AMÉLIA DOS SANTOS ROCHA DIREITO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA FÍSICA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL.

Texto

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DIREITO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA FÍSICA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL.

Belo Horizonte 2014

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AMÉLIA DOS SANTOS ROCHA

DIREITO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA FÍSICA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL.

Monografia apresentada ao curso de Direito da Faculdade Minas Gerais – FAMIG, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Marcos de Oliveira Vasconcelos Júnior

Belo Horizonte 2014

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DIREITO DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA FÍSICA: UMA ABORDAGEM CONSTITUCIONAL.

Aprovada em ____________ de _____________ de ____________.

BANCA EXAMINADORA

Professor Ms.

Orientador – Faculdade Minas Gerais - FAMIG

Professor Ms.

Membro da Banca – Faculdade Minas Gerais - FAMIG

Professor Ms.

Membro da Banca – Faculdade Minas Gerais - FAMIG

Belo Horizonte 2014

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DEDICATÓRIA

Dedico esta monografia ao meu filho Lucas, pela compreensão com minha ausência durante todo este tempo.

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Quero agradecer, еm primeiro lugar, а Deus, pela força е coragem durante toda esta longa caminhada.

À minha família, pela capacidade dе acreditar еm mіm.

Аоs amigos е colegas, pelo incentivo.

E a minha amiga Joseane Lopes, pelo apoio constante durante todo o curso.

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ROL DE SIGLAS

a.c.: antes de Cristo

CORDE: Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.

OIT: Organização Internacional do Trabalho p: página

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INTRODUÇÃO ... 10

CAPÍTULO I: A DEFICIÊNCIA FÍSICA NO CONTEXTO HISTÓRICO DA HUMANIDADE. 1. Evolução Histórica ... 11

1.1. Deficiência física na Roma Antiga ... 11

1.2. Deficiência Física na Grécia Antiga ... 12

1.3. Deficiência Física no Antigo Egito ... 14

1.4. Deficiência Física na Idade Média ... 14

1.5. A Revolução Industrial e mercado de trabalho ... 17

CAPÍTULO II: DEFICIÊNCIA 2. Conceito ... 19

CAPÍTULO III: EVOLUÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL 3. Leis que regulam e resguardam os direitos do deficiente ... 21

3.1. Constituição Federal de 1988 ... 21

3.2. Lei nº 7.853, de 29 de outubro de 1989 ... 22

3.3. Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990 ... 22

3.4. Lei nº 8.213, de 25 de julho de 1991 ... 22

3.5. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 ... 22

3.6. Portaria nº 4.677, de 29 de julho de 1998 ... 22

3.7. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999... 22

3.8. Lei nº 10.048, de 8 de novembro de 2000 ... 23

3.9. Decreto nº 3.691, de 19 de dezembro de 2000... 23

3.10. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000 ... 23

3.11. Decreto nº 3.956, de 8 outubro de 2001 ... 23

3.12. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 ... 23

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CAPÍTULO IV: OS DIREITOS DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIA FÍSICA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL

4. Direitos sociais e Direitos fundamentais ... 25

CAPÍTULO V: O DIREITO A IGUALDADE E DIGNIDADE NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

5. Os princípios ... 31

CAPÍTULO VI: INCLUSÃO DA PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA FÍSICA NA SOCIEDADE BRASILEIRA

6. Inclusão Socioeconômico ... 34

CONCLUSÃO...37

REFERÊNCIAS...38

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O presente trabalho aborda o tema dos direitos existentes para as pessoas com deficiência física, demonstrando de uma forma geral garantias e direitos que os mesmos possuem. Abordam-se, também, os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, e a inclusão das pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho. Este tema é muito relevante dentro do ordenamento jurídico pelo fato de serem analisados direitos fundamentais dados a todas as pessoas, direitos estes advindos de Leis, Decretos, Convenções e Tratados, que podem e devem diminuir muito as formas de preconceito e discriminação. Chegou-se, então, a uma conclusão com este trabalho no sentido de que existem no ordenamento jurídico proteções, garantias e direitos assegurados às pessoas com deficiência física, mas para que esses direitos sejam colocados em prática faz-se necessário o interesse dos governantes para alcançar a efetividade desses direitos.

Palavras-chave: Deficiência física. Dignidade da pessoa humana. Igualdade.

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ABSTRAT

This paper addresses the existing rights for people with physical desabilities, demonstrating a general guarantees and rights that they have. It addresses also the principles of equality and human dignity, and inclusion of persons with disabilities in the labor market. This theme is very relevant within the legal system because it is considered fundamental rights given to all people, rights arising from these laws, decrees, conventions and treaties, which can and should greatly reduce the forms of prejudice and discrimination. Then we have reached a conclusion with this paper in the sense that there are protections in law, warranties and rights guaranteed to persons with physical disabilities, but that these rights are put into practice, it is necessary for the interest of the rulers achieve the effectiveness of these rights.

Keyword: physical disability. Dignity of the humankind. Equality.

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INTRODUÇÃO

Trata-se o presente trabalho de uma pesquisa bibliográfica com base nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade. Tais princípios constituem os direitos imprescindíveis do cidadão.

A Constituição em seu texto normativo utiliza-se do princípio da isonomia e não especifica a quem os direitos devem atingir. É preciso esclarecer que tais direitos não integram um rol taxativo e, enquanto direitos e garantias individuais, são cláusulas pétreas.

Os portadores de deficiência física são indivíduos e, portanto, detentores dos mesmos direitos arrolados ao longo da Constituição.

Nesse viés, o objetivo precípuo é analisar os direitos da pessoa portadora de deficiência física a partir da Constituição Federal e sua real efetivação.

O trabalho foi dividido em seis capítulos. O primeiro trata da deficiência física no contexto histórico da humanidade. O segundo trata do conceito de deficiência. O terceiro, da evolução dos direitos sociais no Brasil. O quarto capítulo trata dos direitos da pessoa portadora de deficiência física na Constituição Federal. O quinto fala sobre o direito a igualdade e dignidade no estado democrático de direito e o sexto capítulo trata da inclusão socioeconômica da pessoa portadora de deficiência física na sociedade brasileira.

