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Divisão sexual do trabalho e mulheres sindicalistas

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

MARINA ANTUNES MARTINS DE SOUZA

DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO E MULHERES SINDICALISTAS

MACAÉ 2018

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MARINA ANTUNES MARTINS DE SOUZA

DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO E MULHERES SINDICALISTAS

Monografia apresentada como requisito para conclusão da graduação em bacharel em Direito, Universidade Federal Fluminense.

Orientadora: Clarisse Inês de Oliveira

MACAÉ 2018

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FOLHA DE APROVAÇÃO

MARINA ANTUNES MARTINS DE SOUZA

DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO E MULHERES SINDICALISTAS Monografia apresentada como requisito para conclusão da graduação em bacharel em Direito, Universidade Federal Fluminense.

Aprovada em de de Banca Examinadora:

Profª Dra. Fernanda Andrade Almeida Examinadora UFF

Profª Dra. Clarisse Inês de Oleiveira Orientadora

Profª Ms. Glenda Vicenzi Examinadora UFF

Macaé 2018

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“Eu sou porque nós somos.” Marielle Franco

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RESUMO

O presente trabalho possui como objeto de pesquisa a divisão sexual do trabalho e as consequências nas relações de gênero sindicais, como, por exemplo, o fato de mulheres ocuparem poucos cargos de chefia dentro dos sindicatos e suas interferências nas negociações coletivas. Este trabalho é delimitado a estudar de que forma essa divisão sexual do trabalho no universo sindical interfere e contribui para avanços e retrocessos nas pautas vindicatórias das mulheres, bem como quais são as dificuldades que as mulheres encontram em ocupar os espaços sindicais.

Palavras-chave: divisão sexual do trabalho; mulher e sindicato; sindicalistas; dupla jornada de trabalho.

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ABSTRACT

The present study has as object of research the sexual division of labor and its consequences in union gender relations, such as the fact that women occupy fewer leadership positions within unions and has less interference in collective bargaining. This work is limited to studying how the sexual division of labor in the union universe interferes and contributes to advances and setbacks in women rights, as well as what the difficulties that women find in occupying the trade union spaces.

Key words: sexual division of labor, women, union, trade unionists, Work, double journey

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SUMÁRIO

1 Introdução --- 10

2 Divisão sexual do trabalho e as jornadas de trabalho ---12

3 Mulheres na política sindical ---21

4 Apresentação da pesquisa ---30

5. Divisão sexual na política sindical: análise do questionário apresentado ---40

6 Conclusão ---46

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Introdução

O presente trabalho possui como objeto de pesquisa a divisão sexual do trabalho e as consequências nas relações de gênero sindicais, como, por exemplo, o fato de mulheres ocuparem poucos cargos de chefia dentro dos sindicatos e suas interferências nas negociações coletivas.

Este trabalho é delimitado a estudar de que forma essa divisão sexual do trabalho no universo sindical interfere e contribui para avanços e retrocessos nas pautas vindicatórias das mulheres, bem como quais são as dificuldades que as mulheres encontram em ocupar os espaços sindicais.

A inserção dos recortes de gênero nos estudos sobre trabalho e relações de trabalho é fruto de muita luta por parte das mulheres, de muita luta por parte dos movimentos feministas.

Este trabalho tem como objetivo apresentar as dificuldades que as mulheres sindicalistas enfrentam quando se propõem a construir espaços políticos na esfera sindical, trazendo para o debate as questões de gênero nesse contexto da divisão sexual do trabalho.

Pretende-se, também, entrevistar mulheres sindicalistas, trazendo dados sobre suas jornadas de trabalho, conciliação entre jornadas, divisão sexual do trabalho em suas categorias profissionais.

No que tange ao método para alcançar os objetivos desta pesquisa, cumpre ressaltar que o problema proposto requer uma análise dialética e interdisciplinar, envolvendo conhecimentos de diferentes áreas, em especial do direito e da sociologia. Essa integração da ciência jurídica com outras realidades teóricas possibilita uma visão mais humanista.

Para o desenvolvimento desse projeto pretende-se utilizar os instrumentais da pesquisa empírica, a fim de que enriqueça o debate de forma qualitativa de quantitativa com a coleta de dados, na realização de entrevistas com mulheres sindicalistas de categorias de trabalho diferentes. Entrevistas com mulheres que são diretoras da CUT,

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que pertencem a categorias profissionais diversas. Pesquisa bibliográfica, bem como coleta de informações presentes em sites, fontes documentais e dispositivos legais.

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CAPÍTULO 1

Divisão sexual do trabalho e as jornadas de trabalho

O discurso que reproduz o ideal hegemônico da sociedade é o que naturaliza as relações de gênero e para a divisão sexual do trabalho1. Esse discurso diz que a mulher é a reprodutora, ela tem as funções de cuidado, função materna enquanto o homem tem a função de provedor econômico do lar, ou seja, seu papel encontra-se no mercado de trabalho. Com a função da reprodução vêm as funções da mulher que são naturalizadas socialmente: mãe, esposa, cuidadora, responsável pela casa e pelos filhos e filhas.

Apesar de existirem muitas normas brasileiras, bem com convenções normativas da Organização Internacional do Trabalho – OIT, que ditam e tentam promover a igualdade material entre homens e mulheres, ainda não se verifica eficácia efetiva, uma vez que ainda não alcançamos essa igualdade.

Disse a diretora-geral adjunta para políticas da OIT, Deborah Greenfield2: “O fato de que metade das mulheres em todo o mundo está fora da força de trabalho, quando 58% delas preferem trabalhar em empregos remunerados, é uma forte indicação de que há desafios significativos que restringem suas capacidades e liberdade de participação. A preocupação mais imediata para as pessoas responsáveis pelo desenvolvimento de políticas, portanto, deve ser aliviar as restrições que as mulheres enfrentam para escolher entrar no mercado de trabalho e abordar as barreiras que elas enfrentam quando estão no local de trabalho”.

1 CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

nos padrões globais de desigualdade

2 BRASIL. ONUBR, OIT: Reduzir a desigualdade de gênero beneficiaria as mulheres, a sociedade e a

economia, 14 jun 2017. Disponível em < https://nacoesunidas.org/oit-reduzir-a-desigualdade-de-genero-beneficiaria-as-mulheres-a-sociedade-e-a-economia/>. Acesso em 26 nov 2018.

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A divisão sexual do trabalho remete ao conceito ampliado de trabalho, que inclui o trabalho profissional e doméstico, formal e informal, remunerado e não-remunerado. Nós postulamos a indissociabilidade entre divisão sexual do trabalho, divisão sexual do saber e divisão sexual do poder. Acreditamos que não se pode pensar a divisão social e sexual do trabalho entre homens e mulheres sem associar essa divisão à repartição do saber e do poder entre os sexos na sociedade e na família.3

As desigualdades entre homens e mulheres são fundamentadas na divisão sexual do trabalho, por dois princípios, Segundo Kergoat4:

“o princípio de separação (existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres) e o princípio hierárquico (um trabalho de homem “vale” mais que um trabalho de mulher). Esses princípios são válidos para todas as sociedades conhecidas, no tempo e no espaço. Podem ser aplicados mediante um processo específico de legitimação, a ideologia naturalista. Esta rebaixa o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados que remetem ao destino natural da espécie.”

O princípio da separação diz respeito à existência de trabalhos considerados femininos, na esfera reprodutiva, e trabalhos considerados masculinos, na esfera produtiva. O princípio hierárquico define o trabalho considerado tipicamente masculino como de maior valor que o trabalho considerado tipicamente feminino.

