Aula de Direitos Humanos
Professora: Tatiana Batista
Professora de Direito Constitucional
EMERJ. CURSO FORUM. Fesudeperj. Portal Adapta. Cia Jurídica.
Instagram: @tatisantosbatista
E-mail: [email protected]
“os direitos do homem nascem como direitos naturais universais, desenvolvem- se como direitos positivos particulares, para finalmente encontrarem sua plena
realização como direitos positivos universais” (Bobbio)
Direitos Fundamentais
Os direitos fundamentais caminham ao lado do regime democrática dada a sua importância no contexto social, desta forma esta modalidade de direitos somente tem eficácia plena se amparada em uma sociedade democraticamente constituída.
A relevância destes direitos encontra-se no esforço do preâmbulo da Constituição Federal ali encontra-se o propósito de que a Assembléia Constituinte teve como ideal básico o propósito de
‚instituir um Estado Democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança (...)‛.
Desta forma a Constituição Federal esta estruturada sobre um pilar ético-jurídico-político, que tem como principal objetivo a promoção e valorização dos direitos e garantias fundamentais do ser humano.
Dada à importância que os direitos fundamentais traduzem para a Constituição Federal é que faz-se necessário o seu estudo principalmente no que tange a questão de sua eficácia, seu real cumprimento, bem como os confrontos existentes entre os princípios dos direitos e garantias fundamentais.
É inegável que o grau de democracia em um país mede-se precisamente pela expansão dos direitos fundamentais e por sua afirmação em juízo. Ou seja, os direitos humanos fundamentais servem de parâmetro de aferição do grau de democracia de uma sociedade. Não há que se falar em democracia sem o reconhecimento e proteção dos direitos fundamentais.
Os direitos fundamentais possuem papel decisivo na sociedade porque é por meio dos direitos fundamentais que se avalia a legitimação de todos os poderes sociais, políticos e individuais.
Onde quer que esses direitos padeçam de lesão, a Sociedade se acha enferma. Assim, os direitos fundamentais impõe à atuação estatal deveres de abstenção (Não dispor contra eles) e deveres de atuação (dispor para efetivá-los).
O FUNDAMENTO destes direitos e garantias é a proteção da DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA e a Constituição é a sua validade, já consagrando em seu Preâmbulo o Estado Democrático de Direito destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade e a segurança.
Essa teoria é fruto de um processo histórico que se confunde com a própria evolução da sociedade, é um DOMÍNIO ÉTICO-POLÍTICO-JURÍDICO DO SABER HUMANO, que segundo Robert Alexy encontra no cristianismo o seu ápice: Gálatas, 3:28 ‚NÃO HÁ JUDEU NEM GREGO, NÃO HÁ
VARÃO NEM MULHER, POIS TODOS VÓS SOIS UM EM CRISTO JESUS (Direitos Fundamentais e Estado Constitucional Democrático, p.32).
Direitos Fundamentais são o conjunto de normas, princípios, prerrogativas, deveres e institutos, inerentes à soberania popular, que garantem a convivência pacífica, digna, livre e igualitária, independentemente de credo, raça, origem, cor, condição econômica ou status social. Sem direitos fundamentais o homem não vive, não convive e não sobrevive.
Defendemos hoje o DIREITO FUNDAMENTAL À EFETIVAÇÃO CONSTITUCIONAL com a emanação de atos administrativos, legislativos e judiciais para a concretização da vontade da constituição (Konrad Hesse).
Direitos Humanos
Para André de Carvalho Ramos é conjunto de direitos que são indispensáveis para uma vida humana pautada da liberdade, igualdade e dignidade. Essenciais para a concretização e efetivação de uma vida digna.
