A memória de Cornélio Pires e sua aventura caipira.
"O olho vê, a memória revê e a imaginação transvê."
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Arlete Fonseca de Andrade
AS “ESTRAMBÓTICAS” AV
ENTURAS DE CORNÉLIO PIRES
e a cultura caipira no cenário hegemônico da cultura brasileira
Doutorado em Ciências Sociais
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Arlete Fonseca de Andrade
AS “ESTRAMBÓTICAS” AVENTURAS D
E CORNÉLIO PIRES
e a cultura caipira no cenário hegemônico da cultura brasileira
Doutorado em Ciências Sociais
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais - Antropologia, sob a orientação da Prof.ª Doutora Carmen Sylvia de Alvarenga Junqueira.
Data da Defesa:
---/---/---Banca Examinadora
---
---
---
---
AGRADECIMENTOS
A construção desta tese contou com a participação e apoio de várias pessoas queridas. Sem elas, não haveria nem emoção, nem brilho no decorrer desta trajetória.
Agradeço em primeiro lugar e de todo coração a minha mãe, Alzira da Fonseca Andrade, que nos meus bons e maus momentos me apoiou e não desistiu de confiar em mim e me incentivar para a finalização desta pesquisa. E ao meu pai, Areno César de Andrade, por me ensinar que temos que ser firmes em nossas decisões e lutar sempre para alcançar nossos objetivos. Muito obrigada.
Ao meu querido e amado Thor, companheiro de todos os momentos (anos, meses, dias, horas, minutos e segundos) que, quando na exaustão, me consolava e me distraía, restabelecendo minhas forças para voltar ao trabalho.
A minha orientadora Prof.ª Dr.ª Carmen Sylvia de Alvarenga Junqueira, que aceitou esse desafio comigo. Seus ensinamentos possibilitaram o desenvolvimento da presente pesquisa.
A Kátia Cristina da Silva, funcionária competente e dedicada do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-SP e querida amiga. Sou imensamente grata por toda a ajuda que concedeu, com informações fundamentais em todo o processo do doutorado, com todo carinho e atenção. Muito obrigada.
A querida amiga Isabela Pennella, que me apoiou durante toda a trajetória desta pesquisa. Leu pacientemente os textos contribuindo com sugestões relevantes. Não há palavras que possam traduzir meu agradecimento pelo carinho e atenção que concedeu. Muito obrigada.
A Prof.ª Dr.ª Eliana Gouveia e a Prof.ª Dr.ª Silvia Borelli, por participarem da minha qualificação com sugestões fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa.
À CAPES, pelo apoio financeiro para realizar a pesquisa.
Ao SENAR-AR/SP, pelo apoio financeiro.
A Délia Corredoni, Sr. Paulo Bonater, Nilson Kikuty e Carlos Antonio Rodrigues, pelo carinho e apoio de sempre comigo, e na brevidade da restituição dos recursos financeiros na intenção de não me prejudicar. Muito obrigada.
Ao André Lorente, pela responsabilidade, atenção e brevidade na revisão ortográfica.
A Inezita Barroso, pela entrevista que concedeu generosamente e pelas informações preciosas no que se refere à cultura caipira.
Ao Sr. Benedito Silvestrin, Fuzilo, In Memorian, que me atendeu com muita atenção em Tietê, quando estive lá para visitar o Museu Cornélio Pires. Além das informações relevantes, me presenteou com os dois documentários de Cornélio Pires. Material raro que guardarei com todo carinho e divulgarei.
Ao Sr. Luiz Paladini, por ceder gentilmente fotos históricas de Tietê.
A minha irmã, Eliana de Andrade Olivieri, aos amigos queridos, Ricardo dos Santos
Malafronte, Flávia Campanini e aos funcionários dos departamentos de Pós-graduação
RESUMO
A presente pesquisa refere-se à produção artística e cultural de Cornélio Pires (1884-1958) e ao contexto histórico do país a partir dos efeitos da colonização no campo socioeconômico e cultural, da presença de diferentes etnias e suas inter-relações que contribuíram para a formação da cultura regional paulista, a caipira.
Essa contextualização é relevante em função dos estigmas atribuídos ao caipira em vista da
“pobreza” de São Paulo e seus habitantes até fins do século XIX, comparado a outras localidades nacionais e o reverso dessas concepções distorcidas com a retomada da cultura popular por parte de intelectuais e artistas por meio de movimentos como o Regionalismo e o Modernismo, na busca de uma possível identidade nacional.
As justificativas dessas questões referem-se à tensão histórica que existe entre cultura popular e cultura erudita e na mediação dessas duas concepções, a contribuição do riso, do humor como forma de suavizar a comunicação e inserção do popular no espaço hegemônico da sociedade.
Assim fez Cornélio Pires, com seu estilo voltado para a temática rural acrescido do humor em sua produção, adentrando espaços hegemônicos e possibilitando a comunicação entre os antagonismos presentes em nossa sociedade como: rural e urbano, tradição e modernidade, popular e erudito.
ABSTRACT
This research refers to the artistic and cultural production of Cornelius Pires (1884-1958) and the historical context of the country from the effects of colonization in the socio-economic and cultural, the presence of different ethnic groups and their inter-relations that have contributed to the formation of the regional culture paulista, the rustic.
This background is relevant in the light of the stigmas attached to the rustics in view of "poverty" of São Paulo and its inhabitants by the end of the nineteenth century compared to other national locations and the downside of these distorted views with the resumption of popular culture on the part of intellectuals and artists by means of movements such as regionalism and the Modernism in search of a possible national identity.
The justifications of these questions relate to historical tension that exists between popular culture and erudite culture and in the mediation of these two notions the contribution of laughter, humor as a way to smoothen the communication and insertion of the popular space in hegemonic society.
Thus did Cornelius Pires, with his style facing the rural theme plus the humor in its production and penetrated hegemonic spaces allowing communication between the antagonisms present in our society such as: rural and urban, tradition and modernity, popular and erudite.
Key Words: Cornelius Pires, Rustic Culture, History of Brazil, Regionalism, Modernism,
Popular Culture, Erudite Culture, Cultural Mediation, Humor.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
11CAPÍTULO I
22 Cenário Histórico: A cultura caipira.CAPÍTULO II
47À volta por cima: Distorções, críticas, movimentos e valorização da cultura regional
paulista.
CAPÍTULO III
66 Em Tietê nasce um poeta caipira.Capítulo IV
110 Tensão entre cultura popular e cultura erudita e o riso como mediador. Breve história do riso e a contribuição de Cornélio Pires na mediação entre cultura
CONSIDERAÇÕES FINAIS
138ANEXOS
140Toda pesquisa acadêmica tem por objetivo contribuir para a produção do conhecimento científico, reflexão e entendimento dos acontecimentos e fenômenos que ocorrem na sociedade, como também esclarece perguntas e dúvidas como o porquê da escolha do tema, qual relevância para a área de estudo, quando surgiu o interesse, o que a faz ser original, entre outras.
São algumas das perguntas que surgem durante seu desenvolvimento e apresentá-las será esclarecedor e fundamental para a compreensão do leitor. Nesse sentido, não serão medidos esforços para alcançar o propósito de dar conta na argumentação no decorrer da presente pesquisa.
A temática a ser tratada é sobre a vida e obra de Cornélio Pires, divulgador da cultura regional paulista, e sua contribuição no campo dos estudos culturais sobre o caipira do início do século XX, suas tradições e costumes. A intenção será contextualizar questões relevantes sobre os feitos de sua produção na cultura regional paulista, dialogar a partir do contexto social e histórico de sua época, contando com seus interlocutores e autores que irão nortear a reflexão da pesquisa e situar o leitor sobre quem foi Cornélio Pires.
