• Nenhum resultado encontrado

Download/Open

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Download/Open"

Copied!
169
0
0

Texto

(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. Thiago Rafael Englert Kelm. PAUL TILLICH E O PENSAMENTO FENOMENOLÓGICOCRÍTICO. São Bernardo do Campo 2017.

(2) Thiago Rafael Englert Kelm. PAUL TILLICH E O PENSAMENTO FENOMENOLÓGICOCRÍTICO. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro.. São Bernardo do Campo 2017.

(3) A dissertação de mestrado sob o título “Paul Tillich e o pensamento fenomenológico-crítico”, elaborada por Thiago Rafael Englert Kelm, foi apresentada e aprovada com louvor em 15 de agosto de 2017, perante banca examinadora composta pelos professores Doutores Cláudio de Oliveira Ribeiro (Presidente/UMESP), Etienne Alfred Higuet (Titular/UEPA) e Rui de Souza Josgrilberg (Titular/UMESP).. __________________________________________ Prof. Dr. Cláudio de Oliveira Ribeiro Orientador e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Linguagens da Religião Linha de Pesquisa: Teologias das Religiões e Cultura.

(4) para Diani Lange.

(5) AGRADECIMENTOS Usar palavras é limitar a imensa gratidão que tenho a cada pessoa que caminhou comigo na construção deste trabalho. A estas pessoas quero escrever meus mais sinceros e profundos agradecimentos. Agradeço... À minha esposa Diani Lange, pela compreensão, apoio e por se tornar desde o início desta pesquisa meu incentivo constante. Obrigado pelas palavras, olhares e sorrisos que me deram forças em momentos de desânimo. Aos meus pais Noeli Kelm e Mario Osmar Englert e ao meu irmão Carlos Daniel Englert Kelm, pela demonstração de amor e carinho e pelo voto de confiança em minhas andanças acadêmicas. Ao Gilmar Romualdo Somacal por apoiar a iniciativa do mestrado e contribuir para sua realização. Ao Prof. Dr. Cláudio de Oliveira Ribeiro, pela paciência exemplar, e ajudas decisivas que criaram condições de enriquecimentos da pesquisa. Dele nunca faltou constante apoio, e bom ânimo em caminhar comigo o percurso deste trabalho, e a amizade que foi além da relação orientador-orientando. Ao Prof. Dr. Etienne Alfred Higuet, pela inspiração na pesquisa e ajuda com as obras de Tillich, especialmente pelas discussões e ideias no grupo de pesquisa Paul Tillich que foram fundamentais para o desenvolvimento desta pesquisa. Aos professores Dr. Helmut Renders e Dr. Rui de Souza Josgrilberg pelos comentários enriquecedores e desafiadores na ocasião da qualificação. Ao Roberto Carlos Porto pelas leituras da pesquisa, sugestões e pela ajuda com as traduções e revisões dos textos em alemão. Ao Fábio Henrique de Abreu, Giovanni Catenaci e Vitor Chaves de Souza pelas conversas, provocações e questionamentos que contribuíram sobremaneira para o desenvolvimento e fundamentação deste trabalho. À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) pela bolsa integral de mestrado e financiamento de todo o projeto..

(6) “La filosofía es una reacción al misterio de la realidad, concretamente al de la vida humana y su destino” (Miguel de Unamuno) “E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi” (Renato Russo).

(7) RESUMO A presente pesquisa tem por objetivo analisar de que maneira o teólogo e filósofo Paul Tillich (1986-1965) aplicou a fenomenologia na elaboração de sua própria teologia e quais as implicações disso para o método teológico. Em sua Teologia Sistemática, Tillich desenvolve o método chamado de fenomenologia crítica e afirma ser este o mais adequado para a análise dos conceitos teológicos. Entretanto, a presença da fenomenologia no pensamento tillichiano é anterior à sua TS. Durante o período que vai do fim da Primeira Guerra Mundial até os últimos anos de 1920, Tillich assume uma postura revisionista em relação ao seu período inicial e estabelece importantes diálogos com a escola fenomenológica, principalmente a de Edmund Husserl. Esses diálogos se tornam evidentes na apropriação que o teólogo faz da teoria da intencionalidade da consciência e da intuição das essências. Entretanto, Tillich se apropria da fenomenologia husserliana de maneira crítica e rejeita, como o próprio teólogo afirma, o realismo a-histórico adotado por Husserl. Para Tillich, forma e substância são indissociáveis e nesse sentido torna-se necessário um método que valorize ambos os polos. É neste contexto que o teólogo propõe a união de um elemento crítico à fenomenologia pura, e mais tarde em sua TS, a ideia de uma fenomenologia crítica. A união entre os elementos crítico e intuitivo no pensamento de Tillich se constitui como o fundamento e também o aspecto inovador de sua fenomenologia. Compreender esta apropriação que o teólogo faz da fenomenologia é fundamental para um entendimento rigoroso da totalidade de seu trabalho assim como para apreender as possibilidades de aplicação que seu método fenomenológico possui para a atualidade. Palavras-chave: Paul Tillich. Fenomenologia. Intencionalidade. Crítico. Intuitivo..

(8) ABSTRACT This research aims to analyze the way that the theologian and philosopher Paul Tillich (19861965) applied the phenomenology in the elaboration of his own theology and which are the implications of this for the theological method. In his Systematic Theology, Tillich developed the method called critical phenomenology and stated this is the most appropriate method for the analysis of the theological concepts. However, the presence of phenomenology in the tillichian thoughts is previous of his ST. During the period since the ending of the First World War until the last years of the 1920, Tillich took over a revisionist stance in relation to his previous period and established important dialogs with the phenomenological school, mainly the school of Edmund Husserl. These dialogs became evident in the appropriation of the intentionality of conscious and the intuition of essences did by the theologian. Nevertheless, Tillich appropriated of the husserlian phenomenology in the critical way and he rejected, as the theologian has claimed, the ahistorical realism adopted by Edmund Husserl. For Tillich, the form and substance aren’t dissociable and therefore becomes necessary a method which values both poles. In this context, the theologian proposed the union of a critical element to the pure phenomenology, and later, in his ST, the idea of a critical phenomenology. The union of the critical and intuitive elements in the Tillich thought constitutes as the basis and the innovator aspect of his phenomenology. Comprehend this appropriation of the phenomenology by the theologian is fundamental for a rigorous understanding about the totality of his work as well as the possibilities to application of his phenomenological method for the current days. Key-words: Paul Tillich. Phenomenology. Intentionality. Critical. Intuitive..

