CRESCIMENTO E TRANSFORMAÇÕES ESTRUTURAIS DA AGROPECUÁRIA CEARENSE
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
DEPARTAMENTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA
CRESCIMENTO E TRANSFORMAÇÕES ESTRUTURAIS DA AGROPECUÁRIA CEARENSE
Monaliza de Oliveira Ferreira
Dissertação submetida à Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Economia Rural, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre.
Esta Dissertação foi submetida à Coordenação do Curso de Mestrado em Economia Rural, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Economia Rural, outorgado pela Universidade Federal do Ceará, e encontra-se à disposição dos interessados na Biblioteca Setorial do Departamento de Economia Agrícola da referida Instituição.
A citação de qualquer trecho dessa Dissertação é permitida, desde que seja feita em conformidade com os princípios da ética científica.
___________________________________ Monaliza de Oliveira Ferreira
DISSERTAÇÃO APROVADA EM 27/2/2003.
______________________________________ Professora Lúcia Maria Ramos Silva, D.L.
Orientadora
______________________________________ Professor Antônio Lisboa Teles da Rosa, Dr.
Co-Orientador
_____________________________________ Professora Patrícia Verônica Pinheiro Sales Lima, Dra.
Membro da Banca Examinadora
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, pelo bom exemplo de vida e demonstrações de carinho constantes, sempre com muita fé em Deus.
Aos meus irmãos, Joel, Mirella e Jardel, e amigos, especialmente à turma do Mestrado, pelo consolo nas horas difíceis e pelas belas gargalhadas.
Aos colegas mais próximos que se tornaram amigos, Sonia, Cida, Eliane, Sandra, Débora, Gabi e Josemar.
À Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) pelo apoio financeiro, fundamental para a realização deste trabalho.
À Professora orientadora, Lúcia Maria Ramos Silva, por sua incansável dedicação, paciência e esmero para que fosse efetivado, com os melhores resultados, o presente ensaio.
Ao Professor Antônio Lisboa Teles da Rosa, que esteve presente em quase todos os momentos de minha vida acadêmica, na qualidade de professor e orientador na Graduação e, agora, como co-orientador na Dissertação.
À Professora Patrícia Verônica Pinheiro Sales Lima, pela valiosa contribuição e apoio dados para a realização deste estudo.
Ao Dr. Lucas Antônio de Sousa Leite, pelas sugestões, discussões esclarecedoras, paciência e apoio constantes.
A todo o corpo docente com quem cursei disciplinas, muito particularmente à Professora Maria Irles de Oliveira Mayorga, pela compreensão em todas as horas.
A todos os funcionários do Programa de Mestrado, desde os jovens da Secretaria – Mônica, Ricardo e Brian, às meninas da Biblioteca – Rita e Margareth, à dupla dinâmica do Laboratório – Dermivan e Joãozinho, à Conceição e, é claro à mascote da Economia Rural, Dona Valda.
SUMÁRIO
Página
RELAÇÃO DE QUADROS... ix
RELAÇÃO DE TABEÇA ... x
RELAÇÃO DE FIGURAS ... xii
RELAÇÃO DE FIGURAS DO APÊNDICE ... xiv
RELAÇÃO DE TABELAS DO APÊNDICE ... xv
RELAÇÃO DE TABELAS DO ANEXO ... xvi
RESUMO ... xviii
INTRODUÇÃO ... 01
CAPÍTULO 1 – COMPORTAMENTO DA ECONOMIA CEARENSE . 08 1.1 Origens da Economia Cearense ... 08
1.2 Breve Histórico das Secas no Ceará ... 15
1.3 As Políticas Públicas e a Agricultura Cearense .... 21
1.4 Caracterização Econômica das Mesorregiões .... 27
CAPÍTULO 2 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 35
2.1 Referencial Teórico ... 35
2.2 Métodos de Análise .,... 40
2.3 Definição das Variáveis e Métodos de Análise .... 44
2.4 Área de Estudo ... 48
CAPÍTULO 3 – APROXIMAÇÃO À PRODUTIVIDADE TOTAL: TERRA, TRABALHO E CAPITAL ... 51
3.1 Produtividade da Terra ... 51
CAPÍTULO 4 – EVOLUÇÃO DA PRODUTIVIDADE TOTAL DOS
FATORES ... 61
4.1 Índice Agregado do Produto ... 61
4.2 Índice Agregado de Fatores ... 63
4.3 Produtividade Total dos Fatores ... 65
CAPÍTULO 5 – AVALIAÇÃO DA ESPECIALIZAÇÃO PRODUTIVA E MUDANÇA ESTRUTURAL ... 71
5.1 Especialização Produtiva ... 71
5.2 Mudança Estrutural ... 77
CONCLUSÕES E SUGESTÕES ... 90
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ... 92
APÊNDICE A – EVOLUÇÃO DAS PRODUTIVIDADES TOTAL E PARCIAIS, 1975-1995 ... 100
APÊNDICE B – PARTICIPAÇÃO DOS CINCO PRINCIPAIS PRODUTOS NO TOTAL DA PRODUÇÃO DOS PRODUTOS SELECIONADOS, POR MESORRE- GIÕES CEARENSES, 1975-1995 ... 105
Página
ANEXO B – PARTICIPAÇÃO ABOSOLUTA E RELATIVA DO NÚME- RO DE ESTABELECIMENTOS QUE UTILIZAM ASSIS- TÊNCIA TÉCNICA, IRRIGAÇÃO, ADUBOS, E CORRE- TIVOS, CONTROLE DE PRAGAS E DOENÇAS, CON- SERVAÇÃO DO SOLO, ENERGIA ELÉTRICA, SEGUN DO AS MESORREGIÕES CEARENSES, 1995/1996 .... 110
ANEXO C – NÚMERO DE ESTABELECIMENTOS POR CONDIÇÕES DO PRODUTOR, UTILIZAÇÃO DAS TERRAS, PESSOAL OCUPADO, NÚMERO DE TRATORES E EFETIVOS DA
PECUÁRIA, POR MESORREGIÕES CEARENSES, 1995/
96 ... 112
ANEXO D – POPULAÇÃO TOTAL E DO SETOR RURAL, POR MESO-
REGIÕES CEARENSES ... 114
ANEXO E – FREQÜÊNCIA ABSOLUTA E RELATIVA DO GRUPO
DE ATIVIDADE ECONÔMICA RURAL, POR MESO-
RELAÇÃO DE QUADROS
QUADRO Página
1 Produtos utilizados no Cálculo do Índice do Produto ... 46
2 Fatores de Produção usados no Cálculo do Índice de
RELAÇÃO DE TABELAS
TABELA Página
1 Índices de Produtividade da Terra para o Estado do Ceará
e as Mesorregiões, 1975-1995 ... 52
2 Taxas Anuais de Crescimento da Produtividade da Terra para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 ... 54
3 Índices de Produtividade do Trabalho para o Estado do Ceará e Mesorregições, 1975-1995 ... 55
4 Taxas Anuais de Crescimento da Produtividade do Trabalho para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 (%) ... 56
5 Índices de Produtividades do Capital para o Estado do Ceará e Mesorregições, 1975-1995 ... 59
6 Taxas Anuais de Crescimento da Produtividade do Capital para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 (%) ... 60
TABELA Página
8 Taxas Anuais de Crescimento do Índice Agregado do Produto
para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 (%) ... 63
9 Índice Agregado de Fatores para o Estado do Ceará e Mesorre- giões, 1975-1995 ... 64
10 Taxas Anuais de Crescimento do Índice Agregado de Fatores
para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 (%) ... 65
11 Produtividade Total dos Fatores para o Estado do Ceará e Meso- regiões, 1975-1995 ... 66
12 Anuais de Crescimento da Produtividade Total dos Fatores para o Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-
1995 (%) ... 67
13 Índice de Especialização da Agropecuária Cearense, por Mesor-
regiões Cearenses, 1975-1995 ... 72
14 Índice de Mudança Estrutural da Agropecuária Cearense, por
Mesorregiões, 1975-1995 ... 78
