas de produção agroecológica deve considerar que nem todos os sistemas em transição são altamente produtivos, pois mui-tos deles envolvem agricultores tradicionais. Segundo Dal Soglio (2016), esses agricultores com baixa produtividade média, mesmo adotando técnicas mo-dernas, não lograriam produtividade elevada. Nesses casos, a transição para modelos de base ecológica significaria incrementos significativos de produti-vidade. Por outro lado, além da produtividade, outros fatores, entre os quais a sustentabilidade ambiental, a equidade, a autonomia e a estabilidade, tam-bém deveriam ser objeto de comparação.

5. DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA O DESENVOLMENTO SUSTENTÁ-VEL NA AMÉRICA DO SUL

Em um mundo globalizado, onde o livre comércio permite que alimen-tos sejam importados rapidamente e a baixo custo, os produtores rurais se encontram numa situação econômica bastante instável e vulnerável. Os preços de seus produtos já não mais estabelecidos apenas pelos consumidores locais, mas agora por mercados e bolsas de valores longínquos, os quais favorecem a competição com o objetivo de oferecer cada vez mais produtos de qualidade a baixo custo. Ao longo de sua história, a América do Sul vem sofrendo ondas de instabilidade política e econômica, que atingem seus países com maior ou menor impacto. Se não bastassem as vicissitudes econômicas, somam-se as ameaças ambientais devido às mudanças climáticas. Dentro deste cenário, a busca pelo desenvolvimento sustentável pode contribuir não somente para

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melhorar a qualidade de vida de seus habitantes e mitigar os danos ambien-tais, mas também construir uma nova realidade de esperança para as futuras gerações. Com aproximadamente 12% da superfície terrestre e 6% da população mundial, a América do Sul é um subcontinente que envolve a parcela meridio-nal do continente americano, com aproximadamente quatro quintos abaixo da Linha do Equador. Seu território é marcadamente caracterizado ao oeste, pela longa e imponente cadeia montanhosa dos Andes, que chega acima de 6.000 m de altitude em alguns pontos. Neste imenso território, localiza-se predomi-nantemente ao norte, a densa e úmida Floresta Amazônica, enquanto na área central predominam os terrenos alagados que abarcam o Pantanal brasileiro, e o Gran Chaco. Ao centro-sul, planícies (Pampa) e cerrados, enquanto na costa leste, os resquícios da floresta atlântica, que desapareceu quase por completo para favorecer a ocupação industrial e agrícola. Na América do Sul, devido as condições climáticas, de relevo e de colo-nização, há uma distribuição populacional desigual no território. Existem áreas muito povoadas, como aquelas localizadas na faixa litorânea voltada, assim como nos planaltos localizados nos Andes Centrais e Setentrionais. Por outro lado, existem áreas pouco habitadas, como aquelas de clima árido, como no Deserto do Atacama, e de clima frio de montanha, como nos Andes. São ain-da pouco habitadas também as áreas de floresta equatorial. Contudo, devido ao papel fundamental na regulação climática global, o desmatamento destas áreas tem colocado em risco não somente a sobrevivência a longo prazo das populações locais, mas também de populações situadas em regiões distantes. A conservação desse Bioma com a maior biodiversidade terrestre do mundo não deve ser vista somente como um desafio, mas sim como uma oportuni-dade para aplicar os conhecimentos de desenvolvimento sustentável (Assad 2016). Lá existem inúmeras espécies vegetais que podem ser exploradas de modo racional e contribuir para a solução de vários problemas da humanidade. A população sul-americana possui uma composição étnica diversa ori-ginada de povos pré-colombianos e de imigrantes que ao longo dos séculos vêm se miscigenando em maior ou menor grau dentro de cada território e país, criando um mosaico de culturas e realidades. Como consequência, o subconti-nente é rico em conhecimento tradicional acumulado ao longo de sua história. A revalorização de produtos vegetais pode ser incrementada quando a ciência contribui na análise desse tipo de conhecimento. Neste sentido, os capítulos 5 e 6 trazem à luz as experiências do cultivo de chás e plantas medicinais na região oeste do Paraná (Brasil) e do Nordeste Argentino, respectivamente. A América do Sul possui características bastante variadas, tanto em seus aspectos físicos e climáticos, quanto culturais. Essa diversidade possibili-ta a produção de alimentos com características especiais, as quais podem ser exploradas comercialmente a fim de permitir aos agricultores uma maior valo-rização de seus produtos. O capítulo 12, sobre queijos artesanais, exemplifica essa oportunidade que está sendo colocada em prática na Argentina e Brasil.

