V A L D O M I R O S I L V E I R A E O R E G I O N A L I S M O N A L I T E R A T U R A B R A S I L E I R A
S y l v i a H T . de A L E I T E *
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O regionalismo é u m veio muito marcante na nossa literatura. E impossível negar a i m p o r t â n c i a e a expressividade do " g ê n e r o " regionalista na literatura brasileira, mesmo àqueles que n ã o apreciam certa cor local ou aos que consideram o t o m desses textos j á u m tanto a n a c r ô n i c o .
E m tempos de g l o b a l i z a ç ã o , é realmente u m tanto estranho falar em valores regionais, em uma cultura mais peculiar ou típica, essencialmente distinta das outras. Entretanto, é possível ainda existirem e s p a ç o s g e o g r á f i c o s delimitados por "uma i n t e r a ç ã o íntima entre grupo humano e base g e o g r á f i c a " , mas s ã o situações de e x c e ç ã o , em geral resultantes de "uma falta de dinamismo social", j á que atualmente está em crise a c l á s s i c a n o ç ã o de região, "pois os progressos no campo dos transportes e das c o m u n i c a ç õ e s , a i n t e r n a c i o n a l i z a ç ã o da economia descartam a imobilidade" (Santos, 1980, p.23).
Contudo, nem sempre foi assim e é difícil pensar a literatura brasileira sem invocar o fator regional: esse t r a ç o é uma constante em nossa história literária, afirmando-se e ganhando forças j á na segunda metade do s é c u l o passado, com o sertanismo, vinculado ao romantismo nacionalista, e que gerou textos como O sertanejo (1875) e O gaúcho (1870), de J o s é de Alencar, ou O ermitão de Muquem (1869), de Bernardo G u i m a r ã e s , ou ainda Inocência (1872), do Visconde de Taunay. E esse filão regionalista permanece presente na nossa literatura, depois com textos como Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, e Luzia Homem, de Domingos O l í m p i o , de feição mais naturalista, assim como t e r á p r e s e n ç a
Docente do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara - UNESP - 14800-901 - Araraquara SP.
muito expressiva na ficção e t a m b é m na poesia do p e r í o d o que se convencionou chamar p r é - m o d e r n i s m o .
O regionalismo que se apresenta na nossa ficção a partir dos anos 30 j á toma uma feição bem diversa, vinculando-se à fase que Antonio Candido chama de " p r é - c o n s c i ê n c i a do subdesenvolvimento" e que se caracteriza por buscar o avesso daquela v i s ã o que mascarava o subdesenvolvimento, a miséria social, as c a r ê n c i a s , com a ilusão de que é r a m o s u m p a í s rico e promissor. Trata-se aqui do romance social, que expressa uma v i s ã o mais crítica e mais madura do universo regional, em cujo meio físico, cultural e social se localiza o homem e suas t e n s õ e s , mas despojando-o do exotismo e do pitoresco que muito freqüentemente marcam o tratamento do regional. Essa m u d a n ç a de perspectiva associa-se à " s u p e r a ç ã o do otimismo p a t r i ó t i c o e à a d o ç ã o de u m tipo de pessimismo diferente do que ocorria na ficção naturalista" (Candido, 1987, p. 160). A ficção naturalista v ê a m á sorte social do sertanejo como o resultado do seu "destino individual", enquanto que essa ficção dos anos 30 volta-se à d e n ú n c i a contra as classes dominantes, responsabilizando-as pelas mazelas regionais.
D á - s e então u m verdadeiro salto de qualidade, ao apresentar o homem local como uma figura que detém um saber que o faz sujeito diante do leitor, que n ã o se defronta mais com tipos e caricaturas, feitos para a d i v e r s ã o do citadino entediado, mas com ricas personagens, plenas de vivência, conhecimento e humanidade. Exemplos de grande qualidade estética do que é o regionalismo problematizante na nossa literatura encontra-se na ficção de Graciliano Ramos, mais especialmente Vicias Secas, ou nos romances que se reportam ao ciclo canavieiro, de José Lins do Rego.
N ã o mais restrita ao regionalismo, mas abeberando-se t a m b é m na m a t é r i a regional, h á uma p r o d u ç ã o posterior que o mesmo A . Candido classifica de super-regionalista e que no Brasil se exemplificaria na obra de G u i m a r ã e s Rosa, que explora a "universalidade da r e g i ã o " , superando o pitoresco e o exotismo que usualmente marcam as p r o d u ç õ e s do g ê n e r o , ao mesmo tempo que nega t a m b é m a perspectiva naturalista e documental.