(9) SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................................................11 CAPÍTULO 1 – A RECEPÇÃO DA FENOMENOLOGIA NO PENSAMENTO TEOLÓGICO DE PAUL TILLICH ............................................................................17 1.1. Época de guerras: o período revisionista de Paul Tillich ...................................18 1.2. A teoria da intencionalidade da consciência de Edmund Husserl .....................24 1.3. Contatos com a escola fenomenológica e a apropriação da noção de intencionalidade da consciência ..........................................................................................................30 1.3.1. Carta a Richard Wegener e os primeiros contatos com a escola fenomenológica ......................................................................................................................30 1.3.2. Carta a Emanuel Hirsch e os contornos gerais de uma teoria do sentido absoluto (Urständliche) em diálogo com a fenomenologia ........................................31 1.3.3. O curso sobre filosofia da religião de 1920 e a apropriação do termo visar (Meinen) como ato intencional da consciência ............................................................35 1.4. Aplicações da intencionalidade da consciência na fundamentação do conceito de religião ......................................................................................................................37 1.4.1. A teoria do sentido em Tillich como pano de fundo de sua recepção da fenomenologia ..............................................................................................37 1.4.2. O sentido incondicional como experiência religiosa imediata .....................40 1.4.3. O conceito de religião como direcionamento intencional da consciência ....46 1.4.4. Apontamentos sobre a noção de religião como preocupação última nos escritos posteriores ao período revisionista de Paul Tillich.......................................51 CAPÍTULO 2 – OS ELEMENTOS INTUITIVO E CRÍTICO COMO EPICENTRO DA FENOMENOLOGIA CRÍTICA ..................................................................................56 2.1. Críticas de Tillich ao método fenomenológico e a proposta de união entre os elementos intuitivo e crítico ......................................................................................................56 2.1.1. O contexto da crítica: uma análise sobre os métodos da filosofia da religião56 2.1.2. Crítica ao método fenomenológico ..............................................................61 2.1.3. A proposta de união entre os elementos intuitivo e crítico ..........................68 2.2. O método crítico-intuitivo ......................................................................................71 2.3. O método metalógico ..............................................................................................79 2.4. O método fenomenológico-crítico .........................................................................88 2.5. O caso especial do curso do verão de 1962 ...........................................................98 2.6. A abordagem ontológica no contexto da fenomenologia crítica .......................103 CAPÍTULO 3 – IMPLICAÇÕES E APLICABILIDADE DA FENOMENOLOGIA DE TILLICH ......................................................................................................................108 3.1. Implicações da fenomenologia na elaboração de uma Teologia da Cultura ...110 3.1.1. Relação entre Religião e Cultura ................................................................110 3.1.2. Relação entre forma e substância ...............................................................113 3.1.3. Dois estados da intencionalidade da consciência e a distinção entre a potência religiosa e o ato religioso ............................................................................116 3.2. A relação entre forma e substância e os elementos intuitivo-descritivo e existencialcrítico ......................................................................................................................123 3.3. A aplicabilidade da fenomenologia crítica para a análise do fenômeno religioso126 3.4. A atitude fenomenológica no reconhecimento da religião como modos simbólicos de representação e o valor existencial do símbolo religioso ....................................143.

(10) 3.5. A fenomenologia crítica como abordagem compreensiva do fenômeno religioso147 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................155 REFERÊNCIAS ..........................................................................................................163.

(11) 11. INTRODUÇÃO. O teólogo e filósofo Paul Tillich (1886-1965) é um pensador de fronteiras. Esta é uma característica que marca não apenas sua trajetória de vida como também todo seu percurso acadêmico. O autor comenta em sua autobiografia intitulada “Na fronteira: um esboço autobiográfico” (On the boundary: an autobiographical sketch) que o conceito de fronteira se constitui como um símbolo adequado para toda sua evolução pessoal e intelectual. Nesse sentido, entender o pensamento desse autor não é uma tarefa fácil, já que se trata de um pensamento original, sofisticado e marcado pela interlocução com diversas áreas do conhecimento. Mesmo como teólogo cristão, sua teologia é caracterizada por uma postura menos unívoca do cristianismo e que vai numa direção horizontal da religião, abrindo um leque de possibilidades de diálogo com outras formas de pensamento, entre elas, a fenomenologia. Tillich dialogou com a fenomenologia filosófica e também foi influenciado por ela. O contato dele com esta escola, em especial a de Edmund Husserl, aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, um momento histórico que deixou marcas profundas em sua vida e pensamento. A experiência de guerra revelou um abismo na existência humana que não podia ser ignorado, e sob este impacto, a filosofia romântica do século XIX e o idealismo teológico que marcaram a primeira fase do pensamento do teólogo foram profundamente abaladas. Nessa época, o autor assume uma postura revisionista em relação ao seu período inicial, e como ele mesmo relata, este processo aconteceu em um diálogo crítico com o neokantismo, a filosofia do valor e a fenomenologia. A presença da fenomenologia no pensamento de Tillich após este período foi intensa. O teólogo não apenas fez uso de alguns postulados da escola fenomenológica, como também desenvolveu uma versão própria do método. A aproximação de Tillich com a fenomenologia de Husserl se deu de maneira crítica, e nesse sentido, o mais importante em Husserl para Tillich foi a teoria da intencionalidade da consciência e a intuição das essências. É em torno destes dois elementos que os primeiros contatos do autor com a fenomenologia aconteceram..

(12) 12. A noção de intencionalidade do ato da consciência se torna um elemento importante para entender o pensamento de Tillich, principalmente em seu período revisionista1. Essa teoria será aplicada pelo teólogo na fundamentação de seu conceito de religião, que passa a ser descrito a partir de então como intencionalidade dirigida ao sentido incondicionado. Da mesma forma, para dar conta dessa experiência intencional da consciência, o teólogo emprega um segundo elemento oriundo da fenomenologia de Husserl, a saber, o elemento intuitivo, que, para o autor, possibilita intuir a essência e as qualidades da religião em qualquer manifestação religiosa. Tillich valoriza, portanto, o caráter rigoroso e radical da intuição das essências na exigência do esclarecimento de sentidos e percebe, a partir disto, as possibilidades dessa contribuição na esfera das análises do fenômeno religioso. Entretanto, a pesquisa que ora se apresenta procurará mostrar que na visão de Tillich falta à fenomenologia pura de Husserl um elemento crítico, que permita também a valorização dos aspectos concretos e existenciais da experiência religiosa. Dessa forma, o teólogo soma ao elemento intuitivo-descritivo um elemento existencial-crítico e desenvolve a partir daí uma fenomenologia crítica. A união destes elementos constitui os fundamentos e também o aspecto inovador da fenomenologia tillichiana. Com este método, torna-se possível, segundo o autor, e, como também será apresentado, abordar o fenômeno religioso tanto em seus aspectos essenciais quanto em seus aspectos concretos e existenciais. Estes dois elementos estão correlacionados e estabelecidos numa tensão. Tendo isso em conta, é possível perceber que a fenomenologia no pensamento de Tillich não se limita a sua fenomenologia crítica, e tampouco aparece apenas como método em teologia. A presença da fenomenologia pode ser percebida no pensamento do autor desde seu período revisionista, quando ele fala em intencionalidade da consciência em direção ao sentido incondicional e na necessidade de um método intuitivo para dar conta dessa experiência intencional. É com base nestas formulações iniciais que Tillich vai falar mais tarde em sua Teologia Sistemática (TS) de uma fenomenologia crítica. No entanto, até mesmo essa fenomenologia crítica desenvolvida em 1951 se apresenta como o resultado de um método que. 1. O percurso acadêmico de Tillich pode ser dividido de várias formas. A pesquisa adotou as análises que o dividem em três momentos. A recepção entusiástica do idealismo de Fichte e Schelling que marca profundamente seu período de formação e se estende até o final da Primeira Guerra Mundial. Um segundo momento que vai deste acontecimento até os últimos anos da década de vinte em que o autor assume uma postura revisionista em relação ao seu período anterior e passa a reformula-lo na forma de uma nova teoria do sentido, e posteriormente um período marcado por questões ontológicas, mas que conserva a teoria do sentido, que vai dos anos vinte até a Teologia Sistemática nos anos de 1950 e 60 (DANZ, 2009, p. 173)..

