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Ricardo Goretti MEDIAÇÃO E ACESSO À JUSTIÇA

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Academic year: 2021

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2017

MEDIAÇÃO E

ACESSO À JUSTIÇA

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Capítulo I

A SOCIEDADE NA MODERNIDADE FLUIDA E SUAS CRISES

Em uma de suas obras clássicas e referenciais para este trabalho, Mo- dernidade Líquida, Zygmunt Bauman (2001, p. 31) anotou: “[...] ouve-se algumas vezes a opinião de que a sociedade contemporânea [...] é inóspita e crítica”.

Sociedades adjetivadas de tal forma naturalmente tendem a ser as- sociadas a uma condição negativa, de crise, que merece ser analisada com cautela. A palavra crise costuma ser empregada como sinônimo de desastre ou catástrofe. De fato, pode ser utilizada para designar condições negativas extremas, mas não necessariamente. O vocábulo crise “[...] tem muito mais a ver com o termo criterion – princípio que usamos para tomar a decisão certa” (BAUMAN, 2000, p. 144).

O estado de crise, tal como descrito por Zygmunt Bauman (2000, p. 145), deve ser concebido como uma situação desafiadora, carregada de incertezas, na qual “[...] as ações rotineiras já não produzem mais os resultados com que nos acostumamos no passado”. O termo crise deve, assim, ser empregado para indicar um momento de tomada de decisões e mudanças, que podem ser positivas ou negativas.

Para colocar a coisa de maneira mais precisa, ainda pensamos atualmente em crise como momento de mudança decisiva para melhor ou pior, mas não mais como o momento em que decisões sensatas podem ser tomadas com autoconfiança para garantir uma virada para melhor. Em estado de crise não sabemos que rumo as coisas irão tomar; em estado de crise as coisas escapam ao controle, não temos domínio sobre o fluxo dos acontecimentos;

podemos tentar desesperadamente saída para a situação angustiosa, mas todos os nossos esforços não passarão de uma sucessão de tentativas e erros de experimentação no escuro, à espera de que algo resulte por fim disso.

Seja qual for a maré montante em época de crise, não é a da autoconfiança e segurança pessoal. O mais provável é que a confiança esteja em seu nível

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mais baixo, enquanto as sensações de incerteza e impotência e a inadequação dos instrumentos mentais e/ou materiais de ação alcança seu nível mais alto.

(BAUMAN, 2000, p. 144-145)

Considerando o vocábulo crise no sentido exposto, é possível afirmar que a sociedade brasileira atravessa uma crise de dimensão global, que se manifesta em diversos âmbitos dos cotidianos processos de interação humana, projetando influências decisivas na dinâmica das relações inter- subjetivas (no contexto das relações familiares, de consumo, vizinhança e, prematuramente, no cotidiano escolar), assim como no comportamento de pessoas em situação de conflito.

Para se entender o que acontece ou acontecerá em um determinado tempo de crise é preciso ser sensível à ambiguidade típica de uma realidade que se apresenta sob o aspecto de duas faces de uma mesma moeda. Uma ambiguidade marcada por incertezas, questionamentos e medos quanto aos rumos de um futuro duvidoso.

A relação que se estabelece entre crise e ambiguidade também é con- templada no pensamento de Edgar Morin (2013a, p. 9) que, já nas primeiras linhas de sua obra Como viver em tempos de crise? asseverou: “[...] as crises agravam as incertezas, favorecem os questionamentos; podem estimular a busca de novas soluções e também provocar reações patológicas, como a escolha de um bode expiatório. São, portanto, profundamente ambivalen- tes”. A afirmação de Edgar Morin nos remete as duas facetas de uma tensão global que caracteriza o nosso tempo líquido, sobre as quais discorreremos no presente Capítulo: a crise das relações intersubjetivas e a crise de gestão de conflitos. Mais precisamente, leva-nos a refletir sobre as diferentes leituras que esses fenômenos nos permitem realizar.

Diante dessa realidade, podemos nos recolher à passividade, buscando apontar os culpados pelas mazelas das quais nos queixamos, sem prestar qualquer contribuição no sentido da propositura de uma medida de su- peração, ou podemos agir de forma ativa e propositiva, contribuindo para a descoberta ou aprimoramento de medidas de superação. No presente estudo, sem considerar a dimensão da complexidade da crise que nos aflige, concentraremos nossos esforços no sentido da proposição de medidas que contribuam para a amenização dos efeitos produzidos por duas facetas de uma crise que marca o nosso tempo: a crise das relações intersubjetivas e a crise de gestão de conflitos. A compreensão desses elementos servirá de base para a elucidação, já no segundo capítulo deste trabalho, das razões pelas quais o momento é propício para a difusão da mediação de conflitos no Brasil.

