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J. Pneumologia vol.29 número5

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Academic year: 2018

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(1)

Síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus

*

Hantavirus pulmonary and cardiovascular syndrome

MARIANGELA PIMENTEL PINCELLI1 (TESBPT), CARMEN SÍLVIA VALENTE BARBAS2 (TESBPT), CARLOS ROBERTO RIBEIRODE CARVALHO3 (TESBPT), LUIZA TEREZINHA MADIADE SO UZA4,

LUÍS TADEU MORAES FIGUEIREDO5

* Trabalho realizado na Disciplina de Pneumologia – Faculdade de Me-dicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP.

1 . Mestre e Doutoranda em Pneumologia. Médica Pneumologista e Intensivista. Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pneu-mologia e Tisiologia.

2 . Livre-Docente da Disciplina de Pneumologia. Assistente da UTI Res-piratória. Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pneu-mologia e Tisiologia.

3 . Livre-Docente da Disciplina de Pneumologia. Chefe da UTI Respira-tória. Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Pneumolo-gia e TisioloPneumolo-gia.

Descrit ores – Síndrome pulmonar por hantavírus/ diagnóstico. In-fecções por hantavirus/ diagnóstico. Brasil.

Key words – Hantavirus pulmonary syndrome/ diagnoses. Hanta-virus infections/ diagnoses. Brazil.

A síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus é uma doença de conhecimento relativamente recente e freqüente-mente fatal, apresentando-se como síndrome do desconfor-to respiratório agudo. No Brasil, desde o primeiro surdesconfor-to, re-latado em novembro/ dezembro de 1 9 9 3 , em J uquitiba, 2 2 6 casos já foram registrados pela Fundação Nacional da Saúde. A doença afeta indivíduos previamente hígidos, apre-sentando-se com pródromo febril e sintomas semelhantes aos de um resfriado comum, podendo rapidamente evoluir para edema pulmonar, insuficiência respiratória aguda e cho-que. A hemoconcentração e a plaquetopenia são comuns da síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus, e o qua-dro radiológico típico é de um infiltrado intersticial bilateral difuso, que progride rapidamente para consolidações alveo-lares, paralelamente à piora do quadro clínico.A mortalida-de inicial era em torno mortalida-de 7 5 % e mortalida-declinou para aproximada-mente 3 5 %, nos últimos anos. Os pacientes que sobrevivem geralmente recuperam-se completamente, cerca de uma se-mana após o estabelecimento do quadro respiratório. O agen-te causal, não reconhecido até há pouco, foi identificado como um hantavírus, cujo reservatório natural são animais roedo-res da família Muridae, subfamília S igm odon tin ae. O trata-mento específico antiviral ainda não é bem estabelecido, es-tando em estudo a eficácia de ribavirina. Cuidados de terapia intensiva como ventilação mecânica e monitoramento he-modinâmico invasivo são necessários nas formas mais gra-ves da doença. Essas medidas, se instituídas precocemente, podem melhorar o prognóstico e a sobrevida dos pacientes com síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus. (J

P n e u m o l 2 0 0 3 ;2 9 (5 ):3 0 9 -2 4 )

4 . Diretora do Serviço de Virologia do Instituto Adolfo Lutz. 5 . Livre-Docente. Resp onsável p ela Unidade Multidep artamental de

Pesquisa em Virologia.

En dereço para correspon dên cia – Rua Dona Maria J acinta, 2 4 1 , 1 0o andar, sala 1 0 2 – 1 3 5 6 1 -1 2 0 – São Carlos, SP. Tel.: (1 6 ) 2 7 0 -1 6 6 7 ; e-mail: [email protected]

Re ce bido p ara p ublicação e m 2 5 / 4 / 0 3 . Ap ro vado , ap ó s re vi-s ã o , e m 1 1 / 6 / 0 3 .

Hantavirus pulmonary and cardiovascular syndrome is a recently identified and often fatal disease, which presents as acute respiratory distress syndrome (ARDS). Since the first outbreak, in Nov/ Dec 1 9 9 3 , in J uquitiba, Brazil, 2 2 6 cases have been registered by FUNASA (National Health Foundation).(4 ) The disease occurs in previously healthy

(2)

I

NTRODUÇÃO

A síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus foi reconhecida pela primeira vez em 1 9 9 3 , na região semi-árida do Sudoeste dos EUA, onde se avizinham os Estados de Arizona, Novo México, Colorado e Utah.(1 -3 )

A mortalidade nesse surto inicial foi de aproximadamen-te 8 0 %.(2 ) Na ocasião, após numerosos testes

diagnósti-cos, observou-se que o soro dos pacientes reagia contra hantavírus já conhecidos, por causarem febre hemorrági-ca com síndrome renal (FHSR) na Eurásia.(1 -3 ) A fraca

rea-tividade sorológica sugeria tratar-se de um hantavírus ain-da não reconhecido até então. Cerca de oito semanas após o comunicado dos primeiros casos, conseguiu-se de-terminar que a doença era causada por um outro hantaví-rus,(4 ) causador de doença humana com quadro clínico

muito distinto da FHSR e que foi chamada inicialmente de síndrome de hantavirose pulmonar(2,3,5-7) e, posteriormente,

após a determinação da existência de colapso cardiocir-culatório associado à alta letalidade da síndrome, conven-cionou-se chamá-la de síndrome pulmonar e cardiovas-cular por hantavírus (SPCVH).(3 ,8 )

O vírus causador, analisado a partir de amplificação gênica de partículas virais de materiais de necropsia, foi denominado inicialmente Four Corn ers, Muerto Can yon ou Little W ater, em alusão às localidades de onde se ori-ginaram os casos.(4 -7 ) Entretanto, ap ós reclamação da

população local, preocupada com a reputação das locali-dades ao serem relacionadas a vírus tão letal, optou-se por denominá-lo S in N om bre, como uma forma de tro-cadilho.(7 ,9 ,1 0 )

Também em 1 9 9 3 , conseguiu-se determinar o animal reservatório do vírus S in N om bre: um roedor conhecido como rato veadeiro (deer m ouse – Perom yscus m an icu-latus), capturado nas proximidades das moradias dos doen-tes acometidos.(4 ,1 1 ,1 2 ) No roedor o vírus determina infecção

crônica, aparentemente sem causar doença. As partícu-las virais são eliminadas através da saliva, fezes e, espe-cialmente, urina do animal.(1 2 )

Hantavírus e ro e do re s -re s e rvató rio

Hantavírus são RNA vírus esféricos, envelopados, me-dindo cerca de 8 0 a 1 2 0 nm. O RNA viral é de fita simples, trissegmentado e com polaridade negativa. Os segmen-tos de RNA são denominados: L (large – grande) que codi-fica a transcriptase viral, M (m edium – médio) que codifi-ca as glicoproteínas da cápside e S (sm all – pequeno) responsável pela codificação da proteína da nucleocápsi-de viral.(2 -4 ,7 )

O nome hantavírus refere-se ao Hantaan, primeiro ví-rus do gênero, descrito em 1 9 7 6 e que foi isolado de um roedor na Coréia, nas proximidades do rio com esse mes-mo nome.(1 3 ) Esse vírus causou cerca de 3 .7 0 0 casos de

FHSR, doença anteriormente conhecida como febre he-morrágica da Coréia e que acometeu a tropa dos Estados Unidos, que ali lutou na década de 5 0 .(1 4 ,1 5 )

Atualmente, a FHSR tem incidência de 1 0 0a 2 0 0 mil casos anuais, particularmente na China. Na Ásia, os han-tavírus encontram-se vinculados principalmente aos roe-dores da subfamília Muridae e na Europa, aos da subfa-mília A rvicolin ae.(1 4 -1 6 )

Dentre os hantavírus da Eurásia, o hospedeiro primá-rio do vírus H an taan é o rato do campo – A podem us agrarius. O vírus Dobrava, também causador de FHSR grave na Ásia e na Europa do Leste, associa-se ao roedor A podem us flavicollis e o vírus S eoul determina uma for-ma menos grave de doença, com fatalidade menor que 1 %, a qual tem sido identificada principalmente na Ásia, tendo como hospedeiro primário o R attus n orvegicus. Também o vírus Puum ala é responsável por uma forma leve de FHSR, especialmente na Escandinávia e Europa Oriental e possui como hospedeiro primário o roedor Cle-thrion om ys glareolus.(1 4 -1 6 )

