O ocidente como ideal, propósito e programa: a ESG e a geopolítica do Brasil de Golbery do Couto e Silva
204
0
0
Texto
(2) UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – MESTRADO ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: HISTÓRIA E ESPAÇOS LINHA DE PESQUISA II: CULTURA, PODER E REPRESENTAÇÕES ESPACIAIS. O OCIDENTE COMO IDEAL, PROPÓSITO E PROGRAMA: A ESG E A GEOPOLÍTICA DO BRASIL DE GOLBERY DO COUTO E SILVA. LUIZ HENRIQUE FELÍCIO DO NASCIMENTO. NATAL/RN – 2016.
(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes CCHLA Nascimento, Luiz Henrique Felício do. O ocidente como ideal, propósito e programa : a ESG e a geopolítica do Brasil de Golbery do Couto e Silva / Luiz Henrique Felício do Nascimento. - 2016. 202 f.: il. Orientador: Prof. Dr. Renato Amado Peixoto. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em História, 2016.. 1. Escola Superior de Guerra (Brasil). 2. Silva, Golbery do Couto e - 1911-1987. 3. Geopolítica - Brasil. I. Peixoto, Renato Amado. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 94(81).084.
(4) LUIZ HENRIQUE FELÍCIO DO NASCIMENTO. O OCIDENTE COMO IDEAL, PROPÓSITO E PROGRAMA: A ESG E A GEOPOLÍTICA DO BRASIL DE GOLBERY DO COUTO E SILVA. Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-Graduação em História, Área de Concentração em História e Espaços, Linha de Pesquisa II – Cultura, Poder e Representações Espaciais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a orientação do(a) Prof(a). Dr(a). Renato Amado Peixoto.. NATAL/RN - 2016.
(5) LUIZ HENRIQUE FELÍCIO DO NASCIMENTO. O OCIDENTE COMO IDEAL, PROPÓSITO E PROGRAMA: A ESG E A GEOPOLÍTICA DO BRASIL DE GOLBERY DO COUTO E SILVA. Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de PósGraduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela comissão formada pelos professores:. _________________________________________ Renato Amado Peixoto - Orientador. __________________________________________ Cândido Moreira Rodrigues - Avaliador Externo. ________________________________________ Edu Silvestre de Albuquerque - Avaliador Interno. ____________________________________________ Henrique Alonso de Albuquerque Rodrigues Pereira - Suplente. Natal, _________de__________________de____________.
(6) Às minhas filhas..
(7) AGRADECIMENTOS. Primeiramente, gostaria de expressar meu profundo agradecimento ao meu orientador, Prof. Dr. Renato Amado Peixoto, responsável direto pela existência deste trabalho e que acreditou em mim com base apenas na visão que teve do uso da palavra “Geopolítica” em um anterior projeto, este natimorto. Aquilo que nada era, tornou-se esta dissertação. Espero então, que seja ele algo digno da atenção que o senhor me dispensou no decorrer dessa trajetória. Por fim, minha reverência à sua crença e constância na produção do conhecimento, que em muito expressa a beleza do trabalho acadêmico desenvolvido no PPGH – UFRN. Tal reverência é extensiva aos seus demais professores, especialmente ao Prof. Dr. Raimundo Arrais, que como poucos sabe conjugar, em seus ensinamentos, coisas tão díspares quanto razão e sensibilidade. Minha eterna gratidão, portanto. Pela gentileza e honra a mim concedidos de aceitarem participar da banca de defesa desta dissertação, meus agradecimentos ao Prof. Dr. Edu Silvestre de Albuquerque, Prof. Dr. Cândido Moreira Rodrigues e Prof. Dr. Henrique Alonso de Albuquerque Rodrigues Pereira. Agradeço ainda à minha família, aos meus pais, Luiz e Palmira, e à minha amada esposa, Lorenna, por terem acreditado em minha capacidade e força de vontade para chegar à conclusão deste trabalho. A vocês, o meu coração. Gostaria ainda de prestar especial gratidão ao Coronel Elias Leocádio da Silva Júnior e sua família, Janine e Matheus Leocádio, que gentilmente me acolheram durante a minha estadia na Praia Vermelha, Urca, Rio de Janeiro, local onde se respira história militar. Sem tal generosa ajuda teria sido mais difícil o meu trabalho de pesquisa. Meus sinceros agradecimentos, também, aos servidores da Biblioteca General Cordeiro de Farias, na ESG. A vocês, Silvana Batista Piauilin, Yasmim Lemos, Thiago Silva e Jéssica Andrade, pela paciência e disponibilidade com as quais me facultaram o acesso aos arquivos da instituição, meu muito obrigado. Nesse sentido, meu também agradecimento ao Coronel R1 do Exército Brasileiro e colega historiador, Fernando Velôzo Gomes Pedroza, pelos esclarecimentos e explicações a respeito da instituição militar, quando das minhas visitas à Biblioteca 31 de Março, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, ECEME. Finalmente, agradeço àquela que me abriu os olhos para a perspectiva de tentar o Mestrado. A você, Jossefrânia Martins, minha dívida imensa e toda a amizade que possa carinhosamente lhe devotar..
(8) “Não devemos temer senão o próprio medo”. (Franklin Delano Roosevelt).
(9) RESUMO O estudo e compreensão do período denominado República Democrática - ou República Liberal - transcorrido entre 1946 e 1964, coloca em evidência um processo político nacional essencialmente afetado pela dinâmica política externa, a Guerra Fria, que ficou caracterizada pela bipolaridade ideológica com efeitos extensivos a inúmeros outros aspectos, especialmente o militar. No Brasil, seguiu-se a tendência de alinhamento com os EUA e contra o bloco composto pela URSS e seus aliados. Nesse contexto foi fundada, em 1949, a Escola Superior de Guerra (ESG). A instituição encarregou-se da elaboração de uma Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e sua atuação no âmbito do Estado no decorrer da década de 1950 a tornou um locus de produção e difusão de estudos geopolíticos. Tal constructo intelectual, sob a forma dos conteúdos dos Cursos Superiores de Guerra, dava sequência a um trabalho de homens e instituições de Estado que tivera início no século XIX e que tinha por base uma lógica que colocava em pauta os interesses e as prioridades estatais, de forma atemporal e independente dos governos estabelecidos. A narrativa sobre a formação do território brasileiro, inerente aos estudos desenvolvidos na Escola, se faria ainda acompanhar da construção de uma historiografia que teceu um discurso que evocava uma tradição “cristã ocidental” e o anticomunismo, ao mesmo tempo em que se elaboravam as diretrizes para a consecução do projeto geopolítico de tornar o Brasil uma nação forte, uma potência. Nesse sentido, o estudo do pensamento político do general Golbery do Couto e Silva – a partir de sua obra “Geopolítica do Brasil” – apresenta-se como elemento indispensável para o entendimento daquele período da história brasileira. Palavras-chave: ESG. Golbery. Geopolítica brasileira..
