Processo
2787/15.7T8BRG.G1.S1
Data do documento 12 de janeiro de 2021
Relator
Maria Joião Vaz Tomé
SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Responsabilidade extracontratual > Acidente de viação > Recurso de revista > Admissibilidade de recurso > Sucumbência > Acórdão uniformizador de jurisprudência > Pluralidade de
lesados > Litisconsórcio necessário > Concorrência de culpas > Colisão de veículos > Dano biológico > Cálculo da indemnização > Equidade
SUMÁRIO
I. O recurso de revista interposto pelos Autores António e Marina não é admissível. Não havendo recorrido da sentença e tendo procedido parcialmente a apelação interposta pela Ré Fidelidade, a medida da sucumbência daqueles, para efeitos de interposição de recurso de revista, corresponde à diferença entre os valores arbitrados na sentença de 1.ª Instância e no acórdão da Relação, nos termos do AUJ n.º 10/2015.
II. Por outro lado, apesar de nos autos se discutir a responsabilidade pelo mesmo acidente de viação e de serem vários os lesados que assumem a posição de Autores, não se está perante um caso de litisconsórcio necessário, mas antes perante pedidos distintos e independentes, ainda que baseados na mesma causa de pedir (arts. 35.º e 36.º do CPC). Por conseguinte, a medida da sucumbência de cada um deles terá de ser aferida individualmente.
III. Havendo sido violadas pelos dois condutores, intervenientes no acidente de viação, regras de trânsito, em circunstâncias em que era exigível que tivessem agido de outra forma, evitando o resultado danoso, há concorrência de culpas. A doutrina plasmada no art. 506.º do CC aplica-se não apenas aos danos sofridos pelos veículos colidentes, mas também, inter alia, aos demais danos ocorrentes quer para os condutores, quer para as pessoas transportadas.
IV. Em caso de dúvida, reputa-se igual a contribuição da culpa de cada um dos condutores, nos termos do art. 506.º, n.º 2, do CC, que estabelece uma presunção de igual medida da contribuição de cada um dos veículos para os danos, assim como da contribuição da culpa de cada um dos condutores. O acidente não teria ocorrido se nenhum dos condutores tivesse invadido a zona de “raias oblíquas delimitadas por linhas contínuas”.
V. A equidade traduz-se no critério decisivo para a fixação do montante da compensação por danos cujo valor exato não possa ser averiguado (art. 566.º, n.º 3, do CC). Trata-se da equidade como padrão de justiça do caso concreto, da decisão ex aequo et bono (segundo a equidade). VI. Conforme a jurisprudência do STJ, o recurso à equidade “não afasta a necessidade de observar as exigências do princípio da igualdade, o que implica a procura de uma uniformização de critérios, naturalmente não incompatível com a devida atenção às circunstâncias do caso”.
VII. A decisão segundo a equidade não exclui o pensamento analógico. Uma solução individualizadora que assuma todas as circunstâncias do caso concreto não pode encontrar-se sem a comparação de hipóteses.
VIII. Estando em causa uma indemnização fixada pela Relação segundo a equidade, num recurso de revista importa, essencialmente, verificar se os critérios adotados para a determinação do montante indemnizatório se afiguram suscetíveis de ser generalizados e se harmonizam com os padrões que, numa jurisprudência atualista, devem ser observados em situações análogas ou equiparáveis.
IX. A afetação da integridade físico-psíquica (um dano-evento denominado como dano biológico ou dano na saúde) pode ter como consequência danos de natureza patrimonial e danos de natureza não patrimonial (danos-consequência). Está em causa um dano que corresponde ao efeito de uma ofensa sofrida pelo lesado e que exige de si maiores sacrifícios, maior penosidade no desempenho da sua atividade profissional habitual e, ainda, na sua vida pessoal, no desenvolvimento das tarefas e atividades quotidianas. É um dano corporal, na saúde (que afeta a integridade físico-psíquica do sujeito), futuro - as suas consequências ou sequelas projetam-se no futuro - e previsível - por corresponder à “evolução lógica, habitual e normal do quadro clínico constitutivo da sequela”. É um dano que subsiste independentemente da eventual perda ou redução de rendimentos. Trata-se, fundamentalmente, da proteção, pelo ordenamento jurídico, do bem jurídico saúde, entendida como estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas como ausência de doença ou enfermidade.
TEXTO INTEGRAL
Acordam no Supremo Tribunal de Justiça,
I. Relatório
1. No processo principal, AA intentou contra Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A. a presente ação declarativa, sob a forma de processo comum, pedindo a condenação da Ré no pagamento:
a) Da quantia de € 150.000,00 (cento e cinquenta mil euros), acrescida dos juros legais contados desde a citação;
b ) Das quantias que se vierem a apurar em liquidação do pedido ou em execução de sentença, em consequência do alegado nos artigos 41º a 46º e 52º até 54º, da petição inicial.
2. Alegou, para o efeito, que: o veículo com a matrícula ..-..-BR (doravante BR), segurado na Ré, circulava pela EN ..., no sentido P… /B…, com uma velocidade superior a 120 km/h, tendo invadido a faixa de rodagem por onde transitava, em sentido contrário, a viatura com a matrícula XO-..-.. (doravante XO), com a qual embateu na parte da frente do lado direito; a Autora era passageira do XO, tendo ficado gravemente ferida em consequência do acidente; por isso, foi transferida para o Hospital ..., onde foi assistida e sujeita a intervenções cirúrgicas; após a alta, continuou a ser seguida em consulta de ortopedia, estando a fazer sessões de fisioterapia, desconhecendo-se se, no futuro, poderá vir a trabalhar, se necessitará de ajuda de terceira pessoa ou se vai precisar de auxílios médicos ou medicamentosos; à data do acidente, trabalhava enquanto empregada de limpeza e ajudante de cozinha, cultivava ainda legumes para consumo próprio e criava dois animais de raça bovina, obtendo em tudo o rendimento mensal de € 950,00; por se encontrar sem trabalhar, já teve um prejuízo de € 5.700,00 (cfr. fls. 5 a 221).
3. O Instituto da Segurança Social, I.P. (doravante ISS) deduziu pedido de reembolso do montante de concessão provisória do subsídio de doença pago à Autora, no valor de € 1.807,56, relativo ao período de incapacidade temporária para o trabalho de 1 de abril de 2014 a 6 de junho de 2015 (cfr. fls. 30 a 32).
4. Regularmente citada, a Ré Fidelidade apresentou contestação (cfr. fls. 39 a 46), na qual alegou, em síntese, que o condutor do veículo BR circulava a uma velocidade de cerca 70 km/h, na EN ..., atendendo ao trânsito que se fazia sentir, no sentido P… /B… ; nesse momento, no local onda a via descreve uma curva para a esquerda, o condutor do BR deparou-se com a viatura XO, a qual, devido à velocidade com que seguia (na ordem dos 100 km/h), transpôs o eixo delimitador da via para a esquerda; por causa disso, o condutor do BR, em ordem a evitar o embate, guinou para a esquerda, não conseguindo, porém, impedir a colisão entre a frente direita do seu veículo na parte frontal do XO; quanto aos danos, impugnou-os por desconhecimento, sustentando ainda que os montantes reclamados para o seu ressarcimento são exagerados e que os rendimentos a ter em conta para o efeito devem ser os fiscalmente declarados.
5. Dispensada a realização de audiência prévia, proferiu-se, a fls. 83, despacho saneador, onde se afirmou a validade e regularidade da instância. Fixou-se o objeto do litígio e procedeu-se à seleção dos temas da prova, não tendo havido reclamações das partes (cfr. fls. 83 a 84).
6 . A Autora AA, a fls. 175 a 183, deduziu o incidente de liquidação do pedido genérico formulado na petição inicial, tendo pedido a condenação da Ré Fidelidade no pagamento total de € 464.719,63.
