Celma Laurinda Freitas Costa**
MOREIRA, Alberto da Silva; TROMBETTA, Pino Lucà. O Pentecostalismo
globaliza-do. Goiânia: Ed. da PUC Goiás, 2015.
O
resultado de um “projeto de pesquisa internacional comparada”, desenvolvido por dezesseis pesquisadores de diferentes contextos sociais, culturais, econômi-cos, políticos e religiosos e com diversos recortes epistemológieconômi-cos, objetivando documentar algumas questões postas no centro do debate científico acerca da expansão do Pentecostalismo em países de quatro continentes (África, Ásia, Eu-ropa e Américas), deu origem ao livro O Pentecostalismo globalizado.Esse livro foi organizado em razão de intercâmbios acadêmicos entre dois grandes in-telectuais de várias e profícuas produções e entre suas respectivas instituições científicas: Alberto da Silva Moreira, do Brasil, filósofo, teólogo, pós-doutor em Ciências da Religião (mídia e religião), pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor e coordena-dor do Núcleo de Estudos Avançados em Religião e Globalização no Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e assessor do Grupo de Trabalho contra o Tráfico Humano da Conferência dos Bispos do Brasil; e Pino Lucà
Trombet-ta, da Itália, doutor em Sociologia, professor e pesquisador do Departamento
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* Recebido em: 10.09.2016. Aprovado em: 20.09.2016.
** Doutoranda em Ciências da Religião pela PUC/Goiás. Mestre em Educação e doutora em Educação pela PUC/Goiás. Doutora em Ciências Jurídicas e Sociais pela UMSA/ Argentina. Professora universitária e especialista em Direito e em Gestão Educacional. Instrutora em Mediação Judicial e Mediadora Judicial capacitada pelo CNJ/Brasília. E-mail: [email protected].
de Ciências da Educação da Universidade de Bolonha, na área da sociologia dos processos culturais e comunicativos, imigração e religiões dos imigrantes, budismo e imigração, mormonismo na Itália, tendo realizado pesquisa sobre Pentecostalismo no Brasil e na África e se tornado professor visitante da PUC Goiás.
Os professores Moreira e Trombetta organizaram significativas pesquisas sobre a es-piritualidade pentecostal, considerando as inovações que o Pentecostalismo introduziu na sociedade e na religiosidade cristã e a sua adaptação às culturas locais e às relações que ele (Pentecostalismo) estabelece com as igrejas tradi-cionais (igrejas históricas: católica ou protestante).
Com o título Cristianesimi senza fronteire: le chiese pentecostale nel mondo, Trom-betta, como um dos organizadores da coletânea dos resultados temáticos levantados no referido projeto, publicou a primeira versão em italiano em 2013. A tradução para o português foi feita por Moreira em 2015, já com acréscimos de conteúdos oriundos de frutíferos debates realizados pelos dois professores organizadores e por diversos autores da referida pesquisa no I Co-lóquio Internacional do Núcleo de Estudos Avançados em Religião e Globali-zação da PUC Goiás (NEARG), ocorrido em 2013. Assim, a obra inicialmente foi publicada em italiano, e a tradução para o português do Brasil recebeu um título que correspondeu à adequação das interlocuções ocorridas no colóquio. Na prática, a obra apresenta-se de grande contribuição para o ambiente acadê-mico e para a ciência.
Pressupondo-se a existência de uma transversalidade nos movimentos religiosos do Cristianismo em diferentes contextos culturais, a pesquisa concentrou-se em cinco hipóteses de possibilidades: 1) delineamento de uma “identidade pen-tecostal” mesmo com a fragmentação dos movimentos religiosos no mundo; 2) definição de um novo tipo de experiência religiosa a partir da música e da encenação; 3) identificação das possibilidades e limites de expansão do Pente-costalismo em diferentes países e áreas geográficas; 4) verificação da possível correlação entre Pentecostalismo e desenvolvimento econômico e as razões do seu sucesso nas diferentes classes sociais; 5) ligações orgânicas estabelecidas com o desenvolvimento econômico-social em cada lugar e a possível exis-tência de uma modalidade própria de Cristianismo como uma quarta grande formação histórica da religião cristã: diferente e autônoma em relação às suas raízes protestantes e que se coloca ao lado do Catolicismo, do Protestantismo e da Ortodoxia (MOREIRA; TROMBETTA, 2015, p. 7).
