Resumo: o artigo tem por objetivo discutir os diferentes as-pectos característicos da adolescência e suas implicações na vivência das diferentes etapas do processo educativo. De maneira específica, analisa a transição do ensino médio para o ensino superior, destacando o papel do vestibular como mecanismo seletivo e classificatório que permite o ingresso do estudante ao ensino superior. À guisa de con-clusão, o artigo vislumbra as possíveis implicações do vestibular enquanto um evento estressante e fator de risco para a saúde psico-lógica dos adolescentes. Analisa, também, o impacto que as atuais políticas nacionais para a educação superior possuem no processo se-letivo de ingresso na universidade.
Palavras chave: adolescência, vestibular, estresse e saúde
Lorena Soares Dias, Elias Nazareno, Daniela S. Zanini Helenides Mendonça
VESTIBULAR E ADOLESCÊNCIA: PERSPECTIVAS TEÓRICAS
A
adolescência, assim como a própria infância, foi constituída como fenô-meno da sociedade moderna e passou a ser objeto de estudo das ciên-cias humanas, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX (ARIÈS, 1981). Na verdade, a nova configuração familiar, de caráter eminente-mente burguesa, com todo o peso relacionado aos novos compromissos vinculados ao papel que cabe ao indivíduo, revelou a importância na adoção de medidas educativas que buscavam preparar este mesmo indi-víduo desde as idades mais tenras para os desafios que encontraria pela frente. A crença em uma nova atitude em relação ao filho é a de que os pais podem contribuir, oferecendo cuidados tanto nos aspectos físicos como possibilitando uma educação conveniente, tendo em vistaassegu-E IMPLICAÇÕassegu-ES
rar o êxito de seu destino posterior (BECK-GERNSHEM, 2003). Em todo este processo a idéia que permeia a sociedade moderna e que é influenciada pela Ilustração, é a idéia de formação (WEBER, 2000). Per-cebe-se que com o descubrimento da infância e da adolescência os cui-dados dirigidos aos indivíduos que estão nessa fase do desenvolvimento serão cada vez maiores, mas também crescerá com a mesma intensidade o nível de exigências quanto ao seu desempenho. Com o passar do tem-po, no século XIX, iniciaram-se, no meio científico, debates sobre o período intermediário entre as fases infantil e adulta. Em meio a essas discussões, surgiram inúmeros conceitos para a adolescência, de acordo com as várias áreas do conhecimento humano.
Áreas como antropologia, medicina, filosofia e, particularmente, aquelas voltadas para educação, saúde e comportamento têm dedicado aten-ção especial aos debates relacionados a essa etapa do desenvolvimento hu-mano (GUARIGLIA; BENTO; HARDY, 2006). Contudo, cada uma delas expõe de forma diferenciada o conceito de adolescência, ora primando pelo aspecto social, ora pelo biopsicológico. Levando em conta a fragilidade do jovem em decorrência das inúmeras transformações biopsicossocioculturais que ele experimenta na fase da adolescência, em muitos casos resultando em alteração de comportamento, o período da adolescência oferece maior risco psicopatológico para o indivíduo.
Os fatores de risco que podem aumentar a probabilidade do desen-volvimento de psicopatologias são variáveis. Para Burak (1999), podem ser destacados como fatores de risco típicos dessa fase os relacionados com a educação, e o autor ainda acrescenta a necessidade do conhecimento epidemiológico e conceitual para a criação e a aplicação de programas como medida de proteção para os jovens. Burak (1999) destaca os seguintes fato-res de proteção, os quais diminuem a probabilidade do desenvolvimento de psicopatologias: apoio social, elevada auto-estima, alto nível de resiliência, lócus de controle interno bem estabelecido, e família com boa comunicação interpessoal.
