11 DE 1952 A 1960, ASPECTOS GEOPOLÍTICOS DO BRASIL
11.5 O Comunismo
Quatro anos depois da fala de Juarez Távora, Roberto Assumpção (1958, p. 3) discursou no sentido de analisar os fatores principais a serem considerados naquele ano de 1958 e suas relações com os EUA, com o Bloco Ocidental e a América Latina. O exame, então, do “Panorama Mundial da Atualidade” tinha por finalidade dotar de informações sobre a conjuntura internacional visando embasar “os trabalhos de Planejamento do Fortalecimento do Potencial Nacional, observados o interesse do Brasil, a posição do Brasil, as aspirações do Brasil”.
A Guerra Fria determinara posicionamentos determinados pela bipolarização, por ser um conflito essencialmente de caráter ideológico, mas trouxe também, embutido na realização da Conferência de Bandung, em 1955, uma grande adesão a uma posição de neutralidade, uma terceira posição, portanto. Para Assumpção (1958, p. 4), tal posicionamento era também um reforço ao princípio da “coexistência pacífica”, que ele aponta como uma ideia surgida em meio ao processo da Revolução Bolchevique, de novembro de 1917, na Rússia. À ESG ele expôs que naquele processo histórico
o antagonismo entre os dois sistemas ideológicos tornou-se irreprimível. Formulou-se, ou melhor, reformulou-se Lenine, segundo o pensamento de Engels (carta a Kautsky em 1882), nos seguintes termos: “É possível o desenvolvimento e a coexistência simultânea de nações que adotam sistemas econômicos diferentes sem que seja indispensável o recurso à guerra entre esses sistemas antagônicos para impor em ao adversário suas características peculiares.” (ASSUMPÇÃO, 1958, p. 4)
Era apontado na mesma exposição, que o Brasil já tinha delimitada a sua própria conceituação de coexistência, a qual encerraria seus princípios, segundo as palavras do então presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, nos “propósitos das nações democráticas, seguras possibilidades de pacificação que jamais serão abandonadas”183. O problema, para a ESG, é que a coexistência com o bloco comunista estava longe de ser visto como pacífico.
Dessa forma, em palestra proferida na ESG em 29 de outubro de 1954, Golbery expôs uma apaixonada crítica ao modelo esquerdista de condução das sociedades. Nesse sentido, aparece em relevo o fato de que a construção das diretrizes geopolíticas na ESG obedecia a uma linha de pensamento que, com ênfase no anticomunismo e na defesa dos valores sociais, culturais e econômicos do mundo ocidental, padronizava a formação dos estagiários em torno de uma visão de mundo essencialmente direcionada à postura de fortalecimento da posição do país nos quadros de uma aliança que tinha os EUA como expoente.
O mundo comunista era dito, então, como pautado por um “intervencionismo estatal polimorfo e prepotente”, meio usado para o domínio da sociedade por “uma minoria fanatizada” que apoiava uma elite partidária184 que se impunha pelo terror e pela disseminação da ideia de que possuiria a “onisciência e a incorruptibilidade como qualidades incontestes”, anulando-se, por meio do uso intensivo da propaganda185, “a vontade individual e a consciência do povo”. Ele criticava também o modelo socialista de condução da economia, marcada pelo dirigismo e pela supressão da iniciativa privada, por meio de iniciativas que visavam o rígido controle do processo econômico por um imenso e autoritário aparato burocrático (SILVA, 1954, p.10-11).
183 Conforme Mensagem de 1957 ao Congresso Nacional de Sua Exa. O Senhor Presidente da República, página
58. Ver Assumpção, 1958, p. 6.
184 O Desembargador Ary de Azevedo Franco, então Presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal,
palestrou à ESG em 3 de agosto de 1955 sobre a Organização Político-Partidária Brasileira. Comentando sobre a estrutura do “partido único”, característica dos regimes socialistas, o definia como um fenômeno inerente às ditaduras do século XX, caracterizando-o como fundamentado na ideia de imposição de um sistema político que objetiva o monopólio ideológico sobre a sociedade, que assim perderia a liberdade de escolha e de ação política. (FRANCO, 1955, p. 4).
185 A “propaganda totalitária” foi alvo da análise de Hannah Arendt, ao descrever o “movimento totalitário”.
Segundo a autora, a propaganda é útil para que seja estabelecido o domínio absoluto sobre a sociedade. Isto feito, é substituída pela doutrinação, como caminho para validação das “suas mentiras ideológicas e às suas mentiras utilitárias”. Arendt, 2012, p. 474.