Diante de tais questionamentos e pressuposições acerca da pluralidade pentecostal, das tecnologias espirituais, da mobilidade religiosa e do pluralismo religioso no mundo, os treze estudos que compõem a obra O Pentecostalismo globalizado foram realizados e amplamente debatidos por Pino Lucá Trombetta (Itália),
Ari Pedro Oro e Hilário Wynarczyk (América Latina), Ricardo Mariano e Alberto da Silva Moreira (Brasil), Brenda Carranza (Brasil), Mattews
Anthony Ojo (África: Nigéria), Annalisa Butticci (África: Nigéria e Gana),
Joy Kooi-Chin Hong (Ásia: China, Hong Kong e Taiwan), Rebecca S. Samuel
Shah (Índia: Bangalore), Richard Burgess e Kim Knibbe (Europa), Elizabeth
Mareels (Bélgica), Enzo Pace (Itália), Michael Wilkinson (América do Norte),
Paolo Naso (Europa).
Sistematizando a pesquisa, Pino Lucà Trombetta (2015, p. 13-14), com o ensaio
Re-ligião sem fronteiras: o crescimento do pentecostalismo, demonstra que o Pentecostalismo atingiu uma dimensão global com características específicas, distintas da influência norte-americana em razão das suas reconstruções histó-ricas. No processo de adaptação, as confissões pentecostais, legitimadas pelas inovações e pelo seu princípio democrático (todos são igualmente guiados pelo Espírito), absorveram aspectos específicos das culturas locais no pro-pósito de oferecer soluções aos problemas de cada comunidade – o que, de certa forma, torna difícil a sua conceituação e a sua tipologia na sociedade contemporânea. Mas muitos estudiosos consideram o Pentecostalismo como uma quarta religião cristã ou um quarto Cristianismo.
Os pesquisadores Ari Pedro Oro e Hilário Wynarczyk (2015, p. 40-41) analisaram o grande crescimento do Pentecostalismo na América Latina, denominando-o como “novo agente social”. Esclarecem o perfil coletivo religioso que se diver-sifica nos modos de organização e nas teologias que possuem discursos volta-dos ao atendimento de interesses religiosos e materiais e à indústria cultural da vida das igrejas pentecostais, o que implica falar em “Pentecostalismos”. Outro fator de crescimento origina-se de processos de exclusão social de uma grande parcela da sociedade. Sem romper com as premissas fundamentais do campo evangélico, o Pentecostalismo funciona desvinculado de outras igrejas evangélicas, gerando dúvidas sociológicas sobre a sua tipologia: neopentecos-tal ou parapentecosneopentecos-tal. A diversidade das crenças pentecostais latino-america-nas impede o estabelecimento de generalizações válidas baseadas apelatino-america-nas em alguns casos; necessário seria, segundo os autores, que se realizassem estudos locais em cidades, municípios e países. O Pentecostalismo cria novas formas de controle social e produz uma organização no campo político com represen-tantes no parlamento, objetivando continuar a missão evangélica na sociedade.
Duas contribuições brasileiras foram demonstradas por Ricardo Mariano e Alberto da
Silva Moreira, que investigaram a expansão, diversificação e transformação do Pentecostalismo no Brasil, e por Brenda Carranza, que analisou o Cristianis-mo Pentecostal na nova face da Igreja Católica.