(13) 13. já vinha sendo desenvolvido muito antes por ele em termos de método crítico-intuitivo (1920) e metalógico (1923), e posterior à fenomenologia crítica, em termos de método intuitivo-crítico (1962) No entanto, entre as pesquisas que envolvem o pensamento de Paul Tillich, principalmente em solo brasileiro, são poucas aquelas que discutem sobre o assunto ou que fazem um uso instrumental de seu método, tal como acontece com outros temas do teólogo como o Reino de Deus, Kairos, Princípio protestante, Correlação, etc. Existe, portanto, uma escassez de discussões sobre o lugar da fenomenologia no pensamento de Tillich e a maneira como o teólogo aplicou, seja explicita ou implicitamente, a fenomenologia na elaboração de sua própria teologia. O mesmo se dá com as possibilidades de aplicação de seu método fenomenológico para a análise do fenômeno religioso na atualidade. Diante disso, esta pesquisa se propõe a abordar o tema a partir de três hipóteses: A primeira delas é que a fenomenologia em Tillich aparece de duas formas. Primeiro na apropriação que o autor faz da teoria da intencionalidade da consciência de Edmund Husserl para fundamentar seu conceito de religião, e segundo, na apropriação do elemento intuitivodescritivo para fundamentar seu próprio método fenomenológico-crítico. A segunda hipótese desta pesquisa é que o método fenomenológico-crítico, trabalhado pelo teólogo na primeira parte de sua TS pode ser compreendido como correlato aos métodos crítico-intuitivo e metalógico, desenvolvido pelo autor em seu período revisionista. A terceira e última hipótese desta pesquisa é que a fenomenologia crítica, tal como aplicada pelo autor na elaboração de sua TS e no contexto de sua filosofia da religião, pode ser usada de maneira instrumental para a análise de fenômenos religiosos na atualidade, assim como, pode ser também situada no contexto de uma abordagem compreensiva do fenômeno religioso. Com isto, esta pesquisa pretende trazer para a discussão uma delimitação conceitual e metodológica pouco discutida e valorizada por comentadores de Tillich no contexto brasileiro. A apropriação de elementos da escola fenomenológica marca uma etapa decisiva e de intensa produção acadêmica do teólogo e que na atualidade podem se abrir para novas perspectivas analíticas e interpretativas sobre este autor e sobre a questão da fenomenologia como método de pesquisa. O método fenomenológico-crítico dele se apresenta como fundamental para um novo processo de análise que, como será visto, vem ganhando força na atualidade. Esta proposta de análise voltada para um olhar mais compreensivo do fenômeno religioso e com interesse em.

(14) 14. questões mais subjetivas da vida tem sido fortemente acolhido no âmbito acadêmico. Tillich pretende evitar reducionismos metodológicos e, portanto, propõe um método que valorize o caráter irredutível do sagrado e a dimensão subjetiva da experiência religiosa. O fenômeno religioso na perspectiva do autor é composto por uma dimensão empírica ao passo que está fundamentado em algo que transcende a situação temporal. A tensão entre estes dois polos deve ser mantida e evidenciada, este é o caminho sugerido pela fenomenologia crítica. Com isso, pretende-se mostrar que a fenomenologia crítica também aponta para a importância de uma abordagem que leve em consideração o valor da experiência do sujeito com o sagrado bem como o contexto histórico e cultural de onde os universos simbólicos são formados. Esta pesquisa se justifica também por colocar a fenomenologia crítica de Tillich como correlata aos métodos crítico-intuitivo e metalógico, elaborados por ele nas primeiras décadas do século XX. O esforço será mostrar que existem pesquisas importantes que demonstram como o método crítico-intuitivo e metalógico constituem-se essencialmente como um único método no pensamento do autor. Entretanto, não se encontrou nenhum trabalho que incluísse o método fenomenológico-crítico nessa mesma categoria. É possível que esta relação ainda não tenha sido realizada pelo fato de que enquanto os método crítico-intuitivo e metalógico encontram-se em escritos sobre filosofia da religião de Tillich, o método fenomenológico-crítico está situado no contexto de sua Teologia Sistemática. Entretanto, isto não anula as possibilidades de tal relação, ao contrário, apenas demonstra a importância que este método possui para o pensamento do autor. Se a fenomenologia crítica for considerada como correlata aos métodos anteriores desenvolvidos pelo autor, então pode-se dizer também que esta proposta metodológica não se limita ao contexto teológico, mas pode ser usada também para abordar a questão da religião em perspectiva filosófica. Dessa forma, o objetivo central desta pesquisa é analisar de que maneira Tillich aplicou a fenomenologia, em especial a noção de intencionalidade da consciência e o elemento intuitivo-descritivo, na elaboração de sua teologia, e quais as implicações disso para o método e saber teológico. Este questionamento inicial se desdobra, por sua vez, em três objetivos específicos, que estruturam a pesquisa. São eles: (1) Apresentar o contexto do período revisionista do autor a partir de uma análise de seus textos autobiográficos e analisar a recepção da fenomenologia, especialmente a de Husserl, com o foco na teoria da intencionalidade da consciência como elemento estruturante na reformulação de sua teologia. (2) Analisar os desdobramentos do contato de Tillich com o método fenomenológico presente na crítica do teólogo à escola fenomenológica e na posterior elaboração de uma proposta metodológica.

(15) 15. construída sobre uma base crítica e intuitiva, bem como analisar em que medida os métodos crítico-intuitivo e metalógico podem ser compreendidos como correlatos ao método fenomenológico-crítico. (3) Analisar o conteúdo fenomenológico e suas implicações no pensamento teológico do autor expressos nos modos em que religião e cultura se relacionam, e identificar de que maneira a co-dependência entre religião e cultura na dinâmica da experiência religiosa aponta para as possibilidades de aplicar a fenomenologia crítica para a análise do fenômeno religioso na atualidade. Para alcançar os objetivos propostos, a pesquisa seguirá metodologicamente três passos: Primeiro, analisar os contatos iniciais do autor com a escola fenomenológica, seu posicionamento crítico e os elementos teóricos que foram apropriados e aplicados na elaboração de seu pensamento, tendo como fonte de pesquisa o material teórico da época como cartas, livros e cursos ministrados. Segundo, refletir a fenomenologia crítica do autor a partir de suas considerações ao método fenomenológico e daqueles métodos que a precederam, como o crítico-intuitivo e o metalógico. Terceiro, identificar as implicações da fenomenologia no saber teológico do autor, como na formulação dos modos como religião e cultura se relacionam, bem como as possibilidades de aplicação de seu método fenomenológico para análise do fenômeno religioso na atualidade. Para tanto, a pesquisa será dividida em três capítulos: No primeiro, A recepção da fenomenologia no pensamento teológico de Paul Tillich, o objetivo será analisar como se deu a recepção da fenomenologia no pensamento do autor. De acordo com ele, os anos de guerra deixaram marcas profundas em sua vida e pensamento. É neste contexto que Tillich assume uma postura revisionista em relação ao seu período anterior e estabelece importantes diálogos com a escola fenomenológica. As primeiras expressões desse diálogo podem ser observadas em cartas que o teólogo escreve durante os anos de 1917-1918 em que comenta sobre seu crescente interesse pela fenomenologia. O segundo capítulo, Os elementos intuitivo e crítico como epicentro da fenomenologia crítica, apresenta-se em que consiste a fenomenologia crítica do autor partindo de uma análise dos elementos basilares que constituem o método, a saber: os elementos intuitivo e crítico. O teólogo se apropria do método fenomenológico, mas afirma que falta a este método um elemento crítico, que valorize os aspectos concretos e existenciais da experiência religiosa. Dessa forma Tillich propõe unir o elemento intuitivo da escola fenomenológica com um elemento crítico oriundo do pensamento kantiano..

(16) 16. O terceiro capítulo, Implicações e aplicabilidade da fenomenologia de Paul Tillich, analisa quais foram as implicações da fenomenologia para o pensamento do autor e de que maneira a fenomenologia crítica deste teólogo pode ser aplicada para análise do fenômeno religioso na atualidade. A maneira em que Tillich aplica a noção de intencionalidade da consciência na fundamentação de seu conceito de religião repercutiu em sua formulação dos modos como religião e cultura se relacionam. Nesse sentido, quando a consciência se dirige para a substância da forma, encontra-se o conceito de religião e quando a consciência se dirige para as formas concretas de sentido encontra-se o conceito de cultura. Entretanto, forma e substância não podem ser separadas, não faz sentido por uma sem a outra. A dinâmica interna dos sentidos para o autor se dá necessariamente nessa relação. Entende-se, portanto, que a possibilidade de aplicar a fenomenologia de Tillich de forma prática passa necessariamente pela consideração da forma e substância. Dessa maneira, o capítulo conclui apresentando as contribuições e possibilidade de aplicação do método tillichiano para além de sua TS..