Direitos Humanos e Direitos Fundamentais:
SARLET (2006, p. 35) utiliza o espaço e a efetividade como dois grandes fatores responsáveis pela distinção terminológica:
Em que pese sejam ambos os termos (‘direitos humanos’ e ‘direitos fundamentais’) comumente utilizados como sinônimos, a explicação corriqueira e, diga-se de passagem, procedente para a distinção é de que o termo ‘direitos fundamentais’ se aplica para aqueles direitos reconhecidos e positivados na esfera do Direito Constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a expressão ‘direitos humanos’, guardaria relação como os documentos de Direito Internacional por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, independente de sua vinculação com determinada ordem constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter supranacional.
Quanto ao grau de efetividade dos direitos humanos e fundamentais, SARLET (2006, p.40) assevera que:
Importa considerar a relevante distinção quanto ao grau de efetiva aplicação e proteção dos direitos fundamentais (direito interno) e dos direitos humanos (direito externo), sendo desnecessário aprofundar, aqui, a idéia de que os primeiros que – ao menos em regra – atingem (ou, pelo menos, estão em melhores condições para isto) o maior grau de efetivação, particularmente, em face da existência de instâncias (especialmente as jurídicas) dotadas do poder de fazer respeitar e realizar estes direitos.
Cabe ressaltar que embora haja diferenças entre direitos humanos e direitos fundamentais, essas duas categorias não são antagônicas, conforme explica SARLET (2006, p. 42):
Importa, por hora, deixar aqui, devidamente consignado e esclarecido o sentido que atribuímos às expressões ‘direitos humanos’ e ‘direitos fundamentais’, reconhecendo, ainda mais uma vez, que não se cuida de termos reciprocamente excludentes ou incompatíveis, mas, sim, de dimensões íntimas e cada vez mais inter-relacionadas, o que não afasta a circunstância de se cuidar de expressões reportadas a esferas distintas de positivação, cujas conseqüências práticas não podem ser desconsideradas.
Em apertada síntese, os direitos humanos são aqueles declarados como inerentes ao ser humano, com pretensões de universalidade; já os direitos fundamentais são apenas daqueles direitos os reconhecidos e positivados na Constituição de um determinado Estado, havendo, assim, pretensões de territorialidade, ou seja, de âmbito nacional.
Historicidade dos Direitos Humanos:
Gregos – Kosmos como lei Universal, vinculada aos direitos naturais
Idade Média – diginidade ligada a ter algo, pater familis, direito divino com poder de vida e morte sobre os súditos
Iluminismo – época da razão, ideias de Kant (o homem como sujeito de direitos e não objeto).
Inglaterra: Petição de Direitos (1628) questionou o absolutismo; Habeas Corpus Act (1679) contra prisões injustas, Bill of Rights (1689) controle da vontade real pelo Parlamento.
Revolução Francesa (1789) – Declaração dos direitos do homem
2ª Guerra Mundial – atrocidades ao ser humano, criação da ONU em 1945 Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – 1948
Características dos Direitos Humanos:
1. Historicidade: são frutos de processo histórico, vão surgindo e se afirmando com o passar dos anos e se relacional com o devir social e da luta da Humanidade para que se afirme o respeito à pessoas. Ou seja, surgem em momentos históricos diversos, sendo esta a base para a ideian de gerações de direitos.
Está vinculada à proibição de retrocesso, ou seja, a supressão de direitos implicaria num retrocesso na caminhada histórica de afirmação de proteção à pessoa.
2. Universalidade: os direitos humanos são atribuídos a todos os seres humanos de forma indistinta, sem relevar a nacionalidade, opção política ou cor, por exemplo.
Concepção Universalista x Relativismo Cultural = as vicissitudes culturais de um país seria um entrave à afirmação de validade de um mesmo grupo de direitos em todos os países, mormente os direitos relacionados às minorias e à mulher.
Até que ponto o Relativismo Cultural pode justificar práticas internas lesivas aos direitos humanos?
Debate infindável e tem prevalecido a ideia de forte proteção aos direitos fundamentais e fraco relativismo cultural, pois as variações culturais não justificam a violação a estes direitos.
