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Rev. Bras. Anestesiol. vol.55 número3

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Academic year: 2018

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Retrobulbar ou Peribulbar: Uma Questão de Nomenclatura?

O

trabalho de Soares e col.1publicado neste número da

Revista Brasileira de Anestesiologia despertou antigas indagações a respeito das técnicas de anestesia em uso para cirurgia ocular: retrobulbar, peribulbar, extraconal, pe-riconal e subtenoniana.

As técnicas de anestesia têm como objetivo depositar o anestésico local num determinado ponto, a partir do qual a di-fusão possa alcançar os nervos ciliares, que são responsá-veis pela sensibilidade do globo ocular, o gânglio ciliar e os nervos motores, que inervam toda a musculatura responsá-vel pela movimentação do mesmo. Assim, pode-se obter um curto período de latência, analgesia, bloqueio de reflexos au-tonômicos e imobilidades do globo ocular. Na dependência do volume injetado, o anestésico pode difundir-se para o seg-mento anterior do olho e prover analgesia das pálpebras e acinesia do músculo orbicular ocular. O efeito concentração e o poder de difusão também são importantes na determinação da latência.

A lidocaína a 2%, fármaco com alta difusibilidade, determina menor tempo de latência do que a bupivacaína e a ropivacaí-na. No trabalho de Soares e col.1onde foi utilizada a mesma

concentração (0,5%) de bupivacaína racêmica, levobupiva-caína e mistura enantiomérica de bupivalevobupiva-caína (S75/R25) não houve diferença significativa quanto ao volume anesté-sico mínimo (VAM) entre os três fármacos utilizados no blo-queio retrobulbar, mostrando perfis semelhantes quanto à difusão. Apesar dessas drogas, naquela concentração, não serem as mais utilizadas no bloqueio retrobulbar, mostra que elas apresentaram um bom índice de acertos quando o anestésico local foi depositado atrás do globo ocular. Retro significa atrás e retrobulbar é atrás do bulbo, ou do glo-bo ocular. Nessa técnica o anestésico local é depositado atrás do globo ocular, além do equador do mesmo. Deve-se esperar assim menor latência da analgesia, do bloqueio motor e menor índice de falhas.

Algumas complicações descritas (hematoma retrobulbar, perfuração do globo ocular e injeção na bainha do nervo ópti-co) tornam-se extremamente raras, observando-se detalhes técnicos como: o paciente manter o olho na posição primária; não cruzar, com a agulha, o plano sagital que passa pelo eixo visual; não introduzir a agulha mais do que 30mm; observar as contra-indicações do bloqueio; usar material adequado (agulhas não cortantes com bisel curto). Um estudo englo-bando 5000 casos de retrobulbar, mostrou apenas três casos de hematoma retrobulbar (0,06%) e nenhuma outra compli-cação2. No estudo de Soares e col.1na técnica descrita, a

agulha de 25 mm ultrapassa o equador ocular, sendo introduzida na direção do vértice do cone, caracterizando uma injeção retrobulbar.

O bloqueio peribulbar com dupla punção surgiu como alter-nativa mais segura do que o bloqueio retrobulbar. Preconiza-va-se a injeção ao redor do bulbo ocular, nas proximidades do equador do globo. Neste local a probabilidade da difusão do anestésico local para o segmento anterior é maior, daí a maior incidência de quemose, maior latência do bloqueio motor e a necessidade freqüente do uso do baroftalmo. Aprofundando-se mais a agulha a incidência de quemose e de falhas é menor.

A probabilidade maior de perfuração do globo ocular com du-pla punção fez surgir trabalhos preconizando o uso de uma única punção ínfero-lateral e maiores volumes, utilizando-se agulhas de 25mm de comprimento. Interessante de se ob-servar é que a palpação do ponto ínfero-lateral, na maioria das vezes o ponto de injeção, corresponde ao equador do globo. Assim, a introdução da agulha já alcança o polo poste-rior e o anestésico é depositado no espaço retrobulbar. Isso eqüivale dizer que quando o índice de falhas, a latência e os volumes forem menores, está se fazendo bloqueio retrobulbar.

Outro aspecto deve ser considerado é que a injeção retrobul-bar promove proptose mais acentuada do que a peribulretrobul-bar. A proptose mostra que o anestésico não está sendo injetado no forâmen óptico, constituindo-se em sinal útil na profilaxia de complicações3.

Fato importante é que o que se relaciona com a introdução da agulha além do equador do globo ultrapassando a porção membranosa do cone. Na dependência do tipo de agulha uti-lizada, a perfuração da membrana é perceptível, especial-mente em pacientes jovens. Assim, ao ultrapassá-la a inje-ção tomará preferencialmente a direinje-ção do cone músculo-membranoso, banhando o espaço retrobulbar. Pelo exposto, é necessário definir a nomenclatura e detalhar minuciosamente a técnica anestésica no método para que se observe os resultados de acordo com a exata colocação da agulha, que no caso do artigo de Soares e col. não deixou dú-vidas tratar-se de anestesia retrobulbar, técnica comum em alguns artigos sendo, entretanto rotulada como peribulbar.

Unitermos: TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional:

peribul-bar, retrobulbar

Dr. Luiz M. Cangiani, TSA Membro do Conselho Editorial

Chefe do Deptº de Anestesiologia e Terapia da Dor do Centro Médico de Campinas

Av. Andrade Neves, 611 13013-161 Campinas, SP

Revista Brasileira de Anestesiologia 261

Vol. 55, Nº 3, Maio - Junho, 2005

Rev Bras Anestesiol 2005; 55: 3: 261 - 262

Referências

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