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No rumo(r) do poema: estudo de um drummond

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Academic year: 2020

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ESTUDO D E UM DRUMMOND

I g o r R O S S O N I1

• RESUMO: Busca-se refletir sobre a potencialidade do texto poético a partir da análise do poema "No meio do caminho" de Carlos Drummond de Andrade.

• PALAVRAS-CHAVE: Poema; Processo Analítico; Estranhamento; Repetição; Vislum-bramento.

Introdução

O processo analítico de uma obra de arte requer tratamento específico por parte do investigador. E m primeira instância se institui o ato de olhar para ela. Mais que isso, a i n t e n ç ã o e a postura ao, efetivamente, executar a mirada. Muitas variantes entram em j o g o a partir de então. U m universo diferenciado está ali - à frente - a espera de ser penetrado. Por isso existe e se fez: para comunicar/significar. Neste momento é que o m é t o d o assume função: o norteamento. Entretanto, o investigador de posse única e exclusiva dessa determinação, ainda assim, n ã o se qualifica para solucionar a empreitada pretendida. Isto se d á porque ainda n ã o penetrou naquele universo específico. Portanto, mesmo de posse de um m é t o d o pré-selecionado de investigação, encontra-se diante de grande impasse; na verdade, a primeira e mais objetiva barreira a ser transposta: o sujeito frente ao objeto e uma pergunta - por onde penetrar neste complexo para, a partir de então, iniciar o trabalho investigativo?

Assim, sobre uma folha de papel, um produto artístico permanece " e s t á t i c o " a inquirir/instigar com sua eloqüente significância. É o caso de interesse deste estudo -o p-oema " N -o M e i -o d-o Caminh-o" de Carl-os Drumm-ond de Andrade (1976, p.12):

No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra

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Igor Rossoni

N ã o basta, simplesmente, de maneira afoita ou despretenciosa lançar-se a ele. É necessário encontrar uma passagem real, um canal de acesso que possibilite efetivamente mergulhar naquele complexo de significações. Assim, observa-se - em aparência - se tratar de um texto simples, oriundo de uma c o n s t r u ç ã o equivalente. Numa primeira mirada, até despretenciosa e de relativa consistência reflexiva. Pode-se, ainda, de posse de conhecimento rudimentar dos princípios de c o n o t a ç ã o , efetuar algumas tentativas preciptadas de leitura: a mesmice vagarosa e constante da vida e seus p e r c a l ç o s / o b s t á c u l o s ; a realidade do homem em sua trajetória etc. Entretanto, efetivamente, ainda n ã o se penetrou no próprio poema e, sim, somente se adaptou o universo particular e extra-ficcional ao universo do poema. A l i , n ã o está o poema. E mais, n ã o é o poema.

O poema tem v i d a p r ó p r i a , autenticidade, intensidade e, p r i n c i p a l m e n t e , uma f u n ç ã o p r e p o n d e r a n t e e d o m i n a n t e : a de c o m u n i c a r ser e x c l u s i v i d a d e de m o t i v a ç õ e s a r t í s t i c a s . A s s i m , para se revelar, e x i g e do i n v e s t i g a d o r u m trabalho e u m olhar que se coadunem c o m sua natureza o r i g i n á r i a . N o entanto, o p r o b l e m a ainda n ã o f o i s o l u c i o n a d o .

A chave

Drummond (1976, p.77), em outro texto, vem ao auxílio: Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave? Repare:

ermas de melodias e conceito \ elas se refugiaram na noite, as palavras.

A í s i m , uma vez posta em p r á t i c a a a f i r m a ç ã o / s u g e s t ã o , percebe-se que algo, no tecido a r t í s t i c o , sempre soa de m o d o estranho. C o m o a parecer que, em certos pontos, uma coisa n ã o se conecta a outra de maneira c o n v e n c i o n a l , ou pelo menos esperada. Lembra-nos o poeta: "Penetra surdamente no reino das palavras" ( D r u m m o n d , 1976, p.77, g r i f o m e u ) . E m termos normais, c o m o se pode penetrar surdamente no reino das palavras? A l g o sobressai de estranho dessa c o m b i n a ç ã o e toca a ferida nossa de m o d o exemplar. O sujeito se v ê diante de u m abismo de s i g n i f i c a ç õ e s e, aparentemente, n ã o encontra ponto de apoio seguro. Quer dizer, encontra-se diante do inusitado: uma c o n s t r u ç ã o de c a r á t e r a m b í g u o . A s s i m , mediante uma m i r a d a mais atenta e v i g i l a n t e , algo r e t é m os olhos para a r e f l e x ã o , supera a passividade e instiga a mente ao trabalho