(17) 17. CAPÍTULO 1 A RECEPÇÃO DA FENOMENOLOGIA NO PENSAMENTO TEOLÓGICO DE PAUL TILLICH. O objetivo deste primeiro capítulo, como referido inicialmente, é analisar como se deu a recepção da fenomenologia no pensamento de Tillich. De acordo com ele, os anos de guerra deixaram marcas profundas em sua vida e pensamento. É neste contexto que o autor assume uma postura revisionista em relação ao seu período anterior e estabelece importantes diálogos com a escola fenomenológica. As primeiras expressões desse diálogo podem ser observadas em cartas que o teólogo escreve durante os anos de 1917 e 1918 em que comenta sobre seu crescente interesse pela fenomenologia. Neste contexto, ele se apropria da noção de intencionalidade da consciência de Edmund Husserl, e aplica este conceito na fundamentação de seu conceito de religião. Dessa forma, os primeiros contatos de Tillich com a escola fenomenológica acontecem principalmente através da teoria da intencionalidade e são fundamentais para uma compreensão rigorosa do desenvolvido do seu próprio método fenomenológico. Para alcançar o objetivo proposto, o seguinte capítulo será construído em quatro passos. O primeiro consiste em analisar os aspectos biográficos do período revisionista de Tillich, que vai do fim da Primeira Guerra Mundial até os últimos anos da década de 1920. Este passo ajudará compreender os motivos que levaram o teólogo a assumir uma postura revisionista em relação ao seu período inicial, e em torno de quais pressupostos teóricos essa revisão acontece. O segundo passo estará voltado para a própria teoria da intencionalidade da consciência de Edmund Husserl. Considerando que é em torno da teoria da intencionalidade da consciência que os primeiros contatos de Tillich com a fenomenologia acontecem, compreender em que consiste essa proposta teórica facilitará o entendimento de como o teólogo se aproximou dela. O terceiro passo da pesquisa será analisar os contatos de Tillich com a fenomenologia, e a apropriação que o teólogo faz da teoria da intencionalidade da consciência. Este item ajudará entender como a fenomenologia foi recebida pelo autor e em que medida a teoria da intencionalidade da consciência foi apropriada pelo teólogo na revisão de seu pensamento. O quarto e último passo do capítulo visará entender a aplicação que Tillich faz da teoria da intencionalidade da consciência na fundamentação de seu conceito de religião. Com este passo será possível observar qual o papel que a teoria da intencionalidade da consciência.

(18) 18. desempenha no pensamento do autor e quais foram as implicações de sua utilização para outros aspectos do pensamento dele, como a formulação dos modos em que religião e cultura se relacionam e a posterior elaboração de um método fenomenológico.. 1.1. Época de guerras: o período revisionista de Paul Tillich. Conhecer a biografia e o percurso acadêmico de Paul Tillich, embora já bem apresentadas em outras pesquisas2, é um passo importante para entender de forma mais rigorosa as inquietações e pressupostos que fundamentam seu pensamento teológico e filosófico. Nesse sentido, para cumprir com os objetivos propostos nesta primeira parte da pesquisa torna-se necessário compreender alguns aspectos biográficos do período revisionista de Tillich e que será também o contexto de seu encontro com a escola fenomenológica.3 Tillich (1886-1965) foi um pensador de fronteiras, com grande habilidade para lidar com áreas diferentes do conhecimento sempre de maneira séria e profunda. Ele entendia que para cumprir com as exigências de receptividade que o pensamento pressupõe diante das possibilidades que se abrem na vida, estar na fronteira é o melhor dos lugares para adquirir conhecimento, tanto que segundo ele, a fronteira poderia constituir um símbolo adequado para toda a sua evolução pessoal e intelectual (TILLICH, 1967 [1936], p. 13).. 2. TILLICH, Paul. On the Boundary: an autobiographical sketch [1936]. London: Collins, 1967; TILLICH, Paul. What Am I? in My search for Absolutes. New York: Simon and Shuster, 1967; TILLICH, Paul. My Travel Diary: 1936. Between two worlds. [1936]. New York: Harper & Row, 1970. PAUCK, Wilhelm; PAUCK, Marion. Paul Tillich: His Life and Thought, vol. I, Life, New York: Harper and Row, 1976; - MUELLER, Ênio. Paul Tillich: vida e obra, in MUELLER, Ênio R; BEIMS, Robert W. (org.). Fronteiras e interfaces: o pensamento de Paul Tillich em perspective interdisciplinar. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2005. CALVANI, Carlos E. B. Paul Tillich: aspectos biográficos, referenciais teóricos e desafios teológicos, in MARASCHIN, Jaci (ed.). Paul Tillich: Trinta anos depois. São Bernardo do Campo, SP: Universidade Metodista de São Paulo, 1995. RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. Teologia no plural: fragmentos biográficos de Paul Tillich. Revista Eletrônica Correlatio, São Paulo, v. 2, n. 3, p. 03-26, abr. 2003. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistasmetodista/index.php/COR/article/view/1798/1783 > ; PARELLA, Frederik. Vida e espiritualidade no pensamento de Paul Tillich. Revista Eletrônica Correlatio, São Paulo, v. 3, n. 6, p. 48-70, nov. 2004. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/COR/article/view/1764/1750>. 3. Christian Danz (DANZ, 2009, p. 173-188) propõe uma periodização do percurso acadêmico de Tillich em três momentos. A recepção entusiástica do idealismo de Fichte e Schelling que marca profundamente seu período de formação e se estende até o final da Primeira Guerra Mundial. Um segundo momento que começa no fim da Primeira Guerra Mundial e vai até os últimos anos da década de vinte em que Tillich assume uma postura revisionista em relação ao seu período anterior e passa a reformulá-lo na forma de uma nova teoria do sentido, e posteriormente um período marcado por questões ontológicas, mas que conserva a teoria do sentido, que vai dos anos vinte até a Teologia Sistemática..

(19) 19. Em sua autobiografia o autor menciona doze fronteiras e destaca uma em particular que considera mais significativa, a saber, a fronteira entre teologia e filosofia. De acordo com ele, é nesta fronteira onde se percebe com maior nitidez a situação fronteiriça a partir da qual ele tenta explicar sua vida e pensamento (TILLICH, 1967 [1936], p. 46). Quando assumiu a cátedra de Teologia Filosófica no Union Theological Seminary, nos Estados Unidos, o teólogo declarou numa conferência que nenhum outro nome se aplicaria tão bem a ele quanto o de teologia filosófica, e prosseguiu dizendo que a linha fronteiriça entre filosofia e teologia era o centro de todo seu trabalho e de seu pensamento. Tillich diz que “como teólogo procurei continuar sendo filósofo e como filósofo teólogo. Seria mais fácil abandonar a fronteira e escolher uma ou outra. Mas interiormente este caminho foi impossível. Felizmente, as oportunidades exteriores coincidiram com minhas inclinações internas”4 (TILLICH, 1967 [1936], p. 58, tradução nossa)5. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, passa a integrar o exército alemão na condição de capelão, cargo que exercerá até o fim da guerra. Quando a guerra foi anunciada, muitos jovens alemães movidos pelo fervor nacionalista se prontificaram para lutar, “Quando os soldados alemães entraram na Primeira Guerra Mundial, a maioria deles compartilhavam a crença popular em um Deus bom que faria tudo funcionar para o melhor”6 (TILLICH, 2005b [1955], p. 52). Semelhantemente, o jovem teólogo aceitou o cargo de capelão com entusiasmo, e assumiu o compromisso de lutar ao lado de outros soldados alemães. Entretanto, o autor afirma que “Não tinham se passado nem as primeiras semanas para que meu entusiasmo inicial desaparecesse. Depois de alguns meses, eu estava convencido de que a guerra seria por tempo indefinido e arruinaria toda a Europa”7 (TILLICH, 1956 [1952], p. 12). Durante a guerra, Tillich conduziu diversos momentos cúlticos sob as árvores, ou em cavernas e em trincheiras, e cultivou boas amizades entre os soldados e oficiais alemães. O período inicial da guerra foi marcado por uma atmosfera mais tensa, de espera e tédio, mas em outubro de 1915 os exércitos alemães atacaram nas proximidades de Tahure, muitos oficiais e 4. As a theologian I have tried to remain a philosopher, and vice versa. It would have been easier to abandon the boundary and to choose one or the other. Inwardly this course was impossible for me. Fortunately, outward opportunities matched my inward inclinations. 5. Todas as traduções de textos em língua estrangeira para o português, salvo quando houver menção do contrário, são nossas. 6. When the German soldiers went into the First World War most of them shared the popular belief in a nice God who would make everything work out for the best The first weeks had not passed before one’s original enthusiasm disappeared; after a few months I became convinced that the war would last indefinitely and ruin all Europe. 7.