Identificando que o fim do apoio do Estado à religião hegemônica foi um dos fatores decisivos e favoráveis para o crescimento pentecostal no Brasil, Mariano e
Moreira (2015, p. 45) apontam que o Pentecostalismo, como uma “religião de massa”, cresce no mundo por meio de intensivo ativismo missionário, e no Brasil o movimento pentecostal transformou o campo religioso brasileiro e reconfigurou a esfera pública nacional, seja pela crescente ocupação massiva na mídia, seja pelo ativismo político. O estudo dos dois pesquisadores abordou a expansão numérica do Pentecostalismo no Brasil em 2010, que conta com mais de 35 milhões de adeptos. Sobre a especificidade do Pencostalismo bra-sileiro, os autores (2015, p. 47) esclareceram
[...] sua pluralização denominacional, sua diferenciação interna, as análises teóricas e empíricas a respeito do seu crescimento, suas estratégias evangelísti-cas, sua ocupação da esfera pública e certas mudanças pelas quais passou nos planos teológico, ético, estético, político e evangelístico até se tornar uma nova religião de massa.
Destacando o declínio do Catolicismo brasileiro e ao mesmo tempo o revigoramen-to comunitário e institucional do Carevigoramen-tolicismo pela Renovação Carismática, que, pelas suas estratégias midiáticas, políticas e culturais do mercado editoral e fonográfico, acaba por provocar uma redução no crescimento pentecostal, Mariano e Moreira (2015, p. 63), identificando a concorrência entre o Pente-costalismo e o Catolismo, afirmam que “o pluralismo religioso consolidou-se no Brasil e o mercado religioso tornou-se altamente competitivo, provocando mudanças consideráveis nos processos de interação entre os próprios grupos religiosos e deles com os agentes e entidades seculares”. Outro destaque da pesquisa é a rejeição das classes médias escolarizadas, que, por sucessivos escândalos religiosos, éticos, financeiros e políticos, acabam impondo limita-ções ao avanço pentecostal. Assim, “a expansão pentecostal tende a continuar, majoritariamente, entre os estratos sociais pobres, interessados em superar, por via religiosa e comunitária, a precariedade e a vulnerabilidade social que experimentam” (MARIANO; MOREIRA, 2015, P. 64). Essa parcela significa-tiva do mercado religioso brasileiro busca satisfazer as suas escolhas, interes-ses e necessidades da forma que melhor aprouver aos crentes (e não crentes, adeptos). Mas isso não inibe a contribuição que o Pentecostalismo, como um dos movimentos religiosos mais dinâmicos e globais, dá ao mundo: os mis-sionários e igrejas pentecostais brasileiras, investidos de autoridade moral e religiosa e com o Espírito de Salvação, passaram a ter uma legitimação para evangelizar países ricos, mesmo tendo que enfrentar as distâncias culturais e as dificuldades linguísticas.
Brenda Carranza (2015, p. 70), em seus estudos, partindo da análise estatística do re-latório Global Christianity, a report on the size and distribution of the world’s
Christian Population de 2011 e de dados do Center for the Study de que há aproximadamente 279 milhões de pentecostais e 305 milhões de carismáticos renovados, esclarece que “os dados demográficos sinalizam, de um lado, a dinamicidade do fenômeno pentecostal ao conectar com a espiritualidade as-pirações materiais e necessidades afetivas das camadas populares, ao mesmo tempo em que interfere nas mudanças econômicas, políticas e culturais dos pa-íses latino-americanos”. Carranza (2015, p. 70-71) enfatiza ainda que “o cres-cimento do pentecostalismo corresponde à sua habilidade em negociar com as culturas e tradições locais e à sua diversidade institucional, o que se traduz na multiplicidade de novas igrejas”. Pelos seus estudos, verificou-se que os setores mais pobres são os que mais aderem às expressões pentecostais. No que tange ao Catolicismo latino, a estudiosa alerta para o fato de que igrejas portadoras de recatolização e de neocristandade tiveram os seus esforços re-presentados pelo Movimento Carismático como uma novidade para a salvação do Cristianismo ocidental e alívio para o Catolicismo latino.
