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CEPEC

Centro Popular de Estudos Contemporâneos

ISSN 1808-9194

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Copyright ©2008 by

Centro Popular de Estudos Contemporâneos (CEPEC) ISSN 1808-9194

Antítese – Marxismo e Cultura Socialista Novembro de 2008 – n. 6

Capa

David Maciel

Foto da capa

“Marx em 1861”

Projeto gráfico, diagramação e revisão textual

Ana Carolina Neves Carolina Brandão Piva

Coordenação Gráfica

Editora Kelps - (62) 3211-1616 / 3211-1075

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É proibida a reprodução total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio, sem a autorização prévia e por escrito do autor. A violação dos Direitos Autorais (Lei nº 9610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal Brasileiro.

IMPRESSO NO BRASIL Printed in Brazil

2008

Endereço para contato:

Rua 262, nº 45, ap. 102, Bl. 1C. Setor Leste Universitário CEP: 74611-020 Goiânia – GO

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CEPEC

Centro Popular de Estudos Contemporâneos

COMITÊ EDITORIAL

Alberto Gomes de Oliveira Antonio Carlos Victorio Cláudio Agatão Porto Cláudio Lopes Maia David Maciel Erland Bilac Gilson Dantas José de Lima Soares

Paulo Augusto de Faria (in memorian)

CONSELHO EDITORIAL

Alci Horácio da Silva

Aline Moco Micklos Ana Lúcia da Silva Anita Lima Oliveira André Lopes Erl

Antonio Henrique Lemos Aparecido Dias

Barsanufo Gomides Borges Carlos Custódio de Oliveira Edmundo Fernandes Dias Élio Cantalício Serpa Elisa di Garcia Enock Cavalcante Fernando Leite

Fernando Santos da Silva Flávio Marcos G. de Araújo Frederico Augusto Frazão Genésio Borges de Melo Geraldo Pessoa

Gibran Jordão

Gilmar Alves de Avelar Holien Gonçalves Bezerra Horieste Gomes

João Alberto da Costa Pinto Joaquim Jaime

José da Costa Ribeiro (in memorian) José Santana

Leile Sílvia Cândido Teixeira Luiz Carlos Soares

Lúcia Helena Rincón Marcelo Badaró Mattos Márcia Alencar

Márcia Jorge

Marcos Antonio da Silva Maria Geralda de Miranda Mitzi Segovia

Nildo Viana

Paulo Ribeiro da Cunha Pedro Ivo Jorge de Faria Rafael Saadi

Ranulfo Ferreira Filho Renato Gomes Ricardo Antunes Roberto Leher

Robson de Sousa Moraes Rui Moreira

Sebastião Cláudio Barbosa Sérgio Paulo Moreira Sílvio Costa

Walmir Barbosa Washington Fraga

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO DOSSIÊ MARX

A importância de Marx, 150 anos depois do Grundrisse Entrevista com Eric Hobsbawm

Do indivíduo abstrato ao concreto Jair Pinheiro

Marx e a modernidade capitalista Augusto C. Buonicore

Marx e a ditadura do proletariado: conceito político e sociológico obsoleto?

Gilson Dantas

Considerações marxistas acerca das noções de esfera pública e prática comunicativa em Habermas

Fábio José C. de Queiroz

A alienação do trabalho e a luta pela redução da jornada de trabalho

José de Lima Soares

Difusão e recepção do Manifesto do Partido Comunista na Itália entre 1889 e 1945

Marcello Musto

ARTIGOS

As formas contemporâneas de vigência do trabalho: construindo as cidades contemporâneas

Fábio Fernandes Villela

O que os “Verdes” não viram ou não quiseram ver Isidoro Revers

O domínio patriarcal como mecanismo de domínio de classe: as origens do poder

Alexandre Nardini

Mariátegui: uma vida, uma história Fábio Vieira Peixoto

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

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APRESENTAÇÃO

N

este número da Revista Antítese, publicamos a segunda

e última parte do dossiê comemorativo dos 190 anos do nascimento de Karl Marx. A segunda parte do Dossiê Marx é dedicada aos temas, problemas e conceitos abordados por Marx, bem como ao debate por ele suscitados na política e nas ciên-cias. Abrimos o dossiê com uma entrevista concedida pelo célebre historia-dor Eric J. Hobsbawm ao professor Marcello Musto, que gentilmente nos autorizou sua publicação. Celebrando os 150 anos de redação dos famo-sos Grundrisse (elementos fundamentais da crítica da Economia Política), elaborados por Marx como material preparatório para O Capital e jamais publicados durante sua vida, Hobsbawm relembra sua importância na formulação marxiana e a riqueza de temas e problemas ali abordados. Analisa, ainda, o “renascimento” do interesse por Marx, não apenas pela profundidade de explicação do funcionamento e da dinâmica do capitalis-mo, particularmente ressaltada pela eclosão da crise econômica mundial, mas pela perspectiva de transformação e superação do atual estado de coisas, que anima ativistas políticos e sociais pelo mundo afora.

Em seguida, Jair Pinheiro aborda a crítica do individualismo burguês efetuada por Marx e recupera a defesa do indivíduo concreto como as-pecto da emancipação humana por ele defendida. Augusto Buonicore retoma o debate, ainda não esgotado, sobre a relação entre modernidade e capitalismo em Marx e no marxismo, recuperando a dimensão funda-mentalmente crítica do entendimento de nosso autor sobre a questão. Em confronto aberto com o pensamento dominante na esquerda, parti-cularmente aquela de matiz reformista, Gilson Dantas propõe a atualida-de do conceito atualida-de ditadura do proletariado, conforme elaborado por Marx e Engels, para qualquer perspectiva política que se pretenda socialista e revolucionária. Na seqüência, Fábio Queiroz avalia criticamente as formu-lações de Habermas sobre esfera pública e ação comunicativa, a partir da própria crítica do liberalismo e das formas políticas burguesas efe-tuada por Marx e pela tradição marxista posterior. José de Lima Soares

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atualiza a discussão sobre a alienação no trabalho e a necessária redu-ção da jornada de trabalho em Marx e em outros teóricos, tema de gran-de relevância para a luta dos trabalhadores na atual conjuntura gran-de crise econômica. Fechando o dossiê, publicamos mais um trabalho de recen-seamento crítico da obra de Marx e Engels desenvolvido por Marcello Musto, desta vez tratando das edições e da recepção do Manifesto do

Partido Comunista na Itália entre os anos de 1889 e 1945. Trabalho

escla-recedor acerca dos descaminhos e incompreensões de que foi vítima o mais conhecido texto de Marx e Engels no país que viria a se tornar um dos centros mais importantes de elaboração marxista no século XX.

