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Análise Matemática III 2005/2006

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An´alise Matem´atica III

2005/2006

Integra¸c˜ao em R

n

Manuel Guerra

Vers˜ao de 24 de Novembro de 2004

Conte´

udo

1 Integrais definidos em rectˆangulos de Rn 2

2 Caracteriza¸c˜ao das fun¸c˜oes integr´aveis 8

3 C´alculo de integrais m´ultiplos atrav´es de integrais iterados 15

4 Integrais definidos em conjuntos gen´ericos 19

5 Algumas propriedades dos integrais 24

6 Integrais impr´oprios 26

7 Mudan¸ca de coordenadas 30

7.1 O teorema de mudan¸ca de coordenadas . . . 30

7.2 Demonstra¸c˜ao do Teorema de mudan¸ca de coordenadas . . . 33

7.3 Alguns sistemas de coordenadas . . . 40

7.3.1 Coordenadas polares . . . 40

7.3.2 Coordenadas cil´ındricas . . . 42

7.3.3 Coordenadas esf´ericas . . . 43

8 Teoremas de convergˆencia 44 8.1 Integrais de sucess˜oes uniformemente convergentes . . . 45

8.2 Integrais de s´eries de fun¸c˜oes . . . 47

8.3 Regularidade de integrais param´etricos . . . 49

Bibliografia 51

(2)

Este texto ´e uma introdu¸c˜ao `a teoria do integral de Riemann para fun¸c˜oes de v´arias vari´aveis. Embora se parta do princ´ıpio que o aluno j´a domina a teoria elementar do integral de Riemann para fun¸c˜oes de uma ´unica vari´avel, fez-se um esfor¸co para tornar o texto compreens´ıvel sem o recurso a outras fontes. No entanto, o uso de algumas no¸c˜oes elementares que n˜ao s˜ao definidas no texto ´e inevit´avel.

Procurou-se tamb´em ajudar o aluno a desenvolver a ”intui¸c˜ao matem´atica” que ´e um elemento indispens´avel da capacidade para resolver problemas, sejam eles te´oricos ou aplicados. Nesse sentido, incluem-se alguns coment´arios informais que evidentemente n˜ao substituem as defini¸c˜oes e demon-stra¸c˜oes rigorosas que acompanham. Nestes coment´arios usam-se aspas (”...”) para indicar termos que s˜ao usados sem uma defini¸c˜ao matem´atica rigorosa e devem ser entendidos no sentido que lhes d´a a linguagem comum.

Outra preocupa¸c˜ao foi tornar todos os conceitos e propriedades f´aceis de localizar em consulta. To-das as defini¸c˜oes e propriedades est˜ao isolaTo-das do texto e numeraTo-das para f´acil referˆencia. Defini¸c˜oes e propriedades (teoremas, proposi¸c˜oes, lemas e corol´arios) terminam sempre com o s´ımbolo ¤. Demon-stra¸c˜oes terminam com o s´ımbolo ¥. Um ´ındice permite localizar imediatamente as defini¸c˜oes de todos os conceitos apresentados no texto.

1

Integrais definidos em rectˆ

angulos de R

n

Defini¸c˜ao 1 Chama-se rectˆangulo n-dimensional, n-rectˆangulo ou simplesmente rectˆangulo a qualquer subconjunto de Rn que se possa representar sob a forma de um produto cartesiano de n

intervalos fechados e limitados.

Dados dois pontos, a = (a1, a2, ..., an) ∈ Rn, b = (b1, b2, ..., bn) ∈ Rn que verifiquem

−∞ < ai≤ bi< +∞, i = 1, 2, ..., n, indica-se por E (a, b) o rectˆangulo

E (a, b) = {(x1, x2, ..., xn) ∈ Rn : ai≤ xi≤ bi, i = 1, 2, ..., n} .¤

Um 1-rectˆangulo ´e um intervalo limitado e fechado. Um 2-rectˆangulo ´e um ”rectˆangulo” no sentido comum do termo, i.e., a sua fronteira ´e um pol´ıgono de quatro lados paralelos dois a dois e lados adjacentes formam ˆangulos rectos. Um 3-rectˆangulo ´e um paralelip´ıpedo rectˆangulo, etc..

Note-se que a Defini¸c˜ao 1 inclui rectˆangulos ”degenerados” no sentido em que alguns dos intervalos considerados podem consistir num ´unico ponto. Mais precisamente, a condi¸c˜ao ai ≤ bi pode ser

satisfeita com igualdade para alguns (ou mesmo todos) os i ∈ {1, 2, ..., n}. Neste sentido, um conjunto formado por um ´unico ponto de Rn ´e tamb´em um rectˆangulo.

Para o que se segue ´e essencial dispor de um conceito que me¸ca o ”tamanho” de rectˆangulos. No caso de 1-rectˆangulos (isto ´e, de intervalos) uma medida ”natural” do seu tamanho ´e o comprimento que ´e definido por

C (E (a, b)) = b − a.

No caso de 2-rectˆangulos e de 3-rectˆangulos existem tamb´em medidas ”naturais” que s˜ao, respecti-vamente, definidas por

C (E (a, b)) = (b1− a1) × (b2− a2) (´area), C (E (a, b)) = (b1− a1) × (b2− a2) × (b3− a3) (volume).

(3)

Defini¸c˜ao 2 Chama-se conte´udo de Jordan do n-rectˆangulo E (a, b) ao valor C (E (a, b)) = (b1− a1) × (b2− a2) × . . . × (bn− an) = n Y i=1 (bi− ai) .¤

Defini¸c˜ao 3 Dois n-rectˆangulos, E1, E2 ⊂ Rn, dizem-se n˜ao sobrepostos (ou tˆem sobreposi¸c˜ao

nula) se int (E1) ∩ int (E2) = ∅.¤

Exerc´ıcio 4 Prove a Proposi¸c˜ao 5.

Proposi¸c˜ao 5 Sejam E1, E2, ..., Ek ⊂ Rn, rectˆangulos n˜ao sobrepostos e seja bE1, bE2, ..., bEm ⊂ Rn,

uma outra fam´ılia de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, que verifique

k [ i=1 Ei= m [ i=1 b Ei. Ent˜ao k X i=1 C (Ei) = m X i=1 C³Ebi ´

A Proposi¸c˜ao 5 permite estender a defini¸c˜ao de conte´udo de Jordan a conjuntos que possam ser representados sob a forma de uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos.

Defini¸c˜ao 6 Sejam E1, E2, ..., Ek ⊂ Rn, rectˆangulos n˜ao sobrepostos. Ent˜ao o conte´udo de k S i=1 Ei ´e definido por C Ã k [ i=1 Ei ! = k X i=1 C (Ei) .¤

Exemplo 7 Considere-se o conjunto

A = {(x, y) : 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1} ∪ ½ (x, y) : 1 2 ≤ x ≤ 2, 3 4 ≤ y ≤ 3 2 ¾ . Ent˜ao, A = E1∪ E2∪ E3, em que

E1 = {(x, y) : 0 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1} , E2= ½ (x, y) : 1 2 ≤ x ≤ 1, 1 ≤ y ≤ 3 2 ¾ , E3 = ½ (x, y) : 1 ≤ x ≤ 2,3 4 ≤ y ≤ 3 2 ¾ . Logo, C (A) = C (E1) + C (E2) + C (E3) = = (1 − 0) × (1 − 0) + µ 1 − 1 2 ¶ × µ 3 2 − 1+ (2 − 1) × µ 3 2 3 4 ¶ = 2.

Note-se que a decomposi¸c˜ao de A n˜ao ´e ´unica (na realidade existe uma infinidade de decomposi¸c˜oes distintas). Uma decomposi¸c˜ao alternativa ´e, por exemplo,

E1 = ½ (x, y) : 0 ≤ x ≤1 2, 0 ≤ y ≤ 1 ¾ , E2= ½ (x, y) : 1 2 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 3 2 ¾ , E3 = ½ (x, y) : 1 ≤ x ≤ 2,3 4 ≤ y ≤ 3 2 ¾ .

(4)

Defini¸c˜ao 8 Chama-se parti¸c˜ao do intervalo [a, b] a qualquer conjunto de pontos, P = {x0, x1, x2, ..., xk} ⊂ R que verifique a = x0< x1< x2< ... < xk = b.

Uma parti¸c˜ao decomp˜oe o intervalo [a, b] na uni˜ao de intervalos n˜ao sobrepostos,

[a, b] =

k

[

i=1

[xi−1, xi] .¤

Defini¸c˜ao 9 Considere-se um n-rectˆangulo,

E (a, b) = [a1, b1] × [a2, b2] × ... × [an, bn] .

Chama-se parti¸c˜ao do rectˆangulo E (a, b) a qualquer conjunto de pontos, P ⊂ Rnque possa ser

repre-sentado sob a forma de um produto Cartesiano P = P1 × P2 × ... × Pn, em que

Pi= {x0,i, x1,i, x2,i, ..., xki,i} s˜ao parti¸c˜oes dos intervalos [ai, bi], i = 1, 2, ..., n, respectivamente.

Uma parti¸c˜ao decomp˜oe o rectˆangulo E (a, b) na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, E (a, b) = k1 [ i1=1 k2 [ i2=1 ... kn [ in=1 [xi1−1, xi1] × [xi2−1, xi2] × ... × [xin−1, xin] = k [ i=1 Ei.¤

Exemplo 10 Considere-se o rectˆangulo E = [0, 1] × [1, 2] e sejam P1=

© 0,3 4, 1 ª , P21,8 7,32, 2 ª . Ent˜ao P = P1× P2= = ©(0, 1) ,¡0,8 7 ¢ ,¡0,3 2 ¢ , (0, 2) ,¡3 4, 1 ¢ ,¡3 4,87 ¢ ,¡3 4,32 ¢ ,¡3 4, 2 ¢ , (1, 1) ,¡1,8 7 ¢ ,¡1,3 2 ¢ , (1, 2)ª ´e uma parti¸c˜ao de E que decomp˜oe E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos

E = £0,3 4 ¤ ×£1,8 7 ¤ £0,3 4 ¤ ×£8 7,32 ¤ £0,3 4 ¤ ×£3 2, 2 ¤ £3 4, 1 ¤ ×£1,8 7 ¤ £3 4, 1 ¤ ×£8 7,32 ¤ £3 4, 1 ¤ ×£3 2, 2 ¤ .