(10) ABSTRACT The study and understanding of the period called Democratic Republic - or Liberal Republic - elapsed between 1946 and 1964, highlights a national political process primarily affected by a dynamic foreign policy, the Cold War, which was characterized by ideological bipolarity with effects extended to numerous other aspects, especially the military one. In Brazil, it was followed by the alignment trend with the US against the bloc formed by the USSR and its allies. Within this context, the Superior School of War (ESG) was founded in 1949. The institution was responsible for drafting the Homeland Security Doctrine (DSN) and its acting within the State’s scope during the 1950s made it a locus of production and diffusion of Geopolitical studies. Such intellectual construct, in the form of the Superior War School Courses contents, gave sequence to the work of men and state institutions that had begun in the 19th century and which was based on a logic that put in question the interests and state priorities, in a timeless way and independent of established governments. The narrative of the formation of the Brazilian territory, inherent to the studies conducted at the school, would be followed by the making of a historiography that wove a speech that evoked a "Western Christian" tradition and the anticommunism, while outlining the guidelines for accomplishing the geopolitical project of making Brazil a strong nation, a potency. In this sense, the study of general Golbery do Couto e Silva's political thinking – from his work “Geopolitics of Brazil” – is presented as an indispensable element to the understanding of that period in Brazilian history.. Keywords: ESG. Golbery. Brazilian geopolitics..
(11) LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ADESG – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CSG – Curso Superior de Guerra DSN – Doutrina de Segurança Nacional ECEME – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército EMFA – Estado-Maior das Forças Armadas ESG – Escola Superior de Guerra EUA – Estados Unidos da América FEB – Força Expedicionária Brasileira IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro IRB – Instituto Rio Branco ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros JOC – Juventude Operária Católica MRE – Ministério das Relações Exteriores NWC – National War College ONPs – Objetivos Nacionais Permanentes ONU – Organização das Nações Unidas OEA – Organização dos Estados Americanos OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte OTASE – Organização do Tratado do Sudeste Asiático PCB – Partido Comunista Brasileiro PIN – Plano de Integração Nacional PPCC – Partidos Comunistas SENE – Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros SNI – Serviço Nacional de Informações TIAR - Tratado Interamericano de Assistência Recíproca ULTAB - União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
(12) SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 12 CAPÍTULO I.................................................................................................................. 34 1. O PROCESSO DE FUNDAÇÃO DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA ESG: ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA ................................................................. 35. 1.1 O mundo, o Brasil e a ESG ...................................................................................... 37 1.2 A ‘Era da Angústia’ ................................................................................................ 41 2. A HISTORIOGRAFIA E O PROCESSO DE FUNDAÇÃO DA ESG................... 44. 2.1 A maturação do Exército e a fundação da ESG ...................................................... 53 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 60. CAPÍTULO II ................................................................................................................ 61 4. A DINÂMICA ESTANDARDIZANTE DO CURSO SUPERIOR DE GUERRA . 62. 5. OS PRECURSORES DO ESPAÇO – A NARRATIVA HISTÓRICA DA ESG ... 75. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 84. CAPÍTULO III............................................................................................................... 87 7. O CURSO SUPERIOR DE GUERRA E “GEOPOLÍTICA DO BRASIL” .......... 82. 7.1 Tasso Fragoso e a Escola Superior de Guerra, 1968 ............................................... 89 8. OS PROGRAMAS E CONTEÚDOS DO CURSO SUPERIOR DE GUERRA .... 96. 8.1 O Curso de 1954 ....................................................................................................... 97 8.2 O Curso de 1955 ..................................................................................................... 101 8.3 O Curso de 1956 ..................................................................................................... 102 8.4 O Curso de 1957 ..................................................................................................... 108 9. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 109. CAPÍTULO IV ............................................................................................................. 113 10 ASPECTOS GEOPOLÍTICOS DO BRASIL ....................................................... 114 11 DE 1952 A 1960, ASPECTOS GEOPOLÍTICOS DO BRASIL ........................... 117 11.1 A Guerra Fria vista pela ESG.............................................................................. 123 11.2 O Brasil na Guerra Fria ....................................................................................... 125 11.3 "Principais modificações estruturais da Sociedade Brasileira em face da evolução do Ambiente Mundial e, em particular, do Panorama Americano”....................................................................................... 131 11.4 A Igreja e a sociedade .......................................................................................... 136 11.5 O Comunismo ....................................................................................................... 139.
(13) 11.6 A frutificação perigosa ......................................................................................... 142 12 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 148 CAPÍTULO VI ............................................................................................................. 149 13 EM DEFESA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL CRISTÃ ................................. 150 13.1 Geopolítica e geoestratégia: o pan-americanismo e os sistemas coletivos de defesa................................................................................................................ 152 13.2 Dois pólos da segurança nacional na América Latina ........................................ 157 13.3 O pan-americanismo ............................................................................................ 161 13.4 As queixas latino-americanas contra os EUA ..................................................... 165 14 SISTEMAS DE DEFESA ........................................................................................ 167 15 A ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS (OEA) ............................. 168 15.1A OTAN e o Pacto de Varsóvia............................................................................. 175 16 A TEORIA DOS HEMICICLOS .......................................................................... 177 16.1 O mundo de Além-Mar ........................................................................................ 182 16.2 As ameaças (hemiciclo interior) ........................................................................... 184 16.3 O Mundo Luso-Brasileiro .................................................................................... 186 17 CONCLUSÃO ......................................................................................................... 190 REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 194 ANEXO - ESQUEMA 16 - A AMÉRICA DO SUL E OS HEMICICLOS INTERIOR E EXTERIOR ................................................................................................................ 201.
(14) 12. INTRODUÇÃO A geopolítica tornar-se-ia, em meados do século, a razão de existência de uma instituição, a Escola Superior de Guerra (ESG), constituída para gerenciar a atividade de planejamento do Estado e de coordenação dos esforços militares, políticos e diplomáticos. Depois, durante os anos do Regime Militar, a geopolítica norteou o planejamento e a territorialização do regime, bem como lastreou seus esforços internacionais (PEIXOTO, 2011b, p. 124). No início de 1958, Juscelino Kubitschek proferiu um discurso na ESG, por ocasião da abertura dos cursos que seriam ministrados naquele ano. A sua fala tratava dos temas comumente abordados nos cursos da Escola, sobre o papel desempenhado pelas elites 1, dos problemas econômicos e sociais e, sobre a questão da Segurança Nacional, enquanto interesse do Estado. Por fim, falou sobre o trabalho desenvolvido pela própria Escola e pelas Forças Armadas, guardiãs dos interesses nacionais, enquanto instituições que deveriam ser por isso valorizadas. Para o então Presidente da República era de se lamentar que o Brasil não dispusesse há mais tempo dos serviços prestados pela Escola ao país, que teria “lucrado” sobremaneira “no sentido de maior integração de suas elites na realidade nacional e mais profunda penetração nos problemas” que o mundo enfrentava àquela época. Kubistchek passava, então, um atestado de reconhecimento àquilo que a ESG se propunha em seus propósitos, enquanto um centro de altos estudos, voltado aos temas da Geopolítica e sua aplicabilidade à realidade nacional. (ESG, 1958, p. 1) Foi exatamente nesse sentido, de reconhecimento do papel desempenhado pela Escola Superior de Guerra para a delineação dos possíveis rumos que poderiam ser adotados pelos mandatários do Estado brasileiro, que foi orientado o meu contato com os documentos. A importância do conceito de “elites” conforme observado no pensamento esguiano é bem demonstrado por Duroselle (1992, pg. 24) no sentido de que existe, dentro dos objetivos declarados nas palestras aos estagiários, a clara ambição de formatação de um sistema de poder decisório em poucos, poder esse, evidentemente focado nas questões objetivas da vida nacional, o que, em se tratando de uma perspectiva geopolítica, englobaria questões relativas à diplomacia estratégica e economias internacionais. Fala-se aqui do aspecto “qualitativo” do exercício do poder por “um pequeno número de homens” que usam do instrumento “cálculo” para o planejamento e consecução dos projetos interligados às concepções de Segurança Nacional. A ação dessas elites, dotada de poder decisório e burilada pela ESG com a função de dar funcionalidade a um projeto de nação – mas não se pretende aqui debater o que se conseguiram – era pautado pelo entendimento das questões estruturais que caracterizavam o cenário nacional de forma que o planejamento viesse a atenuar os eventuais e possíveis problemas conjunturais que o afetassem. 1.
