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Chicago, experiência étnica Chicago, ethnic experience

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HALBWACHS, Maurice. Tradução de Mauro Guilherme Pinheiro Koury. Chicago, experi-ência étnica. Sociabilidades Urbanas, Revista de Antropologia e Sociologia, v. 5, n. 13, pp. 177-209, março de 2021, ISSN 2526-4702.

DOCUMENTO

https://grem-grei.org/numero-atual-socurbs/

Chicago, experiência étnica

Chicago, ethnic experience

Maurice Halbwachs (∗1887 †1945) Tradução de Mauro Guilherme Pinheiro Koury

Apresentação: A série Documentos da Sociabilidades Urbanas, Revista de Antropologia e Sociologia, publica neste número um artigo escrito em 1932 pelo sociólogo francês, de

formação durkheimiana, Maurice Halbwachs (1887-1945). Autor clássico, ele é muito conhecido no meio acadêmico (e fora dele) por seus estudos sobre memória coletiva. Halbwachs, em 1930, passou um semestre letivo como professor visitante na Universidade de Chicago. Nessa estadia escreveu o artigo Chicago, expérience ethnique, publicado em 1932, na revista Annales d'histoire économique et social. O artigo de Halbwachs é um documento rico para a antropologia e sociologia urbana que se debruçam sobre a dinâmica tensiva do cotidiano de uma grande cidade em constante transformação, e as formas de ajustamento e resistências dos homens e mulheres às suas malhas.

Presentation: The series Documents of Sociabilidades Urbanas, Revista de Antropologia e Sociologia, publishes in this issue an article written in 1932 by the French sociologist, of Durkheimian education, Maurice Halbwachs (1887-1945). Classic author, he is a well known in academia (and outside) for his studies on collective memory. Halbwachs, in 1930, spent a semester as a visiting professor at the University of Chicago. During this stay, he wrote the article Chicago, ethnique expérience and published it in 1932, in the Annales

d'histoire économique et social. Halbwachs' article is a rich document for anthropology and

urban sociology that focuses on the tense dynamics of the daily life of a large city in constant transformation, and the ways of adjustment and resistance of men and women to its meshes.

I - Crescimento e características gerais da cidade

Os estatísticos americanos chamam de centro populacional um ponto que definem como tal. Suponha que a superfície dos Estados Unidos seja um plano rígido sem espessura e que todos os habitantes tenham o mesmo peso: o centro de gravidade dessa superfície representa o centro da população. Conhecemos sua posição em cada censo, de dez a dez anos, desde 1790. Naquela época era 23 milhas (ou quase 35 km) a leste de Baltimore, Maryland. Vamos segui-lo.

Em um movimento contínuo ele se movimentou em direção ao Ocidente, atravessou Baltimore e passou 18 milhas a oeste da cidade em 1800. Em 1810 foi encontrado a 40 milhas a noroeste de Washington.

Avançou então 50 milhas a oeste, a partir dessa data, até 1820; 40 milhas na década seguinte; 55 milhas entre 1830 e 1840; 55 milhas em 1850, e cobriu 80 milhas

Este artigo foipublicado originalmente sob o título: “Chicago, expérience ethnique”, nos Annales

(2)

antes de 1860. Naquela época, atravessava o rio Ohio e se aproximava da longitude de Columbus e Detroit.

De 1860 a 1870, durante a Guerra Civil Americana e nos anos que se seguiram, ele ainda se movia também para o oeste, a 44 milhas. Em 1880, ele alcançou e passou por Cincinnati, depois de uma viagem de 58 milhas.

Em 1890, ganhou mais 48 milhas; em 1900, 15 milhas; em 1910, 39 milhas. Desta vez estava em Bloomington, uma pequena cidade em Indiana, ao sul de Indianápolis. Mais 16 quilômetros, e em 1920 quase alcançou Illinois e a longitude de Chicago. Tocaria Chicago, se, nessa marcha em direção ao oeste, não tivesse permanecido um pouco abaixo da latitude inicial, e não foi mais encontrado perto de Saint-Louis.

No total, 573 milhas em 130 anos; seis ou sete quilômetros por ano, sempre na mesma linha, em direção ao oeste. É esse caminho, e com essa velocidade, que seria necessário seguir, para permanecer no ponto em que é fixado, a cada momento, o resultado do deslocamento de tantos milhões de homens.

Chicago, por conseguinte, ocupa uma localização muito central. Não há cidade nos Estados Unidos cujo desenvolvimento seja mais aparente com o crescimento dessa população, com o movimento e expansão que a levou não só para o oeste, mas para toda a região intermediária, em particular para o meio-oeste, - terra de pioneiros e colonos, onde os agricultores se estabeleceram nas pradarias do Lago Michigan no Mississipi.

A cidade cresceu com velocidade sem precedentes. “Chicago há oitenta anos”, - escreveu o Walter D. Moody (1919) há dez anos, - “era apenas o lugar de algumas cabanas índias. Agora é a quinta cidade do mundo”. Não há fato mais marcante na história da formação das cidades.

No final de 1830, de fato, havia apenas uma vila, que incluía doze casas e três residências suburbanas, com talvez cem habitantes. Em 1821, por um acordo concluído com as tribos do noroeste, Ottawa, Chippewas, etc., os Estados Unidos adquiriram nessa área cinco milhões de acres. Estradas foram construídas para Detroit e Fort Wayne.

A última guerra indígena de Winnebago estourou e terminou em 1827. Naquele momento, as notícias só podiam ser ouvidas em Niles (Michigan). Um índio mestiço que costumava semanalmente ir para lá a pé, era enviado a cada duas semanas em busca de notícias (RELIG. PHILO. PUB. ASSOCIATION, 1886). O Forte Dearborn, - estabelecido na região em 1804, tomado e destruído pelos índios, foi reconstruído por volta de 1820, - era o centro do comércio de peles do noroeste.

No Quadro 1 abaixo estão alguns números que mostram a rapidez com que a cidade cresceu, em comparação com a população de Nova Iorque nos mesmos anos1.

Quadro 1 – Aumento comparado da população entre as cidades de Chicago e Nova Iorque

1

A população de Nova Iorque, em 1790, era 49.401; em 1800, 60.489; em 1810, 96.373; em 1820, 123.706; em 1830, 203.007. Em 1860 Chicago ficou em oitavo lugar, ultrapassado pela Filadélfia (565.529), Brooklin (279.122), etc. Em 1900, o Brooklin foi anexado a Nova Iorque, daí o grande aumento da população desta cidade, nesta data. Chicago, porém, ultrapassou levemente a Filadélfia em 1890 e ocupa o segundo lugar desde então.

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Destarte, de 1860 a 1930, a população de Chicago aumentou na propo para 31, enquanto, no mesmo período, o aumento para Nova

9. Para entender como se produziu

1860, a superfície da cidade se estendeu consideravelmente, por uma série de anex sucessivos. Como um termo de comparação, lembremos que Paris, em seu recinto atual, cobre 78 km2.

No Quadro 2 abaixo se encontra indicadas2:

Quadro 2 - Taxas de aumento do número de habitantes em Chicago

A população cresceu mais

dizer, grosso modo, que metade do aumento no número de habitantes de Chicago se deve à extensão da superfície,

Paris, em um recinto que não mudou, a população aumentou, entre 1861 e 1921, de 100 para 172. Em Chicago, a densidade da população, na superfície atual, certamente aumentou em mais de 100 para 1.000.

Foi entre 1880 e 1890 que a superfície de Chicago quadruplicou, mais precisamente entre os anos de

noroeste de Chicago (Milwaukee

cidade; o mesmo acontecendo com a cidade de Lake View, a leste de Jefferson e o braço norte do rio, até o Lago Michigan no leste, quase até Evanston no norte. Do mesmo modo que Cícero (que foi por muito tempo o reduto do famoso Al Capone), a oeste, no auge do circuito; e a cidade de Lake, ao sul da 47

2

Os estatísticos do censo definem o

um subúrbio que compreende as localidades que, localizadas a menos de 10 milhas (16 km) dos limites da cidade, tenham uma densidade igual ou superior a 50 habitantes por milha qu

km2). O distrito metropolitano de Chicago

habitantes. O departamento de Seine, ao mesmo tempo, ano, 4.154.000 habitantes. Ver, Baulig (1924, p. 543 e segs.)