15 Índice de Mudança Estrutural para Lavouras no Estado do Ceará e Mesorregiões, 1975-1995 ... 83
RELAÇÃO DE FIGURAS
1 FIGURA Página
2 Gráfico Ilustrativo do Índice de Mudança Estrutural ... 44
3 Índice de Especialização – CEARÁ e Noroeste Cearense,
1975-1995 ... 73
4 Índice de Especialização – CEARÁ e Norte Cearense,
1975-1995 ... 73
5 Índice de Especialização – CEARÁ e Metropolitana de
Fortaleza, 1975-1995 ... 74
6 Índice de Especialização – CEARÁ e Sertões Cearenses,
1975-1995 ... 75
7 Índice de Especialização – CEARÁ e Jaguaribe,
1975-1995 ... 75
8 Índice de Especialização – CEARÁ e Centro-Sul
Cearense, 1975-1995 ... 76
9 Índice de Especialização – CEARÁ e Sul Cearense,
FIGURA Página
10 Índice de Mudança Estrutural da Agropecuária Cearense,
1975-1998 ... 79
11 Índice de Mudança Estrutural da Agropecuária Cearense, 1980-1985 ... 81
12 Índice de Mudança Estrutural da Agropecuária Cearense, 13 1985-1995 ... 82
14 Índice de Mudança Estrutural – CEARÁ, 1975-1995 ... 84
15 Índice de Mudança Estrutural – Noroeste Cearense, 1975-1995 ... 85
16 Índice de Mudança Estrutural - Norte Cearense, 1975-1995 86
17 Índice de Mudança Estrutural – Metropolitana de Fortaleza, 1975-1995 ... 86
18 Índice de Mudança Estrutural - Sertões Cearenses, 1975- 1995 ... 87
18 Índice de Mudança Estrutural – Jaguaribe, 1975-1995 ... 87
19 Índice de Mudança Estrutural - Centro-Sul, 1975-1995 ... 88
RELAÇÃO DE FIGURAS DO APÊNDICE
FIGURA Página
A1 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Ceará,
1975-1995 ... 101
A2 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Noroeste
Cearense, 1975-1995 ... 101
A3 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Norte
Cearense, 1975-1995 ... 102
A4 Evolução das Produtividades Total e Parciais na Mesorregião
Metropolitana de Fortaleza, 1975-1995 ... 102
A5 Evolução das Produtividades Total e Parciais nos Sertões,
1975-1995 ... 103
A6 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Jaguaribe,
1975-1995 ... 103
A7 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Centro-Sul
Cearense, 1975-1995 ... 104
A8 Evolução das Produtividades Total e Parciais no Sul Cearen-
RELAÇÃO DE FIGURAS DO APÊNDICE
FIGURA Página
B1 Participação Relativa dos Cinco Principais Produtos no Total da Produção dos Produtos Selecionados, por Mesorregiões
RELAÇÃO DE TABELAS DO ANEXO
FIGURA Página
A1 Evolução da Área Agropecuária Cearense, 1975-1995 ... 109
A2 Evolução da Área Agropecuária Cearense, em Seus Diversos
Usos, 1975-1995 ... 109
B1 Número de Estabelecimentos que Utilizam Assistência Técnica, Irrigação, Adubos e Corretivos, Controle de Pragas e Doenças, Conservação do Solo, Energia Elétrica, Segundo as Mesorrgi-
ões Cearenses, 1995/96... 111
B2 Participação Relativa no Número de Estabelecimentos que Uti- zam Assistência Técnica, Irrigação, Adubos e Corretivos, Con- trole de Pragas e Doenças, Conservação do Solo, Energia Elé-
trica, Segundo as Mesorregiões Cearenses, 1995/96 ... 111
C1 Condução do Produtor, Uso das Terras, Pessoal Ocupado,
Tratores e Efetivos da Pecuária – CEARÁ ... 113
C2 Condução do Produtor, Segundo as Mesorregiões Cearenses,
1995-96 ... 113
D1 Freqüência Absoluta e Relativa da População Rural Cearense,
D2 Freqüência Absoluta da População em Idade Ativa do Setor
Rural, por Faixa Etária e por Mesorregiões Cearenses, 1996 ... 115
D3 Freqüência Relativa da População em Idade Ativa do Setor
Rural, por Mesorregiões Cearenses, 1996 ... 115
D4 Freqüência Relativa da População em Idade Ativa do Setor
Rural, por Faixa Etária, 1996 ... 116
FIGURA Página
D5 Participação da População em Idade Ativa do Setor Rural em Relação à População Total do Setor Rural, por Mesorregiões
Cearenses, 1996 ... 116
E1 Freqüência Absoluta do Grupo de Atividade Econômica, por
Mesorregiões Cearenses, 1996 ... 118
E2 Freqüência Absoluta do Grupo de Atividade Econômica, por
RESUMO
INTRODUÇÃO
As incertezas econômicas e sociais, aliadas ao desgaste dos recursos naturais
e crescimento da população, especialmente nos países pobres, levam as nações
periféricas a optar, necessariamente, pela transformação da agricultura; investindo
em pesquisa de alta qualidade, dentro da qual a Biotecnologia terá um papel cada
vez maior, ao lado de políticas de investimento e de mudanças estruturais (VILELA,
1999).
O discurso internacional sobre desenvolvimento econômico situa a agricultura
como setor estratégico para aferição de taxas maiores de crescimento econômico,
acompanhadas de um melhor padrão de vida da população. Ressalte-se que foi a
partir dos incentivos à agricultura que os avanços tecnológicos viabilizaram a
industrialização nos países centrais.
Embora estes países tenham crescido, inicialmente, em razão do avanço
industrial, houve algumas nações que se desenvolveram no passado recente,
principalmente, em razão de amplas mudanças na produtividade agrícola. Esse fato
ficou bastante evidente com o fim da Segunda Guerra Mundial (1945).
Os países centrais passaram a investir em produtividade agrícola, reduzindo o
valor das exportações na balança comercial dos países em vias de desenvolvimento
que, em geral, eram os principais produtores e exportadores de produtos primários.
Nessas nações, um grande desafio tem sido transformar a agricultura tradicional,
pouco produtiva, numa agricultura moderna e rentável.
A literatura mostra que no desenvolvimento econômico dos países houve
participação importante da agricultura, fornecendo matérias-primas e produtos para
consumo interno e para a exportação, o que exigiu do setor agropecuário o aumento
de sua produtividade e apresentasse melhor alocação dos recursos produtivos.
Verifica-se, portanto, que a agricultura desempenhou e continua
desempenhando papel decisivo no crescimento econômico e no combate à pobreza
Ademais, a densidade populacional comum a vários desses países requer que
atendam suas demandas por alimentação através do aumento da produtividade,
especialmente, quando não existem fronteiras de expansão. Nesse contexto,
difundiram-se as idéias de THEODORE SCHULTZ que se resumem, conforme
SAMPAIO (1994:531), em que os produtores rurais são eficientes à luz dos fatores
de produção disponíveis, sendo necessários pesquisa, extensão e introdução de
insumos modernos como pré-condição para a elevação da produtividade (...) .
A modernização da agricultura no mundo, desembocou na chamada Revolução
Verde, que se baseava na premissa de que diferenças substanciais de produtividade
agrícola entre países poderiam ser alteradas a partir do momento em que nações
menos desenvolvidas adotassem tecnologias avançadas disponíveis em Estados
desenvolvidos [HAYAMI, HUTTAN (1998) apud SOUZA (2000)].