A seção de artigos abre-se com o instigante trabalho de Fábio Villela sobre as relações entre o processo de reestruturação produtiva, os mo-dos de socialização e de estranhamento no trabalho a ele relacionamo-dos, particularmente no setor de construção civil, e a dinâmica da reestru-turação urbana atual, com influência direta na organização espacial das cidades contemporâneas. Tratando de um dos temas candentes da ques-tão ambiental hoje, publicamos o artigo de Isidoro Revers (Galego), mili-tante da luta pela terra no Brasil, que analisa de um ponto de vista crítico o apoio de setores do movimento ecológico internacional ao programa brasileiro dos agrocombustíveis, baseado no agronegócio, como uma das soluções para os problemas ambientais mundiais. Alexandre Nardini ana-lisa o surgimento histórico do poder político relacionando-o ao patriarca-lismo e à dominação de classe nas primeiras sociedades humanas. Con-tribuindo para o debate sobre o marxismo e suas diversas interpreta-ções, Fábio Vieira Peixoto encerra este número recuperando a persona-lidade histórica de José Carlos Mariátegui, teórico e revolucionário peru-ano. Considerado por muitos o fundador do marxismo latino-americano, sua obra deve ser estudada e discutida como uma referência inspiradora para a reflexão atual sobre os destinos de nosso continente.

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DOSSIÊ MARX

A IMPORTÂNCIA DE MARX, 150 ANOS DEPOIS

DO GRUNDRISSE

Entrevista com Eric Hobsbawm*

* Entrevista concedida, em 16.9.2008, a Marcello Musto (editor do Grundrisse de Karl Marx: Fundamentos da Crítica da Economia Política, Londres-Nova Iorque: Routledge, 2008).

Tradu-ção de Gilson Dantas a partir do original “The current importance of Marx, 150 years after the Grundrisse – Conversation with Eric Hobsbawm” (september 16, 2008), extraído do site Eric

Hobsbawm’s ZSpace Page e cotejado com o texto da revista eletrônica Sin Permiso, de maio

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Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presi-dente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: A Era da Revolução: Europa 1789-1848 (1962); A Era do Capital: 1848-1874 (1975); A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994).

Marcello Musto – Professor Hobsbawm, Karl Marx voltou ao foco das

atenções duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das amarras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?” Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importan-tes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.

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Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espec-tro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da Rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte fra-se: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento mo-derno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm – Estamos assistindo, no mundo capitalista, a um

indis-cutível renascimento do interesse público por Marx, com exceção, pro-vavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma cri-se econômica internacional particularmente dramática em um período de uma veloz globalização do livre-mercado.

Cento e cinqüenta anos atrás, ao analisar a “sociedade burguesa”, Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros com relação à natureza e às instabilidades da economia capitalista na qual eles atuam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos Estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspira-dos por Marx e Lênin. Os assim chamainspira-dos “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros pos-sam estar alinhados com esta perspectiva) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza comparti-lhada tanto pelo capitalismo como pelo socialismo tradicional. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser convincente como agente histórico da transformação social postulada por Marx.

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Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminen-tes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Naturalmente, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado um grande clássico e pensador, embora por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos 1980 e 1990. Há sinais agora de que o processo retomará seu curso.

Marcello Musto – Marx foi um agudo e incansável investigador que, ao

longo de sua vida, percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele enten-deu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por po-líticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econô-micas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do Leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos emprésti-mos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na duradoura capacidade de ele ajudar a expli-car as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm – Não é possível afirmar se a política da esquerda no

futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas: isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Uma vez que, como você diz corretamente, a recupe-ração do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, princi-palmente – baseada na atual crise da sociedade capitalista, a perspec-tiva é mais promissora do que foi nos anos 1990. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômi-ca nos Estados Unidos, dramatiza o fraeconômi-casso da teologia do livre mereconômi-ca- merca-do global descontrolamerca-do e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos 30.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, a enorme desigualdade e

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injustiça, causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já colocam problemas importantes para a estabilidade social e geram dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade essencial do desenvolvimento capitalista que funciona através de crises econômicas periódicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de rela-ções humanas possa jamais ser definitivo.

Marcello Musto – Você não acha que, se as forças políticas e

intelectu-ais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo deste novo século, renunciarem às idéias de Marx, es-tarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm – Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx,

na medida em que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas em uma análise séria do desenvolvimento histórico, parti-cularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente pa-rece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elemen-tos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista. Uma vez que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “so-cialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do so“so-cialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força, e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.

Contudo, Marx não regressará como uma inspiração política para a es-querda até que seja entendido que seus escritos não devem ser trata-dos como programas políticos, autoritários ou não, mas como guia para se compreender a forma de Marx analisar a natureza do desenvolvimen-to capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e

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pleta de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de

cons-truir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de O Capital. Como os Grundrisse mostram, mesmo que tivesse sido completado, O

capital formaria apenas uma parte do próprio plano original, talvez

ex-cessivamente pretensioso, de Marx. Por outro lado, Marx não voltará a ser inspiração da esquerda até que a tendência freqüente entre ativistas radicais, de transformar anti-capitalismo em anti-globalização, seja aban-donada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade huma-na, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu-lhe as boas-vindas, em princípio. O que ele criti-cou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto – Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior

inte-resse entre os novos leitores e comentadores são os Grundrisse. Escri-tos entre 1857 e 1858, os Grundrisse são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial pre-paratório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato de ele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu apelo permanente?

Eric Hobsbawm – Do meu ponto de vista, os Grundrisse provocaram um

impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos 50 e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo or-todoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmen-te ser descartados pelo marxismo soviético. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos 70 e 80, antes da queda do Muro de Berlim, continuaram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca proble-mas importantes que não foram considerados no Capital, como, por exem-plo, as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou [Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of

Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nova

York, Routledge, 2008].

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Marcello Musto – No prefácio deste livro, escrito por vários

especialis-tas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composi-ção, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos Grundrisse, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os Grundrisse “tra-zem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das trans-formações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na Ideologia Alemã. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamen-to de Marx em pensamen-toda sua riqueza”. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos Grundrisse hoje?

Eric Hobsbawm – Não há, provavelmente, mais do que um punhado de

editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto – Para terminar, uma pergunta. Por que é importante ler

Marx hoje?

Eric Hobsbawm – Para qualquer interessado nas idéias, seja um

estu-dante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e perma-necerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes ana-listas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mes-tre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem que se leve em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo es-creveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a com-preensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.

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DO INDIVÍDUO ABSTRATO AO CONCRETO

Jair Pinheiro*

* Jair Pinheiro é professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp/

Marília e pesquisador do NEILS – Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais, PUC-SP. Este ensaio é resultado preliminar de um programa de estudo mais amplo; por isso, se o apresento neste estágio, é porque, apesar de seus limites, me parece um bom ponto de partida para a crítica da mistificação jurídica de que a ciência política se tornou presa nas últimas décadas.

