O GRUPO DE RENORMALIZAC
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AO E
ALGUMAS APLICAC
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Orientador: MARCO MORICONI
Niter´oi-RJ 2014
O GRUPO DE RENORMALIZAC
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AO E ALGUMAS APLICAC
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OES
Trabalho de monografia apresentado ao curso de graduac¸˜ao em F´ısica -Bacharelado, da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial `a conclus˜ao do curso.
Orientador: MARCO MORICONI
Niter´oi-RJ 2014
O GRUPO DE RENORMALIZAC
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AO E ALGUMAS APLICAC
¸ ˜
OES
Trabalho de monografia apresentado ao curso de graduac¸˜ao em F´ısica -Bacharelado, da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial `a conclus˜ao do curso.
Aprovada em marc¸o de 2015.
BANCA EXAMINADORA:
Prof. Dr. Marco Moriconi
UFF
Prof. Dr. Rodrigo Ferreira Sobreiro
UFF
Prof. Dr. Rubens Luis Pinto Gurgel do Amaral
UFF
Niter´oi-RJ 2015
Agradec¸o `a minha fam´ılia.
Aos meus amigos, nas horas de estudo e de recreac¸˜ao.
Aos meus professores, muito do que aprendi se reflete nesse trabalho.
Em especial ao professor Marco Moriconi, pelas discuss˜oes, referˆencias e coment´arios so-bre esse tema que me era novo h´a um ano.
Aos professores M´arcio Argollo e Luis Oxman por dicas e discuss˜oes sobre a monografia.
2.1 Uma trajet´oria poss´ıvel para o campo . . . p. 24
3.1 Rede do modelo de Ising . . . p. 33
3.2 Uma transformac¸˜ao de blocos, feita a mudanc¸a de escala. Exatamente na
temperatura cr´ıtica . . . p. 36
3.3 Uma transformac¸˜ao de blocos, feita a mudanc¸a de escala. Acima da
tempe-ratura cr´ıtica . . . p. 37
3.4 Fluxo do grupo de renormalizac¸˜ao para o modelo de Ising unidimensional . . p. 40
3.5 Configurac¸˜ao de um v´ortice . . . p. 43
4.1 Fluxos do grupo de renormalizac¸˜ao do sine-Gordon. . . p. 57
4.2 Fluxos (y1× β12) para β22< 8π . . . p. 65
4.3 Fluxos (y1× β12) para β22> 8π . . . p. 65
1 Apenas uma fase. . . p. 72
2 In´ıcio da opalescˆencia. . . p. 72
3 Opalescˆencia. . . p. 73
4 Menisco comec¸a a se formar. . . p. 73
Resumo p. 10
Abstract p. 11
Notac¸˜ao p. 12
1 Introduc¸˜ao p. 14
2 Teoria quˆantica de campos p. 16
2.1 Teoria cl´assica de campos . . . p. 17
2.2 Campos escalares . . . p. 20
2.3 Integral de trajet´oria e integral funcional . . . p. 21
2.4 Extens˜ao a campos escalares . . . p. 26
2.5 Formulac¸˜ao euclidiana . . . p. 27
2.6 Fenˆomenos cr´ıticos . . . p. 28
3 O grupo de renormalizac¸˜ao p. 31
3.1 F´ısica estat´ıstica e transic¸˜oes de fase . . . p. 32
3.2 O grupo de renormalizac¸˜ao . . . p. 35
3.3 O modelo de Ising unidimensional . . . p. 38
3.4 Modelo de Ising bidimensional . . . p. 40
3.5 Teoria geral do grupo de renormalizac¸˜ao . . . p. 45
4 Os modelos sine-Gordon e sine-Gordon duplo p. 47
5 Conclus˜ao e Propostas Futuras p. 66
Referˆencias Bibliogr´aficas p. 68
Apˆendices p. 70
A Integrac¸˜ao Gaussiana . . . p. 70
B Propagador da teoria livre . . . p. 71
Resumo
Nesse trabalho estudamos o grupo de renormalizac¸˜ao e a teoria dos fenˆomenos cr´ıticos. Essa ´e a abordagem utilizada para estudar as transic¸˜oes de fase nos modelos sine-Gordon e sine-Gordon duplo. Obtemos os fluxos do grupo de renormalizac¸˜ao para esses dois modelos e interpretamos suas fases como a presenc¸a ou ausˆencia de v´ortices. Ambos os modelos s˜ao de grande interesse, o primeiro ´e n˜ao-linear mas tem soluc¸˜oes anal´ıticas, e o segundo permite observar fenˆomenos perturbativos nas soluc¸˜oes do primeiro.
Abstract
In this work we study the renormalization group and the theory of critical phenomena. This is the approach for studying phase transitions in the sine-Gordon and double sine-Gordon models. We obtain the renormalization group flows for these two models and interpret their phases as the presence or absence of vortices. Both of these models are of great interest, the first is non-linear but has analytical solutions, and the second allows one to observe perturbative phenomena in the solutions of the first one.
Notac¸˜ao
Trabalharei em unidades naturais
¯h = c = 1 (1)
Todas as quantidades nesse sistema de unidades podem ser medidas em termos de uma ´unica quantidade, massa ou comprimento, por exemplo. Usando [x] = [ct], descobrimos que
[comprimento] = [tempo] , (2)
ou ainda com E = mc2, [energia] = [massa], e de λ = ¯h/mc, que [comprimento] = [massa]−1. Todas essas unidades podem ser expressas em termos de massa, da forma:
[massa] = [comprimento]−1= [tempo]−1= [energia] (3)
O tensor m´etrico usado ´e
ηµ ν= 1 0 0 0 0 −1 0 0 0 0 −1 0 0 0 0 −1
e os ´ındices gregos variam de 0 a 3. ´Indices repetidos s˜ao sempre somados. Quadrivetores est˜ao em it´alico sem negrito e vetores espaciais s˜ao indicados por negrito. Ent˜ao
xµ = (x0, x) (4)
p· x = ηµ νpµxν = p
0x0− p · x
Para part´ıculas massivas p2= pµpµ = E2− |p|2= m2 (6) As derivadas s˜ao ∂µ = ∂ ∂ xµ = ( ∂ ∂ x0, ∇) (7)
1
Introduc¸˜ao
Na maioria dos fenˆomenos f´ısicos podemos tratar separadamente cada escala, por exemplo, descrevemos mol´eculas de H2Ousando mecˆanica quˆantica e ondas no mar com as equac¸˜oes de
Navier-Stokes. A grande dificuldade em tratar fenˆomenos cr´ıticos est´a em n˜ao poder fazer essa separac¸˜ao. Uma vez que no ponto cr´ıtico o comprimento de correlac¸˜ao (e outras quantidades) divergem, observamos flutuac¸˜oes em todas as escalas no sistema.
O grupo de renormalizac¸˜ao ´e um conjunto de t´ecnicas e ideias desenvolvido na segunda metade do s´eculo XX para tratar fenˆomenos cr´ıticos no equil´ıbrio. Ele consiste em fazer uma s´erie de transformac¸˜oes na Hamiltoniana do sistema de forma a obter um modelo mais simples com as mesmas propriedades no ponto cr´ıtico.
Em teoria quˆantica de campos, por exemplo, estamos interessados no comportamento a baixas energias (comprimentos altos) de uma teoria, mas ele n˜ao pode ser obtido diretamente da Hamiltoniana. As transformac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao sucessivamente incluem flutuac¸˜oes em altas energias nas constantes do modelo, at´e que chegamos a uma Hamiltoni-ana expressa em termos de vari´aveis de baixas energias.
Pr´oximo dos pontos cr´ıticos, observamos que v´arias propriedades dos sistemas f´ısicos se comportam como leis de potˆencia. Os coeficientes se repetem para teorias completamente di-ferentes (por exemplo, fluidos e o modelo de Ising unidimensional), isso caracteriza a univer-salidade: os expoentes dependem apenas de algumas caracter´ısticas da Hamiltoniana, que s˜ao sua dimensionalidade, suas simetrias e a dimensionalidade do parˆametro de ordem. A´ı est´a o sucesso do grupo de renormalizac¸˜ao, pois podemos reescrever um modelo complicado como um modelo bem mais simples e obter seus expoentes cr´ıticos exatamente.
Nesta monografia, as t´enicas do grupo de renormalizac¸˜ao s˜ao explicadas e aplicadas a al-guns sistemas: o modelo de Ising e os modelos sine-Gordon e sine-Gordon duplo. Encon-tramos para cada um desses sistemas os fluxos do grupo de renormalizac¸˜ao, que descrevem como as constantes de uma Hamiltoniana se transformam com as sucessivas iterac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao. Esses fluxos descrevem, ao menos topologicamente, as transic¸˜oes de fase
numa teoria, dividindo regi˜oes de acoplamento forte e acoplamento fraco, por exemplo.
O cap´ıtulo 2 faz uma revis˜ao da teoria quˆantica de campos na abordagem da integral de caminhos, assim como a conex˜ao desta com a f´ısica estat´ıstica. Vemos que uma teoria de campos em d dimens˜oes espaciais ´e equivalente a um sistema estat´ıstico no ponto cr´ıtico em d+ 1 dimens˜oes espaciais. Conex˜ao que ´e usada no cap´ıtulo seguinte para relacionar o modelo XY com o sine-Gordon.
Antes de fazer essa conex˜ao, o cap´ıtulo 3 explica a teoria do grupo de renormalizac¸˜ao e das transic¸˜oes de fase. O exemplo cl´assico ´e o modelo de Ising, que ilustra todas as id´eias e a linguagem necess´arias. Tamb´em fazemos um c´alculo anal´ıtico das transformac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao para esse modelo em uma dimens˜ao, encontrando seu diagrama de fases (fluxos).
Outra id´eia que encontramos ´e a de dimens˜ao cr´ıtica inferior. Nos modelos discretos (Ising, por exemplo), n˜ao pode haver fase ordenada em uma dimens˜ao, apenas a partir de duas di-mens˜oes. J´a em modelos cont´ınuos, s´o pode haver fase ordenada a partir de trˆes dimens˜oes, mesmo assim o modelo XY, que ´e uma extens˜ao cont´ınua do modelo de Ising bidimensional, apresenta uma transic¸˜ao de fase, mas sem a existˆencia de uma fase ordenada. A diferenc¸a entre essas fases ´e a presenc¸a de v´ortices, excitac¸˜oes topol´ogicas no sistema. Devido `a corres-pondˆencia, isso tamb´em acontece no sine-Gordon.