No presente artigo pretende-se revisar aspectos conceituais relacio-nados à adolescencia e suas implicações na vivencia das diferentes etapas do processo educativo e mais especificamente a transição do ensino médio para o ensino superior. Será destacado o papel do vestibular como mecanismo seletivo e classificatório que permite o ingresso do estudante ao nível supe-rior de ensino, sua implicação na saúde dos adolescentes além das diferentes acepções que possa ter este em função das atuais políticas de integração ou inclusão social relacionadas a educação.
ADOLESCÊNCIA
Observa-se que durante a Idade Média havia a inexistência de um conceito para o período intermediário entre a infância e a fase adulta, pois naquela época não existia uma distinção entre crianças e adultos. A inserção dos jovens no mundo adulto era marcada por sua independência em relação aos pais, mais precisamente à mãe, ou por intermédio de ritos de passagem (ARIÈS, 1981). A partir do século XIX, com o avanço acelerado da indus-trialização, a ocorrência do movimento familiar e o aparecimento das idéias iluministas (GROSSMAN, 1998), a adolescência passou a ser discutida com mais atenção. Na contemporaneidade, essa fase pode ser vinculada à lógica desenvolvimentista (visão cartesiana), de acordo com a qual a figura do adolescente é resultante de fenômenos psicológicos, biológicos e sociais (COIMBRA; BOCCO; NASCIMENTO, 2005).
O conceito de adolescência vem sendo debatido por várias áreas do conhecimento, tais como sociologia, antropologia, direito, medicina, entre outras. Alguns estudos em sociologia discutem a adolescência colocando-a como dependente da inserção da pessoa em cada cultura. A antropologia percebe o jovem por meio de ritos de iniciação e passagem até a chegada da fase adulta. Na área do direito se articulam as questões de menoridade e maioridade, en-xergando o adolescente conforme a legislação vigente. A medicina vê a adoles-cência dentro de um processo de crescimento e desenvolvimento caracterizado por mudanças psicossociais, iniciando-se com a puberdade e terminando no final da segunda década de vida. Para a Organização Mundial de Saúde, a faixa etária que corresponde à adolescência é aquela compreendida entre os 10 e os 19 anos de idade (GUARIGLIA et al., 2006). No Brasil, de acordo com o Es-tatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera-se adolescência o período da vida compreendido entre os 12 anos e os 18 anos, 11 meses e 29 dias de idade (BRASIL, 1990).
De acordo com Amarante e Soares (2007), no censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2000 pôde-se obpôde-servar crescimento considerável da população jovem brasileira. Segun-do aquele órgão, o Brasil apresentava uma população de aproximadamente 169.799.170 milhões de habitantes em 2000, estando 35% desse total na faixa etária de 10 a 19 anos de idade, seguindo a tendência de outros países, nos quais os adolescentes representam maior proporção da população em relação a idosos, adultos e crianças. Guariglia et al. (2006) também relatam que os jovens são maioria no país e alertam que os indivíduos nesta fase da vida são vítimas de vários problemas comportamentais, sociais e
psicológi-cos. Matheus (2003) discute esse problema por intermédio da análise do aumento da população jovem em um cenário de forte desemprego, proble-mas urbanos, disparidades sociais e violência, o que torna ainda mais precá-rias as condições de vida e aumenta mais os fatores de risco do jovem.