(20) 20. inúmeros homens foram mortos e Tillich fazia o acompanhamento pastoral. Considerando esse contexto, no final de novembro de 1916, o teólogo escreve uma carta para Maria Klein. O casal Pauck, na obra Paul Tillich: His Life & Thought. Vol1: Life (1976, p. 51) a reproduz: Tenho constantemente o sentimento mais imediato e muito forte de que não estou mais vivo. Portanto, não levo a vida a sério. Encontrar alguém, tornarse alegre, reconhecer Deus, todas essas coisas são coisas da vida. Mas a própria vida não é um chão confiável. [...] Prego quase exclusivamente "o fim".... De vez em quando, supero todo o sofrimento, colando imagens em livros e trabalhando cientificamente em um sistema de ciências8.. Durante a guerra, o teólogo conta que encontrou no mundo das artes um alívio para aquele momento conturbado. A descoberta da pintura representou para ele uma experiência crucial, mesmo as pobres reproduções que se podia encontrar nas livrarias militares, possibilitaram um deleite que se tornou mais tarde num estudo sistemático da história da arte. “Fruto deste estudo foi a experiência artística; lembro nitidamente meu primeiro encontro – quase uma revelação – com um quadro de Botticelli, que teve lugar em Berlim durante minha última licença”9 (TILLICH, 1967 [1936], p. 28). A partir de algumas reflexões de caráter filosófico e teológico que seguiram estas experiências, o autor desenvolveu algumas categorias fundamentais da filosofia da religião e da cultura, a saber: forma e substância. O interesse de Tillich pela arte o aproximou bastante com a Igreja Católica Romana. De acordo com o teólogo, o profundo impacto que a arte do cristianismo primitivo da Itália exerceu sobre ele resultou numa crescente preferência pela antiga Igreja e as soluções que ela oferecia aos problemas teológicos tais como Deus e o mundo, a Igreja e o Estado, e afirma também que, o estudo da história eclesiástica, por intenso que tenha sido, jamais teria conseguido o que conseguiram os mosaicos das antigas basílicas romanas (TILLICH, 1967 [1936], p. 29). No início da guerra, Tillich era um jovem tímido, verdadeiramente um “inocente sonhador”. Era um patriota alemão, orgulhoso e ansioso por lutar pelo seu país como muitos jovens da época, mas “Quando retornou a Berlim quatro anos mais tarde, ele estava completamente transformado. O monarquista tradicional torna-se um socialista religioso, o. I have constantly the most immediate and very strong feeling that I am no longer alive. Therefore I don’t take life seriously. To find someone, to become joyful, to recognize God, all these things are things of life. But life itself is not dependable ground [...] I preach almost exclusively “the end”… Now and then I overcome all the suffering by pasting pictures into books and working scientifically on a system of the sciences. 8. And out of this study came the experience of art; I recall most vividly my first encounter – almost a revelation – with a Botticelly painting in Berlin during my last furlough of the war. 9.

(21) 21. crente cristão um pessimista cultural, e o menino puritano reprimido um ‘homem selvagem”10 (PAUCK. M e PAUCK. W, 1976, p. 41). Os anos de guerra representam um momento de transformação na vida e pensamento do autor, e, como descreveu o próprio teólogo, a Primeira Guerra Mundial foi o fim do seu período de preparação (TILLICH, 1956 [1952], p. 12)11. A trágica experiência de guerra causou fortes impactos em Tillich e foi decisiva para o rumo que sua carreira acadêmica iria tomar. Anos mais tarde numa entrevista à revista Time, Tillich faz uma afirmação que se tornou célebre: A transformação ocorreu durante a batalha de Champagne, em 1915. Houve um ataque noturno. Durante toda a noite, não fiz outra coisa a não ser caminhar entre os feridos e moribundos. Muitos deles eram meus amigos íntimos. Durante toda aquela longa e terrível noite, caminhei entre filas de gente que morria. Naquela noite, grande parte da minha filosofia clássica rui em pedaços. A convicção de que o homem fosse capaz de apossar-se da essência do seu ser, a doutrina da identidade entre essência e existência. [...] Lembrome que sentava entre as árvores das florestas francesas e lia “Assim Falou Zaratustra”, de Nietzsche, como faziam muitos outros soldados alemães, em contínuo estado de exaltação. Tratava-se da liberação definitiva da heteronomia. O niilismo europeu desfraldava o dito profético de Nietzsche, ‘Deus está morto’. Pois bem, o conceito tradicional de Deus estava mesmo morto12 (TILLICH, 1959, p. 47).. 10. When he returned to Berlin four years later he was utterly transformed. The traditional monarchist had become a religious socialist, the Christian believer a cultural pessimist, and the repressed puritanical boy a “wild man” 11. O período de preparação refere-se sobre tudo à formação do teólogo. Tillich ingressa à universidade em 1904. Durantes os anos de formação, Tillich estudou teologia e filosofia em Berlim, Tübingen e Halle. Na universidade de Halle Tillich teve contato com Martin Kahler e Fritz Medicus. O contato de Tillich com estes dois pensadores será decisivo nas inclinações acadêmicas que seu pensamento terá neste período. Kahler era um professor de teologia bastante popular na época e por quem Tillich entusiasmou-se fortemente, principalmente por suas discussões sobre a ideia bíblico-luterana de justificação. Na filosofia, Tillich recebeu orientação do professor e amigo Fritz Medicus (1876 – 1956) e por influência deste, dá início a intensos estudos sobre a filosofia de Fichte, e em agosto de 1910, Tillich profere uma palestra inaugural na Universidade de Breslau intitulada “A Liberdade como Princípio Filosófico em Fichte” (Die Freiheit als philosophisches Prinzip bei Fichte). Neste mesmo ano, Tillich conclui seu doutorado em filosofia na Universidade de Breslau, defendendo a tese sobre “A construção da história da religião na filosofia positiva de Schelling, seus pressupostos e princípios” (Die Religionsgeschichtliche Konstruktion in Schellings Positiver Philosophie, ihre Voraussetzungen und Prinzipien). Em 1912 licenciou-se em Teologia na Universidade de Halle sob a tese “Mística e consciência de culpa no desenvolvimento filosófico de Schelling” (Mystik und Schuldbewusstsein in Schellings Philosophischer Entwicklung) e em 1915, nessa mesma universidade, Tillich apresenta seu trabalho de livre-docência sobre “O conceito de sobrenatural, seu caráter dialético e o princípio de identidade na teologia Sobrenaturalista antes de Schleiermacher” (Der Begriff des Übernatürlichen, sein dialektischer Charakter und das Prinzip der Identität, dargestellt an der supranaturalistischen Theologie vor Schleiermacher). 12. But he real transformation happened at the Battle of Champagne in 1915. A night attack came, and all night long I moved among the wounded and dying as they were brought in – many of them my close friends. All that horrible, long night I walked along the rows of dying men, and much of my German classical philosophy broke down that night – the belief that man could master cognitively the essence of his being, the belief in the identity of essence and existence [...] I well remember sitting in the woods in France reading Nietzsche’s Thus Spoke Zarathustra, as many other German soldiers did, in a continuous state of exaltation. This was the final liberation from heteronomy. European nihilism carried Nietzsche’s prophetic word that ‘God is dead.’ Well, the traditional concept of God was dead..