Essa ´e a transic¸˜ao de fase estudada no cap´ıtulo 4, usando o grupo de renormalizac¸˜ao. O sine-Gordon, al´em dessa transic¸˜ao de fase curiosa, tamb´em ´e de interesse pois ´e uma teoria de campos n˜ao-linear que tem soluc¸˜ao exata, e que encontra aplicac¸˜oes em sistema reais como as Junc¸˜oes Josephson. Outro modelo estudado ´e o Gordon duplo, uma extens˜ao do sine-Gordon, que busca capturar efeitos mais sutis em sistemas reais, e pode ser tratada como uma perturbac¸˜ao ao modelo original. A existˆencia de soluc¸˜oes exatas para o sine-Gordon se mostra muito ´util pois podemos expandir modelos n˜ao-integr´aveis (como o sine-Gordon duplo) em torno das soluc¸˜oes anal´ıticas que temos do modelo n˜ao-linear.
Finalmente, encontramos os fluxos do grupo de renormalizac¸˜ao para o Gordon e o sine-Gordon duplo, e o modelo XY nos ajuda a entender as fases encontradas usando a interpretac¸˜ao dos v´ortices. Os fluxos nos mostram para quais parˆametros esses modelos equivalem a teorias com ou sem v´ortices.
2
Teoria quˆantica de campos
J´a no in´ıcio do desenvolvimento da teoria quˆantica original, na d´ecada de 1920, algumas de suas falhas foram percebidas. A primeira ´e que ela n˜ao ´e uma teoria relativ´ıstica, outra teoria nova, mas que j´a tinha alguns testes experimentais a apoiando, `a ´epoca. A primeira tentativa de Schr¨odinger de escrever uma equac¸˜ao para a dinˆamica dos sistemas quˆanticos resultou na equac¸˜ao hoje atribu´ıda a Oskar Klein e Walter Gordon, mas foi descartada por fornecer os valores errados para as linhas espectrais do ´atomo de hidrogˆenio. Outra das falhas da teoria quˆantica ´e que processos simples, como o decaimento espontˆaneo de um ´atomo de hidrogˆenio num estado excitado, n˜ao podiam ser descritos. Nesse processo n˜ao h´a conservac¸˜ao do n´umero de part´ıculas, pois surge um f´oton fruto do decaimento, e o estado final j´a pertence a um espac¸o diferente do inicial, sendo que a equac¸˜ao de Schr¨odinger n˜ao ´e capaz de conect´a-los. Mas, novamente da relatividade especial, sabe-se que o n´umero de part´ıculas n˜ao precisa se conservar, uma vez que esta teoria mostra a equivalˆencia entre massa e energia, e a quantidade que se conserva ´e a energia total, incluindo a energia de repouso das part´ıculas em uma reac¸˜ao. Outros processos em que o n´umero e o tipo das part´ıculas muda s˜ao conhecidos, como decaimentos radioativos e os chuveiros de part´ıculas gerados pelos raios c´osmicos.
As primeiras tentativas para resolver a incompatibilidade entre a mecˆanica quˆantica e a teoria da relatividade especial foram de escrever equac¸˜oes como a de Schr¨odinger, mas com Hamiltonianos relativ´ısticos, isto ´e, devidamente invariantes de Lorentz e que tivessem a relac¸˜ao de dispers˜ao de Einstein, equac¸˜oes da forma:
i¯h∂ Ψ
∂ t = HΨ (2.1)
Dessa forma s˜ao as equac¸˜oes de Klein-Gordon, Dirac e outras ainda.Mas elas ainda apre-sentam inconsistˆencias e paradoxos, como probabilidades negativas e energias negativas para part´ıculas livres [1, cap. 2]. Hoje, na perspectiva da teoria quˆantica de campos, essas equac¸˜oes s˜ao v´alidas, mas sua interpretac¸˜ao n˜ao ´e a de equac¸˜oes de uma part´ıcula, como Schr¨odinger, mas ditam a dinˆamica de operadores de campo, cujos diferentes modos s˜ao part´ıculas em variados
estados. Essa mudanc¸a de perspectiva resolve os problemas citados, inclusive o de equac¸˜oes onde muda o n´umero de part´ıculas, pois no ato da quantizac¸˜ao naturalmente surgem operadores de criac¸˜ao e destruic¸˜ao de part´ıculas, e elas podem aparecer em reac¸˜oes mesmo quando n˜ao h´a energia suficiente para cri´a-las, mas como estados virtuais intermedi´arios.
Outros dos problemas resolvidos pela teoria quˆantica de campos ´e a existˆencia de anti-part´ıculas e explicar a relac¸˜ao entre spin e estat´ıstica, al´em dos c´alculos te´oricos mais precisos j´a feitos. Por exemplo o fator giromagn´etico do m´uon, predito pela eletrodinˆamica quˆantica at´e a d´ecima casa decimal, usando teoria de perturbac¸˜ao de quarta ordem no parˆametro α = e2/4π ¯hc ' 1/137. Os valores encontrados foram (g − 2)/2|exp = 11 659 204(5) × 10−10e os preditos pela teoria (g − 2)/2|teo = 11 659 215(3) × 10−10 [2]. C´alculos ainda mais precisos s˜ao complicados, pois envolvem muitos diagramas e j´a envolvem contribuic¸˜oes hadrˆonicas, es-copo da cromodinˆamica quˆantica, mas desvios em mais altas ordens podem ser indicativos de nova f´ısica.
Mas os m´etodos da teoria quˆantica de campos s˜ao muito mais gerais, e j´a encontram aplicac¸˜oes em ´areas al´em da f´ısica de part´ıculas, tais como a mat´eria condensada e a f´ısica es-tat´ıstica, pois s˜ao apropriados para manipular muitos graus de liberdade, infinitos, na verdade, e tratar fenˆomenos coletivos.
2.1
Teoria cl´assica de campos
A teoria cl´assica de campos j´a d´a um tratamento para a dinˆamica de sistemas com infinitos graus de liberdade (cont´ınuos), como uma extens˜ao natural da dinˆamica de pontos materiais. Ent˜ao faremos uma revis˜ao dos princ´ıpios variacionais da mecˆanica e os estenderemos aos campos, essa ainda ´e a base para a teoria quˆantica de campos, onde esses objetos s˜ao tratados como operadores (ou seja, s˜ao “quantizados”).
Um sistema cl´assico com N graus de liberdade ´e descrito por um conjunto de coordenadas qi, com i = 1, ..., N, chamadas coletivamento de q. A lagrangeana ´e uma func¸ao dos qi e ˙qi,
suas derivadas no tempo, e nos casos n˜ao-relativ´ısticos ´e dada por L = ∑i(mi/2) ˙qi2− V (q). O
funcional ac¸˜ao ´e:
S=
Z Tf
Ti
dt L(q, ˙q) (2.2)
O princ´ıpio da ac¸˜ao afirma que, fixando os valores extremos das coordenadas no tempos inicial, Ti, e final, Tf, ou seja, q(Ti) = qi, q(Tf) = qf, a trajet´oria cl´assica q(t) que satisfaz essas
condic¸˜oes ´e tamb´em a que extremiza a ac¸˜ao, isto ´e: δ S = δ Z Tf Ti dt L(q, ˙q) = 0 (2.3) A variac¸˜ao da lagrangeana, δ L =
∑
i ∂ L ∂ qi δ qi+ ∂ L ∂ ˙qi δ ˙qi, (2.4)onde as vari´aveis δ q e δ ˙q s˜ao todas independentes, por isso escrevemos a variac¸˜ao da ac¸˜ao como δ S = Z Tf Ti dt
∑
i ∂ L ∂ qi δ qi+ ∂ L ∂ ˙qi δ ˙qi = 0 . (2.5)J´a que a derivada temporal e a variac¸˜ao δ comutam, δ ˙qi= dtdδ qi. Integramos o segundo termo
por partes, gerando um termo de superf´ıcie que n˜ao contribui no c´alculo, pois a variac¸˜ao de q ´e nula nas extremidades, j´a que est˜ao fixas.
Z Tf Ti dt
∑
i ∂ L ∂ qi − d dt ∂ L ∂ ˙qi δ qi+∑
i ∂ L ∂ ˙qi δ q Tf Ti = 0 (2.6)Cada variac¸˜ao δ qi´e independente, assim para que a integral seja nula, cada termo que
acom-panha uma dessas variac¸˜oes deve ser nulo, de onde se obt´em as equac¸˜oes de Euler-Lagrange:
∂ L ∂ qi − d dt ∂ L ∂ ˙qi = 0 . (2.7)
O formalismo Hamiltoniano ´e obtido do lagrangeano atrav´es de uma transformac¸˜ao de Le-gendre, ela ´e poss´ıvel pois esta ´e uma func¸˜ao de concavidade bem definida nas coordenadsas
˙
qi para os modelos mais simples [3, cap. 3] [4, cap. 5], fazemos a identificac¸˜ao pi= ∂ ˙∂ Lqi, e o
Hamiltoniano ´e expresso como:
H(p, q) =
∑
i
piq˙i− L (2.8) Com ˙qiescritos em func¸˜ao dos pie possivelmente qi.