A idéia de indivíduo é central nas ciências humanas, particularmente na ciência política. Excetuando-se o marxismo, pode-se afirmar que essa idéia ocupa um lugar central em todas as demais correntes teóricas. Este ensaio tem um duplo propósito: (1) apresentar uma contribuição para a crítica dessa idéia, que é a de indivíduo abstrato, dos seus fundamentos e desdobramentos; e (2) sustentar a tese de que a crítica de Marx ao individualismo burguês tem o sentido de que a transição para o socialis-mo corresponde à substituição do indivíduo abstrato pelo concreto, com suas prerrogativas e necessidades.

Tome-se para a crítica, inicialmente, o indivíduo como aparece nas diferentes formulações jusnaturalistas (HOBBES, 1997; LOCKE, 1978), ou seja,

natural e isolado, e o seu correlato, uma ordem jurídica legítima porque associação de indivíduos moralmente livres e iguais.

Dada essa premissa, a política passa a ser pensada em dois planos distintos e autônomos, embora complementares: o da ação dos indivídu-os na busca de satisfação dindivídu-os seus interesses e o da regulamentação do sistema de ação no qual esses indivíduos estão inseridos. Nesse contex-to, o Estado se torna uma decorrência da vontade racional dos indivídu-os de viverem em sociedade, e o direito (incluído o poder coercitivo que o acompanha) e o aparelho administrativo, seus instrumentos precípuos para o exercício da sua função de regulamentar a vida social.

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Essa formulação encontra sua expressão máxima no idealismo kantiano. Kant concebe a relação entre os indivíduos e o Estado nos mesmos termos da interação intersubjetiva entre aqueles, como uma relação determinada pela vontade de viver conforme a idéia de direito, como convém à faculdade da razão. Na medida em que o direito é o direito de obrigar, ele é uma relação intersubjetiva na qual ao direito de um corresponde a obrigação de outro com relação a um objeto exterior; do mesmo modo que ao direito de obrigar do Estado corresponde o de-ver do cidadão e vice-de-versa, resultando disso que toda a vida política e social tem como premissa um princípio subjetivo: a vontade.

Para sustentar essa visão, Kant opera uma separação entre o ho-mem moral e o empírico:

[...] visto que, na ciência dos deveres, o homem pode e deve ser representado como uma personalidade independente das deter-minações físicas (homo noumenon) quanto a sua liberdade, a facul-dade que se encontra completamente fora do alcance dos senti-dos, e portanto também quanto a sua humanidade, em contraposição ao homem considerado como sujeito a essas deter-minações (homo phoenomenon). (KANT, 2005, p. 54)

O homem assim compreendido liga-se aos demais em dois planos distintos: o moral, ou da natureza comum, e o empírico, pelo desejo de gozo dos objetos exteriores. Daí que o indivíduo, na busca da satisfação dos seus interesses privados, se coloque a questão de como agir justa-mente, posto que outro indivíduo pode desejar o mesmo objeto. Questionamento que Kant resolve afirmando que “é justa toda ação que por si, ou por sua máxima, não constitui um obstáculo à conformidade da liberdade do arbítrio de todos com a liberdade de cada um segundo leis universais” (idem, p. 46), estabelecendo uma cadeia infinita de interações intersubjetivas mediada pelo direito.

Como indivíduos naturais e isolados não existem, essa premissa pro-move, no plano do conhecimento, a substituição da necessidade da vida social para os indivíduos pela vida social como resultado da vontade raci-onal de uma consciência auto-determinada e, com isso, uma cisão sem-pre mal-acabada, pois impossível, entre objetivo e subjetivo. Essa cisão é base e causa da dominação política de classes nas condições característi-cas de uma formação social capitalista, apesar de aparentar o contrário. Para desvendar os segredos dessa cisão, e da cadeia de mediações intersubjetivas que dela deriva, é preciso pôr em questão algumas pre-missas canônicas do direito. Mormente a de que o seu fundamento se localiza na aplicação da razão prática por indivíduos moralmente iguais. Evidentemente, não se trata de rechaçar o princípio da igualdade moral, mas de substituí-lo pela observação empírica na explicação histórico-so-cial, como defendia Marx, já em 1845, n’A Ideologia Alemã.

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Como não há ação, tampouco liberdade de arbítrio em abstrato, exceto quando o pensamento opera abstratamente sem considerar seus pressu-postos materiais e volta a eles como um produto unilateral seu, a ação de indivíduos sociais, que, no uso de seu livre-arbítrio, decidem entre meios disponíveis e estabelecem fins razoáveis, só adquire inteligibilidade no contexto de uma forma social determinada. Dessa forma, essa formu-lação kantiana, longe de ser um preceito abstrato da razão aplicado à ação prática, como aparece à consciência do próprio indivíduo, é antes uma abstração racionalizada de relações sociais historicamente determinadas.

Essa fórmula se aplica apenas numa formação social em que os indi-víduos se defrontam livres de qualquer outro constrangimento além das suas necessidades, como mediadores da satisfação das necessidades de cada um, em que os objetos da satisfação das necessidades (traba-lho morto) circulem tendo um equivalente geral como parâmetro da tro-ca. N’A Sagrada Família, Marx ironiza a percepção que o pensamento libe-ral tem dessa condição.

O indivíduo egoísta da sociedade burguesa pode, em sua repre-sentação insensível e em sua abstração sem vida, enfunar-se até converter-se em átomo, quer dizer, um ente bem-aventurado, ca-rente de relações e de necessidades, que se basta a si mesmo e é dotado de plenitude abso-luta. [...] Todavia, como a necessidade de um determinado indivíduo não tem, para um outro indivíduo egoísta que possui os meios de satis-fazer essa necessidade, um sentido que possa ser compreendido por si mesmo, como a ne-cessidade não tem, portanto, relação imediata com sua satisfa-ção, cada indivíduo tem de criar necessariamente essa rela-satisfa-ção, convertendo-se também em mediador entre a necessidade alheia e os objetos dessa necessidade. (MARX, 2003, p. 139)

Enfim, de acordo com a crítica de Marx, a fórmula kantiana pareceria incongruente com a realidade em quaisquer formações sociais pré-capi-talistas, pois não existiam as condições histórico-sociais que permitissem conceber o indivíduo abstrato como uma categoria universal já que, ne-las, o produtor direto está preso às condições materiais da reprodução social e da sua própria, ou seja, aos meios de produção e, por isso, im-possibilitado de encetar uma ação cuja máxima “não constitui um obstá-culo à conformidade da liberdade do arbítrio de todos com a liberdade de cada um segundo leis universais”; porque, devido à posse real dos mei-os de produção, toda ação sua, se não controlada por meimei-os coercitivmei-os, implica uma limitação à liberdade daqueles que detêm a propriedade ju-rídica dos meios de produção, mas não sua posse real.1

1 Sobre a distinção entre propriedade jurídica e apropriação (posse) real, cf. POULANTZAS (1969). DO INDIVÍDUO ABSTRATO AO CONCRETO

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A distinção formal interior/exterior, operada por Kant e que dá sus-tentação à sua idéia geral de direito, oculta tanto para a consciência comum como para a razão metafísica que o exterior humano é já objetivação2 humana (Cf. MARX, 2006), ou seja, apropriação humana da

natureza pelo trabalho conforme condições histórico-sociais determina-das. Trabalho que

é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. [...] Ele põe em movimento as for-ças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. [...] O estado em que o trabalha-dor se apresenta no mercado como vendetrabalha-dor de sua própria força de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos o estado em que o trabalho humano não se desfez ainda de sua primeira forma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem [...]. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. (MARX, 1988, L.