O setor agrícola brasileiro enfrentou vários problemas ao longo dos anos. A
reestruturação produtiva desse setor pode ser observada em três momentos distintos,
de acordo com ELIAS, SAMPAIO (2002):
a) em fins da década de 1950, com a intensificação dos insumos ditos
modernos (fertilizantes, agrotóxicos, tratores, colheitadeiras etc.), modificando as
condições naturais do solo, bem como a intensidade e ritmo da jornada de trabalho;
b) meados da década de 1960, com o desenvolvimento dos complexos
agroindustriais (CAIs) e com a organização do agronegócio nacional, onde os
principais produtos são soja, suco de laranja e cana;
c) na década de 1970, com a integração de capitais, ou seja, fusões, holdings,
cartéis, trustes. Esse período também revela grandes transformações na esfera da
biotecnologia, afetando diretamente a velocidade de rotação do capital.
De acordo com HOFFMMAN (1996) apud SOUZA (2002), a modernização
contemplou, além do uso de insumos modernos e a mudança das relações de
trabalho, a mecanização que, forçosamente, levou à melhoria qualitativa na produção
agrícola. Também o autor destaca o uso de insumos, máquinas e equipamentos
Todavia, essa modernização da agricultura brasileira, intensificada em meados
da década de 1960, levou a uma subordinação crescente da agricultura à indústria,
acarretando transformações sociais, econômicas e ambientais no campo, que
levaram, dentre outras coisas, à concentração da estrutura fundiária, como relata
REIS JÚNIOR (1996). Além disso, esse desenvolvimento agrícola não acontecem de
forma homogênea no País, privilegiando regiões como o centro-sul.
Isso porque, até meados dos anos 1960, embora se reconhecesse a
importância da agricultura, a industrialização sempre foi a prioridade. Aliás,
posteriormente, ainda que mais brandamente, continuou sendo assim. Nesse
período, a ordem era impulsionar a industrialização através da substituição de
importações e incentivos às exportações. Segundo SARRIS (op. cit.), as hipóteses
eram de que a produção agrícola não seria afetada em razão da inelasticidade da
oferta agrícola com relação aos preços, e que o investimento industrial produziria
taxas de retornos mais elevadas.
A partir de 1970 foi intensificada a modernização da agricultura brasileira,
através de políticas de crédito subsidiado, preços mínimos, pesquisa e extensão rural.
Nos anos 1980 a política para o setor agropecuário foi mais tímida, em virtude das
condições macroeconômicas desfavoráveis, com redução do crédito e eliminação de
subsídios. Mesmo assim, nessa década, enfatizou-se a agricultura como setor líder,
demonstrando que o crescimento agrícola era de suma importância para a geração
de demanda por produtos locais até aquele momento não comercializados,
estimulando a produção e o crescimento econômico, estratégia essa conhecida como
industrialização conduzida pela demanda agrícola (ADLI) [MELLO (1976), ADELMAN
(1984) apud SARRIS (op.cit.)].
Nesse período, a modernização agrícola considerada indutora do crescimento,
era definida, segundo KAGEYAMA (1996) apud SOUZA (2000), como as mudanças
na base técnica da produção agrícola, de forma a permitirem a substituição da
agricultura extensiva pela intensiva.
regida pelo mercado, ainda que somente nos anos de 1990 ela tenha se tornado
mais influenciada pelo mercado mundial, em virtude da redução nas barreiras
alfandegárias do comércio internacional, por conta da abertura comercial iniciada no
País.
Nos anos de 1990, a abertura econômica possibilitou a disputa dos mercados,
sendo necessário o aumento da eficiência em todas as fases da produção no
complexo agroindustrial, conforme VICENTE, ANEFALOS, CASER (2001). Nessa
década, de acordo com DIÓGENES (2002), algumas mudanças na produção
agrícola podem ser verificadas, sobressaindo-se o aumento da produtividade, que
levou à expansão da fronteira agrícola em diversas regiões brasileiras.
Pode-se verificar é que essa reestruturação produtiva da agropecuária
brasileira não ocorreu da mesma forma em todas as regiões. Como tem acontecido
historicamente, beneficiou mais o Sudeste do País em detrimento do Nordeste
brasileiro. No próprio espaço nordestino, as transformações não ocorreram de forma
homogênea, e sim seletivamente, tanto no que diz respeito ao espaço quanto aos
produtos.
A modernização da agropecuária nordestina e cearense tomou impulso na
década de 1970, com a construção de grandes perímetros irrigados públicos – que
associava à irrigação pública projetos de assentamento, produção de alimentos,
colonização e incentivo à produção familiar. Foram construídos 27 desses perímetros
irrigados, dentre os quais, nove no Ceará, incluindo as bacias hidrográficas do
Jaguaribe, Salgado, Acaraú e Curu.
Apesar dos índices de crescimento atribuídos à Região nordestina pelas
instituições competentes, esta ainda está muito aquém do padrão nacional, tanto no
que se refere aos indicadores econômicos quanto aos sociais. As condições
climáticas constituem um dos fatores que mais afetam a produção agropecuária.
Ademais, essa Região apresenta heterogeneidade na sua estrutura agrícola,
onde coexistem subemprego, instabilidade no emprego e baixa renda, além de
empregados. Somado a isso, a prática intensiva da pecuária é um dos fatores
responsáveis pela migração rural que, em razão da baixa produtividade da terra e a
conseqüente falta de renda, leva contingentes de pessoas cada vez maiores aos
centros urbanos (DIÓGENES, 1992).
Similarmente ao setor agropecuário da região Nordeste, no Estado do Ceará,
enfrenta-se sérios problemas. A agricultura, em especial, caracteriza-se pela
presença de grande número de pequenos produtores agropecuários, grande
concentração de terra, baixa produtividade e irregularidades das chuvas.
Embora haja grande diversidade de produtos cultivados no Estado, o baixo
nível tecnológico adotado nos cultivos explica, em boa parte, o atraso, a grande
vulnerabilidade e a baixa produtividade da economia agrícola cearense.
Relativamente aos pequenos produtores, parte considerável ainda se dedica à
agricultura de subsistência, ficando, portanto, mais predispostos e bastante
influenciados pelos efeitos dos fatores citados. Ademais, defrontam-se com outros problemas que influenciam seus resultados, tais como a escassez de recursos
financeiros próprios ou financiados e a comercialização, especialmente, por sua baixa
escala de produção e pouco ou nenhum poder de barganha (KHAN, MOURA, SILVA,
et alii, 1999).
Apesar dos problemas mencionados, a agricultura é um setor particularmente
importante para a economia cearense e tem dado, historicamente, uma
inquestionável contribuição ao desenvolvimento do Estado, participando na geração
de emprego, renda e divisas. Nos últimos anos, o Ceará vem demonstrando
crescimento sucessivo do PIB, com taxas superiores às do Nordeste e Brasil, além de
índices crescentes em suas exportações (ROSA, ALVES, 2001). A população urbana
tem se beneficiado com alimentos relativamente baratos e grande parte das divisas é
oriunda das exportações dos produtos agropecuários cearenses, o que possibilita
importação de máquinas, equipamentos e insumos (CEARÁ, 1999).
Por outro lado, o Estado tem atraído empresas, como a Grandene,
revendedoras da Mercedes-Benz e da Volvo, a Frutinari (empresa de fruticultura
estimuladas por incentivos fiscais, redução de impostos, mão-de-obra barata e fácil
acesso às principais capitais nordestinas, ainda não modificaram a estrutura
econômica e social das regiões onde estão instaladas. O que se percebe, entretanto,
é a passagem de regiões eminentemente agrícolas (caso do Cariri) para regiões com
setores mais voltados à indústria e serviços (BALSADI, JULIO, 2002).
Não resta dúvida de que o Estado cresceu no período próximo passado, mas
os dados indicam que este crescimento não ocorreu da mesma forma nos diversos
setores e/ou regiões e a distribuição desse crescimento é que viabiliza o
desenvolvimento econômico.