Meu contato com o autor e sua obra iniciou-se na década de 1990. Nesse período, trabalhava na Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo, na área de projetos e programas culturais, e meu primeiro desafio foi a produção de um espetáculo teatral que se chamava “A “Estrambótica” Aventura da Música Caipira”.
1
O espetáculo, que era baseado nos “causos” de Cornélio Pires, contava a história da música caipira, desde seu aparecimento até os “popstars breganejos”, com um elenco que trazia a dupla Pena Branca e Xavantinho e Adilson Barros, no papel do caipira que narrava as estórias intercaladas com as músicas. Os músicos Passoca, Capenga Ventura, Laert Sarrumor e Wandi Doratiotto interpretavam as duplas Alvarenga e Ranchinho e Milionário e José Rico.
2
2Em pé: Cristina Guiçá, Laert Sarrumor, Paulo Vasconcelos, Kapenga, Luiz Violeiro, Beto Sodré, Passoca e a acordeonista Rosa.
A continuidade em estudar o rural paulista também foi um dos motivos da escolha do tema, uma vez que minha dissertação de mestrado tratou dos trabalhadores rurais de São Paulo no corte da cana-de-açúcar3 e um dos capítulos abordava os aspectos históricos na formação do povo paulista, e a obra de Cornélio Pires foi fundamental para o entendimento do cotidiano e da cultura dessa população.
No final do ano de 2006, iniciei pesquisa bibliográfica e busca pelos livros de Cornélio Pires. No entanto, a oferta da maioria encontrava-se muito limitada por não serem reeditados desde suas primeiras publicações, restringindo, assim, sua aquisição e tornando-se raridades bibliográficas disputadas por pesquisadores, estudiosos e colecionadores.
Entre tantas livrarias, encontrei uma que comercializava obras raras e alguns de seus livros e outros que versavam sobre a cultura paulista em diferentes épocas e óticas de igual valor, possibilitando o começo de um entendimento sobre sua obra. Iniciou-se, então, a reflexão e o diálogo entre pesquisa e pesquisadora e seus diferentes momentos e tempos.
Pesquisa e tempo são palavras que,apesar de ter significados diferentes, estão unidas e são fundamentais para o processo da construção do conhecimento. A ação dessas duas palavras pode tanto estar em sincronia como em situações opostas.
A pesquisa segue o tempo da análise, da reflexão. Seu tempo está mais relacionado com o tempo da tradição do que com o das sociedades modernas. O tempo da pesquisa, da criação, não é determinado apenas pelo tempo das horas de um dia ou de dias de produção, das regras sociais, institucionais, como ocorre na atualidade, e sim envolve compreensão, reflexão, elaboração das ideias, não podendo ser medido e contabilizado.
Apesar do campo da construção do saber encontrar-se dentro do contexto social marcado pelo tempo da produção, a pesquisa não deixa de ser também um trabalho marcado em outro tempo, o tempo do trabalho artesanal que leva em consideração o estado de espírito
do pesquisador, seu cotidiano, suas relações e práticas sociais que irão determinar seu ritmo e sua complexidade.
Pontuo essa questão para mostrar o quanto é comum não finalizar, “dar luz” à pesquisa.
Mantê-la o tempo mais que necessário perto, sempre acrescentando ou excluindo textos, ideias, passagens, com a finalidade de entregar um trabalho lapidado. Curioso que numa dessas situações descobri um livro intitulado “O Tempo de Cada Um”4 que me chamou a
atenção. Por coincidência “ou não”, era de Cornélio Pires e me levou a refletir sobre isso.
Pesquisar Cornélio Pires (1884-1958), seu tempo, sua obra é um desafio pela diversidade e riqueza que apresenta sua produção e período, fundindo a relação entre o tradicional e o moderno, rural e urbano. Foi escritor de contos, prosas e poesias, colaborador em diversos jornais e revistas, compositor e precursor na divulgação da tradicional música do interior paulista - a moda de viola - e responsável pela gravação em vinil deste estilo musical no ano de 1929.
Tal universo, que até então era restrito aos que ali nasciam e habitavam, começa a ser conhecido e valorizado, principalmente por estudiosos e intelectuais que ansiavam, nas primeiras décadas do século XX, (re)descobrir o Brasil e uma possível identidade nacional.
O recorte sócio-histórico em São Paulo se dá entre as décadas de 1900 e 1930 e os acontecimentos políticos e sociais como o fim da República Velha, a expansão e queda na agricultura, resignificação cultural com movimentos em prol do nacional e popular, como a Semana de Arte Moderna e outros.
É nesse contexto que Cornélio Pires dá sua contribuição, revelando expressões, manifestações e significados da cultura caipira até então desconhecidos por alguns segmentos da sociedade brasileira e que justificam a relevância deste estudo pelo viés da antropologia.
Apesar das diversas citações sobre Cornélio Pires nos livros daqueles que dedicaram seus estudos à cultura regional paulista, duas biografias sobre o autor: Cornélio Pires Criação e Riso, de Macedo Dantas, e A Vida Pitoresca de Cornélio Pires, de Joffre Martins Veiga, e alguns artigos, não há atualmente um estudo acadêmico que acolha uma pesquisa centrada no tieteense e sua produção, o que o faz assim um tema importante e inédito no campo das Ciências Sociais.
Assim, alguns fatores relevantes devem ser considerados. Um deles refere-se à análise sobre a intencionalidade de Cornélio Pires em divulgar a cultura caipira por meio do segmento artístico. Será que seu objetivo estava em desfazer o estigma negativo atribuído historicamente ao caipira visando sua inclusão e reconhecimento social?
Outra se refere ao riso presente em sua produção literária e artística. Sabe-se que o riso suaviza situações de tensão e propicia, muitas vezes, a aproximação e o diálogo entre os diferentes. Assim, será que existe a possibilidade da cultura popular penetrar os espaços hegemônicos da sociedade utilizando como recurso essa expressão? 5
São questões que pretendo desenvolver, entre outras que surgirão no decorrer da pesquisa, dialogando com teóricos das ciências humanas e sociais, em particular os da antropologia, história, filosofia e sociologia.
O material bibliográfico que será utilizado compõe as biografias de Cornélio Pires e livros e artigos que escreveu no decorrer de sua vida. A partir desse material, pretende-se analisar o conteúdo de algumas de suas obras e sua interface com os aspectos sociais e históricos da época, a sátira presente em produções e textos, o movimento modernista, a expressão do caipira, entre outros.
falada do caipira, “Conversas ao Pé do Fogo” (1921), que trata dos costumes e tradições do povo do interior paulista, e “As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho (O Queima Campo)” (1924), que criou o personagem-título.
Além das biografias sobre o tieteense e bibliografia nos estudos de base, outros materiais teóricos foram pesquisados, como: livros, artigos em revistas e periódicos, dissertações e teses que se referem ao autor, à cultura popular e aos aspectos cultural, artístico e social entre as décadas de 1900 e 1930, para traçar uma leitura crítica a fim de contribuir com a reflexão da presente pesquisa.
O acervo das Bibliotecas do Centro Cultural São Paulo, Mário de Andrade e Arquivo do Estado de São Paulo e do Museu Cornélio Pires foram consultados na intenção de fotografar as revistas “O Sacy” e “O Pirralho”. A revista “O Sacy”, relevante nesta pesquisa, encontra-se na Biblioteca Mário de Andrade e está indisponível ao público, pois seu estado de conservação é precário, não podendo ser manuseada. Assim consegui xerocopiar algumas imagens que estavam em microfilme na mesma biblioteca para ilustrar a criação deste projeto do tieteense, as caricaturas e temas da época. Por este motivo, as imagens não estão com qualidade.