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e p r o l i f e r a numa rede de r e l a ç õ e s que estende uma ponte entre o olhar/mente e o questionamento: "Trouxeste a chave?" ( D r u m m o n d , 1976, p . 7 7 ) .

Pronto. A chave se posta, agora, à m ã o . O olhar voltado sobre si - introjeta-se - o acesso disposto à frente, exatamente revelado a p a r t i r do momento em que a c o n s c i ê n c i a detecta uma c o n d i ç ã o de

ambigüidade

instaurada. A p a r t i r de e n t ã o o texto se abre, revela-se o universo das outras faces sob a aparente. O trabalho ganha m o t i v a ç ã o , c o n s i s t ê n c i a e liames de o r i g i n a l i d a d e , uma vez que e s t á o investigador diante da possibilidade de c o n t r i b u i r pessoalmente para o universo de s i g n i f i c a ç õ e s daquele j o g o de estranhamentos ao efetuar u m trabalho c r i a t i v o - n ã o de mera i n t e r p r e t a ç ã o , mas de c r i a ç ã o no ato de r e c e p ç ã o .

O exercício criativo

Deste modo, volta-se para o texto originário de aplicação e busca-se esse ponto. De imediato ele se apresenta, em letras destacadas, logo no início do discurso poético: " N o M e i o do Caminho".

A a m b i g ü i d a d e emerge a partir do j o g o que a c o n s t r u ç ã o lingüística encerra. Trata-se da verificação de u m conflito latente em que forças determinantes digladiam interruptamente por refletirem anseios de

determinação

versus

indeterminação.

O conflito acaba por estimular um ciclo interminável e produz uma vibração - t e n s ã o / c o n t e n ç ã o - que pulsa, pulsa, pulsa e confere vida, espírito, intensidade ao que a coisa é: manifestação de ordem artística.

Ora vejamos. Por u m lado, a c o n s t r u ç ã o "no meio do caminho" expressa uma i d é i a de i n d e t e r m i n a ç ã o uma vez que n ã o é p o s s í v e l - de posse apenas dessa c o m b i n a ç ã o de signos - identificar-se concretamente, com valores qualitativos, a p r e c i s ã o da mensagem. Por outro lado, a presente c o n s t r u ç ã o sígnica, independente de uma p r o v á v e l extensão, aponta para uma fixação e s p á c i o - t e m p o r a l - em termos quantitativos - que, de certo modo - determina uma r e g i ã o específica em função do lexema "meio". Na verdade, n ã o se trata nem de antes nem de depois, é u m ponto exato: no meio. Desse j o g o de intenções é que emerge do interior da e x p r e s s ã o o status do estranhamento. O u seja, o ponto de a m b i g ü i d a d e que permite o acesso ao universo próprio deste texto poético e a investigação de seus substratos fundamentais. Assim, ao mesmo tempo em que a e x p r e s s ã o em destaque evidencia uma i n d e t e r m i n a ç ã o , encerra uma d e t e r m i n a ç ã o que possibilita a substituição de todo o conjunto por um único termo, que o irá representar semelhante e funcionalmente -assumindo todas suas potencialidades normativas. Trata-se de agentes fixadores da natureza de: ali, lá, aqui etc. E n t ã o :

no meio do caminho = ali, ou no meio do caminho - lá, ou no meio do caminho = aqui...etc

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Igor Rossoni

Deste modo, m a n t é m toda qualidade tensiva do princípio de a m b i g ü i d a d e e ainda oferece v a z ã o para a continuidade investigativa rumo ao universo dos signos motivados: o próprio poema. Mais uma vez v ê m à r e c o r d a ç ã o as palavras do poeta (Drummond, 1976, p.77):

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralizados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata.