Defini¸c˜ao 11 Uma parti¸c˜ao bP = bP1 × bP2 × ... × bPn diz-se mais fina do que a parti¸c˜ao

P = P1× P2× ... × Pn se verificar P ⊂ bP (isto ´e, se Pi⊂ bPi, i = 1, 2, ..., n).¤

Note-se que a Defini¸c˜ao 11 n˜ao obriga a que, dadas duas parti¸c˜oes, alguma delas seja mais fina do que a outra. O exemplo seguinte mostra que duas parti¸c˜oes do mesmo rectˆangulo podem n˜ao ter qualquer rela¸c˜ao em termos de uma ser mais ou menos fina do que a outra. Dito de outra forma, ”mais fina” ´e uma rela¸c˜ao de ordem parcial mas n˜ao ´e uma rela¸c˜ao de ordem total.

Exemplo 12 P = ©0,34, 1ª×©1,87,32, 2ª, bP = ©0,23,34, 1ª×©1,87,32, 2ª, eP = ©0,12, 1ª×©1,32, 2ª s˜ao trˆes parti¸c˜oes do rectˆangulo [0, 1] × [1, 2]. bP ´e mais fina do que P mas n˜ao ´e mais fina do que eP , nem eP ´e mais fina do que P .

Defini¸c˜ao 13 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao limitada, f : E 7→ R. Seja P , uma

parti¸c˜ao que decomp˜oe E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos E = Sk

i=1

Ei.

A soma superior de Darboux de f em rela¸c˜ao `a decomposi¸c˜ao P ´e definida por U (f, P ) = k X i=1 C (Ei) sup x∈Ei f (x) .

(5)

A soma inferior de Darboux de f em rela¸c˜ao `a decomposi¸c˜ao P ´e definida por L (f, P ) = k X i=1 C (Ei) inf x∈Ei f (x) .¤

Proposi¸c˜ao 14 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao limitada, f : E 7→ R. Sejam P ,

b

P , parti¸c˜oes de E.

Se bP for mais fina do que P ent˜ao

L (f, P ) ≤ L³f, bP´, U³f, bP´≤ U (f, P ) .¤

Demonstra¸c˜ao. Seja P , uma parti¸c˜ao que decomp˜oe E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos,

E = Sm

i=1

Ei. Se bP for uma parti¸c˜ao mais fina do que P , ent˜ao bP decomp˜oe E numa uni˜ao de

rectˆangulos n˜ao sobrepostos E = Sm

i=1 ki S j=1 b Ei,j, em que Ei= ki S j=1 b

Ei,j ´e uma decomposi¸c˜ao de cada um

dos rectˆangulos Ei em rectˆangulos menores n˜ao sobrepostos (verifique que isto ´e verdade). Ent˜ao

L (f, P ) = m X i=1 C (Ei) inf x∈Ei f (x) = m X i=1   ki X j=1 C³Ebi,j ´  inf x∈Ei f (x) ≤ m X i=1 ki X j=1 C³Ebi,j ´ inf x∈ bEi,j f (x) = L³f, bP´; U (f, P ) = m X i=1 C (Ei) sup x∈Ei f (x) = m X i=1   ki X j=1 C ³ b Ei,j ´  sup x∈Ei f (x) ≥ m X i=1 ki X j=1 C ³ b Ei,j ´ sup x∈ bEi,j f (x) = U ³ f, bP ´ .

A Proposi¸c˜ao 14 implica a seguinte rela¸c˜ao entre somas inferiores e somas superiores, respeitantes a quaisquer parti¸c˜oes (n˜ao necessariamente respeitantes `a mesma parti¸c˜ao).

Corol´ario 15 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao limitada, f : E 7→ R. Quaisquer

que sejam as parti¸c˜oes de E, P , bP (n˜ao necessariamente uma mais fina do que a outra), verifica-se L (f, P ) ≤ U

³

f, bP

´

Demonstra¸c˜ao. Sejam P = P1× P2× ... × Pn, bP = bP1× bP2× ... × bPn, parti¸c˜oes de E. A parti¸c˜ao

e P = ³ P1∪ bP1 ´ × ³ P2∪ bP2 ´ × ... × ³ Pn∪ bPn ´

´e mais fina do que P e do que bP . Ent˜ao a Proposi¸c˜ao 14 garante que L (f, P ) ≤ L³f, eP´≤ U³f, eP´≤ U³f, bP´.

(6)

Corol´ario 16 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao limitada, f : E 7→ R. As seguintes

condi¸c˜oes s˜ao equivalentes:

1. Para cada ε > 0 existe uma parti¸c˜ao Pε, que verifica U (f, Pε) − L (f, Pε) < ε;

2. sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} = inf {U (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} .¤

Demonstra¸c˜ao. Suponha-se que a condi¸c˜ao 1 ´e satisfeita. Ent˜ao, para todo ε > 0 existe uma parti¸c˜ao Pεtal que sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} > U (f, Pε) − ε. Isto implica que

sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} > inf {U (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} − ε. Fazendo ε tender para zero, verifica-se que a condi¸c˜ao 2 ´e satisfeita.

Considere-se uma sucess˜ao de parti¸c˜oes, {Pi, i ∈ N} que verifica

lim L (f, Pi) = sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} ,

lim U (f, Pi) = inf {U (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E}

(tal sucess˜ao existe, tendo em conta a defini¸c˜ao de supremo e ´ınfimo e a Proposi¸c˜ao 14). Se a condi¸c˜ao 2 for satisfeita, ent˜ao, lim (U (f, Pi) − L (f, Pi)) = 0, pelo que a condi¸c˜ao 1 ´e tamb´em satisfeita.

Defini¸c˜ao 17 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn. Uma fun¸c˜ao limitada, f : E 7→ R diz-se

in-tegr´avel no sentido de Riemann se para todo ε > 0 existir uma parti¸c˜ao de E, Pε, tal que

U (f, Pε) − L (f, Pε) < ε.

Se f : E 7→ R for integr´avel, ent˜ao o seu integral indica-se por REf (x) dx e ´e definido por

Z

E

f (x) dx = sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} = inf {U (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} .¤

Nota¸c˜ao 18 O integral de f : E 7→ R tamb´em se costuma indicar pelo s´ımbolo Z

E

f (x1, x2, ..., xn) dx1dx2...dxn

ou, mais simplesmente, Z

E

f.

Teorema 19 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn, e sejam f : E 7→ R, g : E 7→ R, fun¸c˜oes

integr´aveis. Ent˜ao, s˜ao verdadeiras as seguintes proposi¸c˜oes:

1. Quaisquer que sejam α, β ∈ R, a fun¸c˜ao αf + βg ´e integr´avel e verifica

Z E αf (x) + βg (x) dx = α Z E f (x) dx + β Z E g (x) dx; 2. Se f (x) ≥ g (x) ∀x ∈ E, ent˜aoREf (x) dx ≥REg (x) dx;

3. Para todo m, M ∈ R tais que m ≤ f (x) ≤ M ∀x ∈ E, verifica-se mC (E) ≤

Z

E

(7)

4. |f | ´e integr´avel e¯¯REf (x) dx¯¯ ≤RE|f (x)| dx.¤

Demonstra¸c˜ao. Para provar a proposi¸c˜ao (1), basta provar que f + g e αf s˜ao integr´aveis e verificamREf (x) + g (x) dx =REf (x) dx +REg (x) dx eREαf (x) dx = αREf (x) dx, ∀α ∈ R.

Seja P , uma parti¸c˜ao de E. Ent˜ao

L (f, P ) + L (g, P ) ≤ L (f + g, P ) ≤ U (f + g, P ) ≤ U (f, P ) + U (g, P ) . (1) Logo,

U (f + g, P ) − L (f + g, P ) ≤ (U (f, P ) − L (f, P )) + (U (f, P ) − L (f, P )) ,

o que prova que f +g ´e integr´avel. Al´em disso, tomando os supremos das somas inferiores e os ´ınfimos das somas superiores, a desigualdade (1) implica

Z E f (x) dx + Z E g (x) dx ≤ Z E f (x) + g (x) dx ≤ Z E f (x) dx + Z E g (x) dx,

o que prova queREf (x) + g (x) dx =REf (x) dx +REg (x) dx.

Note-se que

αL (f, P ) = L (αf, P ) ≤ U (αf, P ) = αU (f, P ) , se α ≥ 0; αU (f, P ) = L (αf, P ) ≤ U (αf, P ) = αL (f, P ) , se α ≤ 0.

(2)

Estas desigualdades provam que

U (αf, P ) − L (αf, P ) ≤ |α| (U (f, P ) − L (f, P )) ,

pelo que αf ´e integr´avel. Al´em disso, tomando os supremos das somas inferiores e os ´ınfimos das somas superiores, as desigualdades (2) implicam

α Z E f (x) dx ≤ Z E αf (x) dx ≤ Z E αf (x) dx, ∀α ∈ R.

Para provar a proposi¸c˜ao (2), basta notar que f (x) ≥ g (x) ∀x ∈ E implica L (f, P ) ≥ L (g, P ). Logo Z

E

f (x) dx = sup {L (f, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} ≥ sup {L (g, P ) : P ´e parti¸c˜ao de E} =

Z

E

g (x) dx.

A proposi¸c˜ao (3) decorre imediatamente da proposi¸c˜ao (2) atrav´es da compara¸c˜ao de f com as fun¸c˜oes

g (x) = m, h (x) = M , ∀x ∈ E.

Para provar a proposi¸c˜ao (4), considere-se uma parti¸c˜ao de E que decomp˜oe E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, E = Sm

i=1

Ei. Note-se que

sup {f (x) : x ∈ Ei} − inf {f (x) : x ∈ Ei} = sup {f (x) − f (y) : x, y ∈ Ei} =

= sup {|f (x) − f (y)| : x, y ∈ Ei} ≥ sup {||f (x)| − |f (y)|| : x, y ∈ Ei} =

= sup {|f (x)| : x ∈ Ei} − inf {|f (x)| : x ∈ Ei} .

