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Ciênc. saúde coletiva vol.10 número3

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Academic year: 2018

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O paradigm a epistem ológico ao qual n os referimos reconhece como significativo apenas o conhecim ento produzido e avalizado pelo m étodo experim ental das ciências naturais, e defende a tese de que somente as informações contidas nesta forma de conhecimento devem ser levadas em conta nos momentos em que se tem de tomar decisões com vistas a resultados práticos. Todos os demais saberes, aí incluídos os filosóficos e as ciên cias hum an as e sociais pertencem à ordem da subjetividade, das ideo-logias, das opiniões, cuja eficácia prática difi-cilm ente pode ser avaliada, a não ser que ve-nham a tratar seu objeto de estudo nos moldes das ciências naturais e se submetam, na avalia-ção dos seus resultados, aos critérios e às regras do método experimental.

Assim, descrever se identifica com explicar, e a aplicação técnica e o poder de predizer os acontecimentos se tornam o critério de avalia-ção destas m esm as descrições. Tal é o projeto epistemológico atual para a ciência que decor-re da natudecor-reza da razão definida por muitos co-mo instrumental.

Para boa parte dos estudiosos da história do pensam ento científico, tal caráter instru-m ental assuinstru-m ido hoje pelas tecnociências en-contra sua origem na revolução científica dos séculos 16 e 17, obra de Galileu, Descartes e Newton, e da qual em erge a ciência m oderna com o sua expressão. Pessoalm ente discordo desta in terpretação de que a obra daqueles cientistas-filósofos seja fruto de um a concep-ção epistem ológica in strum en talista e de sua aliada positivista. Mas não é o caso de se discu-tir agora esta querela histórica.

O que importa é que o mundo em que vive-m os, físico, vivo ou huvive-m ano (distingui-los é que está sendo a questão) vem sendo estrutura-do e organizaestrutura-do preestrutura-dominantemente, para não dizer exclusivamente, sob o domínio desta for-ma de racionalidade que se apresenta indiscuti-velmente bem-sucedida na descrição dos fenô-menos e na descoberta dos comportamentos re-gulares e repetitivos dos organismos e as trans-form a em leis expressas com o rigor confiável da linguagem matemática. Tal sucesso torna-se inteligível e explicado com a admissão do pres-suposto epistem ológico e tam bém m etafísico (embora não explicitado, entendido e pensado com o tal) dos determ inism os que regem quer os objetos físicos, quer os organismos vivos in-diferentemente de que sejam humanos ou não.

É neste contexto que surge a questão aguda e central do texto de Ana Maria e Cecília: de um

5 Departamento de Filosofia da PUC, Rio de Janeiro. [email protected]

Determinismo e liberdade: uma conciliação possível Determinism and freedom: a possible conciliation

Carlos Alberto Gom es dos Santos 5

O artigo de An a Maria e Cecília, além do seu valor de texto bem -estruturado, inteligente e rico de inform ações, presta um a colaboração significativa para a discussão de questões que sempre foram preocupação de filósofos e cien-tistas, m as que assum em , neste m om ento de n ossa história e cultura, um a im portân cia e atualidade toda especial: diante do m odelo de ciência reconhecido e aplicado hoje às ciências naturais e aos resultados e conclusões a que che-garam , qual a especificidade do ser hum ano em relação às demais manifestações da natureza?

Com efeito, vivemos num momento de cri-se, quando idéias secularm ente aceitas e caras vêm sendo colocadas em questão e substituídas por outras quase que com o por consenso, na com unidade científica, na m edida em que re-cebem o aval de pressupostos epistemológicos e metafísicos aceitos como paradigmáticos no sentido mesmo kuhniano. Isto porque, tais pres-supostos, na medida em que são seguidos e ob-servados rigorosam ente na prática da ciência, não só garantem mas também justificam o seu progresso avaliado e medido pelo maior poder preditivo das teorias, sua maior eficácia no de-senvolvimento da tecnologia e na produção de bens m ateriais. Com o conseqüência, recebem o reconhecimento da sociedade e, em particu-lar, dos órgãos públicos de investim ento em pesquisa.