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A reflexão sobre o regionalismo envolve relações muito complexas, que podem à s vezes gerar alguns e q u í v o c o s , como, por exemplo a r e l a ç ã o estreita que freqüentemente se estabelece entre localismo e nacionalismo, muito bem questionada por Machado de Assis, no seu clássico artigo " N o t í c i a da atual literatura brasileira, instinto de nacionalidade", em que constata a
existência de u m "certo instinto de nacionalidade" na literatura brasileira c o n t e m p o r â n e a à p u b l i c a ç ã o do texto (1873), mas muito lucidamente mostra o que h á nisso de confuso, ao afirmar que é e r r ô n e a a o p i n i ã o "que s ó reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura", pois o que se deveria exigir do escritor antes de mais nada " é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu p a í s , ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no e s p a ç o " . (Machado de Assis, 1985, p.804)
Outro aspecto que se vincula à reflexão sobre o regionalismo na literatura brasileira é o modo como, ao reagir contra o espírito cosmopolita dos centros urbanos, visto erroneamente como despersonalizador, o nativismo se volta muitas vezes para o campo, para o s e r t ã o , que supostamente seria mais t í p i c o ou representativo da nossa identidade. Temos nesse caso u m outro e q u í v o c o , pois à s vezes h á muito pouco de essencialmente brasileiro n u m texto que tematiza o universo rural (Juca Mulato, de Menotti del Picchia, por exemplo) enquanto pode haver muito do Brasil em u m enredo que se localize no e s p a ç o urbano: a p r o d u ç ã o machadiana (Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó) exemplifica bem essa q u e s t ã o .
U m outro aspecto fundamental no texto regionalista diz respeito à linguagem, isto é, ao modo como o texto registra a e x p r e s s ã o desse "outro", rústico, t ã o distante de n ó s , que habita o e s p a ç o rural e que com freqüência é visto como inferior, porque diferente. E o enfrentamento dessa diferença, no campo lingüístico, traz t a m b é m suas armadilhas. É muito comum, por exemplo, no texto regionalista, especialmente no que antecede o modernismo, observarmos a o p o s i ç ã o entre a e x p r e s s ã o da personagem regional (normalmente n ã o policiada, p r ó x i m a à oralidade, com t r a ç o s dialetais, à s vezes meio deformada, apresentada de modo a n e d ó t i c o ) e a e x p r e s s ã o do narrador culto (policiada, formal, elaborada em u m p o r t u g u ê s c a s t i ç o , que demonstra certa e r u d i ç ã o ) . Esse vazio, essa descontinuidade que h á entre as duas formas de e x p r e s s ã o é bem visível, por exemplo, em textos de A f r â n i o Peixoto (Fruta do mato, Bugrinha) e Coelho Neto (Sertão).
E evidente que essa o p o s i ç ã o entre os dois tipos de registro expressa, mesmo que à revelia do autor, u m certo preconceito em r e l a ç ã o àquele "outro", revelando uma v i s ã o etnocêntrica do diferente.
O modo como se d á a r e p r e s e n t a ç ã o do universo regional é, portanto, q u e s t ã o fundamental, porque extremamente reveladora. José Paulo Paes sintetiza muito bem os impasses enfrentados pelo regionalismo, quando identifica em certos programas de m ú s i c a sertaneja, uma "falsidade de raiz",
por tratar-se de uma "arte supostamente rural, de idealização da vida rural, feita para gente n ã o mais rural". Essa "falsidade" é que distinguiria a m ú s i c a sertaneja comercializada da m ú s i c a legitimamente folclórica, pois, embora a m ú s i c a sertaneja tenha por tema constante a vida rural (o sobre), n ã o é feita por roceiros (o pelo), nem se dirige preferencialmente para eles (o para) (Paes, 1985, p.252). Guardadas as devidas diferenças e p r o p o r ç õ e s , é possível transpor sem grandes prejuízos essa c o n s t a t a ç ã o para u m certo g ê n e r o de regionalismo mais limitado, que t a m b é m tem muito de artificial.
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As questões anteriormente apontadas motivam-nos a tratar de Valdomiro Silveira (1873-1941), u m regionalista menos conhecido, mas que teve em seu tempo certa originalidade. O escritor teve 4 livros de contos publicados. Os caboclos (1920), Nas serras e nas fumas (1931), Mixuangos (1937), Leréias (1945). A maioria desses contos foi escrita entre 1891 e 1905 e alguns deles foram divulgados em jornais e revistas da época.