3. Inerência – próprio do ser humano
4. Transnacionalidade – não dependem de vínculo de nacionalidade 5. Essencialidade – ser humano no centro do Direito
6. Complementariedade ou Interdependência – as normas não são antagônicas às normas de direitos fundamentais, mas complementares a ela para a proteção da pessoa humana. Aumento do rol de direitos protegidos, seja por meio do direito internacional ou do ordenamento interno. Fruto do trabalho de interpretação ampliativa feito pelo constituinte derivado – Princípio da não exaustividade dos direitos fundamentais.
7. Reciprocidade – eficácia, vertical, horizontal e oblíquoa dos direitos humanos
8. Indivisibilidade – todos os direitos humanos são essenciais e a proteção estende-se a todos. O direito protegido tem uma unidade inscindível em si, bem como todos devem ser protegidos e não apenas alguns.
Imprescritibilidade - a pretensão de respeito e concretização dos direitos fundamentais não se esgota pelo passar dos anos, é imprescritível e atemporal, podendo ser exigido a qualquer tempo.
É diferente do direito à reparação econômica em virtude de sua violação, que é prescritível. Assim, posso exigir a qualquer momento que cesse a violação ao direito, mas a reparação econômica deve se submeter aos prazos prescricionais.
Inalienabilidade - Não são estes direitos objeto de comércio, não podem ser vendidos. Podem sim terem valoração econômica, como o direito à propriedade.
Irrenunciabilidade - as pessoas não tem o poder de dispor sobre a proteção à sua dignidade, não possuindo a faculdade de renunciar aos direitos inerentes à dignidade humana.
Estrutura Normativa
Declaração Universal dos Direitos Humanos - 1948
Para Valério Mazzuoli, Declaração Universal dos Direitos Humanos foi delineada pela Carta das Nações Unidas e teve como uma de suas principais preocupações a positivação internacional dos direitos mínimos dos seres humanos, em complemento aos propósitos das Nações Unidas de proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais de todos, sem distinção de sexo, raça, língua ou religião.1 Trata-se do instrumento considerado o ‚marco normativo fundamental‛ do sistema protetivo das Nações Unidas, a partir do qual se fomentou a multiplicação dos tratados relativos a direitos humanos em escala global.
O que se deve entender é que a Declaração Universal visa estabelecer um padrão mínimo para a proteção dos direitos humanos em âmbito mundial, servindo como paradigma ético e suporte axiológico desses mesmos direitos.
A Declaração Universal não é tecnicamente um tratado, eis que não passou pelos procedimentos de internalização, é reconhecida mais autêntica da expressão direitos humanos e liberdades fundamentais, sendo reconhecida como norma jus cogens.
Política Nacional dos Direitos Humanos nº 03
O Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, e atualizado pelo Decreto nº 7.177, de 12 de maio de 2010, é produto de uma construção democrática e participativa, incorporando resoluções da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, além de propostas aprovadas em mais de 50 conferências temáticas, promovidas desde 2003, em áreas como segurança alimentar, educação, saúde, habitação, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, idosos, meio ambiente etc.
O PNDH-3 concebe a efetivação dos direitos humanos como uma política de Estado, centrada na dignidade da pessoa humana e na criação de oportunidades para que todos e todas possam desenvolver seu potencial de forma livre, autônoma e plena. Parte, portanto, de princípios essenciais à consolidação da democracia no Brasil: diálogo permanente entre Estado e sociedade civil; transparência em todas as áreas e esferas de governo; primazia dos Direitos Humanos nas políticas internas e nas relações internacionais; caráter laico do Estado; fortalecimento do pacto federativo; universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais; opção clara pelo desenvolvimento sustentável; respeito à diversidade; combate às desigualdades; erradicação da fome e da extrema pobreza.
Eixos de proteção: I. Interação Democrática entre Estado e Sociedade Civil; II.
Desenvolvimento e Direitos Humanos; III. Universalizar Direitos em um Contexto de Desigualdades;
IV. Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência; V. Educação e Cultura em Direitos Humanos; e VI. Direito à Memória e à Verdade.