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Capítulo I • A SOCIEDADE NA MODERNIDADE FLUIDA E SUAS CRISES 39

1.1 CRISE DAS RELAÇÕES INTERSUBJETIVAS: PRIMEIRA FACETA DE UMA TENSÃO GLOBAL DE UM TEMPO LÍQUIDO

Vivemos “tempos líquidos”. A expressão cunhada por Zygmunt Bau- man (2007), para ilustrar o atual estágio da era moderna, refere-se a um momento de incertezas e mudanças decisivas, que marca a passagem da modernidade para a consolidação de um fenômeno tradicionalmente co- locado sobre o rótulo pós-modernidade: expressão que costuma aparecer sob outras denominações.

Luis Alberto Warat (2004a, p. 37) preferiu utilizar o termo “transmo- dernidade”, por entender ser mais adequado à designação desse período de mudanças e rupturas produzidas na cultura de diferentes povos, desde o fim do século XX. A modernidade, segundo ele, “[...] encontra-se em trânsito”

(WARAT, 2000, p. 46). As mudanças produzidas em nosso tempo não indicam a total ruptura com o passado, a superação da condição moderna: “[...] a era onde os sujeitos desejavam ser governados unicamente pelo conhecimento científico, puro” (MENDONÇA, 2006, p. 36). Elas sinalizam apenas que vivemos um processo de transição.

Os que falam de pós estão obcecados pela ideia do fim, por isso prefiro o prefixo trans. Os que falam de pós-modernidade estão preocupados por saber, como se isso fosse o único possível de saber, o que vamos abandonando, o que estamos obrigados a renunciar. A expressão fiel de um inevitável sentimento epílogo [...]. A transmodernidade fala do novo como o lugar em que cada um de nós pode descobrir-se a si mesmo. Em todo caso, o novo não como território de que se vislumbra a terra prometida, a exterioridade sonhada. É o novo como sensibilidade (WARAT, 2000, p. 46-47).

A contemporaneidade é marcada pela passagem da modernidade para a pós-modernidade. Vivemos um “entretempos”, como bem definiu Annie Dyetman (2011, p. 17-18):

[...] nosso presente é nitidamente um tempo entre duas eras – um entretempos –, em que a ‘velha cabeça’ da Modernidade europeia dos séculos XVIII e XIX, onde tudo começou – inclusive o próprio Direito –, ainda não morreu mas já não nos serve, e a ‘nova cabeça’ Contemporânea ou Pós-moderna, já nasceu mais ainda não nos serve inteiramente. Trabalhar com um en- tretempos significa manter um duplo diapasão, em constante movimento entre um e outro: de um lado, a crítica ao que ainda está presente e, muitas vezes fortemente presente justamente por estar em ameaça de extinção e, de outros, mais que elogio, o voto de confiança em algo ainda em formação, do qual pode-se vislumbrar, aqui e ali, embora ainda não tenhamos uma visão panorâmica plena.

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A transformação da velha cabeça da modernidade, “[...] que, grosso modo, repousava sobre o princípio binário de ordenação e classificação, dividindo os homens e as coisas sempre em dois, separando o joio do trigo, o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o culpado do inocente, o incluído do excluído” (DY- METMAN, 2011, p. 22), está em curso na contemporaneidade, fato que nos leva a definir o nosso tempo como um tempo de transição, de desconstrução dessa lógica binária tipicamente moderna. “O que hoje está em pauta é a busca por uma alternativa ao rígido e trágico modelo binário do ser ou não ser, do verdadeiro ou falso, da inclusão ou exclusão” (DYMETMAN, 2011, p. 22).

Este entendimento acerca da natureza do referido período de transição (colocado como um tempo de mudanças que não implicam total renúncia às ideias modernas do passado) é compartilhado por Zygmunt Bauman (2009b, p. 7), que se refere à pós-moderndade (ou transmodernidade) como a “modernidade líquida”.

O sociólogo polonês inspirou-se numa qualidade típica dos líquidos e gases (a fluidez) para estruturar aquela que considerou a “[...] principal metáfora para o estágio presente da era moderna” (BAUMAN, 2001, p. 8). Ele explica que, diferentemente dos sólidos que se perpetuam no tempo, man- tendo inalteradas suas formas e dimensões, os fluidos se movem facilmente.