(...) o crescimento alavancado por um determinado setor da economia só pode
ser durável se os benefícios do surto inicial forem distribuídos de maneira suficientemente
igualitária que permitam a expansão e o aprofundamento dos mercados. (...) tanto mais
favorável ao crescimento será o perfil da demanda quanto menos desigual for a distribuição de
renda [ MURPHY, SHEIFER, VISHNY (1989) apud VEIGA (2000:179)].
Destarte, o grande questionamento que se faz é: em que medida as
transformações ocorridas com a economia agropecuária cearense no período de
1975 a 1995 afetaram o produto? O crescimento do produto foi acompanhado de
mudanças estruturais?
No intuito de responder a essas questões buscou-se neste trabalho, analisar
as mudanças estruturais e a produtividade total dos fatores na agropecuária cearense
no período de 1975-1995. Especificamente, pretende-se:
a) determinar os índices de produtividade da terra, do trabalho e do
capital nas mesorregiões cearenses;
b) estabelecer as taxas de crescimento da produtividade total dos
fatores e produtividades parciais – terra, trabalho e capital nas
mesorregiões cearenses;
c) decompor as taxas de crescimento da produtividade do trabalho em
d) determinar os índices agregados do produto, dos fatores de
produção e o índice de produtividade total dos fatores, nas
mesorregiões cearenses;
e) calcular e analisar o índice de especialização na agropecuária
cearense; e
f) calcular e analisar o índice de mudança estrutural na agropecuária
cearense.
Dessa forma, este trabalho foi desenvolvido em cinco capítulos:
Nesta introdução, observam-se algumas considerações gerais, a
problematização, justificativa e objetivos da pesquisa.
No primeiro capítulo, são trazidas informações sobre a agropecuária cearense,
discorrendo sobre sua evolução e transformação ao longo dos anos.
O segundo oferece um panorama sobre os aspectos conceituais e teóricos da
metodologia, bem como a definição das variáveis e fonte dos dados.
Nos capítulos três quatro e cinco, tem-se o desenvolvimento do ensaio, a partir
CAPÍTULO 1
COMPORTAMENTO DA ECONOMIA CEARENSE
1.1 Origens da Economia Cearense1
A história do Ceará tem início com a criação da "Capitania do Siará", doada
em 1535 a Antônio Cardoso de Barros. Em 1603, uma expedição comandada pelo
açoriano Pêro Coelho de Souza fundou, na região, a colônia denominada Nova
Luzitânia. Juntamente com o grupo, chegou também um rapaz de 17 anos, Martim
Soares Moreno, considerado o verdadeiro fundador do Ceará. Conhecedor da língua
e dos costumes indígenas, mantinha amizade fraternal com os nativos, o que lhe
valeu fundamental apoio para a derrocada dos franceses e holandeses que também
pretendiam colonizar a região.
Como é do conhecimento de todos, o Ceará foi descoberto por espanhóis dois
meses antes de os portugueses chegarem ao Monte Pascoal. Após a divisão das
terras brasileiras em capitanias, o Ceará ficou esquecido durante longos anos, tanto
que no século XVI o que se conhecia do atual Território cearense nada mais era do
que a faixa litorânea e a zona da Ibiapaba.
A falta de interesse da Coroa Portuguesa para com a Capitania cearense
decorria da ausência do pau-brasil na região, mesmo que se encontrasse madeira de
ótima qualidade como o pau-violête e outras espécies empregadas na marcenaria.
Findo o interesse português pelo pau-brasil, inicia-se a era da cana-de-açúcar.
Já que a terra brasileira não se tinha prestado para os objetivos de metais preciosos,
seria pois na exploração agrícola que a Colônia mostraria seu valor, a partir de uma
economia primária exportadora e monocultora, alicerçada no trabalho escravo. Entre
1605-06, a primeira e pavorosa seca que a história cearense registra castigou toda a
região, expulsando inclusive os conquistadores da nova terra, como Pero Coelho e
sua comitiva, que fugiram atravessando em balsas o Jaguaribe em direção ao Rio Grande do Norte.
Até 1612, a costa cearense esteve entregue à sorte de todo tipo de traficância
e pirataria, já que as tentativas de colonização até então haviam fracassado. Em
1619, depois de muitas lutas contra invasores estrangeiros, naufrágios e prisões,
Soares Moreno obteve uma carta régia que lhe dava o título de Senhor da Capitania
do Ceará, aqui se fixando por muitos anos. Seu lendário romance com a índia
Iracema foi imortalizado pelo escritor cearense José de Alencar, em seu livro
intitulado "Iracema".
O Ceará fez parte do Estado do Maranhão e Grão-Pará em 1621. Foi ainda
invadido duas vezes, em 1637 e 1649, pelos holandeses que ocupavam a região
onde hoje se encontra o Estado de Pernambuco, mantendo-se a ele subordinado até
conquistar sua autonomia, em 1799.
O desenvolvimento da pecuária em Pernambuco e na Bahia levou criadores a
ocuparem o interior do Ceará. As vilas foram se formando junto às grandes fazendas
ou nos pontos de descanso das tropas vindas do sul.
Na primeira invasão holandesa ao Ceará, em 1637, o interesse pela região
decorria do desejo de encontrar sal e âmbar2. A segunda invasão holandesa,
comandada por Matias Beck em 1649, tinha o objetivo de explorar a prata, que se pensava, existia no monte Itarema, serra do Maranguape. Eis um depoimento da
época com relação aos solos e riquezas cearenses:
A terra arenosa é ruim, imprópria para o plantio da cana-de-açúcar, sem madeiras e outras coisas de proveito. Há lugares onde se encontra sal, mas de péssima qualidade. Quanto ao âmbar-gris, tudo não passa de exagero dos índios, pois até então somente logramos ver quatro pedrinhas que mal pesam três onças. Agradamos os cablocos, porém eles nunca trazem o tal âmbar, embora afirmem percorrer as praias à sua procura (SAMPAIO, 1971:31).
Quando os holandeses invadiram Pernambuco, muitas famílias fugiram para o
Ceará, fixando-se, principalmente, no vale do Jaguaribe, onde se dedicaram ao
cultivo das terras e à criação do gado.
No início do século XVIII, o comércio do Ceará, ou Siará Grande, limitava-se à
venda de gado de corte, com vistas a atender o consumo local, aproveitando o couro
artesanalmente. Como o negócio do rebanho vivo não foi lucrativo, transformou-se o
gado em carne-seca, ou melhor, nas charqueadas.
O negócio do charque trouxe para a Capitania transformações econômicas,
sociais e políticas, além de possibilitar o encontro do homem do litoral com o
sertanejo. Assim surgiram os novos núcleos urbanos, além de impulsionar os
mercados interno e externo. Os centros que mais se destacaram nesse período
foram Aracati e Sobral, chegando a concorrer com Fortaleza, o centro administrativo da Capitania.
Aracati, próximo à foz do rio Jaguaribe, ponto de saída da produção, tornou-se
importante pelo preparo e exportação da carne de charque, sendo denominada
pulmão da economia cearense. Os ganhos com o comércio da carne e do couro levaram Aracati a prover o resto da Capitania de fazendas e objetos de luxo.
Sobral destacou-se como grande coletor de algodão e matérias-primas. De
outro lado, a exportação de carne, couro e sola possibilitou a importação de
pratarias, porcelanas, cristais, móveis de jacarandá, materiais de construção, entre
outros, contribuindo para sua suntuosidade.
Crato, com condições climáticas mais favoráveis, voltou-se à cultura da
cana-de-açúcar.
A partir de 1799, o Ceará, que já havia sido jurisdição do Maranhão e de
Pernambuco, torna-se independente, o que o faz comercializar diretamente com Portugal.
A partir da segunda metade desse século, a cultura do algodão rompe o
exclusivismo pastoril e vai se tornar a principal atividade econômica, em razão,
Em fins do século XVIII, termina o poderio da carne seca cearense. Concorreram para esse fim as duas grandes secas ocorridas no Estado, em 1777-78
e em 1790-93 - que praticamente dizimaram os rebanhos - além da concorrência do
charque gaúcho.
