VIOLÊNCIAS NO TERRITÓRIO ESCOLAR Eixo Temático:
Educação, identidades e diferenças
Ângela Maria Pereira da Silva e Bianca Salazar Guizzo
Doutoranda em Educação – Ulbra; Professora orientadora do projeto de tese
RESUMO
Este artigo apresenta resultados da coleta piloto do projeto de pesquisa sobre as múltiplas formas de violência escolar representadas como um relevante problema de saúde na contemporaneidade. Estende-se ao território escolar e são notórias as repercussões na vida de jovens escolares, em especial, em escolas situadas em lugares tidos como hostis. Sabe-se que a educação é um dos espaços para estranharmos as relações de poder embutidas nas identidades e nas diferenças ali presentes. Portanto, o objetivo dessa pesquisa é problematizar e discutir as representações das múltiplas formas de violência identificadas por uma jovem escolar de uma escola da rede estadual situada na periferia de Canoas/RS. Diante disso, tomamos como referência teórica os Estudos Culturais em Educação e operamos os conceitos de representação acerca dos jovens escolares contemporâneos, educação, corporeidade e violências. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa. A coleta piloto foi realizada através de entrevista nas dependências da escola com uma jovem escolar do 3º ano do Ensino Médio. Os resultados parciais dessa coleta piloto apontam que essa participante identifica a violência física e a violência moral como prevalentes em sala de aula representadas em relação ao colega e seu corpo gordo alvo de brincadeiras e constrangimento. Diante disso, instigadas pelas possibilidades desse enfoque, apresentamos neste trabalho uma breve análise com base na entrevista narrativa.
INTRODUÇÃO
As escolas enfrentam uma série de desafios na contemporaneidade, desde o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes aguardadas dos escolares por parte de pais e professores, as exigências e pressões aos quais os professores vivenciam no cotidiano escolar,
a violência em sala de aula, nas dependências e no entorno da escola, entre outros estressores. Há uma multiplicidade de fatores que constituem a violência escolar. A ideia aqui é nos valermos da concepção de Minayo sobre a violência cultural, ou seja, aquela que se expressa por meio de valores, crenças e práticas, de tais modos repetidos e reproduzidos que se tornam até naturalizadas (2013, p. 36). Uma vez que a cultura reúne as formas de pensar, sentir e agir de uma sociedade, por meio da comunicação, da cooperação e da repetição dessas ações. Toda cultura tende a adotar como certos alguns comportamentos e práticas, e a rechaçar outros (MINAYO, 2013).
Assim, escolas que articulam os conteúdos e questões complexas, como as violências favorecem relações de respeito e tolerância, inclusive possibilitando a participação ativa dos atores na seleção dos temas a serem debatidos em sala de aula. Outro elemento importante é a análise sobre as relações sociais que se estabelecem no ambiente escolar, se estão postas como protetivas ou impeditivas ao convívio social, haja vista, que a violência cultural se apresenta sob a forma de discriminações e preconceitos presente na narrativa da jovem escolar: “Falam tipo tá gordo, magra demais, rodinha de amigos falando mal dos outros”.
Para Bonin, Ripoll e Guizzo (2016) o entendimento de que somos diferentes, fortalecem as tendências a um diferencialismo útil ao mercado, assim podemos pensar que o reconhecimento das diferenças se acomoda e se conforma a uma celebração e valorização de uma “natural” diversidade, sem necessariamente conduzir a uma problematização das relações de poder a partir das quais se estabelecem posições de sujeitos.
Diante disso, consideramos as violências na/da escola nesse artigo por meio da coleta piloto, pois nosso interesse é evidenciarmos como as violências são representadas, produzidas e narradas por uma jovem escolar, no território escolar. Nesse estudo dar-se-á ênfase à violência moral, visto que a agressão verbal entre colegas é evidenciada na entrevista narrativa da jovem escolar com relação a apelido e o corpo em evidência.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa. O método qualitativo de pesquisa é aqui entendido como aquele que se ocupa do nível subjetivo e relacional da realidade social e é tratado por meio da história, do universo, dos significados, dos motivos, das crenças, dos valores e das atitudes dos atores sociais (MINAYO, 2013).
O desenvolvimento deste estudo respeitou todos os preceitos éticos que envolvem pesquisa com seres humanos estabelecidos pela Resolução nº 466, do ano de 2012 do Ministério da Saúde. O referido projeto teve a autorização por meio da assinatura da carta de anuência pela Vice-Diretora do Colégio, lócus da pesquisa para a submissão na Plataforma Brasil e apreciação do Colegiado do Comitê de ética em Seres Humanos da Ulbra/RS. Deste modo, o respectivo estudo obteve parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa da ULBRA, sob o 3.049.298, em 30 de novembro de 2018.