(22) 22. Diante da guerra, grande parte do otimismo presente na cultura europeia entrou em colapso, juntamente com o tradicional conceito de Deus. Tillich havia encontrado a libertação final deste conceito no dito profético de Nietzsche: não havia mais lugar para tal conceito diante daquela realidade. De acordo com o teólogo “A consequência mais importante do símbolo da morte de Deus é a queda do sistema de valores éticos em que se baseava a sociedade. [...] A ideia quer dizer que morreu na consciência do homem a ideia tradicional do absoluto ou supremo” (TILLICH, 2010, p. 209). O autor (1967 [1936], p. 56) comenta que ficou entusiasmado com a filosofia da vida de Nietzsche, pois sua afirmação extática da existência o atraiu novamente à paixão pela vida. A ideia do Deus que faria tudo dar certo perdeu seu poder e precisa ser substituída. Pauck e Pauck (1976, p. 54) relatam outra carta de Tillich, para Maria Klein, de dezembro de 1917, onde ele escreve: “Há muito tempo que venho ao paradoxo da fé sem Deus, ao levar a ideia de justificação pela fé à sua conclusão lógica13”. Os quatro anos de guerra, relata o teólogo, “revelaram, como aconteceu com toda minha geração, um abismo na existência humana que não podia ser ignorado”14 (TILLICH, 1967 [1936], p. 52). O autor afirma que “A Primeira Guerra Mundial teve consequências desastrosas para o pensamento idealista em geral. Também a filosofia de Schelling resultou afetada pela catástrofe”15 (TILLICH, 1967 [1936], p. 52). Em meio a este caos, o teólogo assume uma postura revisionista em relação a seu período de preparação e dá início a um novo momento em seu percurso acadêmico. Tillich assume uma postura de revisão dos fundamentos de sua teologia e filosofia e como o próprio teólogo afirma, este processo aconteceu “[...] em um diálogo crítico com o neokantismo, a filosofia do valor e a fenomenologia”16 (TILLICH, 1967 [1936], p. 53). A presença da fenomenologia no pensamento do autor após este período se torna evidente. Tillich comenta numa carta para Emanuel Hirsch em 1917 que estava lidando “energicamente com a filosofia moderna”17 (TILLICH, 1983 [1917], 98-99), e afirma que “De forma mais energética possível me dediquei à lógica, a Husserl, Lotze, Sigwart, Windelband e Lask. Como nova. 13. I have long since come to the paradox of faith without God, by thinking through the idea of justification by faith to its logical conclusion. 14. revealed to me and to my entire generation an abyss in human existence that could not be ignored.. World War I was disastrous for idealistic thought in general. Schelling’s philosophy was also affected by this catastrophe. 15. 16 17. [...] in critical dialogue with neo-Kantianism, the philosophy of value, and phenomenology. habe die moderne Philosophie energisch in Angriff genommen..

(23) 23. ciência eu conheci a estética nas obras volumosas de Hartmann, Lipps, etc”18 (TILLICH, 1983 [1917], p. 99). De acordo com Danz (2009, p. 177), Tillich encontra-se, neste período, dialogando com os principais representantes do debate contemporâneo sobre as teorias do sentido, e de maneira especial com o neokantismo e a fenomenologia. É nesta atmosfera que a reformulação de seu pensamento se constrói. Para Danz, esta fase demarca o momento em que Tillich começa a desenvolver sua teoria idealista neokantiana do sentido, que irá constituir a estrutura conceitual fundante não apenas de seu período intermediário como também de suas produções posteriores. A categoria de sentido torna-se, portanto, um elemento característico deste período, e “A influência da fenomenologia de Husserl no desenvolvimento da filosofia de consciência e sentido de Tillich é, portanto, bastante notável”19 (ABREU, 2017, p. 10). Para Tillich (1962 [1956], p. 74) “A fenomenologia veio a ser de importância decisiva para a filosofia do século XX. Ela surgiu, como já indicamos anteriormente, dos Estudos Lógicos de Husserl que apareceram na virada do século e que representaram uma verdadeira mudança no movimento filosófico”20. Abreu afirma que na medida em que Tillich se apropria das principais características da fenomenologia husserliana fica evidente que a filosofia de Tillich “deve ser interpretada como uma construção sistemática entre a tradição idealista neokantiana e a escola fenomenológica-psicológica de Husserl”21 (ABREU, 2017, p. 11). O contato do teólogo com a fenomenologia de Husserl, durante os anos de guerra, se tornou, portanto, um fator estruturante no processo de reformulação de seu pensamento. De acordo com Thomas (2000), Husserl foi um dos filósofos que mais impressionou Tillich neste momento de reformulação de seu pensamento. Da mesma forma, Thomas relata que no verão antes da morte de Tillich, numa conversa que teve com o teólogo durante um ciclo de palestras ministradas no Union Theological Seminary, Tillich “aplaudiu meu plano de começar com a. 18. Am energischsten habe ich mich auf die Logik geworfen, Husserl, Lotze, Sigwart, Windelband, Lask. Als neue Wissenschaft habe ich die Ästhetik kennen gelernt in dicken Banden von Hartmann, Lipps etc. The influence of Husserl’s phenomenology in the development of Tillich’s philosophy of consciousness and meaning is, thus, quite remarkable 19. 20. Phenomenology came to be of decisive importance for the philosophy of the twentieth century. It arose, as we have previously indicated, out of Husserl’s Logical Studies which appeared at the turn of the century and which represented a real turn in the philosophical movement. 21. is to be interpreted as a systematic building standing between the idealist-neo-Kantian tradition and the Husserlian phenomenological-psychological school.

(24) 24. fenomenologia de Husserl, descrevendo-se como parte de uma geração de pensadores salvas por Husserl do naturalismo”22 (THOMAS, 2000, p. 51). Ao retornar da guerra, o teólogo se depara com um contexto que ele mesmo descreve como um “caos criativo”. Nos anos que se seguiram, Tillich se torna Privatdozent na Universidade de Berlim (1919 a 1924) e lecionou sobre assuntos que incluíram a relação da religião com a política, arte, filosofia, psicologia e sociologia. Além dos grandes avanços teóricos, uma vasta quantidade de material acadêmico é produzido neste momento, de acordo com Tillich (1956 [1952], p. 13) “A situação durante esses anos em Berlim foi muito favorável para tal empreendimento”23. Os anos de 1919 a 1933 foram os anos em que o autor produziu praticamente todos os seus textos do período alemão. Muitos deles como “Ideias para uma teologia da cultura” (1919), “A superação do conceito de religião na filosofia da religião” (1922), “Filosofia da Religião” (1925) entre outros, trazem menções explícitas à escola fenomenológica e foram descritos por Tillich como “passos decisivos na minha estrada cognitiva”24 (TILLICH, 1956 [1952], p. 15). Esse período de reformulação marca, portanto, uma nova fase no pensamento teológicofilosófico de Tillich, de modo que levá-lo em consideração é fundamental para uma compreensão rigorosa de sua produção intelectual posterior. Embora este período como um todo mereça ser cuidadosamente analisado, o importante para os objetivos desta pesquisa é o contato de Tillich com as ideias de Husserl e a escola fenomenológica, mas sem com isso obliterar o escopo maior de seu período revisionista.. 1.2.. A teoria da intencionalidade da consciência de Edmund Husserl. Para Husserl (2006, p. 189) a intencionalidade é um tema fenomenológico capital, pois “Ela é uma peculiaridade da essência da esfera dos vividos em geral, visto que de alguma maneira todos os vividos participam da intencionalidade”. Husserl (2006, p. 190) afirma também que “a intencionalidade é aquilo que caracteriza a consciência em sentido forte, e que. He applauded my plan of beginning with Husserl’s phenomenology, describing himself as one of a generation of thinkers saved by Husserl from naturalism. 22. 23. The situation during these years in Berlin was very favorable for such an enterprise.. 24. These were decisive steps on my cognitive road..