Destarte, de 1860 a 1930, a população de Chicago aumentou na propo

para 31, enquanto, no mesmo período, o aumento para Nova Iorque foi de apenas 1 para se produziu esse movimento, deve-se considerar que, desde 1860, a superfície da cidade se estendeu consideravelmente, por uma série de anex sucessivos. Como um termo de comparação, lembremos que Paris, em seu recinto atual,

No Quadro 2 abaixo se encontra a área de Chicago, nas diferentes datas

Taxas de aumento do número de habitantes em Chicago

A população cresceu mais do que o dobro da velocidade da superfície. Podemos dizer, grosso modo, que metade do aumento no número de habitantes de Chicago se deve à extensão da superfície, e metade ao aumento da densidade popu

to que não mudou, a população aumentou, entre 1861 e 1921, de 100 para 172. Em Chicago, a densidade da população, na superfície atual, certamente aumentou em mais de 100 para 1.000.

Foi entre 1880 e 1890 que a superfície de Chicago quadruplicou, mais os anos de 1887 e 1889. Atualmente, a cidade de Jefferson, a noroeste de Chicago (Milwaukee Avenue, norte de North Avenue) está anexada à o mesmo acontecendo com a cidade de Lake View, a leste de Jefferson e o o Lago Michigan no leste, quase até Evanston no norte. Do mesmo modo que Cícero (que foi por muito tempo o reduto do famoso Al Capone), a oeste, no auge do circuito; e a cidade de Lake, ao sul da 47th Street, a oeste; a vila de

statísticos do censo definem o distrito metropolitano como constituído por um núcleo urbano, mais um subúrbio que compreende as localidades que, localizadas a menos de 10 milhas (16 km) dos limites da cidade, tenham uma densidade igual ou superior a 50 habitantes por milha quadrada (58 habitantes por

. O distrito metropolitano de Chicago se estende por 1.900 km2 e continha (em 1920) 3.179.000 habitantes. O departamento de Seine, ao mesmo tempo, desdobra-se por 480 km2 e cont

Ver, Baulig (1924, p. 543 e segs.)

Destarte, de 1860 a 1930, a população de Chicago aumentou na proporção de 1 foi de apenas 1 para se considerar que, desde 1860, a superfície da cidade se estendeu consideravelmente, por uma série de anexos sucessivos. Como um termo de comparação, lembremos que Paris, em seu recinto atual, a área de Chicago, nas diferentes datas

Taxas de aumento do número de habitantes em Chicago

que o dobro da velocidade da superfície. Podemos dizer, grosso modo, que metade do aumento no número de habitantes de Chicago se metade ao aumento da densidade populacional. Em to que não mudou, a população aumentou, entre 1861 e 1921, de 100 para 172. Em Chicago, a densidade da população, na superfície atual, certamente Foi entre 1880 e 1890 que a superfície de Chicago quadruplicou, mais 1887 e 1889. Atualmente, a cidade de Jefferson, a , norte de North Avenue) está anexada à o mesmo acontecendo com a cidade de Lake View, a leste de Jefferson e o o Lago Michigan no leste, quase até Evanston no norte. Do mesmo modo que Cícero (que foi por muito tempo o reduto do famoso Al Capone), a Street, a oeste; a vila de

por um núcleo urbano, mais um subúrbio que compreende as localidades que, localizadas a menos de 10 milhas (16 km) dos limites da

adrada (58 habitantes por (em 1920) 3.179.000

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Hyde Park, ao sul da 70th Street, a sudeste da cidade, ao Lago Michigan no leste e ao Lago Calumet no sul3.

Ao mesmo tempo, a população de Chicago também quadruplicou4. Entre 1890 e 1900, a superfície de Chicago aumentou ainda mais, contudo, em apenas 50 km2 (dois terços da superfície de Paris), - em vez de 348 km2, entre 1887-1889 (mais de quatro vezes a superfície de Paris). Entre os anos de 1890 e 1897, todo o sudoeste da cidade atual foi anexado: ao sul da 87th Street. E, em 1895, foi a ela agregada, no sudoeste, o lago Michigan ao leste, e a 138th Street, ao sul, além de toda a área do lago Calumet. A superfície da cidade aumentou assim em um décimo e a população pela metade.

Em síntese, de 1887 a 1897, em dez anos, a superfície da cidade quintuplica e a população quadruplica. No entanto, nas últimas três décadas, a partir de 1900, a área aumentou apenas um décimo, enquanto a população dobrou, aumentando quase um terço a cada década. Desta vez, não é mais o aumento da área, é o aumento da densidade populacional que se tornou o fator decisivo.

Tudo aconteceu como se houvesse em Chicago, por volta de 1890, uma expansão repentina do recinto urbano comparável à ocorrida em Paris em 1860. No entanto, antes dessa expansão, em Chicago, como em Paris, a população aumentou proporcionalmente muito mais rápido do que se deu mais tarde.

Vamos examinar, no Quadro 2 acima, as taxas de aumento do número de habitantes. Não deve se levar em consideração a taxa de120% que corresponde à década de 1880 a 1890, pois foi nessa época que a superfície da cidade quadruplicou.

Vemos que, antes dessa extensão, a população aumentou proporcionalmente, entre 1860 a 1880, mais rapidamente do que nas últimas décadas, e que a taxa de aumento diminuía constantemente. Aconteceu exatamente o mesmo em Paris5: a taxa de aumento nos anos anteriores à prorrogação de 1860 é muito maior do que o daquela época e tem declinado constantemente desde então.

Sem dúvida, as proporções são muito maiores. A velocidade com que a população está crescendo é muito mais rápida, em todos os períodos, em Chicago do que em Paris. Mas, nas duas cidades, a expansão da superfície ocorre no momento em que a população acaba de aumentar mais, e, nos anos que se seguiram, o aumento, embora tenha desacelerado, permaneceu, no entanto, ainda alto.

Parece que a expansão está ocorrendo sob a pressão de um aumento da população, que continua após ela, mas com uma força cada vez menor. Observar, além disso, que desde os anos de 1890 e 1900, o crescimento populacional (proporcionalmente) tem sido bem menos rápido em Chicago do que em Nova Iorque.

***

Chicago é o maior centro ferroviário dos Estados Unidos. Trinta e nove linhas diferentes cruzam nela. De acordo com o Manual da Cidade de Chicago, existem 4.650 km (2.840 milhas) de ferrovia dentro dos limites da cidade. Quer consideremos o comprimento das ferrovias na Suíça ou em toda a Bélgica, ela não é mais extensa.

3

O lago Calumet está localizado a sudeste, entre as ruas 103 e 130.

4

Foi um pouco mais tarde, em 1900, que o Brooklin foi anexado a Nova Iorque: por conseguinte, a população mais do que dobrou.

5

Ver Halbwachs (1928, pp. 237 e 264). A população de Paris aumenta em 62%, entre 1841 a 1861; 35% entre 1861 a 1881; 18% entre 1881 a 190; e, 8%, entre 1901 a 1921. A ampliação do recinto urbano ocorreu em 1861; mas o aumento da população é calculado, entre 1841 a 1861, para o recinto urbano atual.

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Quem se move ou pode se mover em alta velocidade leva mais de meia hora para sair: você só vê linhas de trilhos, faixas multiplicadas, enormes canteiros de obras, oficinas etc., e alguém poderia imaginar que não há mais nada. Mas, nessa rede com malhas muito grandes, entre essas linhas, abaixo delas, e por todos os lados, a cidade se estende.

Mais de trezentas ruas paralelas e numeradas de norte a sul, ao longo de quase 40 km, com uma largura de 15 a 20 metros. No entanto, com suas ruas largas, seus imensos parques, ilhotas de vegetação que perpetuam a memória de quando todo esse solo pertencia à pradaria, Chicago possui proporcionalmente menos espaços públicos que Paris.