I, v. I, p. 149)

Entre as muitas implicações deste conceito de trabalho, três mere-cem destaque, dada a relevância delas para a questão que me ocupa neste ensaio: (1) por serem produto do trabalho os objetos que satisfa-zem as necessidades humanas, o direito sobre eles é direito sobre o trabalho; (2) como o meio de produção é um pressuposto necessário do trabalho, a propriedade jurídica sobre eles confere ao proprietário um direito especial, subsumido na abstração da norma, de submeter à sua vontade a vontade do não-proprietário, já na esfera da circulação, em que pesem aí as vontades se igualarem na forma; e (3) a força de traba-lho, como elemento subjetivo das forças produtivas, precisa ser moldada conforme as necessidades do seu pressuposto objetivo, os meios de produção, cuja propriedade jurídica os torna representação da vontade do capitalista. Ou seja, com a distinção operada por Kant, perde-se de vista a dialética interior/exterior ou, como julgo preferível, subjetivo/ob-jetivo; na qual um é pressuposto do outro, por isso determinando-se reciprocamente.

Por outras palavras, os objetos de que o homem se serve para a satisfação das suas necessidades não existem simplesmente fora e à

2 A ruptura entre os Manuscritos de 1844 e O Capital (Cf. ALTHUSSER, 1967) não significou o

abandono do conceito de objetivação por Marx, mas o deslocamento dele da problemática da filosofia do homem para a das formas de apropriação da natureza, passando a referir-se a um dos pólos da dialética entre a subjetivação da forma social, através do processo de sociabi-lidade, e a objetivação/reprodução dela através do trabalho.

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disposição dele, de modo que se possa referi-los como se só

obedeces-sem ao comando da vontade individual que incide sobre tais objetos ou da vontade coletiva obtida discursivamente (Cf. HABERMAS, 2003).

Referi-los assim oculta que são produzidos de uma determinada maneira e que esta, por sua vez, dispõe homens e mulheres em diferentes posi-ções nas relaposi-ções sociais de produção; por isso, oculta também que tais posições nas relações sociais de produção capitalistas constituem uma relação de dominação/subordinação.

Em qualquer sociedade, a prerrogativa de cada indivíduo de lançar mão dos objetos de que necessita é determinada pela posição que ocu-pa nessas relações sociais de produção, aliás, o que é consagrado no di-reito vigente nessas sociedades. Isto, entretanto, parece não valer para as sociedades capitalistas em que os indivíduos se encontram no curso das ações que encetam livres de constrangimentos jurídicos e estão obri-gados a observar apenas o tipo de norma jurídica que conforma seu direito subjetivo. Todavia, para demonstrar como, apesar da aparência, esse princípio também se aplica às sociedades capitalistas, é preciso tomar em consideração as características que distinguem o direito burguês e, a partir delas, retomar aquela cadeia de mediações já mencionada.

O direito burguês é caracterizado pelas formas racional-abstrata e igualitária. Aliás, a primeira é premissa da segunda, pois a possibilidade de que indivíduos desiguais recebam tratamento igualitário reside numa norma estritamente formal, sem referência a conteúdos materiais deter-minados. Em conseqüência,

é na medida em que o Direito é formal que ele pode ser sistemati-zado, como tendencialmente não-contraditório e saturado. A for-malidade do Direito e sua sistematicidade correlativa constituem sua universalidade formal: o Direito é válido para – e pode ser invocado por – toda pessoa juridicamente definida e reconhecida como pessoal jurídica. (ALTHUSSER, 1999, p. 85 – grifos do autor)

Essa sistematização está implícita na formulação kantiana, acima ci-tada, e é desenvolvida por Weber como uma espécie de culminação do processo de racionalização que inclui a generalização (redução da diver-sidade fática a um princípio geral) e a síntese (construção de relações e institutos jurídicos por analogia). Assim,

ela significa o inter-relacionamento de todas as disposições jurídi-cas obtidas mediante a análise, de tal modo que formem entre si um sistema de regras logicamente claro, internamente consisten-te e, sobretudo, em princípio, sem lacunas. Um sisconsisten-tema, portanto, que busca a possibilidade de subsumir logicamente a uma de suas normas todas as constelações de fatos imagináveis, porque, ao contrário, a ordem baseada nessas normas careceria de garantia jurídica. (WEBER, 1999, p. 12)

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Essas características permitem ao direito operar como uma ideologia racionalizada e relativamente – absolutamente, para Weber – autôno-ma, porque seu desenvolvimento se faz por profissionais especializados que tomam seus elementos internos como objeto, o que levou este au-tor a afirmar que “não há, portanto, no capitalismo como tal qualquer motivo decisivo para favorecer aquela forma de racionalização do direito que se conservou como específica no Ocidente continental desde a ins-trução universitária humanista da Idade Média” (idem, p. 151).

Contudo, o que aí é negado é implicitamente admitido em outra obra na qual o autor examina as origens históricas do capitalismo:

El reclutamiento de obreros para la nueva forma de producción, tal como ha se desarrollado en Inglaterra desde el siglo XVIII, a base de la reunión de todos los medios productivos en manos del empresario, se realizo en ocasiones utilizando medios coercitivos muy violentos, en particular de carácter indirecto. Entre estos figuran, ante todo, la ley de pobres y la ley de aprendices de la reina Isabel. [...] Quien sin permiso del maestro o empresario abandonaba su puesto en el trabajo, era tratado como vagabun-do; ningún desocupado recibía ayuda sino mediante su ingreso en los talleres colectivos. Por este procedimiento se reclutaron los primeros obreros para la fábrica. Sólo a regañadientes se avinieron a esa disciplina de trabajo. Pero la omnipotencia de la clase acaudalada era absoluta; apoyábase en la administración, por medio de los jueces de paz, quienes, a falta de una ley obligatoria, administraban justicia tan sólo conforme a una balumba de instrucciones particulares, según el propio arbitrio; hasta la segun-da mitad del siglo XIX dispusieron a su antojo de la mano de obra, embutiéndola en las nuevas industrias. (WEBER, 1997, pp. 260-261)

Em suma, o reconhecimento de que está na origem histórica do capi-talismo a expropriação dos produtores diretos e a submissão deles a uma administração da justiça monopolizada pelas classes abastadas, a que esses produtores só de má-vontade se conformaram, representa uma admissão implícita da relação causal entre os fundamentos do capi-talismo e os do direito, embora essa causalidade não seja unívoca nem exclusiva, mas certamente necessária,3 malgrado a pretensão teórica do

autor de sustentar a tese da autonomia absoluta do desenvolvimento do direito.4

3 “Para uma sociedade de produtores de mercadorias, cuja relação social geral de produção

consiste em relacionar-se com seus produtos como mercadorias, portanto como valores, e nessa forma reificada relacionar mutuamente seus trabalhos privados como trabalho huma-no igual, o cristianismo, com seu culto do homem abstrato, é a forma de religião mais adequada, notadamente em seu desenvolvimento burguês, o protestantismo, o deismo etc.” (MARX, 1988, L.1, cap. I, p. 75).