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lado, o reconhecimento dos determinismos apontados pelas ciências como regendo a natu-reza em todas as suas manifestações; e do outro, o ponto de vista que aposta na singularidade do homem cujas prerrogativas fundamentais foram sempre reconhecidas na sua racionalidade e em sua vontade livre. Com efeito, a tensão entre estes dois modos de compreender o homem, in -compatíveis entre si, ora como sujeito autôno-mo ora coautôno-mo submetido aos determinisautôno-mos da heteronomia é tema recorrente na história do pensamento ocidental, e manifestado em suas expressões literárias, filosóficas, teológicas, cons-tituindo-se tam bém no fundam ento de tradi-ções de pesquisa irreconciliáveis conquanto apoiadas em metafísicas radicalmente distintas.

A prerrogativa da liberdade atribuída ao homem, sobretudo a partir da contribuição de Aristóteles e do cristian ism o, duas m atrizes fun dam en tais n a form ação da n ossa cultura, passou a ser pensada e compreendida como ca-pacidade de escolha ou livre-arbítrio e se tor-nou fundamento da ética, da moral, do direito e, portanto, pressuposto necessário na nossa tradição para a compreensão e para o juízo va-lorativo das decisões que tomamos e das ações que praticamos.

Negar pois o livre-arbítrio implica realizar uma revisão profunda de toda uma antropolo-gia e das instituições de nossa sociedade que se estruturam e organizam nela apoiadas. A aspi-ração à possibilidade de conciliar determ inis-mo e liberdade, resolvendo assim o dilema hoje posto pela ciência, encontra seu lugar na fron-teira da filosofia e da ciência. Decorre também daí outro valor do texto de Ana Maria e Cecí-lia, ao apresentar as considerações de um cien-tista-filósofo sobre esta questão.

Com o hom em de ciência, H enri Atlan re-conhece e aceita a crescente constatação feita pelas ciências naturais dos determinismos que regem os organism os vivos, hum anos ou não. Como filósofo, está preocupado de como, dian-te desdian-te dedian-terminismo, entrever a possibilidade de estabelecer as condições de pensar e viver a liberdade humana e suas repercussões na atri-buição de responsabilidades individuais e so-ciais às decisões que o homem toma. Esta ques-tão, como o próprio Atlan observa, se ampliou e se tornou m ais com plexa com o desenvolvi-m en to fan tástico das pesquisas edesenvolvi-m biologia evolutiva, nas neurociências e nas ciências cog-nitivas, e em sua tendência, cada vez mais prvalecente, de com preender todos os fenôm e-nos, até hoje considerados exclusivos da

natu-reza da pessoa humana, apenas como manifes-tações diferenciadas de um a m esm a realidade física fundamental.

Segundo meu entendimento do pensamen-to de Atlan , o que para m im n ão deixa de ser extremamente interessante, é que ele não con-sidera que as con clusões das n eurociên cias e das ciências cognitivas aliadas à biologia evolu-tiva sejam capazes por si só de apresen tarem suficientes inteligibilidade e explicação para a experiên cia subjetiva e os dilem as éticos. As-sim, vai buscar na filosofia de Spinosa a inspi-ração que lhe perm ite pen sar n um a possível conciliação entre determinismo e liberdade.

Partindo da idéia de Natureza – ou de Deus – com a qual tudo se identifica e que tem como corolário de sua existência infinita um a liber-dade que coincide com seu conhecimento infi-n ito das causas infi-n ecessárias para que se auto-produzam todas as coisas que existem, Spino-sa, conclui que a liberdade deve ser entendida com o livre necessidade, distinta portanto, da capacidade de escolhas arbitrárias. Liberdade passa a sign ificar o n ão se deixar determ in ar senão por sua própria lei, e é no progressivo conhecimento dos determinismos que nos re-gem que se encontra o caminho para conquis-tarm os a verdadeira liberdade e superarm os a falsa ilusão de que nos conduzimos por atos li-vres de escolhas ou por livre-arbítrio.