Enfim, pretende-se com este trabalho, verificar a efetividade dos direitos da pessoa portadora de deficiência física, sua inclusão na sociedade e apresentar a dignidade da pessoa humana como principal fator desses direitos.

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I. A DEFICIÊNCIA FÍSICA NO CONTEXTO HISTÓRICO DA HUMANIDADE:

EVOLUÇÃO HISTÓRICA.

Ao longo da história da humanidade, o que definiu o comportamento e a ótica da sociedade no tocante à deficiência física dependeu consideravelmente da mentalidade religiosa e de instrumentos normativos ausentes nos vários períodos desta história. Neste capítulo, será abordado como os povos antigos concebiam a realidade da deficiência física, tema desta análise.

1. Evolução Histórica

1.1. Deficiência Física na Roma Antiga

De acordo com Otto Marques da Silva (1987, p.6), pessoas com deficiência receberam dois tipos de tratamento quando se observa a História Antiga e Medieval:

a rejeição e eliminação sumária, de um lado, e a proteção assistencialista e piedosa, de outro. Na Roma Antiga, tanto os nobres como os plebeus tinham permissão para sacrificar os filhos que nasciam com algum tipo de deficiência.

Diferentemente da Grécia Antiga e do Egito, no que diz respeito a pessoas com deficiência, não é fácil localizar referências precisas sobre o tema na Roma Antiga, mas existem citações, textos jurídicos e mesmo obras de arte que aludem a essa população. Assim como ocorria em Esparta, o direito Romano não reconhecia a vitalidade de bebês nascidos precocemente ou com características “defeituosas”.

Entretanto, o costume não se voltava, necessariamente, para a execução sumária da criança (embora isso também ocorresse). De acordo com o poder paterno vigente entre as famílias nobres romanas, havia uma alternativa para os pais: deixar as crianças nas margens dos rios ou locais sagrados, onde eventualmente pudessem

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ser acolhidas por famílias da plebe (escravos ou pessoas empobrecidas), registra Silva (1987, p.130).

Segundo Silva:

[...] cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidos com má formação eram também, de quando em quando, ligados a casas comerciais, tavernas e bordéis; bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes.

Tragicamente, esta prática repetiu-se várias vezes na história, não só em Roma.(SILVA, 1987, p. 130).

Assim, a utilização comercial de pessoas com deficiência para fins de prostituição ou entretenimento das pessoas ricas manifesta-se, talvez pela primeira vez, na Roma Antiga.

1.2. Deficiência Física na Grécia Antiga

Já em Esparta, os bebês e as pessoas que adquiriam alguma deficiência eram lançados ao mar ou em precipícios. Todavia, segundo Otto Marques da Silva, (1987, p. 234) em Atenas, influenciados por Aristóteles – que definiu a premissa jurídica até hoje aceita de que “tratar os desiguais de maneira igual constitui-se em injustiça” – os deficientes eram amparados e protegidos pela sociedade.

Otto Marques da Silva (1987, p. 234) descreve inúmeros episódios e/ou referências históricas aludindo ao contingente de pessoas com deficiência. O primeiro deles diz respeito à constatação de que sempre existiram na História indivíduos com algum tipo de limitação física, sensorial ou cognitiva.

Em assim sendo, Otto Marques da Silva afirma:

[...] anomalias físicas ou mentais, deformações congênitas, amputações traumáticas, doenças graves e de consequências incapacitantes, sejam elas de natureza transitória ou permanente, são tão antigas quanto a própria humanidade.(SILVA, 1987, p. 236)

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Entende-se, então, que em todo o tempo da historia da humanidade sempre houve pessoas que nasceram com alguma limitação ou durante a vida deixaram de andar, ouvir ou enxergar. Infelizmente, por muito tempo, a existência destas pessoas foi ignorada por um sentimento de indiferença e preconceito nas mais diversas sociedades e culturas, mas elas, de uma forma ou de outra, sobreviveram.

Na Grécia Antiga, particularmente em Esparta, cidade-estado cuja marca principal era o militarismo, as amputações traumáticas das mãos, braços e pernas ocorriam com frequência no campo de batalha. Dessa forma, identifica-se facilmente um grupo de pessoas que adquiriu uma deficiência e permaneceu vivo. Por outro lado, o costume espartano de lançar crianças com deficiência em um precipício tornou-se amplamente conhecido por aqueles que estudaram este tema numa perspectiva histórica, entende Silva (1987, p. 24).

Otto Marques da Silva (1987, p. 24) descreve que de acordo com registros existentes, de fato, o pai de qualquer recém-nascido das famílias conhecidas como homoio (ou seja, “os iguais”) deveria apresentar seu filho a um Conselho de Espartanos, independentemente da deficiência ou não. Se esta comissão de sábios avaliasse que o bebê era normal e forte, ele era devolvido ao pai, que tinha a obrigação de cuidar dele até os sete anos; depois, o Estado tomava para si esta responsabilidade e dirigia a educação da criança para a arte de guerrear. Nas palavras do referido autor:

No entanto, se a criança parecia “feia, disforme e franzina”, indicando algum tipo de limitação física, os anciãos ficavam com a criança e, em nome do Estado, a levavam para um local conhecido como Apothetai (que significa

“depósitos”). Tratava-se de um abismo onde a criança era jogada, “pois tinham a opinião de que não era bom nem para a criança nem para a república que ela vivesse, visto que, desde o nascimento, não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida”. Esta prática deve ser entendida, naturalmente, de acordo com a realidade histórica e social da época. É claro que hoje nos parece algo repugnante e cruel, mas na cidade-estado de Esparta, no ano de 400 a.C., tal conduta “justificava- se” para o bem da própria criança e para a sobrevivência da república, onde a maioria dos cidadãos deveria se tornar guerreiros. (SILVA, 1987, p. 24).

Em outros estratos sociais que não os homoio, a restrição supra referida não ocorria, podendo haver a sobrevivência de uma criança “defeituosa”, como no caso dos periecos, dedicados aos trabalhos da lavoura e do gado, diz Silva (1987, p. 130).