(15) 13. oriundos dos Cursos Superiores de Guerra ali realizados no decorrer da década de 1950, cujos conteúdos avalizam a importância da instituição para a história política brasileira daquele período. Voltando à fala de Juscelino, entendo que ficou explícita a afirmação, perante a ESG, da crença nas práticas desenvolvidas pela Escola em torno dos assuntos nacionais relevantes. Nada do que foi pronunciado por ele era estranho aos currículos esguianos. Dessa forma, percebe-se o reconhecimento daquele governo da importância assumida pela instituição perante a estrutura do Estado Brasileiro, apenas dez anos após a sua fundação, concretizando o projeto levado à frente por um grupo de militares sintonizados com as ideias geopolíticas emanadas do contexto da Guerra Fria recém iniciada. Tal atuação da ESG no âmbito de Estado foi o elemento que a definiu como meu objeto de pesquisa. A Escola Superior de Guerra (ESG), no transcorrer da década de 1950, foi assim investigada, sob a ideia de que esse espaço institucional se tornou um locus de produção e difusão de uma determinada categoria do conhecimento, a Geopolítica. Busquei especialmente focar a investigação e análise da constituição do pensamento esguiano e a formulação da Doutrina de Segurança Nacional, tendo uma atenção especial ao papel desempenhado nesse processo pelo general Golbery do Couto e Silva 2, notadamente a partir da sua produção intelectual entre os anos de 1952 e 1960, que define o recorte temporal deste trabalho. Foi este o período durante o qual Golbery escreveu os textos que formaram o seu livro “Geopolítica do Brasil”, conjunto composto justamente por um homem que foi integrante do corpo permanente daquela instituição militar, a qual, por sua vez, foi parte importante da formação de integrantes das Forças Armadas, de elementos do corpo diplomático e de tantos outros pertencentes aos quadros influentes da sociedade civil, que ali desenvolveram a ascendente trajetória que os levou ao coração do modelo político instalado no poder em 1964.. 2. A trajetória de Golbery do Couto e Silva, em termos de sua carreira militar e ação política, tem sido objeto da atenção de historiadores, notadamente no que se refere à sua atuação na ESG e nos governos de Ernesto Geisel e João Figueiredo. A obra do jornalista Elio Gaspari sobre o Regime Militar (1964-1985), que deriva do estudo de um acervo documental deixado pelo próprio Golbery e de entrevistas com o próprio general, com o expresidente Geisel e com Heitor Ferreira, “secretário de ambos”, além da análise de vasta bibliografia sobre o período, pode ser considerada um marco no sentido da compreensão da vida do homem que acabaria denominado o “feiticeiro”. Uma sua breve biografia pode ser encontrada no terceiro volume da obra de Gaspari, intitulada “A Ditadura Derrotada”, entre as suas páginas 107 e 117. Recomendo ainda a leitura de Puglia (2012), Peixoto (2000), Mundim (2007) e Assunção (1999), utilizados neste trabalho, que representam solidamente a contribuição recente da Academia para o entendimento da figura de Golbery..
(16) 14. Não existe aqui a pretensão de se escrever a história da ESG naquele período, a década de 1950, e nem de se tratar da historiografia a ele correspondente, que enfim não constituem objetivos deste trabalho, mas sim de investigar como a instituição construía, por meio do Curso Superior de Guerra, a sua teoria geopolítica, e de como esta era apoiada no vasto uso de dados historiográficos que constituiriam, por intermédio dos textos ali expostos sob a forma de palestras, uma narrativa singular em suas feições, a qual, por sua vez, fazia partes das ideias vinculadas à formulação de uma doutrina de segurança do Estado brasileiro com base no conhecimento da história econômica, social, cultural, política, militar e diplomática. Segundo Kubistchek, o papel a ser desempenhado pelos homens que formavam os quadros da Escola era referenciado em termos de herança e continuidade, com a ressalva de que durante o Império, os postos de comando do país estavam nas mãos de sua própria elite por meio de elementos como “a intuição e as qualidades do bom senso, de comedimento”, além das “virtudes morais” e da “prudência”, que perfaziam as qualidades inerentes àquilo que nominou “naturalmente reduzida” classe dominante. (ESG, 1958, p. 2) A evolução da sociedade brasileira e o advento da modernidade que caracterizava a vida do país naquela segunda metade do século XX definiram os imperativos à modernização da própria elite dirigente, pois a complexidade gerada pela necessidade de elaboração de formas que possibilitassem a concretização dos objetivos nacionais atribuiu naturalmente à Escola a tarefa de “promover não só a formação de elites ativas, mas abrir-lhes as vias de acesso aos postos de comando, e o caminho pelo qual a Nação encontrará seus líderes naturais”3. Entendo que Kubistchek estaria fazendo uma referência ao status que a ESG alcançara dentro das estruturas do Estado brasileiro enquanto espaço privilegiado para a composição de diretrizes orientadoras de políticas focadas na questão do desenvolvimento e da segurança, gerando um corpo qualificado de homens capazes de assumir as tarefas requeridas pelas necessidades da nação. Um dos elementos que servia de amálgama para a constituição desse processo, era justamente a construção de uma identidade esguiana, a partir da identificação dos estagiários com as questões doutrinárias ali desenvolvidas.. 3. Ibdem, p. 2..
(17) 15. Sabedor de que o binômio “segurança e desenvolvimento” era o mote para a formalização de uma Doutrina de Segurança Nacional, Kubistchek não se furtou à oportunidade de defender as suas iniciativas no campo econômico. Dizia ele que o processo de evolução econômica se funde no conceito, sobremaneira dinâmico, de segurança nacional. [...] No quadro brasileiro, a segurança nacional condiciona todo o programa de ação que, apesar dos mais variados obstáculos, das mais ingentes dificuldades, estou levando adiante no campo econômico e graças a tal associação, esse programa se reveste de uma generalizada unidade, possui organicidade, alicerces sólidos e, mais do que tudo, autenticidade. Tem condições próprias de vida própria e realizar-se-á porque sua concepção obedeceu a um estudo complexo no qual o conceito de segurança nacional forneceu o sistema de coordenadas, os limites, a direção e a aceleração dos elementos vetoriais representativos do progresso econômico. (ESG, 1958, p. 6). O Presidente fazia uma referência ao Plano de Metas 4 , deixando claro que sua orientação fora pelas “exigências essenciais da segurança nacional”, atestando então que o modelo teórico desenvolvido na Escola atribuiria naturalmente condições de “exequibilidade” ao seu projeto econômico. Kubistchek chamava atenção, também, para o fato de que a execução do Plano de Metas, pela sua própria ambição em termos de propostas para o desenvolvimento do país, exigiria a sua responsabilidade no que dizia respeito à destinação de recursos oriundos do próprio tesouro. Nesse sentido defendia que a realização do projeto estaria em subordinar parcialmente “a execução das metas a uma entrada substancial de financiamentos ou investimentos diretos estrangeiros”. Era uma clara referência à possibilidade de inclusão do capital estadunidense num momento em que a aliança geopolítica surgida no contexto da Guerra Fria enfrentava uma fragilidade relacional, que acometia o pensamento esguiano sob a forma de críticas à ausência efetiva dos Estados Unidos na facilitação do desenvolvimento da América Latina como um todo e, especialmente, do Brasil, dentro das perspectivas de um crescimento que alçasse o país à condição de líder inconteste no Hemisfério Sul5.. 4 O Plano de Metas caracterizou a política econômica do governo Kubitschek que definia como prioridades os investimentos nas áreas de “energia, transportes, alimentação, indústrias de base, educação e a construção de Brasília”, a nova capital federal, conforme Caldeira (2000, p. 294-295). Segundo o autor, o seu ponto fraco era a questão do endividamento externo, motor de grave crise econômica que viria posteriormente. 5 É interessante observar que o binômio “Segurança e Desenvolvimento”, que implica em uma clivagem Leste x Oeste por força das composições das alianças firmadas no contexto da Guerra Fria, acabaria por deflagrar, dentro.