Não cabe aqui, avaliar a metafísica e a epis-temologia spinosista, nem se a releitura que de-las faz Atlan é realm ente consistente com o pen sam en to de Spin osa e m ais ain da se suas idéias se con stituem n um a in spiração válida para o encaminhamento da solução do proble-ma em questão, na pressuposição de que esteja sendo fiel aos pressupostos quer m etafísicos e epistem ológicos do filósofo holandês. O que im porta é en fatizar o esforço de Atlan para preencher, como ele mesmo o diz, o hiato cog-nitivo irredutível entre o conhecimento objeti-vo dos determ in ism os que as n ovas ciên cias nos mostram como constitutivos de nossa na-tureza e nossa experiência de agente eficaz de escolhas e conseqüentemente de responsabili-dades, e valorizar a sua percepção que há ques-tões que n ão podem ser respon didas sem a preocupação de buscar um a conciliação entre ciências naturais e ciências humanas .

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Não é nada fácil admitir, por exemplo, que a vida moral, jurídica instaurada e estruturada com a aceitação, quase que dogmática, da pres-suposição de que agimos livremente e por isso mesmo somos responsáveis por nossos atos, re-sultaria da nossa ignorância do que nos move a agir. Talvez seja mais difícil ainda compreender e admitir que no mundo das experiências afeti-vas cotidianas seja indispensável para consti-tuição de sujeitos m orais respon sáveis que se proceda até certo ponto, “como se” um livre-arbítrio definisse as ações individuais.

Em seu esforço de conciliar determinism o e liberdade, observamos que o pensamento de Atlan se desenvolve na fronteira dos lugares epistem ológicos da ciên cia e da filosofia. É também sua preocupação, o que fica muito cla-ro no texto de Ana Maria e Cecília, que é indis-pensável um a aproxim ação das ciências natu-rais com as ciên cias hum an as, sem que elas percam sua identidade epistemológica definida por seus lugares de atuação e por seus diferen-tes objetivos.

Com preender o m undo em que vivem os e a nós mesmos como parte dele não será possí-vel com um a ciên cia que se isola das dem ais form as de saber e que recusa as contribuições que elas podem nos oferecer.

E quanto à liberdade?! Se não é fácil de-m onstrar que sode-m os livres, não deixa de ser tam bém difícil adm itir que devam os com pre-ender a natureza humana unicamente nos limi-tes das determinações que as ciências naturais apontam em suas manifestações.

Vem-me à mente um texto do sociólogo Pe-ter Berger que expressa, de uma forma metafó-rica mas elucidativa, esta questão: localizam o-nos na sociedade e assim reconhecem os o-nossa própria posição, determ inada por fios sutis. Por um momento, vemo-nos realmente como fanto-ches. De repente, porém , percebem os um a dife-rença decisiva entre o teatro de bonecos e nosso próprio drama. Ao contrário dos bonecos, temos a possibilidade de interromper nossos movimen-tos, olhando para o alto e divisando o m ecanis-mo que nos ecanis-moveu. Este ato constitui o primeiro passo para a liberdade (Berger, 2004).

Após todas estas reflexões fica minha interrogação: a biologia, as neurociências, as ciên -cias cognitivas podem sim apontar-nos os fios que nos prendem e que nos levam de lá para cá. Mas será que, sozinhas, são suficientes para ex-plicar por que som os capazes de interrom per os movimentos e olharmos para cima reconhe-cendo o que nos movia?

Referência bibliográfica

Berger P 2004. Perspectivas sociológicas. Vozes, Petrópolis.

6 Department of Psychology, University of Texas at Arlington. [email protected]

Cognitive neuroscience and freedom: healing the disciplinary divide Neurociência cognitiva e liberdade: superando a divisão disciplinar

Daniel S. Levine 6

Aleksandrowicz/Minayo, along with Atlan who is the subject of their article, take on an intel-lectual challenge that is formidable but no less necessary. This is the challenge of reconciling the belief in determinism, at the basis of the sci-ences, with the concerns for freedom, responsi-bility, and ethical values, at the basis of the hu-manities. The split between these two outlooks is closely related to the split between reason and emotion lamented by such authors as Damasio (1994, 2003), and both splits are at the heart of the current crises of m odern and postm odern civilization. If different disciplines provide win-dows on the sam e reality, it can be highly dis-com forting if the views from those windows cannot be reconciled with one another.

Fortunately, both Aleksandrowicz/Minayo and Atlan point to some ways out of this crisis of cognitive dissonance. And the reconciliation they provide is compatible with recent discov-eries in m y field of cogn itive n euroscien ce, alon g with m athem atical theories of n eural networks that model interfaces between brain and behavior.

Referências

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