Geração dos Direitos Humanos
Direitos Humanos de Primeira Geração (Direitos individuais) = são os chamados de direitos civis e políticos, que englobam os direitos à vida, à liberdade, a propriedade, à igualdade formal as liberdades de expressão coletiva, os direitos de participação política e ainda, algumas garantias processuais.
São direitos relacionados à questão do próprio indivíduo como tal (direitos à vida e a liberdade), ou seja, direitos que limitam a atuação do Estado na liberdade individual. Podem ser classificados como Direitos Civis e Políticos, mas também chamados de Direitos de Liberdade.
Os direitos de primeira dimensão são considerados negativos porque tendem a evitar a intervenção do Estado na liberdade individual, caracterizando-se como uma atitude negativa por parte dos poderes públicos.
Direitos Humanos de Segunda Geração (Direitos Sociais, Econômicos e Culturais) = O impacto da industrialização e os graves problemas sociais e econômicos que a acompanharam, as doutrinas socialistas e a constatação de que a consagração formal de liberdade e de igualdade não gerava a garantia de seu efetivo gozo acabaram, já no decorrer do século XIX, gerando amplos movimentos reivindicatórios e o reconhecimento progressivo de direitos atribuindo ao Estado comportamento ativo na realização da justiça social.
Essa geração é constituída pelos direitos econômicos, sociais e culturais com a finalidade de obrigar o Estado a satisfazer as necessidades da coletividade, compreendendo o direito ao trabalho, à habitação, à saúde, educação e inclusive o lazer.
Aqui o Estado tem o dever de intervir nas relações onde há uma relação de hipossuficiência, para que os maiores não se agigantem perante os menos favorecidos, e assim haja uma relação de equilíbrio.
Direitos Humanos de Terceira Geração (Direitos de Fraternidade e Solidariedade) = Os direitos humanos de terceira geração são denominados de direitos de solidariedade ou de fraternidade e foram desenvolvidos no século XX, compondo os direitos que pertencem a todos os indivíduos, constituindo um interesse difuso e comum, transcendendo a titularidade coletiva ou difusa, ou seja, tendem a proteger os grupos humanos.
Os direitos humanos da terceira dimensão, também denominados de direitos de fraternidade ou de solidariedade, trazem como nota distintiva o fato de se desprenderem, em princípio, da figura do home-indivíduo como seu titular, destinando-se a proteção de grupos humanos, família, povo, nação e, caracterizando-se, conseqüentemente como direitos de titularidade coletiva ou difusa.
A terceira dimensão de direitos tem por finalidade básica a coletividade, ou seja, proporcionar o bem-estar dos grandes grupos, que muitas vezes são indefinidos e indeterminados, como por exemplo, o direito ao meio ambiente e a qualidade de vida, direito esses reconhecidos atualmente como difusos.
Cabe, ainda, tecer breves considerações a respeito dos direitos de terceira dimensão, frisando que a maior parte desses direitos não encontra respaldo no texto constitucional, sendo consagrados com mais intensidade no âmbito internacional, principalmente no que se refere ao direito à paz, ao desenvolvimento e progresso social.
Com relação aos direitos fundamentais de terceira dimensão ocorre ainda a internacionalização compatível com os direitos humanos, recebendo uma proteção que ultrapassa as fronteiras dos Estados, como o direito ao desenvolvimento e a defesa do consumidor, sendo exigências propostas pela comunidade internacional, como anseios, desejos e finalidades na coexistência pacífica dos seres humanos. Assim caracteriza-se o direito de terceira dimensão de modo especial, pelo fato de sua implicação ser universal e por exigirem esforços e responsabilidade a nível mundial para que ocorra a sua efetivação.
Direitos Fundamentais de Quarta (Direito dos Povos – informática, biociência, transgênicos) e Quinta Geração (direito à paz) = Os direitos humanos de quarta e quinta dimensão seriam aqueles que surgiram dentro da última década, devido ao grau avançado de desenvolvimento tecnológico da humanidade, sendo estes ainda apenas pretensões de direitos.
