Meio Ambiente
&
Sociedade
Quinta feira 08 de setembro de 2011
Módulo III:
conceitos balizadores da ciência geográfica, sempre em interface com o meio ambiente:
são as categorias geográficas de espaço,
região, lugar e paisagem.
O ambiente e o território são outras
categorias. A primeira analisamos na aula
passada.
E o território, com seus desdobramentos,
será objeto de uma aula à frente.
As categorias geográficas em tela,
enquanto áreas de conhecimento,
possuem uma interface importante na
relação do homem com o meio, aqui
entendido como o meio ambiente, ou
mesmo o entorno natural onde ocorre
a vida.
Sob uma perspectiva física, o espaço é concreto ou físico, que se insere na interface
litosfera-hidrosfera-atmosfera.
O espaço constitui-se, desta forma, no espaço de todos os seres vivos (incluindo o ser
humano), espaço este formado a 4,5 bilhões de anos.
Desde então acumularam-se mudanças profundas.
Até os anos 1950 os geógrafos trabalhavam com o conceito de superfície terrestre, com destaque
para a região, a paisagem e o território. O conceito de espaço não era central.
A partir de então, com a geografia quantitativa, o conceito de espaço tornou-se central,
Esta corrente definia a geografia como a
ciência que estuda a organização
espacial.
Focava na lógica que estabelece os
padrões de distribuição espacial dos
fenômenos, além das relações que
Era necessário entender a lógica do
comportamento dos agentes sociais,
e desta forma explicar a localização
das atividades humanas e os fluxos
de pessoas, mercadorias e
informações que conectam os
diferentes pontos de interesse.
A partir de meados dos anos 1970 o conceito de
espaço foi totalmente redefinido pela geografia
crítica.
Esta corrente afirmava que o espaço era uma
instância social, assim como a cultura, a política e a economia.
Como produto social, o espaço era capaz de refletir os processos e conflitos, influenciando-os.
Para alguns geógrafos críticos (Milton
Santos, Ruy Moreira, David Harvey,
entre outros), o objeto de estudo da
geografia é o espaço.
O espaço concebido de forma
humanizada e politizada, tal qual uma
instância social.
O espaço, enquanto categoria geográfica, é
encarado como "uno e múltiplo".
Conforme o conceito de Milton Santos
(1997), o espaço geográfico constitui
"um sistema de objetos e um sistema de
ações“.
Tais sistemas não são considerados de forma isolada, mas num contexto singular, no qual ocorre a história, ou no qual a realidade acontece.
Ainda segundo Santos, o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e, por vezes,
A natureza era selvagem no começo.
Era formada por objetos naturais que, ao longo da história, são substituídos por objetos
fabricados, objetos técnicos, mecanizados. E, na atualidade, substituídos por objetos
cibernéticos.
Isto faz com que a natureza, artificializada, funcione como uma máquina.
Percebe-se, desta forma, que na
concepção de espaço se desdobram
outras categorias analíticas, que
produzem outros significados,
quando levados em consideração:
a natureza,
a sociedade e o
tempo.
O espaço constitui, portanto, uma categoria central na geografia, é seu próprio objeto.
A concepção de espaço admite uma percepção de espaço absoluto, espaço receptáculo, espaço continente, lugar de
ocorrência dos fenômenos etc.
Possui, desta forma, dimensões específicas: é demarcável, delimitável, localizável, de forma absoluta.
A cartografia de base, associada à localização absoluta (coordenadas geográficas), tornou-se o suporte desta
Num contexto dialético, David Harvey (1980) concebe o espaço, ao mesmo tempo,
absoluto (com existência material),
relativo (como relação entre objetos) e
relacional (espaço que contém e que está contido nos objetos).
Explicando:
O objeto existe somente na medida em que contém e representa dentro de si próprio as relações com outros
objetos.
Importa também considerar que, para Harvey, o espaço não é nem um, nem outro em si mesmo, podendo
transformar-se em um ou outro, dependendo das circunstâncias.
Muitos autores trabalham as diferentes perspectivas do espaço.
Santos(1982) se refere ao espaço como a acumulação desigual de tempos, o que significa conceber espaço como heranças.
Num mesmo espaço verificam-se tempos diferentes, tempos tecnológicos diferentes.
Disto resulta inserções diferentes do lugar no sistema ou na rede mundial (mundo globalizado).
Resultam também diferentes ritmos e coexistências nos lugares.
