Transcrição da Entrevista
Entrevistadora: Valéria de Assumpção Silva Entrevistada: Professora Cátia
Local: Núcleo de Arte Av dos Desfiles Data: 23.08.2012
Horário:
Duração da entrevista: 1h.
Bom, profa Cátia. Dia 23 de Agosto de 2012. A professora Cátia trabalha na 1ª CRE no Núcleo de Arte do Sambódromo, Avenida dos Desfiles. Cátia, fale um pouco sobre sua formação e experiência na dança?
A minha formação foi prática, de vida prática! Tive uma mestra e trabalhei com ela dez anos, como bailarina dela e depois bailarina solista. E fui para alguns festivais fora do Brasil. E tive uma vida muito prática da dança. Depois eu cursei Artes Cênicas e eu trouxe a dança para o trabalho de teatro, sabe? Então, até o começo do trabalho no teatro ele contém toda a técnica de dança.
Quanto tempo você leciona no núcleo de arte? Quanto tempo você entrou lá?
No núcleo de arte eu estou há 1 ano e no casarão desde 2008.
Até 2011, né? Então são 3 anos.
São quase quatro anos nesse tipo de estrutura.
Em relação às orientações técnico-pedagógicas que foram distribuídas pela Extensividade, você teve acesso? A Extensividade distribuiu um livro de orientações para os professores dos núcleos para trabalharem as Expressões de cada área, entendeu? Tem para a dança, para o teatro e tal. Você teve acesso a esse material alguma vez ou não?
Eu tive acesso ao material das Artes Cénicas.
Das Artes Cênicas, tá. E você acha que eles te ajudam no seu trabalho no núcleo?
COR PRETA - Relatos do Entrevistado
COR VERDE - Comentários da Entrevistadora
Sim, ajuda! Não é baseado nele não, mas sim ajuda.
De alguma forma, né? É você quem pinça, você pinça aquilo que te serve. Mas é bacana, é bacana que exista, é bacana ter sim.
Percepção sobre comunidade local e clientela quanto ao envolvimento e apoio dos projetos envolvidos no espaço do núcleo de arte? Você acha que a comunidade envolve com os projetos desenvolvidos no núcleo? Preciso saber dessa relação.
Você sempre tem aqueles alunos, que são os alunos mais comprometidos e aqueles alunos que estão ali por estarem ali, sabe? Os que estão ali por estarem ali, não têm comprometimento dos pais, não. Aquele aluno que chega atrasado, aquele aluno que falta, os pais não são compromissados. Aquele aluno que tem um compromisso o pai, a mãe, a família tem um compromisso com o espaço, é visível, sabe? É uma realidade.
*Eu sei que o Sambódromo é numa região muito central. Que tem uma comunidade assim próxima. Eu gostaria de saber se há participação da comunidade local nos eventos do núcleo de arte? O núcleo de arte realiza eventos e convida a comunidade, entendeu? Ou é só uma coisa muito família e além do núcleo?
Existe a participação da família compromissada nos eventos que ocorrem no Núcleo.
Os eventos fora Núcleo é apenas para os alunos. A família que participa é a família interessada e comprometida com o aluno seja no Núcleo ou na escola.
(tirar toda essa)Acho que falta isso! Bem, eu acho que a comunidade não tem porque na escola já tem, né? A escola, com a gratuidade de ensino, já tem toda essa visão dessa família na comunidade escolar. Se a família não estiver a educação não vai, e a Arte é diferente! A gente está falando de Arte e Educação. A Arte não é diferente disso não, e não tem! Os eventos que existem, tem aulas de dança, tem mostras de teatro, tem essas exposições, o que tem não é essa mobilidade dos pais É realmente impressionante, geralmente são os alunos trabalhando o pai acompanhante, né?
A sua opinião da relevância da linguagem das artes ao longo dos anos no núcleo ? Você passou pelos dois núcleos como você me disse. Você acha que a linguagem da dança é forte? Ela tem uma relevância grande dentro dos núcleos?
Sem dúvida, sem dúvida, talvez seja a mais forte, mais do que teatro, mais do que a música, tem muita procura. Você acha? porquê?
Tem procura, tem procura mesmo, tem procura...
Mas por que é que as pessoas procuram a dança?
Porque é que elas procuram a dança? Porque está ali, né? É mais forte a dança! Tá na cultura. É, porque acaba beneficiando esse corpo, mesmo esse corpo que não dança, que nunca dançou, mas que tem aquele sonho de dançar e tem a sua própria dança, né? Sobretudo, quando você coloca aquelas meninas da comunidade para dançar, né?(suspiro) Tem um DNA, né? A dança está ali no DNA, é tudo muito rápido. Já a
música é mais difícil! Já é difícil ter uma voz afinada, né? Já é mais difícil ter um instrumento, ter dinheiro para comprar o instrumento. Na dança, o seu instrumento é o corpo, então o corpo eles têm. Você pode dançar mesmo sem a técnica, então eles tem! E vejo a procura é intensa, pela dança. E da dança eles vão vendo as outras linguagens e vai aprendendo, vendo a outra linguagem, o teatro, a música e vai se interessando.