Dois ensaios dizem respeito à África, onde um sexto da população encontra-se nos mo-vimentos carismáticos e pentecostais. Da realidade da Nigéria, o pesquisador
Mattews Anthony Ojo (2015, p. 95 e 108-109), por uma perspectiva histórica, identifica que o Pentecostalismo nasceu como uma religião popular, à margem do controle eclesiástico. Inicialmente, homens e mulheres jovens, sem for-mação pastoral ou teológica, que se rotulavam como pastores e tinham forte carisma, estavam ainda sem hierarquia religiosa e se investiram de sentido de legitimidade e liderança pelo batismo do Espírito Santo e na experiência pro-duzida por ele. No dia a dia, eram aceitos pelas pessoas, que se arrependiam de pecados e aceitavam Jesus como Salvador. Tais pastores ofereciam às pessoas o sucesso na vida e prometiam livrá-las das forças espirituais malévolas e das degradantes condições socioeconômicas e políticas. Os seus sermões estavam centrados na cura e nos milagres. No contexto africano, as igrejas pentecostais, tendo ideologias contraditórias entre si, especializaram-se em oferecer produ-tos religiosos a diferentes tipos de classes socais. As classes mais instruídas recebem orientação para se libertarem da cosmologia cultural dos ancestrais, dos espíritos malignos. Já nas classes menos instruídas, a orientação religiosa é de empoderamento pessoal para a ascensão social, de modo que fiéis sejam projetados para alcançar sucesso, prosperidade, riqueza e felicidade. De modo geral, o Pentecostalismo possibilitou redefinições nas relações entre os espa-ços público e privado. Tornou-se positivo na África, gerando mudanças fun-damentais na população. O Cristianismo carismático na Nigéria rompe com o passado e trabalha por um processo de renovação pessoal e coletiva.
Ainda no contexto africano, a autora Annalisa Butticci (2015, p. 114) constatou que, na estrutura oral pentescol, a música gospel evangélica na Nigéria e em Gana
tra-duz sentidos quanto à força milagrosa de Jesus Cristo, sua morte, ressurreição e à promessa de salvação pelo Espírito Santo, bem como demarca territórios entre crentes e não crentes. A música, instrumentada pelos mais diversos meios de comunicação (rádio, televisão, cinema, etc.) e de difusão musical (igrejas, casas, festas, mercados, etc.), alcança as diferentes realidades da vida cotidia-na. A música gospel tornou-se um fenômeno de consumo em massa. Annalisa
Butticci (2015, p. 115) narra aspiração de salvação e redenção, desejos e anseios dos africanos, abrangendo uma memória social e musical. A mú-sica no estilo gospel se apresenta como um elemento central da experiência religosa pentecostal e também importante produto de cultura e entretenimento (“turismo cultural e espetacularização dos eventos religiosos”). Tanto as igre-jas pentecostais quanto as igreigre-jas carismáticas estão conscientes do papel e do poder da música no contexto litúrgico e social. A dança, como instrumento da comunicação não verbal, acompanha as músicas com seus ritmos vibrantes e alcança, sem barreiras nos espaços públicos e privados, várias emoções dos nigerianos e ganenses. A música e a dança respondem às necessidades identi-tárias das diferentes comunidades; e, mesmo em anonimato, a música cria uma “sensação de intimidade” (TROMBETTA, 2015, p. 20).
Dois artigos trazem a análise religiosa da Ásia, sendo um texto do autor Joy Kooi-Chin
Hong, que estudou a situação do Pentecostalismo em adaptação à cultura da China, Hong Kong e Taiwan; e o outro de Rebecca S. Samuel Shah, que fez sua investigação no contexto da Índia, Bangalore, sobre o papel do Pentecostalis-mo na Pentecostalis-mobilidade social e sua inserção na sociedade de castas.