Logo,

(8)

pelo que |f | ´e integr´avel. Ent˜ao, a proposi¸c˜ao (2) implica que Z E f (x) dx ≤ Z E |f (x)| dx, Z E −f (x) dx ≤ Z E |f (x)| dx,

Logo, usando a proposi¸c˜ao (1) obt´em-se

Z E |f (x)| dx ≤ Z E f (x) dx ≤ Z E |f (x)| dx.

2

Caracteriza¸c˜

ao das fun¸c˜

oes integr´

aveis

F´acilmente se verifica que existem fun¸c˜oes integr´aveis (considere-se por exemplo uma fun¸c˜ao con-stante). O exemplo seguinte mostra que existem tamb´em fun¸c˜oes que n˜ao s˜ao integr´aveis.

Exemplo 20 A fun¸c˜ao f : [0, 1] 7→ R definida por

f (x) =    1, se x ∈ Q ∩ [0, 1] ; 0, se x ∈ [0, 1] \Q,

n˜ao ´e integr´avel. Com efeito, quaisquer que sejam 0 ≤ a < b ≤ 1, verifica-se

sup {f (x) : x ∈ [a, b]} = 1, inf {f (x) : x ∈ [a, b]} = 0.

Logo, qualquer que seja a parti¸c˜ao P do intervalo [0, 1] verifica-se U (f, P ) = 1, L (f, P ) = 0.

Dado que existem fun¸c˜oes integr´aveis e fun¸c˜oes n˜ao integr´aveis, ´e importante termos um crit´erio que nos permita distinguir entre os dois casos. O objectivo desta sec¸c˜ao ´e apresentar uma condi¸c˜ao

necess´aria e suficiente para uma fun¸c˜ao ser integr´avel (Teorema 41). Para isso ´e necess´ario introduzir

algumas no¸c˜oes adicionais e discutir algumas propriedades que, no ˆambito destas folhas tˆem interesse essencialmente t´ecnico.

H´a no entanto uma condi¸c˜ao suficiente para uma fun¸c˜ao ser integr´avel que tendo em conta a sua simplicidade vale a pena mencionar. A sua demonstra¸c˜ao ´e um bom exerc´ıcio para o aluno verificar o seu dom´ınio das mat´erias expostas na sec¸c˜ao anterior. Por isso, apresenta-se a condi¸c˜ao sob a forma do seguinte exerc´ıcio.

Exerc´ıcio 21 Considere um rectˆangulo E ⊂ Rn, e seja f : E 7→ R, uma fun¸c˜ao cont´ınua. Prove que

f ´e integr´avel.

Exerc´ıcio 22 Mostre que a fun¸c˜ao

f (x) =    1 − x se x ∈ [0, 1] ; x + 1 se x ∈ [1, 2] ´e integr´avel no intervalo [0, 2].

(9)

O exerc´ıcio 22 mostra que continuidade n˜ao ´e condi¸c˜ao necess´aria para uma fun¸c˜ao ser integr´avel. Por outro lado, o exemplo 20 sugere que ”demasiada descontinuidade” pode impedir a integrabil-idade de uma fun¸c˜ao. Em termos informais, podemos afirmar que uma fun¸c˜ao ser´a integr´avel se for ”suficientemente regular”, sabendo-se desde j´a que essa ”regularidade” n˜ao implica continuidade. A defini¸c˜ao seguinte ajudar-nos-`a a definir o ”grau de regularidade” que caracteriza as fun¸c˜oes in-tegr´aveis de uma forma rigorosa.

Defini¸c˜ao 23 Considere-se um conjunto n˜ao vazio, D ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao f : D 7→ R. Para cada

conjunto n˜ao vazio, A ⊂ D, a oscila¸c˜ao de f em A ´e o valor osc (f )A∈ [0, +∞], definido por osc (f )A= sup {f (x) − f (y) : x, y ∈ A} .

Para cada ponto x ∈ D, chama-se oscila¸c˜ao de f no ponto x ao valor ωf(x) ∈ [0, +∞], definido

por ωf(x) = inf n osc (f )D∩B(x,ε): ε > 0o= lim ε→0+osc (f )D∩B(x,ε), em que B (x, ε) = {y ∈ Rn : |y − x| < ε}.¤ Exerc´ıcio 24

1. Construa uma fun¸c˜ao f : R27→ R que verifique ω

f(0) = 0;

2. Construa uma fun¸c˜ao f : R27→ R que verifique ω

f(0) = 1;

3. Construa uma fun¸c˜ao f : R27→ R que verifique ω

f(0) = +∞;

A seguinte Proposi¸c˜ao d´a-nos a rela¸c˜ao entre continuidade de uma fun¸c˜ao e o valor da sua oscila¸c˜ao num ponto.

Proposi¸c˜ao 25 Considere-se um conjunto n˜ao vazio, D ⊂ Rn. Uma fun¸c˜ao f : D 7→ R ´e cont´ınua

no ponto a ∈ D se e s´o se ωf(a) = 0.¤

Demonstra¸c˜ao. Suponha-se que f : D 7→ R ´e cont´ınua no ponto a ∈ D, e fixe-se ε > 0, arbitr´ario. Ent˜ao existe δ > 0 tal que |f (x) − f (a)| < ε

2 sempre que |x − a| < δ, x ∈ D. Ent˜ao ωf(a) ≤ sup {f (x) − f (y) : x, y ∈ D ∩ B (a, δ)} =

= sup {(f (x) − f (a)) − (f (y) − f (a)) : x, y ∈ D ∩ B (a, δ)} ≤

≤ 2 sup {|f (x) − f (a)| : x ∈ D ∩ B (a, δ)} ≤ ε.

Fazendo ε tender para zero, esta desigualdade implica ωf(a) ≤ 0. Tendo em conta que a oscila¸c˜ao ´e

um n´umero n˜ao negativo, isto prova que a continuidade de f no ponto a implica ωf(a) = 0.

Suponha-se que f : D 7→ R n˜ao ´e cont´ınua no ponto a ∈ D. Ent˜ao existe uma sucess˜ao, {xi∈ D, i ∈ N}

que verifica lim xi = a, lim f (xi) 6= f (a). Logo,

(10)

Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn, e uma fun¸c˜ao f : E 7→ R. Seja P uma parti¸c˜ao que decomp˜oe

E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, E = mS

i=1 Ei. Note-se que U (f, P ) − L (f, P ) = m X i=1 osc (f )E iC (Ei) .

Esta express˜ao sugere que uma fun¸c˜ao ser´a integr´avel se existirem parti¸c˜oes de E para as quais existe apenas um ”pequeno” n´umero de ”pequenos” rectˆangulos nos quais a oscila¸c˜ao de f ´e ”grande”. A Proposi¸c˜ao 25 indica que f ser´a integr´avel se for poss´ıvel escolher as parti¸c˜oes de E de modo que os rectˆangulos que contˆem pontos de descontinuidade de f sejam ”pequenos”. As seguintes defini¸c˜oes permitir-nos-˜ao formular estas ideias de modo rigoroso.

Defini¸c˜ao 26 Um conjunto A ⊂ Rn tem conte´udo de Jordan nulo se para cada ε > 0 existir uma

fam´ılia de rectˆangulos, E1, E2, ..., Ek, tal que

A ⊂ k [ i=1 Ei, k X i=1 C (Ei) < ε (3)

(o n´umero de rectˆangulos pode depender de A e ε mas ´e necess´ariamente finito).¤

Defini¸c˜ao 27 Um conjunto A ⊂ Rn tem medida de Lebesgue nula se para cada ε > 0 existir uma

sucess˜ao de rectˆangulos, {Ei, i ∈ N}, tal que

A ⊂ [ i=1 Ei, X i=1 C (Ei) < ε.¤ (4)

Note-se que um conjunto com conte´udo de Jordan nulo tem tamb´em medida de Lebesgue nula. Para verificar que isto ´e verdade basta notar que se E1, E2, ..., Ekverificar a condi¸c˜ao (3), ent˜ao basta

escolher uma sucess˜ao de rectˆangulos de conte´udo nulo, {Ei, i = k + 1, k + 2, ...} para obter uma

sucess˜ao {Ei, i ∈ N} que satisfaz a condi¸c˜ao (4). No entanto, o exemplo seguinte mostra que existem

conjuntos que tˆem medida de Lebesgue nula mas n˜ao tˆem conte´udo de Jordan nulo.

Exemplo 28 Seja A = [0, 1] ∩ Q. Considere-se uma fam´ılia de intervalos [a1, b1] , [a2, b2] , ..., [ak, bk],

tal que A ⊂ Sk i=1 [ai, bi]. ]0, 1[ \ k S i=1

[ai, bi] ´e um conjunto aberto. Tendo em conta que em qualquer

vizinhan¸ca de um n´umero real existe um n´umero racional, a existˆencia de x ∈ ]0, 1[ \ Sk

i=1

[ai, bi] implica

a existˆencia de ex ∈ A\ Sk

i=1

[ai, bi] Isto prova que ]0, 1[ ⊂ k S i=1 [ai, bi]. Logo, k P i=1 (bi− ai) ≥ C (]0, 1[) = 1,

o que prova que A n˜ao tem conte´udo de Jordan nulo.

Para provar que A tem medida de Lebesgue nula, note-se que A ´e numer´avel, visto ser um subconjunto de Q. Isso significa que existe uma sucess˜ao, xi tal que A = {xi, i ∈ N}. Fixe-se ε > 0, arbitr´ario e

considere-se a sucess˜ao de intervalos [ai, bi] =

£ xi−2i+1ε xi+2i+1ε ¤ . Ent˜ao, A⊂ [ i=1 [ai, bi] , X i=1 (bi− ai) = X i=1 ε 2i= ε.

(11)

Exerc´ıcio 30 Prove que o conjunto A = ©(x, y) ∈ R2: x = y, 0 < x < 1ª tem conte´udo de Jordan nulo.