Nas Américas, após 1 0 anos de estudos sobre a SPCVH, são conhecidos vários hantavírus. Na América do Norte o vírus S in N om bre parece ser o causador da maioria dos casos de SPCVH,(1 4 -1 8 ) enquanto que na América do Sul o

vírus A n des está implicado na determinação da maioria dos casos, no Chile e na Argentina.(2 0 -2 3 ) Diferenças

filo-genéticas entre as espécies de hantavírus associam-se, di-retamente, à distância geográfica entre os locais onde os vírus foram detectados.(1 9 -2 1 ,2 4 ,2 5 )

Os hantavírus causadores de SPCVH encontram-se as-sociados a roedores silvestres americanos da família Mu-ridae, subfamília S igm odon tin ae. Esta subfamília contém cerca de 4 3 0 espécies. Compreende roedores selvagens diferentes daqueles conhecidos no ambiente urbano, ori-ginários do Velho Mundo, como o rato doméstico, o rato negro e o rato norueguês (estes últimos da subfamília Mu-rin ae). No entanto, algumas espécies selvagens da subfa-mília S igm odon tin ae podem infestar habitações rurais e áreas suburbanas.(2 6 -2 8 ) Um terceiro grupo de roedores,

da subfamília A rvicolin ae, relaciona-se a outros hantaví-rus, os quais não causam SPCVH.(1 2 ,1 8 ,2 9 ,3 0 )

S iglas e abreviat uras ut ilizadas n est e t rabalho

ALT – Alanina transaminase DHL – Desidrogenase láctica

FHSR – Febre hemorrágica com síndrome renal Funasa – Fundação Nacional de Saúde

PAF – Fator de ativação plaquetária

RT-PCR – Reação de polimerização em cadeia para a transcrip-tase reversa

SDRA – Síndrome de desconforto respiratório agudo

(3)

O principal hospedeiro do vírus S in N om bre é o rato veadeiro (Perom yscus m an iculatus), roedor dissemina-do nas áreas rurais da maior parte dissemina-do território norte-americano, especialmente a oeste do Rio Mississipi.(1 2 ,1 8 , 1 9 ,3 0 ) Além do S in N om bre, outros hantavírus causadores

da SPCVH na América do Norte são o vírus N ew York , associado ao rato de pata branca (Perom yscus leucopus), o vírus Black Creek Can al, cujo hospedeiro é o ratinho do algodão (S igm odon hispidus) e o vírus Bayou , que infecta o rato do arroz (Oryzom ys palustris). O vírus Pros-pect H ill, também encontrado nos EUA, não se associa a doenças humanas.(1 4 ,1 5 ,1 7 ,1 8 )

Numerosas espécies de hantavírus têm associação com a SPCVH na América do Sul: Juquitiba, Castelo dos S o-n hos e A raraquara (Brasil);(2 5 ) Lagun a N egra (Bolívia e

Paraguai); Oran , Lechiguan as e Berm ejo (Norte e Cen-tro da Argentina), A n des (Chile e Argentina).(2 1 -2 3 ,2 6 ,2 7 ) No

Brasil, detectaram-se anticorp os contra hantavírus em A k odon sp (rato da mata), Oligoryzom ys sp (ratinho do arroz) e Bolom ys lasiurus sp (rato do rabo peludo).(2 8 ,3 1 )

Os hantavírus parecem ter sua evolução estreitamente relacionada com o roedor reservatório e parece haver uma surpreendente co-evolução entre o vírus e o roedor hospedeiro através de milhares de anos.(2 4 ,2 7 ,2 8 )

Encon-tram-se fragmentos genéticos do vírus incorporados no RNA mitocondrial dos roedores.(2 4 )

Os hantavírus pertencem à família viral Bun yaviridae. Ao contrário do que ocorre com os demais gêneros dessa família, não há evidências de transmissão por vetores ar-trópodes no gênero H an tavirus(1 4 ,1 5 ).

Trans m is s ão

A presença de hantavírus na saliva de roedores infecta-dos e a importante sensibilidade destes roedores à inocu-lação viral por via intramuscular fazem supor que a trans-missão horizontal, de roedor para roedor, deva ocorrer, possivelmente associada à competição por alimento en-tre os indivíduos da mesma espécie, geralmente em pe-ríodos de escassez que se seguem a pepe-ríodos de grande fertilidade.(3 ,1 1 ,2 9 ,3 2 ,3 3 ) Tal ocorrência dar-se-ia quando, a

condições de grande e rápida reprodução de roedores, sucede-se escassez alimentar que leva à maior competi-ção pela limitacompeti-ção de nutrientes. Durante o surto da re-gião de Four Corn ers, 3 0 % dos ratos capturados apre-sentavam-se infectados.(2 9 ,3 0 ) Os ratos machos adultos são

os mais infectados, provavelmente por seu comportamen-to mais competitivo e agressivo.(1 1 ,2 7 -2 9 )

A transmissão de hantavírus para o homem ocorre pela inalação de partículas virais aerossolizadas, presentes nos excrementos e saliva dos roedores.(1 1 ,1 2 ,1 8 ,2 9 ) Embora

in-freqüente, haveria também contágio por mordedura de animais contaminados, inoculação em pele ou mucosas apresentando solução de continuidade ou, ainda,

inges-tão de água ou alimentos contaminados pelo vírus(1 1 ,2 9 )

(Figura 1 ).

Embora nos roedores os hantavírus possam causar in-fecção por toda a vida, há um período de maior elimina-ção das partículas virais, que é de três a oito semanas pós-infecção. Outros pequenos mamíferos, predadores dos roedores, como cachorros, gatos e coiotes, também po-dem-se infectar, mas têm menor probabilidade de trans-mitir hantavírus para outros animais e seres humanos. No entanto, animais domésticos podem trazer roedores infectados capturados para o contacto com os seres hu-manos.(2 ,3 ,2 9 , 3 0 ,3 3 ,3 4 )

Em 1 9 9 6 , descreveu-se um surto por vírus A n des nas proximidades de Bariloche, Argentina. Após estudos epi-demiológicos e filogenéticos, pôde-se confirmar que hou-ve transmissão interpessoal do vírus, inclusihou-ve para cinco médicos e funcionários de serviço de saúde. Duas pes-soas contaminaram-se em Buenos Aires, após transfe-rência de pacientes da localidade inicial para hospital, nesta cidade, sem que tivessem visitado o local inicial do surto, o que despertou a suspeita, logo após confirmada, de transmissão interpessoal da SPCVH.(3 5 ,3 6 )

Ep ide m io lo g ia

Apesar de a descrição inicial da síndrome ter-se dado nos EUA, a América do Sul superou a do Norte em nú-mero de casos da SPCVH, principalmente pelas ocorrên-cias na Argentina, Brasil e Chile(3 4 ) (OPAS, 2 0 0 1 – Figura

2 ). Há evidências de que a infecção por vírus A n des em áreas suburbanas da Argentina e Chile possa ter estado presente e não identificada já há longo tempo.(2 8 )

No mesmo ano em que foi descrita a SPCVH, em 1 9 9 3 , relatou-se o primeiro surto no Brasil, na região de J uqui-tiba, em área recém-desmatada da Serra do Mar, onde moravam três irmãos que contraíram a doença no inter-valo de poucos dias. Este surto inicial resultou na morte de dois dos pacientes e na identificação do vírus

Juquiti-Roedor infectado cronicamente

Inalação dos vírus de excretas, particularmente urina Transmissão horizontal por

comportamento agressivo

Também por contato com membranas mucosas ou ferimentos em pele.

Transmissão das hantaviroses

Vírus Andes

(4)

0 5 10 15 20 25 30 35

PR SP SC M G RS M T PA BA GO M A RN Estados

N

ú

mero

d

e

cas

o

s

93-98

99

2000

2001

2002(10) ba.(3 7 ) Posteriormente, ainda no Estado de São Paulo,

observaram-se novos casos em Araraquara e Franca e ainda em Castelo dos Sonhos, no Estado do Mato Grosso, tendo sido identificados novos vírus do gênero H an -tavirus.(2 5 ,3 2 -3 4 ,3 8 )

Dados fornecidos pela Funasa permitem delinear o perfil epidemiológico da doença no Brasil. Nos anos iniciais, os casos relatados predominavam no Estado de São Paulo. Em 2 0 0 0 e 2 0 0 1 , observou-se grande número de casos no Paraná(3 9 ) e em Santa Catarina e no ano de 2 0 0 2

hou-ve distribuição mais homogênea dos casos nos Estados do Sul e Sudeste do país(3 8 ) (Figura 3 ).