Se uma das diferenças entre o Direito das sociedades modernas capitalistas e outras formas de Direito historicamente conhecidas é que, para Ala Lucia Sabadell5:

“o primeiro não impõe a divisão de classes nem a desigualdade social dela decorrente, exprimindo o

3FRASER, Nancy, Feminismo, Capitalismo e a astúcia da história, 2009.

4KERGOAT, Daniele, Novas Configurações da Divisão Sexual do Trabalho, 2007, pág. 599. 5 SABADELL, Ana Lúcia. Manual de sociologia jurídica.Vol. 1. Campinas: LZN Editora, 2002. p.

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caráter aberto das classes sociais no capitalismo (...), por outro lado não é possível dizer que este Direito da sociedade liberal era (...)neutro, na medida em que consagrava normas excludentes que exprimiam a força política das classes dominantes, que conseguiam controlar o Parlamento”

Daí surge a promessa não cumprida do Direito moderno: a suposta neutralidade e a prometida igualdade formal, do ponto de vista do gênero e da sexualidade, não passam de falácias, alternando-se interdições expressas à condição feminina com o uso da linguagem formal e abstrata do Direito moderno para ocultar as diferenças de tratamento, que restariam implícitas6.

O Estado Liberal de Direito do século XIX fundava-se em um parlamento que era, como lembrou Gustavo Zagrebelsky7, inteiramente dominado por uma única classe social (a burguesia), que normatizava ou positivava seu ideário pela ausência de oposição e contestação legítima diante da ausência dos diferentes no plano da produção legislativa, que terminava por gerar uma legislação coerente e consistente com certos interesses de classe.8

A divisão sexual do trabalho estrutura as relações de gênero na sociedade e estabelece uma divisão naturalizada das áreas reprodutivas atribuídas às mulheres e das áreas produtivas atribuídas aos homens. Dessa forma, além de atribuir às mulheres a responsabilidade sobre a reprodução, estabelecendo sua inclusão na produção apenas

6 igualdade de gênero e direitos sociais no contexto do estado constitucional de direito 7 A visão histórica do Estado liberal conforme a exposição de Zagrebelsky (2003) corrobora o

pensamento de Marx, que via no Estado liberal-burguês uma mera hegemonia de classe ou, relembrando as palavras do pensador socialista, comitê executivo dos interesses da burguesia – mas a frase transcende o aspecto meramente material ou de hegemonia econômica e implica, no panorama do Estado e da sociedade do século XIX, em uma hegemonia moral, de uma imposição sobre o domínio dos costumes (esfera privada), notadamente sobre a família e a sexualidade (DONZELOT, 1986; BADINTER, 1985).

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secundariamente, a divisão sexual do trabalho rotula o trabalho reprodutivo como um não-trabalho.9

Outro efeito da divisão sexual do trabalho é a distribuição, de forma desigual, entre homens e mulheres nos diferentes ramos da atividade econômica, gerando a concentração de determinado sexo em determinado ramo. Ou seja, há uma concentração da renda na divisão sexual, onde os homens são os que acumulam capitais em relação as mulheres. Essa forma de distribuição é, em verdade, uma consequência da ideia do “instinto maternal”, estabelecendo a definição de tarefas ditas femininas, sob a falsa naturalização de tarefas que exigem “dedos finos”, agilidade, concentração e disciplina.

Assim afirma Helena Hirata10:

“A inserção das mulheres no mercado de trabalho sempre foi marcada por uma forte característica de precariedade, mas a feminização do desemprego e a precarização das relações de trabalho das mulheres vêm aumentando ao longo dos anos, com menor regulamentação de suas garantias de condições de trabalho, menores salários e com um aumento das formas de trabalho a domicílio, mesmo elas tendo um nível de escolaridade mais alto que o dos homens em geral. Esse crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, formal e informal, ocorre, majoritariamente, em funções instáveis, desvalorizadas socialmente, com possibilidade quase nula de promoção e de carreira e com direitos sociais limitados ou inexistentes, tanto na Ásia como na Europa e na América Latina.”

9THOME, CandyFlorencio; SCHWARZ, Rodrigo Garcia, As mulheres no mercado de trabalho e nos

sindicatos no Brasil: a participação das trabalhadoras nos processos sindicais decisórios, 2017, pág. 15.

10 HIRATA, Helena, mulheres no mercado de trabalho e nos sindicatos no Brasil: a participação das

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Com esses guetos ocupacionais11, também as diferenças na ascensão de carreira são explicadas mediante argumentos “biologizados” ou com argumentos de que as mulheres se relacionam com o trabalho de forma diferente e são menos competitivas.12

Tanto no âmbito familiar, quanto no âmbito do trabalho remunerado, as mulheres costumam ser direcionadas para ocupações sexualizadas, guetizadas e voltadas para o setor de serviços.

Nesse mesmo sentido, a caracterização da família como um domínio da reprodução simbólica, socialmente integrada e do lugar de trabalho remunerado como um domínio da reprodução material, sistemicamente integrado, tende a exagerar as diferenças e ofuscar as similaridades entre eles.

Outro efeito causado por essa divisão do trabalho, que definem as políticas públicas do Estado, é o fato de que são as mulheres as mais atingidas com cortes sociais e com a diminuição dos direitos sociais no modelo liberal. A dualização do Estado social, com um sistema de seguridade social, atinge mais os homens, e um sistema de assistência social, que têm como destinatários um número maior de mulheres, diante do paradigma do homem provedor13.

Enquanto os papéis de “trabalhador” e de “cuidadora” continuarem a ser, fundamentalmente incompatíveis, não será possível universalizar nem um nem outro papel para ambos os gêneros, sendo necessária alguma forma de aproximação entre os dois papéis (FRASER, 1985). Alguns autores acreditam que para a mudança desse cenário, faz- se necessário a politização do espaço doméstico, impulsionado pelo movimento feminista, para construção de uma nova teoria de democracia.

Uma das maneiras de empoderar as mulheres, construindo essa nova democracia e possibilitar sua participação nos processos, de tomadas de decisões e no controle de suas próprias vidas pode ocorrer com a participação dos grupos sociais.

11THOME, CandyFlorencio; SCHWARZ, Rodrigo Garcia, As mulheres no mercado de trabalho e nos

sindicatos no Brasil: a participação das trabalhadoras nos processos sindicais decisórios, 2017, pág. 95.

12No Brasil, os guetos ocupacionais não são contestados e há poucos mecanismos para incentivar que as

mulheres façam cursos técnicos, gerando um sub-aproveitamento da escolarização feminina (SOUZA-LOBO, 2011). Dessa forma, segundo dados do IBGE de 2009, as mulheres ocupadas estão mais concentradas nos serviços domésticos (17%), nas atividades de comércio e reparação (16,8%) e nas atividades de educação, saúde e serviços sociais (16,7%). Nesses setores, as taxas de ocupação masculina são de 0,9% nos serviços domésticos, 18,5% nas atividades de comércio e reparação e 3,9% nas

atividades de educação, saúde e serviços sociais.