Em Paris, as residências e dependências particulares (incluindo os jardins e parques particulares) ocupam 52,5% da superfície, em Chicago, 65%. A cidade é extremamente grande. É mais do que seis vezes e meia mais extensa que Paris. Como a população de Chicago excede apenas ligeiramente a população parisiense (15% desde 1930; e 7% menor em 1920), segue-se que a população existente, no geral, é muito menos densa: 6.500 habitantes por km2, em vez de 37.000 em Paris.

Existem três razões para isso. Primeiro, os estabelecimentos industriais são numerosos e extensos, ocupam 26 milhas quadradas, ou 62 km2, quase quatro quintos da superfície de Paris. Se supusermos que eles estão divididos em uma profundidade média, eles formariam uma rua de 865 km contra uma rua de 2.440 km de extensão para casas residenciais, - não incluindo os espaços privados não desenvolvidos, nem as instalações comerciais.

Vamos examinar o plano reproduzido abaixo, no qual está representada, em um tom uniforme e preto, a terra ocupada pela indústria e pelas ferrovias. Ele está disposto em um vasto semicírculo, ao longo dos dois braços do rio, nas duas margens que envolvem firmemente duas faixas largas e paralelas.

Mais ao sul destaca-se uma grande área compacta, feita de retângulos estranhamente unidos e fundidos, na forma de uma cruz maciça e esmagada: são os pátios de estoque (stock yards). O conjunto apresenta-se como uma estrutura gigantesca, cujos caminhos de ferro ligam ainda, a 12 km mais ao sul, fundições e estabelecimentos metalúrgicos. À noite, à beira do lago, quando você olha nessa direção, pode ver fogos queimando à distância, de fornalhas ardentes.

Por outro lado, um número muito grande de famílias vive em casas individuais. Existem 135.840 dessas casas, 96.000 outras contendo dois apartamentos, e 36.630 com uma média de cinco. As casas individuais representam uma rua de 1.240 km (que iria, se seguisse em linha reta para Nova Iorque), as outras, uma rua de 1190 km.

Uma parte inteira de Chicago é coberta com casas de madeira com um andar ou mesmo sem pisos, de acordo com o tipo tradicional de casas antigas. Após o grande incêndio de 1871, que destruiu 17.500 casas em uma área de quase 10 km2, a região devastada foi reconstruída em tijolos e em pedras. Mas, não existem muitas casas do tipo que conhecemos em nossas grandes cidades; edifícios ainda menos, exceto no circuito e ao redor ou no lago.

Finalmente, em todas as partes da cidade, há terrenos não urbanizados: 124 km2, quase o dobro da superfície de Paris. Área suficiente para a construção de uma rua de mais de 2.500 km, que chegaria quase até São Francisco. Um espaço muito maior do que o coberto pelas casas residenciais.

Assim como edifícios não seriam possíveis sem elevadores, não podemos imaginar que uma cidade cresceria até esse ponto sem trens e bondes, e sem carros, sem

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se dispersar completamente e mantendo alguma unidade6. Os ônibus (a primeira linha data de 1853) e os bondes puxados a cavalo (a partir de 1859) foram substituídos, a partir de 1882, por cable cars7 (transporte por cabo) e, a partir de 1890, por bondes elétricos, especialmente entre os anos de 1893-1894 e em 1906. A primeira linha de elevated railways (ferrovias elevadas) a vapor também começou a operar entre os anos de 1892-1893 (indo do centro à 39th Street, e a seguir estendida até a Stony Island Avenue, ao norte do Calumet Lake). Em 1897, foi aberta uma linha circular.

A eletricidade veio substituir o vapor em 1898. A linha Northwest começou a operar em 1900. Todas as linhas foram unificadas em 1913. E, finalmente, a partir de 1916, os ônibus cruzaram as regiões limítrofes ao redor do Lago Michigan e, entre 1922-1923, às ruas do lado sul e do lado oeste. ¬ O período decisivo a este respeito foram os anos 1892-1894 (transvias elétricas e elevadas, ou metropolitanas), imediatamente depois do prolongamento que quadruplicou a área da cidade, por volta de 1890.

Chicago contava com 164 viagens per capita, por bondes e trens metropolitanos (surface and elevated lines), em 1890; 215 em 1900; 320 em 1910; 338 em 1921, com aumentos, respectivamente, de 31% em 1900; 49% em 1910; e 6% em 19208. Quanto aos automóveis, o número de carros em Illinois (cuja população era apenas o dobro da de Chicago, a única cidade grande daquele Estado), aumentou de 131.140 em 1915 para 833.920 em 1923, ou de 100 para 635, enquanto, no mesmo intervalo, a população de Chicago aumentou algo em torno de 25%. Uma pesquisa sobre o estilo de vida dos trabalhadores empregados nas fábricas da Ford, realizada em Detroit (BUREAU OF LABOR STATISTICS, 1930), - que não fica longe de Chicago, e que também se expandiu muito nas últimas décadas, - indicou que 47% dos trabalhadores entrevistados possuíam um automóvel. Outra pesquisa (LYND; LYND, 1929), realizada um ou dois anos antes, em cidades menos populosas, deu exatamente o mesmo resultado (em relação aos trabalhadores).

II - Estrutura e agrupamentos

A existência de uma escola de sociologia original na Universidade de Chicago, não independe do fato de que seus observadores não precisam ir muito longe para encontrar um objeto de estudo. Diante de seus olhos se desenrolam de década em década, e quase de ano para ano, novas fases de um desenvolvimento urbano sem precedentes.

Se você se concentra em um bairro, ou simplesmente em um quarteirão de casas, ou se abrange toda a extensão desta grande cidade, em qualquer caso, os problemas se multiplicam. Uma agenda de problemas então quase que imediatamente é montada por um observador atento. Agenda que vai da mudança ou manutenção do tipo étnico e estilo de vida, de homens de raças européias transplantados para o ambiente americano,

6

Em 11 de agosto de 1923, na Michigan Boulevard Bridge, havia entre 07h e meia-noite 53.014 carros, ou, em média, 3.118 por hora; 4.360 entre as cinco e quinze e às seis e quinze da noite.

7

Os cable cars são transportes públicos por cabo, tipo teleférico, também conhecido no Brasil por bondinho. Nota do tradutor.

8

Ver Report of the Chicago Subway and Traction Commission, p. 81; Report on a physical plan for a unified transportation system, p. 391. Em 1860, os bondes puxados a cavalo da cidade de Nova Iorque

transportaram cerca de 50 milhões de viajantes. Em 1890, os bondes elétricos (e os poucos bondes puxados por cavalos restantes) transportavam 500 milhões. Em 1921, nas linhas metropolitanas (elevated

and subway) e suburbanas, elétricas e a vapor, o seu número ultrapassou o transporte de 2.500 milhões de

passageiros: de 100 em 1860 para 1.000 em 1890, e para 5.000 em 1921, enquanto a população aumentou de 100 para 188 e 700. Ver também Munro (1922, p. 377).

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até a justaposição, mistura, e interrelações entre imigrantes de diversas nacionalidades, ali estabelecidos há mais ou menos tempo.

Ou que fusão desses elementos na identifica questões relacionadas à massa nativa, com transições aparentes na forma como os bairros são distinguidos e ocupados por imigrantes de primeira, segunda e terceira geração; até as invasões de trabalhadores cobrindo áreas urbanas onde até então existiam casas pequenas, mas confortáveis, habitadas por uma população rica; e a invasão de negros, expulsando os brancos de ruas inteiras.

A agenda segue em uma objetificação de aglomeração tão vasta e de diferenciações múltiplas, segundo a raça, nacionalidade, profissão, nível social, mas também segundo o tipo de vida e as características morais, de modo que os mais diversos ambientes se justapõem e, às vezes, se chocam sem transição. Prosseguindo pela problematização das relações entre a metrópole e as cidades e vilas do centro-oeste, de onde chegam ou retornam a cada ano milhares de trabalhadores, geralmente solteiros e sem-teto (homeless men), que vivem quatro, cinco, seis meses em ruas onde moram em quartos mobiliados que se sucedem, uns aos outros, em linhas indefinidas e monótonas; ou dos grupos desintegrados, grupos em formação, vida coletiva dispersa, concentrada, suspensa e desacelerada, ofegante e sacudida, de modo que as características mais anormais aparecem ali com toda a clareza:crime juvenil, vadiagem ou em formas não encontradas em outros lugares.