O Estado com maior número de casos é o Paraná, de-vido ao importante surto de 2 0 0 0 / 2 0 0 1 , seguido por São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Figura 4 ).(3 8 ,3 9 ) De outubro de 1 9 9 3 a outubro de 2 0 0 2

foram notificados 2 2 6 casos de SPCVH no Brasil. Obser-vou-se número crescente de notificações da SPCVH e me-nor mortalidade nos anos mais recentes (Figura 5 ). A ca-suística brasileira mostra mortalidade média de cerca de 3 4 %. Não há predomínio quanto ao sexo e à faixa etária

mais afetada é a de adultos jovens, refletindo, talvez, a exposição a roedores durante a atividade laboral.(3 8 ,3 9 )

Múltiplos fatores devem ser levados em conta no estu-do epidemiológico desta zoonose emergente para que se

167

204 255

23 74 30

29 Panam á

B rasil

Paraguai

Uruguai Chile

11

B ol

í

via

EU A Canadá

Argentina

310

Figura 2 – Número de casos de SPCVH por países nas Américas, até 2001 (modificado da fonte: www. paho.org/English/HCP/HCT/ EER/Hantavirus2002.htm)

B ol

í

via

Figura 3 – Distribuição dos casos de SPCVH no Brasil, segundo ano e local de ocorrência

66

40

32 30 29 23

2 1 1 1 1

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70

PR SP MG RS SC MT PA BA GO MA RN

Estados

N

ím

er

o

de cas

os

Figura 4 – Distribuição dos casos de SPCVH no Brasil, segundo o Estado de notificação

Evolução dos casos de SPCVH Brasil 1993-2002

18 26

55 74 53

13 12 12

24 16

0 20 40 60 80 100 120 93-98 (72,22%)

99 (46,15%) 2000 (21,82%) 2001 (32,43%) 2002 (30,19%)

Ano de ocorrência (% de óbitos)

Número de casos

óbitos

total de número de casos

Figura 5 – Evolução dos casos de SPCVH no Brasil

Incidência de SPCVH por Estados e por ano de ocorrência Brasil 1993 a 30/10/2002

(5)

entenda seu surgimento. São importantes o estudo geo-gráfico e histórico da região, sua ocupação espacial, as estruturas de trabalho e produção, o padrão migratório, a composição étnica, a dinâmica do comportamento dos roedores e suas relações com os diferentes vírus, além de alterações do ecossistema e de seus determinantes am-bientais.(2 0 ,2 8 ,3 1 -3 3 ,4 0 ) Estudos com captura de roedores

sil-vestres no Estado de São Paulo mostraram que A k odon sp (rato da mata), Oligoryzom ys sp (ratinho do arroz) e principalmente Bolom ys lasiurus (rato do rabo peludo) têm sido encontrados apresentando anticorpos séricos para hantavírus e, provavelmente, seriam os reservatórios destes agentes causadores de SPCVH.(2 5 ,2 8 ,3 1 )

A ocorrência de casos estaria associada a aumento populacional ou modificação comportamental das popu-lações de roedores silvestres, provavelmente por desequi-líbrio em seus nichos ecológicos causado pela atividade humana. No Estado de São Paulo, a maioria dos casos de SPCVH costuma ocorrer entre abril e julho, período que corresponde ao início da estação seca, ao início da safra da cana-de-açúcar, com queimadas em canaviais e, tam-bém, à época do aparecimento de sementes no capim braquiária, muito apreciadas como alimento pelos roedores silvestres.(2 8 ,3 1 -3 4 ,4 1 ,4 2 ) No Estado do Paraná

determinou-se que atividades agrícolas relacionadas ao Pin us consti-tuem importante fator de risco para a aquisição da SP-C VH, que co stum a o co rre r, p re do m in a n te m e n te , n o segundo semestre.(3 9 )

Nos EUA, observou-se que algumas situações relacio-nam-se epidemiologicamente com a SPCVH e estão resu-midos no Quadro 1 .(3 ,1 1 ,2 6 ,2 9 ,3 0 ,4 3 )

Nas condições ambientais os vírus provavelmente so-brevivem por período menor que uma semana em am-bientes internos e por período menor ainda se expostos à luz do sol, em áreas externas.(4 2 ,4 3 )

O s hantavírus brasileiros associados à SPCVH foram detectados principalmente por amplificação de parte do genoma utilizando a RT-PCR (reação em cadeia de polime-rização com a transcriptase reversa). Os fragmentos ge-nômicos virais tiveram seus nucleotídeos seqüenciados e comparados com os de outros hantavírus, previamente conhecidos, em análises filogenéticas. Analisados por essa metodologia, os vírus A raraquara e Castelo dos S on hos mostraram homologia genômica de 7 8 ,5 % quando com-parados com os vírus sul-americanos A n des e Lagun a N egra, confirmando assim ser realmente hantavírus.(2 5 )

Além disso, os vírus A raraquara e Castelo dos S on hos mostraram entre si uma homologia genômica de 7 8 ,9 a 8 2 ,8 %, sugerindo ser dois vírus distintos que circulam no país em regiões distantes, possivelmente com diferentes roedores-reservatório.(2 5 )

Seqüências nucleotídicas de am plicon s obtidos por RT-PCR a partir do sangue de casos da SPCVH ocorridos na região de Ribeirão Preto, SP, mostraram alta homologia com o hantavírus A raraquara (8 7 ,7 % a 9 6 ,5 %), sugerin-do ser este o vírus responsável pela sugerin-doença naquela re-gião.(4 4 )

Curiosamente, estudos soroepidemiológicos analisan-do os níveis de infecção por hantavírus na população da região de Ribeirão Preto, SP, não corroboraram os dados epidemiológicos, observados nos pacientes com SPCVH, que mostram clara ligação com atividades ou contato com o meio rural. Em 1 9 9 9 , realizou-se inquérito sorológico que detectou anticorpos IgG contra antígenos recombi-nantes da proteína N do vírus S in N om bre por método de ELISA, no qual se testaram 5 6 7 soros, com o achado de positividade em 1 ,2 3 % deles.(4 5 ) Tais resultados

suge-rem não ser rara a infecção por hantavírus, na região de Ribeirão Preto, sendo sua freqüência mais que duas vezes maior do que a observada nos Estados Unidos, em popu-lações com alto risco de infecção por estes microorganis-mos.(3 ,4 3 )

Também foi possível entrevistar seis dos sete pacientes que apresentaram anticorpos para hantavírus, neste in-quérito sorológico, observando-se que todos negaram doenças pulmonares graves pregressas. Sugere-se, por essa observação, que a hantavirose possa produzir infec-ções humanas, manifestas de forma subclínica ou de forma mais branda que as originalmente descritas na região.(2 8 , 3 2 ,3 3 ,4 1 ,4 4 -4 6 )

Em 2 0 0 1 , dando continuidade a este estudo, realizou-se inquérito sorológico aleatório populacional no municí-pio de J ardinópolis. Participaram do estudo 8 1 8 indiví-duos com 1 5 a 7 0 anos de idade. Observou-se que 1 4 ,3 %

Q U AD RO 1

Situações relacionadas com a SPCVH

– Aumento de roedores na habitação

– Ocupação ou limpeza de locais previamente fechados onde haja infestação ativa por roedores

– Limpeza de silos ou outras construções externas

– M anipulação de excretas ou “ ninhos” de roedores

– Residência ou visita a locais onde tenha havido aumento no número de roedores ou casos de SPCVH

– Manipulação de roedores sem utilização de luvas

– Conservação de roedores selvagens aprisionados como ani-mais de estimação ou como objetos de pesquisa

– M anipulação de equipamentos e maquinaria estocados em locais infestados

– Exposição a dejetos de roedores em acampamentos e excur-sões

– Dormir ao relento, em contacto com o terreno

(6)

dos participantes apresentavam anticorpos IgG para o hantavírus A n des detectado por ELISA.(3 2 ,4 6 ) Não se

obser-vou predominância de soropositividade associada a sexo, idade, referência a contato com roedores ou antecedente de pneumonia grave. Esses resultados fazem supor que infecções por hantavírus sejam freqüentes, na região do estudo e, possivelmente, também em outras regiões do país. Esses resultados também poderiam indicar a coexis-tência de outro tipo de hantavírus, que causaria infecções humanas de menor gravidade ou subclínicas, que não se-riam suspeitadas ou diagnosticadas. Ou, ainda, poder-se-ia supor ser a doença grave, SPCVH, uma forma mais rara e determinada por algum fator, talvez genético, presente em uma minoria de indivíduos, dentro do vasto contin-gente de infectados.(3 2 ,4 2 ,4 4 -4 6 )

M

ANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

Apesar de no Brasil contabilizarmos mais de duas cen-tenas de casos da SPCVH, apenas algumas séries clínicas foram relatadas.(3 2 ,3 3 ,3 7 ,4 7 ,4 8 ) Utilizaremos como casuística

o somatório destas séries, de forma a melhor analisar o quadro clínico da SPCVH em nosso meio. Ressaltamos a série de 1 4 pacientes estudados em Ribeirão Preto(3 2 ,3 3 ) e

outra incluindo oito casos provenientes de Uberaba.(4 7 )

Também os três pacientes iniciais de J uquitiba(3 7 ) e um

caso de Anajatuba(4 8 ) serão considerados de forma a

tra-çar as semelhanças e peculiaridades da apresentação da SPCVH no Brasil.