Outro material importante que consta aqui é a entrevista com a cantora e professora Inezita Barroso, ícone da música regional tradicional paulista, realizada em 2004. Inezita relata sua vivência no interior paulista, sua iniciação na viola, a vida do caipira e a contribuição de Cornélio Pires e Mário de Andrade para a cultura regional. Trechos de sua entrevista serão inseridos no decorrer da tese para exemplificar e enriquecer a discussão.
Nesta ocasião, Fuzilo presenteou-me com um vídeo que realizou sobre a vida de Cornélio Pires e com o mais surpreendente de tudo que poderia ter sobre ele, os dois
filmes/documentários realizados por Cornélio Pires, “Brasil Pitoresco”, de 1923, e
“Vamos Passear”, de 1934, ambos em VHS, que passei imediatamente para DVD. Estes dois documentários são obras raras e acredito que só a Cinemateca de São Paulo deva ter cópias.
Infelizmente Fuzilo faleceu no dia 04/09/2007, deixando sua contribuição para a cultura regional ao preservar e valorizar um dos ilustres filhos de sua terra. Registro aqui meu agradecimento pela atenção e carinho com que me recebeu para auxiliar nesta pesquisa.
Quanto ao referencial teórico de questões nacionais, as obras de autores brasileiros como: Antonio Candido, Nelson Werneck Sodré, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Rodrigues Brandão, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Sylvia Helena T. de Almeida Leite, Lúcio Kowarick, Elias Thomé Saliba, Renato Ortiz, entre outros, serão estudadas enfocando a formação histórica e cultural do país, a cultura regional paulista, seus hábitos, manifestações, costumes, linguagem, entrelaçando com a contribuição de Cornélio Pires.
No campo teórico macro, os pensadores escolhidos para contribuir sobre cultura popular, cultura erudita, a tensão existente entre ambas e a importância do riso como mediador são: Mikhail Bakhtin, Antonio Gramsci, Peter Burke, Pierre Bourdieu, entre outros. Cada qual estará relacionado com os capítulos e tópicos nas suas áreas de competência. Mesmo que esses autores tenham na base de seu pensamento princípios teóricos que os diferenciem, a finalidade aqui é fazer com que as ideias se aproximem e dialoguem no campo social e cultural.
As principais obras que serão estudadas nesta pesquisa são: “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento”, de Mikhail Bakhtin, “Literatura e Vida Nacional”, de Antonio
sátira, a obra “Raízes do Riso”, de Elias Thomé Saliba, será contemplada para abordar o aspecto da história social e cultural dessa expressão presente no conteúdo de suas produções.
A escolha desses autores se deve ao fato de suas obras irem ao encontro das questões que aqui serão abordadas, como: linguagem, cultura erudita e popular, tensões, ideologia e o riso. Dos aspectos biográficos de Cornélio Pires, os livros consultados são: Cornélio Pires: Criação e Riso, de Macedo Dantas, e A Vida Pitoresca de Cornélio Pires, de Joffre Martins Veiga, além de alguns textos publicados em revistas daquele período.
Entendo que os conceitos apresentados são muito abrangentes e envolvem questões históricas em períodos específicos; assim, optou-se pelo campo multidisciplinar das ciências sociais e humanas para enriquecer a presente tese, oferecendo maior embasamento às questões que serão apresentadas.
A presente tese está composta dos seguintes capítulos:
Cenário Histórico: A Cultura Caipira. Na intenção de melhor compreender Cornélio Pires, sua produção e a quem ele a dedica, faz-se necessário abordar o contexto histórico do país, os efeitos da colonização no campo socioeconômico, as diversas etnias aqui presentes e suas inter-relações, diferenças e conflitos que contribuíram no perfil do caipira.
Assim, o primeiro capítulo aborda o campo histórico da formação da cultura brasileira, sobre a Província de São Paulo antes e depois da rápida urbanização, a formação da cultura regional e os estigmas atribuídos ao povo paulista em vista da pobreza do local comparado a outras localidades nacionais e a explicação de tal concepção vinda de diversos autores que estudaram e compreenderam as questões específicas do país.
literária do Regionalismo e a visão dos autores e críticos em relação a este segmento e o Modernismo com sua retomada na valorização da cultura popular.
O terceiro capítulo, Em Tietê Nasce um Poeta Caipira, apresenta a trajetória de vida do autor e o conjunto de sua produção artística: literatura (contos, versos, poemas), música, cinema, entre outras, focada na temática dos costumes, hábitos e expressão cultural do povo do interior paulista.
O quarto capítulo, Tensão entre Cultura Popular e Cultura Erudita e o Riso como Mediador, abordará, além dessa temática, o contexto histórico da cultura erudita e popular, suas contradições e a relação com a cultura regional paulista, levando em consideração o estilo de Cornélio Pires, o humor, a sátira nos contos e prosas e as questões sociais e culturais que estão presentes em sua estrutura.
CAPÍTULO I
Neste primeiro momento, as questões históricas sobre a formação do povo brasileiro, do povo paulista, quem é o caipira, sua raiz, geografia, organização, bem como a visão de escritores e pesquisadores serão abordadas na intenção de oferecer uma melhor compreensão sobre o propósito da presente pesquisa.
Para alcançar esse objetivo, autores como Nelson Werneck Sodré, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Antônio Candido, Carlos Rodrigues Brandão, Rubens Borba de Moraes, Auguste Sant-Hillaire e o próprio Cornélio Pires serão contemplados na sustentação teórica desse período histórico e construir o pensamento sobre o caipira.
Quando o colonizador chega a terras brasileiras, ávido por fazer fortuna, constata que nada havia de interessante em se tratando de mercadorias para explorar e comercializar. Nesse período, a Europa encontrava-se na fase mercantilista, com olhos voltados para a criação de riqueza por meio de produção e comercialização de mercadorias, bem diferente do que ocorria aqui nos trópicos.
O território era ocupado pelos diversos povos indígenas vivendo em sistema de comunidade tribal, à base de subsistência e sem atrativos em termos de exploração comercial. Assim, a contribuição do território descoberto foi somente a terra em si. “A colônia torna-se objeto porque, para a produção, só pode proporcionar o objeto” (Sodré, 2003, 11).
Para que o objeto pudesse se tornar produtivo e atender aos objetivos do colonizador, a estratégia foi transplantar uma cultura na colônia trazendo os povos da África, para trabalhar na condição de escravos. Assim, “Numa produção transplantada e montada em grande escala, para atender as exigências externas, surge naturalmente uma cultura também tranplantada” (Sodré, 2003, 11).
exploração do trabalho. Um modelo implantado pelo colonizador para obter resultados rápidos.
A transplantação da cultura teve como objetivo queimar etapas entre a “sociedade primitiva” que aqui existia e o mercantilismo, não importando a destruição das comunidades indígenas, sua forma de vida, cultura e valores (Sodré, 2003, 17). Havia uma heterogeneidade étnica entre os habitantes que compunham o novo território, com seus conflitos e acomodações. O indígena vivia em sistema de comunidade de subsistência, o europeu em transição do feudalismo para o mercantilismo e o africano, trazido para cá na condição de escravo, vivia também em sistema de comunidade.