Portanto, agora, deparamos com a e x p r e s s ã o semelhante: A l i tinha uma pedra

Demoremo-nos um pouco observando a natureza do termo destacado. Antes de assumir a c o n d i ç ã o de adjunto adverbial de lugar, dentro da estrutura sintagmática, ele e x p õ e sua função inerente e fundamental: ser um

dêitico

2

.

E, por isso mesmo, u m

determinante de instâncias referenciais do universo da o r g a n i z a ç ã o do discurso, ou seja, do processo de e n u n c i a ç ã o .

Deste modo, c o m e ç a s e a perceber que, no caso, um simples arrolar de frases -versos - aparentemente despretenciosos, congregam em si uma intenção contundente e amplificada: Ali - no âmbito da organização discursiva; no substrato fundamental do processo de comunicação estruturado por Roman Jakobson; no âmbito da

mensagem,

à qual o formalista referencia como a que expressa a função dominante da linguagem artística -

"tinha uma pedra".

Quer dizer, o processo de articulação compositiva que, por ser de natureza artística, sugere uma infinidade de sentidos, continha u m obstáculo a ser superado. O que mais desperta a atenção é a convicção do poeta em utilizar o verbo "ter" sempre e, exclusivamente, no passado. Deste modo, materializa o sentido de algo j á superado, uma vez que o poema existe - logo, explode vida própria e identidade. A mensagem cumpre seu objetivo: comunica. Fervilha a natureza poética da linguagem e o poema se globaliza/integraliza na unidade.

O obstáculo referido vem simbolizado pelo lexema

pedra:

atributo de rudez, angulosidade, brutalidade, definível e, por isso mesmo, passível de lapidação. Lapidar, transpor, transgredir

pedra

é tirar o que de "pedra" a

pedra

possui, ou seja, elevá-la à condição de "não-pedra" sem que ela deixe de o ser. Quer dizer, torná-la cada vez mais desreferencializada, mais "minada" e, assim, prenhe de significações próprias - porém

2 "A diferença das anáforas (ou das catáforas) que, no interior dos discursos remetem a unidades, ou a segmentos dados, os dêiticos (ou indicadores, para E. Benveniste) são elementos lingüísticos que se referem à instância de enunciação e às suas coordenadas espácio-temporais: eu, aqui, agora. Podem, então, servir de dêiticos os pronomes ("eu", "tu"), mas também os advérbios (ou locuções adverbiais), os demonstrativos, etc. Trata-se, no caso, como se vê, da enunciação enunciada, tal como se lhe pode apanhar o mecanismo através dos procedimentos de debreagem e de embreagem que simulam a interposição ou a supressão de uma distância entre o discurso-enunciado e a instância de sua emissão". (Greimas & Courtes, 1979, p.103).

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inusitadas - desta nova/diversa qualificação. O poeta nos socorre: "Em vão me tento explicar, os muros são surdosJSob a pele das palavras há cifras e códigos" (Drummond, 1976, p.78).

Então, é necessário minar/desreferencializar o que o texto, como um todo, tem de pedra em sua acepção ordinária, o que ele tem como artefato fundamental de composição: a

palavra.

Desreferencializar a "pedra no caminho" no texto poético é minar a

palavra

e elevá-la à condição de signo motivado, totalmente diferenciado de seu envoltório aparente e superficial/ referencial. E retirar da palavra a' 'pele da palavra''. E elevá-la à potencialidade de significância que encerra os liames da "não-palavra" e, assim, possibilitar que o estado sublime da imagem poética impregne todo o espaço interno e externo do poema3.0 que há, então, é a integridade do poema como poema. N ã o como algo "a serviço de", mas simples/plenamente como poema

Deste modo, o texto em questão comunica (uma vez mais incrementando o teor ambíguo): " A l i há uma palavra" - no tempo verbal presente - pois j á n ã o é uma palavra qualquer e, sim, a palavra interferida/lapidada/transgredida a fim de exponenciar sua variada gama de significações. D a í a manutenção constante daqueles verbos no passado4. O discurso poético assim a endereça e a consciência sígnica do poeta a liberta: o trabalho da criação.

O ato consciente de minar a palavra, no caso, ocorre pelo assédio ao artifício da

repetição.