Exerc´ıcio 31 Seja f : [a, b] 7→ R, uma fun¸c˜ao cont´ınua.

Prove que o conjunto G =©(x, y) ∈ R2: y = f (x) , x ∈ [a, b]ªtem conte´udo de Jordan nulo.

Exerc´ıcio 32 Seja A ⊂ Rn, um conjunto compacto e seja f : A 7→ Rm, uma fun¸c˜ao cont´ınua.

Prove que o conjunto G = {(x, y) ∈ Rn+m: x ∈ A, y = f (x)} tem conte´udo de Jordan nulo.

O Lema 33 mostra que fen´omenos como o ilustrado no exemplo 28 (um conjunto com medida de Lebesgue nula e conte´udo de Jordan positivo) n˜ao podem ocorrer quando o conjunto ´e compacto. Lema 33 Um conjunto compacto, A ⊂ Rn tem medida de Lebesgue nula se e s´o se tiver conte´udo de

Jordan nulo.¤

Demonstra¸c˜ao. Pelas Defini¸c˜oes 26 e 27, um conjunto de conte´udo nulo tem tamb´em medida nula (independentemente de ser compacto). Basta ent˜ao mostrar que um conjunto compacto com medida de Lebesgue nula tem conte´udo de Jordan nulo.

Seja A ⊂ Rn, um conjunto compacto com medida de Lebesgue nula. Fixe-se ε > 0, arbitr´ario, e seja

{Ei, i ∈ N}, uma sucess˜ao de rectˆangulos que verifique

A ⊂ [ i=1 Ei, X i=1 C (Ei) < ε.

Para cada rectˆangulo Ei existe um rectˆangulo maior, bEi, tal que

Ei⊂ int ³ b Ei ´ , C³Ebi ´ < C (Ei) + ε 2i. Ent˜ao, nint³Ebi ´

, i ∈ No ´e uma cobertura aberta de A. Tendo em conta que A ´e compacto, essa cobertura admite uma subcobertura finita, ou seja existe k ∈ N, tal que A ⊂ Sk

i=1 b Ei. Al´em disso, k X i=1 C³Ebi ´ X i=1 C³Ebi ´ X i=1 ³ C (Ei) + ε 2i ´ < 2ε.

Tendo em conta que ε ´e arbitr´ario, isto prova que A tem conte´udo de Jordan nulo.

Defini¸c˜ao 34 Um conjunto A ⊂ Rndiz-se mensur´avel no sentido de Jordan se para cada ε > 0

existirem fam´ılias de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, {Ei, i = 1, 2, ..., k},©Ei, i = 1, 2, ..., m

ª , tais que k [ i=1 Ei⊂ A ⊂ m [ i=1 Ei, m X i=1 C¡Ei ¢ k X i=1 C (Ei) < ε.¤

Exerc´ıcio 35 Mostre que um c´ırculo, B (0, r) = ©(x, y) ∈ R2: x2+ y2≤ r´e mensur´avel no sen-tido de Jordan.

Nota¸c˜ao 36 Dado um conjunto A ⊂ Rn, χ

A: Rn7→ R indica a fun¸c˜ao χA(x) =    1, se x ∈ A; 0, se x ∈ Rn\A.

A fun¸c˜ao χA chama-se fun¸c˜ao caracter´ıstica do conjunto A.

(12)

Proposi¸c˜ao 37 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn. Um conjunto A ⊂ E ´e mensur´avel no sentido

de Jordan se e s´o se χA: E 7→ R for integr´avel.¤

Demonstra¸c˜ao. Suponha-se que χA ´e integr´avel. Ent˜ao, para cada ε > 0 existe uma parti¸c˜ao

de E, P , tal que

U (χA, P ) − L (χA, P ) < ε.

Esta parti¸c˜ao decomp˜oe o rectˆangulo E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, E = Sk

i=1 Ei. Sejam I = {i : Ei⊂ A} , J = {i : A ∩ Ei 6= ∅} . Ent˜ao, verifica-se [ i∈I Ei⊂ A ⊂ [ i∈J Ei, X i∈J C (Ei) − X i∈I C (Ei) = U (χA, P ) − L (χA, P ) < ε,

Pelo que A ´e mensur´avel no sentido de Jordan.

Suponha-se agora que A ´e mensur´avel no sentido de Jordan. Fixe-se ε > 0, arbitr´ario e sejam

{Ei, i = 1, 2, ..., k},©Ei, i = 1, 2, ..., m ª , tais que k [ i=1 Ei ⊂ A ⊂ m [ i=1 Ei, m X i=1 C¡Ei ¢ k X i=1 C (Ei) < ε.

Tendo em conta que a uni˜ao de um n´umero finito de rectˆangulos pode ser representada sob a forma de uma uni˜ao de um n´umero finito de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, a Proposi¸c˜ao 5 implica que podemos considerar, sem perda de generalidade, que {Ei, i = 1, 2, ..., k} ⊂

©

Ei, i = 1, 2, ..., m

ª . A Propriedade 5 implica tamb´em que, podemos subdividir os rectˆangulos Ei, i = 1, 2, ..., m, de modo

que se pode tamb´em supor sem perda de generalidade que existe uma parti¸c˜ao, P , que decomp˜oe o rectˆangulo E numa uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, E = Sp

i=1 Ei, tal que {Ei, i = 1, 2, ..., k} ⊂ © Ei, i = 1, 2, ..., m ª ⊂ {Ei, i = 1, 2, ..., p} . Ent˜ao U (χA, P ) − L (χA, P ) ≤ m X i=1 C¡Ei ¢ k X i=1 C (Ei) < ε,

pelo que χA ´e integr´avel.

Lema 38 Se {Ai⊂ Rn, i ∈ N} for uma sucess˜ao de conjuntos com medida de Lebesgue nula, ent˜ao

S

i=1

Ai tem medida de Lebesgue nula.¤

Demonstra¸c˜ao. Seja {Ai⊂ Rn, i ∈ N}, uma sucess˜ao de conjuntos com medida de Lebesgue

nula, e seja ε > 0, arbitr´ario. Ent˜ao, existe uma dupla sucess˜ao de rectˆangulos, {Ei,j, i, j ∈ N}, tal

que Ai⊂ [ j=1 Ei,j, X j=1 C (Ei,j) < ε 2i. Ent˜ao, [ i=1 Ai⊂ [ i=1 [ j=1 Ei,j, X i=1 X j=1 C (Ei,j) ≤ X i=1 ε 2i = ε.

(13)

Note-se que se substituirmos ”medida de Lebesgue” por ”conte´udo de Jordan” no Lema 38, obtemos uma proposi¸c˜ao falsa. Basta notar que existe uma sucess˜ao {xi, i ∈ N} que percorre todos

os elementos do conjunto Q. Logo, Q ´e uni˜ao de uma sucess˜ao de conjuntos com conte´udo de Jordan nulo (visto que todos tˆem um ´unico elemento). No entanto, no Exemplo 28 provou-se que Q n˜ao tem conte´udo de Jordan nulo.

Lema 39 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao f : E 7→ R, limitada. Ent˜ao, qualquer

que seja ε > 0, o conjunto Dε= {x ∈ E : ωf(x) ≥ ε} ´e fechado.¤

Demonstra¸c˜ao. Basta mostrar que existe um conjunto aberto, Aε⊂ Rn, tal que

E\Dε= E ∩ Aε.

Para isso basta mostrar que para cada a ∈ E\Dε existe uma vizinhan¸ca, B (a, δ) tal que

E ∩ B (a, δ) ⊂ E\Dε.

Seja a ∈ E\Dε= {x ∈ E : ωf(x) < ε}. Ent˜ao existe δ > 0 tal que osc (f )E∩B(a,δ)< ε. Logo,

qual-quer que seja x ∈ E ∩ B (a, δ), verifica-se ωf(x) ≤ osc (f )E∩B(a,δ)< ε, ou seja E ∩ B (a, δ) ⊂ E\Dε.

Lema 40 Considere-se um rectˆangulo E ⊂ Rn e uma fun¸c˜ao f : E 7→ R. Se existir ε > 0 tal que

ωf(x) < ε, ∀x ∈ E, ent˜ao existe uma parti¸c˜ao que decomp˜oe E numa uni˜ao de rectˆangulos n˜ao

sobrepostos, E = Sk

i=1

Ei, tal que osc (f )Ei< ε, i = 1, 2, ..., k.¤

Demonstra¸c˜ao. Para cada x ∈ E existe δx> 0 tal que osc (f )E∩B(x,δx)< ε. Ent˜ao, para cada

x ∈ E existe um rectˆangulo Ex⊂ B (x, δx), tal que x ∈ int (Ex). {int (Ex) , x ∈ E} ´e uma cobertura

aberta do compacto E, logo admite uma subcobertura finita, {int (Exi) , i = 1, 2, ..., m}. Basta-nos

ent˜ao tomar a parti¸c˜ao constitu´ıda pelos v´ertices dos rectˆangulos Exi, i = 1, 2, ..., m.

Estamos finalmente em condi¸c˜oes de formular a anunciada caracteriza¸c˜ao das fun¸c˜oes integr´aveis. Teorema 41 Uma fun¸c˜ao f : E (a, b) 7→ R ´e integr´avel se e s´o se o conjunto

D = {x ∈ E (a, b) : f ´e descont´ınua no ponto x} tiver medida de Lebesgue nula.¤

Demonstra¸c˜ao. Suponha-se que f ´e integr´avel. Pela Proposi¸c˜ao 25, verifica-se

D = {x ∈ E (a, b) : ωf(x) > 0} = +∞[ i=1 ½ x ∈ E (a, b) : ωf(x) ≥ 1 i ¾ .

Ent˜ao, tendo em conta o Lema 38, para provar que D tem medida de Lebesgue nula basta provar que cada um dos conjuntos

Di =

½

x ∈ E (a, b) : ωf(x) ≥ 1

i

(14)

tem medida de Lebesgue nula. Para isso basta provar que Di tem conte´udo de Jordan nulo.