A transplantação da cultura no Brasil deu-se em três etapas:
“1ª etapa: cultura transplantada anterior ao aparecimento da camada social intermediária, a pequena burguesia;
2ª etapa: cultura transplantada posterior ao aparecimento da camada intermediária, a pequena burguesia;
3ª etapa: surgimento e processo de desenvolvimento da cultura nacional, com o
alastramento das relações capitalistas.” (Sodré, 2003, 13)
As duas primeiras referem-se à classe dominante na fase escravista (relação entre senhores e escravos). Na etapa seguinte a classe dominada começa a ter um papel importante na esfera social, pois se transforma em mercadoria. A terceira etapa refere-se à burguesia como a classe dominante e à abolição dos escravos.
A Província paulista não tinha relação com povos estrangeiros, como ocorria nas outras, e nem ligação com o oceano, que favorecia o desenvolvimento do comércio local através da importação e exportação de alguns produtos. As justificativas que alguns historiadores deram sobre o isolamento de São Paulo até metade do século XIX fundamentam-se nas dificuldades de acesso à Província, pois ainda não existia o caminho do mar, o que tornava o meio pobre e sem atrativos para as pessoas vindas de fora, comparando com as províncias mais desenvolvidas. Essa pobreza, na opinião de Rubens Borba de Moraes, era uma consequência e não a causa. Para ele, “a causa da pobreza paulista estava na falta de
comunicação com o mar.”7
Além disso, a colonização, no princípio, teve como estratégia fixar-se em regiões geográficas mais favoráveis visando seu rápido crescimento. Em algumas, como a região nordeste, havia até atividades destinadas aos engenhos de cana-de-açúcar e criação de gado, resultado da cultura transplantada, mão-de-obra escrava e materiais vindos de fora (Sodré, 2003, 11).
O isolamento entre regiões intensificou-se em fins do século XVI, outra estratégia que fazia parte do processo da colonização com o objetivo de estabelecer uma relação servil e monopolizar a comercialização. Isso fez com que cada população criasse seus próprios vínculos, hábitos e costumes, sem contato com as outras regiões.
As Províncias que estavam localizadas próximas ao mar tinham uma relação de sociabilidade maior do que as que viviam distantes e cobertas pela floresta, como no caso de São Paulo. Além disso, há o fator que se refere à língua, fundamental no processo de interação entre os diferentes grupos sociais, e a que o isolamento privou das populações que habitavam o imenso território descoberto.
Sobre essa questão estratégica da colonização em relação ao isolamento entre regiões, Nelson Werneck Sodré explica:
“O primeiro deles é o da distância entre o Brasil e a metrópole e os mercados
a que sua produção se destina; disso decorre o segundo, que é a da servidão oceânica, impedidas as áreas produtoras de internamento, permanecendo dependentes do transporte marítimo; outro consiste no isolamento entre as diversas áreas produtoras, sem ligação entre si, vivendo autônomas e esquecidas. Sobre essa fragmentação de núcleos de ocupação humana, de áreas produtoras – que conferem à colônia o aspecto econômico e demográfico de arquipélago gigantesco, que o país herda e conserva até o século XIX –
para o opaco manto da clausura, decorrente do regime de monopólio de comércio exercido pela metrópole, e que veda o contato com os estrangeiros. A identidade de fins, de propósitos e de métodos neutraliza a dispersão e o isolamento, estabelecendo condições para a unidade cultural; a clausura sanciona e acoberta essa unidade cultural. Alicerça-a, ainda, a língua -
espaço social das idéias, como a definiu o filósofo – que estabelece a comunidade no meio de transmissão da cultura, apesar do bilingüismo inicial e natural.” (Sodré, 2003,18)
Em particular, no território paulista, não havia nenhum tipo de produção, contato com outros povos, regiões e com o oceano, enfim, isolada das relações econômicas e sociais, esquecida e autônoma durante um longo período, contribuindo para que os paulistas se adaptassem às condições dadas do local, tornando-se aventureiros e errantes em seu espaço. Assim, aos olhos daqueles que não pertenciam a essa dinâmica da Província Paulista, comparava a população a um estágio “primitivo”. Porém, Darcy Ribeiro explicará que:
de artesãos, cujo objetivo era viver ao ritmo em que os seus antepassados
sempre viveram”. (Ribeiro, 1997, 366)
Esse traço aventureiro do paulista, Ribeiro dirá que dá-se em função das consequências econômicas e culturais. Ele adentrava o sertão para guerrear com os indígenas situados na costa da província, cativava-os para trabalhar em suas terras ou comercializá-los com os senhores de engenho, e procurava ouro em seu próprio território e também em terras mineiras. Isso permaneceu durante quase três séculos (Ribeiro, 1997, 366, 367).
O paulista era de pouca conversa independente e possuía qualidades e defeitos devido ao isolamento, diferente dos que estavam nas províncias mais ricas do país, em decorrência do cultivo da cana-de-açúcar e tão bem descritas pelos estrangeiros.
A população vivia em regime de direito comum, não havia privilégios, como também não havia produtos para capitalizar, e sim produzir o necessário para seu consumo. A base do trabalho do paulista não estava voltada para o comércio e sim para o sustento de suas famílias. Às mulheres cabiam tarefas como as domésticas, criação dos filhos, plantio, colheita, transportes de cargas, etc. Já aos homens cabiam o roçado, a caça e a guerra, porém não era a todo o momento que a isso se aplicavam. Grandes eram os períodos de descanso, semelhantes aos das aldeias indígenas (Ribeiro, 1997, 370).
A respeito do modo de ser do paulista, Inezita Barroso diz que a cultura indígena foi a principal influência tanto na subsistência quanto no cotidiano.
“Tropa atravessa o vau” (de um rio) - Anônimo8
O bibliófilo Rubens Borba Moraes, no prefácio do livro de Auguste Saint-Hilaire, descreve o caso de um estrangeiro que precisava de uma canastra e, para conseguir que o carpinteiro a fizesse, teve de solicitar ao governador para que colocasse uma sentinela na porta com ordem de não deixá-lo sair enquanto não terminasse a encomenda (Saint-Hilaire, 1972, XVII).
A explicação da negação ao trabalho é vista pelo estrangeiro como indolência, preguiça e desapego, porém, o que não se compreendia, na opinião de Rubens Borba de Moraes, é que não estavam inseridos na lógica capitalista, com base no comércio, compra e venda de mercadorias, e sim numa economia de subsistência. Para Darcy Ribeiro, o “desamor ao
trabalho” estava mais ligado à falta de necessidade, de estímulo e de conhecimento de técnicas para produção do que à indolência, utilizando-se de outras práticas para suprir suas necessidades básicas(Ribeiro, 1997, 388,389).
Já Sérgio Buarque de Holanda dirá que esse caráter aventureiro foi uma das heranças deixadas pelo colonizador para a civilização brasileira. A análise que o autor faz sobre a formação da nossa sociedade é baseada nos “tipos sociais” de Max Weber e nos “tipos ambíguos” de Georg Simmel, pensadores que o influenciaram para compor sua teoria dos pares antagônicos: trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, norma impessoal e impulso afetivo e burocracia e caudilhismo9.
Sérgio Buarque de Holanda explicará que esse caráter aventureiro pertence aos povos da Península Ibérica, marcados fortemente pela “cultura da personalidade” e pela presença
inquebrantável da moral católica. O tipo aventureiro visa ao resultado final, ignora fronteiras, não valoriza esforços nem trabalho que não resultem em proveitos materiais imediatos e aprecia a atividade mercantil ou qualquer outra que aparente garantir lucros rápidos com o menor esforço (Holanda, 1999, 2).