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1.3. Deficiência Física no Antigo Egito

A partir de 2.500 a.C., com o aparecimento da escrita no Egito Antigo, há indicativos mais seguros quanto à existência e às formas de sobrevivência de indivíduos com deficiência. Dentre os povos da chamada História Antiga, os egípcios são aqueles cujos registros são mais remotos.

Os remanescentes das múmias, os papiros e a arte dos egípcios apresentam-nos indícios muito claros não só da antiguidade de alguns “males incapacitantes” como também das diferentes formas de tratamento que possibilitaram a vida de indivíduos com algum grau de limitação física, intelectual ou sensorial, conforme afirma Silva (1987, p. 21).

A Escola de Anatomia da cidade de Alexandria, que existiu no período de 300 a.C.

citada por Silva (1987, p. 21), informa que nela ficaram registros da medicina egípcia utilizada para o tratamento de males que afetavam os ossos e os olhos das pessoas adultas. Existem até passagens históricas que fazem referência aos cegos do Egito e ao seu trabalho em atividades artesanais.

Ainda segundo Otto Marques da Silva, (1987, p. 23) foram as famosas múmias do Egito que permitiam a conservação dos corpos por muitos anos, possibilitaram o estudo dos restos mortais de faraós e nobres do Egito que apresentavam distrofias e limitações físicas, como Sipthah (séc. XIII a.C.) e Amon (séc. XI a.C.). Dada a fertilidade das terras e as diferentes possibilidades de trabalho, não é difícil imaginar alternativas para ocupação das pessoas com deficiência no Egito Antigo.

1.4. Deficiência Física na Idade Média.

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O período conhecido como Idade Média, entre os séculos V e XV, de acordo com Junior e Kutiansky apud Carvalho1 (2010, p. 107), traz algumas informações e registros (preocupantes) sobre pessoas com deficiência. Continuaram a existir, na maioria das vezes controlada e mantida por senhores feudal, local para o atendimento de doentes e deficientes.

As referências históricas enfatizam, porém, o predomínio de concepções místicas, mágicas e misteriosas sobre a população com deficiência. Junior e Kutiansky apud Carvalho2 (2010, p. 107) frisam que o crescimento dos aglomerados urbanos ao longo desse período criou dificuldades para a manutenção de patamares aceitáveis de higiene e saúde. Durante muitos séculos, os habitantes das cidades medievais viveram sob a permanente ameaça das epidemias ou doenças mais sérias.

As incapacidades físicas, os sérios problemas mentais e as malformações congênitas eram considerados, quase sempre, como sinais da ira divina, taxados como “castigo de Deus”.

Na concepção de Junior e Kutiansky apud Carvalho3 (2010, p. 107), a própria Igreja Católica adota comportamentos discriminatórios e de perseguição, substituindo a caridade pela rejeição àqueles que fugiam de um “padrão de normalidade”, seja pelo aspecto físico ou por defenderem crenças alternativas, em particular no período da Inquisição nos séculos XI e XII.

Doenças como a hanseníase, peste bubônica, difteria e outros males, muitas vezes incapacitantes, disseminaram-se pela Europa Medieval. Muitas pessoas que conseguiram sobreviver, mas com sérias sequelas, passaram o resto dos seus dias em situações de extrema privação e quase que na absoluta marginalidade.

Junior e Kutiansky apud Carvalho4 (2010, p. 108) destacam que no final do século XV, a questão das pessoas com deficiência estava completamente integrada ao contexto de pobreza e marginalidade em que se encontrava grande parte da

1 Apud Junior e Kutiansky

2 Apud Junior e Kutiansky

3 Apud Junior e Kutiansky

4 Apud Junior e Kutiansky

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população, não só os deficientes. É claro que exemplos de caridade e solidariedade para com eles também existiram durante a Idade Média, mas as referências gerais desta época situam pessoas com deformidades físicas, sensoriais ou mentais na camada de excluídos, pobres, enfermos ou mendigos.

Outrossim, a Idade das Trevas não teve esta denominação sem motivos. Com o cristianismo cego a frente do poder de tudo, as restrições ao conhecimento por quase toda sociedade foi a principal característica desta época, na qual a ignorância da sociedade é de assustar até hoje nos livros de história e filmes. O olhar sobre o físico também sofreu alterações e ainda hoje se encontra presente no imaginário social, principalmente devido às influências do pensamento religioso, conforme afirma Junior e Kutiansky apud Carvalho5 (2010, p. 108).

Segundo Carvalho (2010, p. 108), a justificativa utilizada para discriminar os deficientes físicos era a de que Espíritos malignos e demônios foram as principais respostas da época para aquelas pessoas que não se encaixavam na sociedade da época.

Carvalho (2010, p. 109), entende que o surgimento do termo "Diabo" também contribuiu ainda mais para esta perseguição, pois contribuiu para o famoso fator histórico desta época, a temível inquisição das bruxas. Milhares de mulheres foram julgadas e queimadas nas lendárias fogueiras da Espanha até a Itália. Muitos padres católicos que também eram os juízes acreditavam que a deficiência era aplicada pelas bruxas nos infiéis.

Junior e Kutiansky apud Carvalho6 (2010, p. 109) registram que outros sofrimentos suportados pelos deficientes físicos nesta era negra foram às humilhações em público: muitos festivais medievais expunham estas pessoas como aberrações, submetendo-as à ridicularização pública.

Carvalho (1985, p. 109) aduz que com o advento do renascimento e o início da transição do sistema feudal, os deficientes físicos começaram a tornar-se um

5 Apud Junior e Kutiansky

6 Apud Junior e Kutiansky

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problema de saúde pública, pois a igreja fiscalizadora e conservadora começavam a perder seu poder de persuasão perante grande parte da sociedade.

Neste período de revoltos golpes e conflitos deparam-se com a famosa Revolução Francesa, que derrubou o sistema feudal e instalou os famosos princípios franceses de Liberté, Egalité e Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) descritos por Rousseau, mudando radicalmente o olhar sobre cada cidadão da época.