Joy Kooi-Chin Hong inicialmente (2015, p. 131, 137 e 144) narrou a história do Cris-tianismo chinês, dizendo que ela ocorreu paralelamente à história do Pen-tecostalismo nos Estados Unidos. Desde o início do Reavivamento da Rua Azusa, em 1906, missionários norte-americanos convertidos pela experiência do poder miraculoso do Espírito saíam de Los Angeles para terras estrangeiras e aportavam no mundo asiático. O Pentecostalismo foi capaz de estabelecer relações estruturais com a religiosidade popular chinesa, tendo admitido uma hierarquia sobrenatural e ofertado uma teologia espiritual que sobreviveu às perseguições do regime comunista e às suspeitas e discriminações das igrejas protestantes oficiais. Nas igrejas chinesas, o estilo pentecostal de fé expõe o sobrenaturalismo com práticas de cura, milagres, exorcismo, religiosida-de do sexo feminino e possui uma estrutura organizacional religiosida-descentralizada, apresentando-se com estilo igualitário na revelação da atuação do Espírito Santo. Em Hong Kong e Taiwan (semelhante à situação da China), o Pentecos-talismo criou um ambiente religioso especial em fins de semana e por meio de conferências para os membros de várias denominações de comunidades cristãs experimentarem um estilo pentecostal de renovação espiritual. A forte
influ-ência do Pentecostalismo na Ásia ocorreu em razão da comunidade chinesa de imigrantes dos Estados Unidos. Joy Kooi-Chin Hong destacou que as igrejas pentecostais chinesas são fruto do transnacionalismo, continuam crescendo na Ásia e desempenham um papel importante no Cristianismo chinês.
A outra pesquisa no continente asiático foi realizada por Rebecca S. Samuel Shah (2015, p. 147-8), especialmente no contexto da Índia, objetivando verificar o papel que o Pentecostalismo desempenha nos processos de mobilidade social, desenvolvimento econômico entre empreendedores pobres em Bangalore e emancipação das mulheres. Ela afirmou que, somente na última década e meia, o Pentecostalismo na Índia decolou e que isso ocorreu depois de superar as cri-ses e as complexidades da primeira, segunda e terceira gerações (missionários imigrantes norte-americanos, disputas entre missionários das Assembleias de Deus e a liderança pentecostal local), tendo se tornado um fenômeno próprio e sociologicamente significante. O Pentecostalismo da Índia, sem mediações ao sagrado, mas centrado nos dons do Espírito e no poder da fé, de forma criativa negociou com a cultura de castas (classe alta, média e os intocáveis/dalits) um caminho espiritual e de emancipação pessoal segundo as condições iniciais de cada grupo. Ofereceu oportunidade de sair da pobreza ante o investimento de autovalorização pessoal dada pela religiosidade pentecostal. Permitiu acesso a estilos de vida ocidentais pela música e pela mis en scène americanas para as classes superiores em ascensão. Proporcionou outras oportunidades, dando vi-sibilidade social às mulheres (dalits, vítimas da cultura machista), o que lhes promoveu dignidade pessoal, valorizando o papel ativo que elas têm no dom da palavra e na experiência religiosa à luz da fé (TROMBETTA, 2015, p. 22). Três pesquisas realizadas na Europa contribuíram para compreender que a expansão de
igrejas pentecostais decorreu em grande parte da presença de imigrantes pro-venientes de diferentes partes do mundo, inclusive de Goiânia e do estado de Goiás, sendo que, em muitos casos, o número de adeptos é superior ao número de protestantes e de pentecostais nativos. O estudo de Richard Burgess e Kim
Knibbe (2015, p. 159, 180), traz um esboço do contexto da paisagem religiosa e da dinâmica do Pentecostalismo na Europa, especialmente acerca do cresci-mento das igrejas pentecostais e carismáticas migrantes, uma vez que elas têm contribuído para uma nova forma de sociedade civil e ainda estabelecido uma rede de apoio aos processos de migração e aos imigrantes transnacionais para condições de bem-estar material e não material. Tais igrejas colocam à dispo-sição do imigrante prestação de serviços de assistência social, de programas educativos relacionados com a gestão de negócios, investimentos, questões de imigração, casamento, saúde, etc. Foi identificado na pesquisa que tal reali-dade enfrenta um novo repertório de controvérsias (teologia, ensino de pros-peridade, homossexualidade, doenças como HIV/AIDS, corrupções, abusos
de criança e violação dos direitos humanos). Muitos dos exemplos concretos são oriundos de investigações realizados pelo autor sobre igrejas pentecostais nigerianas e redes pentecostais na Europa. No entanto as igrejas pentecostais e as carismáticas migrantes coreanas, brasilerias e africanas, com sua forma de auto-organização, são as que têm demonstrado maior crescimento e represen-tam de modo geral uma força social significativa na Europa, especialmente na Grã-Bretanha, Reino Unido, Holanda, e, com ponderações, na Alemã.