Diferente dos povos do norte da Europa que passaram pela Reforma na igreja e de moral protestante, o tipo trabalhador tem apreço pela organização do trabalho, pelo esforço, privilegia os meios ao invés do resultado final e considera imoral tudo que possa ser realizado de forma aventureira, imprudente e imediatista. O autor explicará que:
“... é compreensível que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a
moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto os povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se largamente no ponto de vista da Antiguidade clássica. O que entre elas predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio
9 Sérgio Buarque de Holanda passou alguns anos na Alemanha e conheceu as obras dos filósofos Max Weber e Georg Simmel,
influenciando de modo significativo seu pensamento. De Max Weber, a influência foi em relação à metodologia do tipo ideal presente na
e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o
amor.” (Holanda, 1999, 38)
Assim como o aventureiro e o trabalhador, outro par antagônico que Holanda faz referência é o ladrilhador e o semeador. O primeiro refere-se à colonização espanhola na América e que se destaca pelo comportamento preventivo e de cálculo das ações futuras; daí a formação de grandes núcleos de povoação estáveis, e a preferência por fixar-se no interior e nos planaltos de clima mais ameno.
No caso do semeador, que refere-se à colonização portuguesa, há uma tendência de agir conforme se apresentam os problemas cotidianos, e sem planejamento; daí o caráter de feitorização em que predominaram os poderes regionais e a distribuição desigual da população (Holanda, 1999, 4).
Foi nesse modelo baseado no tipo aventureiro e semeador que ocorreu a colonização do país, adaptando-se às circunstâncias locais e copiando formas que davam bons resultados dentro da sociedade indígena. Essa ética aventureira da colonização ibérica acabou influenciando de forma significativa o caráter e a cultura do povo brasileiro10 (Mota, 2011, 242).
A implantação da cana-de-açúcar no Brasil é um exemplo do tipo aventureiro transplantando uma cultura em regime de escravidão, trazida da África em grande número para o plantio em diversas regiões do território. Antonio Candido, no prefácio de Raízes do Brasil, diz:
“A lavoura de cana, nesse sentido, seria uma ocupação aventureira do espaço,
não correspondendo a “uma civilização tipicamente agrícola” (p.49), mas a
uma adaptação antes primitiva ao meio, revelando baixa capacidade técnica e
docilidade às condições naturais.” (Holanda, 1999, 15)
10 Georg Simmel, em Sobre a Aventura: ensaios filosóficos, dirá sobre a facilidade que o aventureiro tem em termos de mobilidade
Esse modelo de colonização, com raízes fundadas no personalismo ibérico, dificultou e retardou o processo de transição de uma sociedade rural patriarcal para uma sociedade com base na racionalidade, resultando no plano psicossocial, de acordo com Buarque de Holanda, no homem cordial(Mota, 2011, 250)
O homem cordial é avesso a formalidades e estreita a distância nas relações pessoais, diferente de outros povos ocidentais em que o espaço individual e a vida privada são preservados. A cordialidade com o que possa ser visto como virtude e civilidade, na realidade, demonstra uma total falta de compromisso com normas sociais, subvertendo as regras em nome de interesses individuais – comportamentos onde prevalece o personalismo (Holanda, 1999,17).
“A cordialidade, pois, é tentativa de reconstrução fora do ambiente familiar, no plano societário, do mesmo tipo de sociabilidade da família patriarcal, de um tipo de sociabilidade dependente de laços comunitários.” (Mota, 2011, 251)
Os apontamentos de Sérgio Buarque de Holanda sobre o tipo aventureiro e o homem cordial, uma das heranças da colonização, aproximam-se muito do perfil do paulista em relação aos hábitos e costumes, desinteresse e desconhecimento no trabalho disciplinar e desejo de romper fronteiras na busca de novos rumos. Além desse fator, foram submetidos a uma nova ordem social com base no mandonismo, acarretando num processo de exclusão e numa relação de submissão.
Diante desse cenário, não há de estranhar que o povo brasileiro seja dotado de criatividade e humor principalmente quando precisa lidar com questões mais racionais e objetivas, pois essas características driblam situações de conflito e de formalidade.
Em 1807, com a abertura dos portos para o comércio, vários povos estrangeiros começam a chegar, principalmente europeus. Uns interessados em estabelecer uma rota comercial, outros a fim de aprofundar pesquisas científicas. Entre esses, um em particular, o botânico francês Auguste Saint-Hilaire,11vem ao Brasil em 1816 para estudar a rica flora existente no país. Viaja para vários lugares, comarcas, distritos e províncias como Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo (Saint-Hilaire, 1972, XXIII).
Ao lado de pesquisas na área da botânica, fez descrições de viagens do interior do Brasil, que vieram a ser publicadas em livros posteriormente. Um deles, “Viagem a Província de São Paulo”, originou um trabalho etnográfico não intencional sobre a população da
província paulista. As descrições que fez dos cidadãos foram realizadas de forma minuciosa, assim como estava habituado a fazer com plantas, enfocando seus hábitos, costumes, vestimentas, comportamento sem levar em consideração questões históricas e sociais sensíveis ao pesquisador social.
Seu olhar é do estrangeiro num espaço adverso ao de sua origem e cultura. Entretanto, seu livro oferece uma riqueza de dados num período histórico importante sobre as populações locais. O povo paulista de acordo com o botânico era formado por:
“Escravos negros, uns crioulos, outros africanos; negros livres, africanos e crioulos; alguns indígenas batizados; um número considerável de indígenas selvagens; mulatos livres e mulatos escravos; homens livres, todos considerados, perante a lei, como da raça caucásica, entre os quais se encontra, porém, grande quantidade de mestiços de brancos e indígenas – tais são os habitantes da província de São Paulo. Estranha confusão de raças, do que resultam complicações embaraçosas e perigosas, quer para a
administração pública, quer para a moral social.” (Saint-Hilaire,1972, 95)
11 Jovem botânico francês, Auguste Saint-Hilaire (1779-1853) percorreu várias províncias do Brasil, entre elas São Paulo. Ao lado de
suas pesquisas na área da botânica, Saint-Hilaire fez descrições de viagens ao interior do Brasil, que vieram a ser publicadas
posteriormente. Uma delas está no livro “Viagem a Província de São Paulo”, que relatou de forma minuciosa hábitos e costumes sobre a
Gilberto Freyre dirá que é justamente essa mistura de diferentes etnias, sua integração e convivência, descritas pelo botânico como “confusão de raças” e “grande quantidade de mestiços” que habitavam a Província de São Paulo, que caracterizará o hibridismo cultural, proporcionando à nação um aspecto único. (Alves, 2004)
A ideia de hibridismo cultural é a chave do pensamento freyriano, e presente em todo o conjunto de sua obra. Alves complementa.
“... ele entende que a sociedade brasileira, bem como sua cultura, são híbridas devido à fusão natural das culturas europeia, indígena e africana. Não há como pensar em brasileiro isentando-o dessas influências, ou melhor, sem entender que ele é o novo, formado a partir da mistura dos três elementos.” (Alves, 2004, 128)
Além do destaque negativo de Saint-Hillaire sobre o hibridismo presente na formação do povo paulista, ele aborda outras particularidades do caipira.