Qualquer parti¸c˜ao de E (a, b), verifica

U (f, P ) − L (f, P ) = k X j=1 Ã sup x∈Ej f (x) − inf x∈Ej f (x) ! C (Ej) ≥ X j:Ej∩Di6=∅ 1 iC (Ej) .

Se f for integr´avel, ent˜ao a parti¸c˜ao P pode ser escolhida de modo a que a diferen¸ca U (f, P )−L (f, P ) seja arbitrariamente pequena, ou seja Di tem conte´udo de Jordan nulo. Isto prova que o conjunto de

pontos de descontinuidade de uma fun¸c˜ao integr´avel tem medida de Lebesgue nula.

Suponha-se agora que D tem medida de Lebesgue nula. Fixe-se i ∈ N. Di tem medida de Lebesgue

nula porque Di ⊂ D. O Lema 39 garante que Di ´e fechado e, dado que est´a contido no conjunto

limitado E (a, b), ´e compacto. Usando o Lema 33, conclui-se que Di tem conte´udo de Jordan nulo.

Ent˜ao existe uma parti¸c˜ao de E (a, b) que verifica X

j:Ej∩Di6=∅

C (Ej) <1

i. (5)

´

E poss´ıvel refinar esta parti¸c˜ao de modo a obter uma nova parti¸c˜ao que satisfaz a condi¸c˜ao (5) e tamb´em osc (f )Ej 1

i para todo j tal que Ej∩ Di= ∅. Considerando uma tal parti¸c˜ao temos

U (f, P ) − L (f, P ) ≤ P j:Ej∩Di6=∅ Ã sup x∈Ej f (x) − inf x∈Ej f (x) ! C (Ej) + P j:Ej∩Di=∅ osc (f )EjC (Ej) ≤ P j:Ej∩Di6=∅ Ã sup x∈E(a,b) f (x) − inf x∈E(a,b)f (x) ! C (Ej) +1i P j:Ej∩Di=∅ C (Ej) ≤ Ã sup x∈E(a,b) f (x) − inf x∈E(a,b)f (x) ! 1 i +1iC (E (a, b)) .

Tendo em conta que para cada i ∈ N ´e poss´ıvel escolher uma parti¸c˜ao que satisfa¸ca esta desigualdade, provou-se que f ´e integr´avel.

Conclu´ımos esta sec¸c˜ao com uma importante propriedade que mostra que a integrabilidade de uma fun¸c˜ao e o valor do integral n˜ao dependem do valor da fun¸c˜ao num ”pequeno” conjunto de pontos.

Proposi¸c˜ao 42 Considere-se um rectˆangulo, E ⊂ Rn e duas fun¸c˜oes limitadas, f, g : E 7→ R.

Suponha-se que existe um conjunto A ⊂ E, com conte´udo de Jordan nulo, tal que f (x) = g (x), ∀x ∈ E\A.

Ent˜ao, f ´e integr´avel se e s´o se g for integr´avel e nesse caso verifica-se

Z E f = Z E g.¤

Demonstra¸c˜ao. Considerem-se fun¸c˜oes f, g : E 7→ R, verificando as hip´oteses da Proposi¸c˜ao, e seja M = sup

x∈E|f (x) − g (x)|.

Suponha-se que f ´e integr´avel e considere-se uma parti¸c˜ao P , que decomp˜oe o rectˆangulo E na uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos E = Ski=1Ei. Fixe-se um valor ε > 0 arbitr´ario. Uma vez que o

(15)

conjunto {x ∈ E : f (x) 6= g (x)} tem conte´udo de Jordan nulo, a parti¸c˜ao P pode ser refinada de modo a verificar X i:∃x∈Ei,f (x)6=g(x) C (Ei) < ε. Ent˜ao, U (g, P ) ≤ U (f, P ) + X i:∃x∈Ei,f (x)6=g(x) M C (Ei) < U (f, P ) + M ε; L (g, P ) ≥ L (f, P ) − X i:∃x∈Ei,f (x)6=g(x) M C (Ei) > L (f, P ) − M ε.

Dado que a parti¸c˜ao P ´e arbitr´aria, isto implica que sup

P L (f, P ) − M ε ≤ supP L (g, P ) ≤ infP U (g, P ) ≤ infP U (f, P ) + M ε.

Tendo em conta que ε ´e arbitr´ario, isto prova que sup

P L (f, P ) ≤ supP L (g, P ) ≤ infP U (g, P ) ≤ infP U (f, P ) ,

pelo que a integrabilidade de f implica que g ´e integr´avel e Z E f = Z E g.

Pelo mesmo argumento, a integrabilidade de g implica a integrabilidade de f .

O exemplo 20 mostra que a hip´otese de A ter conte´udo de Jordan nulo n˜ao pode ser substitu´ıda na Proposi¸c˜ao 42 pela hip´otese de A ter medida de Lebesgue nula. Com efeito, a fun¸c˜ao f apresentada no exemplo difere da fun¸c˜ao nula apenas no conjunto [0, 1] ∩ Q, que se provou no exemplo 28 ter medida de Lebesgue nula mas n˜ao conte´udo de Jordan nulo.

3

alculo de integrais m´

ultiplos atrav´

es de integrais iterados

N˜ao deve ter escapado `a observa¸c˜ao do aluno o facto que o c´alculo de um integral a partir da Defini¸c˜ao 17 ´e extremamente laboriosa, mesmo quando a fun¸c˜ao integrada ´e muito ”simples”. No entanto, ´e extremamente importante dispormos de um m´etodo de c´alculo que nos permita calcular de forma relativamente f´acil uma vasta gama de integrais. O aluno deve estar familiarizado com o teorema fundamental da an´alise que permite calcular o integral de uma fun¸c˜ao cont´ınua num intervalo compacto atrav´es de uma primitiva da fun¸c˜ao integrada. O objectivo desta sec¸c˜ao ´e apresentar um teorema que permite reduzir o problema de calcular o integral de uma fun¸c˜ao com dom´ınio num n-rectˆangulo, ao problema de calcular um certo conjunto de integrais de fun¸c˜oes definidas em intervalos compactos.

Considere-se um n-rectˆangulo, E = [a1, b1] × [a2, b2] × ... × [an, bn] ⊂ Rn. O rectˆangulo E pode

ser representado na forma E = [a1, b1] × E2, em que E2= [a2, b2] × [a3, b3] × ... × [an, bn]. Na mesma

perspectiva, um ponto de E ser´a indicado por (x, y), sendo entendido que x ∈ [a1, b1], y ∈ E2. O

valor de uma fun¸c˜ao f : E 7→ R no ponto (x, y) ∈ E ser´a naturalmente indicado por f (x, y).

Considere-se agora uma fun¸c˜ao f : E 7→ R, particular (i.e., fixa `a partida mas em princ´ıpio arbitr´aria). No que se segue vai ser necess´ario considerar as seguintes fam´ılias de fun¸c˜oes definidas a partir de f .

(16)

• Para cada x ∈ [a1, b1], temos uma fun¸c˜ao de dom´ınio E2 que faz corresponder a cada y ∈ E2

o valor f (x, y) (em que x ´e sempre o mesmo ponto de [a1, b1], fixo `a partida). Esta fun¸c˜ao ´e indicada por f (x, ·). Se quisermos sublinhar o facto que o dom´ınio desta fun¸c˜ao ´e o rectˆangulo

E2, podemos escrever f (x, ·) : E2 7→ R. Temos ent˜ao uma fam´ılia de fun¸c˜oes parametrizada

por x ∈ [a1, b1]: para cada valor de x temos uma fun¸c˜ao possivelmente diferente das restantes. Todas essas fun¸c˜oes tˆem como dom´ınio o mesmo rectˆangulo E2.

Pode acontecer que, pelo menos para alguns valores de x ∈ [a1, b1], a fun¸c˜ao f (x, ·) : E2 7→ R

seja integr´avel1. Ent˜ao, podemos definir uma fun¸c˜ao com dom´ınio D1= {x ∈ [a1, b1] : f (x, ·) : E27→ R ´e integr´avel}

que, a cada ponto x ∈ D1 faz corresponder o valor F (x), definido por F (x) =

Z

E2

f (x, y) dy.

• De modo an´alogo, para cada y ∈ E2, temos uma fun¸c˜ao f (·, y) : [a1, b1] 7→ R que faz corre-sponder a cada x ∈ [a1, b1] o valor f (x, y) (em que y ´e sempre o mesmo ponto de E2, fixo `a

partida). Temos assim tamb´em uma fam´ılia de fun¸c˜oes parametrizada por y ∈ E2.

Pode acontecer que, pelo menos para alguns valores de y ∈ E2, a fun¸c˜ao f (·, y) : [a1, b1] 7→ R seja integr´avel. Ent˜ao, podemos definir uma fun¸c˜ao com dom´ınio

D2= {y ∈ E2: f (·, y) : [a1, b1] 7→ R ´e integr´avel}

que, a cada ponto y ∈ D2faz corresponder o valor G (y), definido por G (y) =

Z

[a1,b1]

f (x, y) dx.

Exemplo 43 Considere-se a fun¸c˜ao f : [0, 1] × [0, 2π] 7→ R, definida por

f (x, y) = x cos (x + y) .

Ent˜ao f (1, ·) ´e a fun¸c˜ao y 7→ cos (1 + y), com dom´ınio em [0, 2π]. f (·, 2) ´e a fun¸c˜ao x 7→ x cos (x + 2), com dom´ınio no intervalo [0, 1].

Facilmente se verifica que para cada x ∈ [0, 1], a fun¸c˜ao f (x, ·) ´e cont´ınua, logo ´e integr´avel. Usando o Teorema fundamental da an´alise obt´em-se

F (x) =

Z

0

x cos (x + y) dy = 0, ∀x ∈ [0, 1] . De modo an´alogo, f (·, y) ´e integr´avel, qualquer que seja x ∈ [0, 1], e verifica-se

G (y) =R01x cos (x + y) dx = [x sin (x + y)]x=1x=0R01sin (x + y) dx =

= sin (1 + y) + [cos (x + y)]x=1x=0= sin (1 + y) + cos (1 + y) − cos y, ∀y ∈ [0, 2π] .