(18) 16. No campo das Relações Internacionais, dizia Kubistchek, “a política brasileira tem por base a manutenção da paz”, obedecida a ideia de “desejo do entendimento entre os povos e o respeito às convicções alheias”, defendendo assim os ideais de liberdade e defesa da soberania nacional. Considerava ele ser “indispensável que as ideias de liberdade e os próprios sentimentos cristãos” pudessem assumir sua própria defesa, que ocorreria, sob as circunstâncias da Guerra Fria, “não apenas como desejos, votos, palavras, mas ainda com outros elementos também convincentes”, numa clara alusão aos sistemas de defesa coletiva que integravam os países do mundo ocidental sob a liderança dos Estados Unidos. Por fim, tecia votos de sucesso à política externa brasileira no sentido de integração dos povos latinoamericanos, exortando-os à união como sinônimo de fortalecimento. (ESG, 1958, p. 11) O discurso de Juscelino Kubitscheck, enfim, oferecia aos homens que compunham os quadros esguianos um resumo do sentido da existência da instituição, cujos fundamentos seriam moldados pelo conhecimento geopolítico e que serão analisados no decorrer deste trabalho. Dois livros diferentes num um só Não podemos de certo afirmar que Golbery do Couto e Silva escreveu um livro, uma obra com este fim específico. O conjunto literário sobre o qual me detenho em termos de análise, foi resultado efetivo, em parte, da junção de textos de palestras proferidas pelo general no decorrer da década de 1950 e no início dos anos 1960 e, de outra – à qual farei ainda uma breve referência – o resultado de outra situação, na medida em que foi elaborado para uma palestra de Golbery na ESG no início da década de 1980, muito depois, portanto, dos textos que integram a outra metade da obra. “Conjuntura Política Nacional: o Poder Executivo e Geopolítica do Brasil”, em sua edição de 1981 e, em parte, objeto deste trabalho 6, apresenta-se como uma análise do cenário brasileiro sob a ótica da Geopolítica, sendo a sua composição o resultado da postura adotada pelo general de, em certa forma, preservar e reafirmar ideias a respeito do conceito de Segurança Nacional que foram reunidas em um livro lançado em 1967 7 (Geopolítica do. das perspectivas brasileiras, uma outra clivagem, esta Norte x Sul – que aqui não me cabe discutir, por fugir à periodização aqui analisada – tendo por base a afirmação de uma posição de destaque do país no Hemisfério Sul, e que acabaria por despertar posições políticas brasileiras independentes dos Estados Unidos, notadamente na década de 1970. 6 Não tive acesso à edição de 1967. Daí o uso da edição de 1981, que guarda a integridade do texto original. 7 A divisão esquemática da edição de 1967 é a seguinte: o livro foi dividido em três partes, cada qual subdividida em palestras proferidas por Golbery nas dependências da ESG. A primeira parte, denominada “Aspectos Geopolíticos do Brasil” é composta por três subdivisões ou capítulos: “Aspectos Geopolíticos do Brasil”, 1952;.
(19) 17. Brasil, que forma a segunda parte da obra de 1981), que foram somadas às suas considerações às variantes políticas, sociais, culturais e econômicas presentes no cenário nacional no início da década de 19808 (Conjuntura Política Nacional: o Poder Executivo, a primeira parte do livro aqui analisado). Foram, portanto, editados em ordem inversa, em termos cronológicos. São duas partes de um todo, mas claramente distintas em termos de temática, sendo resguardadas as diferenças decorrentes entre as épocas em que os textos foram escritos. Na prática, são duas obras que se explicam em função de conjunturas específicas, na medida em que existe um largo espaço temporal de uma parte a outra9. A citada primeira parte reflete a conjuntura política, social e econômica brasileira do início da década de 1980, quando o Regime Militar estava navegando nas águas turbulentas da chamada política de distensão, rumando assim para o processo de abertura política, a redemocratização iniciada pelo presidente Ernesto Geisel ainda nos anos 70 10. Chamo a atenção aqui para aquilo que penso ser uma diferença fundamental de Golbery enquanto vetor de ideias, diferença essa derivada do percurso dele próprio e da ESG em nossa história política entre as décadas de 1950 e 1980. O primeiro homem, aquele que enquanto adjunto da ESG e mesmo após a exoneração em 1955, juntou os textos que iriam compor a edição de 1967 era o intelectual11 que ostensivamente discorria sobre a geopolítica, e que a enxergava no planejamento estatal e na realização do conceito de poder nacional através da consolidação da DSN. Transparece ali um idealista que conspirou12 pela realização de um projeto de poder e que estaria fadado à permanência nos quadros de honra da ESG e na mitologia da caserna. “Aspectos Geopolíticos do Brasil”, 1959; “Aspectos Geopolíticos do Brasil”, 1960. A segunda parte, denominada “Geopolítica e Geoestratégia” foi subdividida em três outras: “Geopolítica e Geoestratégia”, 1959; “Dois Pólos da Segurança Nacional na América Latina”, 1959; “Áreas Internacionais de Entendimento e Áreas de Atrito”, 1959. A terceira e última parte é denominada “O Brasil e a Defesa do Ocidente” e é composta por uma única palestra, de mesmo nome, datada de 1958. Além disso, possui dois anexos que abordam temas e conceitos caros às ideias que Golbery defende no conjunto da obra. 8 “Conjuntura Política Nacional: o Poder Executivo” é um texto composto por cinco tópicos que em conjunto constituíram uma conferência proferida por Golbery na ESG, em 1980. 9 Uma, está ambientada no final do Regime Militar, início da década de 1980; a outra, na República Liberal, abrangendo os anos 1950 e início da década de 1960, antes, portanto, dos governos militares. 10 O projeto de “redemocratização de Geisel-Golbery” é analisado por Skidmore, 1988, p. 315-408. 11 A ideia de “elite”, em se tratando especificamente de Golbery do Couto e Silva, é por mim entendida como a de intelectual de Corporação Militar. Este conceito, por sua vez, tem a sua definição tratada conforme a ótica do historiador britânico John Keegan, em sua obra “Uma História da Guerra”. Sobre isso, ver Peixoto, 2000, p.15. 12 São notórios os casos de envolvimento de Golbery em situações de instabilidade política nos anos 1950 e 1960. Alguns documentos de sua lavra tornaram-se atestados da forma como ele enxergava questões importantes da vida política e militar àquela época. Sobre esses documentos, ver Geopolítica e Poder, p. 501 a 535..