*Você tem alguma metodologia de trabalho ou estratégia de Ensino na dança, desenvolvida no seu trabalho para estimular os alunos? Como é que é a sua forma de trabalhar?
Tenho sim! Eu tenho um...é porque a gente separa muito, né? O Ocidente separa dança, teatro, o canto, não, aí vem outras culturas que é junto. O corpo é a voz, a dança é a interpretação, isso tudo com base na técnica... Eu misturo, eu misturo, então na minha aula tem um aquecimento muito técnico que é Técnica Martha Graham que é a minha referência na dança. Então eu dou um aquecimento super técnico, os meus alunos, tem a técnica, sabe? Tem a técnica ali, desse momento corporal técnico, eu vou para a voz! E daí então para as improvisações e nas improvisações vem a música. E das improvisações vem o texto, mas a base é o corpo, é a técnica de dança.
Você tem a percepção de que a dança pode ser considerada um factor de inclusão social das populações socialmente desfavorecidas? Nas comunidades por exemplo, você percebe?
Sem duvida, sem duvida!
*Fala um pouquinho disso aí, de que forma você consegue enxergar isso? Perceber isso? A dança como Inclusão Social?
O que é bacana nesse contexto, é que você pega a criança que não tem acesso ao espetáculo de dança, que não vê espetáculo de teatro, que não tem acesso à Arte, isso é que é bacana, né? Que não tem acesso à Arte, a única referência é a televisão. Ai vem todas as críticas a esse veículo que deseduca. E chega ali, naquele lugar, naquele espaço, ali ela pode jogar o que ela tem e ela vai aprender, o que ela não tem. E ela vai começar a se tornar plateia também e a começar a estar em cena e a ter uma plateia, e ela vai começar a se sentir estabilizada porque ela tem e ela está aprendendo o que não tem. Então ela está nos dois lugares. Então ela vira plateia e vira o artista né? O aluno artista só pelo facto, de ele estar nesses dois lugares, de aluno-artista e sendo aluno-plateia. Pronto, já é fator para se sentir, sabe? Pertencente a algo e importante a algo também.
E você tem de acordo com as suas experienciam, tem visto alunos se transformarem?
Tem visto a mudança?
O primeiro lugar que trabalhei foi na Ação da Cidadania, num projeto que na época tinha o Betinho, Maurício de Andrade que era presidente do projeto. Eu trabalhei aqui em Santa Teresa, com crianças da Coroa, né? Com todas as crianças que estão no
Sambódromo hoje, que estão nas escolas públicas dessa região. E um monte dessas crianças, viraram artistas. Estão em televisão, estão em companhias de teatro e era uma loucura! Porque eu sou professora de filhos de alunos que foram alunos nessa época (risos).
Então há mesmo! Você consegue transforma-los por meio da dança como uma forma profissional, né? Ela já se capacita né? Se transforma...
Não é nem para isso, ...a dança na educação não é nem para isso, mas pode ter essa possibilidade acaba sendo porque tem talentos, né? Não vou negar, temos talentos, e tem uns talentos! Nossa!
Você pode falar sobre transformações corporais, cognitivas, sociais e afetivas dos alunos que te marcaram ao longo dos anos? Um histórico assim de alguma criança ou assim de um transformação assim a nível comportamental? Vários alunos, principalmente….é porque eu vejo, como eu moro no lugar que eu trabalho entendeu?
Eu vejo né? Os alunos agora estão trabalhando, que têm filhos, então (interrupção do telefone) é essas transformações corporais muito é muito devido a essa transformação porque as crianças por mais que tenham a sua própria dança, todos nós temos a nossa própria dança, elas chegam muito contraídas, ela são contraídas, não sei porquê, talvez apanhem muito, sabe? Elas têm uma tensão.
Uma tensão é.
Uma tensão, uma contração muscular, uma contração nossa! E depois no tempo de aula, né? Já é outro corpo, um corpo livre, um corpo solto, mais relaxado. E isso vai se repercutir na vida pessoal desse meninos, são mais meninas mesmo que procuram a dança, meninos dessas comunidades eles têm muito preconceito, né? Então, ainda têm. No incorporar é incrível. E isso deve refletir na vida, né!
E no afetivo?
No afetivo também, aí você vê...agora vou te dar um exemplo recente. São 3 irmãs que são da mesma turma, pequenininhas, com um corpo que toda professora adora para trabalhar a dança, talentosas, mas muito, muito, muito fechadas e tinham coisas na aula que não faziam, ficavam num canto e até meio que desafiavam, sabe? Porque achava aquilo feio de fazer. Enfim, ai você vai conquistando no afeto, aquele corpo você conquista no afeto, aquele corpo te responde e depois de abraço, de beijo de carinho, aí ela vai te demonstrando afeto, e aí esse corpo vai funcionando na aula. Ai, vai entrando, vai entrando na aula, você já vê aquela pessoa diferente, aquele corpo aberto, um corpo bem colocado, encaixado né? E feliz também porque era uma coisa fechada, fechada, atravancado e no semblante diferente, é uma coisa, é assim impressionante a diferença delas. Esses três imãs. Elas estão lá há 3 meses, com outras crianças.