Elizabeth Mareels estudou a Igreja Videira pentecostal goiana na Bélgica e elucidou as contradições da evangelização pela migração. A autora identificou que o Pen-tecostalismo brasileiro foi implantado na Bélgia especialmente por imigrantes e não por “multinacionais da fé”, como a Igreja Universal do Reino de Deus. As igrejas pentecostais transnacionais, especialmente a Videira (igreja em cé-lulas), foram implantadas por imigrantes brasileiros e para eles mesmos em suas experiências migratórias, sob o discurso missionário de evangelizar bel-gas. Entre tensões e contradições de difícil solução, a superioridade brasileira na fé para evangelizar a Europa encontra barreiras na própria “brasilidade”, por se desconhecer a língua estrangeira e pela falta de integração brasileira na sociedade europeia. No entanto esclareceu Mareels (2015, p. 213-14) que mesmo assim o crescimento “é significativo, pois, que o sucesso da Videira em Bruxelas seja explicado pelos membros da Igreja por ela ser ‘como no Brasil’, sobretudo no que diz respeito ao ambiente emocional, ao louvor intenso, ani-mado por grupos talentosos e pelo ‘jeito’ dos pastores forani-mados no Brasil”. Com a investigação dos pentecostais na Itália, Enzo Pace (2015, p. 217, 220)
demons-trou que a origem da expansão mais recente do Pentecostalismo deve-se à fundação de novas comunidades com os “empresários do espírito”. Segun-do Pace (2015, p. 218), o mercaSegun-do religioso competitivo Segun-do Pentecostalismo, como um novo tipo de Cristianismo (carismático, emocional, alegre, encanta-do por milagres, com modernismo na comunicação religiosa) – instauraencanta-do nos movimentos das igrejas pentecostais e nos movimentos carismáticos de nível mundial e na própria Itália –, busca sempre oferecer um produto original, com vista a aumentar o número de fiéis, independentemente de qualquer que seja a procedência (Igreja Católica, Igrejas Protestantes históricas ou qualquer outro grupo de inspiração pentecostal).