13THOME, CandyFlorencio; SCHWARZ, Rodrigo Garcia, As mulheres no mercado de trabalho e nos

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A participação sindical das trabalhadoras proporciona uma maior possibilidade de exercer poder e cidadania no espaço público em que é construída a democracia, possibilitando que as mulheres participem mais dos processos de decisão, ao mesmo tempo em que aumentam seu capital político, uma vez que a sua participação em tal movimento social, além de funcionar como espaço de reagrupamento, também possui função de base e treinamento dessas mulheres para a participação em espaços públicos mais amplos.14

Com a ascensão das mulheres do espaço privado para o público, ou seja, entrando para o dito “mercado de trabalho”, enfrentando essa divisão sexual, subvertendo a idéia dos papéis de gênero, passando a se inserirem nos trabalhos produtivos e não mais apenas nos trabalhos reprodutivos, passou a existir modelos de conciliação nas funções domésticas, como apresenta Hirata.15

A autora classifica esses novos modelos como: tradicional, conciliação, parceria e delegação. No modelo tradicional a mulher não trabalha fora e cuida da casa e dos filhos, enquanto o homem é o provedor; no modelo da conciliação a mulher trabalha fora, mas também assume as tarefas domésticas, enquanto o homem trabalha fora e não se sente na obrigação dos cuidados com a casa e os filhos; No modelo de parceria mulheres e homens repartem as tarefas de provento e as tarefas domésticas; No modelo de delegação as mulheres que trabalham fora delegam a outras mulheres suas tarefas domésticas.

Neste último modelo há que se fazer uma reflexão sobre quem são essas mulheres que tem a oportunidade de sair do seio doméstico e trabalhar fora e quem são essas mulheres que vão para casa de outras mulheres assumirem essas tarefas domésticas. Essas são, na maioria das vezes, mulheres negras, de classe mais baixa, enquanto aquelas que vão trabalhar fora são mulheres brancas.

O modelo que Hirata classifica como modelo de conciliação é o mais comum, que faz com que as mulheres tenham várias jornadas de trabalho, pois assumem o papel de provedoras (ou de complemento da renda familiar), mas continuam com as responsabilidades domésticas, de cuidados com a casa e com os filhos.

14THOME, CandyFlorencio; SCHWARZ, Rodrigo Garcia, As mulheres no mercado de trabalho e nos

sindicatos no Brasil: a participação das trabalhadoras nos processos sindicais decisórios, 2017, pág. 104.

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A definição de Jacqueline Laufer para esse modelo de conciliação é a seguinte:

“...ele visa articular as atividades familiares e domésticas com a vida profissional. É uma condição necessária da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, em particular no âmbito profissional [...]. Uma eventual recomposição e uma nova divisão de papéis se realizariam, assim, não mais em detrimento das mulheres, mas em benefício comum de homens e mulheres”. (1995, p.164)

Foi a partir da década de 70 no século XX que se deu uma grande transformação desta conjuntura com a inserção das mulheres no mercado de trabalho no Brasil. Dentro desse novo contexto social, a mulher passa a transpor novos horizontes e começa a competir com o homem pelo espaço externo de trabalho. O papel social feminino se altera através das mudanças da sociedade, pelos meios de produção e, principalmente pelas transformações econômicas.16

Segundo uma pesquisa realizada em 2015 pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a jornada semanal total de trabalho das mulheres brasileiras superava em 7,5 horas ados homens.17 De acordo com os dados coletados na pesquisa, as mulheres trabalhavam em média 53,6 horas por semana, enquanto os homens trabalhavam 46,1 horas, sendo que essa diferença ocorre em razão da dupla jornada.

O IPEA diz que:

"é possível observar a manutenção da mesma ordem - homens brancos, mulheres brancas, homens negros, mulheres negras - do maior para o menor rendimento ao longo de toda a série histórica".

16FRANÇA, Ana Letícia; SCHIMANSK, Édina, Mulher, trabalho e família: uma análise sobre a dupla

jornada feminina e seus reflexos no âmbito familiar, Pág. 08.

17TAIAR, Estevão. Com jornada dupla, mulheres trabalham 7h a mais que homens na semana.

Disponível em: <http://www.valor.com.br/brasil/4889616/com-jornada-dupla-mulheres-trabalham-7h-mais-que-homens-na-semana. Acesso em: 04 jun 2017>.

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Embora a média de horas de trabalho feminino tenha diminuído significativamente, a diferença entre a média feminina e a masculina ainda é muito grande, e isso ocorre porque cada vez mais as mulheres estão buscando seu lugar no mercado de trabalho e,ainda assim, continuam responsáveis pelos afazeres domésticos.Poucas pesquisas brasileiras têm investigado as tentativas de conciliar trabalho e família associadas à decisão de se ter um filho, embora as mulheres que trabalham fora de casa continuem responsáveis por 80%a 90% do trabalho doméstico (Gysbers, Heppner, &Johnston, 2009).

Com esse processo de transição, onde as mulheres passaram a “trabalhar fora”, algumas autoras constatam que a maternidade pode lhes oferecer realização pessoal, embora possa representar um empecilho para o seu crescimento profissional por se encontrar associada à renúncia de planos vinculados ao trabalho. Assim, foi possível constatar que a ideia de que a maternidade é a única forma de as mulheres se sentirem realizadas emocionalmente está sendo desconstruída,visto que a carreira profissional desempenha papel central na vida de muitas mulheres, fazendo-as, inclusive, adiar o nascimento de um filho.18

A inserção da mulher em um espaço por muito tempo considerado majoritariamente masculino acabou por fazer com que a mulher assumisse tanto o trabalho fora de casa como o trabalho doméstico, sobrecarregando-a com uma dupla jornada de trabalho.19

Como destaca Perez (2001, p.52):

“Responsáveis pela maioria das horas trabalhadas em todo o mundo, as mulheres, generosamente, cuidam das crianças, dos idosos, dos enfermos, desdobrando-se em múltiplos papeis. Esquecidas de si mesmas, acabam por postergar um debate que se faz urgente: a divisão desigual das responsabilidades da família, a injustiça de sozinha,

18OLIVEIA, Clarissa Tochetto; DIAS, Ana Cristina Garcia, Percepção de mulheres entre trabalho e

maternidade, 2014, Pág. 09.

19FRANÇA, Ana Letícia; SCHIMANSK, Édina, Mulher, trabalho e família: uma análise sobre a dupla

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ter de dar conta de um trabalho de que todos usufruem.”

As mulheres assumem para si as responsabilidades das funções de cuidado a elas determinadas pela construção social, assim como já mencionado. Elas sentem-se na obrigação dos cuidados com a casa, diferente dos homens, que muitas vezes, mesmo estando fora do mercado de trabalho produtivo, seja pelo desemprego ou por outro motivo, ainda assim não assume as tarefas domésticas.

Saindo um pouco da lógica urbana de trabalho, as mulheres do campo se sentem ainda mais sobrecarregadas. Além das funções de cuidado com a casa e com os filhos, elas trabalham na produção agropecuária para fins comerciais e ainda cuidam da agricultura doméstica, que são as plantações e pecuárias de subsistência da família.

Uma das maneiras de empoderar as mulheres e possibilitar sua participação nos processos de tomadas de decisões e no controle de suas próprias vidas pode ocorrer com a participação dos grupos sociais. A atuação das mulheres nos sindicatos e em seus cargos de direção é uma das formas de possibilitar o empoderamento das mulheres.20

20THOME, CandyFlorencio; SCHWARZ, Rodrigo Garcia, As mulheres no mercado de trabalho e nos

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CAPÍTULO 2

Mulheres na política sindical

As estruturas das políticas sindicais, que não diferem da demais estruturas políticas da sociedade, não são espaços construídos pelas e para as mulheres ante um histórico de relações predominantemente patriarcais existentes no Brasil.

Do ponto de vista burguês, a atividade política está totalmente associada ao homem branco, proprietário e possuidor de uma estrutura familiar que lhe assegura disponibilidade de todos os meios para exercer sua missão política21. Diferentemente da mulher, que, para exercer funções políticas, cumpre diversas jornadas de trabalho diárias, o que faz com as sindicalistas tenham bastante dificuldade de se inserirem nesses espaços. E na atual conjuntura política nacional, onde observamos muitos retrocessos em direitos trabalhistas, as mulheres sindicalistas lutam para assegurar o pouco que já conquistaram até então, fazendo com que retarde a luta por tantos direitos que ainda precisam ser conquistados.