4 Uma análise da sociologia do direito weberiana, numa perspectiva distinta, encontra-se em

Pierucci (2000).

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No que se refere à cadeia de mediações, os indivíduos se encontram no curso das suas ações tendo como referência (não importa se consci-ente ou inconsciconsci-entemconsci-ente) as normas jurídicas. As controvérsias sobre tais normas são resolvidas no âmbito do próprio direito ou remetidas para a esfera política, quando percebidas como indicativas da necessida-de necessida-de mudança da legislação. Quando o necessida-debate sobre tais controvérsias ultrapassa o direito e a política e atinge a economia, o círculo parece se fechar, pois a esfera da circulação – na qual o direito opera como ideolo-gia – aparece como o locus por excelência de realização dos interesses individuais já que o conteúdo dos mesmos é indiferente à forma (contratual) das operações que aí se realizam. Porém, falta explicitar o elo oculto que fecha esse círculo.

Essa indiferença da forma em relação ao conteúdo é apenas aparen-te, uma vez que portadora do paradoxo de exigir um conteúdo fixo e geral ao qual todos os conteúdos particulares possam ser referidos; con-dição de estabilidade da forma (isto é, da mais ampla adesão) e da calculabilidade dos resultados. Ou seja, para que o direito racional formal abstrato regule as relações sociais em geral e, especialmente, as mer-cantis, ele precisa de um conteúdo suficientemente geral e abstrato, além de mensurável, que permita que os conteúdos particulares das ações individuais nas relações mercantis – ou, no caso das demais, os meios de que se servem – relacionem-se sob a forma da troca igualitária.

Do ponto de vista lógico, pode-se afirmar que o único conteúdo que serve a esse papel é o trabalho abstrato; todavia, mais que uma relação lógica, é o resultado do processo histórico de desenvolvimento do capi-talismo levado a cabo pela burguesia que, ao expropriar os produtores diretos dos instrumentos de produção, lançou-os no mercado como ven-dedores de força de trabalho, que criou as condições para que todos os objetos como produto do trabalho (e necessários à satisfação das carên-cias humanas) sejam trocados no mercado mediante operações de com-pra e venda, na forma contratual, portanto.

Neste ponto, não é ocioso assinalar que, no processo histórico de expropriação dos produtores diretos, a burguesia os coloca na mesma condição formal em que ela vive, qual seja a de prover os meios de que necessita por intermédio da forma contratual (e seu correspondente eco-nômico compra e venda), indiferente ao conteúdo. Naturalmente, como toda classe que logra êxito em estabelecer uma nova forma social, con-forme seus interesses, ela reservou para si um lugar privilegiado na or-dem jurídica: o de proprietária dos meios de produção.

Claro que esse lugar não poderia ser reservado por nomeação dire-ta no código jurídico, pois, além de contraditório com um direito racional-formal abstrato, teria um inconveniente político e um econômico. O políti-co: a consagração jurídica de um privilégio econômico inviabilizaria a

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institucionalização do Estado como representante do povo-nação cons-tituído de indivíduos livres e iguais. O econômico: toda propriedade imo-biliária precisa ser transformada em moimo-biliária para dar livre curso ao processo de desenvolvimento do capital. Assim, após expropriar os pro-dutores diretos e completar o ciclo de monetarização da economia, os representantes políticos da burguesia no parlamento precisaram ape-nas cobrir a diferença entre bens de consumo e meios de produção com o nome genérico de propriedade, a que se tem acesso unicamente por intermédio do dinheiro. Propriedade que, em algumas constituições, cons-ta cxom em algumas constituiços polomo cláusula pétrea e, em outras, está subsumida nos “direitos naturais do homem”, isto é, na liberdade de apropriação mediante aquele expediente (compra e venda) que o capitalismo estendeu a todos os indivíduos após a burguesia monopoli-zar o seu meio, o dinheiro. Ou seja, tratou-se tão-somente de legalimonopoli-zar uma situação histórica de fato criada pelo uso de mecanismos políticos e coercitivos; situação cujo desenvolvimento exigia essa legalidade.

Desse modo, embora o mercado capitalista seja, à primeira vista, apenas um lugar onde se realizam operações de compra e venda formal-mente iguais, uma dessas operações é seu fundamento, sem a qual todo o edifício se desmorona, a compra e venda de força de trabalho.5

Justa-mente por isso, duas diferenças separam radicalJusta-mente a burguesia dos produtores diretos: (1) a reprodução do burguês corresponde à repro-dução ampliada da acumulação de riqueza, enquanto a do produtor dire-to corresponde à sua sobrevivência física segundo um padrão social de-terminado; e, conseqüentemente, (2) na operação de compra e venda só o capitalista se apropria de trabalho vivo e, por isso mesmo, a apropri-ação (no mercado de bens e serviços) de trabalho morto que se defronta com o trabalho vivo (produtor direto) significa o comando deste por aquele, enquanto o capitalista comanda ambos. Claro que da perspectiva de clas-se, o que requer a intervenção do Estado, pois, do ponto de vista dos indivíduos, o movimento do capital em geral também escapa a cada capi-talista em particular.

Por ser o capitalismo uma forma histórico-social determinada de apro-priação humana da natureza e o direito a ele correspondente um discur-so racional-formal abstrato, quando os indivíduos atuam praticamente em conformidade com o livre-arbítrio de cada um, nada mais fazem que pôr em movimento as categorias econômicas (trabalhador e capitalista ou, respectivamente, vendedor e comprador de força de trabalho) que encarnam, pressuposto econômico da categoria jurídico-política de cida-dão livre-contratante.

5 Mesmo Weber – que, devido ao seu método compreensivo, dilui toda a materialidade das

relações sociais no conceito de valor – inclui a existência de um mercado de força de trabalho como uma das premissas do capitalismo (1997, pp. 236-237).

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Enfim, aqui aparece o elo oculto que fecha o círculo: o trabalhador, na condição de sujeito de direito, firma um contrato pelo qual troca (o seu) trabalho vivo por trabalho morto (os objetos de que precisa para a satis-fação das suas necessidades) e, a partir daí, está submetido a uma ou-tra vontade, a do capitalista. Não é por ouou-tra razão que Marx descreve o final dessa operação em termos dramáticos.