A agenda continua na indagação e busca de compreensão dos acampamentos de trabalhadores temporários, momentaneamente desempregados, em terrenos baldios próximos aos trilhos da ferrovia, passando pela lógica interna das pequenas empresas efêmeras, de estrita disciplina, onde o espírito dos pioneiros da pradaria parece sobreviver. Termina, por fim, no na busca de projetos que busquem entender desde a conformação e conteúdo moral das gangs, e dos grupos indefiníveis e quase evasivos, que respondem, - em pessoas descentradas e perdidas, - à poderosa necessidade de se associar aos mais diversos fins, desde as sociedades de brincadeira das crianças até as gangues criminosas que disputam entre si, - à base de revólver e metralhadoras, - o monopólio do contrabando e, como se costuma dizer, do vício.

Vários desses aspectos levantados da fácil conformação de uma agenda de pesquisa, já possuem trabalhos realizados, e quero destacar alguns dos livros que apresentam os resultados. São livros de descrição, sem dúvida, em vez de científicos. São livros desiguais, às vezes decepcionantes, mas, na maioria das vezes, são muito pitorescos, com fotos tiradas da vida diária, e com documentos inesperados e preciosos. Toda uma mina de fatos, enfim, é trazida à luz por exploradores que não tiveram medo de descer e avançar para o fundo das galerias mais subterrâneas.

Os dois inspiradores desses trabalhos sobre a vida urbana, Park e Burgess, são muito diferentes. Park aprendeu filosofia na Alemanha, e se dedicou algum tempo ao jornalismo. Ele escreveu, no trabalho sobre o qual falaremos, sobre uma "História Natural dos Jornais"9.

Park tem uma personalidade intelectual forte: dele surgem as idéias, sugestões e estruturas das classificações que devem orientar os pesquisadores. Burgess, muito anglo-saxão em espírito e temperamento, por sua vez, não separa em seu pensamento o aspecto teórico e o interesse prático da pesquisa em que está envolvido.

Foi ele quem escreveu a conclusão da volumosa Illinois Crime Survey (1108 páginas, em 1929). Pesquisa realizada para a Associação de Illinois para a Justiça

9

Este artigo de Robert E. Park se encontra em traduzido para o português, Ver Park (2017). (Nota do tradutor).

(8)

Criminal. Burgess também esteve recentemente na Rússia Soviética, onde passou quase um ano estudando crimes juvenis.

Esses dois estudiosos se complementam. Pode-se esperar que, com essa colaboração, um livro feito em seja sugestivo de mencionar aqui em muitos aspectos. Essa é a impressão que temos quando lemos The city (PARK; BURGESS; MacKENZIE, 1925)10, cujos dois capítulos principais são intitulados: A cidade: sugestões para estudar o comportamento humano no ambiente urbano, por Robert E. Park11; e: O crescimento e desenvolvimento (the growth) da cidade: uma introdução a um projeto de pesquisa, por Ernest W. Burgess12.

Sem dúvida, este é um ensaio e, como um rascunho, ainda necessariamente imperfeito. Este tipo de trabalho é difícil, e exige um concurso de qualidades diversas. É tão desprovido de suporte que uma tradição de pesquisa e de análise científica pode oferecer, em relação a um objeto de estudo, que acabamos de descobrir que devemos ser mais curiosos do que críticos em sua análise, pelo menos por enquanto.

Reproduzimos aqui uma visão esquemática das características gerais que, de acordo com Burgess, representaria uma grande cidade em processo de crescimento, e que já atingiu um desenvolvimento bastante avançado. É uma cidade de imigração, onde existe uma proporção significativa de negros e, se si fixa como limite a linha irregular que a atravessa de cima para baixo e que reproduz a costa do lago Michigan (que se estenderia para a direita), esta não é outra cidade que não a própria Chicago. No entanto, ao representar as sucessivas regiões por zonas concêntricas, talvez se possa lançar mais luz sobre as várias funções que desempenham, e ajudar a entender melhor as relações que se estabelecem entre uma e outra.

A Zona I representa a parte mais animada da cidade, aquela que contém edifícios, escritórios, lojas de departamento e hotéis. É chamada de loop (circuito), porque uma linha ferroviária "elevada" o circunda.

“Mais de meio milhão de homens entram e saem do loop todos os dias” 13. Além disso, existem loops satélites. Esses loops satélites resultam do fato de que várias comunidades locais, ao se desenvolverem, interferiram de alguma forma no circuito central, ou, ou, como diz Burgess, “entraram em colapso”, de modo a formar uma unidade econômica maior: daí a existência de regiões de negócios de segunda ordem, “áreas de subnegócios”, dominadas, de forma visível ou invisível, pelo principal distrito comercial.

Na verdade, é uma característica singular das grandes cidades americanas que, ao lado e ao redor do centro principal, onde toda a vida e todo o movimento parecem concentrados, surja uma quantidade de centros secundários. Mais precisamente, em intervalos de cada cinco ou seis ruas (indo do sul para o norte), e separadas por quarteirões razoavelmente grandes, existe uma rua principal, “main street”, - mas não simplesmente o análogo das populosas artérias de nossos subúrbios, - mas antes como a reprodução como tal das ruas principais do centro: mesmo tipo de lojas, restaurantes, cinemas, etc., mesmos farmacêuticos, mesmos barbeiros, mesmos bondes e "elevated".

Cada distrito, assim, tem uma rua onde se faz compras, a “shopping street”, e em que, deixando espaços onde a calma envolve as casas e vidas, se encontra a

10

É neste livro que encontramos o diagrama que aqui reproduzimos.

11

Este artigo de Robert E. Park se encontra em traduzido para o português, Ver Park (1967). (Nota do tradutor).

12

O artigo de Ernest W. Burgess também se encontra traduzido para o português. Ver Burgess (2017). (Nota do Tradutor)

13

Das 920.000 pessoas que trabalhavam em Chicago em 1920, havia 70.367 clerks (empregados) em escritórios (excluindo os magazines onde trabalhavam 14.189) e 20.262 contadores e caixas.

(9)

animação das partes mais centrais da cidade. Faz parte do “centralised decentralised system” (sistema descentralizado centralizado), isto é, correntes secundárias, que respondem e são reguladas por uma corrente principal.

A Zona II, ou zona de transição, era, há não muito tempo, habitada por “independent wage earners” (assalariados independentes), ou seja, por trabalhadores americanos que ganhavam bem e, também, continha as residências de famílias mais ricas. Os trabalhadores foram para a zona III; e, ao norte, também na zona III, à beira do lago, agora se estende à gold coast (costa dourada), o bairro de ouro dos milionários e bilionários.

Entre o loop e a zona III, os mais pobres imigrantes judeus, italianos e negros se estabeleceram. Também é aqui que, quase em contato com a gold coast, que se encontra o “rooming house district”, o distrito de quartos mobiliados (ZORBAUGH, 1929, 1926)14. Toda essa região, diz Burgess, é uma zona de “deterioration”, parte da cidade desintegrada onde slums (favelas), colônias de imigrantes, missões e settlements (assentamentos) ficam lado a lado do “bairro latino”, das colônias de artistas, e dos centros radicais: a “pequena Sicília”, povoada por italianos, é uma região insegura, e onde há mais assassinatos.

A seguir se abre o “Rialto”, uma rua populosa que corre para o oeste. O Rialto é o lugar onde esta população errante de homens sem casa, os homeless men, conhecidos pelo nome de Hobos, se aglomeram. É também nesse lugar que se originou o termo Hobohemia (ANDERSON, 1923)15.

A população da zona III corresponde a um nível social mais elevado. Ela é constituída, em sua maior parte, de trabalhadores americanos. Deutschland é o nome dado, em troça, a uma região onde a maioria dos judeus se estabeleceu, conseguiram sair do gueto e buscam imitar o modo de vida dos judeus alemães. Mas o habitante dessa área aspira se instalar em hotéis residenciais (residential hotels), em grandes prédios de apartamentos, ou em “satellite loops”, - distritos claros e de muita luz (bright light areas).