Estava expresso ali seu temor ao totalitarismo186, ao “Leviatã187 monstruoso que em sua soberania prepotente despejará a todos de qualquer partícula de liberdade e poder”, e que deveria levar a uma reação. De forma que esta não resultasse em uma desordem institucional e social, uma “anomia”, como definia Golbery, o levava a concluir seu raciocínio prescrevendo a formulação, “em termos precisos e seguros”, de “um planejamento democrático” que abrisse caminho para a paz social e o progresso. (SILVA, 1954, p.12)
No entanto, cabe-me ressaltar que os textos que analisam o comunismo buscam sempre fornecer aos alunos da ESG um quadro histórico bem traçado, mediante a análise dos teóricos, das ideias desenvolvidas e dos processos históricos derivados da difusão das ideias esquerdistas. Leite Filho (1954, p.6-7) chamava a atenção, usando o exemplo da Rússia de 1917, da ação efetiva do “revolucionário profissional”, o integrante do Partido, devidamente devotado à figura do líder, “devotado, sem outra atividade que o prenda, se for necessário, ou à qual deva obrigações suscetíveis de distraí-lo da sua atividade revolucionária”. A ação empreendida por uma massa de agitadores profissionais e potenciais, uma espécie de “vanguarda do proletariado”, seria a chave para o sucesso da “fórmula da revolução de minoria, revolução jacobina de uma vanguarda esclarecida e valente, que arrasta atrás de si as massas”, origem, portanto, “de toda a degeneração totalitária188 do Estado soviético e do caráter funcionalmente antidemocrático do movimento comunista”.
Os regimes de partido único possuiriam uma característica que, na prática, desvirtuam aquilo que, “segundo o marxismo clássico” deveria constituir a base para uma “forma superior de democracia”. Dessa maneira, segundo Leite Filho (1954, p.7), houve a transformação da “ditadura do proletariado em uma ditadura sobre o proletariado”, o que seria perceptível pela existência de uma “ditadura totalitária de uma burocracia irresponsável”.
Fazendo uma citação à revolucionária Rosa Luxemburgo e às críticas que ela fez ao processo revolucionário soviético, ele apresentou um texto no qual ela vaticinava o que seriam
186 Duroselle comentou sobre aquilo a que se referiu como “espasmos”, a ambição que ataca “periodicamente”
algumas grandes comunidades de homens e que os incita a impor, voluntariamente ou obrigados, a vontade ao resto do mundo”. Era uma veemente crítica aos regimes totalitários, que a tudo e a todos queriam subordinar ao objetivo supremo. Observe-se que a conotação do termo “totalitário” voltada ao sentido universalista, como seria a ambição da extensão dos regimes comunistas ao mundo inteiro. (1992, p. 141)
187 O Estado hobbesiano, conforme Golbery.
188 Golbery acreditava que o autoritarismo inerente aos regimes políticos comunistas tenderia a uma maximização
do Poder Nacional, o que na prática um desvirtuamento da ideia de que seja ele um instrumento de uma ação
os regimes totalitários no poder, derivados da disseminação de uma determinada “tática socialista” de ação recomendada ao proletariado internacional. Rosa Luxemburgo fazia a denúncia “do exercício da ditadura e a ausência de democracia no regime soviético nascente”, denunciando a centralização de poder nas mãos dos sovietes, tornados então a “única representação verdadeira das massas laboriosas”. Em um regime onde “só a burocracia permanece como o elemento ativo”, onde inexistem eleições gerais, liberdade de imprensa e de reunião, haveria o colapso da vida “em todas as instituições públicas”. Tal conjunção de fatores traria, “inevitavelmente, a brutalização da vida pública”. (Ibidem, p. 12)
Cumpriria à elite presente à ESG no Curso Superior de Guerra de 1954 compreender as condições gerais que possibilitariam o sucesso de uma revolução comunista. Era necessária uma ação que viesse a evitar o recrudescimento de problemas sociais e econômicos que agravassem os conflitos sociais e que resultassem no desenvolvimento das “condições objetivas e subjetivas” presentes na deflagração de um processo revolucionário. Isso seria fatal diante da existência de um governo fraco. Tal e qual destacadas por Leite Filho (1954, p.21), essas condições, seriam
a) Objetivas, resultantes das dificuldades enfrentadas pelas massas a partir dos maus resultados apresentados por uma determinada conjuntura econômica;
b) Subjetivas, derivada do “grau de organização das massas e do nível da sua consciência política”, orquestradas pela ação do partido, que em última instância as incentivaria à luta em prol da revolução.
Para o autor, “o partido da revolução de massas passou a ser um partido de golpes de Estado. O comunismo é hoje uma mera teoria pura da conquista do poder, do mesmo modo que o fascismo”. (Ibidem, 1954, p.22).