“Estes últimos, quando percorrem a cidade, usam calças de tecido de algodão
e um grande chapéu cinzento, sempre envolvidos no indispensável poncho, por mais forte que seja o calor. Denotam os seus traços alguns dos caracteres da raça americana; seu andar é pesado, e têm o ar simplório e acanhado. Pelos mesmos têm os habitantes da cidade pouquíssima consideração, designando-os pela alcunha injuriosa de caipiras, palavra derivada possivelmente do termo curupira, pelo qual os antigos habitantes do país designavam demônios
malfazejos existentes nas florestas…” (Brandão, 1983, 10,11)
distantes da cultura civilizadora do que os índios catequizados e os escravos integrantes das fazendas (Brandão, 1983,140), como apresenta a descrição a seguir:
“Enquanto descrevia e examinava as plantas, aproximou-se um homem do rancho, permanecendo várias horas a olhar-me, sem proferir qualquer palavra. Desde a Vila Boa até Rio das Pedras, tinha eu tido quiçá cem exemplos dessa estúpida indolência. Esses homens, embrutecidos pela ignorância, pela preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes, e, talvez, por excessos venéreos prematuros, não pensam: vegetam como árvores, como as ervas dos campos. Obrigado, pela ventania, a deixar o rancho, fui procurar abrigo numa das cabanas principais, mas admirei-me da desordem e da imundice reinantes na mesma. Grande número de homens, mulheres e crianças desde logo rodeou-me. Os primeiros só vestiam uma camisa e uma calça de tecido de algodão grosseiro; as mulheres, uma camisa e uma saia simples. Os goianos e, mesmo, os mineiros de classe inferior vestem-se com muito pouco apuro, mas, pelo menos, são limpos; a indumentária dos pobres
habitantes de Rio das Pedras era tão imunda quanto suas cabanas.” (Brandão, 1983,15,16)
Essa visão não se refere apenas à do botânico francês. Outros viajantes, estrangeiros e nacionais, também compartilharam essas ideias sem conhecer as questões e marcas históricas deixadas na sociedade brasileira. Alguns pesquisadores nem sequer mencionam o paulista.
Com tais adjetivações, passa a ser estigmatizado12 incorporando atributos como “não civilizado”, indolente, avesso ao trabalho, privado ao mesmo tempo de “produção de cultura sobre a natureza (a agricultura) e da criação de uma cultura na sociedade”,
dificultando uma relação social cotidiana fora de seu meio (Brandão, 1983,22). Em um dos raros momentos que Saint-Hillaire consegue ir além e enxergar o caipira, diz:
12“O termo estigma será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma
linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele
“Esses mestiços, relativamente à inteligência, estão muito abaixo dos mulatos,
e diferem inteiramente dos fazendeiros brancos da parte mais civilizada da Província de Minas Gerais. Estes são homens mais ou menos abonados, que possuem escravos e não cultivam a terra com as próprias mãos; nos colonos brancos, ou pretensos brancos, da parte da Província de São Paulo de que me vou ocupando, não se podem ver senão verdadeiros camponeses: não possuem escravos e são eles próprios que plantam e colhem, vivendo, geralmente, em grande penúria. Têm toda a simplicidade e os modos grosseiros dos nossos camponeses, mas não possuem, seja sua alegria, seja sua atividade.
Se quinze camponeses de França se reúnem num domingo, cantam, riem, discutem, os de que trato apenas falam, não cantam e não riem e mantêm-se tão tristes depois de ter bebido cachaça, como estavam antes da ingestão dessa
bebida alcoólica.” (Brandão, 1983, 22)
No final do século XIX, alguns historiadores e cientistas sociais identificaram que, assim como o caiçara, existia no interior paulista o caipira. Apesar de separados pela serra do mar, estes dois povoados tinham características muito semelhantes. O caipira passa a ser objeto de estudo, pois é uma cultura reinventada a partir da herança adquirida dos povos indígenas e ensinamentos dos jesuítas (Brandão, 1983).Entre os que melhor compreendiam a cultura caipira, destaca-se Cornélio Pires.
“Nos primeiros anos do século (XX) ninguém terá estudado o caipira de São Paulo como Cornélio Pires, que entre contos e resumos de costumes dedicou a eles uma notável coleção de escritos.” (Brandão, 1983, 26)
O caipira não se refere apenas ao habitante do interior paulista, mas a uma cultura, conhecedor da natureza e que possui organização cultural e social com base na herança indígena, africana e europeia. Cornélio retrata o caipira da seguinte forma:
‘capiâbiguâra’. Caipirismo e acanhamento, gesto de ocultar o rosto: neste
caso temos a raiz ‘caí’ que quer dizer: ‘gesto de macaco ocultando o rosto’. ‘Capipiara’ que quer dizer o que é do mato. Capiã, de dentro do mato: faz
lembrar o ‘Capiau’ mineiro.
‘Caapi’- trabalhar na terra, lavrar a terra - ‘Caapiára’, lavrador.
E o caipira é sempre lavrador. Creio ser este último caso o mais aceitável, pois ‘Caipira’ quer dizer ‘roceiro’, isto é, lavrador... Homem da terra.”13 (Brandão, 1983, 11)
No livro “Conversas ao Pé do Fogo” (1921), Cornélio Pires publicou um pequeno estudo sobre o caipira e que remete à ideia do hibridismo cultural, classificando-os em caipira
branco, caboclo, preto e mulato, descrevendo-os com suas particularidades étnicas e culturais dentro e fora de seu meio. Inicia pelo caipira branco dizendo que entre todos é o
de melhor “estirpe e condições”, pois descende de “estrangeiros brancos”, referindo-se aos colonizadores.
“... gente que possa destrinçar a genealogia da família até o trisavô,
confirmando pelo procedimento o nome e a boa fama dos seus genitores e progenitores. ... Descendem geralmente dos primeiros povoadores, fidalgos ou nobres decahidos de suas pompas, ou de brancos europeus attrahidos para a nossa terra pela árvore das patacas e que, nos sertões de então, fecundos
latinos, deixaram a sua descendência.” (Pires,1987, 11, 12)
Branco não apenas em função da pele, podendo ser morena também, mas a referência é a
A morada do caipira branco localizava-se em geral perto do rio, ribeirão ou córrego. Isso porque os bairros caipiras nasceram a partir dos antigos pousos dos bandeirantes e tropeiros que precisavam de água em suas paradas. O rio era de grande serventia: além do peixe, a água era utilizada para beber, fazer comida, dar aos animais, lavar roupa e tomar banho.
Sobre a lida no campo, o branco dentre os outros tipos era o que mais estava próximo da lógica e organização do trabalho.
“O caipira branco trabalhava de segunda a sexta-feira. Dedicava a manhã do sábado a pequenos serviços: consertos na casa ou em outras dependências; reparos de arreios e instrumentos de trabalho; cuidados especiais aos animais; preparo dos apetrechos de caça ou pesca no domingo de manhã: a patrona de couro, a espingarda, chumbo, pólvora, pios; ou varas, linhas, sondas, anzóis, remo, farelo, iscas (minhoca, milho cozido, vísceras de frango ou de porco), pegando na margem do rio, onde costumava deixá-los, o varejão, a poita, a
canoa de peroba.” (Rovai, 1978, 64)
O caipira caboclo era descendente de “bugres” - na concepção de Cornélio Pires, índios catequizados por jesuítas - e de colonizadores, portugueses, espanhóis ou aventureiros europeus que vieram em busca de riquezas.
“Intelligentes e preguiçosos, velhacos e mantosos, barganhadores como os
ciganos, desleixados, sujos e esmulambados, dão tudo por um encosto de
mumbava ou de capanga; são valentes, brigadores e ladrões de cavallos...”