Ora vejamos: a palavra

pedra

é utilizada quatro vezes na primeira estrofe (composta por quatro versos) e três vezes na segunda (composta "aparentemente" por seis versos). A l é m disso, a primeira estrofe está contida - por se repetir - integralmente dentro da segunda. Os pontos de interesse não findam somente na estrutura destacada. Observa-se que a primeira estrofe inicia com uma consoante maiúscula (N) e termina por ponto final. A segunda estrofe, como um todo, executa percurso quase semelhante. Entretanto, algo diverso ocorre nesta estruturação. O primeiro verso, desta, t a m b é m se inicia com a mesma consoante maiúscula (N) e sugere remeter à

repetição

materializada da idéia apresentada ao longo da primeira estrofe uma vez que, somado ao verso conseqüente, encerram uma unidade de sentido própria, além de também encerrar-se por ponto final. Por sua vez, o terceiro verso nela contido assume idêntica estruturação à da primeira estrofe. Portanto, o modo de c o n s t r u ç ã o praticado pode viabilizar o desmembramento da segunda estrofe em duas, sem prejuízo sintático-semântico ao conjunto do texto. Veja-se esquematicamente:

N

3 Ver "A Imagem" in: O arco e a lira, Octávio Paz.

4 Notar que o outro verbo que ocorre no poema - esquecer - aparece no futuro (nunca me esquecerei ..."). No entanto, ele vem condicionado a uma idéia impregnada de passado. De modo que a intenção do poeta se conserva e se concretiza ao longo de todo o texto.

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Igor Rossoni

Este mecanismo de desdobramento assume função de v e í c u l o de acesso e c o n d u ç ã o à prática da r e p e t i ç ã o da primeira estrofe, agora, na terceira criada, por intermédio da estrofe intermediária (composta por dois versos), abstraída da estrutura aparente do poema, agindo, por assim dizer, como eixo de rebatimento.

Deste modo, o poeta consegue provocar um esvaziamento no âmbito do conteúdo dos lexemas repetidos e abri-los à plenitude da plurissignificação. A palavra minada. O poema integralmente constituído.

Note-se t a m b é m que, segundo essa nova c o n f i g u r a ç ã o , a ú l t i m a palavra, tanto do primeiro como do quarto versos da primeira estrofe encerram o mesmo enunciado:

pedra.

As palavras finais dos versos da, agora, segunda estrofe destoam e encerram, respectivamente,

acontecimento

e

fatigadas.

E as da terceira estrofe,

caminho

e, circularmente, pedra. Evidencia-se pois, com isso, um incremento em d i r e ç ã o à unidade do poema, centrado no lexema "pedra" sob uma gestão sugerida pelo lexema "caminho". C o m intuito de conferir consistência ao dispositivo acima evidenciado, veja-se o que segue.

Do mesmo modo todos os versos do poema iniciam por consoantes que se alternam e se repetem: N e T . E ainda mais, estabelecem e propiciam uma r e l a ç ã o especular perfeita, que t a m b é m licencia pensar-se no desdobramento h á pouco sugerido: N

t

t

primeira estrofe

n

N estrofe i n t e r m e d i á r i a (ligação/articulação)

n

N

t

t

terceira estrofe

n

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D o mesmo m o d o , c o m o o poeta aponta a i m p o r t â n c i a e a supremacia do processo de e n u n c i a ç ã o sobre o enunciado l o g o e a p a r t i r do t í t u l o do poema, repetindo-o no i n í c i o da p r i m e i r a estrofe, ainda outra vez - empenho de atividade consciente - r e f o r ç a tal procedimento, quando da e s t r u t u r a ç ã o do p r i m e i r o verso da segunda estrofe - agora - desmembrada. Veja-se: "Nunca me esquecerei desse acontecimento" (grifo meu). Essa atitude novamente concede à estrutura f r á s i c a uma a m b i ê n c i a ambigua. P r i m e i r o por se valer de o u t r o

dêitico.