Todo o argumento acima pode ser repetido para campos φi(~x,t) ou simplesmente φi(x),
de interesse para esse trabalho, s˜ao definidos como φ0(x0) = φ (x), isto ´e, s˜ao invariantes sob mudanc¸as de referencial (transformac¸˜oes de Lorentz). Os campos assumem a posic¸˜ao das coor-denadas discretas qi e, para uma lagrangeana local, suas vari´aveis s˜ao φ e ∂µφ , a dependˆencia
apenas na primeira derivada garante uma dinˆamica interessante numa teoria local. Escrevemos a lagrangeana na forma
L=
Z
d3xL (φ,∂µφ ) , (2.9) L ´e chamada de densidade lagrangeana, mas que ser´a chamada apenas de lagrangeana, por n˜ao oferecer confus˜ao devido ao contexto. A ac¸˜ao se torna
S=
Z
dt L=
Z
d4xL (2.10)
E os limites de integrac¸˜ao s˜ao estendidos para todo o espac¸o-tempo, tal que os campos de interesse s˜ao aqueles que caem suficientemente r´apido no infinito, de forma que todos os termos de superf´ıcie podem ser desconsiderados. Toda a manipulac¸˜ao feita para coordenadas discretas pode ser repetida para os campos, pois a dinˆamica tamb´em ´e definida pelo princ´ıpio de que a ac¸˜ao deve ser estacion´aria. Novamente:
δ S = Z d4x
∑
i ∂L ∂ φi δ φi+ ∂L ∂ (∂µφi) δ (∂µφi) = Z d4x∑
i ∂L ∂ φi − ∂µ ∂L ∂ (∂µφi) δ φi= 0 , (2.11)de onde obtemos novamente as equac¸˜oes de Euler-Lagrange:
∂L ∂ φi − ∂µ ∂L ∂ (∂µ φi) = 0 . (2.12)
Tamb´em podemos descrever os campos no formalismo Hamiltoniano, obtido da mesma forma, definindo os momentos canonicamente conjugados
Πi(x) =
∂L ∂ (∂0φi(x))
e a densidade Hamiltoniana
H =
∑
i
Πi(x)∂0φi(x) −L , (2.14)
com o Hamiltoniano total naturalmente dado por H =R
d3xH .
No formalismo Lagrangeano, a invariˆancia de Lorentz fica sempre expl´ıcita, uma vez que as coordenadas s˜ao de forma covariante, o que ajuda muito a construir uma ac¸˜ao que seja escalar de Lorentz, pois s˜ao limitadas as maneiras de constru´ı-los, com escalares e contrac¸˜oes de vetores aµbµ, por exemplo. J´a no formalismo Hamiltoniano, o tempo tem um papel diferente, pois
aparece na definic¸˜ao dos momentos conjugados.
2.2
Campos escalares
Como visto, s˜ao limitadas as possibilidades de se construir uma ac¸˜ao invariante de Lorentz, e uma ac¸˜ao com dinˆamica o m´ınimo interessante precisa conter ∂µφ , que deve ser contra´ıdo, e
n˜ao h´a outro vetor no problema at´e ent˜ao que n˜ao o pr´oprio ∂µφ . Assim constru´ımos uma ac¸ ˜ao
adequada: S=1 2 Z d4x(∂µφ ∂µφ − m 2 φ2) (2.15)
O fator de 1/2 ´e conveniente para a normalizac¸˜ao e pode ser obtido de uma redefinic¸˜ao dos campos. A equac¸˜ao de Euler-Lagrange para esse campo ´e
∂2 ∂ t2− ∇ 2+ m2 φ = 0 ou (∂µ∂µ+ m 2)φ = 0 (2.16)
Essa ´e a equac¸˜ao de Klein-Gordon, a equac¸˜ao relativ´ıstica para uma part´ıcula escalar livre. Ondas planas e±ipxs˜ao soluc¸˜oes dela com a relac¸˜ao de dispers˜ao p2= m2, isto ´e:
(p0)2− (p)2= m2 (2.17) A conhecida relac¸˜ao de dispers˜ao da relatividade especial permite identificar o parˆametro mcomo a massa da part´ıcula. J´a que o campo deve ser real, impomos φ (x) = φ∗(x) e a soluc¸˜ao
geral para a equac¸˜ao de Klein-Gordon deve ser: φ (x) = Z d3p (2π)3√2E P (aPe−ipx+ a∗Peipx) p0=E P (2.18) Onde EP= +p(p2+ m2). O fator √
2EP ´e conveniente para a normalizac¸˜ao. E as soluc¸˜oes
tem frequˆencias tanto positivas (e−ipx) quanto negativas (eipx), que na verdade n˜ao s˜ao energias negativas, como se poderia pensar em analogia com a interpretac¸˜ao da equac¸˜ao de Schr¨odinger. Somente ap´os a quantizac¸˜ao da teoria ´e poss´ıvel interpretar as frequˆencias negativas [1, cap. 2].
´
E f´acil obter o Hamiltoniano seguindo a receita da teoria de campos:
Πφ = ∂L ∂ (∂0φ ) = ∂0φ (2.19) H = Πφ∂0φ −L = 1 2 h Π2φ+ (∇φ )2+ m2φ2 i (2.20)
2.3
Integral de trajet´oria e integral funcional
Existem duas formulac¸˜oes equivalentes da teoria quˆantica de campos, a primeira ´e a de quantizar os campos, transformando-os em operadores, por isso o nome segunda quantizac¸˜ao. A segunda, mais apropriada para a nossa abordagem, ´e a das integrais de trajet´oria, em que n˜ao h´a quantizac¸˜ao, pois a lagrangeana n˜ao equivale a um operador, n˜ao ´e uma quantidade que pode ser observada.
Os m´etodos funcionais (ou integral de trajet´oria) se valem do formalismo lagrangeano, onde as simetrias ficam expl´ıcitas, o que ´e uma vantagem. Al´em de permitir um tratamento n˜ao-perturbativo para teorias interagentes e por sua conex˜ao direta com a mecˆanica estat´ıstica e a teoria de fenˆomenos cr´ıticos, de grande interesse para este trabalho.
Operadores ser˜ao representados por quantidades com um chap´eu, como ˆqe ˆp. Na represen-tac¸˜ao de Schr¨odinger, os operadores s˜ao fixos e os estados evoluem segundo
|ΨS(t)i = e−i ˆHt|ΨS(0)i (2.21)
permane-cem fixos.
|ΨHi = ei ˆHt|ΨS(t)i (2.22)
e os operadores s˜ao
ˆ
AH(t) = ei ˆHtAˆSe−i ˆHt . (2.23)
Qualquer uma das duas interpretac¸˜ao pode ser usada para calcular a amplitude de um estado |qi, Tii evoluir para |qf, Tfi:
A = hqf, Tf|qi, Tii (2.24)
Observe que a um tempo fixo t, os estados |q,ti formam um conjunto completo,
1 =
Z
dq|q,tihq,t| , (2.25) que pode ser inserido entre os dois estados acima v´arias vezes, com tempos t1,t2, ...,tN−1,
orde-nados em ordem crescente Ti= t0< t1< ... < tN−1< tN= Tf, e uniformemente espac¸ados de ε
entre cada intervalo de tempo.
A = hqf, Tf|qi, Tii = Z dq1hqf, Tf|q1,t1ihq1,t1|qi, Tii = Z dq1dq2hqf, Tf|q2,t2ihq2,t2|q1,t1ihq1,t1|qi, Tii = Z dq1dq2. . . dqN−1 N−1
∏
m=0 hqm+1,tm+1|qm,tmi (2.26)Onde na ´ultima linha foi usado que qi= q0e qf = qN.
hqm+1,tm+1|qm,tmi = hqm+1|e−i ˆHtm+1ei ˆHtm|qmi = hqm+1|e−i ˆHε|qmi = Z d p m 2π hqm+1|pmihpm|e −i ˆHε|q mi (2.27)
Escrevemos as ondas planas normalizadas, tais que hq|pi = eiqp. No Hamiltoniano ´e preciso tomar cuidado, para poder substituir ˆp e ˆq por seus respectivos autovalores p e q, ´e preciso que ˆp esteja sempre `a esquerda de ˆq, mas sempre ´e poss´ıvel fazer isso sabendo a relac¸˜ao de comutac¸˜ao [ ˆqi, ˆpj] = iδi j. Esse procedimento ´e chamado de ordenamento de Weyl, assumimos
que o Hamiltoniano est´a assim ordenado e expandimos a exponencial no parˆametro ε.
hqm+1,tm+1|qm,tmi = Z d p m 2π e iqm+1pmhp m|1 − i ˆH( ˆp, ˆq)ε + O(ε2)|qmi = Z d p m 2π e iqm+1pm[1 − iH(p m, qm)ε + O(ε2)]hpm|qmi = Z d p m 2π e
i(qm+1−qm)pm[e−iH(pm,qm)ε+ O(ε2)]
= Z d p m 2π exp −iε H(pm, qm) − pm qm+1− qm ε + O(ε2) (2.28)
Que pode ser inserido novamente em (2.26) resultando:
hqf, Tf|qi, Tii = Z d p 0 2π dq1 d p1 2π ... dqN−1 d pN−1 2π × × exp ( −iε N−1
∑
m=0 H(pm, qm) − pm qm+1− qm ε ) + O(ε2) (2.29)Isso ´e o mesmo que integrar sobre todos os caminhos poss´ıveis para um conjunto de func¸˜oes q(t) cujas extremidades, q(t0) e q(t1) s˜ao conhecidas. Na figura 2.1, um desses caminhos
poss´ıveis ´e mostrado.
No limite em que ε tende a zero, o n´umero de vari´aveis de integrac¸˜ao se torna infinito, e essa quantidade se torna uma integral funcional, ou seja, uma integral sobre todas as func¸˜oes q(t), p(t) poss´ıveis sujeitas `as condic¸˜oes de contorno q(Ti) = qi, q(Tf) = qf. Nesse caso, o limite
Figura 2.1: Uma trajet´oria poss´ıvel para o campo
N (ε):
[dqd p] = lim
ε →0N (ε)dp0
(dq1d p1)...(dqN−1d pN−1) (2.30)
Nesse limite, restaurando um fator de ¯h que ser´a necess´ario para discuss˜ao futura, temos
hqf, Tf|qi, Tii = Z q(Tf)=qf q(Ti)=qi [dqd p] exp i ¯h Z Tf Ti dt[p ˙q− H(p, q)] . (2.31)
Para Hamiltonianas tradicionais da forma H = p2/2m + V (q), as integrais em p s˜ao gaus-sianas e podem ser resolvidas explicitamente, aparecem algumas constantes que s˜ao inclu´ıdas na medida de integrac¸˜ao, a maioria das quantidades de interesse ´e dada pela raz˜ao de duas in-tegrais dessa forma, simplificando todas as constantes, mas elas ser˜ao importantes em algumas situac¸˜oes, mudanc¸as de vari´aveis por exemplo. Desse modo resta apenas a integral em [dq],
hqf, Tf|qi, Tii =
Z q(Tf)=qf
q(Ti)=qi
[dq] exp {iS ¯h} , (2.32) onde S ´e a ac¸˜ao cl´assica definida no in´ıcio da sec¸˜ao.