Alguns pesquisadores, principalmente da área da saúde, vinculam os conceitos de adolescência e puberdade à noção de crise, discutindo esta fase da vida humana como um período de emoções intensas, durante o qual o sujeito está em busca da consolidação de sua própria identidade (MARCELLI, BRACONNIER, 2007; SAITO, SILVA, 2001) e, por isso, às vezes, entra em crise, até atingir um estágio de maior amadurecimento (WAGNER et al., 2002). Essa interpretação da adolescência como período de crise pode ser tão perigosa, em suas conseqüências, quanto as concepções alternativas, que enfatizam desvios de comportamentos, libertinagem e irracionalidade (AGGLETON, 2000). Assim, é necessário não apenas escutar os adolescentes quando se faz um trabalho sobre eles, como também tratá-los como indivídu-os racionais e participantes ativindivídu-os de suas próprias vidas. Reconhecer indivídu-os jovens como atores sociais pode gerar transformações em seu meio (FREITAS, 2004). A associação entre adolescência e crise é discutida tanto no meio ci-entífico quanto em veículos de comunicação. Contudo, Aberastury e Knobel (1981) defendem que a adolescência é um processo, ou seja, uma fase do desenvolvimento; portanto, deve-se admitir e compreender sua aparente pa-tologia. Em realidade, existe uma grande dificuldade em assinalar o normal e o patológico nessa fase, pois seria “anormal” a presença de um equilíbrio estável durante o processo (BALLONE, 2004).
Porém, alguns teóricos não avaliam a adolescência como sendo nega-tiva ou problemática. Zanini (2003) argumenta que alguns adolescentes atra-vessam essa etapa de forma satisfatória, não havendo nenhuma conseqüência negativa para sua saúde mental. Domènech-Llaberia (2005) comenta que, apesar de a adolescência ser uma etapa de risco, não se deve avaliá-la de forma pessimista, superprotegê-la nem estigmatizá-la.
Diante do exposto acima, pode-se considerar a adolescência como uma fase da vida caracterizada por uma série de mudanças fisiológicas, psi-cológicas e socioambientais (SPARTA; GOMES, 2005), que pode ser ana-lisada sob a perspectiva de diversas áreas. Esse período repleto de transformações pode causar desequilíbrio e instabilidade ao jovem, além de incertezas, sofrimentos e ambivalência (SAITO; SILVA, 2001). Às ve-zes, essas transformações se tornam ansiogênicas e intensas para o adoles-cente (SILVA, 2002). Assim, a adolescência aparece como resultante da interação constante entre os processos de desenvolvimento biopsicossocial,
os quais estão subordinados às normas e aos valores de cada cultura (GROSSMAN, 1998).
Neste trabalho, a adolescência é entendida como um período de vulnerabilidade para o jovem (WAGNER et al., 1999), podendo ser consi-derada conturbada em decorrência de exigências sociais e pessoais a ela re-lacionadas (TIBA, 1986).
O processo de interação do jovem com fatores intrínsecos e extrínsecos pode deixá-lo mais vulnerável a fatores de risco. Zanini e Forns (2004) finem fatores de risco como aqueles que predispõem o indivíduo para o de-senvolvimento de psicopatologias. Ao estudar fatores de risco, Burak (1999) afirmou que estes são características apresentadas por determinado indiví-duo, família, grupo ou comunidade que torna maior a probabilidade de de-senvolver ou sofrer danos. Podem ser citados como fatores de risco mais comuns na fase da adolescência: relacionamento familiar com vínculos afetivos pobres; violência familiar; problemas escolares, como notas baixas e evasão; busca da identidade; evolução da sexualidade; baixa auto-estima; pertencimento a grupos com condutas de risco, tais como sexo sem prote-ção, uso de drogas, exposição a perigos.
Na literatura são discutidos os fatores de proteção contra as adversi-dades, que podem ser considerados como variáveis que moderam a relação entre os fatores de risco e os comportamentos do indivíduo. Burak (1999) refere-se aos fatores de proteção como características que favorecem o de-senvolvimento humano, mantêm a saúde ou ajudam a recuperá-la.
No Brasil, há grande interesse em pesquisar a adolescência. Contudo, percebe-se que há poucas pesquisas acerca de alguns temas específicos, como fatores de risco e proteção para os jovens, podendo-se destacar a influência do tipo de abordagem educacional (tradicional, sociointeracionista), a mudança na configuração familiar (pais homossexuais, divórcios, separa-ções), os papéis sociais, entre outros.