1.5. A Revolução Industrial e o Mercado de Trabalho

Segundo Sérgio Pessotti (1984, p. 72), com a Revolução Industrial o panorama da concepção de deficiência muda um pouco seu foco, considerando que esse período retrata um processo de transformações econômicas e sociais, caracterizadas pela aceleração do processo produtivo e pela consolidação da produção capitalista, abrindo caminho para o processo de produção em série, que exige a escolarização em massa de seus trabalhadores.

Surge, então, uma nova parcela da população que passou a ser considerada menos eficiente, ou seja, deficiente, aqueles que não conseguiam aprender conforme as normas escolares instituídas, segundo informa Sérgio Pessotti (1984, p. 73).

Com a Revolução Industrial surge o modelo de caracterização da deficiência como questão médica e educacional, direcionando os portadores de deficiência a viver em conventos e hospícios ou até mesmo o ensino especial (criou-se nesse momento histórico o modelo do paradigma da institucionalização do indivíduo, mantido segregado e com vínculo permanente com a instituição), conforme entende Pessotti (1984, p. 77).

Ainda para Pessotti (1984, p. 77), vários inventos se forjaram com o intuito de propiciar meios de trabalho e locomoção aos portadores de deficiência, tais como a cadeira de rodas, bengalas, bastões, muletas, coletes, próteses, macas, veículos adaptados, camas, móveis, criação do Código Braille por Louis Braille para deficientes visuais.

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Notadamente, as respostas da Revolução Francesa deram origem à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão e à Revolução Industrial, que transformou significativamente os modos e meios de produção do trabalho para o operariado.

Direitos obtidos no tocante á liberdade, igualdade e autonomia da pessoa humana coadunaram em propiciar garantias e direitos para o reconhecimento da importância do ser humano, independente de suas limitações e restrições, como pessoa, dando às mesmas acesso aos diversos setores do mercado de trabalho.Insta afirmar que ainda há muito a evoluir, ou seja, a sociedade contemporânea tem muito a conquistar em relação aos direitos e garantias individuais da pessoa.

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II. DEFICIÊNCIA

2. Conceito

De acordo com o Decreto n.º 3298/99, que regulamenta a Lei n.º 7853/1989, deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano, podendo ser permanente ou não, conforme afirma Linamara Rizzo Battistella, (2005, p. 5).

Segundo Linamara Rizzo Battistella:

[...] por deficiência permanente, o mesmo decreto regula que é aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos. (BATISTELLA, 2005, p. 5)

O parágrafo 1º do artigo 4° do referido Decreto considera as seguintes deficiências:

pessoa portadora de deficiência, deficiência física, deficiência auditiva, deficiência visual e deficiência mental.

[...] a deficiência tida como incapacidade, ou seja, uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida. (BATTISTELLA, 2005, p. 5)

Segundo o Decreto n.º 914/1993 artigo 3º, deficiente físico é o indivíduo que apresenta comprometimento da capacidade motora, nos padrões considerados normais para a espécie humana. Pode ser definido como uma desvantagem, pois resulta de uma incapacidade, que limita ou impede o desempenho motor de uma determinada. Senão, vejamos:

[...] pessoa portadora de deficiência é aquela que apresenta, em caráter permanente, perdas ou anormalidades de sua estrutura ou função

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psicológica, fisiológica, ou anatômica, que gerem incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano. (BRASIL, 1993)

Os tipos de deficiência física são: a hemiplegia, que é a paralisia da parte direita ou esquerda do corpo, a paraplegia, que é a paralisia dos membros inferiores, ou seja, das pernas, e a tetraplegia que é a paralisia dos quatro membros, sendo assim dos braços e perna.

De acordo com as convenções brasileiras para a saúde (BRASIL, 2006, p. 22), várias podem ser as causas da deficiência física: pré-natais, como problemas durante a gestação; perinatais, ocasionadas por problemas respiratórios na hora do nascimento; pós–natais, tais como parada cardíaca, infecção hospitalar, doenças infecto-contagiosa, traumatismo ocasionado por queda forte, assim melhor esclarecido:

Paralisia Cerebral: por prematuridade; anóxia perinatal; desnutrição materna; rubéola; toxoplasmose; trauma de parto; subnutrição; outras;

Hemiplegias: por acidente vascular cerebral; aneurisma cerebral; tumor cerebral e outras; Lesão medular: por ferimento por arma de fogo; ferimento por arma branca; acidentes de trânsito; mergulho em águas rasas.

Traumatismos diretos; quedas; processos infecciosos; processos degenerativos e outros; Amputações: causas vasculares; traumas;

malformações congênitas; causas metabólicas e outras; Febre reumática doença grave que pode afetar o coração; Câncer; Miastenias graves (consistem num grave enfraquecimento muscular sem atrofia). (BRASIL, 2006, p. 22).

Segundo Vygotsky (2004, p. 233), um defeito ou problema físico, qualquer que seja sua natureza, desafia o organismo. Assim, o resultado de um defeito é invariavelmente duplo e contraditório. Por um lado ele enfraquece o organismo, mina suas atividades e age como uma força negativa. Por outro lado, precisamente porque torna a atividade do organismo difícil, o defeito age como um incentivo para aumentar o desenvolvimento de outras funções no organismo; ele ativa, desperta o organismo para redobrar atividade, que compensará o defeito e superará a dificuldade.

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III. EVOLUÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL

O Brasil é detentor da legislação mais completa da Ibero-América na área de apoio às pessoas portadoras de deficiência. De acordo com Andreia Matilde Bottamedi (2004, p. 48), “destacam-se especificamente, os textos referentes ao acesso ao emprego, deixando clara a importância da preparação para o trabalho com vistas ao engajamento das pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho nacional”. Todas as construções legislativas, referentes a este assunto, fundamentadas na Carta Magna, estruturam-se no princípio da igualdade.

[...] a conceituação de pessoa portadora de deficiência, no âmbito jurídico, é importante para fins da compreensão e aplicação das leis dirigidas a essa parcela da população. A pessoa portadora de deficiência física é uma pessoa e desta forma se enquadra no conceito jurídico como tal, sendo sujeito de direitos e obrigações, é então cidadão. (BOTTAMEDI, 2004, p.