No caso da quarta geração, pode-se colocar que seriam os direitos ligados à pesquisa genética, surgida da necessidade de se impor uns controles a manipulação do genótipo dos seres, em especial o do ser humano. No caso dos direitos da quinta geração, pode-se ligá-los aos direitos que surgem com o avanço da cibernética.
Para Paulo Bonavides os direitos da quarta geração: Se posicionava a favor ao reconhecimento da existência de uma quarta dimensão de direitos, sustentando que esta é o resultado da globalização dos direitos fundamentais, no sentido de uma universalização no plano institucional, que corresponde, em sua opinião, à derradeira fase de institucionalização do Estado Social. Em resposta à globalização dos direitos fundamentais. Dentro dessa geração, estão inseridos os direitos à democracia e a informação.
Bonavides afirma, ainda, no que tange aos direitos de quarta e quinta geração que
"longínquo está o tempo da positivação desses direitos, pois compreendem o futuro da cidadania e o porvir da liberdade de todos os povos. Tão somente com eles será possível a globalização política‛, isto é, a quarta e quinta dimensão de direitos, está longe de obter o devido reconhecimento no direito positivo, seja ele interno ou internacional.
Tratados de Direitos Humanos
Com a Emenda Constitucional 45/2004, os tratados sobre Direitos Humanos que forem aprovados pelo Congresso Nacional pelo procedimento previsto no art.5º, §3º, da CF serão equivalentes a uma emenda constitucional.
Até o momento, temos três tratados de direitos humanos aprovado nos termos do art. 5º, §3º da CF e equivalentes a emendas constitucionais: 1. A convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência;
2. O Protocolo dos Direitos das Pessoas com Deficiência; 3. O Tratado de Marraqueche
Os tratados anteriores sobre direitos humanos passaram a receber a natureza supralegal, ou seja, não possuem status constitucional, mas sim infra-constitucional e acima das leis ordinárias e complementares.
A natureza supra-legal dos tratados sobre direitos humanos decorreria do próprio art.5º, §3º, da CF, o qual os teria distinguido dos demais tratados, a exigir uma nova interpretação sobre a matéria, que prestigiasse a distinção feita ela norma.
Controle de Convencionalidade
O controle de convencionalidade ocorre quando o STF julga matérias referentes ao tratado internacional de direitos humanos, ou seja, quando há alguma contrariedade deste tratado. Tanto pela via difusa como pela via concentrada.
O controle de convencionalidade foi defendido no Brasil pela primeira vez em tese de doutorado elaborada por Valério Mazzuoli e acabou agora por ser adotada por nossa Suprema Corte.
Decorrem da adoção da tese as seguintes conclusões práticas:
1 –os tratados de direitos humanos vigentes no Brasil, aprovados sem maioria qualificada, têm nível supralegal.
2 –esses tratados servem como paradigma para o controle difuso de convencionalidade a ser levantado pelo interessado em matéria de preliminar e analisado pelo juiz antes da apreciação do mérito do pedido principal.
3 –os tratados de direitos humanos aprovados pela maioria qualificada do artigo 5°, §3°, da CF, têm nível constitucional e servirão de paradigma de controle de constitucionalidade concentrado (STF) e difuso (todos os juízes, STF inclusive).
4 –com relação ao controle concentrado admitir-se-ão todos os instrumentos disponíveis para tal: Ação Direta de Inconstitucionalidade, Ação Declaratória de Constitucionalidade e Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental.
Além de compatíveis com a constituição, as normas devem estar em conformidade com os tratados e convenções de direitos humanos. A verificação passa pelo método conhecido como controle de convencionalidade. Essa técnica de interpretação teve origem nos tribunais internacionais e surgiu da necessidade de fazer com que os Estados cumpram as suas obrigações assumidas no plano internacional.