A literatura regionalista c o n t e m p o r â n e a à p r o d u ç ã o dos contos de Valdomiro, vinculada ao no período que se convencionou chamar p r é -modernismo, de maneira geral se atém a requisitos estéticos do realismo-naturalismo: r e p r o d u ç ã o m i m è t i c a da natureza e do homem, p r o g r a m á t i c a busca de veracidade, tocando os limites do documento, associados a certa s e d u ç ã o do pitoresco, evidente no exotismo das descrições da natureza, de hábitos e costumes locais, da atitude peculiar de personagens tipificadas. Esse caboclismo comumente oscila entre o registro documental e a idealização, entre o ornamento e a anedota, manifestações no fundo muito p r ó x i m a s de uma mesma m o t i v a ç ã o , a d i s c r i m i n a ç ã o do diferente, r e s p o n s á v e l pela a p r e s e n t a ç ã o em geral pouco convincente de aspectos locais.
Aquela o p o s i ç ã o j á referida entre dois discursos dissonantes, o do narrador culto e o das personagens, em geral aspeado, permanece aqui, registrando o diferente como a n ô m a l o , recurso no fundo muito p r ó x i m o à i d e a l i z a ç ã o e à anedota, todas faces de uma mesma moeda, todas distintas m á s c a r a s de uma mesma atitude, a alteridade. A s exceções nesse p e r í o d o , no que concerne ao tratamento da m a t é r i a regional, s ã o S i m õ e s Lopes Neto, no Rio Grande do Sul, e Valdomiro Silveira, em S ã o Paulo.
O tema central dos contos de Valdomiro Silveira é a vida do caipira e do c a i ç a r a paulista. Esses contos, entretanto, t ê m uma feição muito específica, pois neles o autor se dedica à e x p e r i m e n t a ç ã o com a e x p r e s s ã o lingüística do caipira, sem fazer maiores concessões, compondo textos nem sempre de leitura fácil (é preciso recorrer com freqüência a u m g l o s s á r i o de 7 0
-e x p r -e s s õ -e s , qu-e apar-ec-e ao final dos livros). Essas -e x p r -e s s õ -e s -e outras informações sobre os h á b i t o s do caipira eram anotadas pelo autor em festas e funções nos bairros caipiras, e depois incorporadas aos contos.
Percebe-se, e n t ã o , uma p r e o c u p a ç ã o documental nos textos, que cumprem uma espécie de programa que visa à d i v u l g a ç ã o do universo caipira, j á naquele momento em e x t i n ç ã o , entretanto, esse pendor documental n ã o
disfarça a busca de identificação e o tratamento solidário do caipira, abordado como u m igual sem, entretanto, desconsiderarem-se as peculiaridades que o caracterizam e o identificam como sujeito. Percebe-se esse resgate afetuoso do caipira em contos que casam, algumas vezes com talentosa harmonia, o sentimento à a p r e s e n t a ç ã o das especificidades culturais do caipira, a l c a n ç a n d o a c o m o ç ã o , sem o ridículo (a título de exemplo, leia-se "Camunhengue" e "Curiangos") e d i s f a r ç a n d o t a m b é m o didatismo que é comum nesse g ê n e r o de textos.
A s o l u ç ã o a l c a n ç a d a por Valdomiro para abordar com igualdade a diversidade é o tratamento do regional sob uma perspectiva universalizante: os temas predominantes s ã o genéricos (o amor, a violência, o sofrimento, a morte e t c ) , mas fortemente localizados na paisagem física e cultural do caipira, em narrativas c o n s t r u í d a s com uma e x p r e s s ã o híbrida, que mescla o dialeto caipira à norma culta. Esse a m á l g a m a entre o regional e o universal, o popular e o culto, favorece um registro quase que mítico do caipira. T a m b é m a i m p r e c i s ã o e a diluição do tempo, marcado antes pelos ciclos da natureza e do trabalho que pelos ponteiros do relógio contribui para essa mitificação do universo caipira:
O Antonio Grande, que bebia os ares por ela, desde o milho verde do ano atrasado, esperava só acabar o empreito de formação duma invernada de morro a morro para pedi-la em casamento. (Silveira, 1975b, p. 43)
A estilização da linguagem é outro aspecto crucial para a c o m p r e e n s ã o da i n o v a ç ã o empreendida por Valdomiro, ao mesclar a linguagem do caipira à e x p r e s s ã o culta do narrador, espraiando a e x p r e s s ã o dialetal na fala do narrador, para minimizar aquela o p o s i ç ã o j á referida entre o t o m elevado do narrador e a e x p r e s s ã o "incorreta" das personagens. Assim, a l c a n ç a " u m s ó b r i o convívio do r ú s t i c o e do culto, que t ê m em comum a faixa de uma l í n g u a arcaizante" (Bosi, 1978, p. 301).