Nesse aspecto, Pace (2015, p. 223-224) faz uma diferenciação interna das igrejas pen-tecostais em três fases ou ondas do ponto de vista cronológico e histórico: Pentecostalismo clássico (igrejas pentecostais antigas, como as Assembléias de Deus ou Church of God in Christ, com missionários norte-americanos do início do século XX, tendo por princípio fundante o dom do Espírito); Pente-costalismo neoclássico (movimentos ortodoxos, protestantes e católicos que se afastam da influência dos EUA nos países de missão com lideranças
na-cionalizadas nos anos cinquenta, cuja diretriz era a experiência de falar em línguas por meio de portadores de dons extraordinários de cura e exorcismo); e Neopentecostalismo ou megachurch (movimento recente cujo vigor é a pas-sagem da experiência do carisma ou dos dons do Espírito Santo ao dom do su-cesso no mundo, o que dificulta resumir o seu conceito numa única etiqueta). Outra questão é a diferenciação institucional entre os pentecostais e carismá-ticos, que é sentida pela orientação ideológica: os pentecostais diferenciam-se na sua própria estrutura interna, ao passo que os carismáticos, embora adotem formas litúrgicas semelhantes às do Pentecostalismo protestante, mantêm-se dentro da igreja católica e com o ideário da Renovação do Espírito. Pace iden-tificou ainda aspectos diferenciadores entre o Pentecostalismo nos países de origem e o Pentecostalismo dos imigrantes (especialmente nigerianos, ganen-ses, chineganen-ses, brasileiros), dizendo que o papel da religião dos imigrantes não é secundário nos processos de integração, mas impulsiona o desenvolvimento dos missionários para tentar recristianizar as sociedades ocidentais, necessita-das de nova evangelização. Isso tem levado o mundo europeu, e em especial a Itália, a presenciar uma configuração sociorreligiosa nas sociedades europeias. Na América do Norte, Michael Wilkinson (2015, p. 232-4 e 258-9) enfocou o nasci-mento do Pentecostalismo no revival do início do século XX (Reavivanasci-mento da Rua Azusa no período de 1906 a 1909: o falar em línguas) e sua expansão em outros continentes, por ter se tornado nos tempos atuais representante de diferentes formas de diversas correntes migratórias e da comunicação trans-nacional. Também foram feitas algumas observações sobre o desenvolvimento assimétrico do Pentecostalismo no Canadá. O autor, distanciando-se das duras críticas negativas de que as igrejas pentecostais sejam fundamentalistas ou último bastião dos ignorantes e de impulso sectário, se propôs a analisar o Pentecostalismo por meio do diálogo entre a teoria de mercado e a teoria da globalização quanto aos aspectos sobre as influências não norte-americanas nos inícios do Pentecostalismo, as redes sociais globais e o aumento da diver-sidade cultural desse segmento religoso contemporâneo por meio da migração, principalmente da África, Ásia e América Latina, incluindo entre outros fato-res a economia religiosa local e as transformações promovidas pela migração e pelas redes globais, sendo que vários movimentos pentecostais foram aviva-dos pela doutrina, prática e autoridade religiosa. Outra situação elucidada diz respeito à vocação missionária do espírito evangelizador de Pentecostes (Atos dos Apóstolos por Paulo), bem assim a orientação para o mercado, com vista a ampliar as igrejas pentecostais em âmbito nacional e internacional.
Paolo Naso (2015, p. 257-9, 270), em seus estudos, buscou identificar a coerência do Pentecostalismo com o ideário da Reforma Luterana e com a história do Protestantismo. Do ponto de vista teológico, ele questionou sobre a
possibi-lidade de estabelecer distinções quanto à matriz protestante da qual se origi-nou o Pentecostalismo, enfatizando o surgimento de uma religiosidade pelo metodismo do século XIX de orientação da Reforma (salvação pela fé, graça divina e liberdade na interpretação da Bíblia: Jesus, Senhor e Salvador), o que denominou de Pentecostalismo reformado, ancorado em uma dogmática reformada, e pelo qual as igrejas protestantes históricas estabeleceram es-paços de diálogo – apesar de tensos, complexos e duros – justificados pelo compartilhamento de categorias teológicas fundamentais. Ao lado desse mo-vimento, identifise o surgimento de uma corrente pós-reformada, com ca-racterísticas de um “quarto Cristianismo”, em oposição ao Protestantismo, ao Catolicismo e à Ortodoxia. Descreve-se que o movimento pentecostal configura-se como uma religião carismática, miraculosa e sincrética, como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil (liturgias fantasiosas misturadas com profecia, cura, unção, bênção). A crítica de Naso é que essa igreja está mais próxima da magia e de uma “empresa liberal carismática”, revelando-se estranha à história do Protestantismo. Seria um Cristianismo não denominacional, e sim experimental, flexível em formulações dogmáti-cas, pós-moderno e pós-protestante.