Ao sair dessa esfera da circulação simples ou da troca de merca-dorias, da qual o livre-cambista vulgaris extrai concepções, concei-tos e critérios para seu juízo sobre a sociedade do capital e do trabalho assalariado, já se transforma, assim parece, em algo a fisionomia de nossa dramatis personae. O antigo possuidor de di-nheiro marcha adiante como capitalista, segue-o o possuidor de força de trabalho como seu trabalhador; um, cheio de importân-cia, sorriso satisfeito e ávido por negócios; o outro, tímido, contra-feito, como alguém que levou a sua própria pele para o mercado e agora não tem mais nada a esperar, exceto o curtume. (MA R X,

1988, vol. I, L. I, p. 145 – grifos do autor)

A mudança e a diferença de fisionomia observadas nas personagens do drama se explicam pelo fato de que a forma jurídica igualitária é o pressuposto da tirania sobre o trabalho, realizado na unidade de produ-ção, espaço privado do capitalista, onde o poder legiferante parlamentar é substituído pelo do capitalista privado, isto é, a igualdade jurídica é substituída pelos lugares de dominação e subordinação próprios das re-lações sociais de produção capitalistas e da divisão social do trabalho. Menos visível do que essa transformação da igualdade jurídica em rela-ção de dominarela-ção-subordinarela-ção é o fato de a primeira ser pressuposto da segunda e vice-versa, num modo de produção baseado na proprieda-de privada dos meios proprieda-de produção. Ou seja, reiterando o que afirmei acima, é uma exigência lógica e material da extração da mais-valia que o possuidor de força de trabalho a ofereça como mercadoria à venda, pois sem isso não se completa a monetarização da economia, ficando o pro-cesso de desenvolvimento capitalista a meio caminho. Em resumo, assim como a força de trabalho é o objeto (conteúdo, portanto) dos contratos particulares entre capitalistas e trabalhadores, o trabalho abstrato o é da forma jurídica igualitária; o que fundamenta as posições de domina-ção-subordinação sob o manto da igualdade.6

Há um debate corrente, tanto no direito como na ciência política e na sociologia jurídica (VIANNA et al., 1999), animado por diferentes correntes

teóricas do direito, que sustenta a tese de que a institucionalização do

6 Esse parágrafo, aqui ligeiramente modificado, encontra-se em Pinheiro (2006, p. 152) no

contexto de uma reflexão sobre o Estado. Para uma análise da relação entre a forma mercan-til e a jurídica, ver PASUKANIS (1989).

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direito trabalhista representou a introdução de critérios de justiça na relação entre capital e trabalho e, por conseguinte, conferiu “um caráter público a relações da esfera privada”. À primeira vista, essa tese poria por terra a argumentação do parágrafo anterior; entretanto, ela perma-nece de pé por razões jurídicas, econômicas e políticas.

As jurídicas: apesar de haver diferentes escolas constitucionalistas envolvidas nesse debate, todas elas tomam o indivíduo abstratamente, nos termos kantianos, como sede do direito; reiterando, portanto, a ci-são entre objetivo e subjetivo e a conseqüente relação de dominação nela implicada, embora em condições histórico-sociais diversas das que vigoraram até a primeira metade do século XX, como veremos nas razões políticas.

As econômicas: como o mercado concorrencial (esfera da circulação) impõe o movimento de valorização como lei, os capitalistas implementam medidas (econômicas e políticas) para compensar toda perda derivada de interferência estatal no preço de mercado da força de trabalho, de modo que o efeito de conjunto, no tempo, é anular os ganhos obtidos pelos trabalhadores em suas lutas, o que confere um caráter provisório a toda conquista das classes trabalhadoras.

As políticas: justamente por ser o movimento de valorização uma lei, o que se tem observado nas últimas décadas, não por acaso coincidente com o período de judicialização da política, é um ajuste dos critérios de justiça – via de regra, restrito à ultrapassagem da linha de pobreza – aos imperativos de mercado, e não o contrário. Não é mera coincidência que, nesse período, no mundo todo os direitos sociais e os trabalhistas co-nheceram um retrocesso fruto de uma ofensiva político-ideológica que visou retirar-lhes a legitimidade de que gozaram no pós-guerra.

Por outras palavras, se o Estado de bem-estar, ao introduzir critérios de justiça na relação privada entre capitalista e trabalhador, conferiu-lhe um caráter público, a onda neoliberal promoveu uma mudança semântica no conceito de justiça, vista não mais como dever do Estado, mas função do mercado e, este, por sua vez, também sofreu um deslocamento se-mântico do campo das relações mercantis para o das liberdades civis, promovendo-se uma quase-identidade entre liberdade de mercado e li-berdade jurídica.

Desse modo, com a judicialização da política e das relações sociais, parte do poder legiferante interno à empresa que o capitalista havia per-dido para o parlamento, com a institucionalização dos direitos trabalhis-tas no pós-guerra, foi-lhe devolvido na forma de tratamento público (por-tanto, também parlamentar) privilegiado dos seus interesses de classe através da adoção política dos critérios de mercado como mecanismo de regulação social.

Assim, nos termos d’O Capital, a distinção kantiana entre o homem

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moral e o empírico, no que diz respeito aos produtores diretos,

corresponde à de vendedor de força de trabalho e comprador de meios de subsistência, na esfera da circulação e, na da produção, a uma peça subsumida no processo produtivo por dever a que se obriga pelo direito do capitalista. Com relação ao capitalista, aquela distinção corresponde à de comprador de força de trabalho (trabalho vivo, portanto) e vende-dor de mercavende-doria (trabalho morto) na esfera da circulação e, na da produção, dirigente do processo produtivo por direito adquirido na cir-culação. Em resumo, o direito é a consagração da subsunção formal e real do trabalho ao capital e, portanto, da subordinação do indivíduo que personifica o primeiro ao que personifica o segundo.

Da abstração jurídica à realidade social

Do exposto até aqui fica evidente que na teorização jurídica desapa-rece seu fundamento, o longo processo histórico de desenvolvimento das diferentes formas de apropriação dos meios de trabalho e de vida, culminando com a violência contra os produtores diretos; violência que é a um só tempo originária e perene, pois via de regra é empregada na expropriação dos produtores diretos em todos os casos de transição de formações sociais pré-capitalistas para a capitalista, e se prolonga nesta em diferentes formas: a econômica, realizada na esfera da produção pelas condições de trabalho;7 a política, pela imposição de limites ao

reconheci-mento de direitos aos trabalhadores; e a jurídica, pela utilização do apa-rato repressivo do Estado como instrumento em última instância para garantir a subsunção formal e real do trabalho ao capital.