*Você teve algum tipo de experiencia no núcleo, nos núcleos com alunos com deficiência? como é que foi isso para você? Se você teve.
Sim, e muito gratificante. Estiveram em cena em mostra no espaço e no palco do Teatro Carlos Gomes.Foram dois alunos, presentes nas aulas, nunca faltavam. Eram adultos, mas a idade mental era de criança, gostavam de estar ali. Papéis simples como o garçon numa coreografia de festa e um guarda que procurava por outro personagem.
Sem cobranças ou expectativas a base da relação é o afeto.
*Você tem percepção de que alunos conseguem resolver na dança, laços de amizade, de parceria, de cooperatividade entre si? Ou não esse processo ainda é muito difícil?
Têm “clãs” ou funcionam em grupos?
Tem uma competitividade natural, sabe? Porque é um grupo heterogéneo, os grupos são heterogéneos, tem aqueles que têm facilidades, tem aqueles que têm mais dificuldade, tem aqueles que são mais esforçados né? É um grupo heterogéneo, e existe uma natureza de competição, está ali. Então é o professor é que tem que assim, arrancar a raiz dele sabe? E se consegue, se consegue fazer com que prevaleça o trabalho em equipe, a ajuda mútua naquela atmosfera, naquele ambiente, naquele momento de paz, naquele momento de aula, e aí é o professor, aí é o professor, o educador, né? Que não é só o professor não, tem que ser com o olhar do educador, o olhar do educador de tá arrancando essa competitividade negativa e puxando essa competitividade com trabalho de equipe que pode funcionar. E que vira um grande corpo, que vira essa consciência, né? Que todo o mundo está aí, mas está sendo um corpo só, isso a gente consegue, tem que estar com esse olhar, o mundo não está dizendo isso não, o mundo diz outra coisa diz “pisa no teu colega, tudo errado” (risos).
Eles vêem com isso, eles vêem com isso é o (...)
Você acha que o trabalho desenvolvido nos núcleos ele ajuda de certa forma à inclusão do ser integrante na comunidade local ou em trabalhos formais ou informais? Ou seja uma inserção mesmo na sociedade ?
Não sei não sei ...mas é uma boa pergunta.
Você não tem ideia dos seus alunos? Eles percebem isso pelos alunos. Fala deles. Por exemplos alunas que eu tive que falam que eram descriminadas na comunidade.
Porque faziam aula?
Não, não o problemas já delas já com pessoas da comunidade.
Tinha antes e depois e eu fazia a perguntava se a relação se modificou e elas diziam não. Para alguns não modifica para outras meninas modifica, esse contato aqui dentro faz transformação é tão interna que dali ela vai para a comunidade de uma outra forma, né?
Ela está com uma auto-estima mais poderosa, mais ativa, agora se isso tem efeito real na vida mesmo, é algo para lá de interessante saber.
Mas trabalhos formais e informais isso acontece, você comentou aqui que tem uns alunos que estão inseridos hoje no mercado de trabalho
São inseridos no mercado de trabalho.
Você tem percepção de que a dança pode promover transformações corporais e psicossoais aos praticantes das atividades nos núcleos de arte, das diferentes faixas etárias?
Transformações corporais, sem dúvida, psicossociais, acho que sim, acho que sim.
Acho que sim, porque essa criança que dá continuidade, né? Não aquela que entra que sai, aquela que dá continuidade, ela modifica, ela modifica, ela modifica para melhor é fato. Mas aí se transforma corporal e em psico, sim acredito que haja assim, se transforma.
Você tem algum comentário para fazer em relação...sei lá sobre alguma coisa que falar um pouco mais sobre esse assunto?
Acho que é muito importante este trabalho, de existir, no contraturno, nesse espaço, nesse lugar que é fora de escola, sabe? Vejo a dança como o carro chefe das outras linguagens artísticas. Vejo que tem resultado concreto, tem resultado, tem resultado na escola, as crianças melhoram na escola.
E na relação dela com a família, se isso modifica?
Eu não vejo a criança na família, mas eu vejo a família que tem essa criança lá chegando orgulhosa com essa criança. Como é para a criança, eu sabe? Não sei, mas a família sim, a família chega orgulhosa, dessa criança que está ali, que deu continuidade, que está dando continuidade. É um grande estímulo, é tratar elas com trabalho de formiguinhas, sabe? Tratar com forminguinhas, o tempo que estudei lá, prá já o resultado é incrível. Foram 7 anos de trabalho, no Ação da Cidadania entraram pequenininhos e saíram de lá adolescentes, já muitos já estão no mercado de trabalho.
Nesse projeto que deu certo, os pais ficaram muito envolvidos, sabe? E, tinha até pais em cena, nossa! E faz toda diferença essa participação.
Muito Obrigada!