O teorema que nos permite reduzir o c´alculo de um integral com dom´ınio num n-rectˆangulo ao c´alculo de integrais em intervalos compactos pode ser formulado nos seguintes termos.

1Por exemplo, se f : E 7→ R for cont´ınua, ent˜ao f (x, ·) : E

2 7→ R ´e integr´avel, qualquer que seja x ∈ [a1, b1] (o

(17)

Teorema 44 Considere-se uma fun¸c˜ao integr´avel, f : [a1, b1] × E27→ R. Se, para cada x ∈ [a1, b1], a fun¸c˜ao f (x, ·) : E27→ R for integr´avel, ent˜ao verifica-se

Z [a1,b1]×E2 f = Z b1 a1 µZ E2 f (x, y) dydx.¤ (6)

Observa¸c˜ao 45 O Teorema 44 n˜ao tem qualquer rela¸c˜ao com a ordem pela qual s˜ao indicados os

argumentos da fun¸c˜ao f . Com efeito, pod´ıamos igualmente representar o rectˆangulo E na forma E = E1× [ak, bk] × E3, em que E1= [a1, b1] × ... × [ak−1, bk−1], e E1= [ak+1, bk+1] × ... × [an, bn].

Nesse caso obter´ıamos a seguinte formula¸c˜ao equivalente ao Teorema 44:

Considere-se uma fun¸c˜ao integr´avel, f : E 7→ R. Se, para cada xk ∈ [ak, bk], a fun¸c˜ao f (·, xk, ·) :

E1× E37→ R for integr´avel, ent˜ao verifica-se

Z E f = Z bk ak µZ E1×E3 f (x1, ..., xk−1, xk, xk+1, ..., xn) dx1...dxk−1dxk+1...dxndxk.¤

Demonstra¸c˜ao do Teorema 44. Suponha-se que f satisfaz as hip´oteses do Teorema e considere-se a fun¸c˜ao definida no in´ıcio desta sec¸c˜ao, F (x) = RE

2f (x, y) dy. A igualdade que se

pretende provar (6) pode ser escrita na forma Z [a1,b1]×E2 f = Z b1 a1 F.

Seja P = P1× P2, uma parti¸c˜ao em que P1= {x0, x1, ..., xk}, com a1 = x0< x1 < ... < xk = b1, e P2´e uma parti¸c˜ao do rectˆangulo E2 que define uma decomposi¸c˜ao em rectˆangulos n˜ao sobrepostos,

E2= l [ j=1 b Ej. Ent˜ao, U (f, P ) =Pk i=1 l P j=1 sup (x,y)∈[xi−1,xi]× bEj f (x, y) (xi− xi−1) C ³ b Ej ´ Pk

i=1x∈[xsupi−1,xi]

à l P j=1y∈ bsupEjf (x, y) C ³ b Ej ´! (xi− xi−1) = =Pk i=1 sup x∈[xi−1,xi] U (f (x, ·) , P2) (xi− xi−1) ≥ k P i=1 sup x∈[xi−1,xi] F (x) (xi− xi−1) = = U (F, P1) .

de modo an´alogo, verifica-se

L (f, P ) = Pk i=1 l P j=1 inf (x,y)∈[xi−1,xi]× bEj f (x, y) (xi− xi−1) C ³ b Ej ´ Pk i=1 inf x∈[xi−1,xi] Ã l P j=1 inf y∈ bEj f (x, y) C³Ebj ´! (xi− xi−1) = =Pk i=1 inf x∈[xi−1,xi] L (f (x, ·) , P2) (xi− xi−1) ≤ k P i=1 inf x∈[xi−1,xi] F (x) (xi− xi−1) = = L (F, P1) .

(18)

Temos portanto L (f, P ) ≤ L (F, P1) ≤ U (F, P1) ≤ U (f, P ), qualquer que seja a parti¸c˜ao P . Tendo

em conta que a parti¸c˜ao pode ser escolhida arbitrariamente fina, isto prova a igualdade (6).

Exemplo 46 Considere-se a fun¸c˜ao do exemplo 43,

f (x, y) = x cos (x + y) , (x, y) ∈ [0, 1] × [0, 2π] .

f ´e cont´ınua, logo o Teorema 41 garante que ´e integr´avel. Igualmente, a fun¸c˜ao f (x, ·) ´e cont´ınua (logo, integr´avel), qualquer que seja x ∈ [0, 1]. Ent˜ao aplica-se o Teorema 44 e, tendo em conta os c´alculos realizados no exemplo 43, o c´alculo deR[0,1]×[0,2π]f reduz-se a

Z [0,1]×[0,2π] f = Z 1 0 µZ 0 x cos (x + y) dydx = Z 1 0 0 dx = 0.

Tendo em conta a observa¸c˜ao 45, o Teorema permite tamb´em representar o integral de f na forma

Z [0,1]×[0,2π] f = Z 0 µZ 1 0 x cos (x + y) dxdy

(verifique que as hip´oteses s˜ao tamb´em satisfeitas). Nesse caso obt´em-se o mesmo resultado atrav´es de um c´alculo um pouco mais laborioso:

Z

[0,1]×[0,2π]

f =R0³R01x cos (x + y) dx´dy =

=R02πsin (1 + y) + cos (1 + y) − cos y dy = = [− cos (1 + y) + sin (1 + y) − sin y]y=2πy=0 = 0. Observa¸c˜ao 47 O Teorema 44 pode ser tamb´em aplicado ao integralRE

2f (x, y) dy. Em particular,

se a fun¸c˜ao f : E 7→ R for cont´ınua, o c´alculo do integral REf reduz-se ao c´alculo de um integral iterado Z E f = Z bi1 ai1 ÃZ bi2 ai2 ... ÃZ bin−1 ain−1 ÃZ bin ain f (x1, x2, ..., xn) dxin ! dxin−1 ! ... dxi2 ! dxi1, (7)

em que i1, i2, ..., in ´e uma permuta¸c˜ao arbitr´aria de {1, 2, ..., n}. No entanto, o exemplo 46 mostra

que, embora (no caso de todas as hip´oteses serem satisfeitas) todas as permuta¸c˜oes dos n primeiros naturais conduzam a integrais iterados com o mesmo valor (e, nesse sentido, sejam teoricamente equivalentes), pode dar-se o caso de certas permuta¸c˜oes (i.e., certas ordens pela qual se calculam os integrais em rela¸c˜ao a cada uma das vari´aveis) conduzirem a c´alculos mais simples do que outras.

Nota¸c˜ao 48 Os parˆentesis numa express˜ao como o lado direito da igualdade (7) s˜ao desnecess´arios.

Com efeito, para que n˜ao haja ambiguidade basta adoptar a conven¸c˜ao segundo a qual a indica¸c˜ao da vari´avel que se encontra mais `a esquerda (i.e., dxin no termo do lado direito da igualdade (7)) diz

respeito ao sinal de integral que se encontra mais `a direita (i.e., Rbin

ain na mesma express˜ao).

Por outras palavras, a express˜ao

Z b i1 ai1 ... Z b in−1 ain−1 Z bin ain f (x1, x2, ..., xn) dxindxin−1... dxi1

(19)

deve ler-se de acordo com o seguinte esquema: Z bi1 ai1 ... Z bin−1 ain−1 Z bin ain f (x1, x2, ..., xn) dxin | {z } dxin−1 | {z } .. . ... dxi1 | {z } .

4

Integrais definidos em conjuntos gen´

ericos

A defini¸c˜ao de integral estudada nas sec¸c˜oes anteriores ´e demasiado restritiva por se aplicar apenas a fun¸c˜oes definidas em rectˆangulos. Nesta sec¸c˜ao trataremos de generalizar a Defini¸c˜ao 17 de modo a incluir integrais do tipo RAf , em que A ⊂ Rn ´e um conjunto limitado mas bastante mais geral

do que um rectˆangulo. A classe de conjuntos na qual ´e poss´ıvel definir tais integrais ´e deixada propositadamente vaga. Em ´ultima an´alise, a possibilidade de definir um integral de uma dada fun¸c˜ao num dado dom´ınio ´e decidida com base no Teorema 41 (numa forma ligeiramente adaptada). Tal como a integrabilidade de uma fun¸c˜ao num rectˆangulo depende requer que a fun¸c˜ao seja suficientemente ”regular”, a integrabilidade de uma fun¸c˜ao num conjunto arbitr´ario requer um grau suficiente de ”regularidade conjunta” da fun¸c˜ao e do dom´ınio de integra¸c˜ao.

Come¸camos por definir o integral de uma fun¸c˜ao cujo dom´ınio ´e a uni˜ao de um n´umero finito de rectˆangulos n˜ao sobrepostos:

Defini¸c˜ao 49 Considere-se um conjunto finito de n-rectˆangulos n˜ao sobrepostos, {E1, E2, ..., Ek}.

Seja A = Sk

i=1

Ei, e seja f : A 7→ R, uma fun¸c˜ao limitada. Ent˜ao, f diz-se integr´avel no conjunto A

se for integr´avel em cada um dos conjuntos Ei, i = 1, 2, ..., k. O integral de f no conjunto A ´e

definido por Z A f = k X i=1 Z Ei f,

em que os integrais que figuram no somat´orio s˜ao definidos nos termos da Defini¸c˜ao 17.¤

O estudante atento poder´a duvidar se a Defini¸c˜ao 49 est´a correctamente formulada. Essa d´uvida ´e leg´ıtima porque um mesmo conjunto pode admitir uma infinidade de representa¸c˜oes sob a forma de uni˜oes finitas de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, n˜ao sendo claro que todas essas representa¸c˜oes conduzem ao mesmo valor do integral. A seguinte Proposi¸c˜ao remove essa objec¸c˜ao.

Proposi¸c˜ao 50 Considerem-se duas fam´ılias finitas de n-rectˆangulos n˜ao sobrepostos, {E1, E2, ..., Ek},

n b E1, bE2, ..., bEm o , tais que Sk i=1 Ei= m S i=1 b

Ei, e considere-se uma fun¸c˜ao limitada, f : k

S

i=1

Ei7→ R.