A zona IV, em Chicago, corresponde à linha do parque, do Jackson Park no sul ao Lincoln Park no norte. Ao sul, se localiza a "comunidade universitária", que forma uma cidade pequena, muito perto de grandes hotéis, e não muito longe do lago. Os distritos ao longe são grandes subúrbios que ainda não tomaram forma.

O maior número de gangues é encontrado na Zona II. Mas elas também se espalharam para muitas outras partes da cidade (THRASHER, 1927; SHAW, 1929; 1930).

Quadro 3 - Vista esquemática de uma grande cidade

14

Harvey W. Zorbaugh estudou a região de North Shore, a leste do braço norte do rio, onde dois bairros de nítido contraste estão em contato: o de milionários, à beira do lago, e uma área onde 23.000 pessoas (62% dos quais são solteiros, e em sua maioria homens) vivem em quartos mobiliados em 1.139 casas. Muitos estão empregados, estudantes de escolas de música de North Side, artistas de todas as categorias: formam uma população muito móvel, que se renova a cada quatro meses em média.

15

Em sua pesquisa Anderson faz uma descrição dos boêmios, dos homens errantes, de seus

acampamentos e suas regras (com destaque, em particular, para a propriedade comum e o uso coletivo de instrumentos de cozinha), bem como de suas reuniões ao ar livre, etc.

(10)

Legenda das áreas

I. O loop.

II Área em transformação.

III Área residencial da força de trabalho. IV Paris e universidades.

O retângulo tracejado representa a "faixa negra", ou o distrito negro.

Fonte: Extraído do livro The City de Park; Burgess; MacKenzie (1925)

Gangues são grupos formados por jovens e adultos entre 16 a 25 anos, são frequentemente definidos localmente e seguem os mais diversos objetivos: atletismo, distrações e, às vezes, depredações e crimes.

As gangues, diz Thrasher, buscam regiões mais ou menos pitorescas, onde suas atividades podem ser realizadas em condições um tanto fantasiosas: como as ruas onde existem mercados, lojistas, parques, espaços abertos, ao longo dos canais, das ferrovias, das docas, e dos bairros menos frequentados.

Elas se infiltram nas regiões "intersticiais", em todas as fissuras e buracos encontrados na estrutura do organismo social. São regiões abandonadas por quem vive em bairros menos desorganizados e melhor localizados, e meio invadidas pela indústria e pelo comércio. Essas regiões são como espaços lacunares, onde a vida social é apresentada de forma esporádica, instável e menos resolvida.

***

É possível notar, no nível esquemático que reproduzimos acima (Quadro 3), um retângulo muito alongado de sul ao norte e que se estende da Zona II à Zona IV, Retângulo que começa não muito longe do gueto e termina aproximadamente na altura do parque Washington. É a chamada “black belt”, a “faixa preta”, o bairro negro, que desce muito baixo, de modo que o Booker Washington às vezes é chamado de Washington Park, para indicar que os homens de cor praticamente tomaram posse dele.

Desde a guerra, houve uma verdadeira invasão de negros em Chicago: conseqüência de uma corrente que carrega e ainda leva homens de cor do sul para o norte16. A população negra de Chicago, assim, aumentou muito rapidamente, passando de 44.103 em 1910 para 109.594 em 1920, um aumento de 148% em dez anos. Agora, certamente ultrapassa 150.000: em vez de 2% está se aproximando de 6%.

16

Existe cerca de 10 milhões de negros nos Estados Unidos, de uma população total de 100 a 110 milhões, perfazendo quase um décimo da população. Antes da guerra, nove décimos dessa massa negra ficava no sul e 10% no norte. As migrações de negros para o norte começaram em 1916. Houve duas ondas principais, uma entre 1916 e 1920 e a outra entre 1922 e 1924.

(11)

Esses homens de cor recém-chegados tiveram dificuldade em encontrar acomodação. Como os americanos do norte se encontravam em contato com os negros de forma mais próxima e frequente do que antes, os costumes restabeleceram as barreiras removidas pelas leis, e eles tentaram mantê-los afastados. Mas não podiam privá-los do direito de alugar ou comprar casas.

Um fenômeno muito curioso então ocorreu. Tão logo os negros conseguiram se firmar em algumas casas (após negociações secretas com um ou alguns proprietários nos quais o desejo de vender prevalece sobre os preconceitos), então, em toda a rua, em uma extensão de 4 a 5 km, às vezes de 7 a 8, as casas de repente apareceram vazias, os apartamentos ficaram vagos, e os brancos desapareceram, dando lugar aos recém-chegados.

Parece que uma grande gota de óleo que se espalhou, se disseminando um pouco, a partir da Zona II, onde os novos imigrantes foram encastelados, cruzando toda a zona III e adentrando pela Zona IV. Nada é mais impressionante do que o aparecimento de tais ruas, como a Drexel Avenue, que, em poucos meses, foram atingidas por uma espécie de interdição17.

A avenida é larga, com árvores e gramados. As casas são todas modernas, construídas no passado por americanos ricos, e geralmente possuem varandas, com uma escada externa com degraus de pedra, varandas, jardins. Agrupados sob todas essas varandas, ou sentados nos degraus, se vê, quando o tempo não é rigoroso, apenas famílias negras, pais e filhos, que se aquecem ao sol. Quando viajamos de ônibus, vemos templos e escolas reservados para eles, hotéis onde nenhum homem branco entra, cinemas para homens de cor, e lojas e bancos, onde os comerciantes, os funcionários, e os clientes são negros. De uma ponta da avenida para a outra, você só conhece negros.

Os negros agora permanecem onde estão. Enquanto, no Sul, se detiveram em bairros onde as estradas e a higiene foram totalmente abandonadas, aqui puderam se instalar imediatamente em casas habitadas por brancos, onde não falta nada do que é chamado de conforto moderno. Este fato tem sido fonte de amargura para muitos americanos que foram expulsos de suas casas ou que, proprietários, sofreram um novo tipo de perda de capital. Mas também é motivo de preocupação para os americanos como um todo.

Podemos seguir, no mapa, a progressão dos negros em direção ao sul, e ao oeste de Washington Park. Gradualmente cercaram a comunidade universitária que, além do parque e das Hyde Park e Midway Avenues, estão separadas do cinturão negro apenas por uma espécie de escudo judeu.

Em 1920, dos 109.458 negros, 67.176 ou 62% estavam em apenas um dos 35 distritos: o segundo, que se estendia entre a 26th Street no norte e a 39th no sul, o lago Michigan ao leste e a Stewart Avenue a oeste18. Este distrito também contém 900 russos (judeus), 751 irlandeses, 677 alemães, 428 italianos e 414 suecos, no total, moram nele cerca de 6.000 estrangeiros. O restante dos negros (38%) se distribui da seguinte forma: 26,5% em 4 distritos, 5,25% em 4 distritos, e 6,25% em 26 distritos19.

17

A Drexel Avenue se estende de norte a sul, começando no canto nordeste do Washington Park.

18

A Stewart Avenue é paralela à Halsted Street e à State Street, entre elas, equidistantes uma da outra.

19

Os assassinatos são muito mais comuns entre os negros do que entre o resto da população. "A maior taxa de homicídios ocorre na região conhecida como faixa preta (da 16th Street no norte à 60th no sul, entre a South State Street, no oeste, e a Cottage Grove Avenue, no leste)." Em 1926, dos 739 assassinatos, havia 575 em que as vítimas eram brancas, 164 em que eram homens ou mulheres de cor; em 1927, mesma observação: respectivamente 560 e 139. São 25 assassinatos de negros por 100 brancos. A proporção de negros para brancos em Chicago é de cerca de 6%. "O envenenamento por bebidas alcoólicas e as brigas subsequentes são a principal causa dos assassinatos na comunidade negra”. Ver: The Illinois Association for criminal justice (1929).