(20) 18. sob a condição de intelectual responsável pelos estudos que, reunidos na década de 1960 sob a forma de um livro, acabaram por gerar um dos textos mais bem fundamentados dentro da perspectiva do conhecimento teórico geopolítico produzido no Brasil. Já o que se depreende é que o Golbery das palestras de 1980, era o homem que, além do mito consolidado nos meandros do poder, um experimentado nas entranhas do Estado, cioso do momento crítico que o país passava e, consciente de que havia a necessidade de reformulação do sistema político e da sua condução para as já citadas “abertura” e “redemocratização”. Tais diferenças, entre o jovem coronel que ajudou a moldar a ESG nos anos 1950 e o homem das ideias conferidas pela madureza e pela forja do exercício do poder na condição de homem forte do Regime Militar, à sombra apenas do presidente Ernesto Geisel em momentos críticos do regime 13, transparecem nos textos que compuseram a obra publicada em 1981. O porquê de não se trabalhar 1981 Para Antonio Miranda Netto14, em sua análise da conjuntura nacional (1956, p.5), a “sociedade é organismo e processo, isto é, domínio que se transforma em função do tempo”. Ele versou à ESG sobre os “processos estocásticos temporais da sociedade”, tais como os “econômicos, políticos, históricos, ou quaisquer outros em que entrem fatores culturais”. Em resumo, entendemos que tal colocação evidenciava que é no sentido de uma dinâmica histórica, condicionante dos fatos, que devemos analisar os erros e acertos das previsões traçadas pela Geopolítica. Aquilo que foi planejado de forma estanque, categórica, pode se confirmar (afinal, foram feitos estudos dos quais derivou um planejamento). Mas diante da imprevisibilidade dos acontecimentos, que não são passíveis de controle, ideias caem em desuso e convicções são desfeitas. Daí que mudam também os resultados e, portanto, os discursos que embasam os planejamentos. Uso tal colocação para me referir aos conteúdos constantes no livro editado em 1981, que contêm as já citadas duas obras, a do texto de 1980 e o livro de 1967, este reeditado como. A história das relações entre Geisel e Golbery e destes com o Regime Militar aparecem descritos de forma magistral na obra do jornalista Elio Gaspari sobre aquele período. Geisel seria “o sacerdote”; Golbery, “o feiticeiro”. Escrita em cinco volumes, relata a ascensão, crise e queda do Regime Militar, contexto onde se insere a edição de 1981 da obra de Golbery, no penúltimo livro da série, “A Ditadura Encurralada”. Ver Gaspari, 2014. 14 Antônio Garcia de Miranda Netto, Bacharel em Ciências Sociais, fizera o Curso Superior de Guerra. Em 1956, era Catedrático da Universidade do Brasil e Adjunto da Divisão de Assuntos Psico-Sociais da ESG. Sua palestra data de 30/07/56.. 13.
(21) 19. um clássico que constitui. A obra de 1967 é técnica, dada ao jargão clássico dos estudos da Geopolítica, fundamentada na análise das conjunturas nacional e internacional e que desenhava um determinado projeto de país; a de 1980 não traz essa preocupação, de fazer profundos estudos teóricos sobre a geopolítica brasileira daquela época. É uma obra que dedica a sua atenção às transformações políticas que estavam em curso no cenário nacional e expressava cautela quanto a análise do contexto do período, marcado pela redemocratização, com toda a carga de responsabilidade que isso pudesse acarretar ao homem que estava ciente dos novos valores e necessidades que emergiam do seio da sociedade brasileira. Eram, em suma, dois momentos. Um de planejamento e outro, em larga escala, de reflexões sobre o muito do que não se tornara ou não realidade naquilo que fora estudado e planejado. A cada um deles, como afirmei anteriormente, coube a um Golbery diferente. Em 1980 Golbery do Couto e Silva era Chefe da Casa Civil do governo do então presidente, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo 15. Penso que Golbery, ao formular o conteúdo que compôs a edição de 1981, teve por objetivo externar ao grande público a sua visão a respeito do delicado momento que o país atravessava àquela época, escolhendo como veículo de expressão sua conferência realizada nas dependências da ESG, espaço notoriamente reservado aos palestrantes e estagiários. Golbery fez então uma análise reflexiva sobre o período transcorrido desde março de 1964, estando ele, naquele momento, na condição de peça fundamental daquele que seria o último governo do Regime Militar. Como poucos, Golbery conhecia os meandros do poder, as disputas intestinas do governo que, àquela altura do próprio Regime, representavam as dinâmicas da reação de setores das Forças Armadas, notadamente os elementos pertencentes aos serviços de informação, especialmente ao SNI16, refratários à ideia de redemocratização e, por extensão, da volta da liberdade de ação política das esquerdas. Acredito que, não à toa, a primeira parte do texto discorra sobre o “dilema” enfrentado pelo Brasil em sua história política, qual fosse a ocorrência, desde o período colonial, de sucessivas fases marcadas pela centralização e descentralização administrativa, as “sístoles e diástoles” do seu relato sobre a nossa formação enquanto nação e Estado (SILVA, 1981a, p.5).. 15. Golbery exerceu o cargo por dois governos consecutivos. Ele fora também ministro do governo Ernesto Geisel. Segundo Figueiredo (2005, p. 124), o Serviço Nacional de Informações – SNI foi criado pelo projeto de lei 1968/64, tendo sido redigido por Golbery. Possuía apenas “dez artigos”, mas era dotado de “um poder quase infinito”, possuindo inclusive “ligação direta com a Presidência da República”. 16.
(22) 20. É interessante perceber que Golbery, enquanto militar reformado, não se furta à exposição de críticas a certos aspectos da estrutura política da qual era parte, notadamente as de caráter centralista que existiam à época da composição da obra. Ele identificava uma situação hipertrófica do modelo de poder Executivo que ascendera ao comando da nação a partir da ocorrência da “revolução de 1964”, quando em nome de um projeto estatal que se fundamentava em diretrizes do processo de planejamento, o país foi orientado de acordo com as normas que refletiam a ocorrência de uma intensa concentração de poderes em benefício de apenas um deles e em detrimento dos demais, por conta de diversos instrumentos de regulação e controle (SILVA, 1981a, pp.22-23). As palavras que deram início à conferência de 1980 remontaram à crença de Golbery no trabalho desenvolvido por ele e pelos demais homens que constituíram a ESG desde a sua fundação17, naquilo que dizia respeito à formulação da Doutrina de Segurança Nacional – DSN, que iria servir de norte ao Estado brasileiro em sua política externa e no planejamento de ações no âmbito interno 18. A edição de 1981 seria então a reafirmação moral da Doutrina e é justamente nesse sentido, que entendo ser antes de tudo necessário o estudo dos textos utilizados por Golbery para compor a obra de 1967, a ‘Geopolítica do Brasil’, ou seja, investigar como esse conhecimento foi gestado. Tal compreensão, da construção do conhecimento de 1967, seria então a condição necessária para o também entendimento do texto de 1980, pois existe um claro diálogo entre ambos na medida em que o conhecimento geopolítico permeia o lapso de tempo existente entre as duas obras. 1967 mostrou um Brasil e um mundo que deveriam, segundo as perspectivas delineadas nos estudos esguianos, obedecer a determinados parâmetros definidos. 17. Golbery enumerou uma série de nomes aos quais deveria ter em alta conta dentro dos trabalhos desenvolvidos dentro da ESG, sob diferentes circunstâncias e em diferentes épocas. Foram citados nominalmente próceres como Juarez Távora e Cordeiro de Farias, que constam entre os fundadores da ESG, além de outros militares, como Ernesto Geisel e Jurandir Mamede. Além disso, reporta a “diplomatas”, “técnicos” e outros estagiários, nomes enfim de destaque e representativos dos diferentes elementos de origem militar e civil que perfaziam os quadros da instituição. 18 A nota introdutória à edição de 1967 coube ao jurista Afonso Arinos de Melo Franco. Ele expôs a sua visão de que as teses defendidas por Golbery ressaltam o papel crucial da conjuntura externa no que diz respeito às soluções nacionais. Opinou que a “Revolução” errou na análise da conjuntura externa e daí, portanto, errou na condução de determinadas soluções brasileiras. Em seu entender, a DSN, longe de constituir “um sistema ou uma doutrina”, tornou-se, no entanto, “um poderoso instrumento de ação”, na medida em que “as soluções nacionais são fortemente condicionadas pela conjuntura internacional ou pela sua interpretação”. (SILVA, 1981a, p. xiii)..