P

ERÍODO DE INCUBAÇÃO

O estudo de pacientes com exposição bem definida e isolada a roedores permitiu estabelecer o período de in-cubação da SPCVH entre nove e 3 3 dias, com mediana de 1 4 a 1 7 dias. Também, determinaram-se atividades e com-portamentos de risco para a aquisição da doença.(4 9 )

F

ASE PRODRÔMICA

A evolução da SPCVH mostrou-se similar na maioria dos pacientes relatados no Brasil. Os sinais e sintomas no início do quadro incluíam febre, astenia e cefaléia. Na fase prodrômica os pacientes não apresentavam tosse, coriza, ou outros sintomas respiratórios. Também nesta fase, ocorriam calafrios, náuseas e vômitos, não sendo incomum a dor abdominal e a diarréia.

Nos EUA, em série de 4 4 pacientes relatados por Zaki et al.(5 0 ) a duração do pródromo febril foi de três dias em

média, e precedeu a procura de auxílio médico. Os sinto-mas mais freqüentemente relatados também foram febre e mialgia. Transtornos gastrointestinais como náuseas, vômitos e dores abdominais ocorreram em cerca de 5 0 %

dos casos. Nas epidemias de SPCVH causadas pelo vírus A n des, na Argentina, também observaram-se pródromos com febre, mialgia e queda do estado geral. Nesses pa-cientes, os sintomas gastrointestinais mostraram-se mais raros (5 %).(2 0 ,2 2 ,2 3 )

A mialgia nos casos brasileiros, ao contrário do obser-vado nos causados pelo vírus S in N om bre,(5 1 ) esteve

pre-sente em apenas 3 8 % dos casos.(3 2 ,3 3 )

Na fase prodrômica ocorre viremia e os níveis de antí-genos são tão elevados como na AIDS e na hepatite C, mas, apesar disso, é difícil o isolamento de hantavírus a partir de materiais biológicos provenientes de seres hu-manos.(5 2 ,5 3 )

F

ASE CARDIOPULMONAR

Após o terceiro dia de doença, surge, geralmente, tos-se tos-seca, que posteriormente tos-se torna produtiva, com es-carro róseo, mucossanguinolento e dispnéia, que inicial-mente é de leve intensidade, mas que na maioria dos casos, em menos de 2 4 horas, evolui para insuficiência respira-tória grave, necessitando muitas vezes da instituição de suporte ventilatório(3 ,3 2 -3 4 ,4 2 ,5 1 ) (Tabela 1 ).

Nos casos ocorridos no Brasil, a dispnéia aos mínimos esforços ou de repouso acompanhava-se de tosse com eliminação de secreção rósea, estertoração p ulmonar, taquicardia e hipotensão arterial, seguidas por colapso cardiocirculatório. Nesta fase da doença, além da hipoxe-mia, eleva-se o hematócrito, observa-se leucocitose com desvio à esquerda, linfócitos anormais ao esfregaço de sangue periférico e ocorre plaquetopenia. Também ele-vam-se os níveis de creatinina sérica, geralmente por di-minuição do fluxo sanguíneo renal.(3 2 -3 4 ,4 7 )

O aparecimento do edema agudo de pulmões e da de-pressão miocárdica, nos pacientes com SPCVH, associam-se à intensa reação imunológica com produção de anti-corpos neutralizantes do vírus e, também à ativação da resposta celular com liberação de citocinas, fator de ativa-ção plaquetária (PAF) e fator de necrose tumoral (TNF).(5 2 -5 4 )

As anormalidades laboratoriais observadas incluem, principalmente: elevação do hematócrito, leucocitose com desvio à esquerda, linfócitos anormais ao esfregaço e pla-quetopenia. Pode ocorrer elevação moderada das enzi-mas ALT (alanina-transaminase) e DHL (desidrogenase lác-tica).(1 8 ,3 2 -3 4 ,5 1 )

(7)

Quanto às formas mais graves de acometimento car-diopulmonar, Crowley et al., em 1 9 9 8 , através da análise retrospectiva dos casos tratados no Hospital Universitá-rio da Universidade de Novo México (centro de referên-cia para os pacientes da região de Four Corn ers), deter-minaram que a presença de qualquer um dos seguintes achados: índice cardíaco < 2 ,5 L/ min/ m2, concentração

de lactato sérico > 4 ,0 mmol/ L, atividade elétrica cardía-ca sem pulsação ou fibrilação ventricular ou taquicardía-cardia ventricular, e choque refratário à administração de volu-me e de aminas vasoativas, relacionava-se com mortalida-de mortalida-de 1 0 0 %.(5 5 )

F

ASE DECONVALESCENÇA

A convalescença dos pacientes com SPCVH, especial-mente daqueles que necessitaram de intubação orotra-queal com ventilação mecânica, costuma ser prolongada, levando algumas semanas, principalmente devido à es-poliação nutricional conseqüente à doença grave e, tam-bém, conseqüente a pneumonias hospitalares.(3 ,1 8 ,3 3 ,3 4 )

A avaliação médica tardia dos casos de SPCVH tem

mostrado seqüelas como fadiga crônica e restrição da fun-ção pulmonar, com repercussões na qualidade de vida de mais que 3 0 % dos pacientes na América do Norte.(5 6 )

No Brasil, dois pacientes que sobreviveram à SPCVH, de ambos os sexos e com 1 6 anos e 3 1 anos, foram ambos reavaliados, 3 0 meses após o quadro agudo. Eles não referiram nenhuma intercorrência ou queixa após a alta hospitalar. Ao exame clínico não se evidenciou nenhuma alteração patológica. Tomografias de tórax de ambos os pacientes foram normais e testes de função pulmonar também mostraram resultados dentro dos limites da nor-malidade.(3 2 )

D

IAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Fazem diagnóstico diferencial com a SPCVH: as pneu-monites virais, como a por Influenza e pelo Sarampo, as pneumonias atípicas por Micoplasma e Legionelose, a Leptospirose, Febre Q, Tularemia, a Peste Septicêmica, a Histoplasmose, Dengue Hemorrágico e, nos pacientes imunocomprometidos, a pneumonia por Pn eum ocystis carin ii e as infecções por citomegalovírus, Cryptococcus e A spergillus.(5 ,8 ,1 8 ,3 3 ,3 4 ,5 1 )

A ausência de sintomas nasais como rinorréia, espirros e obstrução, durante a fase prodrômica, facilita o diferen-cial com viroses respiratórias altas.