7. Alegou, para tanto, que tinha 47 anos de idade à data em que ocorreu o acidente e que, nessa altura, trabalhava como empregada de limpeza e ajudante de cozinha; que cultivava legumes e criava dois animais de raça bovina; como fruto de todas essa atividades auferia um rendimento mensal de, aproximadamente, € 850,00; que do acidente resultaram sequelas que lhe determinam a incapacidade parcial permanente de 50,1 pontos, o que a torna totalmente incapaz para a sua profissão habitual; que as sequelas provocaram-lhe um dano estético de grau 5 (numa escala de 1 a 7), assim como uma repercussão na atividade sexual de grau 5 (numa escala de 1 a 7); que foi submetida a 5 cirurgias e que esteve temporariamente incapacitada durante 969 dias, tendo necessitado de auxílio de terceira pessoa, no qual já despendeu € 11.900,00; que até aos 80 anos de idade continuará a precisar de auxílio de terceiro, sendo previsível o gasto de € 108.000,00; que irá necessitar de efetuar tratamentos de fisioterapia, estimando-se o gasto de € 58.000,00, até aos 80 anos de idade; que em despesas médicas, medicamentosas e com ajudas técnicas, gastou o total de € 1.268,63; que as sequelas com que ficou provocam-lhe tristeza e amargura.
8 . Regularmente notificada, a Ré Fidelidade deduziu oposição ao incidente de liquidação, tendo impugnado, por desconhecimento, as lesões, os prejuízos, as sequelas e a situação profissional da Autora AA à data do embate, reiterando ainda o carácter exagerado dos montantes indemnizatórios reclamados (cfr. fls. 200 a 202).
9. Por despacho de fls. 207, foi admitida a liquidação do pedido genérico deduzido e procedeu-se à seleção dos temas da prova pertinentes, conforme consta de fls. 207 e 207/verso, sem que tenha havido reclamação das partes.
10. O ISS, por requerimento de fls. 363 a 365, ampliou o pedido no sentido de a Ré Fidelidade ser condenada no pagamento da quantia de € 4.698,00, relativa ao período de incapacidade para o trabalho situado entre 1 de abril de 2014 e 2 de abril de 2017, assim como dos montantes que vierem a ser liquidados até à consolidação das lesões e à alta clínica.
11. A Ré Fidelidade exerceu o contraditório quanto à ampliação do pedido, através do requerimento de fls. 373/verso, onde manteve a sua oposição inicial.
12. A ampliação do pedido originário, requerida pelo ISS, foi admitida pelo despacho proferido a fls. 394.
13. Por despachos de fls. 399 a 399/verso e 416, foi determinada a apensação dos processos com os n.os 105/17... (agora apenso B) e 114/17.... (agora apenso C), que corriam termos na Instância Central Cível de ...– Juízo .. e na Instância Local Cível de ...– Juízo .., respetivamente.
14. Procedeu-se a perícia, encontrando-se o relatório de avaliação do dano corporal a fls. 442 a 446, esclarecido a fls. 452 a 453.
15. No apenso B (processo n.º 105/17...):
15.1. BB, C C e DD intentaram contra a Ré Fidelidade a ação declarativa com o n.º 105/17..., tendo pedido a condenação da Ré no pagamento:
1 - Ao Autor BB, da quantia de € 28.714,98 (vinte e oito mil setecentos e catorze euros e dezoito cêntimos), acrescida dos juros legais contados desde a citação;
2 - Ao Autor CC, da quantia de € 111.630,98 (cento e onze mil seiscentos e trinta euros e noventa e oito cêntimos), acrescida dos juros legais contados desde a citação;
3 - À Autora DD, da quantia de € 11.875,36 (onze mil oitocentos e setenta e cinco euros e trinta e seis cêntimos), acrescida dos juros legais contados desde a citação.
Para o efeito, os Autores reproduziram a descrição do embate nos mesmos moldes da ação principal, tendo precisado que ele ocorreu cerca das 9h do dia … de janeiro de 2014, na EN ..., ao km 45,775, em ..., ..., ….., e que o Autor BB era o condutor do XO e os Autores CC e DD eram nele transportados.
15.2. Alegaram ainda, em síntese, que por força do embate, todos os Autores sofreram lesões que implicaram a necessidade de tratamento hospitalar; que das lesões resultaram sequelas que importam uma incapacidade permanente parcial correspondente a 7 pontos quanto ao Autor BB e a 5 pontos no que toca ao Autor CC; que Autora DD ficou com cicatrizes na face que determinaram um dano estético quantificado em grau 2 (numa escala de 1 a 7); que, em virtude dos tratamentos a que se sujeitaram, os Autores CC e DD sofreram perdas salariais e realizaram despesas médicas e medicamentosas; que todos eles sofreram dores e incómodos quando as lesões foram infligidas e durante os tratamentos e os incómodos e mal-estar continuarão a acompanhá-los; que as sequelas de que passaram a padecer são, para todos, motivo de tristeza e ainda, quanto aos Autores CC e DD, de vergonha.
15.3. Além disso, no que se refere ao Autor BB, invocaram que o veículo XO era um ….., modelo .., que lhe pertencia, cuja reparação não foi aconselhada. Assim, uma vez que o valor venal desse veículo era de € 1.750,00 e o que dele restou valia € 50,00 para a sucata, computaram em € 1.700,00 o montante do prejuízo sofrido a este título, o que deve ser acrescido, na sua perspetiva, dos valores de € 1.800,00 pela privação do uso no período de 60 dias (até ser efetuada a vistoria pela Ré) e de € 61,50, pelo serviço de reboque.
15.4. Regularmente citada, a Ré Fidelidade apresentou contestação (cfr. fls. 67 a 71, do apenso B), onde, em síntese, impugnou a dinâmica do acidente, nos termos em que o fez nestes autos principais, assim como sustentou que os Autores não estão afetados de quaisquer incapacidades permanentes e, ainda que
o estejam, os valores reclamados pelos prejuízos sofridos são exagerados, devendo atender-se aos rendimentos líquidos para os cálculos que forem devidos.
15.5. Dispensada a audiência prévia, foi proferido despacho saneador, em que se afirmou a validade e regularidade da instância (cfr. fls. 85, do apenso B). Fixou-se ainda o objeto do litígio e estabeleceram-se os temas da prova, em termos que não mereceu a reclamação das partes (cfr. fls. 85 a 86, do apenso B).
15.6. Realizou-se perícia com vista à avaliação do dano corporal, encontrando-se os relatórios a fls. 104 a 107 (quanto ao Autor CC), 110 a 113 (quanto ao Autor BB) e 115 a 119 (a respeito da Autora DD), do apenso B.
15.7. Antes da realização da audiência de julgamento, foi determinada a apensação do presente processo a estes autos principais (cfr. fls. 124, do apenso B).
16. No apenso C (processo n.º 114/17...):
16.1. A Schweizerische Unfallversicherungsanstalt (doravante SUVA), com sede em Luzern, na Suíça, intentou contra a Fidelidade e a Mapfre Seguros, S.A. (doravante Mapfre) a ação declarativa comum com o n.º 114/17..., pedindo a condenação das Rés no pagamento à Autora:
1 - Da quantia de CHF 33.733,05, que corresponde ao montante de € 31.506,67 (trinta e um mil quinhentos e seis euros e sessenta e sete cêntimos);
2 - Dos danos futuros que a Autora venha a sofrer em virtude do acidente;
3 - Dos gastos desembolsados pela Autora em consequência do acidente, designadamente as despesas de assistência médica, medicamentosa, assistência e pensões;
4 - Dos juros de mora vincendos, calculados à taxa legal, até efetivo e integral pagamento.
16.2. Alegou, para o efeito, que é uma seguradora suíça, que tem como segurado o Autor CC, exercendo um papel análogo ao da segurança social portuguesa, cobrindo a assistência médica e medicamentosa dos sinistrados, assim como o pagamento de montantes de assistência pecuniária aos mesmos; que o sinistrado CC foi vítima de um acidente de viação, que teve lugar no dia … de janeiro de 2014, na EN ..., ao km 45,775, em ... de ..., …., em que intervieram os veículos XO e BR; que o veículo BR, nessas circunstâncias de tempo e lugar, circulando à velocidade de 120 km/h, invadiu brusca e repentinamente a faixa de rodagem por onde circulava o XO, cortando-lhe a sua mão de trânsito; que o sinistrado CC recebeu assistência hospitalar, tendo-lhe sido diagnosticada a fratura da clavícula direita, escoriações na mão direta e ferida na testa esquerda; já na Suíça, o sinistrado foi avaliado e tratado nos serviços da Autora SUVA,
tendo sido operado a 27 de fevereiro de 2014 e a 6 de fevereiro de 2015 (para retirar o material de osteossíntese); que o sinistrado ficou temporariamente incapacitado, frequentou sessões de fisioterapia, teve de tomar medicação e mereceu acompanhamento médico; que pagou ao sinistrado, em despesas médicas, o montante de CHF 12.219,45, o que corresponde a € 11.412,97 e, a título de perdas salariais, a quantia de CHF 21.513,60, o que corresponde a € 20.093,70 (cfr. fls. 6 a 13, do apenso C).