Se f for integr´avel em cada um dos rectˆangulos Ei, i = 1, 2, ..., k, ent˜ao f ´e integr´avel em cada um

dos rectˆangulos bEi, i = 1, 2, ..., m. Nesse caso, verifica-se k X i=1 Z Ei f = m X i=1 Z b Ei f.¤

Demonstra¸c˜ao. Para cada i ∈ {1, 2, ..., k} seja Pi, uma parti¸c˜ao do rectˆangulo Ei. A parti¸c˜ao

Pi decomp˜oe o rectˆangulo Ei numa uni˜ao de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, Ei = li

S

j=1

(20)

an´alogo, para cada i ∈ {1, 2, ..., m} seja bPi, uma parti¸c˜ao que decomp˜oe o rectˆangulo bEinuma uni˜ao

de rectˆangulos n˜ao sobrepostos, bEi= ri

S

j=1

b

Ei,j. Definam-se as somas de Darboux

U (f, P1, P2, ..., Pk) = k X i=1 U (f, Pi) = k X i=1 li X j=1 sup x∈Ei,j f (x) C (Ei,j) ; L (f, P1, P2, ..., Pk) = k X i=1 L (f, Pi) = k X i=1 li X j=1 inf x∈Ei,j f (x) C (Ei,j) ; U ³ f, bP1, bP2, ..., bPk ´ = m X i=1 U ³ f, bPi ´ = m X i=1 ri X j=1 sup x∈ bEi,j f (x) C ³ b Ei,j ´ ; L ³ f, bP1, bP2, ..., bPk ´ = m X i=1 L ³ f, bPi ´ = m X i=1 ri X j=1 inf x∈ bEi,j f (x) C ³ b Ei,j ´ ;

Note-se que as parti¸c˜oes Pi, i = 1, 2, ..., k podem ser escolhidas independentemente umas das outras.

Logo, inf P1,P2,...,Pk U (f, P1, P2, ..., Pk) = k X i=1 inf Pi U (f, Pi) ; sup P1,P2,...,Pk L (f, P1, P2, ..., Pk) = k X i=1 sup Pi L (f, Pi) .

Isto prova que inf

P1,P2,...,Pk

U (f, P1, P2, ..., Pk) = sup P1,P2,...,Pk

L (f, P1, P2, ..., Pk) se e s´o se f for integr´avel

em cada um dos rectˆangulos Ei.

Suponha-se ent˜ao que f ´e integr´avel em cada um dos rectˆangulos Ei, i = 1, 2, ..., k. Para cada

conjunto de parti¸c˜oes Pi, i = 1, 2, ..., k existe um conjunto de parti¸c˜oes bPi, i = 1, 2, ..., m tal que cada

um dos rectˆangulos bEbi,bj, definido pela parti¸c˜ao bPbiest´a contido nalgum rectˆangulo Ei,j, definido pela

parti¸c˜ao Pi. Um tal conjunto de parti¸c˜oes verifica

U (f, P1, P2, ..., Pk) ≥ U ³ f, bP1, bP2, ..., bPm ´ ≥ L ³ f, bP1, bP2, ..., bPm ´ ≥ L (f, P1, P2, ..., Pk) .

Isto prova que Pk

i=1 R Eif = m P i=1 R b Eif .

Existem muitos conjuntos nos quais poder´a ser ´util definir integrais mas que n˜ao podem ser representados como a uni˜ao finita de rectˆangulos (por exemplo, um c´ırculo em R2). Para definir o

integral de uma fun¸c˜ao com dom´ınio nesse tipo de conjuntos, segue-se uma abordagem diferente da utilizada na Defini¸c˜ao 49.

Defini¸c˜ao 51 Considere-se uma fun¸c˜ao limitada, f : A 7→ R, definida num conjunto limitado,

A ⊂ Rn.

Para cada rectˆangulo E ⊃ A, considere-se a fun¸c˜ao fA,E : E 7→ R, definida por

fA,E(x) =    f (x) se x ∈ A; 0 se x ∈ E\A.

(21)

A fun¸c˜ao f diz-se integr´avel no conjunto A se existir algum rectˆangulo E ⊃ A tal que fA,E ´e

integr´avel no sentido da Defini¸c˜ao 17. Nesse caso o integral de f no conjunto A ´e definido pela

express˜ao Z A f = Z E fA,E.¤

Tal como no caso da Defini¸c˜ao 49, coloca-se a quest˜ao de saber se a defini¸c˜ao de integral agora dada ´e correctamente formulada. Por outras palavras, dado um conjunto limitado A ⊂ Rn e dois

rectˆangulos quaisquer, E ⊃ A, bE ⊃ A, ser´a que fA,E ´e integr´avel se e s´o se fA, bE for integr´avel? Ser´a

que nesse caso se verifica sempre REfA,E =

R

b

EfA, bE? A Proposi¸c˜ao seguinte garante que a resposta

´e afirmativa.

Proposi¸c˜ao 52 Considere-se uma fun¸c˜ao limitada, f : A 7→ R, definida num conjunto limitado,

A ⊂ Rn. Sejam E ⊃ A, bE ⊃ A, rectˆangulos.

fA,E ´e integr´avel se e s´o se fA, bE for integr´avel. Nesse caso verifica-se

Z E fA,E = Z b E fA, bE

Demonstra¸c˜ao. E ∩ bE ´e um rectˆangulo e E\ bE pode ser representado sob a forma de uma uni˜ao

finita de rectˆangulos, E\ bE =Pki=1Ei (verifique que isto ´e verdade). Logo, a Proposi¸c˜ao 50 garante

que fA,E´e integr´avel se e s´o se fA,Efor integr´avel em cada um dos rectˆangulos

³

E ∩ bE

´

, E1, E2, ..., Ek.

Note-se que A ⊂ E ∩ bE, pelo que fA,E(x) = 0, ∀x ∈ int (Ei), i = 1, 2, ..., k. Logo a Proposi¸c˜ao 42

garante que fA,E ´e integr´avel em cada um dos rectˆangulos Ei, e verifica

R

EifA,E = 0, i = 1, 2, ..., k.

Logo, a Proposi¸c˜ao 50 garante que fA,E ´e integr´avel em E se e s´o se for integr´avel em E ∩ bE e nesse

caso verifica-se Z E fA,E = Z E∩ bE fA,E.

O mesmo argumento prova que que fA, bE´e integr´avel em bE se e s´o se for integr´avel em E ∩ bE e nesse

caso verifica-se Z b E fA, bE= Z E∩ bE fA, bE,

o que conclui a demonstra¸c˜ao.

O Teorema 41 tem o seguinte Corol´ario que caracteriza as fun¸c˜oes integr´aveis num conjunto limitado arbitr´ario.

Corol´ario 53 Seja A ⊂ Rn, um conjunto limitado e seja f : A 7→ R, uma fun¸c˜ao limitada. Fixe-se

um n-rectˆangulo qualquer, E, que contenha A.

f ´e integr´avel em A se e s´o o conjunto {x ∈ E : fA,E ´e descont´ınua no ponto x} tiver medida de

Lebesgue nula.¤

Demonstra¸c˜ao. Basta aplicar o Teorema 41, tendo em conta a Defini¸c˜ao 51 e a Proposi¸c˜ao 52.

A seguinte condi¸c˜ao ´a tamb´em um Corol´ario do Teorema 41. O seu principal interesse reside no facto de ser facilmente aplic´avel em muitas situa¸c˜oes de interesse pr´atico.

(22)

Corol´ario 54 Considere-se um conjunto aberto, U ⊂ Rn, e uma fun¸c˜ao cont´ınua, f : U 7→ R. Seja

A ⊂ U , um conjunto limitado.

Se f for limitada em A e f r (A) tiver medida de Lebesgue nula, ent˜ao f ´e integr´avel em A.¤

Demonstra¸c˜ao. Seja E um rectˆangulo que cont´em A (n˜ao ´e necess´ario que contenha tamb´em

U ). Se as hip´oteses do Corol´ario forem satisfeitas, ent˜ao fA,E ´e uma fun¸c˜ao limitada e o conjunto

dos seus pontos de descontinuidades est´a contido em f r (A). Aplicando o Teorema 41 obt´em-se o Corol´ario.

Exemplo 55 A fun¸c˜ao f (x, y) = x cos (x + y) ´e integr´avel no conjunto

A =©(x, y) ∈ R2: 0 ≤ x ≤ π, 0 ≤ y ≤ 2xª.

Com efeito, f ´e cont´ınua em U = R2 e |f (x, y)| ≤ π, ∀ (x, y) ∈ A. Por outro lado f r (A) = {(x, 0) : x ∈ [0, π]} ∪ {(π, y) : y ∈ [0, 2π]} ∪ {(x, 2x) : x ∈ [0, π]}. Usando o resultado do exerc´ıcio 31, conclui-se que f r (A) tem conte´udo de Jordan nulo (logo, tem medida de Lebesgue nula), pelo que todas as hip´oteses do Corol´ario 54 s˜ao satisfeitas.

Observa¸c˜ao 56 Note-se que, para um conjunto A ⊂ Rn limitado, as condi¸c˜oes

1. f r (A) tem medida de Lebesgue nula; 2. f r (A) tem conte´udo de Jordan nulo;

s˜ao equivalentes. Com efeito, se A ´e limitado, ent˜ao f r (A) ´e tamb´em limitado. Dado que f r (A) ´e necessariamente fechado, isto implica que f r (A) ´e compacto. Pelo Lema 33, um conjunto compacto tem medida nula se e s´o se tiver conte´udo nulo. Isto prova que o Corol´ario 54 n˜ao perde generalidade se substituirmos a hip´otese de f r (A) ter medida de Lebesgue nula pela hip´otese (aparentemente mais forte) de f r (A) ter conte´udo de Jordan nulo.