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Quanto ao clima, estão presentes no subcontinente os climas equato- rial, tropical subtropical e temperado. Contudo, existem particularidades cli-máticas na América do Sul por conta das condições do seu relevo, como o clima frio de montanha e ainda o semiárido, bem como o desértico. A América do Sul possui uma ampla abundância de recursos hídricos, no qual estão presentes importantes bacias hidrográficas, como a Bacia Amazônica e a Bacia Platina. Os rios que formam a Bacia Amazônica drenam a maior parte dos territórios dos países sul-americanos, sendo que o principal rio da bacia é o rio Amazonas, o qual nasce nos Andes e percorre mais de 6000 Km até chegar ao Oceano Atlân-tico. Em relação à Bacia Platina, o rio de principal é o Rio Paraná. Em função da disponibilidade hídrica e das condições climáticas variadas na América do Sul, existem muitos tipos de vegetação no subcontinente. Há uma enorme biodi- versidade muito pouco explorada ainda e que merece atenção especial no sen-tido de preservá-la e utiliza-la de modo sustentável. O capítulo 2 discute alguns fundamentos relacionados à implantação e manejo de agroecossistemas com vistas à conservação da biodiversidade. Bioma pode ser considerado uma unidade biológica dentro de um es- paço geográfico cujas características específicas são definidas pelo macrocli- ma, fitofisionomia, altitude, solo e outros fatores. É um conjunto de ecossiste-mas, habitats ou comunidades biológicas com certo nível de homogeneidade. As classificações dos biomas variam, entretanto, de autor para autor, e mesmo de país para país. Na literatura biogeográfica Brasileira (incluindo trabalhos do IBGE e Embrapa), o termo “bioma” é muitas vezes usado como sinônimo de “província biogeográfica”, uma área determinada com base na sua composição taxonômica de espécies autóctones, e vem sendo aplicados às áreas da Amazô-nia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal (IBGE 2019), mas que estão inclusos em outras denominações de biomas terrestres de acordo com o uso de tal termo na literatura internacional (McGinley 2014).

Apesar de nomes ou classificações diferentes adotadas, muitos dos biomas são compartilhados por diferentes países sul americanos. Por exem- plo, a Amazônia ocupa além do território brasileiro, as Guianas, Suriname, Ve-nezuela, Equador, Peru e Bolívia; o Chaco é um grande bioma de floresta seca no centro da América do Sul, e que ocupa uma vasta planície entre o norte da Argentina, o Paraguai e a Bolívia, mas também invade porções dos estados brasileiros do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul que margeiam as áreas semi-alagadas do Pantanal; o Pampa está presente na Argentina e no Uruguai, mas também no Sul do Brasil; e muitos outros. Contudo, em termos de explo-ração sustentável, ainda são poucas as trocas de experiências entre os países que compartilham biomas comuns. Neste livro, o capítulo 6 apresenta plantas medicinais e aromáticas do nordeste argentino, mas que também ocorrem nos países limítrofes daquela região e em países vizinhos