Eles ‘fluem’, ‘escorrem’, ‘esvaem-se’, ‘respingam’, ‘transbordam’, ‘vazam’, ‘inun- dam’, ‘borrifam’, ‘pingam’, são ‘filtrados’, ‘destilados’, diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com os sólidos emergem intactos, enquanto que os sólidos que encontraram, se permanecem sólidos, são alterados – ficam molhados ou encharcados. A extraordinária mobilidade dos fluidos é o que os associa à ideia de leveza (BAUMAN, 2001, p. 8).

A relação que se estabelece entre a mobilidade dos fluidos e o atual estágio do processo de passagem da fase sólida da modernidade para a fase líquida (marcada por uma tendência de liquefação das relações humanas e das instituições) assim foi evidenciada por Zygmunt Bauman (2005, p. 57-58):

A principal força motora por trás desse processo tem sido desde o princípio a acelerada ‘liquefação’ das estruturas e das instituições sociais. Estamos agora passando da fase ‘sólida’ da modernidade para a fase ‘fluida’. E os ‘fluidos’ são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças. Num ambiente flui- do, não há como saber se o que nos espera é uma enchente ou uma seca – é melhor estar preparado para as duas possibilidades. Não se deve esperar que as estruturas, quando (se) disponíveis, durem muito tempo. Não serão capazes

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Capítulo I • A SOCIEDADE NA MODERNIDADE FLUIDA E SUAS CRISES 41

de aguentar o vazamento, a infiltração, o gotejar, o transbordamento – mais cedo do que se possa pensar, estarão encharcadas, amolecidas, deformadas e decompostas. Autoridades hoje respeitadas amanhã serão ridicularizadas, ignoradas, desprezadas; celebridades serão esquecidas; ídolos formadores de tendências só serão lembrados nos quizz shows da TV; novidades consideradas preciosas são atiradas nos depósitos de lixo; causas eternas são descartadas por outras com a mesma pretensão de eternidade (embora tendo chamuscado os dedos repetidas vezes, as pessoas não acreditem mais); poderes indestrutíveis se esfacelarão e se dissiparão, importantes organizações políticas ou econômicas serão engolidas por outras ainda mais poderosas ou simplesmente desapare- cerão; capitais sólidos se transformarão no capital de todos; carreiras vitalícias promissoras mostrarão ser becos sem saída .

O processo de liquefação ao qual se refere Zygmunt Bauman (2009b, p.

7) pode ser sentido cotidianamente, nas mais diversas formas de expressão da vida em uma “sociedade líquido-moderna”, assim compreendida a “[...]

sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, de formas de agir”.

A condição líquido-moderna nos torna impotentes diante do ritmo acelerado das mudanças. Somos incapazes de controlar a velocidade e a di- reção das mudanças que nos levam a um futuro incerto. Impotentes diante dessa realidade, tentamos, sem garantia de sucesso, “[...] calcular e reduzir o risco de que nós, pessoalmente, ou aqueles que nos são mais próximos e queridos no momento, possamos nos tornar vítimas dos incontáveis perigos que o mundo opaco e seu futuro incerto supostamente têm guardado para nós” (BAUMAN, 2007, p. 17).

Num ambiente fluido marcado por incertezas quanto aos rumos do amanhã e preocupações com o agora em constante mutação, a ideia de eter- nidade ou valor permanente perde fundamento na experiência humana. As apreensões com o presente e a superação da ideia de eternidade golpeiam duramente a preservação de valor fundamental na vida de seres humanos que se relacionam em sociedade: a durabilidade.

Nem mesmo as relações continuadas são poupadas do processo de liquefação que ameaça a preservação do valor durabilidade. Entendemos que as relações continuadas, diferentemente das chamadas relações cir- cunstanciais, são caracterizadas pela conjugação de dois fatores básicos de identificação, que merecem ser considerados para efeito de condução e resolução de conflito que nelas possam surgir. São eles: i) a existência de um histórico de vinculação pretérita entre as partes, anterior à manifestação do conflito; e ii) a perspectiva de manutenção do vínculo para o futuro, após a superação do conflito.

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A presença dos dois elementos acima destacados, pelas razões que serão introduzidas a seguir e aprofundadas na oportunidade da análise dos escopos da mediação (no Capítulo II deste trabalho), justifica o desenvolvimento de um trabalho que permita às partes superar o conflito de tal modo que as condições de convivência sejam preservadas, evitando-se o surgimento de novas disputas.