16.3. No final, a Autora SUVA alegou que, no caso de não se provar a culpa do condutor do veículo segurado na Ré Fidelidade na produção do acidente, sempre serão os danos imputáveis àquela e à Ré Mapfre com base na responsabilidade pelo risco (cf. fls. 13, do apenso C).
16.4. Requereu a intervenção provocada do ISS e dos Hospitais para, querendo, reclamar os valores de que eventualmente são credores perante a Autora (cf. fls. 14, do apenso C).
16.5. Regularmente citadas:
a - A Ré Fidelidade apresentou contestação (cfr. fls. 35 a 37), onde, em síntese, imputou a culpa na produção do acidente à condução desatenta do condutor do veículo XO, segurado na Ré Mapfre, assim como impugnou, a título subsidiário, os montantes que a Autora alegou ter pagado em benefício do sinistrado CC;
b - A Ré Mapfre apresentou contestação (cf. fls. 51 a 53), na qual aderiu à versão do acidente nos termos alegados pela Autora SUVA, concluindo, como tal, que, apesar da celebração do contrato de seguro relativo à circulação do XO, não está obrigada a responder pelos danos emergentes daquele, por o seu condutor não ter violado quaisquer regras de trânsito; ao invés, sustentou que o condutor do veículo BR, segurado na Ré Fidelidade, circulava a 120 km/h, afastado da berma e em despiste, tendo ido embater no veículo XO, que circulava na sua mão de trânsito.
16.6. Por despacho de fls. 67, do apenso C, entendeu-se que, tendo sido citado o ISS, estava já promovida a intervenção requerida pela Autora SUVA.
16.7. Foi proferido despacho pré-saneador, convidando a Autora SUVA a esclarecer: qual a intervenção do segurado no acidente, designadamente, se o mesmo seguia como passageiro em alguma das viaturas intervenientes; qual a causa das lesões sofridas por este; qual o eventual período de incapacidade por este sofrido, designadamente, laboral, e o valor do salário por si auferido à data do sinistro (cf. fls. 67, do apenso C).
16.8. A Autora SUVA não respondeu ao convite judicial, tendo sido designada a realização de audiência prévia, onde aquela completou a causa de pedir no sentido de que o sinistrado era transportado no veículo XO; que as lesões invocadas foram consequência do acidente; que o sinistrado esteve totalmente
incapacitado nos três dias seguintes ao acidente e ao longo de cento e quarenta e cinco dias, seguindo-se onze dias de incapacidade temporária a 50% e dois dias de incapacidade temporária a 20%; e o salário do sinistrado era de 5.000,00 francos suíços (cf. fls. 77/verso, do apenso C).
16.9. Foi proferido despacho saneador, no qual se declarou a validade e regularidade da instância. Fixou- se ainda o objeto do litígio e estabeleceram-se os temas da prova, em termos que não mereceram a reclamação das partes (cf. fls. 77/verso a 78, do apenso C).
16.10. Antes da realização da audiência de julgamento, foi determinada a apensação do presente processo a estes autos principais (cf. fls. 86, do apenso C).
1 7 . Após a apensação dos processos n.os 105/17.... (apenso B) e 114/17.... (apenso C), realizou-se a audiência de julgamento, conforme resulta das atas respetivas (cfr. fls. 470 a 472, 510 a 513 e 517 a 518).
18. A 24 de junho de 2019, foi proferida a seguinte sentença
“VI. Dispositivo
Nestes termos:
A - Julgo parcialmente procedente a ação intentada pela Autora AA:
- Condenando a Ré Fidelidade a pagar àquela Autora:
i) A quantia indemnizatória de € 944,63 (novecentos e quarenta e quatro euros e sessenta e três cêntimos), a título de danos patrimoniais pelas despesas médicas, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a notificação do requerimento de liquidação até integral pagamento;
ii) A quantia indemnizatória de € 76.235,00 (setenta e seis mil duzentos e trinta e cinco euros), a título de danos patrimoniais pelo auxílio de terceira pessoa, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a notificação do requerimento de liquidação até integral pagamento;
iii) A quantia indemnizatória de € 22.302,00 (vinte e dois mil trezentos e dois euros), a título de danos patrimoniais pelas perdas salariais, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a notificação do requerimento de liquidação até integral pagamento;
iv) A quantia indemnizatória de € 150.000,00 (cento e cinquenta mil euros), para compensação do dano de perda de capacidade de ganho futuro, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
v) A quantia indemnizatória de € 45.000,00 (quarenta e cinco mil euros), para compensação dos danos não patrimoniais, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
vi) Relego, nos termos do artigo 609º/2, do CPCiv, para incidente de liquidação, a fixação de indemnização em virtude de posterior necessidade de realização de tratamentos de fisioterapia decorrentes de novas intervenções cirúrgicas para correção das sequelas;
- Condenando a Ré Fidelidade a pagar ao ISS a quantia de € 4.698,00 (quatro mil seiscentos e noventa e oito euros), pelas prestações processadas por esta entidade à Autora AA (referente ao período situado entre 01.04.2014 a 02.04.2017);
- Absolvendo a Ré Fidelidade do demais contra ela peticionado;
B - Julgo parcialmente procedente a ação intentada pelos Autores BB, CC e DD (apenso B):
- Condenando a Ré Fidelidade a pagar ao Autor BB:
i) A quantia indemnizatória de € 2.361,50 (dois mil trezentos e sessenta e um euros e cinquenta cêntimos), a título de danos patrimoniais decorrentes da perda total do veículo, da privação do uso e do custo do reboque, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a citação até integral pagamento;
ii) A quantia indemnizatória de € 137,27 (cento e trinta e sete euros e vinte e sete cêntimos), a título de danos patrimoniais pelas despesas médicas, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a citação até integral pagamento;
iii) A quantia indemnizatória de € 9.500,00 (nove mil e quinhentos euros), para compensação do dano de perda de capacidade de ganho futuro, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
iv) A quantia indemnizatória de € 10.000,00 (dez mil euros), para compensação dos danos não patrimoniais, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
- Condenando a Ré Fidelidade a pagar ao Autor CC:
i) A quantia indemnizatória de € 92,26 (noventa e dois euros e vinte e seis cêntimos), a título de danos
patrimoniais decorrente das despesas médicas, vencendo juros à taxa legal de 4%, desde a citação até integral pagamento (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
ii) A quantia indemnizatória de CHF 5.378,40 (cinco mil trezentos e setenta e oito francos suíços e quarenta cêntimos) ou o equivalente em euros à data do cumprimento, a título de danos patrimoniais por perdas salariais, ou o equivalente em euros na data do cumprimento, acrescida dos juros vencidos desde a citação até integral pagamento à taxa de 4% (sem prejuízo de ulterior atualização legal);
i) A quantia indemnizatória de € 55.000,00 (cinquenta e cinco mil euros), para compensação do dano de perda de capacidade de ganho futuro, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
i i ) A quantia indemnizatória de € 12.000,00 (doze mil euros), para compensação dos danos não patrimoniais, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
Condenando a Ré Fidelidade a pagar à Autora DD:
i ) A quantia indemnizatória de € 56,15 (cinquenta e seis euros e quinze cêntimos), a título de danos patrimoniais, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a citação até integral pagamento;
i i ) A quantia indemnizatória de CHF 2.245,95 (dois mil duzentos e quarenta e cinco francos suíços e noventa e cinco cêntimos) ou o equivalente em euros à data do cumprimento, a título de danos patrimoniais, por perdas salariais, ou o equivalente em euros na data do cumprimento, acrescida dos juros vencidos desde a citação até integral pagamento à taxa de 4% (sem prejuízo de ulterior atualização legal), absolvendo-a do demais peticionado;
i i i ) A quantia indemnizatória de € 10.000,00 (dez mil euros), para compensação dos danos não patrimoniais, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
- Absolvendo a Ré Fidelidade do demais contra ela peticionado;
C - Julgo parcialmente procedente a ação intentada pela SUVA (apenso C):
- Condenando a Ré Fidelidade a pagar àquela a quantia de CHF 33.733,05 (trinta e três mil setecentos e trinta e três francos suíços e cinco cêntimos) ou o equivalente em euros na data do cumprimento, acrescida dos juros vencidos desde a citação até integral pagamento à taxa de 4% (sem prejuízo de ulterior
atualização legal), absolvendo-a do demais peticionado;
- Absolvendo a Ré Mapfre do pedido contra ela formulado.