Percebido o espaço,
Uma região pode ser qualquer área geográfica, delimitada em diversas escalas, cujo contorno forme uma unidade distinta com características
determinadas, como se fosse um recorte temático do espaço.
De uma forma geral, uma região costuma ser menor que um país.
Origem do termo:
A noção de Região está ligada à Europa Ocidental e Meridional dos séculos XVIII e XIX (sociedades
pré-industrializadas ou em vias de industrialização).
Neste contexto haviam compartimentos do espaço, a Europa estava fechada, em termos de
produção/consumo, dialetos lingüísticos, grupos étnicos, organização social e, basicamente, caracterizadas por
Essas regiões européias encontravam-se isoladas umas das outras, apresentando características de homogeneidade.
Assim entendendo, o mapa da Europa era um grande MOSAICO DE REGIÕES.
NESTE SENTIDO A REGIÃO ASSUME UMA IDENTIDADE: UMA ENTIDADE IDEOGRÁFICA.
ESTA ENTIDADE IDEOGRÁFICA NÃO ERA CAPAZ DE SE REPRODUZIR EM OUTRAS PARTES DO MUNDO.
As regiões com aspectos semelhantes podiam ser, na melhor das hipóteses, agrupadas com designações bem amplas, mas sem significado especifico:
REGIÕES TROPICAIS,
REGIÕES MEDITERRÂNEAS, REGIÕES TEMPERADAS,
Nos dias de hoje, podemos destacar quatro abordagens para classificação regional:
HOMOGENEIDADE DOS LUGARES, a região com
características mais homogêneas. Critério utilizado em programas de Governo;
POLARIZAÇÃO DA REGIÃO, em regra quando contém um
lugar urbano central, por exemplo, em programas de desenvolvimento, como a Zona Franca de Manaus;
PLANEJADA, quando é politicamente orientada, por
exemplo, sob o critério de expansão de uma atividade, como a fronteira agrícola;
SISTEMA ABERTO, sendo aquela em que estabelece
relações entre todos os elementos de uma dada região,
numa visão dinâmica, por exemplo, na definição de Sistema Ambiental utilizados no Zoneamento Ecológico Econômico.
REGIÃO é considerado o espaço no qual
estão imbricadas dialeticamente formas
especiais de luta de classes:
o econômico e o político.
Estes se fundem e assumem uma forma
especial refletida no produto social e nas
O Estudo Regional que enfatiza os aspectos rurais (entre outros) de uma determinada área;
O Estudo Regional dedicado a aspectos históricos, cujo destaque está no processo de povoamento;
O Estudo Regional com foco na questão urbana, onde a cidade é colocada como a mola propulsora do
desenvolvimento de deterninada região;
O Estudo Regional com ênfase no aspecto tecnocrático, ou seja, preocupado com o desenvolvimento social e espacial.
As regiões já foram entendidas como sínteses de elementos físicos e sociais em integração,
conforme uma abordagem da geografia tradicional.
O foco central era a descrição da paisagem. Neste sentido a região era uma paisagem
diferenciada.
O geógrafo clássico com mais destaque no estudo da região foi Paul Vidal de La Blache.
No que tange à abordagem quantitativa da geografia, a região era pensada como uma
divisão de área, cuja definição partia de critérios de homogeneidade e/ou de relações funcionais.
Por exemplo, os “belts” ou “cinturões” da agricultura norte-americana (cinturão do trigo,
cinturão do milho etc.).
No tocante às regiões de influência as cidades são exemplos de regiões funcionais.
A região, abordada pela geografia humana, é concebida com base em critérios econômicos e
político-administrativos. Também é vista como espaço de identidade e de pertencimento.
Desta forma a região é um espaço mais amplo do que o lugar e onde vivem as pessoas com as quais um
determinado indivíduo se identifica.
Por exemplo, um nordestino (nascido e criado na região nordeste) tende a crer que os nordestinos têm um jeito
próprio de ser, assumindo a região como o espaço em que vivem pessoas iguais a ela, mesmo que não
De acordo com a geografia crítica a região passou para um plano secundário.
Os geógrafos críticos se identificam mais com os conceitos de espaço e território.
Geógrafos como Yves Lacoste e Soja procuraram trabalhar as questões regionais destacando uma perspectiva mais
Milton Santos, também, elaborou uma proposta de regionalização do território.
Em virtude da crise do planejamento regional, à partir dos anos 1980, o conceito de região não tem sido muito trabalhado pela geografia e nem
pela economia regional.