Esse processo histórico pode ser expresso como tese geral – sem prejuízo dos estudos das formações sociais historicamente determina-das, portanto –, como a história das prerrogativas subjetivas do indiví-duo segundo sua posição nas relações sociais de produção. Em termos esquemáticos, pode-se aduzir à explicação uma observação histórica de Niebuhr, citada por Marx, e uma formulação lógica que este deduz dos seus próprios estudos históricos. A observação de que:

7 Chico de Oliveira, “O Pós-Moderno”, in: Folha de São Paulo, 20.05.2007: “... a produtividade

dos trabalhadores (cortadores de cana – JP) tem crescido de maneira exponencial. No período de dez anos estudado por Chico Alves, ela havia passado de seis para 12 toneladas diárias. Eles perdem cerca de dez litros de água por dia, percorrem distâncias – no campo de trabalho, nos metros que lhes são destinados para corte – de dez quilômetros diários, dão 66 mil foiçadas (com o podão, um facão especial) por dia para lograr as 12 toneladas diárias, trabalham no mínimo 12 horas por dia, numa jornada que tem, pelo menos, seis horas de intensa exposição ao sol.”

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El derecho a vender la propia persona y a la de los suyos, en tiempo de miséria, era, lamentablemente, un derecho universal; regía en el Norte, entre los griegos y en el Ásia; y no menos extendido se hallaba el derecho del acreedor a sujetar a esclavitud al deudor insolvente, para cobrarse, en lo posible con su trabajo o con el producto de la venta de su persona. (NIEBUHR apud MARX,

1985, pp. 357-358)8

Observação que é complementada pela formulação lógica de que a troca de equivalentes que,

al principio se manifiesta como un proceso real, se reconoce aquí como una relación jurídica, es decir, como condición general de la producción, lo que equivale a decir que la ley lo reconoce como la expresión de la voluntad general. Pero, por la acción de una dialéctica necesaria, esto se transforma y aparece [ahora] como el divorcio absoluto del trabajo y la propiedad y como la apropriación del trabajo ajeno sin cambio alguno, sin equivalente. (MARX, 1985, p.

369 – grifo meu)

Com essa dialética necessária – realizada pela história, assinale-se – Marx demonstra que a assinale-separação radical entre o homem moral e o empírico, longe de ser uma espécie de ontologia humana,9 é uma

rea-lização da história humana. Por intermédio dessa dialética, “el derecho a vender la propia persona y a la de los suyos”, ao chegar à forma capi-talista, é substituído pela troca (compra e venda) de equivalentes, co-mo resultado das transformações das formas de apropriação, na qual todos os indivíduos (trabalhadores e capitalistas) se apropriam dos mei-os necessárimei-os à sua própria reprodução pela troca de equivalentes.

Não é ocioso lembrar que a operação de compra e venda entre indiví-duos moralmente iguais guarda a sete chaves o seu segredo, qual seja o de que a troca de equivalentes na circulação corresponde à apropriação do sobre-trabalho pelo capitalista na esfera da produção, e que este di-reito decorre de uma violência original, fundante e, repito, perene. Daí a dupla importância da ideologia jurídica: assegurar a propriedade jurídica dos meios de produção aos capitalistas, o que lhes confere o direito de apropriação do produto do trabalho porque compraram o direito de uso da força de trabalho, e, ao mesmo tempo, reiterar a igualdade jurídica como horizonte das relações sociais, o que circunscreve toda controvér-sia sobre justiça a um debate sobre distribuição, como se esta já não estivesse pressuposta na produção.

8 NIEBUHR, B. G. Römische Geschichte, 1ª parte. 2ª ed. Berlin, 1827.

9 Isto não deve nos impedir de conceber uma ontologia humana, puramente subjetiva, desde

que essa distinção seja apenas um recurso metodológico no interior de uma dialética em que subjetivo e objetivo se determinem reciprocamente; o que supõe que o subjetivo tem um pólo objetivo próprio da forma social.

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Esse horizonte está subjacente à análise que Marx faz do movimen-to do capital, em que o processo de troca de mercadoria é um dos seus momentos, aquele que confirma aos olhos do liberal a ilusão de que o direito é o fundamento das relações sociais, porque:

Para que essas coisas se refiram umas às outras como mercado-rias, é necessário que os seus guardiões se relacionem entre si como pessoas, cuja vontade reside nessas coisas, de tal modo que um, somente de acordo com a vontade do outro, portanto cada um apenas mediante um ato de vontade comum a ambos, se aproprie da mercadoria alheia enquanto aliena a própria. (MARX,

1988, vol. I, L. I, cap. II, p. 79)

Ou seja, esse “ato de vontade comum a ambos” corresponde à au-sência de constrangimentos jurídicos nas operações de compra e venda e sustenta a ideologia do mercado como o reino da liberdade. Está con-sagrada a distinção kantiana, pois os constrangimentos a que está sub-metido o homem empírico (que sente fome, frio e cansaço) não contam na formação da vontade.

O confronto dessa citação do capítulo II (“O Processo de Troca”) com a citação acima sobre o drama dos personagens que saem da esfera da circulação para entrar na da produção (cap. IV, “Transformação do Di-nheiro em Capital”) evidencia a perspectiva da crítica de Marx ao indivi-dualismo burguês, que, a seu ver, contém a sua negação como possibili-dade histórica, isto é, a afirmação de um indivíduo concreto cuja prerro-gativa subjetiva tem como conteúdo, no lugar daquela igualdade moral abstrata que oculta aquela relação de dominação/subordinação, que ca-racteriza o poder de classe (Cf. POULANTZAS, 1977 e 1980), a articulação

dialética da necessidade com a liberdade. Ou, ainda, como na crítica da ideologia jurídica acima desenvolvida, no lugar da subsunção formal e real do trabalho ao capital transmutada em discurso jurídico; o trabalho como afirmação das prerrogativas individuais.

É importante fazer a ressalva de que Marx não faz essa afirmação diretamente. A tese, a meu ver, se sustenta por duas razões: (1) a idéia de prerrogativas subjetivas é um conteúdo evidente da crítica ao indivi-dualismo burguês, diria mesmo necessária dada a importância da ideolo-gia jurídica para a reprodução das relações capitalistas de produção; e (2) porque há formulações de Marx dispersas por toda sua obra, relati-vas ao socialismo e/ou ao comunismo, que colocam uma concepção de indivíduo diferente daquela kantiana, em alguns casos explicitando a con-dição de produtor direto como pressuposto objetivo das prerrogativas subjetivas, ou, por outras palavras, rearticulando dialeticamente o que Kant havia cindido: o homem moral e o empírico.

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Citemos algumas dessas referências de Marx ao indivíduo. No

Mani-festo Comunista: “Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas

clas-ses e antagonismos de clasclas-ses, surge uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” (1998, p. 59). Isoladamente, essa formulação chega ser abs-trata, mas no texto do Manifesto é uma referência evidente à apropriação coletiva dos meios de produção como condição para o pleno desenvolvi-mento do indivíduo.

N’A Guerra Civil na França: “Uma vez estabelecido em Paris e nos centros secundários o regime comunal, o antigo governo centralizado teria que ceder lugar também nas províncias ao governo dos produtores pelos produtores” (1983, p. 81). Complementada por: “A Comuna aspira-va à expropriação dos expropriadores. Queria fazer da propriedade indi-vidual uma realidade, transformando os meios de produção, a terra e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e explo-ração do trabalho, em simples instrumento de trabalho livre e associado” (idem, p. 84). Mais uma vez, a apropriação coletiva dos meios de produ-ção aparece como necessária ao desenvolvimento do indivíduo, assim como é necessário que este reconheça essa necessidade.