As custas são da responsabilidade dos Autores das ações principal e apensas sob as letras B e C e da Ré Fidelidade, na proporção do respetivo decaimento (cfr. artigo 527º/1/2, do CPCiv), sem prejuízo do apoio judiciário de que goza a Autora AA.
Registe e notifique.
Corrijo o valor da ação principal para o que resulta da soma do valor inicial fixado no despacho saneador (€
150.000,00) ao valor do pedido liquidado (€ 464.719,63), ou seja, para o montante de € 614.719,63 (seiscentos e catorze mil setecentos e dezanove euros e sessenta e três cêntimos) (cfr. artigo 299º/4, do CPCiv).
Dê pagamento às faturas apresentadas pelo GML neste processo, bem como no apenso B, entrando, oportunamente, em regra de custas.”
19. Inconformada, a Ré Fidelidade interpôs recurso de apelação.
20. Os Autores apresentaram contra-alegações, tendo concluído pela manutenção da sentença recorrida.
21. A Ré Mapfre apresentou igualmente contra-alegações, concluindo igualmente pela confirmação da sentença recorrida no que diz respeito ao apuramento da responsabilidade pela ocorrência do acidente.
22. Por acórdão de 5 de dezembro de 2019, o Tribunal da Relação …. decidiu o seguinte:
“Pelo exposto, acordam os juízes desta Relação em julgar parcialmente procedente a apelação em presença, revogando-se parcialmente a sentença recorrida, e, consequentemente, decide-se:
1. Fixar em € 37.835,00 (trinta e sete mil oitocentos e trinta e cinco euros), a quantia indemnizatória devida à Autora AA, a título de danos patrimoniais pelo auxílio de terceira pessoa, vencendo juros à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa), desde a notificação do requerimento de liquidação até integral pagamento;
2. Fixar em € 150.000,00 (cento e cinquenta mil euros), a quantia indemnizatória devida à Autora AA para compensação do dano de perda de capacidade de ganho futuro (dano biológico), sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
3. Fixar em € 30.000,00 (trinta mil euros) a quantia indemnizatória devida ao autor CC para compensação do dano biológico, sobre a qual vencem juros, desde a data da prolação da presente decisão até integral pagamento, à taxa legal de 4% (sem prejuízo de posterior alteração legislativa);
4. Condenar a ré Fidelidade a pagar a todos os autores as quantias indemnizatórias ora fixadas, assim como as demais fixadas na decisão recorrida, que se mantém, à semelhança do pedido de reembolso formulado pelo ISS, na proporção de 50%, absolvendo-a do demais peticionado pelos autores e interveniente ISS.
5. Condenar a ré Mapfre a pagar à autora Suva 50% da quantia fixada na parte dispositiva da decisão recorrida sob a al. C), absolvendo-a do demais peticionado por esta autora.
Custas em ambas as instâncias pelos autores e rés na proporção do respetivo
decaimento (art. 527º, n.º 1 e 2, do C. P. Civil).”
2 3 . Os Autores AA, BB, CC e DD, inconformados, interpuseram recurso de revista, apresentando as seguintes Conclusões:
“1ª
O acórdão recorrido violou, entre o mais, o disposto nos artigos 564º do Código Civil e os artigos 3º e 13º do Código da Estrada.
2ª
Começando pela questão da divisão da responsabilidade em partes iguais (50%) que ocorreu no acórdão recorrido, com o devido respeito, nada mais errado.
3ª
Com efeito, e para o que a esta parte importa, ficou provado o seguinte:
g) – A EN …., ao Km ……, na freguesia de ... de ..., comporta dois sentidos de trânsito, sendo que, no sentido de marcha B…/P…., ascendente, inicia a formação de duas vias de trânsito.
h) – O veículo BR invadiu a zona de raias oblíquas, delimitada por linhas contínuas, existente no local (que separava as hemifaixas de rodagem no sentido B…/P…. e no sentido contrário), por onde circulava o
veículo XO, quando este se encontrava a iniciar a ultrapassagem de um veículo à sua direita.
i) – Tendo o veículo BR embatido com a parte da frente do seu lado direito na frente do XO. (o sublinhado e destacado é nosso).
4ª
Ou seja, ficou perfeitamente demonstrado que o veículo seguro na recorrida invadiu, desde o seu início – atendo o sentido de marcha P… – B... – a zona das raias oblíquas existente no local onde ocorreu o acidente e que separa os 2 sentidos de marcha.
5ª
E essa invasão por parte do veículo seguro na recorrida ocorreu apenas e só pela velocidade excessiva e inadequada a que circulava – ainda que não quantificada –, pois que ficou demonstrado à saciedade que nada nem nenhum obstáculo lhe surgiu para o fazer invadir aquela zona de raias oblíquas.
6ª
Dispunha, assim, e como decorre da matéria de facto tida por provada, de 3,70 metros livres da sua faixa de rodagem por onde podia e devia ter circulado sem perigo de ter colidido, como colidiu, com o veículo dos recorrentes (alínea b. dos factos provados).
7ª
É, assim, totalmente descabida a conclusão que é retirada no acórdão em crise, que não alterou minimamente fosse que alínea fosse da matéria de facto tida por provada e não provada a propósito do modo como ocorreu o acidente dos autos, quando decide atribuir 50% de responsabilidade ao condutor do veículo dos recorrentes por violação do disposto nos artigos 38º e 41º do Código da Estrada.
8ª
Não há, como está até fácil de perceber, a mais ténue possibilidade de inserir no comportamento tido por provado do condutor do veículo dos recorrentes o que vai previsto naqueles dois dispositivos legais.
Nem sequer com o seu comportamento – tido por provado – se consegue afirmar, como se fez no ponto II do sumário do acórdão aqui em crise, que tenha sido colocado em crise em âmbito de protecção dessas duas normas...!
9ª
Já o mesmo se não pode afirmar do comportamento – demonstrado e provado – do condutor do veículo seguro na recorrida, que violou grosseiramente, entre outros, o disposto nos artigos 3º e 13º do Código da Estrada.
10ª
E perceba-se de uma vez por todas que o embate ocorreu com a frente direita do veículo seguro na recorrida na parte da frente do veículo dos recorrentes; o mesmo é dizer, que independentemente de ter havido uma pequena invasão da parte final dessa zona zebrada por parte do condutor do veículo dos recorrentes, o embate ter-se-ia produzido de igual modo, se não na zona frontal, na sua zona lateral.
11ª
E se assim tivesse sucedido, e não sucedeu, ao invés de termos dois veículos intervenientes no acidente dos autos, teríamos um terceiro que era precisamente aquele que o condutor do veículo dos recorrentes estava a ultrapassar (que seria atingido lateralmente pelo veículo dos recorrentes em consequência de uma projecção).
12ª
Não faz, por isso e com o devido respeito até pela matéria de facto que foi tida por provada e não provada a este propósito, e, bem assim, à extensa fundamentação de quem imediou a prova, que, sem mais, se decida alterar a decisão de 1ª Instância como se alterou.
13ª
Como resultou da extensa prova produzida em sede própria e apreciada devida e exaustivamente pela Meritíssima Juíza de 1ª Instância, o acidente dos presentes autos ficou a dever-se a culpa exclusiva, e diríamos nós grave, do condutor do veículo seguro na recorrida, que encontrou como explicação – pasme- se – o facto de o veículo dos recorrentes ter seguido em frente...!
14ª
Claro ficou que quem entrou em rota de colisão com o veículo dos recorrentes, fazendo letra morta daquela zona de raias oblíquas, foi o condutor do veículo seguro na recorrida que, podendo explicar devidamente o modo como o acidente ocorreu, preferiu manter-se no registo de que se apercebeu e assustou com aquilo que declarada e demonstradamente não sucedeu, isto é, que o veículo dos recorrentes seguiu em frente...!
15ª
Ocorre assim perguntar o que teria sucedido se aquele veículo seguro na recorrida não tivesse invadido uma zona para a qual lhe estava vedada a circulação pela existência de linha longitudinal contínua com uma zona zebrada em crescimento, como o demonstram as várias imagens juntas aos presentes autos?