(23) 21. pela previsibilidade de situações que o planejamento geopolítico acredita ser capaz de concretizar. Ele faz referência ao que afirma ser um pensamento dotado de caráter autóctone, porém em nada diferente daquilo que era formulado por entidades similares à ESG existentes em outros países. É importante também destacar que a ESG não deve ser enxergada como um elemento isolado dentro da estrutura militar brasileira, dentro das perspectivas de formulação de um projeto para o país. Em sua análise a respeito do processo de modernização das Forças Armadas em torno da questão da Segurança Nacional para a realização do sonhado “Brasil Potência”, percebese o grau de envolvimento dos meios militares nacionais na medida em que se elencam as instituições que surgiram no país entre as décadas de 1940 e 1950 voltadas às questões desenvolvimentistas e, portanto, estratégicas19. Era um conjunto agregado ao Estado em torno da consecução de uma ideia do que seria o país ideal. Uma observação se faz necessária ao final dessa análise da Conferência de 1981: esta expõe a visão de Golbery sobre o que teria dado certo e o que teria contrariado as perspectivas esguianas para o país. Suas palavras não eram parte de um exercício de especulação a respeito do que sucedia no Brasil àquela época. Como já afirmei, Golbery falava a um público específico o qual ele conhecia, em essência, como poucos. Ele discursava para a elite das Forças Armadas, para os quadros diplomáticos e técnicos do Estado. Falava à própria sociedade civil em suas diversas frentes, ali admitidas na condição de estagiários. Dentro de uma perspectiva de entendimento da produção intelectual de Golbery e da ESG, e de uma aproximação desses elementos com a histografia e com a história política do período analisado, foi necessário que estivessem todos os elementos observados devidamente imbricados em um processo histórico que neste trabalho é valorado exatamente na obra analisada, que como observamos reuniu textos de dois períodos da história do Brasil. Conforme Duroselle (1992, p.24), para o entendimento de um processo de tal natureza, contam “a evolução, a corrente, indispensável para constatar as continuidades, as criações e a eventual existência de regularidades”.. 19. Entre 1941 e 1959, foram criadas ou criados a ESG (1949); o CNPq (1951); o Instituto Militar de Tecnologia – a Exército (1941); o Centro Técnico da Aeronáutica (1953); e o Instituto de Pesquisas da Marinha (1959). Além disso, criaram-se cursos de Engenharia dentro das três armas, com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1950); o Instituto Militar de Engenharia (1959); e cursos de Engenharia Naval mediante convênios com a Escola Politécnica de São Paulo (1955) e UFRJ (1959). Dessa forma, dava-se materialidade ao pensamento positivista que, dentro das Forças Armadas, pregava o desenvolvimento nacional via industrialização do país. (OLIVEIRA, 2007, p.335)..
(24) 22. Compreendo que muitos dos elementos teóricos que foram construídos na ESG no decorrer do período que abrange os textos do livro de 1967, serviram de base ao fortalecimento do papel político das Forças Armadas e estiveram presentes no processo histórico do Regime Militar. Dessa forma, ao discursar à ESG em 1981, Golbery fazia na realidade um apanhado de muitos dos elementos constitutivos do pensamento geopolítico esguiano e de como, em muitos aspectos, os mesmos foram contraditos pela situação montada após a ascensão dos militares ao poder, muito por conta das mudanças nos cenários nacional e internacional. Assim, ao proceder a análise da primeira parte da obra de 1981, “O Poder Executivo”, percebi que seria antes necessário o entendimento da dinâmica que gerou a formação do pensamento esguiano, que em parte foi responsável pela existência do Regime que, no início dos anos 1980, Golbery analisava em seus dilemas e estertores. Dessa maneira, optei por tecer uma análise dos textos de Golbery que compuseram a ‘Geopolítica do Brasil’, de como estes se enquadravam nas perspectivas de formulação da DSN e de que forma ajudaram a tornar a ESG um local por excelência de produção intelectual. Um local voltado à formulação de uma teoria geopolítica que permitiu a ambos, homens e instituição, assumirem posições de destaque no cenário político nacional e de como tais ideias se entranharam nas estruturas do Estado brasileiro. Procurei então entender qual foi o papel desempenhado pela historiografia para a construção das ideias esguianas, que acabaram, por sua vez, se constituindo elas próprias numa narrativa historiográfica dotada do personalismo inerente à Escola e de como ali eram enxergadas as questões inerentes à formação, consolidação, ocupação, projeção e defesa do espaço nacional. Chamou-me enfim a atenção, em uma análise do conjunto de ideias expostas por Golbery, a sua tentativa de conjugar dois elementos aparentemente distintos como forma de fazer funcionar sua teoria geopolítica. O primeiro deles seria a questão de conseguir que prevalecesse o interesse nacional, com base no pragmatismo inerente ao estudo dos assuntos que compunham a base teórica geopolítica para a formulação da DSN; o segundo, consiste no fato de que a sua argumentação como um todo encontrava uma fundamentação moral na ideia de defesa de um modelo civilizatório e de sua herança cultural. Estariam aí encontradas, na produção intelectual de Golbery, a tentativa de conjugar a necessidade prática e o idealismo. A ‘Geopolítica do Brasil’ O livro de 1967 era composto por uma junção de textos que surgiram de forma independente uns aos outros, compostos que foram para estudo de temas específicos em anos diversos. Dessa forma, o livro não foi escrito, mas enformado. É assim considerado uma das.