O processo de reprodução e preparação da mão de obra contribui para acumulação da mais-valia22, exemplo de que estudos de gênero dentro de uma perspectiva marxista são justificáveis como objeto de pesquisa. As autoras (Gabriela Cunha e Fernanda Fuentes), ao analisarem as mulheres e o mercado de trabalho, acreditam que o sistema capitalista e modifica à medida em que se readapta à emergência de novos modelos de identidades femininas e os movimentos de mulheres, por sua vez, ajudam a impulsionar essas mudanças no mercado de trabalho23.

Afirma Gabriela Fuentes:

21AVILA, Maria Betânia, Mulher e Trabalho: encontro entre feminismo e sindicalismo, 2005, pág. 77. 22Feministas Marxistas (Khun e Wolpe, 1978; Sargent, 1978)

23CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

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“O discurso que reproduz o ideal hegemônico da sociedade é o que naturaliza as relações de gênero e para a divisão sexual do trabalho24.”

Esse discurso diz que a mulher é a reprodutora, ela tem as funções de cuidado, função materna enquanto o homem tem a função de provedor econômico do lar, ou seja, seu papel encontra-se no mercado de trabalho. Com a função da reprodução vêm as funções da mulher que são naturalizadas socialmente: mãe, esposa, cuidadora, responsável pela casa e pelos filhos e filhas.

Com o passar dos tempos e devido às lutas feministas, intencionadas em inserir a mulher no mercado de trabalho, romper com o paradigma da função reprodutiva, as mulheres foram se inserindo a esse mercado de trabalho dito produtivo. Todavia esse mercado não tem sido nada neutro as relações de gênero, muito pelo contrário, a medida que ele se apropria desses discursos de relações de gênero, ele contribui para que essa estrutura de desigualdade permaneça, mesmo que sobre novas formas.

As mulheres que são inseridas no mercado de trabalho produtivos, são submetidas aos trabalhos ditos pinkcollar Jobs, segundo Forrest Wickman:

“Nos anos 70, o termo era usado pra mulheres trabalhadoras como enfermeiras, secretarias e professoras elementares. Na época, o termo era usado para atribuir tanto as equipes secretariais e steno-pool (que é basicamente quem fica fazendo relatoria) quanto equipes não profissionais que eram majoritariamente compostas por mulheres. A rigor, essas posições não eram white-collar Jobs (posições de prestígio), mas também não eram blue-collarjobs (trabalho manual, bruto). A criação do

24CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

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termo “pinkcollar”, portanto, que indica que não eram white-collar, mas eram ainda trabalhos de escritório que eram preponderantemente cumpridos por mulheres.”25

Esse tipo de trabalho obriga as mulheres a ficarem circunscritas a alguns “nichos” ocupacionais, que são os trabalhos menos valorizados, o que dizem exigir delicadeza feminina. Com isso se observa a divisão sexual do trabalho inserida no mercado de trabalho agora produtivo: profissão de mulher e profissão de homem. Existindo, ainda, a desigualdade de gênero, sustentada ainda pelo discurso da naturalização dos papéis dos gêneros na sociedade.

Vale destacar que a maior participação feminina no mercado de trabalho ampliou sua autonomia e poder de negociação, uma vez que essa mulher agora detém recursos por exercer trabalho com remuneração.

Para Veronica Ferreira26:

“a divisão sexual do trabalho contribui para fins de acumulação capitalista.”

A segregação no mercado de trabalho capitalista destinou as mulheres empregos mais precarizados, geralmente informais ou em tempo parcial, os salários mais baixos, menor cobertura dos serviços de seguridade social e dificuldade de acesso aos direitos trabalhistas. Aliado a esses fatores, o trabalho profissional das mulheres é sempre visto como complementar às suas “responsabilidades” domésticas.

25Forrest Wickman, Why do wecall manual laborers blue collar?,disponível em

<http://www.slate.com/articles/business/explainer/2012/05/blue_collar_white_collar_why_do_we_us e_these_terms_.html>I

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As funções as quais as mulheres estão sendo inseridas nesse mercado de trabalho, são funções que exigem as ditas “qualidades femininas”: trabalho doméstico, invisível; relações de trabalho sem regulação e quaisquer direitos27 e na maioria das vezes não exige grau de qualificação.

Com relação ao nível de instrução/grau de qualificação, estes as mulheres ainda estão buscando acesso, bem como o acesso as tecnologias. Por serem excluídas historicamente dos recursos que são acesso ao mercado de trabalho produtivo, as mulheres ainda encontram dificuldades de inserção em profissões e nichos de trabalho que exigem acesso a esses tais recursos, como a tecnologia por exemplo.

Para atuarem no mercado formal e estudarem, as mulheres de classe média e alta, “delegam” estas atividades às mulheres pobres, em sua maioria negra (60% das empregadas domésticas do País), através do emprego doméstico. Já as mulheres pobres, ou trabalham em múltiplas jornadas para conciliar os tempos de trabalho fora e dentro de casa ou apenas lhes resta a “conciliação” inevitável, através da extensão da jornada, ou o apoio de outras mulheres, da própria família ou da comunidade.28

Com isso vemos que as dificuldades enfrentadas não são iguais para as mulheres de todas as classes sociais, bem como não é igual para mulheres brancas e negras.

Há, ainda, a questão de que, essas mulheres pobres que se inserem como empregadas domésticas dessas outras mulheres que se inserem no mercado de trabalho produtivo, essas mulheres pobres deixam suas vidas pessoais de lado, suas famílias e lares, mas para se dedicarem às famílias das mulheres de classes média e alta. Há que colocar que mulheres de classes diferentes possuem jornadas de trabalho diferentes: enquanto algumas mulheres possuem jornada no trabalho remunerado e nas atividades domésticas, outras possuem duas jornadas sendo ambas no serviço doméstico, mesmo que uma delas seja um trabalho remunerado.

Essas manifestações de desigualdade no trabalho das mulheres com relação à reestruturação da produção — que também se mostram mais intensas se considerarmos

27Veronica Ferreira, O novo e o velho no trabalho das mulheres, 2005, pág. 34. 28Veronica Ferreira, O novo e o velho no trabalho das mulheres, 2005, pág. 36.

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a questão racial — evidenciam como são necessários políticas públicas, que garantam igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho29. É onde entram as lutas das mulheres sindicalistas, que através da política sindical, buscam os mecanismos para combater as desigualdades de gênero e raça nas relações de trabalho, buscando até, muitas vezes, pautar nas negociações coletivas os interesses das mulheres.

As relações sociais de gênero são estruturadoras do nosso modo de vida social. As representações de gênero se consolidaram historicamente porque, entre outros aspectos, têm uma forte base material para o seu desenvolvimento, que é a divisão social de trabalho entre os sexos, constitutiva do desenvolvimento capitalista. Sendo assim, não podemos ver o trabalho das mulheres apenas como um fenômeno relativo a gênero ou à classe,ambos são elementos emaranhados na constituição da realidade do trabalho feminino e, no caso brasileiro, associam-se à dimensão das relações raciais30.

Maria Ednalva Bezerra de Lima afirma:

“As estruturas da sociedade têm seu processo de consolidação no âmbito da economia e da cultura31.”

Com relação a economia, esta configura-se diretamente com relação a acumulação capitalista, acumulação de riquezas, que desencadeia nas relações de poder construídas historicamente pela lógica “quem tem bens tem poder”. Com relação a cultura temos hegemonia dos modos de pensamento, como a naturalização dos papéis dos gêneros enraizados nos discursos, como já supracitado.