16ª
A resposta é fácil de encontrar: - de acordo com a prova produzida em sede de audiência de discussão e julgamento, matéria de facto tida por provada e não provada (sendo esta última tão só a “tese” da recorrida), o acidente dos autos não teria ocorrido...!
17ª
Por isso, e nesta parte deve o acórdão recorrido ser revogado, mantendo-se o que se tinha douta e ponderadamente decidido em 1ª Instância, ou seja, pela culpa exclusiva do condutor do veículo seguro na recorrida.
18ª
Já quanto à redução operada pelo Tribunal da Relação … a respeito da indemnização devida ao recorrente CC pelo dano futuro (perda futura de ganho e dano biológico) mal andou esse Tribunal.
19ª
Com efeito, e depois de muitas referências ter efectuado a propósito de muitos doutos acórdãos dos nossos Tribunais Superiores, em especial deste Supremo Tribunal de Justiça, com o devido respeito, ficamos sem perceber como pôde o Tribunal recorrido chegar ao valor de 30.000,00€.
20ª
Com efeito, para o cálculo da perda futura de ganho, como vai sendo entendimento unânime na nossa Jurisprudência, não sendo o seu cálculo meramente aritmético, vai decorrendo o mesmo do recurso à equidade com o auxílio das conhecidas e reconhecidas tabelas financeiras.
21ª
E com base nos factos tido por provado nas alíneas eeee), aaaaa) e bbbbb), os quais, como decorre do teor
do acórdão recorrido, ali foram tidos em linha de conta, temos o seguinte:
- ficou a padecer de uma IPG de 3 pontos;
- tinha 25 anos à data do acidente dos autos (com uma esperança média de vida até aos 70 anos, nos dizeres do Acórdão recorrido) e
- auferia a quantia mensal de 4.100,00 €, 13 vezes por ano.
22ª
Por isso, e socorrendo-nos dos critérios que norteiam as tabelas financeiras para efeitos de cálculo da perda futura de ganho, nomeadamente a idade, a IPG de que ficou afectado, o seu rendimento mensal e a esperança média de vida (tida em conta pelo Tribunal recorrido, de 70 anos) obteríamos a quantia de 47.154,76€ (4.100,00 € x 13 meses x 3% x 29,490160).
23ª
Se, por outro lado, e como se impõe até pelo entendimento unânime da nossa Jurisprudência, adicionarmos a essa quantia a que lhe é devida a título de dano biológico (que visa ressarcir como é sabido outros aspectos da IPG), considerando, nomeadamente o provado nas alíneas sss), vvv), xxx), zzz), dddd) e aaaaa) facilmente se lhe arbitrária, a esse título, uma quantia nunca inferior a 15.000,00€/20.000,00 €.
24ª
Assim, teríamos uma quantia global a rondar os 62.000,00/67.000,00€ €.
E será muito reduzi-la para a quantia de 55.000,00 € como o fez a Meritíssima Juíza de 1ª Instância?
Julgamos que não; quando muito pecará por defeito e não por excesso.
25ª
Agora reduzi-la para a quantia de 30.000,00 € como o fez o acórdão recorrido é que nos parece, com o devido respeito, desajustado, desadequeado e desprovido da mais elementar Justiça e equidade que deve nortear as decisões judiciais,
26ª
não obstante aqueles 2 conceitos de perda futura de ganho (ou chance) e o dano biológico, estarem bem sumariados nos pontos IV e V do Acórdão de que se recorre e que isso sim, reflecte aquilo que deve ser achado e tido em conta para se indemnizar qualquer lesado, vítima de acidente de viação,
27ª
pois, como nos ensinam os vários Acórdãos proferidos pelo STJ deverá aditar-se ao lucro cessante, decorrente da previsível perda de remunerações, calculada estritamente em função do grau de incapacidade permanente fixado, uma quantia que constitua a justa compensação do referido dano biológico consubstanciado na privação de futuras oportunidades profissionais, precludidas irremediavelmente pela capitis deminutio de que ficou a padecer (o lesado), bem como pelo esforço acrescido que o já relevante grau de incapacidade fixado irá envolver para o exercício de qualquer tarefas da vida profissional ou pessoal (do lesado).
Pelo exposto,
revogando-se o acórdão recorrido e mantendo-se o que foi decidido em sede de decisão de 1ª Instância no que ao que em crise está no presente recurso é fazer sã e acostumada
JUSTIÇA”.
24. Também a Ré Mapfre interpôs recurso de revista, expondo as seguintes Conclusões:
“1. O presente recurso de revista tem unicamente por objecto a decisão proferida a respeito da culpa/responsabilidade na produção do acidente, e, atenta a posição processual da Seguradora aqui recorrente (que apenas é parte na acção referente ao apenso C), apenas terá, para a sua esfera jurídica, efeitos directos quanto ao último segmento condenatório do acórdão (ponto 5. Da parte decisória, que condena a aqui recorrente a pagar à “SCHWIEZERISCHE UNFALLVERSICHERUNGSANSTALT” Euro 15.
753,33).
2. É convicção da Seguradora aqui recorrente que, em face da materialidade provada e agora assente, se impõe repristinar a decisão proferida na 1ª instância quanto à determinação da culpa e responsabilidade pela ocorrência do acidente viário dos autos, que deverá ser atribuída, em exclusivo, ao condutor do veículo seguro na “FIDELIDADE”
3. E, consequentemente, impõe-se absolver a Seguradora aqui recorrente do pedido contra si formulado pela “SCHWIEZERISCHE UNFALLVERSICHERUNGSANSTALT” (doravante e, por facilidade, designada SUVA) tal como muito bem se havia ajuizado na 1ª instância.
DA RESPONSABILIDADE PELA OCORRÊNCIA DO ACIDENTE DE VIAÇÃO
4. Sempre com o máximo respeito por entendimento diverso, não pode a recorrente concordar com a decisão vertida no acórdão recorrido quanto à responsabilidade pela ocorrência do evento rodoviário em análise nos presentes autos, não se conformando com a imputação, ao seu segurado, de qualquer quota parte de culpa na produção do evento rodoviário em causa.
5. No caso sub judice, o facto do condutor do XO ter iniciado a manobra de ultrapassagem e circulado, parcialmente, pela zona de raias oblíquas é, sempre com o merecido respeito, absolutamente inócuo para a apreciação da culpa e do nexo de causalidade das condutas estradais para a ocorrência da colisão.
6. O facto do XO ter ocupado a zona de raias oblíquas após ter iniciado a manobra de ultrapassagem não poderá, e sempre com o máximo respeito, servir de factor desculpabilizador da perigosidade e da censurabilidade da conduta estradal do BR e, sobretudo, para minimizar o grau de culpa do mesmo para a eclosão do acidente.
7. A concreta e efectiva causa do acidente foi, tão só, e ao contrário do que se verte no acórdão recorrido, a invasão injustificada e protagonizada pelo BR da zona de raias obliquas existente do outro lado da sua hemi faixa.
8. Analisando a censurabilidade das condutas estradais de ambos os intervenientes neste acidente, temos que, abstractamente, numa manobra de ultrapassagem é exigível ao condutor que sinalize a manobra, se certifique que a pode iniciar com segurança e que dirija o veículo para a sua esquerda, podendo até ingressar na hemi fixa destinada ao transito em sentido contrário (desde que se certifique que não existe circulação pela mesma), para se colocar paralelamente ao veiculo a ultrapassar e depois, finalizar a manobra.
9. Ou seja, é indispensável á ultrapassagem que o veículo ingresse, pelo menos em parte, na hemi-faixa destinada ao trânsito em sentido contrário.
10. O que sucedeu no caso em apreço é que, ao invés de ingressar na hemi faixa destinada ao trânsito em sentido contrario, o condutor do XO, ingressou na zona “zebrada”.
11. E com tal manobra, isoladamente considerada, nenhum perigo trouxe ao tráfego rodoviário.
12. Já o BR, simplesmente, por mera imperícia, perdeu o controlo do veículo e saiu da sua hemi-faixa, ingressando na zona “zebrada” de forma inopinada, como se de uma invasão do sentido contrário se passasse.
13. A ocupação parcial da zona “zebrada” pelo XO não constituía qualquer embaraço ao trânsito que circulava em sentido contrário, não sendo, de per si, adequada a causar o acidente (e mesmo que se admita, o que não é o caso, que se trate de manobra infractora do art. 38º n.º 3 e 41º n.º 1 al a) do Cód.