(25) 23. obras magnas da Geopolítica brasileira, e busca traçar um diagnóstico dos problemas nacionais, em termos internos e externos, preconizando soluções originadas de um planejamento ao qual Golbery devotava toda a credibilidade que pudesse ser devida a algo que tinha por ciência. A obra busca traçar um quadro plausível sobre a importância histórica e prática do conhecimento geopolítico em meio a uma situação que, em escala global era marcada por uma dicotomia política construída sob uma vasta gama de interesses que colocam em oposição as duas superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Em contrapartida ao cenário de indeterminismo das fronteiras geradas pela imposição de zonas de influência e das disputas delas derivadas, em plena Guerra Fria, Golbery apresenta o Brasil como um elemento de destaque, um espaço essencialmente ocidental, que por sua posição geográfica no contexto americano, possuiria o dote de ser um potencial integrador de regiões que guardam entre si identidades semelhantes e também dessemelhanças essenciais, mas que se unem, a despeito de eventuais conflitos de interesses, em termos políticos, culturais e econômicos, por fundamentarem-se no conceito de Mundo Cristão Ocidental. Isso transparece claramente na segunda parte da obra, que compreende quatro capítulos. Geopolítica do Brasil, publicado em 196720, tem na sua apresentação um chamado ao cuidado por parte do leitor para que esteja inserido na absorção do texto, mas, também, sintonizado com o período em que seus capítulos foram redigidos. Golbery pedia a compreensão para o fato de que, embora buscasse fundamentação em ideias cujo núcleo trabalhasse com a função de racionalizar a ação política em vista das necessidades do Estadonação, a Geopolítica, seu instrumento argumentativo, é moldada em torno de uma busca pela previsibilidade de situações que possam impactar na dinâmica da segurança de um país, o que não implica, na prática, em uma questão que possa ser definida pelo empirismo 21. (SILVA, 1981b, p.3).. 20. O livro Geopolítica do Brasil, como destacado na nota introdutória feita por Afonso Arinos de Melo Franco, foi mais um título acrescido à “Coleção Documentos Brasileiros”, iniciada em 1936 pela Livraria José Olympio Editora. A importância da coleção para as mudanças ocorridas na historiografia nacional a partir de então, é analisada na tese de doutorado de Fábio Franzini, USP, 2006. 21 Duroselle (1992, pg. 37) pensa – e isso deve ser aplicado à angústia de Golbery quanto aos possíveis erros de suas teorias geopolíticas e as possíveis críticas daí decorrentes – que a lógica matemática não se aplica ao “qualitativo” presente no elemento humano, por ser este imprevisível. Daí há também imprevisibilidade da geopolítica, derivada de um planejamento suscetível às mudanças bruscas da história..
(26) 24. A edição de 1967 foi realizada no âmbito do Regime Militar. Mas é uma obra que reproduz os conceitos estudados sobre a geopolítica brasileira em anos anteriores a esse período. Eram conceitos então ainda vigentes e derivados dos trabalhos desenvolvidos por Golbery em função dos estudos desenvolvidos na ESG. Esses textos não tiveram um uso restrito às datas em que foram escritos, como pude constatar por meio da análise dos currículos e conteúdos dos cursos proferidos na Escola no decorrer da década de 1950. Muito pelo contrário, tornaram-se um material didático sistematicamente referenciado e utilizado pelo corpo docente daquela instituição militar. São muitas as indicações dos textos de Golbery como leitura principal ou suplementar nos estudos dirigidos aos estagiários esguianos 22. O que afirmo é que os textos escolhidos por Golbery para compor o livro de 1967, na prática, refletiram um momento da história política brasileira na qual a geopolítica embasava o projeto do governo então no poder. Mas, dentro da essência da própria ESG, o pensamento geopolítico ali gestado poderia ter também valia para qualquer outro governo que se preocupasse essencialmente com os interesses do Estado. No caso dos governos militares, a teoria esguiana casou-se com aquilo que Golbery, enquanto estudioso dos problemas nacionais e das possíveis soluções para os mesmos, percebia como um fator dotado de plausível aplicabilidade, um corpo teórico revestido de argumentos simpáticos às ideias dos que viam para o país um futuro tal e qual enquadrado no projeto de Brasil Potência. A substância para o argumento reside na materialidade da obra. Não falamos aqui sobre algo constante na historiografia que existia àquela época sobre a história do país, da ESG ou mesmo do pensamento de Golbery, mas sim por documentos da sua forja, escritos por ele mesmo, derivados de uma linha de raciocínio que era inerente ao conhecimento gestado e cultivado naquela instituição militar. Quero exatamente expor como este conhecimento, em larga escala, se reproduzia nos conteúdos dos cursos dados na Escola,. A importância atribuída pela ESG aos estudos de Golbery, configurados sob a forma das palestras por ele proferidos nas dependências da Escola, pode ser medida pela constância do seu uso. Mesmo após a sua saída do corpo de adjuntos do Departamento de Estudos da ESG, em novembro de 1955, seus textos continuaram a ser usados como referência para a constituição dos Currículos seguintes, como comprovado pelo uso de “Conjuntura Nacional – Aspectos Geopolíticos”, datado de 1954 (documento C-37-54) e constante no programa de estudos para 1956, como leitura recomendada para os Ciclos I (ESG, 1956a, p. 52) e II (ESG, 1956b, p. 21) e “Planejamento da Segurança Nacional”, também datado de 1954 (documento C-83-54), recomendado para o Ciclo II (ESG, 1956b, p. 19). 22.
(27) 25. padronizando uma linha intelectual que abarcava os ocupantes dos altos escalões das Armas no Brasil. Em resumo, os textos de Golbery, além simplesmente de uma exposição teórica e detalhista dos entendimentos da geopolítica sobre o espaço nacional, colocam em evidência a conexão entre o general e a Escola, em uma relação que teve a utilidade de dar embasamento teórico àquilo que aquela instituição militar acreditava que fosse importante para a condução dos destinos do país. Aquilo que se convencionou chamar o “pensamento da ESG”, na prática apresentavase como resultado de um processo evolutivo, pois, como “centro de altos estudos” se propunha, por meio dos seus cursos e da produção intelectual deles derivada 23, a viabilizar a constituição de um corpo teórico que tinha por objetivo central o planejamento das diretrizes da Segurança Nacional, aquilo que consistiu, em termos finais, em ser um trabalho de elaboração contínua da sua Doutrina. Em 1967, ano em que foi lançado Geopolítica do Brasil, a ESG já estava a quase duas décadas debruçada sobre os problemas nacionais. No decorrer de todo esse tempo, seus integrantes tiveram de lidar com essa temática interna sem que a dinâmica geopolítica externa visse a sofrer uma alteração substancial que se refletisse na necessidade de redirecionamento das temáticas dos cursos. Dessa forma, Golbery e os muitos palestrantes que fizeram suas explanações aos estagiários da ESG chamavam constantemente a atenção para a permanência e influência do “antagonismo entre o Ocidente cristão e o Oriente comunista”, temática que imperava sobre a conjuntura mundial. (SILVA, 1981b, p.4). Tal “estabilidade” no cenário político mundial, no sentido da manutenção das tensões Leste-Oeste e suas implicações no jogo das Relações Internacionais, permitiu que os componentes dos sucessivos comandos da ESG, seu staff, Golbery entre eles, definissem os temas que por sua relevância seriam debatidos nos cursos da Escola, ano a ano, com uma razoável margem de conforto temático. Toda a organização dos cursos, aí incluídos os planos de aulas, conteúdos, palestrantes, visitas e calendários, além de um muito bem planejado esquema organizacional voltado a viabilizar a realização dos cursos, tudo era engendrado e facilitado pela lógica que. 23. A ESG publicava apostilas que continham especificamente as referências aos trabalhos publicados pelos seus estagiários no decorrer dos seus cursos..