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CONSIDERAÇõES FINAIS A aplicação dos conceitos de sustentabilidade é influenciada por uma dinâmica de componentes sócio-econômicos, ambiental, político cultural, em uma escala espacial e temporal variável. Em uma região continental como a América do Sul existem diferentes realidades que, se por um lado oferecem grandes desafios na concepção de modelos adequados de desenvolvimento, permitem por outro lado encontrar oportunidades inovadoras para a solução dos problemas locais e macrorregionais. A conciliação da exploração agrope-cuária e florestal com a preservação ambiental é uma tarefa complexa, pois envolve diversos componentes inseridos em realidades distintas. Porém, faz-se necessária para que se garanta o uso dos recursos da natureza pelas futuras gerações na América do Sul, contribuindo tanto para manter a população rural no campo com qualidade de vida, como também para criar um ambiente de estabilidade econômica e social na região. REFERêNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abreu LS, Bellon S, Bradenburg A, Ollivier O, Lamine C, Darolt MR, Aventurier P (2012) Relações entre agricultura orgânica e agroecologia: desafios atuais em torno dos princípios da agroecologia. Desenvolvimento e Meio Ambien-te, 26: 143-160. Altieri MA (1987) Agroecology: the scientific basis of alternative agriculture. Boulder, CO: Westview Press, 227p. Altieri MA (1995) El “estado del arte” de la agroecología y su contribución al desarrollo rural en América Latina. In: CADENAS MA (Org.). Agricultura y desarrollo sostenible. Madrid: MAPA, pp.151-2013. Assad ED (2016) Amazônia legal: propostas para uma exploração agrícola sus-tentável (relatório completo). EESP-Escola de Economia de São Paulo, 34p. http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/17673. Acesso 10 de outubro de 2019.

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AGROECOSSISTEMAS

Renata Evangelista de Oliveira1 & Luiz Fernando D. de Moraes2 1 Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Centro de Ciências Agrárias, Departamento de

Desenvolvimento Rural, Rodovia Anhanguera, km 174, 13.600-970, Araras-SP, Brasil. E-mail: [email protected]

2 Centro Nacional de Pesquisas em Agrobiologia (CNPAB) da Embrapa, Rodovia BR 465, km 7,

23891-000, Seropédica-RJ, Brasil. E-mail: [email protected]

INTRODUÇÃO

Uma grande proporção dos ecossistemas atualmente degradados, da- nificados ou destruídos são terras agrícolas, resultado de um processo histó-rico em que o avanço da agricultura causou a fragmentação, a degradação e a alteração de muitos ecossistemas naturais. Por isso, há que se pensar em uma forma diferente de se fazer agricultura, em que os agroecossistemas possam contribuir com a conservação da biodiversidade e a garantia de serviços ecos-sistêmicos. Este capítulo busca dialogar com essa nova perspectiva, e traz concei-tos relacionados à estrutura e funcionamento de agroecossistemas, bem como às diferentes “diversidades” que esses sistemas, tão distintos ao longo das múl-tiplas paisagens rurais existentes, podem ajudar a conservar. Traz a discussão sobre possíveis bases fundamentais e estratégias relacionadas à implantação e manejo desses agroecossistemas com vistas à conservação da biodiversida-de e à provisão de serviços ecossistêmicos, e enfatiza a participação social, a valorização do conhecimento tradicional e o desenvolvimento de práticas agroecológicas nesses processos.

1. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, BIODIVERSIDADE, PAISAGENS RURAIS E AGROECOSSISTEMAS Os principais esforços para a conservação da biodiversidade em nível global são coordenados pela Convenção sobre a Diversidade Biológica - CDB (Brasil, 1998), compromisso assinado por 168 países entre 1992 e 1993, no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desen-volvimento (ECO 92). Os objetivos da CDB são “a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e