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Os direitos sociais estão elencados no artigo 6º da Constituição Federal de 1998 e em conjunto com os direitos fundamentais e da ordem econômica resguardam o cidadão e promovem justiça social e bem estar a todos.

3. Leis que regulam e resguardam os direitos dos deficientes

O conjunto de leis que no Brasil orientam, resguardam e efetivam os direitos dos deficientes físicos é farta. Inicialmente, a Carta Magna prevê o tratamento igualitário a todos os cidadãos e diversas outras leis esparsas complementam e normatizam de forma especifica o tema aqui discutido. Senão, veja-se:

3.1. Constituição Federal de 1988 – garante a todos os cidadãos, sem exceção, todos os direitos sociais.

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3.2. Lei nº 7.853, de 29 de outubro de 1989 – saúde, educação e trabalho são os principais aspectos tratados nessa Lei, em relação às pessoas portadoras de deficiência. Criminaliza o preconceito. Conceitua a deficiência como toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano.

3.3. Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990 – trata das vagas para as pessoas portadoras de deficiência nos concursos públicos. Esta Lei vem para resguardar a acessibilidade do portador de deficiência às vagas de trabalho na Administração Pública bem como lhe conferir o direito ao melhor lugar nos termos de suas limitações seja quais forem.

3.4. Lei nº 8.213, de 25 de julho de 1991 – a partir dessa lei, todas as organizações com cem ou mais empregados devem reservar de 2% a 5% de suas vagas para beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência habilitadas.

3.5. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – a lei de Diretrizes da Educação Nacional aborda o ensino regular e o especial, realizando ainda distinções entre ambos.

3.6. Portaria nº 4.677, de 29 de julho de 1998 – organizações com cem ou mais empregados ficam obrigados, a partir desta portaria, do Ministério da Previdência e Assistência Social, a destinar 2% a 5% das vagas para os beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência.

3.7. Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999 – trata da Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Estabelece mais diretrizes em educação, saúde, desporto, trabalho, cultura, lazer, turismo, acessibilidade,

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habilitação e reabilitação profissional e capacitação de profissionais especializados.

Também obriga as organizações com cem ou mais empregados a destinar 2% a 5%

de suas vagas a reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência.

3.8. Lei nº 10.048, de 8 de novembro de 2000 – pessoas portadoras de deficiência têm atendimento prioritário, juntamente com gestantes, lactantes, indivíduos com mais de 65 anos e pessoas com crianças de colo.

3.9. Decreto nº 3.691, de 19 de dezembro de 2000 – delibera sobre o transporte de pessoas carentes portadoras de deficiência. Assegura o passe livre para pessoas carentes portadoras de deficiência, regulamentando a Lei nº 8.899, de junho de 1994 e dispões sobre os cidadãos portadores de deficiência no transporte coletivo interestadual.

3.10. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000 – a promoção de acessibilidade é o tema dessa lei, que estabelece normas e críticas para os setores de transportes, comunicação e sinalização. Garante a eliminação das barreiras de comunicação.

3.11. Decreto nº 3.956, de 8 outubro de 2001 – promulga a Convenção Interamericana para eliminação de todas as formas de discriminação de pessoas portadoras de deficiência – a Convenção de Guatemala.

3.12. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 – Libras – Língua Brasileira de Surdos e outros recursos associados a ela são reconhecidos nessa lei como meios legais de comunicação, informa Andreia Matilde Bottamedi (2004, 50).Mediante esta Lei, o Brasil reconheceu a Língua Brasileira de Sinais/ Libras, por meio da Lei nº 10.436/2002, como a Língua das comunidades surdas brasileiras, que no seu artigo 4º, dispõe que o sistema educacional federal e sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação

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de Educação Especial, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais / Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Os recursos, as facilidades de acesso e as reservas de vagas disponibilizadas para os portadores de deficiência elevam o grau de cidadania dispensado a estes cidadãos.

São cerca de 65 (sessenta e cinco) Leis e Decretos instituídos em prol do deficiente para facilitar, regulamentar e auxiliar a condição de vida deles.

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IV. OS DIREITOS DAS PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIENCIA FISICA NA CONSTITUICAO FEDERAL

4. Direitos Sociais e Direitos Fundamentais

A República Federativa do Brasil fundamenta-se constitucionalmente, entre outros, no princípio da dignidade humana e tem objetivos como a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, e a redução das desigualdades sociais e regionais.

O legislador constituinte de 1988 estabeleceu, assim, as bases axiológicas do Texto Magno, reafirmando o antigo princípio liberal da Revolução Francesa: a igualdade de todos perante a lei (artigo 5º, caput).

Entretanto, conforme entende Cabral (2008), quando o objeto de análise são as pessoas portadoras de deficiência, fica clara a desproporção de acesso aos direitos individuais e sociais ao exercício das suas cidadanias, exigindo-se a presença do Estado.

Segundo Cabral (2008), o resultado da igualdade perante a lei resulta na sua eficácia quando aplicada ao caso concreto. Essa igualdade oportuniza que as pessoas sejam tratadas de modo igualitário, o que impossibilita o privilégio a outros grupos.

Para Cabral (2000), o modelo constitucional brasileiro estabeleceu que a igualdade perante a lei é o que na doutrina geral temos por igualdade na lei, dirigindo-se prioritariamente ao legislador, pois ao juiz caberá, tão somente, sua aplicação ao caso concreto.

Cabral (2008) ressalta:

[...] somente a lei pode desigualar e, quando o faz, objetiva igualar os desiguais, oferecendo-lhes as condições necessárias ao pleno exercício de sua cidadania, visto que tanto se viola o princípio da igualdade quando em situações semelhantes

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recebe o cidadão tratamento diferenciado, como quando pessoas em situações diversas recebem tratamento igual. (CABRAL 2008)

Na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 há, em todos os capítulos que tratam dos direitos do cidadão e dos deveres do Estado, vários artigos referentes aos portadores de deficiência física.