O Estado começou a se desenvolver na segunda metade do século XIX, com
a chegada da navegação a vapor, das estradas de ferro, da iluminação a gás e do
telefone. Foi a primeira província brasileira a libertar os escravos, em 1884, e
também uma das primeiras a aderir à República.
A projeção cearense no mercado internacional deu-se a partir da exportação
do algodão e seu auge aconteceu com a Revolução Industrial Inglesa, ainda naquele
século, quando os tecidos ingleses passam a ter o algodão como matéria-prima em
substituição à lã e ao linho. Esse comércio inseriu a capitania cearense na divisão
internacional do trabalho:
De início era só a pecuária, entra em cena o algodão. Daí o binômio gado-algodão, que criou as bases da organização do espaço. Tudo era gado... era couro... até que o algodão sai do Ceará para o mundo, por Fortaleza, que se foi firmando como o grande centro urbano, consolidando sua função de capital do Estado, sede do poder, resultado da integração do Ceará à economia nacional, que se deu durante o período da internacionalização da economia capitalista ( ORIÁ, JUCÁ, 1998:11, apud SOUSA, s/d).
Foi também com o algodão, com fibra considerada de boa qualidade,
resistente e de bom comprimento, que o porto de Fortaleza tornou-se mais
desenvolvido, ainda que sob bases muito precárias, pois esse produto apresentava
os maiores preços do mercado internacional, em razão da interrupção da remessa
norte-americana à Inglaterra, por conta da Guerra da Secessão entre em 1861-65.
Nessa época, também se destacaram o açúcar, couro e café brasileiros no comércio
exterior.
O desenvolvimento dos meios de transporte e as estradas que se abrem de
Fortaleza para o interior e litoral asseguraram o escoamento da produção além de
consolidar a capital como verdadeiro centro político, econômico e social da
com o pólo de comércio de gado. A partir de 1808, com a chegada da Família Real
Portuguesa, o Ceará não só atendia à demanda por produtos de Portugal como
também de outras nações. Dessa forma, o Ceará-colônia desenvolveu-se a partir da
expansão das fazendas de gado. E, mesmo com o desenvolvimento da lavoura
algodoeira, a pecuária extensiva não desapareceu.
Um costume da época era a quarta , divisão dos bezerros nascidos entre o
proprietário da terra e o vaqueiro na proporção de quatro para um, melhorando as
condições de vida do vaqueiro que cultivava plantas de ciclo curto – milho, feijão e
mandioca - por constituírem colheita rápida, embora extremamente frágil. Essa
agricultura permitia apenas a subsistência da família do agricultor ou vaqueiro,
mantendo, todavia, a situação de pobreza vigente, segundo NEVES (2000).
Na segunda metade do século XIX, o Ceará foi alvo de algumas modificações
sociais e econômicas, especialmente na área urbana, quando Fortaleza se consolida
como centro político-econômico do Estado, com razoável infra-estrutura. No campo,
destaca-se o período áureo da cotonicultura local, ainda que também se
destacassem outros produtos, como o café, a cera de carnaúba e a borracha de
maniçoba.
A partir de 1850, as terras passam a ser valorizadas como um bem
econômico, através da Lei de Terras, quando começa efetivamente a retirada das
tribos indígenas de seus aldeamentos.
Em 1909, com a criação do IOCS (Inspetoria de Obras contra as Secas),
posteriormente DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra as Secas),
inicia-se a prática da agricultura irrigada ainda que com pequena dimensão técnica e
econômica.
Até a década de 1960, a economia cearense dependia quase que
exclusivamente da criação de bovinos, ovinos e caprinos (pecuária extensiva); da
produção de feijão, milho e mandioca (agricultura de subsistência); algodão
(agricultura comercial); além da castanha de caju e carnaúba, especialmente
além do fator climático, o fato de a maior parte do Estado estar inserida na região
denominada de Polígono das Secas, com uma estrutura fundiária concentrada, base
técnica rudimentar e uma oligarquia agrária reacionária, conforme ELIAS, SAMPAIO
(op.cit.).
Após a década de 1970, tem destaque a criação da Empresa Brasileira de
Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER) e suas correlacionadas
estaduais, as empresas estaduais de assistência técnica e extensão rural
(EMATER’s); e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), que
conta hoje com 42 centros de pesquisa espalhados por todo o Território nacional,
dois dos quais localizados no Ceará: Município de Sobral, o Centro Nacional de
Pesquisa de Caprinos (CNPCa), especializado em caprinocultura e ovinoprinocultura;
e em Fortaleza, o Centro Nacional de Pesquisa de Agroindústria Tropical (CNPAT),
especializado na agroindústria tropical, e hoje direcionado para toda a cadeia
produtiva da fruticultura. Outro órgão muito importante na modernização da
agropecuária cearense foi a extinta Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará
(EPACE), que junto com a Embrapa, obteve importantes avanços no melhoramento
genético, manejo cultural, pós-colheita e processamento do caju.
A década de 1980, embora marcada por um cenário macroeconômico
desfavorável, que se refletiu em redução nos gastos públicos, impulsionou o setor
agropecuário a partir da criação de dois grandes programas para o Nordeste: o
Programa Nacional de Aproveitamento Racional de Várzeas Irrigáveis
(PROVÁRZEAS), em 1981, e o Programa de Financiamento para Equipamentos de
Irrigação (PROFIR), em 1982. Esses programas eram voltados para a irrigação
privada, enquanto o DNOCS encarregava-se da irrigação pública (ELIAS, SAMPAIO,
op.cit.)
No plano local, criou-se o Programa de Valorização Rural do Baixo e Médio
Jaguaribe (PROMOVALE), uma espécie de programa estadual do PROVÁRZEAS. O
PROMOVALE apoiou a irrigação privada nas várzeas dos rios Jaguaribe, Quixerê e
Banabuiú. Outra ação importante foi a criação do Ministério Extraordinário para
Nesse contexto, o Ceará, que tradicionalmente baseou sua economia no
extrativismo vegetal, pecuária extensiva e agricultura de subsistência, com
pouquíssimo destaque na divisão do trabalho agropecuário do País, busca, a partir da
reestruturação de sua produção, os tão almejados aumentos de produtividade e
competitividade exigidos pelo novo padrão do mercado globalizado.
Essa tendência de pólos agroindustriais, baseados em produtos de alto valor
agregado, tem na fruticultura tropical voltada para a exportação de frutas frescas e
processadas (sucos e polpas) uma possível solução para a crise de produção advinda
da agricultura semi-árida. Nesse sentido, salienta-se a importância da criação do
Programa de Apoio e Desenvolvimento da Fruticultura Irrigada no Nordeste, em 1997.
Destaca-se o papel das duas secretarias estaduais que atuam no sentido do
promover essa reestruturação produtiva na agropecuária cearense, conforme ELIAS,
SAMPAIO (op.cit.):
a) a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), criada em 1987, que atualmente
estáàs voltas com a construção de açudes, incluindo o Castanhão, o maior de toda a
história do Ceará, que terá grande impacto sobre a agropecuária, agroindústria e
piscicultura cearenses;
b) a Secretaria de Agricultura Irrigada (SEAGRI), criada em 1999, voltada para
a articulação do agronegócio e da agricultura irrigada no Estado, sendo seu principal
projeto o Programa Cearense de Agricultura Irrigada (PROCEAGRi), envolvendo seis
agropólos: Ibiapaba, Baixo Acaraú, Metropolitana de Fortaleza, Baixo Jaguaribe,
Centro-Sul Cearense e Cariri. Essas regiões foram escolhidas com base em seu
potencial hidroagrícola.