Considere-se uma fun¸c˜ao limitada, f : A 7→ R, cujo dom´ınio ´e um conjunto limitado, A ⊂ Rn,

arbitr´ario. Seja bf : Rn 7→ R, uma extens˜ao arbitr´aria de f (i.e., uma fun¸c˜ao, n˜ao necessariamente

cont´ınua, definida em todo Rn que verifica bf (x) = f (x) ∀x ∈ A). Ent˜ao, o integral R

Af pode

definir-se de modo equivalente `a Defini¸c˜ao 51 atrav´es da express˜ao Z A f = Z E b f (x) χA(x) dx,

em que E ´e um rectˆangulo qualquer que contenha o conjunto A e χA ´e a fun¸c˜ao caracter´ıstica do

conjunto A. Para simplificar a nota¸c˜ao, e dado n˜ao existir ambiguidade, costuma-se omitir o acento circunflexo no integral da direita e escrever simplesmente

Z A f = Z E f (x) χA(x) dx.

Esta nota¸c˜ao ´e bastante conveniente para lidar com fun¸c˜oes que admitem extens˜oes ”naturais” com dom´ınio Rn, como ´e o caso do seguinte exemplo.

(23)

Exemplo 57 Calcular o integral Z

A

x cos (x + y) dx dy, em que A =©(x, y) ∈ R2: 0 ≤ x ≤ π, 0 ≤ y ≤ 2xª.

Fazendo E = [0, π] × [0, 2π] e usando a defini¸c˜ao, temos

Z A x cos (x + y) dx dy = Z [0,π]×[0,2π] x cos (x + y) χA(x, y) dx dy.

No exemplo 55 mostrou-se que a fun¸c˜ao ´e integr´avel no dom´ınio indicado. Usando o Teorema 44 (verifique que as hip´oteses s˜ao satisfeitas), podemos representar o integral na forma

Z A x cos (x + y) dx dy = Z π 0 Z 0 x cos (x + y) χA(x, y) dy dx.

Note-se que para cada x ∈ [0, π] fixo, verifica-se χA(x, y) = 1 se e s´o se y ∈ [0, 2x]. Logo, o integral

pode ser representado como

Z

A

x cos (x + y) dx dy =R0πR02πx cos (x + y) χ[0,2x](y) dy dx =

=R0πR02xx cos (x + y) dy dx =R0πx [sin (x + y)]y=2xy=0 dx =

=R0πx (sin (3x) − sin x) dx =

=h−x³cos(3x)3 − cos x´ix=π

x=0+ Rπ 0 ³ cos(3x) 3 − cos x ´ dx = = −2 3π + h sin(3x) 9 − sin x ix=π x=0 = − 2 3π. Com alguma pr´atica o aluno dever´a ser capaz de fazer a passagem

Z A x cos (x + y) dx dy = Z π 0 Z 2x 0 x cos (x + y) dy dx sem ter que invocar explicitamente a fun¸c˜ao caracter´ıstica χA.

Para terminar, notamos que a Defini¸c˜ao 51 permite tamb´em definir o conte´udo de Jordan de qualquer conjunto mensur´avel no sentido de Jordan:

Defini¸c˜ao 58 Considere-se um conjunto A ⊂ Rn, mensur´avel no sentido de Jordan. O seu conte´udo

de Jordan ´e o n´umero real C (A), definido por C (A) = Z A 1 = Z E χA,

em que E ´e um rectˆangulo que cont´em A.¤

Exerc´ıcio 59 Verifique que o conte´udo de Jordan das seguintes figuras geom´etricas coincide com as

respectivas ´areas medidas pelas f´ormulas habituais: 1. o triˆangulo de base b e altura h;

(24)

5

Algumas propriedades dos integrais

O objectivo desta Sec¸c˜ao ´e apresentar algumas propriedades elementares de integrais de fun¸c˜oes definidas num conjunto gen´erico. A primeira destas propriedades ´e uma generaliza¸c˜ao da Proposi¸c˜ao 50.

Teorema 60 Sejam A1, A2⊂ Rn conjuntos mensur´aveis no sentido de Jordan, tais que A1∩ A2tem

conte´udo de Jordan nulo. Considere-se uma fun¸c˜ao limitada, f : A1∪ A27→ R.

Ent˜ao f ´e integr´avel em A1∪ A2 se e s´o se for integr´avel em A1 e em A2. Nesse caso,

Z A1∪A2 f = Z A1 f + Z A2 f.¤

Demonstra¸c˜ao. Note-se que a Proposi¸c˜ao 37 juntamente com o Teorema 41 e a observa¸c˜ao 56 garante que um conjunto limitado ´e mensur´avel no sentido de Jordan se e s´o se a sua fronteira tiver conte´udo nulo. Logo, f r (A1) e f r (A2) tˆem conte´udo de Jordan nulo.

Suponha-se que f ´e integr´avel em A1 ∪ A2. Pelo Teorema 41, o conjunto

{x ∈ Rn : f χ

A1∪A2 ´e descont´ınua no ponto x} tem conte´udo de Jordan nulo. Tendo em conta que

{x ∈ Rn: f χA1 ´e descont´ınua no ponto x} ⊂ {x ∈ R

n: f χ

A1∪A2 ´e desc. no ponto x} ∪ f r (A1) ;

{x ∈ Rn: f χA2 ´e descont´ınua no ponto x} ⊂ {x ∈ R

n: f χ

A1∪A2 ´e desc. no ponto x} ∪ f r (A2) ,

o Teorema 41 garante que f ´e integr´avel em A1e em A2. Reciprocamente se f for integr´avel em A1

e em A2, tendo em conta que {x ∈ Rn : f χ

A1∪A2 ´e descont´ınua no ponto x} ⊂

⊂ {x ∈ Rn: f χ

A1 ´e desc. no ponto x} ∪ {x ∈ R

n: f χ

A2 ´e desc. no ponto x} ,

o Teorema 41 garante tamb´em que f ´e integr´avel em A1∪ A2.

Finalmente,

f χA1∪A2 = f (χA1+ χA2− χA1∩A2) = f χA1+ f χA2− f χA1∩A2,

ou seja, f χA1∪A2 difere de f χA1+ f χA2 apenas num conjunto contido em A1∩ A2. Tendo em conta

que, por hip´otese, A1∩ A2tem conte´udo de Jordan nulo, a Proposi¸c˜ao 42 juntamente com o Teorema

19 garante que RA 1∪A2f = R A1f + R A2f.

O Teorema 60 ´e usado com muita frequˆencia no c´alculo de integrais, como se ilustra no seguinte exemplo.

Exemplo 61 Considere-se o conjunto A = ©(x, y) ∈ R2: −1 ≤ x ≤ 1, −1 − x2≤ y ≤ 1 − x, e seja f : A 7→ R, uma fun¸c˜ao cont´ınua.

O Teorema 41 garante que f ´e integr´avel em A, e o Teorema 44 permite-nos reduzir o integral

Z A f = Z 1 −1 Z 1−x2 −√1−x2 f (x, y) dy dx. (8)

No entanto, existe tamb´em a seguinte redu¸c˜ao: Sejam

A1 = ©(x, y) ∈ R2: −1 ≤ x ≤ 1, 0 ≤ y ≤ 1 − x, A2 = n(x, y) ∈ R2: −1 ≤ x ≤ 1, −p1 − x2≤ y ≤ 0o.

(25)

O exerc´ıcio 31 prova que f r (A1) e f r (A2) tˆem conte´udo de Jordan nulo, logo A1 e A2 s˜ao men-sur´aveis no sentido de Jordan. Al´em disso A = A1∪ A2 e A1∩ A2= [−1, 1] × {0} tem conte´udo de

Jordan nulo. Logo, o Teorema 60 permite-nos escrever

Z A f = Z A1 f + Z A2 f. Ent˜ao o Teorema 44 permite-nos reduzir o integral

Z A f = Z 0 −1 Z √1−y2 −√1−y2 f (x, y) dx dy + Z 1 0 Z 1−y −√1−y f (x, y) dx dy. (9)

Note-se que na express˜ao (9) o integral fica reduzido `a soma de dois integrais iterados, enquanto na express˜ao (8) fica reduzido a um ´unico integral iterado. No entanto, na grande maioria dos casos, a principal dificuldade encontrada no c´alculo de um integral decorre de dificuldades no c´alculo das primitivas. Por isso a express˜ao (9) pode ser mais conveniente do que a express˜ao (8) ou vice-versa, dependendo da fun¸c˜ao integrada.

Teorema 62 Considere-se um conjunto A ⊂ Rn, mensur´avel no sentido de Jordan, e uma fun¸c˜ao

f : A 7→ R, integr´avel. Ent˜ao existe α ∈ R, tal que

inf

x∈Af (x) ≤ α ≤ supx∈Af (x) ,

Z

A

f = αC (A) . Se f for cont´ınua e A for conexo, ent˜ao existe x ∈ A, tal que

Z

A

f = f (x) C (A) .¤

Demonstra¸c˜ao. Sejam m = inf

x∈Af (x), M = supx∈Af (x). Pelo Teorema 19, verifica-se

mC (A) ≤

Z

A

f ≤ M C (A) .

Se C (A) = 0, ent˜ao qualquer α ∈ [m, M ] verifica o Teorema. Se C (A) > 0, ent˜ao α = 1

C(A)

R

Af

verifica o Teorema.

Suponha-se agora que f ´e cont´ınua e A ´e conexo. Se C (A) = 0, ent˜ao qualquer x ∈ A verifica o Teorema. Suponha-se ent˜ao que C (A) > 0 e f (x) 6= 1

C(A)

R

Af , ∀x ∈ A. Dado que f ´e cont´ınua,

existem abertos U ⊂ Rn, V ⊂ Rn, tais que

½ x ∈ A : f (x) < 1 C (A) Z A f ¾ = A ∩ U, ½ x ∈ A : f (x) > 1 C (A) Z A f ¾ = A ∩ V.

Ent˜ao, verifica-se (A ∩ U ) ∩ (A ∩ V ) = ∅ e A = (A ∩ U ) ∪ (A ∩ V ), ou seja, A n˜ao ´e um conjunto conexo. Como isto ´e uma contradi¸c˜ao, conclui-se que existe pelo menos um elemento x ∈ A que verifique f (x) = 1

C(A)

R

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