(12)

***

No diagrama acima (Quadro 3), na Zona II, está marcada a localização do gueto que, na verdade, se situa na mesma Zona, um pouco mais ao sul. A história do gueto de Chicago foi contada por Louis Wirth (1928) em um livro muito animado, e completado por ele na história do gueto em geral. Em Chicago, é aqui que o maior número de Judeus e, especialmente, os que chegaram recentemente, se acostumaram a viver. Certa vez, perguntei a um rico comerciante judeu em Chicago se o "gueto" era apenas um local de passagem para eles. "Sem dúvida", ele me disse, "há alguns que emergem rapidamente e penetram nas mais altas esferas sociais. Mas a maioria deles permanece: moram lá e morrem lá. Há muitos que nunca deixaram seu bairro, nunca pegaram um bonde para descer o circuito”.

Na Maxwell Street é realizado todos os dias um mercado onde todos os comerciantes são judeus e que proporciona um dos aspectos mais extraordinários desta grande cidade. Também vemos boêmios e adivinhos, que recitam uma música bizarra, sentados no limiar de uma loja ou na entrada de um corredor, envoltos em xales berrantes, e as cabeças apertadas em um lenço escarlate. Ouvem-se todas as línguas da Europa faladas por lá e se vende ou revende todos os bens imagináveis: frutas, bonés, roupas, móveis, etc..

Lá também se encontra todos os tipos semíticos que conhecemos. O judeu da Capela Branca está próximo do de Varsóvia ou de Petersburgo.

Há todas as classes sociais. Pobres demônios traficantes, atrás de bazar. Jovens corretos e elegantes que gesticulam como orientais. E todos possuem trajes europeus, e pronunciam o inglês à sua maneira, com entonações inesperadas: "O que você quer, senhor?" - Venha, senhora, venha!

Quanto aos compradores, muitos são negros e italianos. Aqui, um vendedor italiano de laranjas ou bananas. Lá, uma negra experimenta sapatos baixos.

Os poloneses também.

O relacionamento entre poloneses e judeus em Chicago, diz Wirth (op. Cit, p. 229), merece atenção. Esses dois grupos se odeiam completamente. Mas vivem lado a lado no lado oeste e no lado noroeste. Eles experimentam um com o outro um profundo sentimento de hostilidade e desprezo desdenhosos, mantidos por seus contatos e seu atrito histórico na Polônia. Mas negociam entre si na Mil'waukee Avenue e na Maxwell Street. Um estudo de caso numeroso mostra que muitos judeus não se instalam nesses lugares porque sabem que os poloneses são a população predominante no bairro, mas que os poloneses vêm de todas as partes da cidade para a Maxwell Street, e garantiram que se deparará com as apresentações externas dos comerciantes judeus que estão familiarizados com eles. Esses dois grupos de imigrantes, que viveram tanto tempo lado a lado na Polônia e na Galiza, se adaptaram um ao outro, e essa adaptação persiste na América. O polonês não está acostumado à loja de preço fixo. Quando ele vai fazer uma compra, fica satisfeito apenas se pode pechinchar e derrotar o judeu em sua terra.

Em Nova Iorque, os primeiros judeus (Mayflower stock) vieram da Espanha e Portugal, e sempre representaram a elite da comunidade. Os judeus alemães chegaram dois séculos depois, depois os russos e os poloneses no final do século XIX. Em Chicago, pelo contrário, os primeiros judeus eram alemães. O elemento espanhol-português foi introduzido apenas recentemente, da Turquia e da Palestina, e não da Espanha. Os alemães representaram a aristocracia, até a guerra e a Revolução na Rússia,

(13)

que levantou os judeus russos. Existem aproximadamente 300.000 judeus em Chicago. Em 1920, 159.518 deles declararam o iídiche ou o hebraico como língua materna. Mais da metade é assim russa ou oriental.

Alguns vivem na sombra de sua sinagoga, como se não tivessem mudado de país e continente. Um comerciante da Maxwell Street relata como trouxe o seu pai muito velho do sul da Rússia:

Assim que tive a chance, peguei uma passagem para sua viagem. Enquanto ele estava atravessando, eu fui atormentado por preocupações. Eu me perguntei: ‘O que ele pode fazer quando estiver lá?’ Ainda estou trabalhando lá fora. Ele não conhecerá ninguém e se sentirá muito abandonado. No entanto, eu gostaria que ele fosse feliz nos seus últimos anos de vida. Mas, assim que chegou, ele encontrou a solução para o problema por conta própria. A primeira coisa que ele me perguntou foi: ‘Onde está a sinagoga de Odessa (the schul)?’. Quando o levei até lá, ele estava tão feliz quanto uma criança. Lá ele encontrou uma quantidade de Landsleut (compatriotas), e isso o reconciliou com Chicago e a América. Ele frequentava a schul todas as manhãs e noites, até uma semana antes de sua morte, ele sabia mais do que eu sobre os assuntos de cada membro da comunidade20.

Aqui, por outro lado, é como um vendedor ambulante judeu de Chicago se expressa. "Vou a schul, com meu cavalo e meu carro, todos os dias, exceto o sábado, e chego a tempo para a oração da noite.

Aqui, por outro lado, está a expressão de um vendedor ambulante judeu de Chicago:

Eu vou para a schul, com meu cavalo e minha carruagem, todos os dias, exceto o sábado, e chego a tempo para a oração da noite. Faço isso há anos e espero continuar pelo resto da minha vida. Eu não conseguia dormir durante a noite ou trabalhar durante o dia, se eu não tivesse feito às minhas orações (davvening) e colocado o filaketério21 (tphillin22). Leva apenas um tempo curto e quando você sai depois disso, você se sente como um homem. Um meio judeu não é um judeu de todo23.

No entanto, os judeus de segunda e terceira geração tendem geralmente para fugir do gueto. Eles se agrupam em outros estabelecimentos, nomeadamente em Lawndale (“Deutschland”, ver acima). Lawndale era, antes da chegada dos judeus, na primeira década deste século, uma região habitada principalmente por alemães e irlandeses de nível social moderado. Como havia recusa de alugar para os judeus, eles compraram vários blocos. Em 1915, Lawndale era judeu. O mesmo fenômeno ocorreu no Bronx, em Nova Iorque24.

20

From Odessa to Chicago: an account of the migration and settlement of a Jewish family. Citação em

Wirth, op. cit., pp. 206-207.

21

Filaketério é uma faixa de pergaminho, com escritos religiosos, que os judeus enrolam no braço e

prendem à fronte durante as orações. (Nota do tradutor).

22

Tefilin, em português. É o nome dado a duas caixinhas de couro, presas a uma tira de couro de animal

kasher, nelas se encontra um pergaminho com os quatro trechos do Torá em que se baseia o uso dos filaketérios. (Nota do tradutor).

23

The experiences of a Maxwell Street chickendealer. Manuscrito. Citado por Wirth, op. cit, p. 207.

24

A população judaica de Nova Iorque em 1925 era de 1.728.000, um terço da população total da cidade. Em uma década (1916-1925), Manhattan perdeu 200.000 judeus. Washington Heights é a única parte da

(14)

Mais tarde, eles foram se mudando para outras regiões, mais excêntricas (como a terceira área de estabelecimento): Rogers Park, Ravenswood, Albany Park, North Shore, South Shore e, finalmente, para os subúrbios. Em síntese, a característica dos estabelecimentos judeus em Chicago é que eles são separados um do outro e que correspondem a diferentes gerações. Os judeus que chegaram primeiro agora são os que se encontram mais distantes do distrito chamado gueto, onde os novos imigrantes ainda tendem a se estabelecer25.

***

Se você quiser ir direto ao coração dos bairros habitados por imigrantes, siga a Halsted Street, que os cruza de norte a sul. Jane Addams (1916, pp. 97-100), que fundou a Hull House26, o maior assentamento de Chicago, descreveu esta rua e esses bairros quinze anos atrás: A Halsted Street tem 51 quilômetros de extensão. É uma das maiores rotas de Chicago. A Polk Street a atravessa no meio, entre os stocks yards (pátios de estoque) ao sul, e os shipbuildings yards (pátios de construção naval) no lado norte do rio Chicago. Nos 9 quilômetros que separam essas duas indústrias, a rua está repleta de açougues e mercearias, bares sórdidos e cativantes, e lojas de roupas pretensiosas.