A amplitude de transic¸˜ao ´e escrita como uma integral sobre todos os caminhos poss´ıveis sujeitos `as condic¸˜oes de contorno, onde cada caminho recebe como peso uma exponencial de i vezes a ac¸˜ao sobre esse caminho. Isso permite obter uma interpretac¸˜ao alternativa da mecˆanica cl´assica. O limite cl´assico ´e equivalente a tomar ¯h → 0, logo configurac¸˜oes longe dos extremos de S s˜ao tais que o peso oscila fortemente e essas somas acabam por se cancelar, sobrevivendo apenas termos muito pr´oximos dos extremos de S, onde
δ
Ou, a equac¸˜ao que define a trajet´oria na mecˆanica cl´assica. Essa interpretac¸˜ao, devida a Feynman [1, cap. 9] [5, cap. 2], ´e a de que uma part´ıcula explora todos os caminhos acess´ıveis a ela simultaneamente e a amplitude ´e dada pela soma das amplitudes de todos esses caminhos individuais.
Os resultados acima ser˜ao ´uteis para calcular o valor de
Z qf
qi
[dq] q(t)eiS. (2.34)
Reescrevemos separando o intervalo de integrac¸˜ao em dois, onde um caminho gen´erico passa por ¯q,t, escrevemos
Z qf qi [dq] = Z ∞ −∞ dq¯ Z q¯ qi [dq] Z qf ¯ q [dq] (2.35)
A ac¸˜ao tamb´em pode ser dividida emRt
Tidt L+
RTf
t dt L, de forma que (2.34) se escreve
Z ∞ −∞ dq¯ Z q¯ qi [dq] exp i Z t Ti dt L ¯ q Z qf ¯ q [dq] exp i Z Tf t dt L (2.36)
Mas o primeiro termo ´e h ¯q,t|qi, Tii e o segundo hqf, Tf| ¯q,ti e:
Z qf qi [dq] q(t) eiS= Z ∞ −∞ dq¯hqf, Tf| ¯q,ti ¯qh ¯q,t|qi, Tii = Z ∞ −∞ dq¯hqf, Tf| ˆq(t)| ¯q,tih ¯q,t|qi, Tii = hqf, Tf| ˆq(t)|qi, Tii (2.37)
Essa relac¸˜ao ´e muito ´util, pois podemos obter um elemento do operador de Heisenberg ˆ
q(t) calculando uma integral da func¸˜ao q(t) apenas. O argumento acima pode ser iterado para demonstrar a relac¸˜ao
Z qf
qi
[dq] q(t1)q(t2)...q(tn) eiS= hqf, Tf|T { ˆq(t1)... ˆq(tn)}|qi, Tii (2.38)
Onde o T {. . .} significa ordenar os operadores em ordem de tempos decrescentes. Assim j´a sabemos como calcular o valor esperado do produto ordenado de operadores.
2.4
Extens˜ao a campos escalares
De posse das express˜oes acima, podemos aplic´a-las a campos escalares, que seriam con-juntos de infinitas func¸˜oes qi(t), ou simplesmente um func¸˜ao φ (x,t), com o “´ındice cont´ınuo”
x.
A express˜ao an´aloga ´e
hφb(x)|e−iHT|φa(x)i =
Z Dφ exp i Z T 0 d4xL (2.39)
Sujeito `as condic¸˜oes de contorno φ (x0= 0, x) = φa(x) e φ (x0= T, x) = φb(x)
Para calcular Z Dφ (x) φ (x1)φ (x2) exp i Z T −T d4xL (φ) (2.40) Sujeito `as condic¸˜oes de contorno φ (−T, x) = φa(x), φ (T, x) = φb(x).
Primeiro reescrevemos Z Dφ (x) = Z Dφ1(x) Z Dφ2(x) Z |{z} φ (x01,x)=φ1(x) φ (x)2,x)=φ2(x) Dφ (x) (2.41)
Isso significa que a integral em Dφ tamb´em est´a restrita nos tempos x01 e x02, al´em dos ex-tremos T e −T . Mas para as integrais continuarem iguais, fazemos separadamente as integrais em φ1(x) e φ2(x).
Usamos a express˜ao (2.39) e observamos que podemos escrever a integral em Dφ como um produto de trˆes integrais independentes, separando a regi˜ao de integrac¸˜ao nos tempos [−T, x01] , [x10, x02] e [x02, T ] e chegamos a Z Dφ1(x) Z Dφ2(x)φ1(x1)φ2(x2)hφb|e−iH(T −x 0 2)|φ 2ihφ2|e−iH(x 0 2−x01)|φ 1ihφ1|e−iH(x 0 1+T )|φ ai (2.42)
Tamb´em podemos introduzir o operador de campo de Schr¨odinger atrav´es de ˆφS(x1)|φ1i =
φ1(x1)|φ1i e usar a relac¸˜ao de completeza
R
hφb|e−iH(T −x 0 2)φˆ S(x2)e−iH(x 0 2−x−10)φˆ S(x1)e−iH(x 0 1+T )|φ ai (2.43)
hφb|e−iHTT{ ˆφ (x1) ˆφ (x2)}e−iHT|φai (2.44)
Tomamos o limite T → ∞(1 − iε) e
e−iHT|φai =
∑
ne−iEnT|nihn|φ
ai → hΩ|φaie−iE0·∞(1−iε)|Ωi (2.45)
Esse limite seleciona apenas o estado fundamental, que ´e o que decai mais devagar depois da introduc¸˜ao do tempo ligeiramente imagin´ario. ´E poss´ıvel cancelar essas fases aplicando o c´alculo at´e aqui em (2.39) e
Z
Dφ exp i
Z
d4xL = hφb|e−iHTe−iHT|φai → hφb|ΩihΩ|φaie−2iE0T (2.46)
e chegamos a hΩ|T { ˆφ (x1) ˆφ (x2)}|Ωi = R Dφ φ (x1)φ (x2)ei R d4xL R Dφ eiRd4xL (2.47) Essa express˜ao pode ser usada tanto para derivar as regras de Feynman, quanto n˜ao pertur-bativamente, como veremos.
2.5
Formulac¸˜ao euclidiana
A formulac¸˜ao Euclidiana, que ser´a usada neste trabalho daqui em diante, pois eviden-cia a relac¸˜ao com a estat´ıstica e a teoria dos fenˆomenos cr´ıticos, permite tratar efeitos n˜ao-perturbativos e facilita a implantac¸˜ao da teoria de campos no computador.
Mas n˜ao ´e f´acil verificar se a integral (2.47) converge, o fator oscilante eiS n˜ao ´e o bas-tante para garantir isso, pois configurac¸˜oes de campo com valores muito altos da ac¸˜ao podem atrapalhar a convergˆencia. O modo conveniente de garantir a que a integral seja convergente ´e chamado de rotac¸˜ao de Wick, que substitui o tempo por um tempo imagin´ario, ou euclidiano.
Esse ´e o tempo Euclidiano, e assim dx0= −idtE, d4x= −i(d4x)E.
A ac¸˜ao tamb´em ´e modificada para
S= iSE (2.49) Onde SE = Z (d4x)E 1 2(∂tEφ ) 2+1 2(∂iφ ) 2+1 2m 2 φ2+V (φ ) = Z d4x 1 2∂µφ ∂µφ + 1 2m 2 φ2+V (φ ) (2.50)
Onde j´a foram suprimidos os ´ındices E, de Euclidiano, na ´ultima equac¸˜ao, daqui para frente, todas as express˜oes ser˜ao escritas assim, formulac¸˜ao Euclidiana impl´ıcita. Tamb´em se pode ver que a m´etrica passa a ser euclidiana, ηµ νE = (+ + + +).
∂µφ ∂µφ = (∂tEφ )
2+ (∂
iφ )2 (2.51)
A ac¸˜ao euclidiana ´e positiva definida, j´a que a qualquer potencial pode ser somado uma constante de forma que V (φ ) ≥ 0 (isso assume que V (φ ) tenha um m´ınimo, o que ´e fisicamente razo´avel ou o modelo seria inst´avel) e o fator
eiS→ e−SE (2.52)
garante a convergˆencia, j´a que caminhos com valores da ac¸˜ao muito grandes s˜ao suprimidos. ´
E poss´ıvel calcular as quantidades de interesse (func¸˜oes de correlac¸˜ao) no espac¸o Euclidiano e obter suas contrapartidas de Minkowski por continuac¸˜ao anal´ıtica. Por isso a quantidade b´asica a ser calculada ´e:
Z
Dφ φ(x1)...φ (xn) e−S (2.53)
2.6
Fenˆomenos cr´ıticos
A abordagem da integral de caminho tamb´em deixa expl´ıcita a conex˜ao entre a teoria quˆantica de campos e os fenˆomenos cr´ıticos, como percebeu K. Wilson [6, 7], pois a integral
(2.47), no espac¸o euclidiano, se torna: h0|T { ˆφ (x1)... ˆφ (xn)}|0i = R Dφ φ(x1)...φ (xn) e−S R Dφ e−S (2.54)
Que ´e idˆentico a uma m´edia estat´ıstica em quatro dimens˜oes espaciais com peso de Boltz-mann e−S. Ent˜ao, func¸˜oes de correlac¸˜ao da teoria quˆantica de campos, em trˆes dimens˜oes espaciais e uma temporal podem ser calculadas fazendo a continuac¸˜ao anal´ıtica de func¸˜oes de correlac¸˜ao estat´ısticas em sistemas de quatro dimens˜oes espaciais. Ou, em geral, um sistema estat´ıstico em d + 1 dimens˜oes corresponde a uma teoria de campos em d dimens˜oes espaciais.
Uma medida conveniente para calcular essas integrais de caminho ´e defin´ı-las numa caixa e discretizar o espac¸o, assim o n´umero de configurac¸˜oes de campo poss´ıveis se torna finito e a integral funcional se torna uma integral m´ultipla comum, mas num n´umero extremamente grande de dimens˜oes. Para que a teoria de campos correspondente a esse modelo estat´ıstico fac¸a sentido, ´e preciso tomar o limite do cont´ınuo, j´a que o parˆametro de rede a, usado para discretizar o sistema, n˜ao tem um significado f´ısico.