A escolha metodológica desta pesquisa envolve a utilização da técnica de entrevista narrativa. Sua utilização se justifica por ser um “instrumento capaz de evidenciar os jogos de linguagem, reciprocidade, intimidade, poder e redes de representações” (ANDRADE, 2012, p. 176). Deste modo, na sequência ocorreu a coleta de dados através de entrevista nas dependências da escola e as discussões foram deflagradas a partir da exibição de um vídeo de animação produzido pela Agência Senado sobre como identificar oito tipos de bullying que devem ser evitados no ambiente escolar. O roteiro utilizado foi semiestruturado contendo questões abertas e fechadas sobre as representações da violência no território e na vida escolar.
O CORPO EM EVIDÊNCIA
Nas ocorrências apontadas pela jovem escolar na coleta piloto, há uma associação entre as formas de violência física e verbal como as de maior incidência nesse território escolar. O processo de territorialização do domínio não é puramente geográfico, mas também simbólico (SAFFIOTI, 1997). Assim, um elemento humano pertencente àquele território pode sofrer violência, ainda que não se encontre nele instalado. Regina Novaes (2006) pontua:
O endereço faz toda diferença, “abona ou desabona, amplia ou restringe acessos”. (...) Hoje, certos endereços também trazem consigo estigma das áreas urbanas subjugadas pela violência e a corrupção dos traficantes e da polícia – chamadas de favelas, subúrbios, vilas, periferias, conjuntos habitacionais, comunidades (NOVAES, 2006, p. 106).
Nessa direção, No momento da entrevista esta jovem referiu que entre os colegas ocorrem xingamentos e agressões verbais, ou seja, são situações corriqueiras na sala de aula e nas dependências da escola e, na maioria das vezes, é aceita ou relativizada pelos diferentes sujeitos e grupos que ali transitam. Para Elias (2011) os alunos em relação ao bullying podem
ser agressores vitimizados, agressores, alheios, ajudantes, defensores, reforçadores, vítimas e isso envolve a lei do silêncio e de domínio-submissão.
De acordo com Olweus (2006), bullying ou “vitimização”, caracteriza-se pela situação em que uma pessoa é atacada ou “vitimizada” e exposta, repetidamente, a ações negativas partidas de uma ou mais pessoas. Para Olweus:
[...] a expressão “ação negativa” deve ser mais especificada. É ação negativa quando alguém intencionalmente inflige ou tenta infligir, ferir ou inquietar outro – basicamente o que é entendido como comportamento agressivo. Ações negativas podem ser realizadas por palavras (verbalmente), por exemplo, ameaças, zombaria, implicância e chamando nomes. É uma ação negativa quando alguém bate, empurra, chuta, belisca ou reprime outro – por contato físico. Também é possível haver ações negativas sem uso de palavras ou contato físico, tal como fazer caretas ou gestos sujos, intencionalmente excluindo alguém do grupo ou recusando-se a cumprir com os desejos de outras pessoas (OLWEUS, 2006, p. 9).
Deste modo, a participante mencionou que vivencia situações de bullying disfarçado de brincadeiras de forma recorrente, especialmente sobre questões associadas às intersecções sexualidade, corporeidade, raça e gênero. Para a participante: “a gente tem um colega que quase toda a turma fica chamando de gordinho e folgam nele, para eles é brincadeira, mas tem gente que enxerga como preconceito, às vezes até ele fica meio brabo”. Para Guizzo e Beck (2011) embora meninas/mulheres e meninos/homens se preocupem com a aparência, sobre as primeiras as cobranças com relação aos padrões de beleza vigentes ainda são bem maiores. As autoras ressaltam que tais cobranças são oriundas de infinitas instâncias culturais, visuais e sociais e que têm o poder de produzir, demarcar, regular e diferenciar os corpos (GUIZZO E BECK, 2011).
Então, toda a representação que um sujeito confere sobre o outro é produzida e articulada por diversos discursos. Burke (1992) ressalta a dimensão social do corpo, à medida que esse deixa de ser percebido como um produto da natureza e passa a ter assento no campo da cultura, ou seja, o corpo e a corporeidade entendidos como um constructo social e é no espaço da subjetividade que se ancora o sentido de corpo. No entendimento de Louro (2000, p. 61):
O corpo não é "dado", mas sim produzido - cultural e discursivamente - e, nesse processo, ele adquire as "marcas" da cultura, tornando-se distinto. As formas de intervir nos corpos ou de reconhecer a intervenção - irão variar conforme a perspectiva assumida. Ilusório será acreditar, contudo, que, em algum momento, as instâncias pedagógicas deixaram de se ocupar e se preocupar com eles (LOURO, 2000, p. 61).
Feitas tais considerações, a violência, no seu sentido amplo, tem uma representação particular no imaginário social e tem sentidos diferentes se é vista pelo ângulo da vítima, perpetuador ou a testemunha (VELHO, 1996). A jovem escolar/participante presencia a situação do colega e fala do seu desconforto pelo constrangimento do colega, vítima de bullying ao ser chamado de “gordinho”. A aparência não é o ponto principal quando se trata da escolha da vítima, ou seja, pessoas acima do peso, magras demais, de óculos, com cabelo crespo, podem sofrer bullying pela timidez, uma característica visada pelos agressores (OLWEUS, 2006).