Estrada, como se considerou no acórdão recorrido)
14. Tanto mais quando o BR tinha a hemi-faixa que era estava destinada, inteiramente livre de obstáculos (note-se que faixa de rodagem disponível media 3,70 m) e, portanto, completamente disponível para prosseguir normalmente a sua marcha.
15. O embate entre os veículos só ocorreu porque, sem qualquer justificado motivo, o BR perdeu o controlo do veículo e foi colher o XO.
16. A manobra de ultrapassagem iniciada pelo XO, em condições normais – i.e sem a perda de direcção do BR - não era passível de causar qualquer transtorno a quem circulasse na hemi-faixa destinada ao trânsito no sentido P…/B….
17. Não fosse a interposição do factor externo e imprevisível consubstanciado no desnorte da condução do BR, a manobra e ultrapassagem iniciada pelo XO estava a ser realizada em local e de forma que não potenciava o risco de colisão.
18. Perante esta concreta mecânica do acidente, impõe-se ajuizar (aliás nos mesmos moldes da decisão proferida na 1ª instância) que o acidente se deu tão só porque o condutor do BR não logrou conter o veículo e conduzi-lo dentro da hemi faixa de rodagem que lhe estava destinada, invadindo a zona das raias oblíquas e embatendo no XO.
19. Não devendo, no caso concreto, ser atendido, como factor determinante da causalidade adequada e da imputação da responsabilidade pela ocorrência do embate, o facto de também o XO incorrer em infracção às regras estradais, pois tal infracção não foi a que deu causa ao acidente.
20. Recorde-se a este respeito o entendimento vertido no Douto Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 18/02/2004, Processo 04B2400, disponível em www.dgsi.pt
21. Entende a recorrente Seguradora que, efectivamente, no caso dos autos e não obstante poder entender-se que o XO infringiu disposições legais em sede de condução estradal, certo é que, ainda assim se deverá considerar, numa aferição de juízo de causalidade adequada, que não foi essa infracção que deu causa ao acidente.
22. Deverá entender que é de imputar a responsabilidade pelo acidente, a título de culpa e em exclusivo, ao condutor que tendo uma hemi-faixa de rodagem livre e desimpedida à sua frente, por imperícia, perde o
controlo do veículo e desgovernado, entra numa zona de raias oblíquas existente para lá do eixo da via, assim colhendo outro veículo que circulava em sentido oposto e que, iniciando uma manobra de ultrapassagem, ocupou parcialmente essa zona de raias oblíquas.
23. Assim sendo, e face ao supra expendido, andou mal o douto acórdão recorrido ao imputar a responsabilidade pela ocorrência do acidente, a título de culpa, a ambos os condutores, na proporção de 50% a cada um, com tal decisão violando, entre o demais, o disposto nos arts. 483º e 487º do Cód. Civil.
24. Deverá, pois, ser o douto acórdão revogado e substituído por outro que, repristinando a decisão proferida na 1ª instância a respeito da imputação da responsabilidade pela ocorrência do sinistro dos autos, absolva a Seguradora aqui recorrente do pedido contra si formulado.
SEM PRESCINDIR
25. Na eventualidade de assim não ser doutamente entendido – o que por mero dever de patrocínio se equaciona – e se considerar que a responsabilidade pela ocorrência do evento rodoviário dos autos deverá imputar-se, a título de culpa, a ambos os condutores, ainda assim andou mal o Mmo. Tribunal a quo ao fixar uma concorrência de culpas em igual proporção.
26. Na realidade, se se atender às concretas condutas estradais aqui em causa – e para aqui se reproduzindo o supra vertido a tal respeito – é se forçado a considerar que a conduta protagonizada pelo condutor do BR e substancialmente mais gravosa do que a conduta do XO, veiculo seguro na aqui recorrente.
27. E por tal razão, a divisão salomónica da responsabilidade levada a efeito no acórdão recorrido é demasiado penalizadora para o condutor do XO.
28. Analisadas as duas concretas condutas estradais, urge considerar que o facto do condutor do BR ter perdido o controlo do veículo, na sequência do que, desgovernado, ingressou na zona de raias obliquas já após o eixo da via e do lado da hemi-faixa destinada ao sentido contrário, onde atingiu o XO, deverá merecer uma censura substancialmente superior ao facto do XO ter iniciado uma manobra de ultrapassagem, para o que utilizou parcialmente a zona de raias oblíquas, mas sempre dentro do espaço destinado ao seu sentido de marcha.
29. Nessa medida, e sempre com o máximo respeito por entendimento diverso, a pugnar-se pela repartição de culpas, sempre deverá fixar-se 80% para o condutor do BR, veículo seguro na FIDELIDADE, e 20% para o condutor do XO; veículo seguro na aqui recorrente.
30. Ao verter diverso entendimento, o acórdão recorrido violou, entre o demais, o disposto nos arts. 483º e
487º do Cód. Civil.
31. Impõe-se, pois, igualmente nesta sede, a sua revogação nos termos sobreditos.
TERMOS EM QUE DEVERÁ SER CONCEDIDO
PROVIMENTO AO RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO, E REVOGADO O DOUTO ACÓRDÃO RECORRIDO NO QUE DIZ RESPEITO AO APURAMENTO DA RESPONSABILIDADE PELA OCORRÊNCIA DO ACIDENTE E, EM CONSEQUÊNCIA, ABSOLVER-SE A RECORRENTE MAPFRE – SEGUROS GERAIS, S.A. DO PEDIDO CONTRA SI FORMULADO, SÓ ASSIM SE FAZENDO INTEIRA E SÃ
JUSTIÇA.”
25. Por seu turno, a Ré Fidelidade apresentou contra-alegações, oferecendo as seguintes Conclusões:
“1. O presente recurso tem como objecto comum a ambos os recorrentes a culpa e contribuição do veículo XO para a produção do sinistro dos autos.
O recurso dos AA. visa ainda a reapreciação da quantia arbitrada ao A. CC, a título de compensação pelo dano biológico.
DA CULPA E CONTRIBUIÇÃO DO VEÍCULO “XO” PARA A PRODUÇÃO DO SINISTRO
2. Em resumo: o sinistro destes autos ocorreu dentro de uma zona de raias oblíquas, onde se encontravam (aí circulavam) ambos os veículos intervenientes no mesmo.
3. Não se demonstrou a razão que levou o BR a invadir a zona raiada, mas demonstrou-se que o XO aí se encontrava porque estava a realizar uma manobra de ultrapassagem.
4. Apesar de toda a confusão que tentam gerar os recorrentes, eis a factualidade provada (e não impugnada, nem alterada):
h) O veículo BR invadiu a zona de raias oblíquas, delimitada por linhas contínuas, existente no local (que separava as hemifaixas de rodagem no sentido B…/ P…. e no sentido contrário), por onde circulava o veículo XO, quando este se encontrava a iniciar a ultrapassagem de um veículo à sua direita.
i) Tendo o veículo BR embatido com a parte da frente do seu lado direito na frente do XO. (sublinhados nossos)
5. Não resultou provado, e é rotundamente falso, como pretendem fazer crer os recorrentes AA., que o sinistro tenha ocorrido “na parte final”, “no final”, “ligeiramente”, “a nascer” das raias oblíquas.
6. O que resultou provado é que o XO circulava nas raias obliquas, onde se
encontrava a realizar uma ultrapassagem.
7 . Sabe-se, também, que o acidente se deu dentro dessa zona raiada e que se o XO não circulasse, temerariamente, dentro dessa zona o sinistro jamais ocorreria.
8. Antes de mais, fica difícil compreender como é que a circulação do BR pela zona raiada, protegida por linhas contínuas, de ambos os lados, suscita tanto repúdio aos recorrentes, mas o mesmo já não acontece quanto à circulação do XO nessas mesmas linhas… O “muro intransponível” a que se referem, tanto é intransponível para o BR, como para o XO…
9 . A fundamentação do recurso é inatingível porque absolutamente incoerente e contraditória! Em lado nenhum da factualidade assente – ou da prova produzida – resulta que o XO estivesse, “apenas na saída/ao nascer, etc…” da zona de raias oblíquas.
10. Contudo, os recorrentes conseguem, repudiar veementemente o comportamento do BR, mas não o do condutor do XO, que é exactamante o mesmo!