Mas a década de 1990 e o início do século XXI também foram marcados pelo
encolhimento de importantes órgãos públicos. A antiga Secretaria de Estado da
Agricultura e de Abastecimento - SAAb tinha a ela vinculados diversos órgãos, como
a EMATERCE, EPACE (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará), FUNCEME
Desenvolvimento Agropecuário), ITERCE (Instituto de Terras do Ceará), IDACE
(Instituto de Desenvolvimento Agrário do Ceará) e CEASA-CE (Companhias de
Abastecimento do Ceará). A FUNCEME fora transferida para a SRH; já a CEPESCA,
CODAGRO, e ultimamente, a EPACE foram extintas. Com toda essa reestruturação
estadual, a sociedade privou-se de alguns benefícios, como as pesquisas de
melhoramentos tecnológicos do feijão macassar e mandioca realizadas pela EPACE
e que hoje não têm continuidade porque não fazem parte do objeto de estudo da
EMBRAPA (AEAC, 2001).
Atualmente, a agropecuária cearense apresenta a seguinte distribuição
espacial, de acordo com ELIAS, SAMPAIO (op.cit.): a) litoral – cultivo do caju, coco e
algumas outras frutas, b) Região Metropolitana – destaque para a avicultura; c)
serras úmidas – predomina a horticultura; d) sertão – predomínio da pecuária, além da
produção de milho, feijão e mandioca.
1.2 Breve Histórico das Secas no Ceará
As secas cearenses e nordestinas sucedem-se, freqüentemente, em períodos
de aproximadamente 1 a 3 anos. Quando severas, essas secas registram casos de
até 3 anos consecutivos. Nesses períodos, além da fome, as pestes epidêmicas
constituem em grandes males, muitas vezes matando mais do que a própria fome.
A ausência absoluta de chuvas caracteriza a seca total; já a ausência parcial
de chuvas assinala a seca parcial ou repiquete, ou ainda, seca verde. O clima
semi-árido, característico do chamado Polígono das Secas, é um entrave para a
consolidação das atividades econômicas cearenses, que se tornam extremamente
vulneráveis.
Ao longo do tempo, contudo, a falta de chuva constituiu um sério problema
para as colheitas e para a pecuária, que era levada para outra área onde o pasto
pudesse ser preservado. Os trajetos migratórios eram muito árduos e, muitas vezes,
as reses morriam nos caminhos, exaustas, com fome e sede, onde as estradas se
Também as pessoas saem do campo em tempos muito secos em busca da Capital, onde chegam famintas, debilitadas e desnutridas (NEVES, op.cit.:81):
No semi-árido, a produção inteiramente destruída, os moradores consomem suas últimas sementes e, aos poucos, mas numa onda irresistível, vão deixando para trás seus casebres e suas terras arrendadas. Saem famintos de seus lares e começam a vaguear pelos caminhos e estradas em busca de auxílio. O caminho da capital cedo transformar-se-á na única opção para a sobrevivência: os moradores das fazendas de criar transformam-se em retirantes.
Para amenizar os efeitos nocivos sobre a Cidade, o Governo selecionava
alguns locais no próprio meio rural, onde homens, mulheres e crianças trabalhavam
arduamente em troca da comida.
Além de Fortaleza, havia desses locais em Crato, Cariús, Quixeramobim, Ipu e
Senador Pompeu. Neles, exigia-se muita disciplina e adaptação às novas formas de
convívio social: vida e banheiros comuns, rigidez nos horários, hábitos de higiene
pessoal e vacinação, entre outros.
Os trabalhadores rurais agora tinham que conviver com as ordens de
engenheiros, chefes de seção e feitores, dedicando-se apenas a um tipo de atividade
durante todo o dia. Esse sistema funcionou até 1933. Há que se lembrar ainda da
indústria da seca que, numa relação direta com as verbas concedidas, possibilitava
desvios, favorecimentos, usos políticos etc.
Atualmente, comunga-se com a idéia de que a seca é um fenômeno climático e
social. Entretanto, já havia diversos enfoques sobre a problemática das secas.
SOUZA, MEDEIROS FILHO (1983) explicitam os três principais:
a) enfoque tradicionalista – visão fatalista da seca, corroborada pela
repetida experiência de secas, analfabetismo da população e uso de
tecnologias arcaicas. O misticismo é usado tanto para explicar a situação
da seca como para a busca de soluções para seu desaparecimento;
b) enfoque tecnicista – a seca decorre de irregularidades das precipitações
e das populações rurais. Com esse enfoque, surge o IOCS (posteriormente
DNOCS);
c) enfoque sócio-político – encara o fenômeno, sobretudo, como problema
estrutural, em razão do colapso na agricultura de subsistência e de
exportação, na desarticulação do processo de acumulação e pela
desagregação das famílias e aglomerados humanos, quando nesse
período faltoso de chuvas.
Segue-se a evolução das principais secas que assolaram o Ceará, de acordo
com os dados da SUDENE apud VIEIRA, MAYORGA (2002) e SAMPAIO (1971).
Há registros de pavorosas secas desde o século XVI, quando pereceram
criaturas humanas e animais, lavouras e pastagens.
As secas, desde a criação do IOCS, passaram a ser combatidas através da
criação de um sistema de barragens, açudes e poços para acumular água,
podendo-se utilizá-la, posteriormente, em tempos de escassez, no que se convencionou
chamar de solução ou fase hidráulica.
Em 1903, registra-se uma grande seca, quando ocorreu a perda total das
lavouras. Em 1906, é criada a primeira grande obra hídrica do Ceará, o Açude do
Cedro e seu primitivo sistema de irrigação. Em 1910, são instalados os postos
hidrométricos, para medir vazão, no rio Jaguaribe, em Lavras da Mangabeira e no rio
Palhano, em Russas.
Em 1915, evidenciou-se um ano terrível de seca. A partir desse período, os
retirantes passaram a ser chamados de flagelados , porque a irregularidade das
chuvas passou a ser vista como um flagelo que açoita a população cearense
periodicamente.
Em 1932, a seca trouxe assaltos, saques e depredações. Abrangeu uma área
até hoje ressequida com seus efeitos. Em 1936, fica determinado por lei que a zona
afetada pelo fenômeno climático da seca denominar-se-á Polígono das Secas .
Em 1942, a seca acontece em plena campanha contra o nazi-facismo e a
mandá-los para a ocupação da Amazônia, numa campanha nacional denominada
Batalha da Borracha .
Nessa última seca, foram realizados novos alistamentos para os trabalhos nas
obras do Governo, obras essas de qualidade muitas vezes duvidosa, uma vez que
alguns açudes se desfaziam logo após as primeiras chuvas.
A seca de 1951-53 levou o Governo a intervir mais uma vez na região, uma
vez que só em 1953 o percentual de perda da safra agrícola foi superior a 30%. Com
a perda de fé na solução hidráulica, passou-se à idéia de que a Região necessitava de
novos elementos, especialmente, de recursos financeiros para o fortalecimento da economia.
Na seca de 1958-59, a produção agropecuária ficou quase paralisada. Ocorreu
desemprego em massa e invasão das cidades pelos flagelados. A Hospedaria
Getúlio Vargas, construída para receber 1.200 pessoas, acolheu cerca de 11.000
retirantes. O momento político era bem delicado, com a campanha pela Reforma
Agrária, agitações das Ligas Camponesas, atividades do clandestino Partido
Comunista.
A pesca foi liberada nos açudes públicos e particulares para qualquer pessoa;
todas as terras de vazantes foram aproveitadas; foi permitido o acesso de qualquer
pessoa a quaisquer meios de abastecimentos de água para uso doméstico (poços,
açudes particulares e públicos); muitas frentes de trabalho foram abertas; houve
distribuição de vacinas, medicamentos, leite e farinhas alimentícias; foi implantada
assistência médico-odontológica junto à população carente.
Em 1962 a seca aumentou o número de invasões nas cidades. Novas frentes
de trabalho foram abertas e carros-pipa foram adquiridos para abastecer a população
afetada pela falta de água. Em 1964 foram criados programas de irrigação.