Guizzo e Becker compreendem que:
Hoje, as representações atreladas ao belo/a que por nós circulam, ajudam-nos a pensar que ser gordo/a, parecer (ou ser) velho/a (entre outras características) são tomados como símbolos da feiura, sinal de falta de força de vontade associada à baixa autoestima. Já ser magro/a, parecer (ou ser) jovem, ao contrário, é geralmente visto como algo desejável e interpretado como sinônimo de felicidade. A busca pela beleza se tornou sinônimo de amor próprio e a busca de um corpo ‘perfeito’, o principal bem (GUIZZO E BECKER, 2011, p. 24).
Diante disso, ao retomarmos essa questão durante a entrevista a participante observa: “às vezes ele fica quieto, às vezes ele até dá risada, daí ele interage com os meninos, mais os meninos que fazem isso, né, e outras vezes ele manda os guris calarem a boca por ele ficar com vergonha né”. Fischler (1995) ressalta sobre o duplo estereótipo do gordo: o primeiro de um homem roliço, extrovertido, sofrendo provavelmente por sua corpulência, mas nada deixando transparecer. O segundo é depressivo, um irresponsável sem controle sobre si mesmo. A perda de controle sobre as dimensões do corpo parece apontar para um desvio de caráter, na medida em que em certas circunstâncias são tidos como descontrolados e sem força de vontade (BONIN E SILVEIRA, 2010).
Parece-nos que esses episódios de violência moral em sala de aula recaem sobre o primeiro estereótipo, ou seja, fazem bullying disfarçado de brincadeiras. Parece útil a ideia de Prost (1987) à medida que o corpo se tornou o lugar da identidade pessoal e sentir vergonha do próprio corpo seria sentir vergonha de si mesmo, assim o corpo é a própria realidade da pessoa.
Tais episódios de violência caracterizam a agressão verbal, à medida que se expressa na conduta entre colegas de insultarem e colocar apelido ofensivo e a narrativa dessa participante demonstra que ela adota uma espécie de “lei do silêncio”. Durante a entrevista ela
pontua, “Eu não dou risada, a turma toda ri conforme algumas brincadeiras que chamam ele de almôndega gigante, todo mundo ri, sabe, eu prefiro ficar mais na minha”.
Contudo, a escola ensina o que pode ser desejado ou não e os gestos e os movimentos que o território escolar produz são sentidos e incorporados pelos estudantes (LOURO, 1999). Isso fica perceptível na narrativa da jovem escolar, pois mesmo que risse como os demais do apelido atribuído ao colega, moralmente, tem a compreensão que isso não é ético na convivência entre pares na sala de aula.
Essa contradição é acentuada quando a aparência física é transformada na única prova da identidade humana (SANT´ANNA, 2013) uma vez, que o corpo se tornou mais importante do que a alma, então é de se esperar que os céus e infernos venham do seu interior. Deste modo, Abramovay (2002) aponta que tanto os jovens como outros membros do contexto escolar relatam que a violência deixou de ser um componente de excepcionalidade e se disseminou a tal ponto que se naturalizou, se banalizou, passando a ser elemento comum no cotidiano. A deteriorização das relações pessoais tem inviabilizado tanto o processo de ensinar quanto o de aprender.
CONSIDERAÇÕES
Os resultados parciais demonstraram que as violências, “no plural”, podem ser simbolizadas como uma espécie de gatilho que incide na vida dos escolares e na sua permanência ou não no território escolar, ou seja, gera incômodos aos que sofrem as violências e também aos que testemunham. Com isso, tristemente, a multiplicidade nas formas de existir e de pensar é calada a todo o momento, tendo como exemplo a necessidade de se refletir sobre as formas de violência e as suas manifestações, dentro do ambiente escolar.
Evidências empíricas revelam nesse estudo tem apontado para a variabilidade do perfil dos perpetradores e das vítimas, ou seja, mesmo jovens escolares de grupos mais suscetíveis a sofrerem diferentes também podem ocupar posições de agressores, discriminadores ou ofensores, utilizando-se dos marcadores, tais como: corpo, gênero, raça, classe social e sexualidade.
Diante disso, a sala de aula é um espaço que deve propiciar a reflexão de conteúdos articulados à realidade social e cultural à qual estão inseridos os/as jovens escolares, tendo como uma das estratégias metodológicas o diálogo, a resolução de conflitos, de relações
verticais de poder e a reflexão crítica do cotidiano. Então, discutir tais vivências e a necessidade de abordagem dessas representações de violência nos currículos escolares pode ir ao encontro dos anseios dos jovens escolares e até auxiliar na diminuição das ocorrências dessas práticas sociais no território escolar.
REFERÊNCIAS CONSULTADAS
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