Entre as diversas etapas e mudanças que o adolescente tem de enfrentar em sua vida, uma está relacionada com sua escolaridade e inserção no mundo laboral: o vestibular. Esse fator assume grande relevância para o jovem, pois vivemos em uma sociedade de hiperespecialização (OLIVEIRA et al., 2001), na qual se adota um modelo socioeconômico cada vez mais seletivo, exigindo dos jovens formação cultural e intelectual cada vez mais refinada. Essa exigên-cia cada vez maior da escolaridade recai, sobretudo, nas meninas, em virtude das “diferenças” sociais e sexuais que ainda prevalecem na machista sociedade brasileira e também pelo fato de que em praticamente todo o mundo as mulheres vêm ocupando cada vez mais os espaços acadêmicos e profissionais.
O jovem percebe a escolaridade como uma exigência formal da socie-dade (MATHEUS, 2003), um meio pelo qual pode conseguir ascensão social e melhor ocupação social (SPARTA; GOMES, 2005). Para os jovens, freqüentar a universidade representa “ser alguém na vida”; por outro lado, não conseguir alcançar essa meta pode trazer danos à sua saúde mental, principalmente quando o indivíduo não se encontra amparado por seu sistema familiar (WAGNER et al., 1999) ou não conta com outros fatores de proteção que julga importan-tes, como respaldo da família, conversa com amigos, mais horas de estudo, aulas específicas, aulas de reforço, entre tantos outros.
Quando o adolescente se depara com fatores de risco e não encontra fatores de proteção, pode haver o desencadeamento de problemas em seu desenvolvimento, acarretando risco para sua saúde mental. Isso se deve ao fato de a adolescência compreender um período em que o indivíduo se encontra mais vulnerável, mais suscetível às adversidades (SANS, 2005). O VESTIBULAR COMO EVENTO ESTRESSANTE
Com a criação do Ministério da Educação e Cultura em 1930, jun-tamente com toda uma séria de transformações advindas da Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, iniciaram-se a formalização e a institucionalização do ensino secundário. A partir de 1953 criaram-se exa-mes de habilitação, vestibulares, entre outros, que tinham as finalidades de verificar se os alunos apresentavam condição mínima de freqüentar um curso superior e de classificar os candidatos em ordem de desempenho médio fi-nal (SANTOS, 1988).
Com a caracterização do vestibular como processo classificatório, percebe-se que ocorre uma divergência entre este conceito e a Lei de Dire-trizes e Bases da Educação (Brasil, 1996), que estabelece como função do ensino médio a promoção da educação de forma ampla e indiscriminada, levando em consideração o indivíduo como um todo e não apenas a sua preparação para a inserção no ensino superior. Entretanto, a supervalorização da educação superior, principalmente dos cursos mais tradicionais, vem exercendo influência negativa sobre as diretrizes do ensino. Assim, vem sen-do deixasen-do de lasen-do o papel da escola na preparação sen-do jovem para o munsen-do adulto, pois ela tem se transformado em veículo focado somente na prepa-ração de candidatos para o concurso vestibular. De acordo com o Art. 21 da lei n. 5.540/1968, a verdadeira função do vestibular deveria ser “[...] avaliar a formação recebida pelos candidatos e sua aptidão intelectual para estudos superiores [...]” (BRASIL, 1968). Portanto, conforme o exposto acima,
percebe-se que não há congruência entre o que propõe a lei e a prática do exame vestibular.
Vários autores vêm discutindo o papel da escola e seus déficits em relação ao ensino médio e concordam que a preocupação central com a aprovação no vestibular tem produzido um decréscimo no estímulo do comportamento exploratório vocacional e no desenvolvimento de projetos profissionais entre os jovens (SILVESTRE, 2004; SPART; Gomes, 2005). Os pesquisadores ainda atribuem ao desejo de ascensão social das classes populares a importância dada ao vestibular pelos alunos e suas famílias, tendo como estímulo a valorização das profissões de nível superior, além da des-valorização de outras formas de ocupação na sociedade contemporânea.
