Projeto de elaboração de uma LEI DO TRABALHO EM FUNÇÕES PÚBLICAS
A quantidade e complexidade de diplomas referentes aos trabalhadores em funções públicas e à organização da Administração Pública, bem como as alterações avulsas aos mesmos, ainda que bem-intencionadas, criaram um complexo legal que se vira contra a própria Administração Pública e, em especial, contra os respectivos dirigentes, dificultando a sua gestão quotidiana, propiciando a conflituosidade jurídica e gerando elevados níveis de consumo de recursos em tarefas que não acrescentam valor de serviço público. Com o propósito de alterar esta situação, o Governo propõe-se elaborar uma Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas que proceda à integração de toda a legislação aplicável às administrações públicas em matéria laboral, e que permita simplificar o quadro normativo que regula o exercício de funções públicas. Deverá, para esse efeito e no que for possível, ser seguida a sistemática do Código do Trabalho, com as necessárias adaptações.
PRINCÍPIOS ORIENTADORES
1. O trabalho legislativo em curso tem a natureza de uma sistematização da legislação dispersa sobre vínculos de emprego público. Pretende-se criar um regime jurídico geral único para o trabalho em funções públicas.
2. O objectivo deste trabalho passa por:
- proceder à consolidação em diploma único de diversos regimes e institutos que regulam o exercício de funções públicas
- proceder a alterações sistemáticas e de legística que se justifiquem
- proceder a alterações substantivas a identificar e a negociar com os Sindicatos
3. Como regime geral, o trabalho legislativo implica a integração dos conteúdos dos diplomas especiais existentes neste universo e a consequente revogação destes diplomas. Os diplomas principais que serão integrados numa única peça legislativa são os que constam da lista anexa.
4. O regime abrange as três modalidades de relação jurídica de emprego público (nomeação, contrato e comissão de serviço) e ainda a prestação de serviços equiparada ao exercício de funções públicas.
5. O regime regra do diploma é o do contrato de trabalho em funções públicas, contemplando-se, quando necessário, as especificidades dos trabalhadores nomeados e dos trabalhadores em comissão de serviço. Esta opção decorre do facto de o regime dos trabalhadores com contrato ser muito mais extenso e de se aplicar a um universo muito superior, para além de facilitar as remissões para o Código do Trabalho, quando adequadas.
6. Desaparece a distinção (da atual LCTFP) entre Regime e Regulamento com a orientação do atual Código do Trabalho de 2009, aproveitando-se a sistematização aperfeiçoada deste Código.
7. Nas matérias em que o regime dos trabalhadores públicos seja idêntico ao dos trabalhadores comuns será utilizada a técnica de remissão simples para o Código do Trabalho. Esta opção tem a vantagem de as atualizações / alterações do Código do
Trabalho se repercutirem automaticamente no universo dos trabalhadores públicos evitando a necessidade de estar sempre a alterar o regime destes, que agora existe. 8. São excluídas do âmbito do trabalho de sistematização os vínculos especiais, o regime
do pessoal dirigente da Administração Pública, ponderando-se a eventual inclusão de alguns aspetos estruturais do SIADAP.
9. O projeto de estrutura do diploma sistematizador da legislação dos trabalhadores em funções públicas consta do anexo II com duas notas explicativas adicionais sobre as partes estruturantes do diploma.
Anexo I
Principais diplomas a sistematizar
I - TRABALHADORES EM FUNÇÕES PÚBLICAS
1. LEGISLAÇÃO GERAL
Lei n° 12-A/2008, de 27 de fevereiro
- Novos Regimes de Vinculação, de Carreiras e de Remunerações
DECRETO-LEI N° 209/2009, 3 DE SETEMBRO DE 2009
- Adapta a Lei n° 12-A/2008, de 27 de fevereiro, com exceção das normas respeitantes ao regime jurídico da nomeação, aos trabalhadores que exercem funções públicas na administração autárquica e procede à adaptação à administração autárquica do disposto no Decreto-Lei n° 200/2006, de 25 de outubro, no que se refere ao processo de racionalização de efetivos.