11. Analise-se, mais uma vez, o Ac. do STJ, de 10/04/2014 proc. nº 805/10.4TBPNF.P1.S1, disponível em www.dgsi.pt, já citado no recurso que antecede e nas alegações supra.
12. Não foi o acto isolado praticado pelo BR que produziu o sinistro.
13. Ambos os condutores actuaram em contravenção ao CE, ambos efectuaram manobras proibidas e perigosas e foi a conjugação do comportamento de ambos: a ultrapassagem na zona raiada e a invasão dessa mesma zona que deu origem ao sinistro dos autos, ocorrido dentro daquela mesma zona.
14. Assim, deve manter-se, integralmente, o Acórdão sob censura.
ii.2 DA QUANTIA ARBITRADA A CC A TÍTULO DE COMPENSAÇÃO PELO DANO BIOLÓGICO
15. A este propósito, convém esclarecer, desde já, que a quantia arbitrada pela primeira instância (“para compensação do dano de perda de capacidade de ganho futuro”) ascendeu a € 55.000,00.
16. Já o Tribunal a quo reduziu “a quantia indemnizatória fixada (…) para compensação do dano biológico”
a € 30.000,00.
17. Para analisar esta questão, deverá, desde logo, atender-se à fundamentação sintética e esclarecedora do Acórdão do TR …, supra transcrita.
18. O recorrente entende que para fixação daquele montante, o Tribunal a quo não considerou “os conceitos de perda de ganho (ou chance) e o dano biológico”.
19. O Tribunal a quo explorou, densamente, os conceitos, e destrinçou entre ao dano biológico com e sem repercussão salarial/rebate profissional, tendo, inclusive, esclarecido que o dano biológico – ainda que sem a dita repercussão – é passível de valorização autónoma, já que os meros esforços acrescidos são um dano em si mesmo.
Parece é olvidar-se o recorrente que, in casu, o défice funcional é compatível com o exercício da actividade profissional.
20. Tudo considerado – e sem qualquer incoerência ou inconsistência – o Tribunal a quo concluiu, e bem que o montante a arbitrar teria de considerar os esforços acrescidos a que o A. está e estará sujeito para toda a sua vida.
21. É falso que o acórdão não tenha considerado o conceito de perda futura de ganho e o dano biológico.
Foi por tê-los considerado que jugou razoável alterar a quantia arbitrada, reduzindo-a, já que se trata, apenas (e sem menosprezo pelas consequências para o sinistrado) de défice funcional compatível com o exercício da atividade profissional, i.e., sem rebate profissional.
22. Assim sendo, também quanto a esta questão dever manter-se, integralmente, o acórdão que antecede.
TERMOS EM QUE:
Deve o presente recurso ser julgado improcedente, mantendo-se integralmente o
acórdão sob censura, com o que se fará a acostumada JUSTIÇA!”
26. Ponderando rejeitar o recurso de revista interposto pelos Autores B B e DD, a Relatora convidou as partes, nos termos do art. 655.º, n.º 1, do CPC, a dizer o que houvessem por conveniente dentro do prazo legalmente previsto.
27. Tanto os Autores BB e DD como a Ré Fidelidade reconheceram razão à Relatora no que respeita à inadmissibilidade do recurso de revista interposto pelos primeiros.
II – Questões a decidir
O objeto do recurso é delimitado pelas conclusões da alegação dos Recorrentes (arts. 635.º, n.º 4, 637.º, n.º 2 e 639.º, n.os 1 e 2, do CPC), não podendo o Tribunal conhecer de matérias nelas não incluídas, a não ser que as mesmas sejam de conhecimento oficioso (art. 608º, n.º 2, in fine, aplicável ex vi do art. 663º, n.º 2, in fine, do CPC).
Estão em causa as seguintes questões:
1. (in)admissibilidade do recurso de revista interposto pelos Autores BB e DD por falta de sucumbência;
2. determinação da responsabilidade pelo ocorrência do acidente:
2.1. se é de imputar apenas ao condutor do veículo BR (como defendem os Recorrentes), ou a ambos os condutores (como decidiu o Tribunal da Relação …..);
2.2. no caso de se concluir pela concorrência de culpas dos condutores de ambos os veículos, definir a medida da contribuição de cada um deles para o sinistro;
3 . alteração ou não do quantum atribuído ao Autor CC a título de indemnização pelo dano patrimonial futuro (resultante do dano biológico).
III – Fundamentação
A) De Facto
O Tribunal de 1ª Instância julgou provados os seguintes factos:
“a) Cerca das 9h00, do dia 11.01.2014, na EN ..., ao km ….., sito em ... de ..., …., o veículo ..-..-BR (BR) circulava pela E.N. …, no sentido P…/B…., e o veículo de matrícula XO-..-.. (XO), conduzido pelo Autor BB, circulava em sentido contrário.
b) No local do embate, existe uma faixa de rodagem, com 3,70 m de largura, para quem circulava no sentido P…/B….
c) Essa faixa de rodagem, imediatamente antes do embate, está separada da via de rodagem contrária, por linhas contínuas paralelas, com uns pinos instalados entre estas linhas.
d) Essas linhas longitudinais contínuas terminam passados 30 m a contar do último pino, atento o sentido P…/B…. .
e) Para quem circulava no sentido B…/P…, imediatamente após o local do embate, existem duas faixas de rodagem com 6,90 m de largura, demarcadas, entre elas, por uma linha longitudinal descontínua.
f) No local do embate, a estrada descreve uma curva para a esquerda, consoante o sentido P…/B….
g) A EN 103, ao km 45,775, na freguesia de …., comporta dois sentidos de trânsito, sendo que, no sentido de marcha B…/P…, ascendente, inicia a formação de duas vias de trânsito.
h) O veículo BR invadiu a zona de raias oblíquas, delimitada por linhas contínuas, existente no local (que separava as hemifaixas de rodagem no sentido B…/ P… e no sentido contrário), por onde circulava o veículo XO, quando este se encontrava a iniciar a ultrapassagem de um veículo à sua direita.
i) Tendo o veículo BR embatido com a parte da frente do seu lado direito na frente do XO.
j) O veículo BR, após esse embate, rodopiou no sentido dos ponteiros do relógio.
k) O piso, no local do embate, é asfaltado.
l) A Autora AA era passageira do veículo XO e ficou ferida.
m) Do local do embate, foi transferida para o Hospital ….
n) Na data da entrada, apresentava dor e deformidade do joelho direito, dor no punho direito e deformidade no antebraço esquerda e ferida da perna direita.
o) Foi observada por equipa de trauma constituída por cirurgia geral e ortopedia, tendo sido diagnosticado:
fratura cominutiva, intra-articular do radio distal à direita; fratura supra e intracondiliana do fémur direito;
fratura dos ossos do antebraço à esquerda, com fragmento segmentar do cúbito esquerdo; ferida na perna direita.
p) Foi feita imobilização provisória das fraturas com talas de gesso e ficou em observação de cuidados intermédios.
q) Em 12.01.2014, foi transferida para o serviço de ortopedia para continuação do tratamento.
r) Durante o internamento desenvolveu tosse produtiva.
s) Em 21.01.2014 reiniciou condições para tratamento cirúrgico, tendo sido realizada osteossíntese da fratura supra e intercondiliana do fémur direito com placa poliax, e redução aberta e osteossíntese da fratura rádio distal à direita com placa DVR, sem intercorrências.
t) Em 31.01.2014, foi levada novamente ao bloco, tendo sido submetida a redução e osteossíntese da fratura dos ossos do antebraço esquerdo com placas LCD-CP de pequenos fragmentos.
u) Permaneceu internada até ao dia 14.02.2014, sem quaisquer intercorrências de relevo, altura em que teve alta hospitalar, recolhendo a sua casa, onde se manteve em repouso, apenas se deslocando com o auxílio da cadeira de rodas.
v) A Autora iniciou reabilitação física com apoio de medicina física e reabilitação no Hospital de ... .
w) Durante o internamento também foi avaliada por oftalmologia e neurologia, tendo sido orientada pelos especialistas.
x) Em 23.06.2014, foi submetida a extração de parafuso de osteossíntese dos ossos do antebraço para melhoria da amplitude de pronosupinação.
y) Teve recomendação para fazer penso 2 vezes por semana e retirar pontos ao 15.º dia, e manter o braço imobilizado ao peito, sem fazer esforços, motivo por que continuou a deambular apenas com o auxílio de cadeira de rodas e a manter os tratamentos diários de fisioterapia.