O caráter continuado de uma relação pode ser identificado em dife- rentes âmbitos. O principal deles, que melhor revela a incidência dos dois fatores acima expostos, é o campo familiar. Toma-se, como exemplo de conflito inserido no contexto de uma relação familiar de caráter continuado, o divórcio de um casal com filhos menores. Nesse caso, além do passado de convivência afetiva que antecede o conflito vivido pelo casal, ganha im- portância o futuro de uma convivência necessária entre os divorciados, que permanecerão vinculados por força dos filhos.

O mesmo posicionamento se observa nas relações de vizinhança. Quan- do o vínculo firmado entre vizinhos é abalado por força de um conflito, a continuidade de uma convivência pacífica estabelecida no passado torna- -se prejudicada. Mas nem por isso deve-se ignorar o fato de que sujeitos que dividem o mesmo espaço permanecerão vinculados, por força de uma convivência que não se pode evitar. Algumas relações comerciais também podem ser classificadas como continuadas. A título de exemplo, destacamos a situação vivida entre duas empresas que tenham construído, ao longo de seguidos anos, uma rentável parceria comercial. Conflitos que surjam em razão do atraso na prestação de um dado serviço, por exemplo, tendem a abalar a solidez do vínculo consolidado, ameaçando a longevidade da parceria no futuro. Mas nem por isso se pode tomar o conflito como um indício de recomendação para a decretação do término da relação. A interrupção do vínculo comercial por força de um conflito deve ser considerada uma medida extrema e não recomendada, sempre que o rompimento trouxer prejuízos financeiros aos empresários envolvidos.

O caráter continuado de uma relação também pode ser percebido no âmbito trabalhista, ainda que excepcionalmente. É o que se observa quando uma relação de trabalho envolvendo empregador e empregado dotados de garantia provisória do emprego (um dirigente sindical, mulher gestante, ou trabalhador acidentado) é suspensa (e não interrompida) por uma por uma dispensa sem justa causa. Nesse caso, a continuidade de uma convivência profissional será garantida de maneira forçada, se o trabalhador obtiver êxito em uma reclamação trabalhista que objetive a sua reintegração.

Conflitos inseridos no contexto de relações continuadas recomendam o emprego de métodos e técnicas que proporcionem a consagração de qua-

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Capítulo I • A SOCIEDADE NA MODERNIDADE FLUIDA E SUAS CRISES 43

tro objetivos, além da pacificação do conflito propriamente dito. São eles os seguintes escopos: i) a exploração aprofundada dos interesses em jogo, para efeito de identificação da viabilidade da continuidade da relação; ii) o fortalecimento do diálogo entre as partes, para que tenham condições de solucionar o conflito do presente; iii) o restabelecimento e o fortalecimento do relacionamento entre as partes; e iv) o empoderamento das partes, para que possam preservar as condições mínimas necessárias de perpetuação da convivência no futuro, com autonomia, independência e responsabilidade pelo Outro com o qual se relaciona.

Para a gestão adequada de conflitos dessa natureza, indica-se a aplicação de um método ou técnica que privilegie a consagração dos objetivos acima expostos.

Pelas razões que serão justificadas no Capítulo II deste trabalho, a mediação é a prática que melhor atende às exigências desse tipo complexo de conflito.

Diferentes das continuadas, as chamadas relações circunstanciais não justificam uma intervenção que dedique maiores preocupações com o passado e o futuro dos vínculos de convivência. Por relação circunstancial (pontual ou finda), entende-se aquela que não demanda maiores atenções com relação aos vínculos, revelando-se desprovida de perspectivas futuras de manutenção das relações firmadas entre as partes: seja por total falta de interesse em manter preservada uma convivência estabelecida no passado;

seja por ausência de motivos que justifiquem a edificação de um vínculo de relacionamento inexistente no passado, após a manifestação de um conflito.

É o caso do acidente de trânsito envolvendo pessoas desconhecidas, que buscam solucionar questões de natureza indenizatória, sem maiores preo- cupações com um passado de convivência que inexiste, assim como com a construção de um vínculo futuro injustificado.

A importância da preservação das relações continuadas assim foi des- tacada por Kazuo Watanabe (2014, p. 3):

Nas chamadas relações jurídicas continuativas que têm duração no tempo, no qual as partes estão em contato permanente, a solução do conflito deve ser promovida com a preservação da relação existente entre as partes, pondo-se em prática a chamada ‘justiça coexistencial’, com a pacificação das partes, o que a solução sentencial dificilmente terá condições de fazer.