Em nosso meio, a pneumonia por Pn eum ocystis cari-n ii como primeira macari-nifestação da AIDS e o Dengue

He-TABELA 1

Apresentação clínica e desfecho dos casos de SPCVH relatados no Brasil

Paciente/ Sexo Idade SaO2 inicial AA Choque/ Suporte U so de Evolução

série (% ) hipotensão ventilatório AVA

JQT1 M 18 NI N N N Cura

JQT2 M 20 NI S VM S Óbito

JQT3 M 16 NI S VM NI Óbito

RP1 M 55 61 S VM S Óbito

RP2 M 38 53 S VM S Óbito

RP3 M 54 96 N VM S Óbito

RP4 M 26 NI S VM S Óbito

RP5 M 29 71 S VM S Cura

RP6 F 13 72 S VM S Cura

RP7 M 21 82 S VM S Cura

RP8 M 32 73 N VM F N Cura

ANJ1 F 19 NI NI NI NI Óbito

UB1 M 45 < 90% (paO2 = 55) S VM S Óbito

UB2 F 22 < 90% (paO2 = 40) S VM S Óbito

UB3 M 19 < 90% (paO2 = 48) S VM S Óbito

UB4 M 47 < 90% (paO2 = 48) N MF N Cura

UB5 M 62 < 90% (paO2 = 50) S VM S Óbito

UB6 M 24 < 90% (paO2 = 49) S MF S Cura

UB7 M 26 < 90% (paO2 = 57) S MF S Cura

UB8 M 32 < 90% (paO2 = 49) S MF N Cura

RP = casos relatados em Ribeirão Preto(8,9), U B = casos relatados em U beraba(48), JQ = casos iniciais de Juquitiba(3), AN J = caso relatado em Ananjatuba(47).

(8)

morrágico em casos com derrame p leural mostram-se importantes doenças para o diagnóstico diferencial com SPCVH.(3 2 -3 4 )

A

PRESENTAÇÕES ATÍPICAS

Recentemente, Passaro et al. descreveram um caso de pielonefrite que posteriormente evoluiu com insuficiência respiratória e óbito, sendo confirmado o diagnóstico de SPCVH pelo vírus S in N om bre, através de sorologia posi-tiva e seqüenciamento gênico viral, realizado pelo CDC.(5 7 )

Zavasky et al., em 1 9 9 9 , publicaram o relato de dois casos em que a infecção pelo vírus S in N om bre não cau-sou alterações respiratórias, alertando para a possibilida-de possibilida-de um mais amplo espectro da doença.(5 8 )

Em nosso meio, como se pode inferir pelos inquéritos sorológicos populacionais e à semelhança do que ocorre em outros países da América do Sul,(2 1 ,2 7 ) deve haver

for-mas mais brandas ou subclínicas da doença, que não são diagnosticadas.(3 2 ,4 2 ,4 5 ,4 6 )

D

IAGNÓSTICO RADIOLÓGICO

A caracterização e o reconhecimento das alterações radiológicas da SPCVH são importantes na identificação e auxiliam, ainda, na determinação do prognóstico da sín-drome.(5 9 )

J á em 1 9 9 4 , Ketai et al. publicaram estudo de uma série de 1 6 pacientes com quadro clínico e confirmação laboratorial de SPCVH,(6 0 ) conforme definição do CDC.(6 1 )

Em 1 3 desses pacientes (8 8 %) foram observadas alteções radiológicas indicativas de edema intersticial na ra-diografia de tórax inicial, como: presença de linhas B de Kerley, espessamento peribronquiolar e borramento do

contorno hilar pulmonar (Figura 6 ). Tais alterações são menos evidentes na SDRA e ajudam no diagnóstico dife-rencial.(6 2 ,6 3 )

Outros três pacientes apresentavam radiografias de tó-rax inicialmente normais mas, nas 4 8 horas subseqüen-tes, desenvolveram-se sinais de edema intersticial em to-dos os pacientes.(6 0 )

Quatro pacientes manifestaram primordialmente doen-ça intersticial durante todo o curso da doendoen-ça e todos sobreviveram,(6 0 ) indicando que a não progressão para

preenchimento alveolar pode ser um marcador de me-lhor prognóstico na SPCVH.

Seis pacientes possuíam radiografia de tórax inicial com alterações de preenchimento alveolar. Após as primeiras 4 8 horas, 1 1 pacientes apresentaram infiltrados alveola-res bilaterais e extensos (assim considerados quando en-volvendo mais da metade de ambos os campos pulmona-res). Todos esses p acientes ap resentaram quadro de desconforto respiratório, oito necessitaram suporte ven-tilatório artificial e seis faleceram,(6 0 ) indicando pior

prog-nóstico nas formas extensas do acometimento alveolar (Figura 7 ).

Também todos os pacientes possuíam índice cardio-torácico menor que 5 5 %, portanto, sem sinais de aumento das câmaras cardíacas. O pedículo vascular encontrava-se de tamanho normal em 1 4 pacientes(6 0 ,6 2 ) (considerada

espessura normal de até 5 ,3 cm na radiografia em pé e até 6 ,3 cm nas radiografias em posição supina(6 4 )).

Efusão pleural também é comum. Na série relatada es-teve presente em 1 1 pacientes. Era já visível na radiogra-fia inicial em dois e desenvolveu-se, nas primeiras 4 8 horas de observação, em nove pacientes.(6 0 )

Como características distintivas da SDRA,(6 0 ) os autores

salientaram a ausência de distribuição periférica do infil-trado alveolar e a presença de edema intersticial no início

Figura 7 – Radiografia de tórax de paciente com forma grave de SPCVH mostrando infiltrados alveolares bilateralmente

(9)

da SPCVH. Estudo anterior(6 3 ) sobre alterações

radiológi-cas na SDRA encontrou presença de espessamento peri-bronquiolar e linhas B de Kerley em menos de 1 0 % de sua casuística. Também o aparecimento precoce de der-rame pleural é raro na SDRA.(6 2 -6 4 )

O p reenchimento alveolar subseqüente ap arece na maioria dos pacientes com hantavirose pulmonar e tende a ter distribuição basilar e peri-hilar ao invés de periféri-ca, como mais freqüentemente observado na SDRA.(6 2 ,6 3 )

Em recente estudo, realizado no Canadá por Boroja et al., não se observou mortalidade nos pacientes com for-mas não extensas de alterações radiográficas, em que houve predomínio de padrão intersticial ou interstício-al-veolar.(5 9 )

D

IAGNÓSTICO LABORATORIAL ETIOLÓGICO

O diagnóstico laboratorial dos casos humanos de han-tavirose, no Brasil, é comumente feito por método soro-lógico de ELISA, que visa a detecção de anticorpos princi-palmente do tipo IgM, associados a infecção recente. Tal diagnóstico é possível, mesmo na fase aguda da doença, porque os anticorpos, na SPCVH, surgem com o apareci-mento dos sinais e sintomas.(2 ,3 ,2 3 ,2 7 ,3 3 ,3 4 ,4 3 )

Métodos sorológicos que detectam anticorpos específi-cos, do tipo IgG, têm sido mais utilizados em inquéritos populacionais. Utilizam-se, nesses testes, antígenos dos hantavírus S in N om bre(6 5 ) (EUA) ou A n des (Argentina).(6 6 )

Esses antígenos são produzidos por purificação direta do material viral, após inativação ou, preferencialmente, são proteínas recombinantes produzidas em bactérias, como a N ou a G1 da superfície viral. Ambas são importantes antígenos virais.

Outros métodos sorológicos menos utilizados no diag-nóstico das hantaviroses são: a imunofluorescência indi-reta com células infectadas por hantavírus em spot-slides e o W estern blot.(6 7 )

A metodologia de RT-PCR, que detecta o genoma de hantavírus em materiais clínicos, mostra-se extremamen-te útil e prática para o diagnóstico da SPCVH. Trata-se de metodologia simples, de rápida realização e que pode ser feita em laboratórios sem condições especiais de segu-rança, as quais são recomendadas para o isolamento de hantavírus em culturas celulares.(3 ,4 3 ) Para a RT-PCR,

ex-trai-se o RNA do sangue total ou soro do paciente. Mate-riais provenientes de roedores também podem ser pro-cessados dessa forma. Em seguida, utilizando o extrato de RNA do material clínico, guiado por iniciador (prim er) específico para uma região do genoma de hantavírus e com auxílio da enzima transcriptase reversa (RT), trans-forma-se o fragmento de genoma viral em DNA comple-mentar e, este, por sua vez, orientado por um par de prim ers, é amplificado milhões de vezes pela reação em

cadeia da polimerase (PCR), em ciclos térmicos que utili-zam a enzima termorresistente TaqDNA polimerase. A pre-sença do segmento genômico viral amplificado pode, as-sim, ser detectada p or uma simp les reação de leitura química.

Para a realização de RT-PCR, deve-se encaminhar ao laboratório o material clínico em, no máximo, 1 2 horas após a coleta. As amostras devem ser conservadas à tem-peratura de geladeira comum (4oC) durante seu transporte.