z) A partir de finais de agosto de 2014, iniciou a marcha com o auxílio de duas canadianas apenas nos tratamentos de fisioterapia, mantendo o uso da cadeira de rodas, mantendo o acompanhamento, no Hospital ...., pelas especialidades de ortopedia, medicina física e de reabilitação e psiquiatria.
aa) A Autora AA interrompeu os serviços de fisioterapia em novembro de 2015, uma vez que, no dia 25.11.2015, por não consolidação da fratura do fémur direito foi, pela 4ª vez, foi submetida a mais uma intervenção cirúrgica – para reconstrução com técnica de Masquelet – no Hospital ..., onde permaneceu internada até ao dia 08.12.2015.
bb) No dia 17.02.2016, foi sujeita a nova intervenção cirúrgica – 2º tempo – em que foi submetida a enxerto ósseo com RIA do fémur esquerdo e colocação no local da pseudartrose do fémur direito.
cc) Permaneceu internada até ao dia 22.02.2016, altura em que recolheu a sua casa, onde se manteve em repouso durante cerca de um mês.
dd) Em outubro de 2016, iniciou os tratamentos de fisioterapia, que manteve até inícios de janeiro de 2017, sendo que ainda é seguida, no Hospital ...., nas especialidades de ortopedia – uma vez que a pseudartrose persiste –, medicina física e de reabilitação e psiquiatria.
ee) Apenas consegue deambular com o auxílio de 1 canadiana, por curtos espaços de tempo, pois tem de parar para descansar.
ff) E não consegue ficar de pé por muito tempo, necessitando do auxílio de 3.ª pessoa para algumas tarefas domésticas.
gg) Apesar dos tratamentos a que se submeteu, a Autora AA ficou a padecer de: pseudartrose do fémur direito; limitação da extensão do punho esquerdo; limitação da flexão do punho direito; limitação da extensão do punho direito; limitação da extensão radial do punho direito; limitação da flexão do punho esquerdo; limitação do desvio radial/desvio cubital do punho esquerdo; perturbação persistente do humor, com ligeira repercussão na autonomia pessoal, social e profissional; cicatriz de 27 cm por 1,5 cm de comprimento, do terço médio e lateral da coxa até ao joelho; cicatriz de 8 cm por 4 cm no terço médio e anterior da perna; diversas cicatrizes na coxa e na perna, a maior de 1 cm por 1 cm e a menor de 0,50 cm;
cicatriz de 5 cm no flanco esquerdo do abdómen; cicatriz de 6 c, por 2 cm, no terço inferior e anterior do antebraço; cicatriz linear de 3 cm no terço inferior e lateral do antebraço; palpação do antebraço, cicatriz de 10 cm por 3 cm no terço médio e inferior do antebraço; cicatriz de 17 cm por 2 cm no terço superior e médio e posterior do antebraço; – palpação da anca, do antebraço e punho dolorosas; encurtamento aparente do membro de 1 cm (85 cm contra 86 cm); limitação da mobilidade do joelho (flexão até aos 90º e extensão até ao 5º).
hh) Essas sequelas determinaram-lhe uma incapacidade temporária profissional total de, pelo menos, 969 dias.
ii) Provocando-lhe um défice funcional permanente de 33,40516 pontos, que a torna incapaz para a sua profissão habitual de empregada de limpeza ou ajudante de cozinha, ou quaisquer outras que impliquem esforços pesados, locomoção prolongada ou que tenha que permanecer de pé por longos períodos.
jj) As lesões sofridas provocaram-lhe dores físicas, tanto no momento do embate, como no decurso do tratamento, quantificáveis num grau 5, numa escala de 1 a 7.
kk) E as sequelas de que ficou a padecer continuam a provocar-lhe dores físicas, incómodo e mal-estar, que a vão acompanhar durante toda a vida e que se exacerbam com as mudanças de tempo.
ll) As referidas sequelas determinam-lhe um dano estético de grau 5 (em 7), assim como uma repercussão permanente na atividade sexual fixável num grau 1 (numa escala de 1 a 7), pela dificuldade em ter relações.
mm) Devido ao estado em que ficou, ao tempo de internamento, às 5 intervenções cirúrgicas a que foi submetida, a Autora desenvolveu síndrome depressiva, o que faz com que tenha desenvolvido perturbação persistente do humor, sintomatologia ansiosa, humor irritável de tonalidade depressiva.
nn) O que tudo lhe causa dor, tristeza e amargura.
oo) Na altura do embate, a Autora AA tinha 47 anos de idade e era dinâmica e trabalhadora e saudável, tendo sofrido paralisia facial aos 18 e 25 anos.
pp) A Autora AA mantém seguimento em consulta externa de ortopedia e psiquiatria.
qq) A Autora AA tinha animais e cultivava legumes para consumo próprio.
rr) Trabalho que que valia, pelo menos, € 100,00 por mês.
ss) Além disso, trabalhava, para duas senhoras, na ..., sendo: a) numa 12,5 horas por semana, como empregada de limpeza; b) noutra, 80 horas por mês, como ajudante de cozinha, tudo de 2ª a 6ª feira, a € 5 por hora, o que significava um rendimento mensal, no total de € 650,00 mensais.
tt) Pelo que a Autora AA tinha um rendimento médio mensal de € 750,00/12 vezes por ano.
uu) Desde o dia do embate até hoje não trabalhou mais um dia que fosse, tendo deixado de perceber a quantia de € 27.000,00.
vv) Desde que teve alta hospitalar, em fevereiro de 2014, que tem recorrido aos serviços de uma mulher-a- dias.
ww) E, no estado físico em que ficou, já que não pode realizar tarefas que envolvam esforços pesados, locomoção prolongada ou que tenha de permanecer de pé por longos períodos, sendo que apenas deambula com o auxílio de uma canadiana, a qual vai continuar a necessitar até ao fim dos seus dias.
xx) Numa primeira fase, até fins de agosto 2014, necessitava de quem lhe fizesse a sua higiene pessoal, a vestisse, a pusesse pronta para ir para os tratamentos de fisioterapia diários, lhe confecionasse as refeições e lhe limpasse a casa.
yy) Não só porque apenas se locomovia com o auxílio de uma cadeira de rodas como tinha talas gessadas nos membros superiores, e o seu marido, também ele vítima do mesmo embate, não estava em condições de lhe prestar fosse que auxílio fosse, motivo pelo qual, desde 14.02.2014 até agosto de 2014, gastou € 3.900,00.
zz) A partir daí, até dezembro de 2015, continuou a necessitar de ajuda para algumas tarefas pessoais e da lide doméstica, já que a Autora AA apenas andava ora de cadeira de rodas ora com o auxílio de 2 canadianas, tendo gasto, de setembro de 2014 a dezembro de 2015, a quantia de € 6.115,00.
aaa) A partir de janeiro de 2016 e até fevereiro de 2017, a Autora AA recorre a esses serviços 44 horas por mês, por o que paga 220,00€ mensais, motivo por que teve um prejuízo de € 2.860,00.
bbb) A Autora AA vai continuar a necessitar do auxílio referido até aos fins dos seus dias.
ccc) A Autora AA poderá vir a necessitar de fazer fisioterapia, se vier a ser operada, de novo, para recuperação das sequelas.
ddd) A Autora AA gastou: em medicamentos: € 188,98; em taxas moderadoras: € 309,65; na cadeira de rodas: € 200,00; na rampa metálica de acesso: € 246,00; no total de € 944,63.
eee) A Autora AA sofreu de incapacidade temporária para o trabalho subsidiada pelo ISS desde 01.04.2014.
fff) A esse título, o ISS pagou, a título de subsídio de doença, entre 01.04.2014 a 02.04.2017, o montante de € 4.698,00.
ggg) Em consequência do embate, o Autor BB sofreu: fratura das apófises transversas esquerdas de C6 e C7; fratura do 1º arco costal esquerdo; fratura da omoplata direita; equimoses perioculares à direita; ferida palpebral.
hhh) Do local do embate, o Autor BB foi transferido para o Hospital ...., onde foi sujeito a tratamento conservador mediante: membro superior direito em suspensão; colar cervical esponjoso; e aplicação de cola biológica na ferida da pálpebra superior direita.
iii) Permaneceu em observação durante 24 horas, após o que recebeu alta hospitalar e recolheu a sua casa onde se manteve em repouso.