´
E poss´ıvel ver uma relac¸˜ao direta com a mecˆanica estat´ıstica ao calcular a func¸˜ao de corre-lac¸˜ao abaixo, sabendo que o propagador Euclidiano ´e 1/(p2+ m2) [1, cap. 9].
hφ (x)φ (0)i =
Z d4p
(2π)4
eipx
p2+ m2 (2.55)
A integral pode ser calculada exatamente, mas ´e suficiente analisar o limite m|x| 1, o resultado ´e proporcional a (1/|x|2)e−m|x|. Considere um ponto a n espac¸amentos da origem, a menos de uma constante, temos:
hφnφ0i ∼ e−amn (2.56)
O comprimento de correlac¸˜ao (ξ ) ´e uma quantidade muito ´util em mecˆanica estat´ıstica e ´e definida atrav´es de hφnφ0i ∼ e−n/ξ, de onde imediatamente podemos fazer a conex˜ao com a
express˜ao anterior.
ξ = 1
am (2.57)
Para tomar o limite do cont´ınuo e manter a massa finita, ´e preciso que o comprimento de correlac¸˜ao v´a para infinito. Ent˜ao, o limite do cont´ınuo corresponde num sistema estat´ıstico a
ajustar os parˆametros de forma que o comprimento de correlac¸˜ao seja infinito. Esse comporta-mento ´e conhecido na mecˆanica estat´ıstica e ´e chamado de ponto cr´ıtico.
3
O grupo de renormalizac¸˜ao
Para tratar o comportamento cr´ıtico no equil´ıbrio, foi desenvolvido um conjunto de t´ecnicas chamadas coletivamente de grupo de renormalizac¸˜ao. O nome vem de sua primeira aplicac¸˜ao, para obter significado dos infinitos da eletrodinˆamica quˆantica, mas depois foi percebido que o mesmo formalismo poderia ser aplicado a muitos outros problemas, especialmente aqueles com transic¸˜oes de fase de segunda ordem, pr´oximos do ponto cr´ıtico.
O comportamento cr´ıtico ´e um problema complexo pois envolve flutuac¸˜oes em todas as escalas do sistema, desde o microsc´opico at´e o vis´ıvel, isso inviabiliza todas as abordagens j´a usadas em outros problemas f´ısicos, que sup˜oem, com sucesso, que se pode tratar escalas diferentes independentemente. Assim, por exemplo, a estrutura microsc´opica dos fluidos n˜ao importa ao escrevermos as equac¸˜oes de Navier-Stokes.
O grupo de renormalizac¸˜ao foi a t´ecnica desenvolvida para tais problemas. Quando os aspectos f´ısicos de interesse est˜ao em um dos extremos de uma escala, comprimentos muito grandes, por exemplo, buscamos fazer uma transformac¸˜ao nos parˆametros que descrevem o sistema de forma a incluir as flutuac¸˜oes desde o outro extremo, os comprimentos pequenos, at´e a escala de interesse, e com sorte simplificar a descric¸˜ao do problema sem alterar as caracter´ısticas a serem estudadas.
Esse ´e um processo feito a passos lentos, incluindo flutuac¸˜oes cada vez maiores na nova descric¸˜ao, e tem como resultado equac¸˜oes de fluxos, chamados de fluxos do grupo de renor-malizac¸˜ao, no espac¸o de parˆametros do problema, e mostram como ´e poss´ıvel transform´a-los, sem mudar as propriedades pr´oximas do ponto cr´ıtico. J´a ´e poss´ıvel ter uma ideia que essa transformac¸˜ao n˜ao ´e um grupo, no sentido matem´atico, uma vez que ela n˜ao ´e invers´ıvel, pois a cada passo algum tipo de m´edia ´e feita para chegar a novos parˆametros.
Um problema importante e ´util para ilustrar o uso do grupo de renormalizac¸˜ao ´e o de spins numa rede, ele ´e dif´ıcil de ser tratado por m´etodos perturbativos pois n˜ao h´a parˆametros peque-nos em torno do qual expandir, e permite ilustrar a discuss˜ao feita sobre a t´ecnica do grupo de renormalizac¸˜ao.
3.1
F´ısica estat´ıstica e transic¸˜oes de fase
Existem muitos sistemas que apresentam transic¸˜oes de fase de segunda ordem, aquelas em que o sistema se aproxima continuamente de um estado cujo comprimento de correlac¸˜ao ´e infinito. Continuamente significa que as derivadas primeiras da energia s˜ao cont´ınuas. Isso ´e chamado de transic¸˜ao de fase pois geralmente ocorre uma mudanc¸a na simetria do sistema junto com mudanc¸as nas derivadas segundas da energia (calor espec´ıfico, compressibilidade).
O fenˆomeno da opalescˆencia cr´ıtica ´e, por exemplo, um sinal de uma transic¸˜ao de fase, ele ocorre por causa de flutuac¸˜oes na escala do comprimento de onda da luz vis´ıvel, os micrometros, por isso a luz ´e fortemente espalhada em todas as direc¸˜oes [8, cap. 9]. O apˆendice C tem um s´erie de fotos mostrando essa transic¸˜ao de fase. Outro exemplo ´e a divergˆencia da suscetibilidade nos ferromagnetos.
Outra marca dessas transic¸˜oes de fase ´e a presenc¸a de fortes flutuac¸˜oes. Geralmente, fenˆomenos em diferentes ordens de grandeza s˜ao independentes, por exemplo, ondas e cor-rentes mar´ıtimas independem do natureza atˆomica da mat´eria. Mas pr´oximo de pontos cr´ıticos, que marcam transic¸˜oes de fase, ocorrem flutuac¸˜oes em todas as escalas ao mesmo tempo, no caso da ´agua no ponto cr´ıtico, temos bolhas de todos os tamanhos, de algumas mol´eculas at´e o tamanho do recipiente, mas isso complica muito a an´alise do problema.
A grandeza que mede a escala das flutuac¸˜oes num sistema ´e o comprimento de correlac¸˜ao, nos ferromagnetos, por exemplo, ele ´e definido por:
hs(x)s(0)i ∼
|x|→∞exp(−x/ξ ) (3.1)
e diverge pr´oximo do ponto cr´ıtico segundo uma lei de potˆencia
ξ = f+(T − Tc)−ν T > Tc f−(T − Tc)−ν 0 T < Tc (3.2)
Esse comportamento de lei de potˆencia ´e caracter´ıstico do ponto cr´ıtico. Muitas outras gran-dezas tem comportamentos parecidos e foi percebido que os expoentes se repetem para diferen-tes modelos, ferromagnetos e l´ıquidos pr´oximos do ponto de opalescˆencia cr´ıtica, por exemplo, apresentam os mesmos expoentes, chamados de expoentes cr´ıticos. Quando isso acontece, dize-mos que diferentes fenˆomenos est˜ao na mesma classe de universalidade, que ´e determinada por apenas algumas caracter´ısticas: dimensionalidade do sistema, dimensionalidade do parˆametro
de ordem1e simetrias da Hamiltoniana.
A universalidade ´e muito importante na teoria do grupo de renormalizac¸˜ao, pois, se essas caracter´ısticas s˜ao mantidas, podemos fazer transformac¸˜oes na Hamiltoniana que simplificam muito os c´alculos e mesmo assim obter resultados exatos. J´a os valores de f+ e f−, acima,
dependem de cada sistema, e podem precisar de ajustes com dados experimentais para serem determinados.
O principal modelo para estudar as transic¸˜oes de fase ´e o de Ising: spins localizados nos v´ertices de uma rede (no nosso caso, quadrada). Cada spin s´o pode apontar em duas direc¸˜oes, para cima ou para baixo. Sua soluc¸˜ao anal´ıtica pode ser encontrada em alguns casos, tamb´em pode ser feita a an´alise pelo grupo de renormalizac¸˜ao, expans˜oes de alta temperatura e c´alculos num´ericos: diferentes m´etodos para encontrar e comparar seus expoentes cr´ıticos.
Definimos para esse modelo a temperatura cr´ıtica TC e a temperatura reduzida:
t=T− TC
TC . (3.3)
Figura 3.1: Rede do modelo de Ising
Os expoentes cr´ıticos desse modelo j´a foram encontrados, alguns calculados exatamente, outros por simulac¸˜ao computacional ou expans˜ao de alta temperatura, alguns deles, a h = 0 e t → 0 s˜ao:
C∼ |t|−αcapacidade t´ermica M∼ |t|βmagnetizac¸˜ao
χ ∼ |t|−γsuscetibilidade (3.4)
E seus valores est˜ao na tabela abaixo [9]
d 2 3 4
α 0 0,110 0 β 1/8 0,3265 1/2 γ 7/4 1,2372 1
As primeiras tentativas de obter esses valores foram pelas teorias do campo m´edio, Lev Landau a sistematizou reduzindo a descric¸˜ao ao que considerou mais b´asico nesses sistemas: o parˆametro de ordem, uma grandeza que diz se o sistema est´a ordenado ou n˜ao. Nos ferromag-netos, por exemplo, o parˆametro de ordem ´e a magnetizac¸˜ao: ´e nulo se n˜ao h´a magnetizac¸˜ao, e diferente de zero se h´a magnetizac¸˜ao, indicando uma transic¸˜ao de fase (e a presenc¸a de ordem no sistema, isto ´e, magnetizac¸˜ao).
O sucesso do campo m´edio est´a em apresentar transic¸˜oes de fase com expoentes cr´ıticos, j´a os valores dos expoentes n˜ao se mostraram t˜ao bem sucedidos. Por exemplo, n˜ao foi levada em considerac¸˜ao a dimensionalidade de cada sistema, e os expoentes cr´ıticos obtidos do campo m´edio s´o correspondem com os valores reais quando d = 4.
A principal transic¸˜ao de fase tratada por Landau foi a transic¸˜ao ferromagn´etica, cujo exem-plo caracter´ıstico ´e obviamente o Ferro. Sem qualquer campo magn´etico, o ferro n˜ao tem qualquer magnetizac¸˜ao a temperaturas acima de 1043 K, ao chegar a essa temperatura, ele subi-tamente adquire uma magnetizac¸˜ao espontˆanea, que cresce suavemente conforme a temperatura ´e reduzida [10].