Também podem-se armazenar amostras, por longos pe-ríodos, em nitrogênio líquido ou em “freezers” a –7 0oC.(6 1 )

O produto amplificado da PCR pode ter seus nucleotí-deos seqüenciados e, por comparação com genomas co-nhecidos de hantavírus, pode-se obter informação sobre qual é o vírus causador do quadro ou pode-se determinar seu relacionamento filogenético com outros microorga-nismos do mesmo gênero, inclusive permitindo inferên-cias quanto a seus roedores-reservatório.(3 ,2 5 ,2 7 ,2 8 )

Todos os hantavírus causadores de SPCVH, no Brasil, tiveram seu genoma detectado por RT-PCR, não tendo havido isolamento viral em cultivo celular.(2 5 ,2 8 ,4 4 )

A análise filogenética dos hantavírus das Américas mostra que os vírus brasileiros Juquitiba, Castelo dos S on h os, A raraqu ara são muito semelhantes a outros hantavírus sul-americanos, particularmente ao vírus ar-gentino A n des e ao Lagun a N egra.(2 5 )

O isolamento de hantavírus deve ser realizado em labo-ratório com equipamentos de segurança de nível 3 , que protegem contra eventuais acidentes nos quais o microor-ganismo possa sair do recinto onde os materiais contami-nados estão sendo processados e, também, protegem os trabalhadores do laboratório quanto à contaminação com estes microorganismos.(4 3 ,4 4 ) O isolamento viral, a partir

de materiais biológicos de pacientes com SPCVH ou de roedores, costuma ser feito por inoculação destes mate-riais em cultura de células de rim de macaco verde africa-no: VERO-E6. Os vírus, assim eventualmente isolados, po-dem ser identificados por métodos de imunofluorescência ou de RT-PCR.(4 3 ,4 4 ,6 7 ,6 8 )

D

IAGNÓSTICO LABORATORIAL

Como os métodos de diagnóstico definitivos para SPCVH, a saber, sorológicos e de detecção viral, não se encon-tram disponíveis em laboratórios de análise comuns, as alterações laboratoriais mais freqüentemente encontradas nos pacientes com SPCVH podem e devem servir como um indicador de alta suspeição para a doença.(3 ,1 8 ,2 7 ,3 2 -3 4 )

(10)

que, durante a fase prodrômica, a plaquetopenia é a úni-ca anormalidade consistentemente observada, devendo ser interpretada como uma indicação para a realização das provas sorológicas específicas.(6 9 ) Adicionalmente

de-terminaram que o encontro de quatro das cinco seguintes características apresentadas no Quadro 2 fazia com que se diagnosticasse a SPCVH com sensibilidade de 9 6 % e

Q U AD RO 2

Alterações laboratoriais mais freqüentes encontradas nos pacientes com SPCVH

– Plaquetopenia (< 150.000/µL)

– Hemoconcentração (Ht > 50 para o sexo masculino e > 48 para o sexo feminino)

– Mielocitose (neutrofilia com maior número de formas jovens)

– Ausência de granulações tóxicas em neutrófilos e

– Presença de mais de 10% de linfócitos com características morfológicas de imunoblastos (linfócitos com tamanho au-mentado – de 15 a 25µm – duas a três vezes o diâmetro de um linfócito normal, com citoplasma abundante e basofílico, núcleo reticular e aumentado com cromatina uniforme e, usualmente, predominantes na periferia da lâmina de esfre-gaço sanguíneo).

Figura 8 – Fluxograma para diagnóstico de SPCVH no Brasil

especificidade de 9 9 %, não havendo falso-negativos en-tre os pacientes que futuramente evoluíram com formas mais graves, necessitando de internação em UTI. Deter-minaram também que a plaquetopenia era o único acha-do, consistentemente observaacha-do, durante a fase prodrô-mica da doença.(6 9 )

Baseados nesse estudo e também nos dados epidemio-lógicos das alterações mais freqüentemente encontradas nos pacientes, em nosso meio, Figueiredo et al.(5 ,9 ,4 3 ) e

Campos et al.(3 2 ,4 6 ) desenharam um fluxograma para a

presunção diagnóstica da SPCVH (Figura 8 ).

A decisão de internação em ambiente de terapia inten-siva tem-se mostrado importante na determinação da so-brevida dos pacientes. Assim, tenta-se rastrear precoce-mente os casos de provável pior evolução clínica, para disponibilizar-lhes os suportes adequados de UTI.

Como anteriormente citado, o padrão radiológico de acometimento alveolar extenso determina mau prognós-tico clínico,(5 9 ,6 0 ) bem como os quadros de falência

hemo-dinâmica.(5 5 )

(11)

pacientes que desenvolveram SPCVH, especialmente nos casos mais graves e fatais. Nos que sobreviveram, o nú-mero de partículas virais decresceu paralelamente à reso-lução da febre.(5 3 )

D

IAGNÓSTICO ANATOMOPATOLÓGICO

Materiais da necropsia de casos fatais da SPCVH, como fragmentos de pulmão e outros órgãos, podem ser pro-cessados por método imunohistoquímico e de hibridação visando a detecção da presença do hantavírus, através de sua visualização em microscópio. Também pose de-tectar o genoma viral em tecidos por RT-PCR.(5 0 ,7 0 )

Estudos realizados logo após o surto inicial, nos EUA, conseguiram determinar as principais características pa-tológicas da síndrome.(5 1 ,7 0 ) Nesses estudos, amostras

te-ciduais de pacientes com SPCVH foram examinadas atra-vés de técnica imunohistoquímica utilizando anticorpos monoclonais específicos (especialmente GB0 4 -BF0 7, que reage com todos os sorotipos de hantavírus conhecidos) e anticorpos policlonais do soro de pacientes convales-centes.

Zaki et al. observaram 4 4 casos fatais de SPCVH. De-terminaram que há envolvimento de múltiplos órgãos com graus variáveis de congestão vascular. A principal carac-terística histopatológica, no entanto, foi o acometimento p ulmonar p or uma p neumonite de intensidade leve a moderada, presente em 4 0 dos 4 4 casos. Observaram graus variáveis de edema, congestão vascular e infiltrado mononuclear. Também, caracteristicamente, houve ausên-cia de trombos vasculares e de necrose ou alterações morfológicas de células endoteliais. O epitélio respirató-rio encontrava-se intacto, sem que se observassem altera-ções nos pneumócitos tipo I, sem evidências de debris celulares, fragmentação nuclear ou hiperplasia de pneu-mócitos II.(5 0 )

As células endoteliais também encontravam-se intac-tas, mas partículas virais eram freqüentemente observa-das em seu interior. As paredes alveolares pareciam es-pessadas pela presença de abundante material proteináceo extravasado e eritrócitos. No interior dos alvéolos pode-se obpode-servar grande quantidade de fluido e raras membra-nas hialimembra-nas, mas o infiltrado celular intra-alveolar e debris celulares, típicos da SDRA, estavam ausentes na SPCVH.(5 0 ,7 0 )

O infiltrado celular mononuclear era composto por cé-lulas de volume aumentado, com aparência de imuno-blastos. A caracterização do tipo celular foi realizada em cinco pacientes e mostrou ser uma mistura de linfócitos T ativados (CD3 +) e células de linhagem monocítica/ macro-fágica (KP1 e Ki-M1 P +), com pouca contribuição de neu-trófilos para o infiltrado celular.(5 0 )

A presença do infiltrado imunoblástico, típico da SPCVH, é importante no diagnóstico diferencial com a AIP (acute

in terstitial pn eum on ia). Na AIP também se podem ob-servar evidências histológicas de organização e seu curso clínico geralmente é mais prolongado e protraído.(7 1 )

A presença de imunoblastos também é freqüente no baço, especialmente na polpa vermelha e no espaço pe-riarteriolar, e em linfonodos, na região paracortical e si-nusoidal.(5 0 ,7 0 ) A medula óssea apresenta-se com

modera-do aumento de celularidade, com proeminente desvio à esquerda na mielopoiese.(5 0 )

F

ISIOPATOLOGIA

Nos estudos de anatomopatologia conseguiu-se deter-minar que há um tropismo viral pelas células endoteliais, sendo observadas partículas virais por métodos histoquí-micos e por microscopia eletrônica em células do endoté-lio capilar em vários tecidos. A microscopia eletrônica também demonstrou a pobreza de efeitos citopáticos nes-sas células.