A s s i m , f i x a e r e f o r ç a , mais uma vez p r e p o n d e r â n c i a enunciva. N o entanto, o faz de modo especial. E a í que se instaura a a m b i g ü i d a d e . A o i n v é s de aproximar e, portanto, particularizar o fato referido - o

acontecimento

e s p e c í f i c o - e para isso d e v e r i a se v a l e r do p r o n o m e

deste,

n ã o o u t i l i z a . A o c o n t r á r i o , o desaproxima, o desparticulariza, r e a l ç a n d o o fato como n ã o somente r e a l i z a ç ã o deste e x e r c í c i o particular ao qual o poeta se volta, mas para todo

acontecimento

poético em si. De modo consciente se vale de toda potencialidade que o pronome selecionado -

desse

- enseja. E m termos m e t ó d i c o s repete e reafirma a c o n d i ç ã o e a c o n s c i ê n c i a das necessidades p r ó p r i a s do signo e da c o n s t r u ç ã o a r t í s t i c a : r e f o r ç a , d u p l i c a , i n t e n s i f i c a ,

acontece.

A o r e a l ç a r o

acontecimento,

que na e s t r u t u r a ç ã o do poema assume f u n ç ã o de elemento/eixo de a r t i c u l a ç ã o entre as duas e s t â n c i a s que se r e p e t e m , ainda o u t r a vez faz uso do processo de estranhamento:

Nunca me esquecerei desse acontecimento Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Observe-se que o poeta promove uma e s p é c i e de deslocamento focal que suscita um f e n ô m e n o de d e s c o n e c ç ã o de u m "eu" consigo mesmo. Quer dizer, sugere conferir vida a u t ô n o m a a uma parte de si mesmo: uma parte essencial. Ou ainda, é como se, de si se desdobrasse em "outro" e a esse "outro", coubesse uma i m p o r t â n c i a relevante dentro do processo de i n c r e m e n t a ç ã o p o é t i c a : o ver com olhos fatigados que no processo de des-montagem assim pode ser esquematizado:

Primeiro verso: primeiro plano: presentificação e atuação do "eu". Segundo verso: o primeiro plano parece ser assumido pelo "outro" = "vida das retinas" (forma autônoma). Somente num segundo momento o "eu" se presentificaria: "minhas".

O processo de estranhamento se repete e se duplica no e para o "outro" fato que, deste procedimento, destina-se ao lexema que encerra a estrofe de ligação:

fatigadas.

O olhar - volta-se ao início: o ato de olhar - mais que isso,

as retinas

-"a mais interna das três camadas de cada globo ocular, que tem continuidade, posteriormente, de cada lado, com o nervo ó p t i c o " (Ferreira, s. d.), ou seja, o canal que de certo modo capta o objeto e o transporta, em imagem, diretamente à reflexão, à c o n s c i ê n c i a - t a m b é m agora -

FATIGADA.

Essa instância remete à ideação

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Igor Rossoni

apresentada por Baudelaire: o sentido do olhar do convalescente5. Este e n t ã o parece ser o sentido de u m olhar cujas retinas e s t ã o fatigadas.

Deste modo, tanto o espírito do poeta, ao exercer sua atividade manipuladora, quanto o outro, revestido da figura do receptor/investigador, necessitam vivenciarem u m mesmo estado: senso de atribuição tanto à c r i a ç ã o quanto à fruição, integrais.

N ã o por acaso, pensamos, o lexema "fatigadas" encerra a segunda estrofe desmembrada, logo abaixo de "acontecimento". Todos os termos dialogam entre si e se interpenetram convulsiva e recorrentemente como elos i n d i s s o c i á v e i s de u m mesmo complexo: o poema. A s s i m , o poema - como u m ser total - nasce/renasce constante e infinitamente em si e de si mesmo. Parece n ã o haver d i s t i n ç ã o entre início e termo, causalidade e efeito, forma e fundo, ser e n ã o ser. O poema é em si. Retido, apenas, pelo estar na c o n s c i ê n c i a , p r i m e i r o de seu criador, depois de seus possíveis investigadores.

E m virtude desse enfoque desenvolvido, o que aparentemente parecia uma simples brincadeira ou i m p o s i ç ã o retórica, na verdade, expressa todo o potencial da qualidade criativa e mais, denuncia uma profunda c o n s c i ê n c i a do fazer e do ser p o é t i c o : a arte plenamente c o n s t i t u í d a .

