• Nenhum resultado encontrado

Milton

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Milton"

Copied!
2
0
0

Texto

(1)

MILTON

Artur Eduardo Benevides

Pertencia a uma raça espiritual que se vai extinguindo lentamen-te. Era um faiscador de palavras. Um poeta perdido no secreto es-plendor de seus sonhos. Um garimpeiro de estrelas, auroras e cre-púsculos. Um alimentador de memórias. Um embarcadiço de rru1 recordações.

Enquanto pôde, cumpriu, com dignidade, sua missão de escri-tor: narrou, contou, escreveu, recriou o tempo e a vida, distribuiu esperanças, fascinou as platéias e tornou maiores e mais belos os caminhos do tempo, para isso utilizando o poder maravilhoso do verbo, na continuação, em termos humanos terrenos, do milagre espantoso do Gênesis.

Generoso e fraterno, buscava realizar-se socialmente através do ideal de servir e, intelectualmente, na preservação da essência das cousas, numa literatura luminosa e poética, em que a constru-ção frásica tinha efeitos sensoriais os mais fortes e intensos.

Nunca deu valor às fugazes glórias do mundo e às atrações da pecúnia que, as mais das vezes, em lugar de enriquecer, empobre-ce ou avilta. Foi um espírito tocado de amor, de serenidade e de perdão, tudo fazendo pela prevalência dos ideais humanísticos na civilização tecnocrática em que vivemos.

Era um cavaleiro medieval, saído talvez da gloriosa epopéia da Távola Redonda, na busca incessante de ideias inatingíveis. Um coração que se emocionava a cada instante diante do espetáculo da vida. Um pensamento claro, límpido, criativo. Um modelo de gen-te, numa época em que o homem parece perder, a cada momento, os clarões de sua própria humanidade.

A morte, aliás, o perseguia há meses: levou-lhe em pouco tem-po, a cunhada, o irmão, a irmã e agora ele, para acabar de espe-daçar o coração de sua inconsolável mãe.

(2)

E a verdade é アセ・@ nos sentimos diminuídos com a morte de Milton Dias. A contar de agora, ele habita as névoas da saudade. E lá o encontraremos, a qualquer momento, a narrar, com graça e desenvoltura, as suas incríveis histórias, os seus casos, as suas deliciosas lembranças de Massapê, ou a demonstrar a extraordiná-ria grandeza interior que possuía, na alma impregnada de ternura, de estrelas, de sóis, de secretas e raras belezas.

Quase não nos conformamos, mas desde cedo aprendemos que são esses os imponderáveis desígnios de Deus em relação à nossa pobre vida. Agora, é Milton quem vai, na grande viagem sem volta, restando apenas, pelas sagradas promessas, a esperança da res-surreição, nas vinhas finais, depois que ocorrer o maravilhoso fe-nômeno da Parusia, em que ele acreditava.

Agora, tudo é silêncio, dor, crescente tristeza, fortes evocações, esquivos alumbramentos. São os amigos em desconsolo, as coroas de flores, as palavras veementes mas inúteis, as explosões emoti-vas, o vazio, o irremediável vazio.

Milton se vai. Inesperadamente. Na glória maior de sua ma-turidade de espírito, quando estava a escrever com plenitude de sabedoria e profundeza de idéias, interpretando o ser e a vida.

Foi meu colega de Clã, de Academia e de Universidade. Foi mais do que isso: foi um amigo-irmão. Sonhou comigo os primei-ros sonhos da mocidade. Esperou o que de bom se pode esperar deste mundo. E saiu vitorioso em tudo. Escritor primoroso, profes-sor consagrado, conversador incomparável, querido, venerado, so-licitado por todos para dar mais brilho às reuniões e às festas. Era uma palavra alegre, colorida, fascinante, múltipla. Uma inte-ligência fora do comum.

E é certo que vai fazer falta. Muita falta. Vai deixar claros impreenchiveis neste mundo que as orações piedosas continuam a chamar vale de lágrimas. Lágrimas que mais aumentam com sua incompreensível ausência, ele que era uma luz a clarear, meridia-namente, os amplos caminhos por onde andou.

Ah, meu Deus!!!

2 Rev. de Letras, Fortaleza, 6 (1 /2) - Jan./dez. 1983

Entendo que a tor desta U BBGG G B BGセ @ chel de Queiroz, tro de Humanidades mais do que eu, dução cultural publicação regular do, e, notadamente, te atividade criativa ficção, poesia e

Por outro

Referências

Documentos relacionados

Promovido pelo Sindifisco Nacio- nal em parceria com o Mosap (Mo- vimento Nacional de Aposentados e Pensionistas), o Encontro ocorreu no dia 20 de março, data em que também

Para entender o supermercado como possível espaço de exercício cidadão, ainda, é importante retomar alguns pontos tratados anteriormente: (a) as compras entendidas como

◯ b) Outras empresas, que os utilizam em seus próprios processos produtivos SOC 41.1 Se SIM para a PERGUNTA 41 alternativa (a) , em relação aos processos judiciais ou

Este trabalho buscou, através de pesquisa de campo, estudar o efeito de diferentes alternativas de adubações de cobertura, quanto ao tipo de adubo e época de

Acreditamos que o estágio supervisionado na formação de professores é uma oportunidade de reflexão sobre a prática docente, pois os estudantes têm contato

O candidato deverá apresentar impreterivelmente até o dia 31 de maio um currículo vitae atualizado e devidamente documentado, além de uma carta- justificativa (ver anexo

Não existe nenhuma “Realidade Quântica” concreta, os objetos e suas propriedades não têm valores definidos (não existem!) antes de serem medidos. • O ato de medir cria

d) independentemente dos registros contábeis cabíveis, nas notas explicativas aos balanços da sociedade - conforme determinado pelo item XVI do Título 4 do Capítulo II