O modo mais simples de modelar um ferromagneto ´e usando o modelo de Ising. Se, no limite termodinˆamico, existe um excesso de spins apontando em uma direc¸˜ao, a rede estar´a magnetizada, portanto a grandeza que caracteriza a transic¸˜ao de fase ordem/desordem ser´a a magnetizac¸˜ao. Outros modelos para os ferromagnetos s˜ao os modelos de Heisenberg e tridi-mensional (neles, os spins s˜ao vetores, respetivamente, bidimensionais e tridimensionais), cada um desses modelos tem um parˆametro de ordem (magnetizac¸˜ao) de dimensionalidade diferente, e sua rede tamb´em pode ser uni, bi ou tridimensional, para cada uma dessas situac¸˜oes temos expoentes cr´ıticos diferentes.
O comportamento dos spins no modelo de Ising ´e dado pelo tipo de interac¸˜ao entre eles, ela pode ser do tipo ferromagn´etica, paramagn´etica, e ainda existem outros tipos de comportamento magn´etico. No nosso caso, s´o h´a interac¸˜oes entre primeiros vizinhos e ela ´e tal que a energia de dois spins vizinhos ´e menor quando eles est˜ao paralelos. Uma Hamiltoniana com essas caracter´ısticas ´e:
H= −J
∑
i j
si· sj (3.5)
Na ausˆencia de qualquer perturbac¸˜ao, ´e f´acil perceber que existem duas configurac¸˜oes de energia m´ınima: todos os spins apontam para cima, ou todos para baixo. Mas isso s´o aconteceria a temperatura nula, a qualquer temperatura finita existe agitac¸˜ao t´ermica no sistema, excitac¸˜oes que invertem os spins aleatoriamente e podem ser suficientes para desordenar todo o sistema.
Essa mudanc¸a de comportamento ´e marcada por variac¸˜oes abruptas em v´arias quantidades no material: calor espec´ıfico, compressibilidade e comprimento de correlac¸˜ao, por exemplo. Se um spin ´e mantido fixo apontando para cima, seus vizinhos ter˜ao uma probabilidade maior de apontar para cima, isto ´e, estar˜ao correlacionados, assim como os vizinhos destes e assim em di-ante. A distˆancia m´axima em que essa influˆencia pode ser percebida ´e chamada de comprimento de correlac¸˜ao.
A temperaturas altas, o comprimento de correlac¸˜ao ´e praticamente zero devido `as flutuac¸˜oes t´ermicas, e ´e dif´ıcil encontrar ilhas de spins correlacionados na rede, conforme a temperatura abaixa, comec¸am a se formar conjuntos de spins paralelos, mas a magnetizac¸˜ao total perma-nece nula. O comprimento de correlac¸˜ao cresce rapidamente pr´oximo ao ponto de Curie e, exatamente nele, ´e infinito. Um comprimento de correlac¸˜ao infinito significa que h´a flutuac¸˜oes em todas as escalas na amostra e todos os spins est˜ao correlacionados entre si. Nessa situac¸˜ao, manter um spin fixo deixaria todo o sistema com alguma magnetizac¸˜ao total. Abaixo do ponto de Curie, ocorre magnetizac¸˜ao espontˆanea, isto ´e, mesmo sem perturbac¸˜oes externas, at´e que, a temperatura zero, o sistema todo se magnetiza numa ´unica direc¸˜ao, completamente uniforme.
3.2
O grupo de renormalizac¸˜ao
Uma maneira de implementar as transformac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao ao modelo de Ising ´e pelos blocos de spin, ideia de Leo Kadanoff, que consiste de trˆes passos feitos itera-tivamente. Primeiro a rede ´e dividida em blocos com alguns spins cada, por exemplo, blocos quadrados com trˆes spins de lado, totalizando nove s´ıtios (e definindo o parˆametro de escala
b= 3). Ent˜ao calculamos uma m´edia nos valores dos spins e o bloco ´e subsitu´ıdo por um ´unico spin com esse valor calculado. Como ilustrac¸˜ao, a m´edia pode ser feita usando a regra da maioria: se a maior parte dos spins aponta para cima (baixo), o bloco ´e substitu´ıdo por um spin apontando para cima (baixo). Ap´os essas etapas, ´e preciso reescalar o parˆametro de rede a seu tamanho original, no exemplo, dividindo-o por trˆes. Essa primeira transformac¸˜ao elimi-nou do sistema todas as flutuac¸˜oes menores que um bloco (trˆes por trˆes dos s´ıtios originais) e incorporou seus efeitos no novo conjunto de spins.
As figuras 3.2 e 3.3 mostram uma transformac¸˜ao de blocos no modelo de Ising. As duas redes s˜ao do mesmo tamanho pois apenas uma parte dela ´e mostrada, e depois de corrigida a es-cala, ambas tem o mesmo parˆametro de rede (distˆancia entre os s´ıtios). Na primeira figura, 3.2, o sistema comec¸a `a temperatura cr´ıtica, e a aplicac¸˜ao da transformac¸˜ao gera um padr˜ao estatis-ticamente equivalente ao primeiro, tamb´em com grandes flutuac¸˜oes e sem uma magnetizac¸˜ao total. Isto ´e, o sistema ´e invariante de escala exatamene no ponto cr´ıtico. J´a na segunda figura, 3.3, o sistema comec¸a ligeiramente acima do ponto cr´ıtico e os dois sistemas se parecem muito, mas ap´os algumas iterac¸˜oes eles logo estar˜ao bem diferentes, se aproximando do limite de altas temperaturas.
Figura 3.2: Uma transformac¸˜ao de blocos, feita a mudanc¸a de escala. Exatamente na tempera-tura cr´ıtica
A nova rede tem novas constantes de acoplamento entre os spins, at´e mesmo interac¸˜oes com vizinhos mais distantes podem aparecer. Mesmo assim, observa-se que as interac¸˜oes do-minantes s˜ao de curto alcance, at´e ap´os muitas iterac¸˜oes. ´E poss´ıvel calcular os valores dessas novas constantes de acoplamento descobrindo a distribuic¸˜ao estat´ıstica de cada configurac¸˜ao do novo sistema de spins, a partir da distribuic¸˜ao original, uma tarefa de contagem simples, mas extremamente trabalhosa e computacionalmente intensa.
Encontrado o conjunto de constantes de acoplamento do novo sistema, uma nova rede ´e calculada, usando a nova Hamiltoniana para determinar uma configurac¸˜ao poss´ıvel dos spins.
Figura 3.3: Uma transformac¸˜ao de blocos, feita a mudanc¸a de escala. Acima da temperatura cr´ıtica
Sobre essa rede o mesmo procedimento ´e feito novamente, dividir em blocos, calcular m´edias, corrigir a escala e obter novos parˆametros de acoplamento. A cada iterac¸˜ao, um sistema di-ferente ´e criado, ainda relacionado com o primeiro, mas flutuac¸˜oes em escalas cada vez mai-ores v˜ao sendo suprimidas sucessivamente e incorporadas `a Hamiltoniana. At´e que todas as flutuac¸˜oes at´e o comprimento de correlac¸˜ao tenham sido eliminadas.
Se as constantes da Hamiltoniana s˜ao chamadas coletivamente de um vetor {K}. Come-c¸amos por um vetor escolhido {K0} e cada aplicac¸˜ao do grupo de renormalizac¸˜ao modifica
esse vetor, levando-o em {K1}, {K2}, etc. O efeito de sucessivas transformac¸˜oes do grupo
de renormalizac¸˜ao ´e gerar trajet´orias desse vetor no espac¸o vetorial das constantes. Essas tra-jet´orias s˜ao chamadas de fluxos do grupo de renormalizac¸˜ao e indicam as transic¸˜oes de fase do sistema. Se escolhemos um vetor {K} inicial e acompanhamos o caminho que ele percorre, po-demos chegar a situac¸˜oes limites: sistema magnetizado ou sistema desordenado, por exemplo, e diferentes vetores iniciais levam a diferentes configurac¸˜oes finais.
Matematicamente, o sistema original ´e descrito pela func¸˜ao de partic¸˜ao
Z= Trse−H(s), (3.6)
o fator β = 1/kT foi inclu´ıdo e o que vemos na equac¸˜ao ´e a Hamiltoniana reduzida. Existe mais de uma maneira de implementar a regra da maioria, mas ´e preciso garantir que a func¸˜ao de partic¸˜ao seja preservada:
Trs0e−H 0(s0)
= Trse−H(s). (3.7)
fiquem inalteradas, portanto toda a f´ısica de longas distˆancias permanece a mesma, mas est´a expressa em termos das vari´aveis transformadas, e n˜ao das originais. Isso justifica a aplicac¸˜ao do grupo de renormalizac¸˜ao, pois os fenˆomenos de interesse est˜ao em uma escala, e n˜ao ser˜ao afetados pelas transformac¸˜oes.
Esses argumentos servem para compreender qualitativamente o grupo de renormalizac¸˜ao, mas efetivamente calcular o lado esquerdo de (3.7) ´e muito dif´ıcil e em geral ´e preciso recorrer a aproximac¸˜oes. No entanto, o c´alculo anal´ıtico ´e poss´ıvel no caso unidimensional, que faremos.
3.3
O modelo de Ising unidimensional
Considere o hamiltoniano H = −K ∑isisi+1. Agrupamos os spins de trˆes em trˆes (definindo
o fator de escala b = 3) e, ao inv´es de usar a regra da maioria, substitu´ımos o bloco pelo spin do meio, a justificativa para isso ´e que, a baixas temperaturas, geralmente os spins estar˜ao quase todos na mesma direc¸˜ao, ent˜ao a diferenc¸a entre essa escolha e a regra da maioria ´e pequena. A estrat´egia de ignorar alguns spins ´e chamada de dizimac¸˜ao e funciona muito bem para uma dimens˜ao.