Na Crítica ao Programa de Gotha, a afirmação de que

[...] o direito igual continua sendo aqui, em princípio o direito burgu-ês, ainda que agora o princípio e a prática já não estejam mais em conflito, enquanto que no regime de intercâmbio de mercadorias, o intercâmbio de equivalentes não se verifica senão como termo médio, e não nos casos individuais (MARX, 1983a, 214 – grifos no

original)

sustenta o lema do socialismo, a cada um segundo o seu trabalho. Em nenhum outro texto a idéia de prerrogativa subjetiva do indivíduo liga-da à sua condição de produtor direto é tão clara como neste, pois tanto o lema do socialismo como o do comunismo (de cada um segundo sua capacidade e a cada um segundo sua necessidade) supõem um indiví-duo cuja prerrogativa está baseada nessa condição.

Por último, n’O Capital:

O reino da liberdade só começa, de fato, onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela adequação a finalidades ex-ternas [...]. Nesse terreno, a liberdade só pode consistir em que o homem social, os produtores associados, regulem racionalmente esse seu metabolismo com a natureza, trazendo-o para seu con-trole comunitário, em vez de serem dominados por ele como se fora por uma força cega [...]. Mas este continua a ser um reino da necessidade. Além dele é que começa o desenvolvimento das for-ças humanas, considerado como um fim em si mesmo, o verdadei-ro reino da liberdade, mas que só pode florescer sobre aquele rei-no da necessidade como sua base. (MARX, 1988, L. 3, v. 5, p. 255)

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Essa citação pode ser interpretada como uma coroação das anterio-res, pois a liberdade de determinação subjetiva da individualidade de cada um só pode se efetivar sob a condição da satisfação das necessida-des de todos, o que é impossível sob a liberdade jurídica, já que o traba-lho abstrato como seu conteúdo opera como a necessidade exterior e estranha à consciência, que orienta o desenvolvimento da subjetividade de cada um para a satisfação das necessidades do capital, ainda que cada indivíduo o faça livremente.

Por outras palavras, na ação social o máximo de liberdade subjetiva que o direito racional-formal abstrato confere ao indivíduo entra em con-tradição com a necessidade do capital, que opera como pressuposto – neste caso, interno – da ação através da categoria (comprador ou ven-dedor de força de trabalho) que esse indivíduo encarna; isto porque, no processo de sociabilidade, essa categoria se torna o pólo objetivo da subjetividade típica da forma social burguesa. Acrescente-se a essa con-tradição uma questão nada trivial, que é o limite material imposto ao indivíduo para o exercício da sua liberdade, limite este determinado pe-los meios à sua disposição conforme seu poder aquisitivo. Assim, além da diferença qualitativa de classe quanto à liberdade, ela também é atra-vessada pela diferença de classe de natureza quantitativa, pois os mei-os de que se servem mei-os indivídumei-os membrmei-os das classes dominantes para dar efetividade às suas opções subjetivas não são outra coisa se-não trabalho expropriado dos produtores diretos, meios que faltam a estes últimos, que, não obstante, continuam juridicamente livres, embo-ra presos a uma vida mesquinha.

Como já assinalado anteriormente, o pensamento liberal promove a

substituição da necessidade da vida social para os indivíduos pela vida social como resultado da vontade racional de uma consciência auto-determinada,

de modo que a necessidade, referida nos dois parágrafos anteriores, aparece à consciência do cidadão e do cientista político liberal como con-tingências externas (apesar de sua impressionante regularidade), cujos efeitos poderiam ser moralmente controlados pelo Estado democrático de direito; contra toda evidência de que são incontroláveis enquanto puderem operar como uma necessidade exterior.

Marx dá um tratamento histórico a essa questão:

Quanto mais se recua na História, mais dependente aparece o indivíduo, e portanto, também o indivíduo produtor, e mais amplo é o conjunto a que pertence. De início, este aparece de um modo ainda muito natural, numa família e numa tribo, que é família ampliada; mais tarde, nas diversas formas de comunidade resul-tantes do antagonismo e da fusão das tribos. Só no século XVIII, na “sociedade burguesa”, as diversas formas do conjunto social passaram a apresentar-se ao indivíduo como simples meio de realizar seus fins privados, como necessidade exterior. (MARX, 1978,

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Portanto, ao contrário do pensamento liberal, que toma como ponto de partida o indivíduo isolado como aparece na sociedade burguesa, como se tivesse vindo ao mundo pronto para o intercâmbio mercantil por obra da natureza, Marx considera as diferentes formas histórico-sociais de apropriação da natureza, ou seja, da dialética entre forças produtivas e relações sociais de produção ou, ainda, em termos lógicos, entre neces-sidade e liberdade, na qual o desenvolvimento dos diferentes modos de produção – entendidos como relação entre forças produtivas e relações de produção, com primazia destas últimas (ALTHUSSER, 1999) – abre espaço

para a ampliação da autonomia individual, ou seja, das prerrogativas do indivíduo conforme o lugar que ocupa nas relações sociais de produção. O exercício das suas prerrogativas pelos indivíduos, conforme o lu-gar ocupado nas relações sociais de produção, reproduz tanto as forças produtivas quanto as relações sociais de produção, até que estas sejam revolucionadas, resultando na emergência de um novo modo de produ-ção, portanto, uma nova combinação desses dois elementos, em que a autonomia individual atinge uma nova forma.

Porém, para evitar uma tentadora e insustentável interpretação evolucionista, é preciso ressaltar que nem Marx nem Althusser postula-vam uma linha de sucessão progressiva entre os diferentes modos de produção; mas que a autonomia individual é uma variável dependente das relações que constituem o modo de produção.

Nesse diapasão, a necessidade em Marx deve ser entendida sob um duplo registro: lógico e material. Sob o registro lógico, a categoria indiví-duo pressupõe a categoria coletiva da qual é parte, portanto, uma forma social determinada como todo inclusivo que, ao ser subjetivada, fornece ao indivíduo os elementos para a construção da sua biografia; e, sob o registro material, ela tem como premissa relações sociais de produção que distribuem os indivíduos em categorias típicas dessa forma social (senhor e escravo, no escravismo; trabalhador e capitalista, no capitalis-mo – para nos restringircapitalis-mos aos exemplos mais evidentes), o que encon-tra sua expressão acabada na dialética entre as relações sociais de pro-dução e a forma política correspondente, ou seja, o tipo de Estado.

Enfim, na perspectiva de Marx, a superação do individualismo burgu-ês significa a substituição da liberdade jurídica pela liberdade, sem adje-tivo, que tem como pressuposto, no lugar da necessidade do capital, as necessidades humanas de cada indivíduo, razão pela qual deixa de ser necessário adjetivar a liberdade.

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