Em 1970, mais intervenções do Governo. Isso porque, nessa seca, a perda da
safra agrícola foi da ordem de 59%. Dessa vez, buscou-se a reorientação da
agricultura para o mercado, procurando modificar tanto sua estrutura agrícola como o
A seca de 1972 afetou somente parte do Estado, o Sertão dos Inhamuns e
parte do Cariri. A partir daqui, passou-se a aproveitar o trabalho dos agricultores dentro das propriedades rurais, em lugar das frentes de trabalho tradicionais; ou seja,
trabalhos para o agricultor no próprio lugar de morada.
A seca de 1976 acarretou frustrações de cerca de 52,1% para culturas
alimentares e cerca de 64,9% para culturas industriais, conforme VIEIRA,
MAYORGA (2002). Mais uma vez, contou-se com distribuição de medicamentos,
vacinação e assistência médica, mas só para os trabalhadores alistados. A população
recebeu gêneros alimentícios. Foram realizados trabalhos como construção e
conservação de estradas, construção e melhoramentos de açudes, além de fossas
sépticas, calçamentos e ampliações em prédios públicos. Também foi concedida
prioridade para o Programa de Irrigação
Com a seca de 1978-83, as políticas assistencialistas do Governo mudaram
de nome: frentes de emergência , bolsões da seca , frentes de serviço , mas
continuaram com o mesmo propósito – atividades árduas, temporárias e mal
remuneradas. Mas a SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste)
também implantou algumas políticas com vistas a apoiar o pequeno produtor e tornar
suas economias semi-áridas menos vulneráveis. Essa seca foi considerada a maior
dos últimos cem anos, havendo-se perdido 90% da safra de grãos.
Em 1983, foram detectados casos de pelagra (doença associada à
subnutrição) nos sertanejos das frentes de serviço. Nesse ano, a agricultura, a
pecuária, avicultura e derivados da produção animal, extrativismo vegetal, produção
vegetal e pesca, conjuntamente, apresentaram um decréscimo de 68,1% da produção
agropecuária. Já o setor de serviços apresentou uma redução de 0,3% e a indústria
cresceu 22,6%, segundo VIEIRA, MAYORGA (op.cit.).
Nesse ano, o Cariri, considerado oásis do Ceará , foi consideravelmente
afetado pelo fenômeno, com grandes fábricas fechando e uma população de
flagelados de cerca de 1 milhão de pessoas. Todo o Estado foi afetado,
excetuando-se Fortaleza como área não crítica para efeito de programas de absorção de mã
Em 1987, a seca atingiu 600 mil famílias no Ceará. Considerada como seca
verde, já que a paisagem não ficara tão seca, por conta das poucas chuvas que
caíram, perdeu-se grande parte da produção e o desemprego também foi em massa,
necessitando de mais um programa emergencial do Governo. Foram construídos
canais de irrigação e hortas comunitárias.
Em 1992, o Ceará mais uma vez está em estado de calamidade pública: fome,
sede e desemprego. Os carros-pipa são insuficientes para abastecer a população e o
gado morre de sede. A fome leva os flagelados a comerem todo tipo de animais e,
como não bastasse, ainda sofrem a perseguição do IBAMA (Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). Os deslocamentos se dão em
transportes rodoviários, em lombos dos animais e até mesmo a pé. O Governo
intervém através da distribuição de água e implementação de frentes de serviço.
No ano seguinte, é registrada uma das piores secas da região. Apesar disso,
obtém-se uma safra 57,16% superior à conseguida durante a seca de 1983. Neste
ano, 1993, é construído o Canal do Trabalhador, com o objetivo de evitar o colapso
do abastecimento de água em Fortaleza.
Em 1997, o Estado evidencia um dos piores verões dos últimos anos: ausência
de caça do mato, falta de crédito nas mercearias, água encontrada nos poços é
salgada, plantações irrigadas interrompidas, escolas rurais fechadas, êxodo rural,
mendicância. Todo o Ceará é afetado, mas a situação é mais crítica nos Sertões
Cearenses. São distribuídas cestas básicas, abastecimento de água via carros-pipa,
aberturas de frentes de serviço e a criação dos chamados terraços verdes3 .
Com as denúncias de genocídio por parte das entidades de direitos humanos
e Igreja Católica, a partir da década de 1980, o Governo foi responsabilizado pelas
milhões de mortes das vítimas do flagelo da seca, que poderiam ter sido evitadas,
conhecidas que são a sua periodicidade.
Dessa forma, pode-se delinear os efeitos nocivos da seca da seguinte forma:
destruição das colheitas, migrações descontroladas, fome, miséria e desnutrição,
conflitos sociais, saques, corrupção, manipulação política, e tantos outros males.
Assim, apesar de ser um fenômeno climático, também é um fenômeno social, e se
não há formas de combatê-lo, de certo haverá maneiras de convívio com ele, a partir
da transformação da vulnerabilidade econômico-social a que essas populações estão
expostas.
1.3 As Políticas Públicas e a Agricultura Cearense
No Brasil-colônia a agricultura brasileira não se consolidou como um setor
econômico propriamente dito, já que as lavouras tinham caráter nômade e
extrativista. Até então predominavam a grande lavoura e a agricultura de
subsistência como práticas de cultivo. A agricultura de subsistência constituiu-se
numa atividade secundária à grande lavoura de exportação. Esta, por sua vez,
apresentava técnicas de cultivos bem primitivos, consistindo quase que numa
agricultura extrativista.
O cultivo do café deslocou o centro econômico do Nordeste para o Sudeste do
País. As condições para a lavoura do café eram mais favoráveis em todos os
sentidos: mais investimentos, principalmente em infra-estrutura de transportes; solos
férteis e mão-de-obra abundante, em razão da chegada dos imigrantes europeus.
Esses fatores, entre outros, levaram o Brasil a se tornar o maior produtor e
exportador mundial de café nesse período, o que lhe deu uma certa autonomia sobre
os preços.
A agroindústria canavieira tornou-se arcaica demais, comprometendo a
competitividade no mercado internacional, restringindo-se a épocas de elevação da
demanda ou dos preços externos. Outras culturas que tiveram alguma importância no
século XIX foram o algodão herbáceo e o cacau.
No século XX, as relações de troca dos produtos agropecuários tornaram-se
mais complexas, ou seja, não se fizeram mais diretamente entre produtores e
consumidores, sendo intermediadas por outros agentes e instituições, conforme
Com a idéia de que o atraso nordestino frente ao resto do País decorria do
clima semi-árido, em que a característica marcante é a ausência de chuvas por
períodos prolongados, o Governo inicia um conjunto de ações na Região.
Assim, tem-se, em 1909, a criação do IOCS (Inspetoria de Obras Contra as
Secas), posteriormente IFOCS (Inspetoria Federal de Obras Conta as Secas),
destinado a atuar no semi-árido, a partir da concepção de que a irregularidade das
chuvas provocada pela seca dificultava a agricultura e o abastecimento das cidades.
Posteriormente, em 1945, esse órgão foi transformado em DNOCS (Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas).
O primeiro período do DNOCS, denominada de fase hidráulica, enfocava a
acumulação de água para a solução de todos os problemas enfrentados com as
secas. Atualmente, sua área de atuação cobre todo o Polígono das Secas, ou seja,
abrange os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
Alagoas, Sergipe, Bahia e parte do norte de Minas Gerais.
No início da década de 1930, é criado o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA)
para defender a atividade açucareira no Nordeste.
Em 1948, é criada a Comissão do Vale São Francisco (CVSF), passando
posteriormente, em 1967, para Superintendência do Vale do São Francisco
(SUVALE) e para Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco
(CODEVASF).
Em 1952 surge o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), um instituto federal
localizado no Nordeste e voltado para os problemas locais. Essa instituição tinha por
objetivos: a) financiamento para indústrias e empresas agropecuárias; b) crédito de
longo prazo para obras de infra-estrutura física; c) realização de estudos e pesquisas
sobre os problemas da região; d) treinamento de pessoal para a região e para o
próprio banco.