(25) 25. justifica ao mesmo tempo designar todo o fluxo de vivido como fluxo de consciência e como unidade de uma única consciência”. Para Husserl, toda consciência é consciência de alguma coisa, e por conta disso, a consciência é necessariamente intencional, ou seja, o ser humano sempre tem consciência de alguma coisa do mundo que se apresenta a sua consciência fenomenicamente. Dessa forma, todo estado de consciência em geral é, em si mesmo, consciência de alguma coisa, qualquer que seja a existência real desse objeto e seja qual for a abstenção que eu faça, na atitude transcendental que é minha, da posição dessa existência e de todos os atos da atitude natural. Em consequência, será necessário ampliar o conteúdo do ego cogito transcendental, acrescentar-lhe um novo elemento e dizer que todo cogito, ou ainda todo estado de consciência, “assume” algo, e que ele carrega em si mesmo como “assumido” (como objeto de uma intenção) seu cogitatum respectivo. Cada cogito, de resto, o faz à sua maneira (HUSSERL, 2001, p. 50-51).. A fenomenologia se volta para a intencionalidade da consciência como uma “visada” de sentido. O vivido, como esta consciência dotada de sentido, de acordo com o filósofo, pode ser tanto o percebido, sentido como recordado, pois a intencionalidade da consciência é uma “propriedade dos vividos de ‘ser consciência de algo’” (HUSSERL, 2006, p. 190). Este “algo” ou alguma “coisa” de que se possa estar consciente, de acordo com Fink pode ser “qualquer coisa que possa ser trazido à vista, seja algo real, um ideal, um horizonte, um sentido, uma referência-de-sentido, o nada, etc.”25 (FINK, 1933, p. 330). A intencionalidade da consciência, portanto não diz respeito somente aquilo que é objetivamente encontrável no espaço objetivo, “[...] a consciência é o horizonte intranscendível (sic) que transcende e contêm todas as partes, todas as subdivisões e todas as relações entre as coisas...” (SEVERINO, 1987, p. 207). Para Husserl (2001, p. 60) a vida é um cogito universal, que abrange sinteticamente todos os estados da consciência que possam surgir dessa vida, e que possui o seu cogitatum universal, que por sua vez se encontram fundados de maneiras diferentes em múltiplos cogitata particulares. A intencionalidade da consciência, como este “estar direcionado para”, se refere, portanto, a esta ligação que o ser humano tem com o mundo, com a vida, ligação esta que é inalienável, porque o ser humano sempre está voltado para algo, direcionado para o mundo numa relação que é infatigavelmente posta. O mundo nesse sentido funciona sempre como um solo, como uma presença inalienável. O contato com o mundo coloca o ser humano diante de muitas experiências fenomênicas, ou 25. alles und jedes, was an ihm selbst zu Gesicht gebracht wird, sei es ein Reales, ein Ideales, ein Horizont, ein Sinn, eine Sinnesverweisung, das Nichts usw..

(26) 26. seja, a consciência é presenteada com aparições das mais diversas ordens, que se constituem como fenômeno exatamente porque aparecem à consciência numa relação intencional. Entretanto, “Deve-se observar que não se está falando aqui de uma referência entre um evento psicológico qualquer – chamado vivido – e uma outra existencial real – chamada objeto, ou de um vínculo psicológico entre um e outro que se daria na efetividade objetiva” (HUSSERL, 2006, p. 89, grifo do autor). Para a fenomenologia husserliana, não é possível a existência de um pensamento que não esteja relacionado com o objeto do qual se pensa. É neste relacionar-se dos objetos com as pessoas que se torna possível a constituição do “eu”. É nessa relação com o mundo que se constitui um jeito de viver ou um modo de habitar, pois tudo que existe está nessa relação consciência-objeto. Este mundo se constitui, no solo das possibilidades das percepções humanas e de construção de sentido de mundo, este é, portanto, o mundo da vida26, um mundo que é construção da experiência humana e que só às pessoas faz sentido. Este mundo é, portanto, a fonte de consciência que é uma consciência voltada, decorrente, que está necessariamente ligada ao mundo. Nesse sentido, o ser e o mundo não são coisas que se podem separar, pois tudo que existe se dá nessa relação, nessa unidade entre o ser e o fenômeno. O fenômeno só se constitui propriamente fenômeno diante do ser humano, é a partir dessa relação que o ser humano estabelece com o mundo é que se pode falar em fenômeno. Existe, portanto, um solo do mundo vivido e só há sentido em falar de fenômeno diante da consciência27.. 26. O conceito de mundo da vida (Lebenswelt) aparece na última fase do pensamento de Husserl, depois de 1930. Uma das principais expressões dessa fase são os escritos da crise em que o conceito de mundo da vida é posto em oposição ao mundo das ciências. De acordo com Husserl (2012) a ciência objetivista incorreu no erro de tomar o “mundo objetivo” como sendo o universo de todo o existente, desconsiderando com isso, que a subjetividade criadora da ciência não pode ter seu lugar legítimo em ciência objetiva alguma. “Mas o investigador da natureza não se dá conta de que o fundamento permanece de seu trabalho mental, subjetivo, e o mundo circundante (Lebensumwelt) vital, que constantemente é pressuposto como base, como o terreno da atividade, sobre o qual suas perguntas e seus métodos de pensar adquirem um sentido” (HUSSERL, 2012, p. 86). Comentando sobre esta fase Josgrilberg afirma que a Krisis é uma obra que se propõe a desdobrar a questão da historicidade transcendental do sentido e sua permanência na história como tradição e linguagem. Esta fase apresenta uma nova forma de fazer fenomenologia que retoma as outras fases em um novo contexto, o arsenal da fenomenologia é transferido em bloco para o centro do mundo vivido. “O próprio mundo vivido carrega com ele a transcendentalidade constitutiva em forma de expressividade linguística, historicidade, corporeidade, alteridade, intersubjetividade, etc. como estrutura desse mundo. O que mudou foi a abordagem transcendental que sofre uma “encarnação” com a terra, a sociedade, a história, a linguagem. [...] A vida histórica pode ser entendida (sem querer limitar a história a esse aspecto) como história de formação do sentido; ou seja, como uma forma de encarnação linguística do significado sem perder por isso sua dimensão transcendental e universal em relação ao Lebenswelt, que é o que garante para Husserl a possibilidade de ciência” (JOSGRILBERG, 2002, p. 262). 27. Vale lembrar que não se pode entender que a fenomenologia anunciada assim por Husserl, possa ser compreendida como um fenomenismo, significando isso, aquela ideia de que só existe o que aparece a consciência,.

(27) 27. Não há, portanto, consciência separada de mundo no sentido que lhe foi dado especificamente em Descartes. Para o filósofo, “Infelizmente, é o que acontece com Descartes, um resultado de uma confusão, que parece pouco importante, mas acaba sendo muito funesta, e faz do ego como uma substantia cogitans separada, uma mens sive animus humano, ponto de partida de raciocínios de causalidades” (HUSSERL, 2001, p. 42). A consciência nestas circunstâncias fica numa posição radicalmente distinta em relação aos objetos, sendo ela também, apenas uma “coisa que pensa”. Husserl nesse sentido vai além da dicotomia moderna entre sujeito e objeto. Essa vinculação necessária entre sujeito e objeto permite compreender que a consciência e aquilo que aparece à consciência estão estritamente inter-relacionadas por meio da vivência. No vivido a consciência sempre se volta ao seu objeto intencionalmente e a essência deste vivido não se encontra nem no objeto nem na consciência, mas neste “entre” vivencial. Dessa forma, para Husserl, o vivido intencional não acontece senão nessa relação sujeitoobjeto, transcendente-transcendental. O conhecimento, tal como concebido em grande parte pela filosofia, perde seu caráter dualista no sentido de que a consciência que conhece e o objeto conhecido são duas coisas que podem se dar de maneira separada. Husserl por outro lado, ainda que entenda que um não pode ser tomado sem o outro, afirma que esta polarização apresenta uma distinção fundamental para a intencionalidade, “qual seja, a distinção entre componentes próprios dos vividos intencionais e seus correlatos intencionais, ou os componentes destes” (HUSSERL, 2006, p. 203, grifo do autor). Toda vivência intencional, portanto, está constituída por dois polos correlacionados que podem ser distinguidos entre noese e noema. Para o filósofo, a noese, constitui o específico do nous (sentido), “que nos remete, segundo todas as suas formas atuais de vida, a cogitationes e a vividos intencionais em geral [...] que é pressuposição eidética da ideia de forma” (HUSSERL, 2006, p. 195, grifo do autor). De acordo com o autor, todo o vivido intencional é vivido noético, e é de sua essência guardar em si mesmo algo como um “sentido”, e, por vezes, um sentido múltiplo. “São exemplos de tais momentos noéticos: os direcionamentos do olhar do eu puro para o objeto ‘visado’ por ele em virtude da doação de sentido, para aquele objeto que ‘não lhe sai do sentido’ (HUSSERL,. pois essa é uma radicalidade que talvez se aproximaria ao cartesianismo quando defende a ideia de que a rigor só existe o que é pensado. Para Husserl, a fenomenologia como estudo destes fenômenos que se apresentam a consciência tem por finalidade estudar, compreender, o que ele chama de vivências da consciência, ou os sentidos das vivências da consciência.