Sua vida é caçar (com aviamentos arranjados aqui e ali a custa de pedinchices), pescar, dormir, fumar, beber pinga e tocar viola, enquanto a mulher, guedelhuda e imunda, vae pelos vizinhos, pidonha e descarada, filar dos bons trabalhadores o feijão, o toicinho, o assucre, o café, a farinha e... um
A vida do caboclo era muito precária, não possuía terras, em geral era posseiro sem título, ocupava-as por terra devoluta ou por invasão, que em muitos casos os proprietários preferiam tolerar a se indispor com sucessivas expulsões; além do mais, tinha serventia. Era
usado como “mumbava”, o informante, que avisava o proprietário sobre a presença de estranhos e em época de eleições servia de capataz para ameaçar aqueles que eram contrários à política governista. Em geral o proprietário presenteava-o com uma caça pelos serviços prestados. (Rovai, 1978, 68)
Tudo na vida do caboclo era de extrema pobreza, desde sua casa, de pau a pique, sem mobília, quando muito uma mesa e cadeira, sem muitos utensílios, somente facões, foice, varas de pescar, enxadas, coador de café, pote de água de barro, algumas panelas de barro e talheres, cuias e o pilãozinho. Atrás da casa tinha algumas plantações que não necessitavam de muito trabalho, como couve, salsa, batata doce, mamão, abóbora, banana e limão, espécies vegetais encontradas com facilidade na natureza. Na rotina:
“O caboclo não tinha pressa para nada. “Pressa não paga a pena”, era o seu refrão favorito. Era inalterável o seu sossego na rotina diária: de manhãzinha, o café com mandioca cozida, de manhã, o almoço (arroz, feijão, couve rasgada, torresmo, substituído, às vezes, por caça ou peixe); em seguida, uns tratos à lavourinha; no pino do sol, a sesta; à tarde, conforme a ocasião ou a necessidade entrava pelo mato em busca de frutas, de favos de mel, de material para o seu artesanato; na boca da noite, a janta, repetição do almoço. Comida preparada com água do rio, colhida no mesmo local que servia para o banho e
para lavadouro de roupas.” (Rovai, 1978, 70)
O estudo do autor, sem pretensões acadêmicas e de conhecimento científico, classifica os caipiras em etnias, e compara uns com os outros, atribuindo-lhe características sociais, físicas e culturais negativas e positivas, principalmente em relação ao branco e ao caboclo, o que induz a hipótese da influência do pensamento dominante com base na questão racial sobre o atraso social do país.
A respeito das explicações de o caboclo não ter motivação, apego ao trabalho e apresentar atributos negativos como preguiça, indolência, há referências de vários teóricos, a iniciar por Gilberto Freyre, que defendem a ideia do problema dessa debilidade, dessa fraqueza ter origem social e cultural, visto a subnutrição e doença presente na população brasileira, e não racial como nos apontamentos do racismo científico de que a aparente tristeza, preguiça, luxúria, eram resultado da mestiçagem entre raças inferiores (Mota, 2011, 222). Para Rubens Borba de Moraes, deve-se ao fato da província paulista estar isolada durante séculos de outros povos, baseada numa cultura de subsistência e não inserida na lógica capitalista do trabalho. Darcy Ribeiro, por outro lado, fundamenta que o motivo era mais a falta de necessidade, estímulo e conhecimento de técnicas do que por indolência ou preguiça.
A fundamentação de Nelson Werneck Sodré será em decorrência de uma cultura transplantada baseada na relação entre senhores e escravos e que os homens livres não pertenciam nem a uma classe nem a outra, ficando assim excluídos do processo social. E Sérgio Buarque de Holanda baseará sua tese nos tipos ideais/sociais a partir do aventureiro, semeador e do homem cordial presentes na cultura ibérica e deixados de herança para a nação.
As ideias apresentadas sobre cultura, raça, hibridação, tipos sociais, tipos de caipira, podem ser relacionadas com o famoso personagem “Jeca Tatu” criado por Monteiro Lobato. O
Ele é o resultado da mistura entre os índios catequizados e o branco europeu, com hábitos e costumes herdados de uma cultura baseada em princípios de comunidade indígena e da herança incorporada da cultura ibérica, na busca de resultados imediatos, fadado à própria sorte. Porém numa sociedade formada na relação entre senhores e escravos sua condição social por si já é excludente, mantendo assim uma relação com outros à base da cordialidade como recurso para preservar-se de opressões.
Essa imagem sobre o caipira permaneceu até meados do século XX, pois nesse período, além dos estigmas a ele atribuídos, nasce no Brasil o “movimento higienista” ou “sanitarista” com a proposta da defesa da saúde pública, reformulando os hábitos de higiene da população para colaborar com o aprimoramento da saúde coletiva e individual. Porém, esse movimento foi muito discutido por pesquisadores como um instrumento aliado ao pensamento da elite e do poder público para perseguir as populações pobres. A respeito dessa ideia, Paulo César Garcez Marins diz:
“Acusadas de atrasadas, inferiores e pestilentas, essas populações seriam perseguidas na ocupação que faziam das ruas, mas, sobretudo ficariam
fustigadas em suas habitações”. (Marins, 1998, 133)
Como um passe de mágica após o uso do medicamento, ele torna-se forte, saudável e transforma-se em empreendedor rural, como se pode notar na ilustração a seguir.
14
O caipira preto descendente de africanos é vítima da cultura transplantada pelos colonizadores. É pobre e com a saúde comprometida em função da condição de escravo e excesso de trabalho.
“E elle, o pobre negro velho, nos sorri contando histórias de outros tempos, humilde, cabisbaixo, sem gestos, ou só gesticulando de quando em quando,
tentando extender a mão “engruvinhada”, de dedos encrócados, entravada
pelo rheumatismo, mão com que tenta mostrar o porte de uma criança ou
apontar o quartel de canna ou o talhão de “café-velho”, para além, muito
além, onde elle conheceu a mata-virgem e ouviu o estrondar dos jequitibás nas derribadas; onde elle viu erguer-se a lavoura nova do “sinhô” e onde amou a
sua “crioula”...” (Pires, 1987, 28)
Apesar da estrema pobreza, Cornélio Pires dirá que o caipira preto “velho” criou bem seus filhos, ensinando-os a superar essa condição por meio do trabalho. Ele tem um pequeno pedaço de terra onde construiu sua casa de sapé e sua pequena horta. São educados, limpos, batuqueiros e sambadores (Pires, 1987,30, 31).
Os mais velhos ainda ficaram na roça na condição de colonos ou pequenos sitiantes, pois diante das transformações econômicas, sociais e políticas após a abolição e o grande contingente de trabalhadores livres, e falta de recursos financeiros, não tinham condições de comprar terras e expandir-se. Quanto aos mais jovens, foram para as cidades a fim de exercer trabalho doméstico e aqueles que exigiam força física, como na estiva, em Santos, por serem extremamente fortes (Rovai, 1978, 73).
O caipira mulato é descendente de africanos ou de brasileiros negros com a união de portugueses ou de brasileiros brancos. São bons trabalhadores, não são proprietários de terras e em sua maioria são muito cordiais. O autor sinaliza para o fato de o caipira mulato não misturar-se com o negro, tratando-o em geral com descaso, e estar sempre “luctando
porisso procura sempre e sempre se elevar e se distinguir pelas suas ações.” (Pires, 1987, 32)
Na descrição deste tipo de caipira, fica evidente o preconceito do mulato em relação ao preto na possibilidade de ser identificado como descendente do escravo africano, junto com os atributos sociais negativos e legitimados por uma sociedade agrária escravocrata.
O caipira mulato era minoria entre os outros tipos, pois não tinha apreço pela lida agrícola que recordava a escravidão, e assim prefere ir para os centros urbanos. Rovai diz que o mulato tinha grande apreço pelo trabalho em órgãos públicos.