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equitativa dos benefícios que se derivem da utilização dos recursos genéticos”. As diretrizes sobre o acesso aos recursos genéticos e a participação equitativa de benefícios têm seu marco regulatório reforçado pelo Protocolo de Nagoya. Complementarmente, o Protocolo de Cartagena aborda a biossegurança, aler- tando para os riscos à conservação da biodiversidade proporcionados por tec-nologias que manejam organismos vivos. Mais recentemente, a agenda da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (ONU 2015) prevê, dentre seus trinta objeti-vos, dois que se relacionam diretamente à agricultura e seus efeitos, que são “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável”; e “proteger, restaurar e promover o uso sustentável de ecossistemas terrestres (com destaque ao manejo florestal sus-tentável) combater a desertificação, deter e reverter a degradação das terras e deter a perda de biodiversidade”. Para atingir esses objetivos há que se repen-sar a forma de se fazer agricultura (Boody e DeVore 2009, Landis 2017, Knickel et al. 2018), e criar inovações nos manejos e na construção de novos arranjos produtivos em paisagens rurais. A área ocupada com agricultura no mundo cresceu 12% nos últimos 50 anos, hoje é de 1,6 bilhões de hectares (FAO 2011). As culturas agrícolas e pastagens são a forma preponderante de uso da terra em aproximadamente 40% da área do planeta (Barral et al. 2015), e têm sido, historicamente, gran-des impulsionadoras da perda de biodiversidade. As formas como a agricultura convencional afeta as espécies, são bastante complexas, e incluem a conversão de ecossistemas naturais em áreas agrícolas, a intensificação do manejo em paisagens culturais de longa data e a liberação de substâncias poluentes, entre outras (Dudley et al. 2017, Dudley e Alexandre 2017).

Conciliar demandas por alimentos e a necessidade de garantia de serviços ecossistêmicos é um dos nossos grandes desafios e, nesse ínterim, a biodiversidade é um dos pilares para a agricultura sustentável, a segurança alimentar e a saúde (Kazemi et al. 2018). O desenvolvimento dessa agricultura sustentável deve envolver a manutenção do equilíbrio entre a função produti-va, econômica e social das paisagens agrícolas e suas funções ecológicas. São necessárias estratégias voltadas a reduzir ou eliminar a perda de ecossistemas nativos, manter a diversidade genética de plantas e animais cultivados e de seus parentes silvestres, reconhecer a importância dos conhecimentos tradi- cionais e práticas de comunidades locais para a conservação e o uso sustentá-vel da biodiversidade, e garantir que as áreas sob agricultura sejam manejadas a fim de se conservar a biodiversidade nas paisagens rurais (FAO 2019). Os elementos básicos, formadores dessas paisagens, são os agroecossistemas. Os agroecossistemas são locais de desenvolvimento de múltiplas ações, de cultivo e criação de espécies, extrativismo e manejo, em diferentes modelos de agricultura. Podem contemplar características diversas quanto à

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composição de espécies e seus arranjos e modelos, quanto á dinâmica espa-cial e temporal das práticas de manejo, ter objetivos distintos e estar inseridos em múltiplas paisagens, com diferentes características culturais, históricas, es-truturais e dinâmicas (Gliessman 2009, Santos et al. 2007, Flores et al. 2016). Dependendo da composição, complexidade e tipo e intensidade de manejo realizado nos agroecossistemas, estes são capazes de prover todo um conjunto de bens e serviços, e apresentar um maior ou menor potencial de conservação da biodiversidade. 2.APORTES CONCEITUAIS

2.1 Sobre a Biodiversidade e Conservação

A Diversidade Biológica (ou Biodiversidade) é a riqueza da vida na Ter-ra, incluindo milhões de plantas, animais e microrganismos, os genes que eles contêm e os ecossistemas que constroem no ambiente. Pode também ser de- finida como a variedade da vida nos níveis de genes, de espécies e de ecos-sistemas. Comporta toda a variabilidade existente entre os organismos vivos (dentro e entre espécies) e os ecossistemas dos quais fazem parte (FAO 2019). Os sistemas agrícolas existentes no mundo se inserem na diversidade dos biomas, ecossistemas e culturas, e na história da domesticação de plantas e animais (Semeghini et al. 2017). Relacionados ao manejo desses sistemas estão atrelados alguns conceitos fundamentais e dimensões relacionados à di-versidade, tais como: Agrobiodiversidade: A Convenção sobre a Diversidade Biológica (Bra- sil 1998) a define como um termo amplo que inclui todos os componentes rele- vantes da biodiversidade que constituem os agroecossistemas. O termo refere-se à biodiversidade de agroecossistemas, juntamente com espécies de culturas e animais de criação, a variação genética dentro das populações e respectivas variedades e raças. Compreende os componentes genéticos, populacionais, de espécies, comunidades, ecossistemas e paisagens e as interações huma-nas com todos estes, e também inclui os habitats e espécies fora dos sistemas agrícolas que beneficiam a agricultura e melhoram as funções do ecossistema. (Jackson et al. 2005, Kazemi et al. 2018).