(28) 28. 2006, p. 203). A noese dessa forma se caracteriza pelo ato intencional de “visar” e fazer com que a coisa “visada” cobre sentido, ou seja, trata-se do dar sentido a uma vivência. Entretanto, toda vivência intencional por sua vez possui um sentido objetivo, isto é, um componente real e intencional do vivido. A este polo o autor denominou noema, “[...] o campo fundamental da fenomenologia” (HUSSERL, 2006, p. 118, grifo do autor). O noema é aquilo que na coisa é “visado”, isto é, aquilo que na coisa se é consciente “exatamente assim como ele está contido de maneira ‘imanente” no vivido de percepção, de julgamento, de prazer etc., isto é, tal como nos é oferecido por ele, se interrogamos puramente esse vivido mesmo (HUSSERL, 2006, p. 204). O noema, portanto é o objeto intencional, àquilo que é objetivado nos atos da consciência e que aparece efetivamente e exatamente na maneira de se dar pela qual se tem consciência dele na percepção. “Aos múltiplos dados do conteúdo real, noético, corresponde uma multiplicidade de dados, mostráveis em intuição pura efetiva, num ‘conteúdo noemático’ correlativo ou, resumidamente, no ‘noema’” (HUSSERL, 2006, p. 203, grifo do autor). Noese e noema estão correlacionados e compõem uma vivência, “Pois não há momento noético algum sem um momento noemático que pertença especificamente, é o que reza a lei eidética que pode ser comprovada onde quer que seja”. (HUSSERL, 2006, p. 214, grifo do autor). O componente real do ato e seu correlato estão necessariamente relacionados entre si pelo fato de que a vivência como tal pode sempre guardar um sentido. Noese e noema constituem uma estrutura paralela correlacionada que permite conhecer tanto o objeto real como o correlato de sentido, dessa forma, a partir da correlação destes polos é possível descrever as sínteses de toda consciência, ou seja, afirmar a unidade entre cogitatio e cogitatum é afirmar a constituição de uma unidade doadora de sentido instituída em toda intencionalidade. A intencionalidade ao colocar o ser humano nessa vinculação permanente com o mundo o coloca necessariamente neste movimento de noese e noema. O ser humano sempre está diante de objetos que se apresentam a ele como desafios, como estímulos à suas experiências de construir conhecimento, construção essa que dá aos objetos a condição de novos sentidos. Quando se fala em mundo ou “mundo da vida”, usando uma terminologia husserliana, deve-se entender por isso não o mundo da natureza, mas este mundo que é produto dessa experiência intencional, ou seja, um mundo que decorre de um sentido que se dá a própria experiência de viver no mundo. O mundo é, portanto, esta experiência de viver e que permite transformar-se pelas pessoas..

(29) 29. A intencionalidade se fundamenta, portanto, na consciência que percebe alguma coisa e o dota de sentido. “Tão-somente noutras palavras: ter sentido ou ‘estar com o sentido voltado para’ algo é o caráter fundamental de toda consciência, que, por isso não é apenas vivido, mas também vivido que tem sentido, vivido ‘noético’” (HUSSERL, 2006 p. 206-207). Toda consciência intencional é, portanto, um “visar” algo, um orientar-se até a coisa. De modo que quando se fala em intencionalidade, se fala de uma maneira, de uma experiência de como os corpos sentem o mundo, de como as pessoas sentem o mundo. A intencionalidade é dessa forma uma experiência de sentir o mundo. Posteriormente destaca-se a direção, a intencionalidade enquanto possibilidade de dar sentido a própria presença no mundo, isto é, de existir numa certa direção. A consciência enquanto aquilo que atribui sentido às coisas aponta para o fato de que perceber o objeto, é percebê-lo dentro de uma experiência que tem valor existencial. Portanto é a percepção das coisas da natureza, dos próprios objetos criados pelos seres humanos com alguma finalidade, é a percepção dessas coisas dentro de uma experiência de viver. E por fim, a cogitação, a interpretação é sempre intencional, está sempre ligada ao mundo e decorre sempre de uma maneira de como se vê o mundo e o modo de como isso orienta o rumo que se dá ao existir. A intencionalidade é, portanto, essa ligação que faz que o mundo seja muito mais que um lugar geográfico, ou pura e simplesmente “coisas da natureza”. Ele é uma organização de um sentido intuído, construído, nesta relação dos corpos entre as pessoas, e este sentido não é um falseamento ou distanciamento do mundo. Antes, este sentido é a própria realidade, um jeito de ser que se apresenta como possível, até que novos sentidos sejam desenhados. Em outras palavras, há uma consciência que se constitui como consciência porque está voltada ao mundo, e o objeto é objeto porque é percebido como tal pela consciência. Dessa forma, a consciência que é “sempre consciência de algo”, é também um testemunho da intencionalidade, e por consequência, dessa inevitável ligação que se tem com o mundo. Este é o mundo da vida, mundo que decorre das vivências intencionais, solo de intuição da essência que permite dizer novas coisas sobre o mundo e de construir novos conhecimentos sobre a realidade. Retornar as coisas mesmas é a condição permanente de se lembrar dessa vinculação, entre esse trabalho que a consciência faz de elaborar significativamente, existencialmente a aparição do mundo a ela, trata-se de uma tentativa de se colocar nessa trama, sem pressupostos, de modo que se possa olhar a realidade como solo de possibilidade de novas intuições..

Referências

Documentos relacionados

Apothéloz (2003) também aponta concepção semelhante ao afirmar que a anáfora associativa é constituída, em geral, por sintagmas nominais definidos dotados de certa

A abertura de inscrições para o Processo Seletivo de provas e títulos para contratação e/ou formação de cadastro de reserva para PROFESSORES DE ENSINO SUPERIOR

nhece a pretensão de Aristóteles de que haja uma ligação direta entre o dictum de omni et nullo e a validade dos silogismos perfeitos, mas a julga improcedente. Um dos

Equipamentos de emergência imediatamente acessíveis, com instruções de utilização. Assegurar-se que os lava- olhos e os chuveiros de segurança estejam próximos ao local de

Como analisa Junior (2013), Deng Xiaoping realizou uma reforma nas esferas política e econômica não só internamente, mas também como forma de se aproximar do ocidente. Como

autorizada por lei, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertençam em sua maioria à União, aos Estados, ao Distrito Federal, aos Municípios ou a

Tal será possível através do fornecimento de evidências de que a relação entre educação inclusiva e inclusão social é pertinente para a qualidade dos recursos de

Com o objetivo de compreender como se efetivou a participação das educadoras - Maria Zuíla e Silva Moraes; Minerva Diaz de Sá Barreto - na criação dos diversos