A partir do relatório emitido pelo GTDN (Grupo de Trabalho para o
Desenvolvimento do Nordeste), em 1959, sob a orientação de Celso Furtado, surge a
industriais, para possibilitar a expansão manufatureira; b) transformar a economia
agrícola da faixa úmida para abastecer de alimentos os centros urbanos; c)
transformação progressiva das zonas semi-áridas, elevando a produtividade e
tornado-as mais resistentes ao impacto das secas; d) deslocar a fronteira agrícola do
Nordeste para as terras úmidas do hinterland maranhense, que estariam em
condições de receber os excedentes populacionais criados com a reorganização do
semi-árido.
A partir de então, surge a idéia de que o subdesenvolvimento local não é
conseqüência exclusiva das condições climáticas e o desenvolvimento,
necessariamente, deveria ocorrer através da industrialização, como relata SIMPLÍCIO
(1985). Encerra-se a fase hidráulica e a ênfase agora é no melhor aproveitamento dos
recursos. A SUDENE deveria atuar, mais especificamente, nas áreas consideradas
como vazios demográficos , ou seja, regiões do Maranhão e Amazônia, com o intuito
de desafogar as regiões com inchaço de população.
Para tal, foram criados o Programa de Integração Nacional (PIN) e o Programa
de Redistribuição de Terras e Incentivos à Agricultura do Norte e do Nordeste
(PROTERRA), respectivamente em 1970 e 1971. Ambos tentaram minorar os efeitos
das secas tanto no Ceará como em todo o Nordeste.
O PIN deveria abrir as portas para a conquista da Amazônia, absorvendo
assim parte do excedente demográfico da zona semi-árida nordestina. Além disso,
deveria oferecer as condições necessárias para o aumento da produção e da
produtividade da agricultura nas áreas submetidas aos processos de irrigação e
colonização, conforme REN apud VIEIRA, MAYORGA (s/d).
O PROTERRA tinha por objetivos: a) redistribuição da terra, através de
aquisição de terras para serem vendidas a pequenos e médios agricultores, custeio
de legalização das terras e empréstimos para pequenos e médios produtores rurais,
tanto para aquisição como para ampliação das terras; b) modernização agrícola,
através da assistência financeira, subsídios para aquisição de insumos agrícolas
modernos e garantia de preços mínimos para estimular o produtor; c) recursos
Nacional) e até do Exterior. Esse programa deveria atuar em Pernambuco, Paraíba,
Ceará, Piauí e Maranhão.
Em 1973, foram criados outros órgãos voltados ao desenvolvimento do setor
rural, como as comissões estaduais de planejamento agrícola (CEPA’s); a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA); a Empresa Brasileira de
Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER) e suas correlacionadas
estaduais, as Empresas Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural
(EMATER’s).
Em 1974 surge o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do
Nordeste (POLONORDESTE) com o objetivo de apoiar o pequeno produtor, melhorar a infra-estrutura rural, transformando a agricultura tradicional em comercial, mediante o emprego de insumos modernos, com vistas a elevar a produtividade
agrícola. Contou com apoio do Banco Mundial (BIRD) e do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID). Posteriormente, esse programa iria transformar-se no Programa de Apoio ao Pequeno Produtor (PAPP).
Em 1976, o Programa Especial de Apoio ao Desenvolvimento da Região
Semi-Árida do Nordeste (PROJETO SERTANEJO) surgiu com o objetivo tornar o
semi-árido mais resistente às secas, através do consórcio entre a agricultura irrigada e a
agricultura de sequeiro, com ações que freassem o fluxo migratório e fornecessem
alimentos aos grandes centros urbanos.
Todos esses programas foram fundamentados nos planos nacionais do Governo federal. Em seguida, ainda surgiram o Programa de Aproveitamento de
Recursos Hídricos do Nordeste (PROHIDRO), em 1979, e o Programa Especial de
Apoio às Populações Pobres das Zonas Canavieiras do Nordeste (PROCANOR).
Este último era voltado para a oferta de serviços básicos (água, saneamento, energia
elétrica, assistência médica e dentária, educação e habitação), de acordo com
SIMPLÍCIO (op.cit.).
O PROHIDRO deveria proporcionar a utilização mais racional das águas no
instalação de poços particulares; perenização de rios; e concessão de recursos
financeiros aos estados para compra de perfuratrizes.
Em 1982, surge o Projeto Nordeste, que previa a execução dos seguintes
programas, segundo VIEIRA, MAYORGA (op.cit.):
a) Programa de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (PAPP) – ação integrada de
terra, água, crédito rural, assistência técnica, pesquisa adaptada, apoio à
comercialização e às comunidades;
b) Programa de Irrigação;
c) Programa de Apoio a Pequenos Negócios Não Agrícolas;
d) Programa de Educação no Meio Rural;
e) Programa de Ações Básicas de Saúde no Meio Rural; e
f) Programa de Saneamento Básico no Meio Rural.
Em 1986, surge o Programa de Integração das Ações Comunitárias
(PROURB); em 1987, o Programa de Açudagem em Cooperação (PRONAN); em
1988, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura Irrigada às Margens
de Rios e Reservatórios (PROMAR).
Em 1995, a CODEVASF propõe um projeto de desenvolvimento voltado para
o semi-árido nordestino e o Vale do São Francisco, com o objetivo de aumentar a
oferta hídrica através de obras de regulamentação de alguns afluentes do São
Francisco e captação de bacias vizinhas para garantir o funcionamento do sistema
de reservatórios interligados por 3.700 quilômetros de canais, conforme VIEIRA,
MAYORGA (op.cit.).
Nesse mesmo ano, surge o Projeto São José, encampando as ações do
PAPP, no intuito de frear o fluxo migratório, com incentivos de ocupação e renda.
Em 1998, surgem diversos programas e ações menores, que também visam a
minorar os efeitos da seca na região:
a) Programa Comunidade Solidária – distribuição de cestas básicas;
b) Programa de Alfabetização Solidária – aprendizado profissionalizante;
d) perfuração de poços, instalação de dessalinizadores, construção de
barragens sucessivas e pequenas barragens subterrâneas, construção de
açudes e instalação de adutoras;
e) frentes de serviços e distribuição de cestas básicas;
f) construção do canal de integração Pacoti-Riachão – com a finalidade de
manter a regularidade do abastecimento de água em Fortaleza, sendo
considerada a maior estação de bombeamento de água do Nordeste.
Além dos investimentos diretos do Governo, esses programas e ações
contaram com o apoio de instituições como a Cáritas Regional, a Pastoral da Criança
e o Comitê de Oferta de Águas para o Abastecimento - formado pela Secretaria de
Desenvolvimento Urbano (SDU)/Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE)
e Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH)/Companhia de Gerenciamento dos
Recursos Hídricos (COGERH).
É importante contextualizar a economia cearense considerando também a
estrutura macroeconômica nacional e assim frisar as políticas do País que se
refletiram na agricultura brasileira e, por conseguinte, na cearense, ao longo desse
período. Na segunda metade da década de 1960, surgiram as políticas de crédito
rural e garantia de preços mínimos, bastante utilizadas na década de 1970 e início
dos anos de 1980, conforme DIAS, AMARAL (2001).
Entretanto, o esquema de subsídios e preços relativos, artificialmente criados
pelo Governo, privilegiou a produção de alimentos em detrimento dos produtos de
exportação, inibindo a vocação natural exportadora da agricultura. Assim, alguns
produtos como algodão, soja, milho, arroz e trigo tiveram a produção efetiva abaixo
da esperada.
Na década de 1970, ainda havia o sistema de substituição de importações de
insumos agroindustriais, como tratores, fertilizantes, equipamentos mecânicos etc. A
substituição desses insumos deu-se com taxas de juros subsidiadas e programas de
sustentação de preços mínimos financiados pelo Governo federal.