LEI N° 58/2008, DE 9 DE SETEMBRO
- Estatuto Disciplinar dos Trabalhadores que Exercem Funções Públicas
Lei n.º 53/2006, de 7 de dezembro
– Estabelece o regime comum de mobilidade entre os serviços dos funcionários e agentes da Administração Pública, visando o seu aproveitamento racional
LEI N° 23/98, DE 26 DE MAIO
- Negociação coletiva e participação dos trabalhadores da Administração Pública
2. LEGISLAÇÃO ESPECIAL DOS TRABALHADORES COM CONTRATO DE TRABALHO EM FUNÇÕES PÚBLICAS
LEI N° 59/2008, DE 11 DE SETEMBRO
- Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas e respectivo Regulamento
Artigos ainda em vigor da Lei n° 23/2004, de 22 de junho
3. LEGISLAÇÃO ESPECIAL DOS TRABALHADORES NOMEADOS
Decreto-lei N° 47/87, DE 29 DE JANEIRO
- Estabelece normas relativas à fixação de residência pelos funcionários e agentes da administração pública, central e local e dos institutos públicos
Decreto-lei n° 259/98, de 18 de Agosto
- Estabelece as regras e os princípios gerais em matéria de duração e horário de trabalho na Administração Pública
Decreto-lei n° 100/99, de 31 de Março
- Estabelece o regime de férias, faltas e licenças dos funcionários e agentes da administração central, regional e local, incluindo os institutos públicos que revistam a natureza de serviços personalizados ou de fundos públicos
Anexo II
ÍNDICE
PARTE I ‐ PARTE GERAL
TÍTULO I – ÂMBITO E FONTES
CAPÍTULO I – Disposições gerais
CAPÍTULO II – Fontes CAPÍTULO III – Participação dos trabalhadores na legislação do trabalho Neste capítulo procura‐se estruturar o âmbito e os aspetos essenciais em matéria de fontes do trabalho em funções públicos, incluindo as relações entre as diferentes normas que disciplinam os diferentes vínculos de emprego público, condensando, em matéria de fontes, o regime dos artigos 80 a 82.º da Lei n.º 12‐A/2008, de 27 de Fevereiro, os artigos 1.º a 5.º do Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas aprovado pela Lei n.º 59/2008, de 11 de Setembro. O regime especial de participação dos trabalhadores em funções públicas na legislação do trabalho, porque se trata ainda de uma questão de fontes é incluído neste Título.TÍTULO II ‐ MODALIDADES DE VÍNCULO PARA O EXERCÍCIO DE FUNÇÕES PÚBLICAS
O Titulo visa estruturar o trabalho em funções públicas em torno das três modalidades de vínculo atualmente existentes mantendo o núcleo essencial de funções definido para o regime de nomeação e o contrato de trabalho em funções públicas como regra.TÍTULO III ‐ TRABALHADOR E ENTIDADE EMPREGADORA PÚBLICA
CAPÍTULO I – Trabalhador CAPÍTULO II – Entidade empregador pública CAPÍTULO III – Gestão dos recursos humanosEste Título tem por função identificar a importância dos trabalhadores em funções públicas que são um elemento essencial da Administração Pública, mas não diluem subjetivamente naquela. Por outro lado procura‐se operacionalizar uma função para a noção de entidade empregadora pública
PARTE II ‐ VÍNCULO DE TRABALHO
TÍTULO I – FORMAÇÃO DO VÍNCULO
CAPÍTULO I – Recrutamento
CAPÍTULO II – Forma, período experimental e invalidades
Secção I – Forma Secção II – Período experimental Secção III – InvalidadesTÍTULO II – MODALIDADES ESPECIAIS DE VÍNCULO DE TRABALHO EM FUNÇÕES
PÚBLICAS