(28) 26. estruturava a composição do quadro dos temas que ali seriam objeto de estudos, debates e respostas, de acordo com o definido pelo comando. A criação da ESG em 1948, deu abrigo físico à ideia da necessidade de dotar o Estado brasileiro de um local específico de formulação e difusão de conhecimentos focados na resolução das grandes questões nacionais. Nesse sentido, o trabalho desenvolvido na Escola excedia em muito os limites impostos por eventuais políticas de governo, devendo, portanto, ser entendido como a expressão de um trabalho destinado a garantir que se realizassem as aspirações nacionais baseadas num meticuloso planejamento de políticas de Estado. Para entender como se desenvolveu tal dinâmica procurei restabelecer a ordem cronológica dos textos de Geopolítica do Brasil, porque isso me ajudaria a compreender a evolução do pensamento geopolítico de Golbery e, por outro lado, buscar referências entre os seus textos e os cursos ocorridos na Escola entre 1952 e 1960. Outra questão a ser debatida seria a atribuição ou não de autonomia ao pensamento geopolítico por ele elaborado. Dessa forma, visei trabalhar a ESG enquanto locus de produção do conhecimento geopolítico, que refletia uma continuidade de um processo de produção de saberes sobre o espaço nacional que encontra suas raízes nos séculos XVIII e XIX, sob a forma de instituições que, como a ESG, operavam com autonomia no sentido de produzir uma visão de Brasil e de mundo para o Estado. Tal visão compreendia a imediata apreensão da historiografia sobre a geopolítica brasileira, que colocou em relevo a atuação de homens e instituições que se fizeram presentes no processo de construção de uma narrativa sobre a formação do espaço nacional e sobre a projeção internacional do Brasil, tanto para a América quanto para o mundo. Os indivíduos e instituições referenciados nos cursos esguianos possuiriam, como elemento comum, o fato de terem sido de alguma forma ligado ao Estado – inicialmente português, depois brasileiro – atuando, portanto, em prol do Estado-Nação e pautando suas iniciativas no sentido de realização de um trabalho que gerasse um resultado perene e atemporal, fugindo dessa forma da ideia de imediatismo dos objetivos traçados por governos que estivessem no poder. O objetivo seria, então, um projeto de Estado-Nação fomentado pelo planejamento e racionalidade sobre os atributos e usos do espaço nacional, em suas potencialidades e demandas, em uma construção de um saber geopolítico que foi anterior, inclusive, ao advento da própria Geopolítica enquanto campo do conhecimento. Quando tal corpo teórico já se encontrava consolidado, em meados do século XX, seria o elemento catalisador usado pela ESG como instrumento de continuidade do trabalho já há muito iniciado e desenvolvido por.
(29) 27. outros atores, a essa altura já históricos, como Gusmão, Rio Branco, Cortesão ou mesmo o IHGB, a SENE24 e o MRE. Fechou-se assim, no meu entendimento, um circuito de produção. A formulação de uma Doutrina de Segurança Nacional tem por base a realização dos ONPs, ou seja, o desenvolvimento e a integração do território tendo em vista a manutenção de uma ordem interna e suas relações com o cenário internacional. Para isso se casaram, na produção intelectual esguiana, a Geopolítica e a historiografia sobre a formação do espaço nacional e suas relações exteriores, utilizadas para embasamento dos argumentos teóricos geopolíticos, o que resultou inclusive na construção de uma historiografia própria à ESG, usada na composição dos textos que compuseram seus sucessivos currículos. Dessa forma, foi construída uma narrativa que objetivava significar as relações existentes entre a Geopolítica ali gestada e a história política ali tratada e dali derivada. A definição do nosso objeto de estudo deu-se a partir da percepção da importância assumida pela Geopolítica no que diz respeito à sua instrumentalização como elemento teórico capaz de definir as diretrizes do Estado brasileiro. Nesse sentido, os estudos geopolíticos, no nosso entender, foram alçados a um nível até então inédito no Brasil no que diria respeito a uma atuação institucional, no caso da ESG, que obedecendo aos objetivos aos quais de propunha, deu a orientação necessária às estruturas estatais para que se comportassem dentro dos parâmetros traçados por essa modalidade do conhecimento. Este trabalho tem por objetivo principal tentar compreender como o raciocínio em torno da Geopolítica pôde se organizar. Busquei explicar que a ESG funcionou como o espaço dedicado à continuidade da construção de uma teoria geopolítica brasileira, na medida em que a produção intelectual ali realizada extrapolava os limites do conhecimento produzido por autores clássicos, fossem europeus ou norte-americanos. Antes, os utilizava como referências, agregando-os aos temas ali elencados, sob uma abordagem especificamente voltada à realização dos objetivos nacionais. Na ESG a Geopolítica era produzida cotidianamente, curso após curso, ano após ano, tornando-a um locus específico, um local de produção de pensamento ao qual somente pessoas escolhidas pertenciam, dentro de uma lógica que definia, por uma questão de interesses e. 24. Ver “Enformando a Nação”, Peixoto, 2011, p. 11 a 48..
(30) 28. prioridades de Estado, que conteúdos seriam ali abordados e trabalhados, tudo dentro da ideia de consecução de um conhecimento que pudesse ser aproveitado pelo Estado brasileiro. Para conseguir tal intento, da compreensão do raciocínio que organizou a geopolítica esguiana, busquei esquematizar a análise empreendida sobre a organização dos programas curriculares da Escola que se enquadraram no período aqui estudado. Busquei identificar como isso era planejado de forma a haver um processo de construção continuada do conhecimento geopolítico, ano após ano. Isso feito, busquei mapear os assuntos estudados na ESG e de como eles se articularam com o pensamento de Golbery, expresso nos textos que compuseram o livro Geopolítica do Brasil, de forma que ficassem claros os paradigmas esguianos e de que forma se agregavam aos cenários nacional e internacional daquela época. Paralelamente, busquei demonstrar como a construção de uma ideia de Segurança Nacional se fez acompanhar de um elaborado argumento historiográfico. Por meio da ESG, o Estado brasileiro se valeu de um conhecimento geopolítico que determinava os liames dos ONPs, que serviam para definir a política interna e pensar a política externa. Ao mesmo tempo se apontava que a formação histórica do Brasil se fez como parte desses liames. São constantemente utilizadas as referências a elementos que considero conjunturais aos pensamentos da ESG e de Golbery, quais fossem o pan-americanismo, a projeção exterior, o combate ao comunismo, o choque de civilizações ou a herança lusitana como elemento de integração nacional, os quais serão abordados no momento oportuno. Nesse sentido, defendo que o pensamento de Golbery dialoga com a produção de outros autores que palestraram na ESG, contemporâneos ao período constante na organização cronológica do livro de 1967, Geopolítica do Brasil. Minha inserção no Programa de Pós-graduação em História da UFRN A linha de pesquisa "Cultura, Poder e Representações Espaciais", à qual foi agregado o presente projeto, se justifica na medida em que entendo a ESG como um espaço (grifo nosso) privilegiado dentro do Exército voltado à produção de conhecimentos (na definição, um centro de altos estudos) que formulou uma estrutura curricular fundada em um conhecimento geopolítico e, portanto espacial e espacializante que foi responsável pela formação intelectual e ideológica das Forças Armadas e de segmentos ditos elitistas do corpo do Estado e da sociedade civil de uma forma geral. O conjunto do conhecimento produzido naquela instituição é por mim entendido sob a ótica das representações dos interesses contidos em um determinado "espaço social", onde os interesses corporativos e sociais se expressam por meio de elementos de diferenciação, os "capitais", valores simbólicos, assim elencados na sociologia de Pierre Bourdieu. Na minha.
Outline
A ‘Era da Angústia’
A maturação do Exército e a fundação da ESG
A DINÂMICA ESTANDARDIZANTE DO CURSO SUPERIOR DE GUERRA
O Curso de 1954
ASPECTOS GEOPOLÍTICOS DO BRASIL
O Brasil na Guerra Fria
O Comunismo
A frutificação perigosa
Dois pólos da segurança nacional na América Latina
As ameaças (hemiciclo interior)
Documentos relacionados