O Ministério Público segundo a Constituição Federal, em seu artigo 127, é o guardião da ordem jurídica, do regime democrático de direito e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Ele atua, entre outras áreas, nos conflitos decorrentes de trabalho, em todos os estados brasileiros, através de seus Procuradores, na promoção dos interesses difusos e coletivos dos trabalhadores.

Há, ainda, legitimidade do Ministério Público para a proteção dos interesses difusos e coletivos da pessoa portadora de deficiência, conforme artigo 129 da Constituição Federal interpreta Andreia Matilde Bottamedi (2004, p. 51).

Não obstante, o Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado em maio de 2003, mostra que o Brasil está entre os países onde o preconceito contra trabalhadores portadores de deficiência e de outras etnias é alarmante, como informa Andreia Matilde Bottamedi (2004, p. 54).

Assim, o artigo 7º, XXXI, integrado no rol dos direitos sociais, referindo-se aos trabalhadores urbanos e rurais, prevê a “proibição de qualquer discriminação no tocante a salários e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência”.

Este inciso reitera o artigo 3º, IV, que estabelece como objetivo da República Federativa do Brasil a “promoção do bem de todos, sem preconceitos e quaisquer outras formas de discriminação”, segundo Benjamim Constant (2004, p. 28).

O artigo 23, II, da Constituição Federal distribui a competência para cuidar da saúde e da assistência pública, da proteção e da garantia das pessoas portadoras de deficiência entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, cabendo ao Poder Público Federal, nos termos da Lei Complementar 7.853/89, conferir-lhes atendimento prioritário e apropriado, a fim de que lhes seja efetivamente

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27

possibilitado o pleno exercício de seus direitos individuais e sociais, bem como sua completa integração social.

Consoante o artigo 24, XIV, a competência da União, dos Estados e do Distrito Federal para legislar sobre a proteção e a integração social das pessoas portadoras de deficiência é concorrente, ensejando maior eficácia nas atribuições da norma anterior. Os municípios não se incluem entre os entes federativos de competência legislativa com tal finalidade.

Também o artigo 37, VIII, ao tratar da Administração Pública, determina que “a lei reservará percentual dos cargos e dos empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de admissão”. Esta norma constitucional encontra-se complementada pela Lei 8.112/90, em seu artigo 5º, § 2º7.

O artigo 203 trata da assistência social aos menos favorecidos e preocupou-se o legislador, tanto no inciso IV, que institui como um dos seus objetivos a habilitação e a reabilitação das pessoas portadoras de deficiência à vida comunitária, como no inciso V, garantindo-lhes um salário mínimo mensal a título de benefício quando comprovarem não possuir meios de se manterem ou for providos por suas famílias.

O artigo 208 reconhece a educação como dever do Estado, assegurando às pessoas portadoras de deficiência atendimento especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.

Inserido no capítulo Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso, o artigo 227 responsabiliza, igualmente, a família, a sociedade e o Estado pelo atendimento dos direitos fundamentais da criança e do adolescente, necessário ao pleno desenvolvimento de sua personalidade, integridade física e perfeita adaptação social, enumerando um rol de prioridades segundo Benjamim Constant (2004, p. 23).

7 “§ 2º Às pessoas portadoras de deficiência é assegurado o direito de se inscrever em concurso público para provimento de cargo cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que são portadoras; para tais pessoas serão reservadas até 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas no concurso.”

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O inciso II do § 1º do referido artigo estabelece para o Estado o dever de promover programas de assistência integral à saúde destas crianças e adolescentes que, portadores de deficiência física, sensorial ou mental, aí se inserem, com o objetivo de promover-lhes: prevenção e tratamento especializado; integração social assegurada através do treinamento para o trabalho e a convivência; a facilitação operacional do acesso aos bens e aos serviços coletivos e a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos.

Ainda, o artigo 244 da Constituição Federal remete à disposição, por força de lei complementar, sobre a adaptação de logradouros, edifícios públicos, veículos de transporte coletivo já existente ao tempo da promulgação da Constituição Federal, a fim de garantir às pessoas portadoras de deficiência o direito constitucional de ir e vir.

A Carta Magna dispõe também que o acesso físico dessas crianças e jovens aos edifícios de uso público será planejado em norma complementar – disposições contidas obrigatoriamente nos Planos Diretores dos municípios com mais de 20.000 habitantes – bem como a fabricação de veículos de transporte coletivo.

Além das normas constitucionais, leis civis promulgadas em todos os níveis federativos vêm ao encontro dos direitos das pessoas portadoras de deficiência, em conformidade com os princípios gerais do direito consagrados em nosso ordenamento jurídico.

As principais leis federais, promulgadas após a Constituição de 1988, são as Leis 7.853/89, a 8.028/90 (que alterou a anterior) e o Decreto 914/93.

O Decreto 914/93 instituiu a política nacional para a integração da pessoa portadora de deficiência, atribuindo à CORDE (Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência) a ampla divulgação desta política.

Quando a Constituição, em seu artigo 208, assegurou a educação especial, determinou que esta será ministrada, preferencialmente, na rede regular de ensino.

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A Lei Complementar 7.853/89 detalhou este atendimento que vai da educação precoce até o 2º grau, a educação supletiva e a que visa à formação profissional, criando-se currículos, etapas e exigências de diplomação próprios, inseridas as escolas no sistema educacional.

A Lei 9.394/96, que estabelece diretrizes e bases da educação nacional, dedicou o capítulo V à educação especial definindo-a como “a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais”.

A Lei 8.742/93, que dispõe sobre a organização da assistência social, reconhecendo-a como direito do cidadão e dever do Estado, tem como um de seus objetivos a habilitação e a reabilitação das pessoas portadoras de deficiência, integrando-as à vida comunitária, e concede o benefício de um salário mínimo mensal quando estes comprovarem não possuir meios de prover a sua manutenção por si ou por sua família.

A Lei supracitada prevê que o critério estabelecido para perceber o benefício é que a renda per capita familiar seja inferior a do salário mínimo e não pode ser acumulado com qualquer outro benefício no âmbito da seguridade social ou de outro regime, salvo o da assistência médica.