A principal alteração observada na SPCVH é o aumento da permeabilidade vascular, que explicaria o edema pul-monar, a hemoconcentração e o colapso circulatório en-contrados na síndrome.(5 1 ,7 0 ,7 1 )

Nos pulmões postula-se que o epitélio alveolar, perma-necendo intacto, retarda o preenchimento dos espaços alveolares, mantendo grande parte do líquido extracelu-lar no interior do interstício pulmonar, explicando a proe-minência de edema intersticial com linhas B de Kerley e espessamento peribronquiolar, observados inicialmente à radiografia de tórax(5 0 ,6 0 ) (Figura 6 ).

Nas FHSR, por outro lado, há predominância de altera-ções vasculares no compartimento retroperitoneal, incluin-do os rins.(7 1 )

Ambas as doenças humanas causadas por hantavírus, a SPCVH e a FHSR, resultariam de defeitos na função en-dotelial e plaquetária. A patogênese desses defeitos pare-ce ser mediada pela interação entre as glicoproteínas vi-rais e beta-3 -integrinas presentes nas células endoteliais e em p laquetas.(3 2 -3 4 ,7 2 ,7 3 ) Pelo fato das beta-3 -integrinas

consistirem de receptores críticos de adesividade em pla-quetas e em células endoteliais, e por regularem a per-meabilidade vascular e a adesão e ativação plaquetárias, é provável que a utilização desses receptores pelos hanta-vírus seja fundamental para a determinação de seus efei-tos patogênicos.(7 2 ,7 3 )

A resposta imune humoral parece ser importante na determinação da sobrevida. Há resposta precoce com a produção de IgM, IgA e IgG. O pico de detecção de IgM coincide com um a dois dias do estabelecimento dos sin-tomas e o pico de IgG ocorre na primeira semana da doença, enquanto que a IgA tem sua resposta máxima por volta do 1 5o dia. Ausência ou baixos títulos de IgG

(12)

Técnicas de coloração imunohistoquímica têm sido rea-lizadas para o estudo de material de necropsia de pacien-tes falecidos por SPCVH. Mori et al., em 1 9 9 9 , descreve-ram o encontro de grande número de células produtoras de citocinas (monocinas: IL-1 -alfa, IL-1 -beta, IL-6 e TNF-alfa; linfocinas: interferon-gama, IL-2, IL-4 e TNF-beta) em pul-mões e baço de pacientes falecidos em decorrência da SPCVH, o que sugere que a produção local de citocinas tenha papel importante na patogênese da síndrome. Em contraste, os autores observaram pequena quantidade ou ausência de células produtoras de citocinas em pulmões de pacientes falecidos por SDRA e outras patologias.(5 4 )

T

RATAMENTO DESUPORTE

Vale a pena ressaltar que a suspeita clínica e o conheci-mento das manifestações precoces da síndrome são es-senciais para que se transfira o paciente precocemente para a unidade de terapia intensiva, pois a probabilidade de sobrevida aumenta com a adoção de medidas agressi-vas de suporte cardiorrespiratório.(3 ,1 8 ,2 7 ,3 2 -3 4 )

A assistência ventilatória e a hemodinâmica são cruciais nos casos mais graves. Geralmente são necessárias a in-tubação traqueal e a ventilação mecânica com pressão positiva.

O ajuste hemodinâmico também tem grande importân-cia e, nos casos de colapso circulatório concomitante à insuficiência respiratória, indica-se a monitorização atra-vés da instalação de cateter em artéria pulmonar (Swan-Ganz), para melhor documentar o perfil hemodinâmico da síndrome: baixo índice cardíaco e volume sistólico, pressão de artéria pulmonar ocluída normal ou baixa e alta resistência vascular periférica.(8 ,5 5 ) A monitorização

hemodinâmica também é útil na criteriosa reposição volê-mica e na adequação do suporte pressórico.(3 ,8 ,1 8 ,2 7 ,3 2 -3 4 ,5 5 )

A análise dos volumes infundidos por via parenteral em 1 0 pacientes com SPCVH mostrou haver associação significante (p = 0 ,0 1 5 2 ) entre volumes sup eriores a 2 .5 0 0 ml, utilizados nas primeiras 2 4 horas de tratamen-to hospitalar, e a evolução para o óbitratamen-to.(3 2 ) Nesses

pacien-tes, o líquido infundido tenderia a se concentrar nos pulmões, agravando, ainda mais, a insuficiência respira-tória.(5 ,2 4 ,2 5 ,3 4 ) Assim, no contexto da SPCVH, é imp

ortan-te que a estabilização hemodinâmica seja realizada atra-vés da administração criteriosa de drogas vasoativas, p referindo-se a dobutamina, associada ou não à nora-drenalina, p or seus efeitos em resistência vascular p eri-férica.

Quanto à abordagem ventilatória, deve haver preferên-cia pelas estratégias de proteção pulmonar, evitando-se a utilização de altas frações inspiradas de oxigênio e limi-tando-se à pressurização em vias aéreas para evitar a ocor-rência de volu, baro e biotraumas.(7 4 ,7 5 )

T

RATAMENTO ESPECÍFICO

Com base em estudo clínico, realizado na China, de 1 9 8 5 a 1 9 8 7 , que aplicou ribavirina endovenosa em 2 4 2 pacientes com FHSR por hantavírus, notando decréscimo de quatro vezes na mortalidade do grupo tratamento (2 % em 1 2 5 pacientes tratados x 8 % em 1 1 7 pacientes trata-dos com placebo), tem-se utilizado esse medicamento para o tratamento da SPCVH, embora sua eficácia ainda não esteja estabelecida.(7 6 )

A droga é eficaz in vitro contra os hantavírus, mas ain-da não há comprovação dessa eficácia in vivo. Parece provável que a droga não tenha tempo de agir se admi-nistrada durante a fase clínica cardiopulmonar, em que predominam os mecanismos imunológicos.(7 6 ,7 7 )

Atualmente, encontra-se em fase III um estudo aleato-rizado, duplo-cego, placebo-controlado, comparando a efetividade da droga versus placebo no tratamento da SPCVH. A ribavirina, nesse estudo, é utilizada em maiores de 1 2 anos, em 1 5 doses de 1 6 mg/ kg, com periodicida-de periodicida-de seis em seis horas, após um bolus inicial com 3 0 mg/ kg e, posteriormente, nove doses administradas de oito em oito horas na posologia de 8 mg/ kg. O estudo é coor-denado pelo CDC – EUA e, no momento, está ainda recru-tando pacientes, não havendo resultados compilados. O principal efeito adverso consiste em anemia reversível com a interrupção da droga.(7 6 )

P

REVENÇÃO

As estratégias de prevenção são de grande importân-cia para o controle dessa grave síndrome. A erradicação dos hospedeiros roedores não é factível, nem desejável, pela alteração importante que esta medida poderia indu-zir em seu ecossistema.(3 ,2 7 ,2 8 ,3 4 ,4 3 )

A maneira mais eficaz de diminuir o risco de SPCVH consiste em limitar a exposição humana aos roedores in-fectados ou a locais fechados onde haja infestação ativa por esses animais. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC – 2 0 0 2 ) publicou recentemente orientações detalhadas dos cuidados para o controle de infestação de roedores e da doença.(4 3 )

A publicação inclui orientações específicas para a pre-venção de contacto com roedores, para a eliminação de infestações por esses animais, para a limpeza de áreas com dejetos ou roedores mortos e para o trabalho em locais onde houve infecção confirmada ou infestação grave por esses animais.(4 3 )

(13)

Em geral, suspeita-se de infestação por roedores pela observação direta de animais, pelo encontro de seus “ni-nhos” ou fezes (estas são pequenas e ovais como grãos de arroz e de coloração escura), ou ainda pela evidência de marcas de roedura em alimentos e outros objetos.(2 7 ,2 8 ,3 2 -3 4 ,4 -3 )

Nas áreas onde há relatos de casos, deve-se orientar a população sobre como limpar e lidar com dejetos e roe-dores mortos. Antes de entrar em locais infestados é acon-selhável arejar o ambiente por algumas horas. Não se deve varrer ou aspirar os dejetos, pois isso causa maior aerolização das partículas.(3 ,3 4 ,4 3 )

É importante também a orientação quanto à exposição recreacional a roedores, especialmente em acampamen-tos, excursões e atividades rurais. Não se deve dormir ao relento, nem sobre a grama, sem forrações ou tendas. Deve-se conservar o lixo em locais tampados e longe da barraca de cam pin g. Os gêneros alimentícios devem per-manecer guardados em recipientes vedados, para não atrair os roedores.(1 8 ,4 3 )