“O mulato de condição modesta tinha irresistível pendor para o funcionalismo
publico, no qual cobiçava duas posições que acabava conquistando: contínuo de gabinete e motorista de secretário do Estado, posições que lhe permitiam ir
encaminhando para melhor destino os filhos, parentes e amigos.” (Rovai, 1978, 74)
O termo caipira não se refere a um tipo racial e sim designa sua cultura, porém Antonio Candido dirá que a classificação de Cornélio Pires faz sentido devido ao processo do acaipiramento da população rural.
“É a maneira justa de usar os termos, inclusive porque sugere a acentuada
incorporação dos diversos tipos étnicos ao universo da cultura rústica de São Paulo – processo a que se poderia chamar acaipiramento, ou acaipiração, e
que os integrou de fato num conjunto bastante homogêneo.” (Candido, 1987, 22, 23)
visibilidade junto com o surgimento da primeira estrada de ferro com ligação ao porto de Santos, suplantando a era do açúcar.
“Tal se dá com o surgimento de novos cultivos comerciais de exportação, com
o algodão e o tabaco e mais tarde o café, que reativariam as regiões caipiras. As estradas melhoram e se refazem os sistemas de transportes por tropas. Simultaneamente, uma reordenação institucional se vai implantando no nível civil e no eclesiástico: as vizinhanças se transformam em distritos, os arraiais em cidades, providos já de certo aparato administrativo que entra a examinar a legalidade das ocupações de terras”. (...) “Assim, o domínio oligárquico que
remonopolizava a terra e promovia o desenraizamento do posseiro caipira, com a ajuda do aparelho legal administrativo e político do governo, ganha força e congruência, passando a exigir também as lealdades do caipira”. (Ribeiro, 1997, 386, 387)
Essa ordem econômica e social legitimada pelo aparelho do Estado mais uma vez exclui o paulista, o pequeno agricultor, o trabalhador rural desse processo por não pertencer às formas de produção mais desenvolvidas, surgindo assim uma “vasta camada inferior de cultivadores fechados em sua vida cultural” (Candido, 1964, 55). Além da exclusão nesse processo, a posse de sua terra era irregular. Os latifundiários adquirem cada vez mais força política e proteção, expropriando-o da terra, do trabalho, de seu meio de vida e de sua cultura em função do grande contingente de mão-de-obra imigrante contratada. O caipira se vê novamente à margem do desenvolvimento e sem perspectiva e esperança de reverter essa situação.
dependentes de outros”, pois “entre os povos ibéricos, a vontade de mandar e de cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares.” (Mota, 2011, 241)
A ausência de disciplina e organização do trabalho e atributos negativos como indolência, preguiça, ignorância, entre outros, acabaram recaindo sobre o caipira, responsabilizando-o pelo atraso no desenvolvimento socioeconômico e cultural do país.
Desse modo, o caipira é marginalizado por não integrar a lógica do trabalho dirigido que para ele é comparado à escravidão. Darcy diz:
“... o caipira esfoliado de suas propriedades e sucessivamente expulsado de suas posses continua resistindo a submeter-se ao regime da fazenda. Toda a sua experiência o faz identificar o trabalho de ritmo dirigido como uma derrogação de sua liberdade pessoal, que o confundiria com o escravo.
Confinado nas terras mais sáfaras, enterrado na sua pobreza, o caipira vê, impassível, chegarem e se instalarem, como colonos das fazendas, multidões de italianos, de espanhóis, alemães, poloneses para substituírem o negro no eito, aceitando uma condição que ele rejeita.” (Darcy, 1997, 389)
Enfim, o tão esperado reverso na condição econômica e social dessas populações - do paulista, que é o foco neste tema - e valorização de seu trabalho visto até aqui não ocorreu. Esses cidadãos ainda continuam invisíveis aos olhos daqueles que não (re)conhecem sua história, seu trabalho, seu modo de vida, por ser o contrário do que se considera como padrão de civilização (Brandão, 1983,12).
15
CAPÍTULO II
A VOLTA POR CIMA:
No início do século XIX, ainda havia diferentes concepções de mundo e de práticas sociais convivendo no mesmo espaço territorial do país, a dos que aqui habitavam e a dos que aqui chegavam. Os daqui ainda viviam em um tempo em que a vida social era baseada na comunidade, no trabalho em conjunto, na economia de subsistência, nos laços de parentesco. Já os estrangeiros estavam integrados num tempo onde esses vínculos não pertenciam tanto a sua dimensão cotidiana, e sim a atividades voltadas para o mundo do trabalho disciplinado com finalidade na produção de bens e comercialização.
Nessa convivência de espaço e tempo, ambos não compreendiam suas diferenças e lógicas de mundo. Muitos habitantes daqui, principalmente “homens livres”16, resistiram a integrar a nova ordem, que era baseada na exploração econômica e social imposta pelo sistema. Essa resistência foi interpretada como indolência, preguiça, deformação na cultura. Essas distorções foram incorporadas no imaginário social do povo brasileiro, como também do estrangeiro.
Muitos pesquisadores e escritores desse período não compreendiam os fatores históricos que influenciaram de forma negativa a formação do povo brasileiro, do povo paulista. Os equívocos nas descrições de Saint-Hillaire permaneceram até meados do século XX, como se pode constatar no artigo de Monteiro Lobato intitulado “Velha Praga”, publicado no jornal O Estado de São Paulo e incluído na segunda edição de "Urupês” (1918)17.
O artigo é uma crítica sobre a destruição do ecossistema e descaso das autoridades públicas em não fiscalizar e punir os responsáveis pelas queimadas que ocorriam nas matas da Serra da Mantiqueira. Monteiro Lobato aponta e acusa o caboclo por esse dano ambiental e o
condena a uma condição de não pertencimento ao mundo “civilizado”. Ele escreve:
16“Homens livres” se referem aos que não estavam nem na condição de senhor ou de escravo e/ou de populações indígenas.
17 Urupês sm. (tupi urupé) Bot. Espécie de cogumelo da família das Poliporáceas (Polyporus sanguineus); orelha-de-pau, pironga.
“A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro como o Argas18 o é aos galinheiros ou o Sarcoptes mutans19 à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do Porrigo decalvans20, o parasita do couro cabeludo produtor da
“pelada”, pois que onde ele assiste se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, nua e descalvada.” (Lobato, 2009:160).
“Este funesto parasita da terra é o CABOCLO21, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau22 e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.”
“É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele armar a sua arapuca de
“agregado”; nômade por força de vagos atavismos, não se liga à terra, como o campônio europeu: “agrega-se”, tal qual o “sarcoptes”, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para
diante com a mesma bagagem com que ali chegou ...”
“Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no
útero, outro ao peito, outro de 7 anos à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento – Brinquinho, a foice, a enxada, a pica-pau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pevas e um galo índio. Com estes simples ingredientes, o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.” (Lobato, 2009, 161)
18 Sm. (gr Argâs, np) Entom Gênero (Argas) de carrapatos, da família dos Argasídeos, que inclui o cosmopolita carrapato das galinhas
(Argas persicus), séria praga das aves domésticas nos países quentes, inclusive o Brasil, onde age também como vetor da espiroquetose das galinhas.
19 Sm. Zool. Gênero (Sarcoptes) de ácaros, tipo da família dos Sarcoptídeos, que inclui a espécie Sarcoptes scabiei, que produz a
escabiose no homem.
20 Sf. (lat. tinea) 1 Med. Micose dos pêlos, especialmente dos cabelos, na qual o parasito atinge o pêlo na sua raiz e invade o folículo, bem