Ao julgar o caso Almonacid Arellano versus Chile, a Corte Internacional entendeu que todos os tribunais internos dos países signatários da Convenção Americana estão obrigados a seguir não só o que dispõe o Pacto, mas também a jurisprudência da Corte.
Assim, reconheceu que o controle da correta aplicação das normas de direitos humanos não é monopólio da corte, mas deve ser exercido por todos os juízes e tribunais dos países signatários.
Para a Corte, a partir do momento em que uma convenção internacional é ratificada por um Estado, ela passa a integrar o ordenamento jurídico, obrigando juízes a garantir que ela não seja prejudicada pela aplicação de leis internas. E mais: no julgamento de um caso concreto, o Poder Judiciário deverá levar em conta não só o que dispõe a Convenção, mas também a interpretação da norma dada pela Corte Interamericana.
O STF aplicou o controle de convencionalidade em 2015, ao conceder a MC na ADPF 347, para dentre outras medidas, determinar a realização das audiências de custodia no prazo de 24 horas a contar da prisão. Nessa oportunidade, ficou consagrada a adoção dessa técnica no direito brasileiro para o aumento da efetividade dos direitos Humanos.
O controle de convencionalidade é a forma de garantir a aplicação interna das convenções internacionais das quais os países são signatários, como a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, assinada em 1969 e ratificada pelo Brasil em 1992. Em 2008, o STF entendeu que os tratados internacionais sobre matéria de direitos humanos assinados pelo Brasil têm natureza supralegal – em 2004, a Emenda Constitucional 45 havia estabelecido que esses tipos de tratados teriam valor de emenda à Constituição, caso aprovados em dois turnos de votação por três quintos dos membros de cada uma das casas do Congresso Nacional (Art. 5º, §3º).
Fonte: CNJ
CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE
a) Controle CONCENTRADO de Convencionalidade: requer-se que o tratado tenha equivalência de emenda constitucional, caso contrário, não será apreciado pelo Supremo. No Brasil, são três:
1. A convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência;
2. O Protocolo dos Direitos das Pessoas com Deficiência;
3. O Tratado de Marrakesh.
Pode-se utilizar todas as ações do controle abstrato para invalidar leis federais ou estaduais que violem os tratados internacionais de Direitos Humanos constitucionalizados.
b) Controle DIFUSO de Convencionalidade: todos os juízes podem exercer.
Tem como base TODOS os tratados e opera sempre que o Direito Internacional for mais benéfico ao cidadão, ou seja, no controle difuso de convencionalidade, independe o status de tratado de Direitos Humanos.
Corte Interamericana de Direitos Humanos
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada em São José da Costa Rica, é um órgão judicial internacional autônomo do sistema da OEA, criado pela Convenção Americana dos Direitos do Homem, que tem competência de caráter contencioso e consultivo. Trata-se de tribunal composto por sete juízes nacionais dos Estados-membros da OEA, eleitos a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do qual sejam nacionais (art. 52 da Convenção Interamericana).
A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições da Convenção Americana sobre Direitos humanos, desde que os Estados-Partes no caso tenham reconhecido a sua competência. Somente a Comissão Interamericana e os Estados Partes da Convenção Americana sobre Direitos Humanos podem submeter um caso à decisão desse Tribunal.
No exercício de sua competência consultiva, a Corte Interamericana tem desenvolvido análises elucidativas a respeito do alcance e do impacto dos dispositivos da Convenção Americana, emitindo opiniões que têm facilitado a compreensão de aspectos substanciais da Convenção, contribuindo para a construção e evolução do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito da America Latina.
No plano contencioso, sua competência para o julgamento de casos, limitada aos Estados Partes da Convenção que tenham expressamente reconhecido sua jurisdição, consiste na apreciação de questões envolvendo denúncia de violação, por qualquer Estado Parte, de direito protegido pela Convenção. Caso reconheça que efetivamente ocorreu a violação à Convenção, determinará a adoção de medidas que se façam necessárias à restauração do direito então violado, podendo condenar o Estado, inclusive, ao pagamento de uma justa compensação à vítima.