Valendo-se de uma e x p r e s s ã o cabocla que n ã o se restringe ao registro estrito do dialeto, a l c a n ç a u m jeito p r ó p r i o de e x p r e s s ã o , que inclui a
fidelidade, mas t a m b é m a flexibilidade na m a n i p u l a ç ã o do material lingüístico, pois sem fazer apenas a t r a n s c r i ç ã o fonética, m o r f o l ó g i c a ou sintática do dialeto, utiliza especialmente o léxico peculiar, realizando uma espécie de r e e l a b o r a ç ã o artística da e x p r e s s ã o do caipira, que impregna ao mesmo tempo a e x p r e s s ã o do narrador e das personagens, impossibilitando o confronto entre as duas vozes, que se tornam uma coisa só. Esse hibridismo pode ser observado nos melhores contos do escritor ("Camunhengue", "Curiangos", " A n a Cabriuvana", "Desespero de amor", por exemplo).
Veja-se u m trecho do conto "Os curiangos", narrado por u m tal de Luís Panga, que "aprendeu certas palavras difíceis na escola do J e r ó n i m o " , para se ter uma n o ç ã o de como se d á essa mescla:
"O Antonio Cabeça era um tonto, a bem dizer, porque não se importava de nada nesta vida. Tinha um olho de menos, o direito, e um dedo de mais na mão esquerda. Falavam (maledicência do pouco povo que ainda restava aqui), falavam que aquele dedo servia p’r’auxiliar os outros cinco nos mutirões de passar o gadanho no que é do próximo. Só possuía de seu, além da roupa velha e remendada, um cabo de relho de guampa, que trazia encostado sempre, por sestro, quando conversava com alguém, na pestana do olho vazado. Entrou, viu o Pedro, e gritou-lhe:
- Ó seu coveiro, venha-me dar um reforço que esta biraia tem muito pecado, pesa que é um Deus-nos-acuda!" (Silveira, 1975b, p. 115)
E m Leréias, último livro do escritor, é o p r ó p r i o caipira o narrador de suas h i s t ó r i a s , como j á explica o subtítulo (história contadas por eles mesmos). N ã o havendo a m e d i a ç ã o de u m narrador culto, os textos ganham uma maior espontaneidade e fluidez, evitando aquele artificialismo j á referido. Todos os contos de Leréias se iniciam com u m t r a v e s s ã o , a partir do qual, em discurso direto, o contador desfia seus causos e suas m á g o a s , como exemplifica o trecho a seguir:
" - Eu 'tava encostado ali na capororóca, na veira do rio, perto do rebojo, fazendo as contas da minha vida, e triste de devera'. Uma tabarana plancheou em riba da água, atrás d'um lambarí-tambiú que largou seu pulo desesperado e foi cair saluçando na lóquinha de pedra, rente c'uma touceira de capituva. A tabarana sumiu, lograda e cheia de
zanga, mas na flor da água apontou uma bolha grande, que desceu quando muito duas braças, inté que o sol lhe deu, e ficou inteirinha cor de ouro, uma boniteza! Mas desmanchou-se no mesmo sofragante, e inda v i uns respingos em roda, antes que o rio acabasse de alisar naquele trecho.
Pois a minha alegria, quando eu tive por vancê o amor tão forte que tive, sa Rosália, foi tal e qual aquela bolha ďágua: apareceu por acauso, enfeitou-se c'o sol, desfez-se logo. (...)" (Silveira, 1975a, p. 98)
Pelo que se e x p ô s , é possível observar que h á distintas formas de r e p r e s e n t a ç ã o do universo regional na literatura brasileira, e c o n s e q ü e n t e m e n t e h á t a m b é m maneiras distintas de tratar o diferente, e de trabalhar a r e l a ç ã o entre cor local e nacional, algumas delas muito bem sucedidas, muito convincentes, outras nem tanto, mas é preciso saber que, antes do que n ó s supomos, antes mesmo do movimento modernista, j á havia escritores cuja sensibilidade e empenho experimental acenava para a possibilidade de se explorar uma " p o é t i c a da oralidade", de que trata Bosi e que seria apontada como grande novidade algum tempo depois, em outros escritores mais recentes.
R e f e r ê n c i a s b i b l i o g r á f i c a s
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