Vamos examinar agora o
conceito de lugar
O lugar é um conceito operacional em Geografia.
Tendo por base a cartografia, o lugar torna-se o espaço geográfico na escala local: é a
dimensão pontual.
Por longo tempo o lugar foi tratado na Geografia como único e auto- explicável.
O lugar – mais recentemente - é
resgatado na Geografia como
conceito fundamental.
Passa a ser analisado de forma
mais abrangente.
Lugar, desta forma, constitui a dimensão da existência.
Manifesta-se através de cotidianos
compartilhados entre diversos atores: pessoas, empresas e instituições, em permanente
cooperação e conflito.
Nesta perspectiva o lugar é a base da vida (Milton Santos, 1997).
O conceito de lugar se relaciona ao da existência, vez que induz um tratamento geográfico ao mundo vivido (Milton Santos,
1997).
Este tratamento assume diferentes dimensões. Por um lado o lugar dá espaço para uma visão subjetiva vinculada a percepções emotivas. É o
caso do sentimento topofílico (experiências felizes), conforme Yu-Fu Tuan (1975).
Por outro lado, o lugar abarca as respostas e experiências que registramos sobre o
ambiente no qual vivemos, o que nos leva a compreender o lugar através de nossas
necessidades existenciais:
localização, posição, mobilidade, interação com os objetos e/ou com as pessoas.
É o nosso estar no mundo, a partir do lugar como espaço de existência e coexistência.
O lugar também pode ser trabalhado na
perspectiva de um mundo vivido, levando
em conta outras dimensões do espaço
geográfico (Santos, 1997), tais quais:
Resulta dessas dimensões sua visão de mundo vivido local–global.
Para Santos as relações de ordem objetiva em articulação com relações subjetivas são
expressões do lugar, enquanto as relações verticais resultam do poder hegemônico, que estão imbricadas com relações horizontais de
coexistência e resistência.
Razão porque o lugar tem forte expressão no contexto atual da Geografia.
Numa visão clássica, a paisagem seria a
expressão materializada das relações do
homem com a natureza em determinado
espaço.
O limite da paisagem estava diretamente
relacionada à possibilidade visual. Ou
seja, paisagem é o que está diante dos
Para outros estudiosos, a paisagem era
concebida como o conjunto das
interações homem e meio, analisada
em duas possibilidade:
forma (configuração) e
funcionalidade (interação de
fatores geográficos, incluindo a
economia e a cultura humana).
A paisagem é algo além do visível.
É o resultado de um processo de articulação entre elementos.
Assim, a paisagem pode ser estudada sob a perspectiva exclusivamente natural (paisagens
naturais) ou sob a perspectiva humana (paisagens culturais).
A paisagem é proposta como o "resultado
sobre uma certa porção do espaço, da
combinação dinâmica e, portanto, instável
dos elementos físicos, biológicos e
antrópicos que, interagindo dialeticamente
uns sobre os outros, fazem da paisagem um
conjunto único e indissociável em contínua
evolução“ (Bertrand, 1968).
Por sua vez Santos (1997) concebe paisagem como a
expressão materializada do espaço geográfico, interpretando-a como forma.
Neste sentido considera paisagem como um constituinte do espaço geográfico (sistema de objetos).
"Paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as
sucessivas relações localizadas entre o homem e a natureza". Ou ainda, a paisagem se dá como conjunto
Sob esta perspectiva paisagem e espaço se diferenciam:
paisagem é "transtemporal" juntando
objetos passados e presentes, uma
construção transversal juntando objetos;
espaço é sempre um presente, uma
Ou ainda:
Paisagem é um sistema material,
nessa condição, relativamente
imutável.
Espaço é um sistema de valores,
que se transforma
A paisagem pode ser percebida como
um conceito operacional.
Ou seja, nos permite analisar o espaço
geográfico sob uma conjunção de
elementos naturais e tecnificados,
sócio-econômicos e culturais.
Analisando o conceito de paisagem é possível concebê-la enquanto forma (formação) e
funcionalidade (organização).
Não obrigatoriamente entendendo forma– funcionalidade como uma relação de causa e
efeito.
Mas percebendo a paisagem como um processo de constituição e reconstituição de formas, em
Mais longe, a paisagem pode ser analisada como a materialização das condições sociais
de existência.
Nela poderão persistir elementos naturais ou a natureza artificializada.
O conceito de paisagem privilegia a coexistência de objetos e ações sociais, manifestada na sua face econômica e cultural.