A força do trabalho humano é o elemento central que move a economia e a partir disso entende-se que a exploração desse trabalho, que contribui para a acumulação de riquezas, que explica a desigualdade social econômica.

29Veronica Ferreira, O novo e o velho no trabalho das mulheres, 2005, pág. 37. 30Carmen Silva, Raízes das desigualdades, 2005, pág. 45.

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A negociação coletiva é um espaço fundamental de ação sindical para a garantia de melhores condições de trabalho e de vida para trabalhadores e trabalhadoras de modo geral.

Esse lugar de fala e de negociação, onde se estabelecem parâmetros que assegurem cláusulas de proteção aos trabalhadores, é emblemático para a reflexão sobre a igualdade de oportunidade entre homens e mulheres no mundo do trabalho e para a igualdade de gênero no que se refere aos direitos trabalhistas.32

Pode-se considerar um grande avanço pautar relações de gênero nas negociações entre a empregada e o empregador. Pautar não significa conseguir, mas somente o fato de as sindicalistas protagonizar em pleitos de natureza feminina, enquanto trabalhadoras, já é um avanço para as mulheres.

As centrais sindicais, em especial a CUT por ser a maior, possuem um papel fundamental nessas lutas, uma vez que através das lutas das trabalhadoras e muitos debates feitos através dos congressos da Central, ao longo dos tempos foi-se conquistando direitos a serem normatizados pelos respectivos sindicatos filiados à Central.

A conquista da minuta unificada, contendo todas as reivindicações das mulheres foi muito significativa, pois a partir daí os sindicatos foram obrigados a pautar as lutas e requerimentos das mulheres.

A vindicação nomeada como “creche para todos” também deve ser colocada como avanço importante, pois fez impulsionar os governos a promoverem políticas públicas para assistir aos trabalhadores e trabalhadoras que são pais e mães e necessitam estar no mercado de trabalho.

32Maria Ednalva Bezerra de Lima, Referencial de gênero nas pautas sindicais de negociação, 2005, pág

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O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado pelo Congresso em 2014, prevê a ampliação de vagas em creches para atender, pelo menos, a metade das crianças de zero a três anos33:

“De acordo com a proposição, os recursos para o programa viriam de transferências do governo federal, por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). A proposta estabelecia ainda prazo máximo de 180 dias para que a União firmasse os convênios necessários para os repasses às unidades federadas.”

O Projeto de Lei ‘Creche para todos” número 6550/2013, ainda tramita na câmara dos deputados.34

Essa luta da creche, impulsionada pelo movimento sindical das mulheres, também significa um avanço na divisão sexual do trabalho, no sentido de que a mulher não é necessariamente mãe, apenas se ela quiser exercê-lo. Ela tem o direito de ser mãe e de estar no mercado de trabalho produtivo. O que não exclui a questão de que essa mãe passa a ser a chefa de família e provedora econômica do lar.

33BRASIL. Câmara dos Deputados, Câmara aprova projeto que cria o programa creche para todos,

Brasília, DF, 17, maio, 2016. Disponível em

<http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/ASSISTENCIA-SOCIAL/508859-COMISSAO-APROVA-PROJETO-QUE-CRIA-O-PROGRAMA-CRECHE-PARA-TODOS.html>. Acesso em 26 nov 2018.

34. BRASIL. Projeto de Lei nº 6550, de 2013. Dispõe sobre as diretrizes para a elaboração da lei de

ampliação das creches públicas. Câmara dos Deputadps. Brasília, DF. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=595991> Acesso em: 26 nov. 2018.

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Contudo, como já dito, as estruturas das políticas sindicais, bem como as outras estruturas políticas da sociedade, não são espaços construídos pelas e para as mulheres. Do ponto de vista burguês, a atividade política está totalmente associada ao homem branco, proprietário e possuidor de uma estrutura familiar que lhe assegura disponibilidade de todos os meios para exercer sua missão política. Diferente da mulher, que, como já dito, para além de exercer funções políticas, cumpre diversas outras jornadas de trabalho.

Para que essas mulheres conseguissem chegar aos cargos de direções sindicais, os quais possuem as atribuições de fato de representações em negociações coletivas, foi uma processo de luta para conquistar uma porcentagem obrigatória mínima nas direções sindicais, a fim de que se garantisse a representatividade das mulheres nas entidades sindicais.

Esse processo se deu através de ações afirmativas, que foram regulamentadas inicialmente pela CUT, o que gerou uma obrigatoriedade de aquisição da ação afirmativa por parte de todas as entidades sindicais filiadas.

A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo; esta forma é adaptada historicamente e a cada sociedade. Ela tem por características a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apreensão pelos homens das funções de forte valor social agregado (políticas, religiosas, militares, etc...).

Contudo essa mulher que agora está inserida nesse mercado de trabalho produtivo, não deixou suas funções no mercado reprodutivo.

Ao participarem em ambos os espaços políticos, as mulheres são obrigadas a optarem por estratégias de conciliação desta tensão muito diferentes daquelas que se apresentam os homens35, o que significa uma dupla jornada de trabalho.

35CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

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A tentativa de conciliar tais esferas leva a essas mulheres a se confrontarem com pressões e discriminações36, o que gera a dicotomia da opção pelo trabalho ou por ter filhos; ou se dedicar a carreira ou se dedicar ao lar.

Há também a realidade da “mãe solteira”, que é a chefa de família, a única provedora, o que é a realidade da maioria das mulheres que são mães. Precisam garantir o bem-estar de suas famílias, como também não contam com ajuda de companheiros para dividir as responsabilidades dos cuidados do lar e dos filhos. Além dessas mulheres que são inseridas nesse mercado de trabalho produtivo, há as mulheres que começaram a ocupar os espaços políticos, e isso fez com que essas mulheres tivessem que dar conta de, além do trabalho remunerado e o doméstico, do trabalho político.

Diferente dos homens que possuem toda uma estrutura social para exercer sua jornada de trabalho produtivo mais a jornada política com facilidade, as mulheres enfrentam muitos obstáculos para conseguir cumprir suas obrigações na jornada de trabalho reprodutivo, como as tarefas domésticas, mais funções de cuidado com os filhos e filhas, conseguir cumprir sua jornada no trabalho produtivo e ainda conseguir ocupar os espaços de militância sindical.

Acredita-se que este cenário afasta as mulheres da vida sindical, bem como faz com que a política seja mais uma das múltiplas jornadas de trabalho das mulheres, contudo há que se fazer recortes de classe e raça, observando que são dificuldades diversas, enfrentadas por cada classe social de mulheres e que mulheres brancas não enfrentam as mesmas dificuldades que as mulheres negras.

36CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

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CAPÍTULO 3

Apresentação da pesquisa

A pesquisa empírica deste trabalho consistiu na realização de entrevistas à mulheres que integram hoje a direção de sindicatos e centrais sindicais. Foram entrevistas algumas diretoras da Central Única dos Trabalhadores e das Trabalhadoras – CUT, que compõem a executiva estadual do Rio de Janeiro.

Ao contatar cada entrevistada, fora encaminhado um questionário contentando 11 perguntas dentro do contexto da vida pessoal e sindical, trazendo uma amostragem de uma realidade de divisão sexual do trabalho, divisão sexual do trabalho doméstico, divisão sexual do poder, paridade de gênero no campo político-sindical, importância da atuação e da auto organização das mulheres nos sindicatos como avanço nas pautas de políticas públicas para as mulheres, quais foram:

“QUAL SEU NOME COMPLETO? QUAL SUA IDADE?

QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO? QUAL SINDICATO QUE ATUA? TEM FILHOS?

CASO SIM, COMO FOI/É CONCILIAR O TRABALHO E O CUIDADO COM OS FILHOS? COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

CONTOU/CONTA COM A AJUDA DO PAI?

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

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HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA?

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA

SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES

SIDICAIS?”

Nesse questionário as mesmas deveriam responder de próprio punho (digitalmente), com liberdade na construção das respostas, quais serão expostas abaixo. As perguntas foram direcionadas com intuito de trazer ao trabalho uma amostragem do que fora dito nos capítulos anteriores.

Apesar de todas serem diretoras executivas estadual da CUT-RJ, pertencem a categorias sindicais diferentes.

Insta salientar que as entrevistas foram realizadas através da internet, devido a indisponibilidade das entrevistadas, por estarem sobrecarregadas com suas jornadas de trabalho e nos movimentos de categoria sindical. Nessa atual conjuntura, de um governo de práticas de cortes de direitos, de retrocesso dos direitos trabalhistas, vem dificultando o avanço das pautas das mulheres, como coloca a entrevistada Luiza Dantas.

A todas as entrevistadas fora utilizado o mesmo procedimento, do primeiro contato ao envio do questionário.

Ressalta-se, também, que as relações mencionadas na entrevista são relações heterossexuais.

ENTREVISTADA 1

QUAL SEU NOME COMPLETO? R.: Luiza de Fátima Dantas de Souza QUAL SUA IDADE?

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QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO?

R.: Servidora Pública.Agente de Combate a Endemias, atualmente dirigente sindical.

QUAL SINDICATO QUE ATUA?

R.: SINDICATO DOS TRABALHADORES NO COMBATE AS ENDEMIAS E SAÚDE PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO.

TEM FILHOS? R.: Sim,02 filhas.

CASO SIM, COMO FOI/É CONCILIAR O TRABALHO E O CUIDADO COM OS FILHOS?

R.: Muito difícil. Tive que triplicar a jornada de trabalho, meu marido sempre colaborou.

COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

R.: Dou meu jeito, mas tem sempre alguém em falta e ao mesmo tempo orgulham-se da minha militância.

CONTOU/CONTA COM A AJUDA DO PAI? R.: Sim, sempre contei com ajuda dele.

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

R.: Minha categoria é de imensa maioria de homens. Temos 25 mulheres na direção. Estas, porém atuam muito pouco. 25% ainda não é paridade.

HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA? R.: Não. Há um esforço da direção para fazerem formação na área.

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES SIDICAIS?

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ENTREVISTADA 2

QUAL SEU NOME COMPLETO? R.: Ligia Arneiro Teixeira Deslandes QUAL SUA IDADE?

R.: 57 anos

QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO?

R.: Pedagoga e Comerciária. Sou atualmente Presidenta do Sindicato. QUAL SINDICATO QUE ATUA?

R.: SITRAMICO-RJ - Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo do Estado do Rio de Janeiro

TEM FILHOS?

R.: Quatro Filhos e Três Netos.

CASO SIM, COMO FOI/É CONCILIAR O TRABALHO E O CUIDADO COM OS FILHOS?

R.: Foi muito desgastante, só não foi mais porque o meu ex-marido ajudava a cuidar deles, mas tínhamos opiniões divergentes sobre educação e isso as vezes atrapalhava bastante. Dormia sempre a meia noite todos os dias para dar conta de tudo, principalmente de conversar com meus filhos antes de dormir. Acordava às 6 h para ir para o trabalho. Precisava trabalhar, pois, meu ex marido na maior parte do tempo estava desempregado.

COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

R.: Contei com a ajuda do meu ex marido num primeiro momento, fui para a faculdade, fiz meu mestrado, mas, depois com o sindicato, ele começou a brigar comigo por conta de eu chegar mais tarde em casa dos eventos. Rolava ciúme. Como meus filhos já estavam maiores e não tinham mais tanta necessidade de mim, nós nos separamos e fui morar com o meu filho caçula em outro lugar. Meus filhos me deram

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muito apoio na separação. Sofri muito mais consegui conciliar tudo. Tem horas que eu mesmo olho para trás, e fico pensando como consegui.

CONTOU/CONTA COM A AJUDA DO PAI?

R.: Sim, até certo ponto. Ele me ajudou no trato com as crianças, quando eu estava fora estudando e trabalhando.

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

R.: São quatro mulheres. Não há paridade. Nossa categoria só tem 17% de mulheres, daí a dificuldade. Somos 35 ao todo na direção e sete estão na Direção Executiva. Duas mulheres estão da Direção Executiva. Eu, que sou a presidenta e a diretora administrativa (secretária geral), as outras duas, uma é da diretoria de aposentados e a outra é a Presidenta do Conselho Fiscal. São então 31 diretores homens e quatro diretoras mulheres.

HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA? R.: Como disse, somos poucas na categoria, mas, no próximo mandato, pretendemos trazer mais mulheres para o sindicato. Os próprios diretores homens hoje vêem a importância de ter mais mulheres no sindicato. Isso foi resultado de trabalho de conscientização e formação. Houve muita briga e machismo no início quando apenas eu estava na direção executiva, mas, hoje, temos uma cultura bem mais respeitosa.

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES SIDICAIS?

R.: Sim. Em todos os nossos acordos temos auxilio creche e acompanhante para as mulheres mães. Várias das empresas de nossa categoria assumiram os 120 dias de licença maternidade e temos conseguido agora que outras empresas façam acontecer os 20 dias de licença paternidade. Isso ajuda muito as mulheres. Apesar disso, ainda acho fraca as reivindicações femininas. Poucas mulheres vem ao sindicato para se colocar em relação as suas solicitações. Já tivemos casos de mulheres assediadas no trabalho e fizemos uma luta árdua para protegê-las, mas, normalmente elas não querem denunciar seus assediadores. Tem medo. Percebi agora com a "Deforma Trabalhista" que isso piorou e se acentuou.

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35

ENTREVISTADA 3

QUAL SEU NOME COMPLETO? R.: Camila de Melo Domingos QUAL SUA IDADE?

R.: 30 anos.

QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO? R.: Socióloga. Professora de Sociologia. QUAL SINDICATO QUE ATUA? R.: SIMPRO-RJ.

TEM FILHOS? R.: não.

COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

R.: Nem todos/as conseguem estar no local de trabalho e exercer atividade sindical. Existe uma espécie de licença, garantida por lei, para os/as dirigentes sindicais. Mas não podemos tirar licença das tarefas particulares, como casa, cuidados com nossa saúde, formação intelectual profissional. É algo estressante, principalmente no período em que estamos vivendo, que tem exigido muito mais de quem cumpre papel dirigente. Temos que ter o dobro de informação, o dobro de capacidade de argumentação, por isso temos que ler mais, participar de mais reuniões, conversar mais ainda com a base. E ainda assim, não deixar de marcar uma consulta de rotina, fazer compras, arrumar a casa, cuidar de pai, mãe, avó, estar presente nos eventos da família. Então, como faz? Não sei, só sei que a gente vai fazendo tudo...

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

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R.: Muitas. Formamos inclusive um núcleo de mulheres dentro do Sindicato. Lá não há paridade, mas na CUT há. Uma paridade real - não uma delegação das pastas “menos importantes” para as mulheres.

HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA? R.: Sim, dentro do Sinpro-Rio temos um grupo específico de mulheres (e também de professores e professoras que se identificam como negros e negras).

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES SIDICAIS?