Pode-se dizer que a nova religiosidade pentecostal ou o caráter renovador do Pentecos-talismo no mundo globalizado desafia a construção de noções e concepções teóricas. A dinâmica do mundo religioso está investida de inovadoras, compe-titivas e transversais ações na recepção de um pluralismo religioso de atitudes para satisfação de desejos e necessidades materiais imediatas. Mas um aspecto reconhecido pelos pesquisadores do projeto diz respeito à adaptabilidade do Pentecostalismo aos contextos nos quais se afirma em relação às expectativas dos fiéis, dos crentes. Isso contrasta com as igrejas cristãs históricas, que lu-tam pela continuidade doutrinal e institucional. Entre essas realidades (Catoli-cismo, Protestantismo, Ortodoxia), há um tipo diferente de legitimidade, que, de certa forma, provoca uma nova religiosidade das pessoas: “quarta confissão cristã” (Trombetta), “nuevo agente social” (Oro; Wynarczyk), “novo tipo de espiritualidade cristã” (M. Ojo), “uma religião de massa” (Moreira), “um novo tipo de Cristianismo” (Pace), “um quarto Cristianismo: carismático, miraculo-so e sincretista” (Namiraculo-so).
Em crise de plausibilidade religiosa, o credo essencial, antes dogmático, passa nas igrejas renovadas a ser, segundo Enzo Pace, “bem temperado”, de modo a dar soluções religiosas e respostas às mais diferentes necessidades existenciais. De acordo com Trombetta (2015, p. 15), a afirmação de uma crença essen-cial diferente das elaborações complexas e dogmáticas das crenças tradicio-nais introduz uma “nova antropologia do crer”. As crenças, antes firmadas pela fé no Espírito Santo e em adesão voluntária às verdades formalizadas,
transfiguram-se em razão da legitimidade da fé do Espírito Santo baseada em experiência que seja capaz de transformar e mudar a vida cotidiana do crente. É, pois, uma fé utilitarista e pragmática. Os resultados e as adesões demonstraram que as pessoas buscam se realizar com prosperidade no mundo material em que vivem. Assim, o Pentecostalismo dá primazia e abertura a tudo que o Es-pírito Santo possa operar, respondendo às invocações, desejos e necessidades dos crentes. Isso os leva a se reencantarem com o mundo. A luta entre Deus e o Diabo acontece aqui, em tempo real, e transversalmente. É uma onipresença de vitórias.
Nesse sentido, o Pentecostalismo globalizado encontra-se em processos transformacio-nais pelas inovações ou (re)novação no ato de crer. Raciocínio que encontra eco na reflexão de Trombetta (2015, p. 31), ao afirmar que
O Pentecostalismo consegue, portanto, acomodar questões específicas – linguís-ticas, étnicas, de classe social, de posição econômica e de gênero – e dar apoio às necessidades identitárias acentuadas pela globalização, mantendo um alto reconhecimento como religião mundial, e conjugando, enfim, a dimensão local que valoriza o particular, com aquela global, que garante a participação num movimento transnacional em expansão.
Com uma nova gramática religiosa bem-sucedida no sucessivo processo transmigrató-rio no atual mundo globalizado, o Pentecostalismo interpenetra na realidade cotidiana da vida das pessoas, independentemente de classes sociais, porém com maior aceitação nas camadas mais pobres da sociedade; rompe dificulda-des linguísticas; e negocia sempre em regime de adaptação com as tradicionais religiões e sistemas culturais, para promover inovações na satisfação religiosa de salvação pela fé por meio de milagres e curas, ou para, mesmo na Terra, auferir bens de salvação de ordem material, como riquezas, prosperidades e felicidades imediatas em tempo real, no aqui e no agora.