Por exemplo, ao somar os spins s3e s4, mantendo s01= s2 e s02= s5fixos, o termo que eles
contribuem na func¸˜ao de partic¸˜ao ´e:
eKs01s3eKs3s4eKs4s02 (3.8)
Para fazer a soma em s3e s4, espandimos eKs3s4 em sua s´erie de Taylor:
eKs3s4 = 1 + Ks 3s4+ K2 2!(s3s4) 2+K3 3!(s3s4) 3+ · · · (3.9)
Os spins s´o podem assumir os valores +1 e −1, logo s2nj = 1 e s2n+1j = sj, qualquer que
seja sj, logo: eKs3s4 = (1 +K 2 2! + · · · ) + (s3s4)(K + K3 3! + · · · ) = cosh K + s3s4sinh K = cosh K(1 + xs3s4) (3.10)
Onde usamos x = tanh K. Podemos fazer isso para todos os temos em (3.8) e obtemos:
(cosh K)3(1 + xs01s3)(1 + xs3s4)(1 + xs4s02) (3.11)
Multiplicamos todos os termos e fazemos a soma em s3e s4:
∑
s3=±1,s4=±1 (cosh K)3(1 + xs01s3)(1 + xs3s4)(1 + xs4s02) =∑
s3=±1,s4=±1 (cosh K)31 + x(s01s3+ s3s4s4s02) + x2(s01s4+ s10s3s4s02+ s3s24s02) + x3(s01s24s02) = 4 cosh3K(1 + x3s01s02) (3.12)Quando expandimos e somamos em s3 e s4, sobram apenas as potˆencias pares dessas
vari´aveis:
22(cosh K)3(1 + x3s01s02) (3.13)
E, fora a constante, essa quantidade pode ser reescrita como um peso de Boltzmann eK0s01s02.
K0= tanh−1[(tanh K)3] (3.14)
Com essa nova constante, a func¸˜ao de partic¸˜ao assume novamente a forma original Z = Trs0e−H
0(s0)
com os novos parˆametros
H0(s0) = Ng(K) − K0
∑
i
s0is0i+1 (3.15)
Onde N ´e o n´umero total de s´ıtios originalmente e
g(K) = −1 3ln (cosh K)3 cosh K0 −2 3ln 2 (3.16)
O novo hamiltoniano tem duas diferenc¸as em relac¸˜ao ao original: a constante de acopla-mento mudou para K0 e surgiu um termo independente dos s0i, que n˜ao altera o c´alculo de nenhum valor esperado, ele aparece como uma diferenc¸a na energia livre dos dois sistemas, e
representa a contribuic¸˜ao dos graus de liberdade de curta distˆancia.
A equac¸˜ao (3.14) expressa um fluxo do grupo de renormalizac¸˜ao, em termos da vari´avel x, ela ´e escrita como x0= x3. Lembrando que h´a um fator de β = 1/kT embutido em K, vemos que altas temperaturas correspondem a x0→ 0+ e baixas temperaturas a x0→ 1−.
Se x comec¸a em qualquer valor diferente de zero, x0vai se aproximando de x = 0+(T → ∞) ap´os sucessivas aplicac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao, e o sistema pode ser bem descrito por um Hamiltoniano com temperatura efetiva alta, ou numa fase paramagn´etica. J´a se ele comec¸a em x = 1 ou x = 0, seu valor n˜ao muda, esse s˜ao os pontos fixos da transformac¸˜ao , o primeiro inst´avel, pois qualquer pequena perturbac¸˜ao leva o sistema para longe dele, o segundo est´avel, pois pequenas perturbac¸˜oes o trazem de volta para o ponto fixo. A imagem 3.4 representa o diagrama de fases, muito simples, desse modelo.
Figura 3.4: Fluxo do grupo de renormalizac¸˜ao para o modelo de Ising unidimensional
Isso ilustra um fato conhecido sobre sistemas unidimensionais com interac¸˜oes de curto alcance: n˜ao h´a fase ordenada a temperatura finita. ´E uma caracter´ıstica de todos os sistemas que a ordem desaparece conforme se diminui o n´umero de dimens˜oes, at´e chegar `a dimens˜ao cr´ıtica inferior dl abaixo da qual n˜ao h´a mais transic¸˜oes de fase. Em geral, sistemas com simetrias
discretas, como o de Ising, tem dl = 1 e em sistemas com simetrias cont´ınuas (modelos XY e sine-Gordon, por exemplo), dl= 2.
3.4
Modelo de Ising bidimensional
O modelo de Ising captura os apectos essenciais do comportamento cr´ıtico e das transic¸˜oes de fase. J´a vimos que em uma dimens˜ao n˜ao h´a transic¸˜ao de fase nem fase ordenada e existe um argumento simples (devido ao f´ısico alem˜ao Rudolf Peierls) para mostrar a existˆencia de uma transic¸˜ao de fase em duas dimens˜oes:
`
A temperatura fixa, um sistema procura minimizar sua energia livre de Helmholtz F = U− T S. O que significa um compromisso entre minimizar a energia interna U e maximizar a entropia S. Vamos investigar a contribuic¸˜ao de cada um desses termos, comec¸ando em uma dimens˜ao.
Partimos de uma rede linear ordenada de spins num estado fundamental (todos para cima, digamos) e nela criamos uma regi˜ao de tamanho ` onde os spins est˜ao no outro estado
funda-mental (todos para baixo naquela regi˜ao), o custo energ´etico de ter dois spins antiparalelos ´e 2J, portanto o custo energ´etico de virar um segmento de spins ´e U = 4J, independentemente de seu tamanho. Para analisar a entropia, vemos que esse dom´ınio criado pode estar em O(`) posic¸˜oes diferentes na rede, tal que a entropia associada ´e S ∼ ln `. A variac¸˜ao da energia li-vre ´e cerca de 4J − kBTln `, portanto formar um dom´ınio grande de spins invertidos dentro da
rede ´e sempre favor´avel, no limite termodinˆamico ` → ∞, a qualquer temperatura finita. V´arios dom´ınios assim podem ser formados, pois eles s˜ao sempre prefer´ıveis, o que logo desordena todo o sistema.
Em duas dimens˜oes, criamos um dom´ınio de per´ımetro `, cujo custo energ´etico ´e O(J`), pois h´a spins de orientac¸˜oes opostas em toda a borda do dom´ınio. Para calcular a entropia, queremos saber de quantas formas se pode criar um caminho fechado com o per´ımetro correto. Comec¸ando por um ponto, a cada passo h´a no m´aximo trˆes escolhas poss´ıveis de caminho a se-guir, pois ele nunca passa por si mesmo e precisa ser fechado. Ent˜ao o n´umero de configurac¸˜oes poss´ıveis ´e cerca de µ`, onde µ < 3, e a entropia associada kBT` ln µ. Assim a energia livre ´e
aproximadamente J` − kBT` ln µ e j´a podemos identificar uma transic¸˜ao de fase a uma
tempe-ratura da ordem de O(J/kB). Abaixo dessa temperatura a fase ordenada ´e est´avel, pois n˜ao ´e
favor´avel inverter alguns spins, mas acima dela ´e, logo v´arios dom´ınios menores se formam at´e que o sistema se quebra em v´arios dom´ınios pequenos.
Em duas dimens˜oes os c´alculos s˜ao bem mais complicados, a soluc¸˜ao anal´ıtica foi encon-trada por Lars Onsager em 1944 para uma rede quadrada, sem campo externo e com interac¸˜oes de primeiros vizinhos [11, 8] [12, cap. 6]. Da soluc¸˜ao vemos que o calor espec´ıfico diverge pr´oximo do ponto cr´ıtico:
c−−−→
T→TC
ln |T − TC| (3.17)
Para apresentar essa divergˆencia, a energia livre n˜ao pode ser anal´ıtica em todos os pontos, um resultado imposs´ıvel de ser obtido pelas teorias do campo m´edio (perturbativamente). Mais tarde, Yang e Lee [8] em uma teoria geral de transic¸˜oes de fase, mostraram que ´e recorrente a n˜ao analiticidade mesmo na mecˆanica estat´ıstica de equil´ıbrio.
A contabilidade da energia livre ´e bem diferente para sistemas com simetrias cont´ınuas e pode ser vista em [13]. O resultado tamb´em ´e diferente, as flutuac¸˜oes s˜ao muito mais severas nesses sistemas, de forma que a dimens˜ao cr´ıtica inferior ´e dl = 2, o que ´e confirmado pelo teorema de Mermin-Wagner [1, cap. 13] [13].
ocupam continuamente o espac¸o, como uma func¸˜ao vetorial s(r) e n indica a dimens˜ao desses vetores, que ´e indenpendente da dimensionalidade d da rede, como nos modelos cont´ınuos an´alogos.
No caso n = 2, d = 2 (chamado de modelo XY), o teorema de Mermin-Wagner pro´ıbe que haja fase ordenada, mesmo assim podemos observar uma transic¸˜ao de fase no sistema, chamada de transic¸˜ao de fase de Kosterlitz-Thouless [13, 6], onde as duas fases s˜ao desordenadas, mas s˜ao caracterizadas pela presenc¸a ou n˜ao de v´ortices. Esse modelo pode ser usado para descrever a transic¸˜ao de fase do h´elio superfluido, por exemplo.
A Hamiltoniana ´e muito parecida com a do modelo de Ising
H= −1 2β
∑
r,r0J(r − r0)σ (r) · σ (r0) , (3.18)
e a parametrizac¸˜ao σ (r) = (cos θ (r), sin θ (r)) a reduz para
H= −1 2β
∑
r,r0J(r − r0) cos(θ (r) − θ (r0)) . (3.19)
A baixas temperaturas, espera-se que os valores de θ (r) sejam pequenos, expandimos em potˆencias de cos(θ (r) − θ (r0)) e tomamos o limite do cont´ınuo para obter
H= K Z [1 2a 2(∇θ )2− u 4a4(∇θ )4+ · · · ] d2r a2 (3.20)
O termo (∇θ )4e os de ordem maior s˜ao irrelevantes, reduzindo a Hamiltoniana ao modelo Gaussiano, a baixas temperaturas. A diferenc¸a entre esse modelo e a Hamiltoniana de uma part´ıcula livre ´e o car´ater angular de θ , definida apenas modulo 2π. Por θ ser uma grandez peri´odica, n˜ao podemos fazer uma mudanc¸a de escala livremente e eliminar K, isso ´e importante pois K parametriza uma linha de pontos fixos do modelo. Al´em disso K ∼ β J.
Podemos verificar a presenc¸a da transic¸˜ao de fase calculando hei(θi−θj)i, para os detalhes do
c´alculo, veja [14]. Essa func¸˜ao de correlac¸˜ao est´a diretamente ligada `a magnetizac¸˜ao espontˆanea do sistema e mostra como existe transic¸˜ao de fase sem fase ordenada. A baixas temperaturas encontramos:
hei(θi−θj)i ∼ |R
e, sob altas temperaturas,
hei(θi−θj)i ∼ e−|Ri−Rj|/ξ , (3.22)
onde
ξ−1= ln(2/K) . (3.23)
Em ambos os casos a func¸˜ao de correlac¸˜ao decresce com a distˆancia, de forma que as duas fases s˜ao desordenadas. Mas o decaimento n˜ao ´e t˜ao r´apido na fase de baixa temperatura, ´e apenas uma lei de potˆencia, o que caracteriza a ordem de quase-longo alcance.