Em residências localizadas em áreas infestadas é im-portante conservar pias e pratos sempre limpos, descar-tar o lixo em recipientes tampados e conservar caixas, roupas e outros objetos fora do contacto com o chão, para evitar que aí os ratos se aninhem.(4 3 )

Nas habitações de área rural é interessante orientar para cuidados com o armazenamento de ração e água para animais, não deixando que permaneçam disponíveis no período da noite. Toda fonte de alimento para roedores deve ser removida das cercanias da residência, assim como lixo, veículos abandonados, pneus velhos, etc., que po-dem servir de local para que os roedores façam seus ni-nhos. Deve-se alertar para que áreas como hortas e vivei-ros de animais, assim como pilhas de lenha, tijolos, pedras e outros materiais, fiquem a, pelo menos, 5 0 metros de distância da residência. As áreas de armazenamento, como galpões e silos, devem ser vedadas para evitar a entrada de roedores e freqüentemente ventiladas. Não se deve armazenar colheitas ao ar livre.(3 ,1 8 ,3 2 -3 4 ,4 3 )

A utilização de ratoeiras e raticidas favorece o controle da população de roedores, nas áreas de infestação. Deve-se orientar para que as armadilhas Deve-sejam colocadas até uma semana após o aprisionamento do último rato. Para descartar as armadilhas e os animais aprisionados, é im-portante calçar luvas de látex ou vinil. Antes de coletar o material, deve-se embeber os dejetos ou os roedores mor-tos em solução de hip oclorito de sódio (solução 1 :1 0 preparada no mesmo dia de sua utilização). Soluções de-tergentes ou comuns de limpeza também podem ser utili-zadas, pois as partículas virais possuem envelope lipídico, sendo inativadas por esta medida.(4 3 )

O material coletado deve ser colocado em embalagem plástica dupla e vedada. Para descartar o material,

deve-se enterrá-lo em buracos com 7 0 -9 0 cm de profundidade, ou queimá-lo, ou ainda colocá-lo em local tampado, apro-priado para coleta regular de lixo.(1 8 ,4 3 )

Nas áreas infestadas por roedores, deve-se proteger os seus predadores naturais, como cobras não venenosas e corujas. Em locais com infestação importante, além dos cuidados descritos acima, é importante acrescentar às pre-cauções o uso de óculos de proteção e de máscaras com filtro de partículas aéreas de alta eficiência (high efficien -cy particulate arrest ). Em áreas com infestação persis-tente é necessário, por vezes, contactar profissionais es-pecializados no controle de pestes e roedores.(4 3 )

Na região Oeste dos EUA, onde ocorre o risco de con-taminação pela peste, através de pulgas, é importante a orientação do uso de repelentes em roupas, calçados e mãos antes de colocar as armadilhas para os roedores.(1 8 ,4 3 )

As recomendações para o controle dos roedores e da infecção por hantavírus encontram-se pormenorizadas e atualizadas no site do CDC: A ll about han tavirus(1 8 ) e

po-dem ser fornecidas através do contacto com o CDC, N ati-on al Cen ter for In fectious Diseases (NCID), S pecial Pa-thogen s Bran ch, e-mail: dvd1 [email protected].

É interessante ressaltar a possibilidade de transmissão interpessoal de vírus assemelhados ao A n des, devendo-se instituir precauções de isolamento respiratório e geral no cuidado com os pacientes, além das medidas univer-sais de controle de infecções.

V

IGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA

Suspeita-se de hantavirose quando se observa quadro febril seguido por síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), sem que haja fatores predisponentes que a expliquem. Também são suspeitos os quadros febris em que há evolução radiológica com infiltrado bilateral e com necessidade de suplementação de oxigênio. Deve-se pes-quisar a SPCVH quando se observa à necropsia a presença de edema pulmonar não cardiogênico ou quando não haja causa m ortis específica identificável.(3 ,1 8 ,2 7 ,4 3 ,6 1 )

Em áreas onde se confirmam casos de SPCVH, pode-se ampliar a vigilância incluindo também o rastreamento de casos febris com discreto acometimento pulmonar ou com presença de doença renal e outras síndromes febris.(6 1 )

Devem ser tomados cuidados no transporte de amos-tras para pesquisa laboratorial, utilizando-se embalagens inquebráveis, para evitar exposições inadvertidas. Tam-bém é importante, durante o transporte, a identificação do conteúdo como material biológico contaminado.(4 3 )

(14)

N

OTIFICAÇÕES

No Brasil, os casos suspeitos de SPCVH devem ser noti-ficados à Vigilância Epidemiológica do município de ocor-rência. Os relatos epidemiológicos periódicos são forne-cidos p ela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O s laboratórios de virologia licenciados para o diagnóstico de hantavirose são o do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, SP (tel. 1 1 3 0 6 8 -2 9 0 4 ) e o do Instituto Evandro Chagas, em Belém, PA. Entretanto, à medida que au-mentam os casos notificados e se descobre ser freqüente a infecção por hantavírus, em nosso país seria interes-sante que um número maior de laboratórios atuasse pro-movendo esse diagnóstico.

Nos EUA, o CDC (Cen ters for Disease Con trol an d Preven tion – www.cdc.gov./ ncidod/ diseases/ hanta/ hps/ index/ htm) elabora periodicamente os dados epidemio-lógicos acerca da SPCVH.

P

ERSPECTIVAS

Recentemente Hooper et al. desenvolveram um mo-delo animal de SPCVH, causando infecção e doença letal por vírus A n des num tipo de hamster, conhecido como hamster sírio. As características da doença nos hamsters, incluindo período de incubação, desenvolvimento rápido e progressivo de insuficiência respiratória, e os achados patológicos de edema pulmonar e derrame pleural, são muito semelhantes à SPCVH em humanos.(7 8 ) O modelo

animal cria perspectivas para o melhor conhecimento da fisiopatologia e imunomodulação da doença e, assim, para o controle do edema pulmonar e do choque a ela associa-dos. Também o desenvolvimento de vacinas ficará facili-tado em estudos com modelo animal.(7 8 ,7 9 )

Tendo em vista o mecanismo de patogênese viral, ou-tra importante vertente de estudos é a determinação da proteína de ligação viral e o desenvolvimento de anticor-pos que a reconheçam e bloqueiem sua interação com as integrinas.(7 9 )

Como na patogênese da doença predominam os me-canismos imunológicos, a administração de anticorpos neutralizantes, obtidos de soro de pacientes convalescen-tes, ou de anticorpos monoclonais podem ser medidas promissoras e encontram-se em avaliação.(1 8 ,8 0 )

C

ONCLUSÃO

Por sua recente descrição, a SPCVH ainda é objeto de investigação, o que, somado à sua extensa distribuição geográfica e sua crescente incidência fazem-nos supor que esta doença é ainda pouco reconhecida e diagnosticada em nosso meio.(3 1 -3 4 ,4 2 ,4 8 )

Ressaltamos que os vírus Juquitiba, A raraquara e Cas-telo dos S on hos estão associados à SPCVH no Brasil.

Trata-se de uma doença nova que precisa Trata-ser melhor estudada, levando em conta a ampliação da vigilância para formas mais leves da doença, formas febris com acometimento renal e doença na faixa etária pediátrica. Também não se pode garantir que não haja transmissão interpessoal, sendo importante a adoção de medidas de isolamento geral e respiratório em casos suspeitos.(1 8 ,2 7 ,4 3 ,6 1 )

É importante salientar que, por seus pródromos ines-pecíficos e curso clínico fulminante, faz-se necessário que se esteja alerta para a ocorrência da SPCVH, especialmen-te entre os pneumologistas e inespecialmen-tensivistas, pois o encami-nhamento para centros de referência terciários e a ado-ção de suporte intensivo adequado são medidas de grande impacto na sobrevida desses pacientes.

A

GRADECIMENTOS

A Carlos André Santos Pincelli, pela revisão do manuscrito, e ao Dr. Rodrigo F. Reiff, pela ajuda com o material fotográfico.

R

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Imagem

Figura 1 – Modos de transmissão das hantaviroses
Figura 4 – Distribuição dos casos de SPCVH no Brasil, segundo o Estado de notificação
Figura 6  – Radiografia de tórax de paciente com SPCVH, mostran- mostran-do o infiltramostran-do intersticial inicial
Figura 8 – Fluxograma para diagnóstico de SPCVH no Brasil

Referências

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