Para Zimmerer (2014) são quatro os seus principais componentes: (1) recursos genéticos para alimentação e agricultura, (2) biodiversidade que apoia os serviços ecossistêmicos da agricultura, (3) fatores abióticos, como o clima e (4) dimensões socioeconômicas e culturais. Jackson et al. (2005) citam como exemplos de componentes da agrobiodiversidade as características ge-néticas e populacionais de variedades tradicionais, raças e espécies silvestres relacionadas, que são importantes para a adaptação humana às mudanças socioeconômicas e ambientais; agenciamentos comunitários que limitam os danos causados pelas pragas às culturas, e o habitat do qual eles dependem; as funções do ecossistema, como ciclagem de nutrientes e retenção, que são de-rivadas da biodiversidade espacial e temporal por meio de rotações, pousio e

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plantio direto; e interações no nível da paisagem entre ecossistemas agrícolas e não agrícolas que aumentam a disponibilidade de recursos para a agricultura. Sociobiodiversidade: É um conceito que abarca a inter-relação entre a diversidade biológica e a de sistemas socioculturais. Refere-se a produtos ma- nejados por populações humanas, com base em conhecimentos locais e garan-tindo sua subsistência (Fé e Gomes 2015). A sociobiodiversidade diz respeito a conhecimentos, culturas e modos tradicionais de vida e de apropriação da natureza, que podem ser a base para a construção de novos modelos de ocu-pação, produção e geração de riqueza (Mazzetto Silva et al. 2009). Atividades como o extrativismo vegetal e o agroextrativismo refletem essa diversidade. O agroextrativismo une práticas agrícolas sustentáveis, de baixo impacto e alto valor social, com a extração de produtos nativos (Carvalhaes e Oliveira 2017).

Biodiversidade para alimentação e

agricultura (FAO 2019): É o sub-conjunto da biodiversidade que contribui de uma forma ou de outra para a agricultura e a produção de alimentos. Inclui as espécies de plantas e animais domesticados criados em sistemas agrícolas, pecuários, florestais e de aqua- cultura, os parentes silvestres de espécies domesticadas, outras espécies sel-vagens colhidas para alimentação e outros produtos. Abrange também o que é conhecido como “biodiversidade associada”, a vasta gama de organismos (plantas, animais e microrganismos) que vivem dentro e em volta dos sistemas de produção de alimentos e agricultura, sustentando-os e contribuindo para sua produção, com o desenvolvimento e provisão de serviços como poliniza-ção, proteção contra eventos climáticos extremos, conservação e manutenção da qualidade da água e dos solos. Por fim, inclui ainda os microrganismos utili-zados no processamento de alimentos e em vários processos agroindustriais. Quanto à conservação, também cabem alguns conceitos: Conservação in situ: conservação dos ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e a recuperação de populações viáveis de espécies em seus ambientes naturais e, no caso de espécies vegetais cultivadas ou domestica-das, no ambiente em que desenvolveram suas propriedades características (Conceito firmado pela Convenção da Biodiversidade e pelo Tratado Interna-cional sobre Recursos Fitogenéticos – Brasil 1998, Brasil 2008).