A Polk Street, à medida que nos afastamos de Halsted em direção ao Ocidente, rapidamente se torna mais próspera: se a seguirmos por uma milha a leste, ela se tornará cada vez mais triste; na esquina da Clark Street com a 5th Avenue, atravessa um distrito de prostituição com pequenas ruas escuras.

Hull House já esteve nos subúrbios. Mas a cidade cresceu rapidamente. Agora, o assentamento está no ponto de encontro de três ou quatro colônias estrangeiras. Entre Halsted e o rio vivem cerca de dez mil italianos: napolitanos, sicilianos, calabreses, aqui e ali um lombardo ou um veneziano. Ao sul da 12th Street existem muitos alemães, e as ruas laterais são deixadas inteiramente para judeus poloneses e russos. Mais ao sul, os assentamentos judeus estão imperceptivelmente perdidos em uma vasta colônia de imigrantes da Boêmia, tão grande que Chicago é a terceira cidade boêmia do mundo.

No noroeste, encontramos muitos canadenses franceses, que mantiveram o espírito de clã, apesar de sua longa residência nos Estados Unidos; no norte, irlandeses e americanos de primeira geração. Nas ruas mais a oeste e norte estão assentadas famílias ricas, falando inglês, muitas das quais possuem suas casas e moram lá ou em bairros vizinhos há anos.

Quadro 4 - Quadro étnico de Chicago. Escala de 1: 150.00027

cidade onde a população judaica aumentou, enquanto Coney Island se tornou judeu na proporção de 96%. (JEWISH COMMUNAL SURVEY OF GREATER NEW YORK, 1928).

25

Wirth, porém, observa que muitos judeus, tendo passado de uma região para outra, ou porque fizeram negócios ruins ou porque estão cansados de viver assim entre estranhos com quem não conseguem se relacionar, finalmente retorne ao ponto de partida. É o que ele chama de “retorno ao gueto”.

26

A Hull House foi um empreendimento de assentamento fundado em 1889 por Jane Addams e Ellen Gates Starr na cidade de Chicago, para abrigar imigrantes europeus recém-chegados à cidade. (Nota do tradutor).

27

O mapa aqui reproduzido foi estabelecido por nós. Usamos o mapa que Thrasher (1927) publicou em seu trabalho já citado, sob o título Chicago's Gangland: 1923-1926. Agradecemos ao Sr. Baulig por sua preciosa ajuda nesta ocasião. [O mapa original de Thrasher pode ser consultado online na Library of Congress no endereço: https://www.loc.gov/item/2013586117/. – Nota do tradutor].

(15)

As casas deste distrito, principalmente de madeira, foram originalmente construídas para abrigar uma única família. Eles agora estão ocupados por vários e se assemelham às cabanas que foram espaçadas nos subúrbios pobres vinte anos atrás. Alguns deles for transportados aqui em rolos, porque substituímos o lugar das fábricas. Os poucos prédios de tijolos de três ou quatro andares que você pode encontrar datam de um período relativamente próximo e existem poucos apartamentos grandes. Muitas casas não têm á

torneira no quintal). Lixo e cinzas são jogados em caixas de mad grudadas nas pedras da rua

Quando Jane Addams fundou a casa Hull na Polk Street e na Halsted Street em 1889, os moradores eram principalment

nacionalidades gradualmente retrocederam antes da invasão de italianos, russos, judeus e gregos (sem contar os negros e os mexicanos). Atrás dos pátios de estoque, existem principalmente poloneses, e, ao norte, uma região

Agora estamos nos mudando para uma região comp do braço norte do rio Chicago. A Costa

longo do lago e, ao sul, pela

cosmopolita com casas mobiliadas é a artéria norte da

"pequena Sicília", agora invadida por negros, com uma igreja negra a dois quarteirões da esquina da morte (death corner

anos atrás, por um bando inimigo ( Ao sul e a oeste do

oeste do braço sul do rio,

cervejarias, depósitos e canteiros de obras, com paredes nuas enegrecidas pela fumaça das chaminés das fábricas. No entanto, vi

quadrada.

"Bucktown" é uma colônia polonesa que se une ao colônia se estende para o sul, ao longo da Milwaukee

Legendas 1. Parques e bulevares 2. Indústrias e 3. Alemães 4. Suecos 5. Tchecoslovacos 6. Poloneses Lituanos 7. Italianos 8. Judeus 9. Negros 10. População mista C.G: Gold Coast

As casas deste distrito, principalmente de madeira, foram originalmente construídas para abrigar uma única família. Eles agora estão ocupados por vários e se assemelham às cabanas que foram espaçadas nos subúrbios pobres vinte anos atrás. Alguns deles for transportados aqui em rolos, porque substituímos o lugar das fábricas. Os poucos prédios de tijolos de três ou quatro andares que você pode encontrar datam de um período relativamente próximo e existem poucos apartamentos grandes. Muitas casas não têm á

torneira no quintal). Lixo e cinzas são jogados em caixas de mad grudadas nas pedras da rua (ADDAMS, op. cit. pp. 97

Quando Jane Addams fundou a casa Hull na Polk Street e na Halsted Street em 1889, os moradores eram principalmente alemães e irlandeses. Mas essas nacionalidades gradualmente retrocederam antes da invasão de italianos, russos, judeus e gregos (sem contar os negros e os mexicanos). Atrás dos pátios de estoque, existem principalmente poloneses, e, ao norte, uma região de slums (favelas) e assentamentos.

Agora estamos nos mudando para uma região completamente diferente, a leste norte do rio Chicago. A Costa Dourada (Gold Coast) se estende ao norte, ao pela "Bohemia", uma colônia de artistas. Ao oeste, um distrito cosmopolita com casas mobiliadas é a artéria norte da Hoboemia. E

", agora invadida por negros, com uma igreja negra a dois quarteirões death corner), onde cerca de vinte bandidos foram mortos, alguns s atrás, por um bando inimigo (Sicilianos na maior parte).

oeste do braço norte do rio Chicago, a oeste do circuito, sul do rio, parece existir em toda parte apenas canais, docas, fá

cervejarias, depósitos e canteiros de obras, com paredes nuas enegrecidas pela fumaça das chaminés das fábricas. No entanto, vivem lá mais de 50.000 habitantes

"Bucktown" é uma colônia polonesa que se une ao braço norte do rio colônia se estende para o sul, ao longo da Milwaukee Avenue, que é a principal rua

Legendas Parques e bulevares Indústrias e ferrovias Alemães hecoslovacos Poloneses Lituanos Italianos População mista

As casas deste distrito, principalmente de madeira, foram originalmente construídas para abrigar uma única família. Eles agora estão ocupados por vários e se assemelham às cabanas que foram espaçadas nos subúrbios pobres vinte anos atrás. Alguns deles foram transportados aqui em rolos, porque substituímos o lugar das fábricas. Os poucos prédios de tijolos de três ou quatro andares que você pode encontrar datam de um período relativamente próximo e existem poucos apartamentos grandes. Muitas casas não têm água (exceto uma torneira no quintal). Lixo e cinzas são jogados em caixas de madeira

p. 97-100).

Quando Jane Addams fundou a casa Hull na Polk Street e na Halsted Street em e alemães e irlandeses. Mas essas nacionalidades gradualmente retrocederam antes da invasão de italianos, russos, judeus e gregos (sem contar os negros e os mexicanos). Atrás dos pátios de estoque, existem

(favelas) e assentamentos. letamente diferente, a leste

se estende ao norte, ao oeste, um distrito Então, passa pela ", agora invadida por negros, com uma igreja negra a dois quarteirões bandidos foram mortos, alguns norte do rio Chicago, a oeste do circuito, e ao norte e a em toda parte apenas canais, docas, fábricas, cervejarias, depósitos e canteiros de obras, com paredes nuas enegrecidas pela fumaça vem lá mais de 50.000 habitantes por milha norte do rio. Essa , que é a principal rua

(16)

comercial dos poloneses. Em direção ao oeste, estende-se a Madison Street, por onde passam dois terços dos seus moradores: é a artéria principal de Hobohemia (Bum Park e Slave Market, onde os escritórios de emprego se aglomeram). Local, também, de hospitais, clínicas, dependências de escolas médicas.