Mesmo assim, o vestibular pode ser considerado um marco na vida do estudante, representando a saída do mundo da adolescência e a entrada na fase adulta. As expectativas criadas em relação a esse momen-to, tanto para os adolescentes como para os pais e os professores, podem desencadear psicopatologias, tais como ansiedade e depressão, entre outras. Silvestre (2004) acrescenta que, mesmo percebendo o vestibular como uma etapa necessária ao seu crescimento como indivíduo perten-cente à sociedade, o jovem o vivencia como um processo de duplicidade que pode tanto incluí-lo como excluí-lo.
Soares (2002) argumenta que a imprevisibilidade a respeito da prova do vestibular, as desgastantes e exaustivas horas de estudo e, às vezes, sem lazer, a pressão gerada por família, amigos, professores e até pelo próprio vestibulando, o mercado de trabalho restrito, seletivo e competitivo, uma escolha profissional assertiva são fatores ansiogênicos para os jovens que passam por este processo. Em seu estudo, Bianchetti (1996) mostra que o vestibular traz ao aluno um sentimento de perda muito grande e uma neces-sidade de assumir autonomamente a sua nova identidade. Com isso, o jo-vem pode desenvolver sérios problemas de saúde mental no período que precede a realização do concurso vestibular, tornando-o, então, um evento estressante para o adolescente.
Eventos estressantes são conceituados por Pesce et al. (2004) como riscos ou obstáculos individuais (endógenos) ou ambientais (exógenos) que aumentam a vulnerabilidade do indivíduo, possibilitando o surgimento de resultados negativos em seu desenvolvimento. Boekaerts (1996) comenta que eventos estressantes de maior ou menor magnitude na vida dos adoles-centes têm sido relacionados ao desenvolvimento de problemas emocionais e comportamentais. Para Dell’Aglio (2003), esse processo pode ser influen-ciado pela habilidade do adolescente de lidar com o evento estressor.
Con-tudo, Moos (2003; 2005) acrescenta que aspectos relacionados ao ambiente social poderiam predispor a existencia de um evento estressante assim como acentuar as consequencias da vivencia deste na saúde das pessoas. Este pa-rece ser o caso do vestibular já que, conforme discutido anteriormente, his-toricamente tem-se valorizado cada vez mais essa etapa do processo educativo. Além disso observa-se, atualmente, medidas propagandísticas por parte das escolas de ensino médio que se baseiam no número de estudantes aprovados neste processo, enfatizando, assim, e uma vez mais para os adolescentes, o valor daqueles que conseguem sua aprovação no vestibular e a menos valia daqueles que, pelo próprio princípio classificatório da prova, não conseguiram sua aprovação. Assim, e embora possamos dizer de um aumento no número de escolas e universidades privadas a política de inculcamento do valor em função da aprovação em uma universidade pública continua sendo a tônica das escolas de ensino médio. Cabendo ao adolescente assim como a sua família lancar mão de recursos pessoais e sociais para enfrentar essa difícil etapa evolutiva chamada vestibular.
DISCUSSÃO
Como vimos, a adolescência é um fenômeno tipicamente moderno e suas respectivas atribuições repousam sobre as exigências e expectativas que lhe são colocadas pelo conjunto da sociedade moderna. Contudo, ao ser a adolescência um fenômeno moderno esta se encontra fundamentalmente vinculada ao crescente processo de individualização. Tal processo supõe um nível cada vez maior de responsabilidade ou de planificação por parte do indivíduo em relação aos resultados que busca alcançar em sua vida e a sua própria maneira de vivê-la. Assim, o que representa o objetivo fundamental da Ilustração, sobretudo quando pensamos em Kant, qual seja a autonomia, pode pesar como cruz nas costas de um adolescente. “A modernidade criou suas próprias diretrizes, umas instruções sobre a atitude que se deve ter para enfrentar ativamente a insegurança da vida preservando as condições de individualização. Seu ponto de partida seria: “Planificar! Fazer-se com o futuro! Desviar o azar, dirigi-lo e canalizá-lo por si mesmo!” (BECK-GERNSHEM, 2003, p. 84) Os indivíduos devem estar, mais do que prepa-rados, planificados para enfrentar-se a sociedade dos riscos (BECK, 1992) ou aos imperativos do futuro. Esta preparação e vivência de sua própria biografia supõe, além da busca do êxito pessoal, a prevenção de possíveis e mais que prováveis fracassos, envolvendo o indivíduo em uma espécie de modernidade profilática.