Conservação ex

situ: conservação de recursos fitogenéticos para a ali-mentação e a agricultura, fora de seu habitat natural (Brasil 2008). Como a “Conservação in situ” muitas vezes é associada à conservação de espécies em seus ambientes naturais, utiliza-se também o termo Conservação on farm para

espécies domesticadas, manejadas por agricultores. Para Santilli (2012), com a conservação “on farm” reconhece-se o papel que os agricultores e comunida-des locais desempenham na conservação da Agrobiodiversidade. 2.2. Sobre Agroecossistemas Partiremos inicialmente de três enfoques para o conceito de agroecos-

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sistemas, para iniciar nossa discussão sobre o papel desses sistemas na conser-vação da biodiversidade. A partir desses conceitos, podemos elencar algumas informações importantes.

Agroecossistemas são locais de produção agrícola compreendidos como ecossistemas

(Gliessman 2009): A premissa é a de que nossa compreen- são sobre os ecossistemas naturais proporciona a base segundo a qual pode-mos analisar os sistemas de produção de alimentos (no tocante aos seus níveis de organização ecológica, estrutura e funcionamento).

Agroecossistemas são ecossistemas cultivados socialmente geridos

(Petersen et al 2017): A forma de se compreender os agroecossistemas en-volve o enfoque nos processos de intercâmbio de matéria e energia entre as esferas natural e social.

Agroecossistemas são sistemas ecológicos modificados por seres hu-manos para produção

agrícola (Conway 1987): Os agroecossistemas, com di-ferentes níveis de complexidade, são substitutos de sistemas naturais. Agroecossistemas são sistemas funcionais, onde interagem compo-nentes bióticos e abióticos, dentro de fronteiras arbitrárias. As característi-cas gerais para descrição de qualquer agroecossistema referem-se a fatores físicos, biológicos, culturais e socioeconômicos e incluem os recursos presen-tes (recursos naturais, humanos, e de capital). Como em qualquer ecossistema, vários processos estão relacionados à estrutura, dinâmica e funcionamento (processos energéticos, biogeoquímicos, hídricos e de equilíbrio biótico) des-ses sistemas. São sistemas mais simplificados que ecossistemas naturais, e sua complexidade surge sobretudo da interação entre processos socioeconômicos e ecológicos. O nível de intervenção humana é variável, bem como a composi- ção de espécies, o que lhes confere mais ou menos complexidade. Obviamen-te, sistemas mais biodiversos tendem a ser mais complexos e heterogêneos. O estudo dos agroecossistemas, assim como o de ecossistemas natu- rais, pode ser feito a partir de seus níveis de organização, desde uma plan-ta ou animal inseridos no sistema produtivo (entendidos como indivíduos ou organismos), passando pelo conjuntos de indivíduos da mesma espécie (po-pulações) ou de mais de uma espécie (comunidades) cultivados (no caso de plantas) ou criados (no caso de animais) em um mesmo espaço. A observa-ção desses níveis de organização pode ser feita em diferentes escalas, ou seja, podemos organizar os agroecossistemas em uma escala hierárquica, desde a parcela produtiva dentro de uma propriedade até uma região ou território. Cabe ressaltar que a conservação da biodiversidade também pode ser pensada nessas diferentes escalas, referindo-se a diferentes componentes (ou níveis) dentro dos agroecossistemas e nas paisagens onde estão inseridos. A Figura 1 traz um quadro comparativo entre agroecossistemas e ecos- sistemas naturais, no tocante às suas principais características e escalas obser-váveis, a partir de seus níveis de organização. Considerando as escalas sob as quais podem ser observados e planejados os agroecossistemas, é importante compreendê-los também sob a ótica dos chamados sistemas socioecológicos.

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Figura 1.

Esquema comparativo entre agroecossistemas e ecossistemas natu-rais (baseado em Conway 1987, Gliessman 2009, Arnesto et al. 2007). Nas escalas hierarquicamente acima estão níveis de organização mais amplos (regional, nacional e global). Os sistemas de subsistência (agricultura e pecuária) estão associados a modos de vida das comu-nidades rurais e se inserem em microbacias, regiões, territórios, etc.

Referências

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