Note-se que, diversamente do sistema europeu, não é reconhecido o direito postulatório das supostas vítimas, seus familiares ou organizações não-governamentais diante da Corte Interamericana.
Somente a Comissão e os Estados-parte da OEA têm legitimidade para a apresentação de demandas ante Corte. Desse modo, qualquer indivíduo que pretenda submeter denúncia à apreciação da Corte, deve, necessariamente, apresentá-la à Comissão Interamericana.
A partir do ano de 1996, todavia, inovação trazida pelo III Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos ampliou a possibilidade de participação do indivíduo no processo, autorizando que os representantes ou familiares das vítimas apresentassem, de forma autônoma, suas próprias alegações e provas durante a etapa de discussão sobre as reparações devidas.
Além disso, hoje, com as alterações trazidas pelo IV Regulamento, também é possível que as vítimas, seus representantes e familiares não só ofereçam suas próprias peças de argumentação e provas em todas as etapas do procedimento, como também fazer uso da palavra durante as audiências públicas celebradas, ostentando, assim, a condição de verdadeiras partes no processo.
A sentença internacional no direito brasileiro.
A sentença internacional não se confunde com a nacional ou a estrangeira.
As três são uma prestação jurisdicional provocada pelo exercício do direito de ação. A sentença, seja nacional, internacional ou estrangeira, é uma afirmação do direito para o caso concreto, feita por um sujeito imparcial e em resposta ao pedido do interessado. Ela pode ser considerada meramente terminativa, quando se limita a pôr fim ao processo, ou definitiva, quando decide o mérito da causa.
Sem prejuízo dos traços comuns, as sentenças nacional, internacional e estrangeira diferenciam-se conforme o órgão prolator, o ordenamento jurídico que lhes dá suporte e o regime jurídico a que se sujeitam.
De acordo com o art. 162, § 1º, do Código de Processo Civil, a sentença nacional é o ato do juiz nacional que resolve o mérito do processo nos termos do art. 269, quando se fala em sentença definitiva, ou então o ato que extingue o processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 267, quando se fala em sentença terminativa. Embora não se explicite que a definição do art. 162, § 1º, se refere à sentença nacional, tal conclusão decorre da natureza das coisas: o legislador brasileiro não teria competência para ditar o que se deve entender como sentença em um país estrangeiro, mister do legislador local, nem tampouco para conceituar a sentença internacional, o que cabe a um tratado.
A sentença internacional é aquela proferida por um organismo internacional com funções jurisdicionais, disciplinada pelo direito internacional público, cuja principal fonte normativa é o direito convencional, i.e., os tratados. São sentenças internacionais as prolatadas por tribunais internacionais, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, por árbitros que julguem controvérsias entre Estados, ou ainda por painéis de organizações de livre comércio, como os da Organização Mundial do Comércio.
A natureza da sentença judicial internacional difere da natureza da sentença estrangeira. Em especial as sentenças da Corte Interamericana, cuja natureza é de decisão de organismo internacional, não encontrando nenhuma identidade com sentença oriunda de Estado estrangeiro. Diante disso, não cabe a homologação de sentença internacional no ordenamento jurídico brasileiro, sob pena de violar-se a Constituição. Não se aplica, portanto, às sentenças da Corte Interamericana a homologação de sentença estrangeira; posição pacificada tanto na doutrina, como na jurisprudência do próprio STF.
Agregam-se a isto os objetivos da Convenção Americana, que obrigam a busca de soluções céleres e simplificadas em prol da vítima de direitos humanos, não cabendo, portando, maiores delongas.
Assim, em caso de execução de sentença da Corte Interamericana, por não ter sido cumprida sponte propria pelo Estado, deve-se garantir à vítima o ressarcimento, com o mínimo de ônus, pela via judicial. No Brasil, compete ao juiz de 1ª instância, do foro da vítima, executar, em analogia com o art.
484 do CPC, a sentença internacional, com a celeridade requerida pela Convenção Americana.