O Trabalho do poeta

Retomando e, de certo modo, abusando da prática da transcrição, observe-se uma re-montagem de alguns versos de " A Flor e a N á u s e a " (Drummond, 1976, p.77-8) organizados com o intuito de ilustrar, ainda uma vez, essa tal c o n s c i ê n c i a :

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase, (verso 14) ... galinhas em pânico, (verso 47)

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, (verso 38) garanto que uma flor nasceu, (verso 39)

E feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. (verso 48)

5 "Atrás das vidraças de um café, um convalescente, contemplando com prazer a multidão, mistura-se

mentalmente a todos os pensamentos que se agitam à sua volta. Resgatado das sombras da morte, ele aspira com deleite todos os indícios e eflúvios da vida; como estava prestes a tudo esquecer, lembra-se e quer ardentemente lembrar-se de tudo. Finalmente, precipta-se no meio da multidão à procura de um desconhecido cuja fisionomia, apenas vislumbrada, fascinou-o num relance. A curiosidade transformou-se em paixão fatal, irresistível! Imagine-transformou-se que estivestransformou-se transformou-sempre, espiritualmente, em estado de conva-lescença e se terá a chave do caráter de G.. Ora, a convaconva-lescença é como a volta a infância. O convalescente goza, no mais alto grau, como a criança, da faculdade de se interessar intensamente pelas coisas, mesmo por aquelas que aparentemente se mostram as mais triviais.... A criança vê tudo como novidade, ela sempre está inebriada. Nada se parece tanto com o que chamamos inspiração quanto a alegria com que a criança absorve a forma e a cor...". "O Artista, Homem do Mundo, Homem

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Vamos a ela:

No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.

A í está o poema. Por si e de si estruturado. A p o s i ç ã o do poeta parece n ã o se apresentar de imediato, acomodando-se em segundo plano. S ó uma voz surda a conter e romper o escudo do cotidiano, feito uma "chirimia" melancólica e existencial. Propaga-se, repetitivamente, texto a fora a ponto de, tamanha a m p l i d ã o , escalar u m senso de i n o m i n á v e l , de repleto vazio, sem i m p o s i ç ã o de pessoa qualquer. O que h á , e n t ã o ? Pela constância, verifica-se a i c o n i z a ç ã o de algo que, ao mesmo tempo que é particular, n ã o o é. Coletiviza-se. Generaliza-se na a m p l i d ã o . S ó mesmo o pulsar desse " a l g o " expandido no tempo e no e s p a ç o : "no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho". N ã o m a i s u m a v o z , mas A V O Z - a c o i s a , o r e t o r n o ao r u d i m e n t o de c a r a c t e r i z a ç ã o dos objetos, o instante da f o r m a ç ã o , a volta ao referente. O poema, assim, j á o é, antes mesmo de emergir/ser emergido. O poeta bem o sabe:

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo. ... Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. (Drummond, 1976, p.77)

Portanto, sugere-se mesmo que, s ó num segundo momento, o poeta se insere e ainda de modo apropriado ao sistema: "nunca me esquecerei...", quer dizer, a imposição de pessoa, na figura do poeta, retoma o sentido de particular/coletivo uma vez que destina a esse "eu" um estado dialógico, o reflexo de uma condição de um eu-coletivo para um eu-particularizado que se perdem na confluência emaranhada da efervescência poética. Confrontam-se, amalgamam-se, copulam-se.

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Igor Rossoni

Assim, o poema rompe o asfalto e nasce/brota feito chama "antieuclidiana" (Drummond, 1976, p.92) de si mesmo: o despertar do signo.

O poeta o vislumbra e o registra.

ROSSONI, I . In the rumor of the poem: a study of a Drummond. Itinerários, Araraquara, n. 15/16, p. 285-296, 2000.

• ABSTRACT: A reflection on the poem "No meio do caminho" by Carlos Drummond de Andrade is the objetive of the present study.

• KEYWORDS: Poem, analytical process, strangeness, repetition, glimpse.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, C. D. de. Reunião. 7.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976. BAUDELAIRE, C. O pintor da vida moderna, s.n.t.

JAKOBSON, R. Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1978.

Bibliografia

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d.

GREIMAS, A. J., COURTES, J. Dicionário de semiótica. 9.ed. Trad. Vários. São Paulo: Cultrix, 1979.

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