A longevidade das relações continuadas é um dado importante, mas pouco valorizado em tempos líquidos. Hoje se observa que, tanto nas relações continuadas, quanto nas circunstanciais, o “[...] ‘antigo’ ou ‘de longa duração’

se torna sinônimo de fora de moda, ultrapassado, algo que ‘sobreviveu à sua utilidade’ e, portanto, está destinado a acabar em breve numa pilha de lixo”

(BAUMAN, 2005, p. 79-80).

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A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, é marcada pela impossibilidade de se manter a forma ou permanecer preservada por muito tempo (BAUMAN, 2009b, p. 7). Esse estilo de vida precário, marcado por incertezas e constantes preocupações quanto aos rumos de um futuro im- previsível, pode ser facilmente percebido no âmbito das relações de consumo.

A compreensão do caráter fluido das relações de consumo passa pelo do- mínio de uma distinção essencial: a diferenciação entre consumo e consumismo.

O consumo deve ser visto como uma prática trivial do cotidiano, presente em qualquer sociedade, desde tempos imemoriais. E não poderia ser diferente!

O consumo, “[...] cuja ação é definida pelos dicionários como sinônimo de

‘usar’, ‘comer’, ‘ingerir (líquido ou comida)’ e, por extensão, ‘gastar’, ‘dilapidar’,

‘exaurir’” (BAUMAN, 2011d, p. 83), é uma necessidade que nos faz concluir:

todos somos consumidores e assim seremos enquanto vivermos.

Diferente do consumo (cuja ação integra o plano do inevitável), o consumismo pode ser visto como um produto social do nosso tempo; uma prática dispensável que consiste numa “[...] tendência a situar a preocupação com o consumo no centro de todos os demais focos de interesse e quase sempre como aquilo que distingue o foco último desses interesses” (BAU- MAN, 2011, D, p. 83). Para viver de acordo com as regras do consumismo, não basta consumir para atender às necessidades vitais básicas. É preciso colocar o consumo no centro de todas as coisas, como razão de ser ou existir.

Com a passagem do consumo para o consumismo, a cultura líquido- -moderna passa a ser influenciada pelos ditames de uma indústria de de- sejos e tentações. Essa “[...] revolução consumista” (BAUMAN, 2008b, p.

38) é responsável pela consolidação de um mercado de consumo sedutor, protagonizado por indivíduos que não se rendem à corrida em busca de novos desejos e tentações. Na sociedade de consumidores, explica Zygmunt Bauman (2008b, p. 20), “[...] ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria”.

Esse processo de transformação de consumidores em mercadorias de consumo resulta do esforço consumista empregado em prol da manutenção de um estilo de vida adaptado aos preceitos básicos da cultura de consu- mo. Por esse motivo, afirma-se que o consumismo é uma opção de ação encorajada pela consolidação de um estilo de vida ou estratégia existencial consumista. Ceder ou não à pressão exercida pelo mercado de consumo da sociedade líquido-moderna é uma escolha difícil, determinante como fator de estratificação, por exigir a adoção de um critério de exclusão ou inclusão.

Mesmo não sendo uma prática vital, tal como o consumo, o consumismo cada vez mais se consolida e naturaliza como estilo de vida sem o qual não se pode mais viver em sociedade. Para todos os problemas da vida líquida

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moderna, o ser humano busca caminhos que levam à satisfação pelo con- sumo. “Do berço ao túmulo, somos treinados e adestrados a tratar as lojas como farmácias repletas de remédios para curar ou pelo menos aliviar todas as moléstias e aflições em nossas vidas, e nas vidas em comum” (BAUMAN, 2013b, p. 82-83).

O incentivo ao consumo induzido surge até mesmo em momentos ex- tremos de crise. Um exemplo clássico de incentivo ao consumo como prática associada a uma condição de normalidade ocorreu na primeira passagem de George W. Bush na Casa Branca, logo na sequência do ataque terrorista às Torres Gêmeas. Lembra Zygmunt Bauman (2011d, p. 84) do apelo de um presidente aos americanos chocados diante da terrível visão da expressão do terror, para que voltassem às compras. O discurso de incentivo à retomada do consumo soou como uma espécie de comando para que voltassem à normalidade, à rotina do dia a dia.