No lado oeste da região industrial, uma colônia de negros se estabeleceu. Ao sul, e se estendendo para oeste até Garfield Park, fica a chamada área americana.

***

Certamente nada substitui o contato direto com a vida dos grupos. A escola de sociologia de Chicago e os moradores dos assentamentos fizeram um esforço notável para descrever os principais aspectos desta cidade, onde tantos elementos de todas as nacionalidades e todas as classes fermentam juntos, e onde há tantas combinações e reações de química social que só pode ser observada estando lá.

Outras pesquisas ainda estão em preparação: uma delas, por Ernest R. Mower (1927), sobre a desorganização da família em Chicago; outra, por Walter С. Reckless (1925), que busca compreender a História natural das áreas de vício (vice areas) em Chicago28. É importante dar uma idéia desses trabalhos, especialmente interessantes, como já vimos, pelo fato de eles se relacionarem com casos particulares.

Mas temos, por outro lado, dados estatísticos que podem nos permitir colocar outros problemas. Outras questões, por exemplo, como a de examinar em que condições a assimilação desses grupos de imigrantes continua, até que ponto eles parecem capazes de se misturar com os americanos, e qual é a atitude variável de cada um deles a esse respeito.

Gostaríamos de indicar o que os dados numéricos nos ensinam neste ponto. Ao mesmo tempo, é a melhor maneira de penetrar ainda mais na estrutura social desta cidade. Este será o assunto das duas últimas partes do nosso estudo.

III - Chicago, cidade dos imigrantes29

Os imigrantes em Chicago no ano de 1920, de uma população total de 2.700.000, eram nada menos que 805.482, ou seja, quase um terço da população total da cidade30. De outra mão, houve 1.143.896 de crianças nascidas de estrangeiros (de pais ou apenas um, estrangeiros), ou 42,5% da população total; e 642.871 crianças nascidas de pais americanos, ou 23,7%. Vamos comparar essas proporções com as que encontramos, na mesma data, para os Estados Unidos como um todo e para Nova Iorque31.

Quadro 5 - Percentagem sobre a população total

28

Tese defendida na Universidade de Chicago em 1925, sob orientação de Ernest Burgess W, e

posteriormente publicada em livro, sob o título: Vice in Chicago. Ver Reckless (1933). (Nota do tradutor).

29

Ver nota 27.

30

Foram mantidos os dados de 1920, o último a ser publicado. O Census de 1930 e o Statistical Abstract correspondentes ainda não tinham sido publicados nesta data.

31

Os filhos de estrangeiros são aqueles cujos pais, ou pelo menos um dos pais nasceu fora dos Estados Unidos.

(17)

Os americanos compreendem

23,7% em Chicago, da população total. Observe que entre os filhos de estrangeiros, o maior número (quase três quartos) tem seus dois pais nascidos fora dos Estados Unidos Se os adicionarmos a estrangeiros, encontramos: 1.693.978,

a população que não tem uma gota de sangue americano nas veias.

proporcionalmente, dois terços do número de estrangeiros que os Estados Unidos e o dobro de filhos de estrangeiros.

Vamos nos ater aos estrangeiros e mostrar como eles se decompuseram em 1920, nos Estados Unidos, Nova

sua proporção crescente nos Estados Unidos. Poloneses e russos são proporciona

nos Estados Unidos. Mas os russos são muito mais numerosos em Nova em Chicago, duas vezes mais (a maior proporção deles são jud menos numerosos em mais da metade.

Os italianos são menos numerosos em Chicago do que nos Estados Unidos (em mais de um terço), e especialmente em Nova

Finalmente, há uma proporção maior de suecos e nos Estados Unidos, e especialmente em Nova número.

Embora os alemães ocupem o segundo lugar em Chicago, eles representam uma proporção ligeiramente maior de estrangeiros do que nos Estados Unidos. Os poloneses, que ocupam a primeira posição, e os alemães

estrangeiros, quase um terço (em vez de 20% nos Estados Unidos e apenas 17% em Nova Iorque).

Embora os imigrantes não sejam distribuídos nos Estados Unidos por massas compactas nacionais separadas, é possível considerar uma cidade gra

formada, em parte, pela superposição de grandes áreas de estrangeiros desta ou daquela nacionalidade. Por exemplo, os poloneses estão bastante

Unidos, 61% deles são encontrados em apenas quatro estados: Nova Pensilvânia, Illinois e Michigan.

todos os poloneses, quase um quarto.

Quadro 6

compreendem os negros e, sem eles, representariam apenas da população total. Observe que entre os filhos de estrangeiros, o maior número (quase três quartos) tem seus dois pais nascidos fora dos Estados Unidos

os adicionarmos a estrangeiros, encontramos: 1.693.978, ou seja, quase 63%

a população que não tem uma gota de sangue americano nas veias. Chicago contém, proporcionalmente, dois terços do número de estrangeiros que os Estados Unidos e o

ilhos de estrangeiros.

Vamos nos ater aos estrangeiros e mostrar como eles se decompuseram em 1920, nos Estados Unidos, Nova Iorque e Chicago. Nós os classificamos de acordo com sua proporção crescente nos Estados Unidos.

Poloneses e russos são proporcionalmente mais numerosos em Chicago do que nos Estados Unidos. Mas os russos são muito mais numerosos em Nova

em Chicago, duas vezes mais (a maior proporção deles são judias), e os poloneses, menos numerosos em mais da metade.

menos numerosos em Chicago do que nos Estados Unidos (em mais de um terço), e especialmente em Nova Iorque (em mais de dois terços). Finalmente, há uma proporção maior de suecos e tchecoslovacos em Chicago do que nos Estados Unidos, e especialmente em Nova Iorque, onde eles são em pequeno Embora os alemães ocupem o segundo lugar em Chicago, eles representam uma proporção ligeiramente maior de estrangeiros do que nos Estados Unidos. Os poloneses, que ocupam a primeira posição, e os alemães, adicionam nesta cidade 31% dos estrangeiros, quase um terço (em vez de 20% nos Estados Unidos e apenas 17% em Embora os imigrantes não sejam distribuídos nos Estados Unidos por massas compactas nacionais separadas, é possível considerar uma cidade grande como Chicago formada, em parte, pela superposição de grandes áreas de estrangeiros desta ou daquela nacionalidade. Por exemplo, os poloneses estão bastante concentrados nos Estados

61% deles são encontrados em apenas quatro estados: Nova

, Illinois e Michigan. Os dois últimos, que são contíguos, contêm 23,5% de todos os poloneses, quase um quarto.

Quadro 6 - Porcentagem de estrangeiros, em 1920

os negros e, sem eles, representariam apenas da população total. Observe que entre os filhos de estrangeiros, o maior número (quase três quartos) tem seus dois pais nascidos fora dos Estados Unidos. ou seja, quase 63% de toda Chicago contém, proporcionalmente, dois terços do número de estrangeiros que os Estados Unidos e o Vamos nos ater aos estrangeiros e mostrar como eles se decompuseram em e Chicago. Nós os classificamos de acordo com lmente mais numerosos em Chicago do que nos Estados Unidos. Mas os russos são muito mais numerosos em Nova Iorque do que ), e os poloneses, menos numerosos em Chicago do que nos Estados Unidos (em (em mais de dois terços). checoslovacos em Chicago do que , onde eles são em pequeno Embora os alemães ocupem o segundo lugar em Chicago, eles representam uma proporção ligeiramente maior de estrangeiros do que nos Estados Unidos. Os poloneses, nesta cidade 31% dos estrangeiros, quase um terço (em vez de 20% nos Estados Unidos e apenas 17% em Embora os imigrantes não sejam distribuídos nos Estados Unidos por massas nde como Chicago formada, em parte, pela superposição de grandes áreas de estrangeiros desta ou daquela concentrados nos Estados 61% deles são encontrados em apenas quatro estados: Nova Iorque, Os dois últimos, que são contíguos, contêm 23,5% de

Referências

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