O artigo 8º da Lei 7.853/89 tipifica o preconceito contra a pessoa portadora de deficiência com pena de reclusão de um a quatro anos e multa, distribuído em seis incisos, tais como dificultar inscrição de aluno deficiente em estabelecimento de ensino, dificultar acesso a cargo público, negar injustificadamente vaga de trabalho, negar assistência médica, deixar de cumprir ordem judicial expedida na ação civil ou obstar por qualquer forma a sua propositura.

Devido à mobilização em torno da questão das pessoas com deficiência, a Constituição Federal procurou refletir em seu texto a ideia de proteção, garantindo direitos específicos aos portadores como forma de garantir uma igualdade material, e não apenas a igualdade formal explicitada no caput de seu artigo 5º.

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Além da proteção constitucional e infraconstitucional, necessário ressaltar que as pessoas com deficiência contam também com a proteção da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007.

A convenção mencionada foi incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status de emenda constitucional, após ser aprovada nos moldes do § 3º do artigo 5º da Constituição Federal, e é o único tratado internacional de direitos humanos que até hoje foi aprovado com esse quórum.

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V O DIREITO A IGUALDADE E DIGNIDADE NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

5. Os Princípios

O Estado Democrático Brasileiro se pauta na garantia do respeito dos direitos humanos, pelas liberdades fundamentais consagradas mediante proteção jurídica.

Esta proteção surge de dois elementos essenciais do Estado Democrático: Da Democracia e da Representação Política.

A Constituição Federal de 1988, no primeiro artigo, em seu parágrafo único estabelece que: “Todo o poder emanado povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

No texto constitucional brasileiro em vigor, o princípio da dignidade humana é tratado de um lado como fundamento da Constituição Federal de 1988 (artigo 1º) e de outro como princípio fundamental de garantia de direitos humanos (artigo 5º).

Pelo princípio da dignidade da pessoa humana, a “pessoa” é colocada como o fim último da sociedade.

De acordo com José Afonso da Silva (2000, 24), a dignidade da pessoa humana é um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do ser humano, desde o direito à vida.

O princípio da dignidade humana, na concepção atual, designa uma referência constitucional unificadora de todos os direitos fundamentais. Seu conceito obriga a uma densificação valorativa que tenha em conta o seu amplo sentido normativo- constitucional e não uma ideia qualquer do ser humano. Não se pode reduzir o sentido da dignidade humana à defesa dos direitos pessoais tradicionais, esquecendo-a nos casos de direitos sociais, ou invocá-la para construir “teoria do

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núcleo da personalidade” individual, ignorando-a quando se trate de garantir as bases da existência humana, conforme afirma José Afonso da Silva (2000, p. 42).

Desse modo, de acordo com José Afonso da Silva (2002, p. 43) diante de toda a Legislação brasileira no tocante à garantia de igualdade ao portador de deficiência física a começar pelo artigo 170, da Constituição Federal de 1988, também chamada de Cidadã, em seu artigo 193 da ordem social visará à realização da justiça social, do artigo 205 da educação, o desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania, não devem servir apenas como meros enunciados formais, mas como indicadores de conteúdo normativo com eficácia plena da dignidade da pessoa humana.

E, no inciso III do artigo 1º supracitado, a dignidade da pessoa humana está resguardada dito. A afirmativa envolve o direito à igualdade, em todos os aspectos, à pessoa portadora de deficiência física.

Otto Marques Silva (1987) apud Andreia MatildeBottamedi8 (2004, p. 34) entendem que uma sociedade inclusiva exige posturas éticas de respeito à diferença, porém, com bases de igualdade.

Segundo Andreia Matilde Bottamedi (2004, p. 52), a definição de pessoa portadora de deficiência, no âmbito jurídico, é salutar para fins da compreensão e aplicação das leis dirigidas às mesmas.

Teresinha Helena Scheuermann (2011) em seu artigo “A Inclusão do Deficiente no mercado de trabalho” cita Gabriela Nunes Delgado (2011, p. 57) para apresentar a característica de um Estado Nacional que se propõe Democrático, a partir de uma Constituição Federal conhecida também como Constituição Cidadã:

A sociedade democrática é – e tem de ser – uma sociedade includente. A incorporação de todas as pessoas, independente de sua origem, poder e riqueza, à estrutura e à dinâmica do sistema político, econômico, social, e cultural, ainda que desempenhando papéis distintos, é nuclear à ideia e à prática da Democracia.

No plano da vida econômica e da vida social, essa incorporação tem de se materializar por meio de políticas públicas e normas jurídicas, em face de ser o

8 Apud SILVA, Otto Marques

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33

capitalismo incapaz, pelo exercício e dinâmica de suas meras forças de mercado, de realizar semelhante processo inclusivo.

Na sociedade contemporânea a vasta maioria das pessoas vive de rendimentos propiciados por seu trabalho. Nessa medida, a ordem jurídica trabalhista de cada sociedade e de cada Estado pode cumprir, se bem estruturada, a função decisiva de realizar social e economicamente a democracia, concretizando, em boa medida, seu objetivo de permanente inclusão das correspondentes populações.

(DELGADO apud SCHEUERMANN 2011, p. 57)

Consoante Osvaldo Araújo (1994, p. 53) apud Andreia Matilde Bottamedi9 (2004, p.

52), o direito à igualdade surge como regra de equilíbrio dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. Toda e qualquer interpretação constitucional que se faça deve passar, obrigatoriamente, pelo princípio da igualdade.

Preleciona Andreia Matilde Bottamedi (2004, p. 42):

Reconhecer o direito de participar é, efetivamente, garantir oportunidades e acesso a elas, para que interfiram nos procedimentos, decisões e condições que afetam suas vidas. Mas não basta que a pessoa portadora de deficiência comece a trabalhar. É preciso que essa atividade seja apenas um aspecto de uma atuação maior que faça com que tenha o comando da própria vida, tomando decisões sobre o que e quando fazer e assumindo a responsabilidade por essas decisões.(BOTTAMEDI, 2004, p. 42)

De acordo com Osvaldo Araújo (1994) apud Andreia Matilde Bottamedi10 (2004, p.