O mercado de consumo da sociedade líquido-moderna está centrado na lógica de uma economia marcada por cinco elementos essenciais: i) a promessa de satisfação dos desejos humanos; ii) o excesso de ofertas de bens de consumo; iii) o envelhecimento cada vez precoce daquilo que se oferece;

iv) a imediata reposição de produtos descartados; e v) a rápida dissipação de seu poder de sedução (BAUMAN, 2010a, p. 35). A aglutinação desses fatores (a promessa; o excesso, o desperdício, a velocidade e a permanente insatisfação) resulta no desenvolvimento de uma “síndrome cultural consu- mista” (BAUMAN, 2008b, p. 111), cujos efeitos negativos também podem ser sentidos em outros âmbitos dos processos de interação humana, até mesmo no contexto de relações afetivas, como as familiares.

A vida líquida moderna é uma vida de consumo, influenciada pela incidência desses elementos que convergem para a afirmação de uma condi- ção degradante: a descartabilidade dos bens de consumo, conforme explica Zygmunt Bauman (2009b, p. 16-17):

A vida líquida é uma vida de consumo. Ela projeta o mundo e todos os seus fragmentos animados e inanimados como objetos de consumo, ou seja, objetos que perdem a utilidade (e portanto o serviço, a atração, o poder de sedução e o valor) enquanto são usados. Molda o julgamento e a avaliação de todos os fragmentos animados e inanimados do mundo segundo o padrão dos objetos de consumo. Esses objetos têm uma expectativa de vida útil li- mitada e, uma vez que tal limite é ultrapassado, se tornam impróprios para o consumo, já que ‘ser adequado para o consumo’ é a única característica que define sua função. Eles são totalmente impróprios e inúteis. Por serem impróprios, devem ser removidos do espaço da vida de consumo (destinados à biodegradação, incinerados ou transferidos aos cuidados das empresas de

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remoção de lixo) a fim de abrir caminho para outros objetos de consumo ainda não utilizados. Para se livrar do embaraço de ser deixado para trás, de ficar preso a algo com o qual ninguém mais quer ser visto, de ser pego cochilando e de perder o trem do progresso em vez de viajar, deve-se ter em mente que é da natureza das coisas exigir vigilância, não lealdade.

A longevidade dos bens de consumo é reduzida, ao passo que se tornam mais frequentes os incidentes de descarte motivados pelo exaurimento da capacidade humana de satisfazer-se plenamente com aquilo que se tem.

Por isso, afirma-se que a relação consumidor-mercadoria é marcada pela descartabilidade.

Como consumidores, não juramos lealdade permanente à mercadoria que procuramos e adquirimos para satisfazer nossas necessidades ou desejos; e continuamos a usar esses serviços enquanto eles atendem às nossas expec- tativas, porém não mais que isso – ou até que deparemos com outra mer- cadoria que prometa satisfazer os mesmos desejos mais plenamente que a anterior. Todos os bens de consumo, inclusive os descritos como ‘duráveis’, são intercambiáveis e dispensáveis; na cultura consumista – inspirada pelo consumo e a serviço dele –, o tempo decorrido entre a compra e o descarte tende a se comprimir até o ponto em que as delícias derivadas do objeto de consumo passam de seu uso para a apropriação (BAUMAN, 2014, p. 22-23).

Esses efeitos produzidos pela modernidade líquida tornam-se alarman- tes quando se percebe que a falta de compromisso com os bens de consumo forçosamente considerados obsoletos passa a ser convertida em deslealdade às pessoas com as quais se relaciona, ou seja: quando o ser humano passa a tratar e ser tratado como um objeto também descartável.

O processo de degradação das relações de consumo também afeta seres humanos no âmbito mais vital da vida em sociedade, influenciando negativamente a forma como se relacionam uns com os outros, ou seja: os relacionamentos interpessoais.

No mundo líquido-moderno, a solidez das coisas, assim como a solidez dos vínculos humanos, é vista como uma ameaça: qualquer juramento de felicidade, qualquer compromisso a longo prazo (e mais ainda por prazo indeterminado) prenuncia um futuro prenhe de obrigações que limitam a liberdade de movimento e a capacidade de perceber novas oportunidades (ainda desconhecidas) assim que (inevitavelmente) elas se apresentarem. A perspectiva de se ver restrito a uma única coisa a vida inteira é repulsiva e arrogante (BAUMAN, 2010a, p. 40-41).

Os vínculos humanos, assim como a precária relação consumidor-objeto, são “confortavelmente frouxos” e, por isso mesmo, tão “terrivelmente precá-

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