R.: Parto da compreensão que o debate de gênero desvinculado do debate classista pouco contribui para o avanço dos direitos trabalhistas e, de forma geral, pouco incide na redução das desigualdades sociais. Quando os professores vão pra uma paritária (reunião do sindicato com o patronal) e defendem, por exemplo, o aumento da quantidade de dias que o trabalhador pode tirar para levar seu filho/a ao médico, isso incide diretamente na vida da mulher professora. Então, diria que não são pautadas reivindicações específicas das mulheres, mas, com uma categoria majoritariamente composta de mulheres como a minha, qualquer beneficio ou qualquer retrocesso, nos afeta profundamente.

ENTREVISTADA 4

QUAL SEU NOME COMPLETO? R.: Keila Machado

QUAL SUA IDADE? R.: 41 anos

QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO? R.: Operadora de Telemarketing.

QUAL SINDICATO QUE ATUA? R.: SINTTEL-RJ.

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TEM FILHOS? R.: 1 filho.

CASO SIM, COMO FOI/É CONCILIAR O TRABALHO E O CUIDADO COM OS FILHOS?

R.: Quando entrei no sindicato ele tinha 6 anos. Era bem difícil, mas sempre que podia levava ele. Nos congresso da CUT por exemplo sempre teve creche para que as mães pudessem ir. E no Sinttel as atividades mais longas tinham creches.

COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

R.: Não é fácil. Porque o trabalho sindical exige muita dedicação. Tinha filho pequeno, estudava( não conclui a faculdade), tinha que dar conta da casa. Por mais que meu companheiro tenha consciência que as obrigações do lar seja de todos da casa sempre tem algumas coisas que eu faço mais e outras que ele faz mais. Mas não dou conta e faço o que posso em casa. Pra mim( sou liberada e minha atuação é exclusiva no sindicato) trabalho sindical é um trabalho, uma função, uma tarefa como tem qualquer trabalhador. Então eu encaro o sindicato assim. Minha prioridade sempre foi família, trabalho a casa eu dedico o tempo que sobra.pra casa.

CONTOU/CONTA COM A AJUDA DO PAI? R.: Nunca contei com ajuda de pai.

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

R.: No Sinttel a chapa é composta de 57 pessoas, desse total 30% são mulheres. E hoje liberada somos 5 de 20 pessoas liberadas.

HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA? R.: As mulheres do meu sindicato não são organizadas.

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES SIDICAIS?

R.: Nas negociações sempre tem cláusula sociais que visam melhorar as garantias das mulheres. Tal como dias para levar filhos ao médico, entre outras coisas.

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ENTREVISTADA 5

QUAL SEU NOME COMPLETO? R.: Annyeli Damiao Nascimento QUAL SUA IDADE?

R.: 32 anos.

QUAL SUA PROFISSÃO E FUNÇÃO? R.: Economista e Professora

QUAL SINDICATO QUE ATUA?

R.: Sindicato dos Professores da Rede Privada do Rio de Janeiro TEM FILHOS?

R.: Não.

COMO FAZ PRA CONCILIAR TRABALHO, CASA E SINDICATO?

R.: Tenho a sorte de morar com meus pais entao minha mae contribui bastante nos afazeres domesticos. Mas sem duvidas o tempo despendido cuidando da casa poderia ser melhor utilizado.

CONTOU/CONTA COM A AJUDA DO PAI? R.: Não.

QUANTAS MULHERES ATUAM NO SEU SINDICATO HOJE? HÁ PARIDADE?

R.: 28. Não.

HÁ UMA AUTO ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DA CATEGORIA? R.: Sim.Temos a comissão de mulheres.

AS PAUTAS DAS MULHERES DA CATEGORIA SÃO PAUTADAS NAS NEGOCIAÇÕES SIDICAIS?

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CAPÍTULO 4

Divisão sexual na política sindical: análise do questionário apresentado

De que forma essa divisão sexual do trabalho no universo sindical interfere e contribui para avanços e retrocessos nas pautas vindicatórias das mulheres? Quais são as dificuldades que as mulheres encontram em ocupar os espaços sindicais?

Ao analisar o questionário (perguntas e respostas), antes de falar sobre a divisão sexual dentro dos sindicatos, das centrais, na esfera sindical como um todo, há que se falar que a divisão sexual do trabalho, onde as mulheres são responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidados com os filhos.

Essa divisão pode ser observada tanto no direcionamento das perguntas, como nas respostas dadas pelas entrevistadas, podendo-se chegar a conclusão de que pelas respostas das entrevistadas com relação a conciliação das jornadas de trabalho e das divisões de tarefas, temos o que é dito por Hirata37, como modelo de conciliação:

“no modelo da conciliação a mulher trabalha fora, mas também assume as tarefas domésticas, enquanto o homem trabalha fora e não se sente na obrigação dos cuidados com a casa e os filhos”

No questionário apresentado como amostra, quando se pergunta se a mulher contou ou conta com a ajuda de alguém, subentende-se que a responsabilidade é dela, ela é a responsável pela realização de determinada tarefa: com a casa e com os filhos. Na pesquisa em questão algumas respondem que sim, outras nem tanto, outras que não. Nenhuma responde que as tarefas eram divididas.

A divisão das tarefas domésticas, conhecida como trabalho reprodutivo por Gabriela Fuentes38, vai interferir diretamente na sobrecarga de jornadas na vida das mulheres, uma vez que além de trabalhar fora de casa, elas também trabalham dentro de casa. E quando as mulheres resolvem se inserir na política sindical de sua categoria,

37

38 CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres,trabalho e globalização: gênero como determinante

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assumem mais uma jornada, pois essa política também vai demandar tempo dessas trabalhadoras, assim como observado na seguinte resposta da Ligia:

“Foi muito desgastante, só não foi mais porque o meu ex-marido ajudava a cuidar deles, mas tínhamos opiniões divergentes sobre educação e isso as vezes atrapalhava bastante. Dormia sempre a meia noite todos os dias para dar conta de tudo, principalmente de conversar com meus filhos antes de dormir. Acordava às 6 h para ir para o trabalho.”

Também observado pela seguinte resposta da Luiza quando perguntado sobre a conciliação das jornadas:

“Muito difícil. Tive que triplicar a jornada de trabalho, meu marido sempre colaborou.”

Outra percepção trazida pelas perguntas e respostas é com relação ao número de mulheres existentes nas categorias de trabalho das entrevistadas. Em todas as respostas sobre paridade de gênero, unanimemente foram respondidas que não há paridade. No SINTRAMICO (sindicato da Ligia), no SINTTEL (sindicato da Keila) e no SINTSAUDE (sindicato da Luiza) as mulheres representam dezessete, trinta e vinte e cinco por cento, respectivamente. Inclusive no sindicato dos professores, cuja profissão tem histórico de ser predominantemente feminina, também não há paridade, se quer chega aos trinta por cento orientado pela caderno de resoluções da Central Única dos Trabalhadores.

Desde a fundação da Central, a presença organizada das mulheres tem sido importante no debate sobre gênero e em temas gerais da CUT. Há momentos que marcaram nossa trajetória e fortaleceram nosso protagonismo tais como: a aprovação da resolução pela descriminalização e legalização do aborto, no 4º CONCUT (1991); a aprovação de cota mínima de gênero de 30% para os cargos de direção da nossa Central, na 6ª Plenária da Nacional da CUT (1993); a transformação da Comissão Nacional

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sobre Mulher Trabalhadora em Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, no 9º CONCUT (2003); a aprovação dos aperfeiçoamentos no estatuto, no que se refere à política de cotas de gênero a ser implementada pelo conjunto de suas instâncias, compreendendo aqui, Estaduais da CUT, Confederações e Federações Orgânicas, na 12ª Plenária Nacional (2008), que deliberou39:

“1- Paridade na Executiva e Direção Nacional e Estaduais da CUT, alterando o estatuto. Essa medida dá consequência à resolução da 13ª Plenária e o 11º CONCUT atualiza o mecanismo de representação das mulheres nos espaços de poder, com o objetivo de garantir a plena aplicação desse critério, como também a presença e a manutenção das mulheres CUTistas na Direção da Central; 2. O aprofundamento desse debate nas demais instâncias da CUT até o 12º CONCUT. As entidades verticais e de base/sindicatos iniciarão o processo de um amplo debate com a base, considerando a realidade do setor/categoria, com a perspectiva de ampliar a participação das mulheres.”