51), a igualdade deve ser a mola propulsora de aplicação de todo o entendimento do direito do portador de deficiência, e a igualdade formal deve ser rompida diante de situações que, logicamente, autorizem tal ruptura. Pode-se afirmar, então, que a igualdade funciona como regra mestra e superior a todo o direito à inclusão, pois estará sempre presente na própria aplicação do direito.

Assim, compreende-se que o papel desafiador da sociedade é possibilitar o acesso juridicamente garantido ao portador de deficiência física. De nada adiantarão compromissos firmados constitucionalmente através dos legisladores e consequentemente a existência de uma legislação especifica exaustiva neste sentido se não houver a legitimidade das mesmas no acesso aos recursos políticos, econômicos e bens culturais criados para o âmbito social

9 Apud ARAÚJO, Osvaldo.

10 Apud ARAUJO, Osvaldo.

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VI. INCLUSÃO DA PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA FÍSICA NA SOCIEDADE BRASILEIRA

6. Inclusão Socioeconômica

O escopo da inclusão da pessoa portadora de deficiência é uma forma de incluir aqueles que se sentem rejeitados, excluídos, separados, discriminados dos demais.

A inclusão veio para proporcionar um bem estar próprio, por meio do qual os excluídos poderão se sentir mais úteis, importantes para se realizar algo, até mesmo ser incluído no mercado de trabalho, tornando-se mais dignos e realizados. Sendo assim, vive-se com mais dignidade usufruindo daquilo que o direito proporciona.

A inclusão socioeconômica da pessoa portadora de deficiência física hoje em nossa sociedade tornou-se um fator importante, pois é necessário que se tenha acesso a educação, saúde, habitação, inserção no mercado de trabalho, segurança e etc.

Este público muitas vezes é excluído, muitas vezes conseguindo ter apenas o mínimo para sobreviver e contando com ajuda de terceiros e alguns de programas sociais.

Segundo Sassaki (1997, p 43), os dois processos mais importantes para alcançar uma sociedade inclusiva são a integração e a inclusão. O que é normal nos dias de hoje pode provavelmente não ter sido no passado e poderá também não ser no futuro.

Vive-se hoje na sociedade brasileira um momento muito importante para a inclusão da pessoa portadora de deficiência física, pois se sabe que na atual conjuntura eles têm seus direitos garantidos na inserção no mercado de trabalho, no acesso a renda, a educação a saúde, habitação etc., fazendo com que se sintam “cidadãos” e não se sintam excluídos da sociedade.

Preceitua a Lei 8.213/1991, em seu art. 93, que:

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a empresa com 100(cem) ou mais empregados esta obrigada a preencher de 2%(dois por cento) a 5%(cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitados na seguinte proporção:

l até 200 empregados ---2%

ll de 201 a 500 ---3%

lll de 501 até 1000 ---4%

lV de 1001 em diante ---5% (BRASIL, 1991)

Na constituição Federal Brasileira (1998), no art. 37º inciso VIII enfoca que a lei

“reservará percentual de cargos e empregos públicos para as pessoas portadora de deficiência e definirá critérios da admissão”, sendo que, no art. 7º, inciso XXXI, também da Constituição, proíbe-se qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador com deficiência.

Conforme rege a Constituição Federal, os direitos são claros, não deve haver nenhum tipo de discriminação no que se refere à inclusão socioeconômica da pessoa portadora de deficiência física, pois havendo qualquer tipo de discriminação, essa pessoa é excluída da sociedade, impedindo-a de exercer sua cidadania.

De acordo com o Decreto 3.298/99, em seu art. 2º:

Cabe aos órgãos e às entidades de Poder Publico assegurar à pessoa portadora de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos a educação, à saúde, ao trabalho, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à previdência social, à assistência social, ao transporte, á edificação pública, à habitação, à cultura, ao amparo à infância e à maternidade, e de outros que, decorrentes da constituição e das leis, propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico. (BRASIL, 1999)

É importante salientar a importância da inclusão da pessoa portadora de deficiência física no mercado de trabalho, pois conforme o Decreto 3.298/99, a lei assegura a eles a inserção no mercado de trabalho e a partir daí eles começam a se sentir cidadãos, a exercer sua cidadania, a ter seus direitos respeitados, ter a sua própria renda. Com isso, criam-se outras possibilidades em sua vida, como ter acesso a cultura, a se relacionar com outras pessoas além do núcleo familiar, ter um bom relacionamento também com o chefe e ainda ter uma qualidade de vida digna.

Os direitos da Pessoa Portadora de Deficiência Física devem ser respeitados em todas as suas vertentes, seja na educação, saúde, habitação, cultura, sempre

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lembrando que eles têm atendimento prioritário, sem qualquer tipo de discriminação ou diferenciação, para que eles se sintam sempre “cidadãos”. Isto é de suma importância para a sociedade, respeitar os direitos das pessoas portadoras de deficiência física sempre.

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CONCLUSÃO

Os direitos das pessoas portadoras de deficiência física ainda são negados por grande parte da sociedade. A deficiência abrange homens, mulheres e crianças e a cada dia outros seres estão se tornando portadores de deficiência, e o que vemos é um descaso político, dos governos e da sociedade, o que afronta a dignidade da pessoa humana.

Conclui-se com este trabalho, portanto, que existem no ordenamento jurídico proteções, garantias e direitos assegurados às pessoas com deficiência física, com a finalidade de extinguir as desigualdades, direitos estes idealizados através de Decretos, Leis, Convenções e Tratados.

Portanto, para se alcançar a efetividade desses direitos, deve-se adotar ações afirmativas, estratégias, iniciativas políticas, mecanismos, atos concretos e atitudes que visem à efetivação da igualdade de oportunidades e da dignidade da pessoa humana.

Os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana assumem responsabilidade de desenvolvimento social abrindo oportunidade a todos, principalmente aos portadores de deficiência física, como um direito reconhecido constitucionalmente.

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REFERÊNCIAS

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