Em alta temperatura n˜ao podemos usar a mesma expans˜ao devido ao car´ater angular de θ , pois existem configurac¸˜oes, chamadas v´ortices em que os ˆangulos variam pouco localmente, mas a maiores distˆancias variam muito, como na figura 3.5.
Figura 3.5: Configurac¸˜ao de um v´ortice
Usando a equac¸˜ao (3.20), mantendo apenas os termos relevantes, obtemos a Hamiltoniana do modelo Gaussiano:
H= K 2
Z
(∇θ )2d2r, (3.24) e podemos us´a-la para analisar os v´ortices, desde que levemos em considerac¸˜ao o car´ater angular da vari´avel θ . A equac¸˜ao de movimento para esse modelo ´e ∇2θ = 0 e uma soluc¸ ˜ao com um
v´ortice na origem ´e da forma:
∇θ = ± ˆ φ
r (3.25)
Substitu´ımos essa soluc¸˜ao em (3.24) e encontramos que a energia dessa configurac¸˜ao ´e:
E= K 2 Z L a 1 r 2 d2r∼ πK ln L/a , (3.26) onde L ´e o tamanho do sistema. No limite termodinˆamico, L → ∞, a energia diverge, mesmo assim pode haver v´ortices se eles estiverem em pares de vorticidade total nula, de modo que sua energia ser´a
E= πK ln R/a , (3.27)
e R n˜ao ´e o tamanho do sistema, mas o tamanho caracter´ıstica dos v´ortices. Podemos usar essa energia para encontrar a temperatura cr´ıtica em que os v´ortices se tornam relevantes no modelo, fazendo a mesma an´alise que a do modelo de Ising.
Existem cerca de (R/a)2 locais na rede onde podemos posicionar um v´ortice, logo sua entropia ´e 2 ln R/a. Lembrando que a quantidade K j´a inclui um fator 1/β , a energia livre do sistema ´e (πK − 2) ln R/a, e uma estimativa para a temperatura cr´ıtica ´e, restaurando J:
T = πJ/2kB (3.28)
Abaixo dessa temperatura n˜ao h´a v´ortices livres, apenas pares v´ortice-antiv´ortice. Mas acima da temperatura cr´ıtica o tamanho desse estado ligado diverge, permitindo o apareci-mento de v´ortices livres. J. B. Kogut [6] mostra que os v´ortices interagem com um poten-cial logar´ıtmico (como um g´as de Coulomb em duas dimens˜oes), o que mant´em pares v´ortice-antiv´ortice ligados a baixas temperaturas devido `a interac¸˜ao de longo alcance. Sob altas tem-peraturas, os v´ortices n˜ao podem ser tratados como excitac¸˜oes livres, pois a interac¸˜ao continua sendo de longo alcance, apesar de blindada dinamicamente, tal qual um plasma.
Como estamos interessados no regime de longas distˆancias do modelo, precisamos ex-press´a-lo em termos de vari´aveis de longa-distˆancia (ou baixa energia), para observar os efeitos coletivos da presenc¸a dos v´ortices. Isso ´e feito usando o grupo de renormalizac¸˜ao. Antes de aplic´a-lo, incluimos um potencial qu´ımico para a criac¸˜ao de novos-v´ortices, y, que generaliza o
modelo XY e deixa os v´ortices expl´ıcitos [6], essas observac¸˜oes permitem reescrever o modelo XY como o modelo de sine-Gordon quˆantico, que ´e adequado para a an´alise usando o grupo de renormalizac¸˜ao.
3.5
Teoria geral do grupo de renormalizac¸˜ao
Nessa sec¸˜ao apresentaremos as consequˆencias de haver um ponto fixo do grupo de renor-malizac¸˜ao. Uma transformac¸˜ao geral ´e da forma {K0} =R {K}, onde {K} ´e um vetor (suas componentes s˜ao as constantes da Hamiltoniana) eR depende da transformac¸˜ao escolhida e do parˆametro de escala b.
Supondo que h´a um ponto fixo em {K0} = {K∗} e que a transformac¸˜aoR ´e diferenci´avel nele, calculamos {K0}({K}) ao redor do ponto fixo usando uma expans˜ao de Taylor:
Ka0− Ka∗∼
∑
b
Tab(Kb− Kb∗) , (3.29) com Tab= ∂ Ka0/∂ Kb|K=K∗ .
Tamb´em definimos os autovalores de T: λie seus autovetores pela esquerda: {φi}. Isto ´e:
∑
aφaiTab= λiφbi (3.30)
Definindo as vari´aveis de escala ui= ∑aφai(Ka− Ka∗), vemos que elas se transformam
mul-tiplicativamente sob as transformac¸˜oes do grupo de renormalizac¸˜ao:
u0i=
∑
a φai(Ka0− Ka∗) =∑
a,b φaiTab(Kb− Kb∗) =∑
b λiφbi(Kb− Kb∗) = λiui (3.31) ´E conveniente redefinir os autovalores como λi= byi, onde os y
i s˜ao chamados de
autova-lores do grupo de renormalizac¸˜ao e est˜ao relacionados com os expoentes cr´ıticos. Existem trˆes casos para yi
• Se yi> 0, ent˜ao ui ´e dita relevante, pois a atuac¸˜ao repetida da transformac¸˜ao do grupo de
renormalizac¸˜ao a leva para longe do ponto fixo.
• Se yi< 0, ent˜ao ui ´e irrelevante, pois, comec¸ando pr´oximo ao ponto fixo, uitende a zero
• J´a para yi= 0, ui ´e marginal. Pois n˜ao se pode dizer somente das equac¸˜oes lineares se ui
vai afastar ou voltar ao ponto fixo.
Um ponto fixo que tenha n autovalores relevantes envolver´a n parˆametros externos que podem ser ajustados, como temperatura e campo magn´etico. Variar apenas esses parˆametros ´e suficiente para garantir que estamos numa regi˜ao pr´oxima do ponto cr´ıtico.
Os valores de b nas transformac¸˜oes de blocos de spin eram limitados aos inteiros, pois a nova rede deveria ter a mesma estrutura da original, mas em situac¸˜oes mais gerais, por exemplo, em uma teoria quˆantica de campos, podemos considerar b infinitesimal, b = 1 + δ l, com δ l 1. E os acoplamentos tamb´em se transformar˜ao infinitesimalmente, formando fluxos cont´ınuos no espac¸o {K}.
Ka→ Ka+ dKa/dl δ l + O(δ l2) (3.32)
e as equac¸˜oes para o grupo de renormalizac¸˜ao assumem a forma
dKa/dl = −βa(K) . (3.33)
As func¸˜oes βas˜ao as “func¸˜oes beta”, ou fluxos, do grupo de renormalizac¸˜ao. Agora os pontos
fixos correspondem aos zeros das func¸˜oes beta. A matriz T de (3.29) ´e dada por Tab = δab−
(∂ βa/∂ Kb)δ l e seus autovalores s˜ao (1 + δ l)yi ∼ 1 + yiδ l, podemos reconhecer os yicomo os
autovalores da matriz −∂ βa/∂ Kbavaliada num zero da func¸˜ao beta.
Substituindo na equac¸˜ao (3.33):
∑
a φai δab− ∂ βa ∂ Kbδ l = (1 + yiδ l)φbi −∑
a φai∂ βa ∂ Kb δ l = yiφbiδ l , (3.34)que ´e uma equac¸˜ao de autovalores. Esse c´alculo s´o vale na vizinhanc¸a do ponto fixo (de um zero da func¸˜ao beta), mas podemos refazˆe-lo para cada ponto fixo e obter pelo menos uma descric¸˜ao topol´ogica dos fluxos no espac¸o {K}.
4
Os modelos sine-Gordon e
sine-Gordon duplo
O modelo sine-Gordon ´e de grande interesse na f´ısica, pois ´e uma extens˜ao n˜ao-linear do equac¸˜ao de Klein-Gordon, mas ´e integr´avel (tem soluc¸˜ao exata). Seu nome deriva inclusive de uma brincadeira com esses nomes. A equac¸˜ao de movimento
φtt− φxx+ m2φ = 0 (4.1) ´e um equivalente cl´assico da equac¸˜ao de Klein-Gordon, pois apresenta a relac¸˜ao de dispers˜ao E2= k2+ m2, podemos ver isso com a soluc¸˜ao φ (x,t) = φ0eikx−iEt. Sua extens˜ao n˜ao-linear ´e
φtt− φxx+ m2sin φ = 0 . (4.2)
Apesar de sua n˜ao-linearidade, essa equac¸˜ao pode ser resolvida exatamente com as trans-formac¸˜oes de B¨acklund [15]. As soluc¸˜oes apresentam solitons, ondas de car´ater topol´ogico que mant´em sua forma enquanto se propagam a velocidade constante, apesar da n˜ao-linearidade da relac¸˜ao de dispers˜ao. Isso acontece como um cancelamento de efeitos n˜ao-lineares e disper-sivos. As transformac¸˜oes de B¨acklund permitem obter soluc¸˜oes arbitrariamente complicadas, pois geram n + 1 solitons a partir de soluc¸˜oes com n solitons, uma mir´ıade de soluc¸˜oes que podem ser investigadas. Podemos investigar, por exemplo, o que acontece quando dois soli-tonscolidem, e observar que eles podem ser refletidos ou transmitidos sem mudar sua forma, a depender de um n´umero topol´ogico caracter´ıstico de cada soliton. A vers˜ao quˆantica do mo-delo tamb´em ´e integr´avel, ou seja, podemos encontrar seu espectro de autovalores e autovetores exatamente.
Al´em de todo o interesse te´orico numa teoria n˜ao-linear integr´avel com soluc¸˜oes t˜ao varia-das, o modelo sine-Gordon ´e de grande interesse em v´arias aplicac¸˜oes: para estudar a dinˆamica de tunelamento em Junc¸˜oes Josephson, transparˆencia auto-induzida em ´otica n˜ao-linear e ondas