E reafirmou:

“Temos sido referência para outras organizações mistas e do movimento de mulheres. No entanto, segue como um grande desafio para o conjunto da Central assumir uma plataforma feminista capaz de transformar a realidade da classe trabalhadora e, em particular, a vida das mulheres”

39R434 Resoluções do 11º CONCUT : Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores / Central

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Uma categoria profissional cuja maioria são mulheres, por que não são maioria, ou ao menos cinquenta por cento na representatividade da direção do sindicato? Há uma contradição que evidência que os homens ainda são os que ocupam as esferas de poder, por isso Nancy Fraser40 diz quando fala sobre divisão sexual do poder e divisão sexual do saber, que só alcançaremos a igualdade de gênero quando atingirmos a igualdade de divisão do poder de tomada de decisões. A questão da representatividade interfere diretamente na inclusão da pauta das mulheres nas negociações sindicais, que por sua vez interfere na aplicação de políticas públicas para as mulheres.

Quando Ligia (entrevistada numero 4) coloca que:

“Quando os professores vão pra uma paritária (reunião do sindicato com o patronal) e defendem, por exemplo, o aumento da quantidade de dias que o trabalhador pode tirar para levar seu filho/a ao médico, isso incide diretamente na vida da mulher professora. Então, diria que não são pautadas reivindicações específicas das mulheres, mas, com uma categoria majoritariamente composta de mulheres como a minha, qualquer beneficio ou qualquer retrocesso, nos afeta profundamente.”

Ainda que a norma negociada em acordo com a patronal não seja direcionada ao gênero (para o masculino ou para o feminino), na prática como são as mulheres as responsáveis socialmente pelos cuidados com os filhos, a norma acaba que se destina as próprias mulheres, mesmo que em seu texto venha escrito de forma não sexista.

Quando a entrevistada Ligia (entrevistada número dois) responde que:

“Em todos os nossos acordos temos auxilio creche e acompanhante para as mulheres mães. Várias das empresas de nossa categoria assumiram os 120 dias de licença maternidade e temos conseguido agora que outras empresas façam acontecer os 20 dias de

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licença paternidade. Isso ajuda muito as mulheres. Apesar disso, ainda acho fraca as reivindicações femininas.”

A Constituição Federal de 1.988 previu, entre os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, no intuito de melhoria da condição social, a “licença paternidade, nos termos fixados em lei”. Todavia, enquanto não fosse sancionada referida lei e para que os trabalhadores tivessem esse direito imediatamente, o Ato de Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) determinou que o prazo da licença paternidade seria de cinco dias.

O embasamento legal da licença-paternidade encontra-se na Constituição Federal, no art. 7º, XIX que assegura o direito. No Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT – Art. 10, II, § 1º, regulamenta sua concessão, conforme abaixo transcrito:

“Até que a lei venha disciplinar o disposto no art. 7º, XIX, da Constituição, o prazo da licença-paternidade a que se refere o inciso é de cinco dias”.

Em 2016, foi alterada a lei que institui o Programa Empresa Cidadã, com o objetivo de garantir a licença paternidade estendida, direito até então previsto apenas nos casos de licença maternidade.

Nesse sentido, de acordo com a lei em questão, os empregados das empresas que aderirem ao Programa Empresa Cidadã terão a licença prorrogada por 15 dias, além dos cinco já garantidos pela Constituição. Logo, os empregados dessas empresas passam a fazer jus a 20 dias de licença.41

41 SECAD, Licença paternidade: o que mudou com a reforma trabalhista?, Disponível em:

<https://www.secad.com.br/blog/direito/licenca-paternidade-o-que-mudou-com-reforma-trabalhista/> Acesso em 23 nov 2018.

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Essa conquista foi muito importante para o avanço da promoção da paridade de responsabilização dos cuidados com os filhos.

Quando a sindicalista Ligia diz na entrevista:

“Poucas mulheres vem ao sindicato para se colocar em relação as suas solicitações.”

A entrevistada diz que apesar de poucos, quando organizadas conseguem progredir, mas que ainda são poucas. De cinco entrevistadas, todas dizem ser poucas mulheres e/ou minoria ainda, porém das cinco, três respondem que as mulheres são auto organizadas e duas respondem que as mulheres não se organizam.

Quando uma categoria consegue negociar as pautas relativas aos dias limites de faltas com a justificativa de levar os filhos ao médico, por exemplo, é importante para a diminuição de sobrecarga de jornada na vida dessas mulheres, mas ainda é sexista, uma vez que a norma é para as mulheres. Ou seja, parte-se do pressuposto (que é o construído socialmente) de que essa tarefa é da mulher.

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Conclusão

A inserção dos recortes de gênero nos estudos sobre trabalho e relações de trabalho é fruto de muita luta por parte das mulheres, de muita luta por parte dos movimentos feministas.

As mulheres sindicalistas, mesmo que quando em minoria, ou em pequena proporcionalidade, quando organizadas conseguem avanços e vitórias, não somente para as mulheres da sua categoria, mas também para a aplicação de políticas públicas no geral, como o exemplo da conquista do creche para todos e para o avanço da licença paternidade.

A tentativa de conciliar tais esferas leva a essas mulheres a se confrontarem com pressões e discriminações42, o que gera a dicotomia da opção pelo trabalho ou por ter filhos; ou se dedicar a carreira ou se dedicar ao lar.

Mulheres que se desdobram para conseguir ocupar os espaços de poder, para conciliar cuidar da casa, dos filhos, dar conta do seu emprego e ainda serem sindicalistas. Mas como diz Fraser43, que antes da divisão sexual do trabalho existe uma divisão sexual do poder, uma divisão sexual do saber, portanto para alcançar a igualdade entre os gêneros, precisa-se conceder igualdade de oportunidades no acesso ao saber e no acesso ao poder.

Ressaltando que existe um abismo social para o acesso a esse saber, a esse poder. Não se pode desassociar o recorte de gênero sem colocar que há uma diferença de opressão entre as mulheres brancas das mulheres negras e, também, das mulheres de classes mais baixas.

As mulheres brancas estão bem a frente nas conquistas de quebra dos papéis de gênero e não reconhecer isso é um erro, uma vez que as para atingir a igualdade e a isonomia material trazida no texto constitucional da Constituição de 198844, no art. 5º:

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e

42CUNHA, Gabriela; FUENTES, Fernanda, Mulheres, trabalho e globalização: gênero como determinante

nos padrões globais de desigualdade, pág. 6

.43FRASER, Nancy, Feminismo, Capitalismo e a astúcia da história, 2009.

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aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.”

Nos últimos tempos a pauta das mulheres tem avançado bastante, fruto de uma organização coletiva das mulheres, mas ainda tem-se muito que avançar e uma das coisas necessárias para isso acontecerem como relatados nesse trabalho, é que se tenha no mínimo uma paridade de gêneros nas direções sindicais.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FRASER, Nancy, Feminismo, Capitalismo e a astúcia da história, 2009.

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Referências

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