O nível de exigência está plenamente presente em obstáculos como o vestibular. Entretanto, há que enfatizar que as recentes modificações em termos de possibilidades de acesso a universidade, como o Programa Uni-versidade para Todos (Prouni) com a concessão de bolsas de estudo para estudantes de baixa renda e o sistema de cotas, além do intenso processo de privatização vivido no ensino universitário brasileiro, tem amortizado de forma considerável o nível de exigência para que um jovem ascenda ao en-sino superior. A democratização do acesso pode minimizar o nível de estresse vivido pelo adolescente, entretanto, pode revelar também, pari passu, que as oportunidades oriundas da obtenção do nível superior podem estar muito mais difíceis de serem alcançadas. Um mercado laboral extremamente com-petitivo tem revelado que a posse do título superior já não é nenhuma garan-tia de êxito profissional. Contudo, este seria já o objeto de outra discussão e as implicações que esta observação poderia ter sobre a saúde dos adolescen-tes e jovens merecem a atenção de estudos posteriores.
Em conclusão, o presente estudo ressaltou as características gerais da adolescência. A construção histórica do conceito e sua evolução. Discutiu-se as implicações sociais do atual enfoque e tratamento social da adolescên-cia ressaltando em espeadolescên-cial a fase específica do processo educativo vivenadolescên-ciado por estes adolescentes denominada vestibular. O nível de exigência social e educacional e o foco no êxito destacado pelo recurso classificatório do ves-tibular e suas conseqüências na saúde dos adolescentes também foram dis-cutidos e ponderados sob a luz das atuais políticas de integração social voltadas para a educação. Em geral o presente artigo revela as dificuldades da vivencia de uma etapa evolutiva de transição (adolescência) associada com um perí-odo social de modificações (políticas públicas voltadas para a educação) e pressões sociais (da escola, família e sociedade como um todo) voltadas para o êxito profissional e aprovação em um processo necessariamente excludente como o vestibular. Espera-se que estudos posteriores possam acompanhar os resultados das modificações sociais que estão ocorrendo na atualidade para posterior avaliação do impacto destas na saúde dos adolescentes a fim de comparação com o presente estudo.
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Abstract: the aim of this article is to discuss the different aspects that characterize adolescence and their impact on the different stages of the educational process. It analyses the transition from secondary to higher school in a specific manner, highlighting the role of entrance examinations as selective and classificatory mechanisms that grant admission to higher education. Considering that the entrance examination process is a stressful event and a risk factor, this article additionally analyses its prospect implications to the psychological health of adolescents. It also analyses the effect of current Brazilian higher education policies on the procedures to select and admit students.
Key words: adolescence, entrance examination, stress and health
LORENA SOARES DIAS
Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Psicóloga Escolar. ELIAS NAZARENO
Doutor em Sociologia pela Universidad de Barcelona (Espanha). Professor no Mestrado em Desenvol-vimento Regional das Faculdades Alfa.
DANIELA S. ZANINI
Doutora em Psicologia pela Universidad de Barcelona (Espanha). Professora no Mestrado em Psicolo-gia da UCG.
HELENIDES MENDONÇA
Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professora no Mestrado em Psicologia e Pró-Reitora de Graduação da UCG. E-mail: [email protected]