CAPÍTULO I – Contrato a termo resolutivo
CAPÍTULO II ‐ Trabalho a tempo parcial
CAPÍTULO III – Teletrabalho
TÍTULO III – CONTEÚDO DA RELAÇÃO JURÍDICA DE EMPREGO PÚBLICO
CAPÍTULO I – Direitos e deveres do trabalhador e do empregador
Secção I ‐ Direitos e deveres do trabalhador Secção II – Direitos e deveres do empregador públicoCAPÍTULO II – Carreira, atividade do trabalhador e local de trabalho
Secção I ‐ Atividade do trabalhador Secção II ‐ Carreiras Secção III ‐ Local de trabalhoCAPÍTULO III – Mobilidade
CAPÍTULO IV – Tempo de trabalho
Secção I – Disposições geraisSecção II – Regimes especiais de organização do tempo de trabalho
CAPÍTULO V – Tempos de não trabalho
Secção I – Descanso diário e semanal Secção II – Férias Secção III – FaltasCAPÍTULO VI – Remuneração
Secção I – Disposições gerais Secção II – CumprimentoCAPÍTULO VII ‐ Exercício do poder disciplinar
Secção I – Disposições gerais Secção II – Penas disciplinares e seus efeitos Secção III – Procedimentos disciplinaresCAPÍTULO VII – Vicissitudes modificativas
Secção I – Cedência de interesse público Secção II – Sucessão de atribuições Secção III ‐ Mobilidade especial / reorganização dos serviços e vínculos de trabalho Secção IV – Suspensão do contratoCAPÍTULO VIII – Extinção do vínculo
Secção I – Disposições gerais Secção II – Causas de extinção comuns Secção III – Causas de extinção específicas do contrato de trabalho em funções públicas Secção IV – Causas de extinção específicas dos vínculos de nomeação e comissão de serviçoA Parte II do Projeto inclui todos os aspectos relativos à dinâmica do vínculo de trabalho em funções públicas nas suas várias modalidades, cobrindo as matérias da sua formação, execução e extinção. O paradigma da abordagem é o do contrato de trabalho em funções públicas, por ser a modalidade mais comum, assinalando‐se, quando adequadas as especificidades do regime da nomeação.
PARTE III ‐ DIREITO COLETIVO
TÍTULO I – ESTRUTURAS DE REPRESENTAÇÃO COLETIVA DOS TRABALHADORES
TÍTULO II ‐ INSTRUMENTOS DE REGULAMENTAÇÃO COLETIVA DE TRABALHO (IDT)
CAPÍTULO I – Disposições Gerais
CAPÍTULO II – Acordos coletivos de trabalho
Secção I – Disposições gerais
Secção II – Negociação coletiva
Secção III – Conteúdo
Secção IV – Depósito e publicação
CAPÍTULO III – Outros instrumentos coletivos convencionais
Secção I – Acordo de adesão
Secção II – Deliberação de arbitragem voluntária
CAPÍTULO III – Instrumentos administrativos de regulamentação coletiva
Secção I – Portaria de extensão
Secção II ‐ Deliberação de arbitragem necessária
CAPÍTULO IV – Regras especiais para os trabalhadores nomeados
TÍTULO III – CONFLITOS COLETIVOS
CAPÍTULO I – Meios pacíficos de resolução dos conflitos coletivos
CAPÍTULO II – Greve
A Parte III do Projeto inclui todos os aspectos relativos às situações colectivas, i.e., entes laborais negociação e contratação colectiva e conflitos colectivos. O paradigma da abordagem é o regime aplicável ao contrato de trabalho em funções públicas, por ser o mais abrangente, assinalando‐se, quando adequadas as especificidades do regime da nomeação.
Relativamente às matérias em que não o regime público não se afasta do regime laboral comum, adopta‐se a técnica da remissão para o Código do Trabalho.