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(2) Leandro de Almeida Silva. O Discurso Modernizador de Rui Barbosa (1879-1923). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História por LEANDRO DE ALMEIDA SILVA Orientadora: Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi.. Orientadora: Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi.. Juiz de Fora 2009.
(3) Leandro de Almeida Silva. O Discurso Modernizador de Rui Barbosa (1879-1923). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História por LEANDRO DE ALMEIDA SILVA Orientadora: Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi.. Orientadora: Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi. Aprovada em 25 de junho de 2009 Banca Examinadora ____________________________________________ Prof. Drª Cláudia Maria Ribeiro Viscardi (orientadora) Universidade Federal de Juiz de Fora _____________________________________________ Prof. Pós-Dr. Ricardo Vélez Rodríguez Universidade Federal de Juiz de Fora _____________________________________________ Profª. Drª Surama Conde Sá Pinto Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Juiz de Fora 2009.
(4) Ao Tales e à Cris, com muito amor..
(5) AGRADECIMENTOS. Ao contrário de muitos modelos de agradecimentos, eu sei por onde começar. Se não fossem meus pais, Jorge e Maria da Penha, eu não seria praticamente nada. Ao meu pai, devo o seu legado de honestidade, bondade e garra. Devo, é certo, todo o meu respeito e admiração. À minha mãe, que mesmo já não estando entre nós, ecoa seus ventos de sabedoria e habilidade política com o mundo. Ela me ensinou a arte da política. Sinto até hoje seu afeto, seu brilho e sua firmeza. Muitas pessoas me ajudaram a percorrer esse caminho, trilhado com a sede de quem sabe lidar com as batalhas. Gostaria de lembrar-me dos meus professores de “cursinhos”, figuras exóticas e empolgadas com a cultura. Aos meus amigos da graduação e do mestrado: um forte abraço e meus sinceros agradecimentos por compartilharem comigo bons momentos de minha construção acadêmica. Aos professores do Departamento de História da UFJF também meu eterno agradecimento. Ao Prof. Galba Di Mambro, pelas orientações de normas técnicas, somadas a doses incansáveis de exercícios de tranquilidade, produto de nossas conversas. Ao Ignácio Godinho Delgado, por estimular o gosto pela pesquisa em seus alunos. Ao Marco Cabral que instigou nossa turma de mestrado a pensar sobre as diversas matrizes do conhecimento. Foi muito produtivo o seu curso e suas orientações. Não poderia esquecer-me de outros queridos do espaço acadêmico do ICH. Gostaria de citar o Marquinhos (Marquito) da cantina, às faxineiras queridas e os meninos alegres do xerox . À minha orientadora Cláudia Viscardi, todo o meu apreço e admiração, pelo profissionalismo e pela acolhida de um estudante, que há muito não freqüentava os bancos da Faculdade. Obrigado por acreditar em mim e depositar confiança no meu trabalho. Você é para mim uma referência cultural. À Andréa Casa Nova Maia e ao Ricardo Vélez Rodrigues, que fizeram parte de minha Banca de Qualificação e me deram a honra de também integrarem a Banca Examinadora de minha dissertação, dispenso palavras. Foi mágico aceitarem os meus convites. Finalmente, também com muito amor, aos outros sabores da minha família. Aos meus irmãos queridos. Obrigado por existirem. Ao Paulo César, que nunca mais tenhamos.
(6) contratempos, pois admiro sua determinação na vida. Ao Jorge Adilson, obrigado por manter sua jovialidade e ser afetivo: você merece dar a volta por cima. Ao Luís Carlos, “Carlinhos”, figura de exemplo para a humanidade. Meus parabéns! Ao meu irmão mais velho, “Lavinho”, obrigado por me ensinar a arriscar um pouco na vida para ter alguma coisa. Você é uma figura. Torço para que um dia nossa família possa estar mais unida, como era no passado. Vocês são tudo para mim, pois plantam minhas esperanças e fazem renascer minhas virtudes. Ao Prof. Messias por ter ampliado minhas possibilidades de trabalho e aos meus alunos, que me motivaram a não desistir do meu sonho. Valeu a pena. À Ir. Ernestina por ter enxergado em mim, um bom futuro para o seu Colégio. Muito Obrigado. Ao Luís Antônio Daibert por ter percebido bondade e talento em mim: estou torcendo muito por você. Ao Miguel Detsi, obrigado pelas conversas e pelas motivações. Ao professor José Luiz Botti agradeço por disseminar o seu idealismo. Ao Francisco por me ensinar a ser forte: um abraço, “Mano”! De forma também especial, à Mariângela, que acompanhou grande parte de minha história acadêmica: espero que se orgulhe de trabalhar comigo. Ao amigo André Carneiro, que sua humanidade contamine a todos nesse planeta nem sempre habitado por pessoas atentas à alteridade. Ao amigo Wander: meu muito obrigado por inspirar outros educadores a pensarem sobre o verdadeiro significado da arte de ensinar. À minha esposa Cris e ao meu filho Tales, devo-lhes todo este trabalho. Obrigado por serem solidários e estarem junto comigo, em plenas férias, apoiando meus estudos e tendo paciência com as minhas intempéries. Ficar sem conversar, brincar, compartilhar e abraçar vocês foi um grande sacrifício. Mas nunca deixei de fato de fazer isso no meu imaginário repleto de felicidades por ter construído com vocês uma bela história. Espero continuarmos nessa estrada. Dedico esse trabalho profundamente ao meu filho, Tales. Que você seja feliz e se inspire nos estudos de seu pai. Esse é o legado que gostaria de deixar a você, associado aos valores que construímos em família. À Cris, parabéns por sua beleza, sua verdade, sua ética, seu companheirismo, sua preocupação e sua bondade. Eu amo muito vocês e a fonte desse sentimento fez despertar em mim a vontade de vitória. Vocês são lindos!.
(7) Na análise dos acontecimentos históricos, entretanto, é preciso ir além dos fenômenos aparentes, que são observados e registrados pelos contemporâneos. As grandes transformações que subvertem as estruturas econômicas e a ordem social são às vezes silenciosas e passam desapercebidas aos olhos dos contemporâneos, ou são vistas de maneira parcial ou deformada. Emília Viotti da Costa.
(8) RESUMO No presente trabalho visamos estudar os discursos de modernização política de Rui Barbosa, durante o final do século XIX e primeira metade do século XX. Pretendemos, através dos discursos proferidos por Rui Barbosa, encontrar elementos de sua modernidade política, a partir dos principais acontecimentos da história do Brasil, no período mencionado. O estudo de sua formação política, bem como de suas influências fundamentais na construção do pensamento político no Brasil, tornaram-se uma das principais questões iniciais desse trabalho, que buscou correlacionar a gênese de seu pensamento com o processo de consolidação dos valores liberais por ele divulgados, principalmente, ao longo da Primeira República. Para isso, foi essencial compreendermos os conteúdos de seu pensamento liberal, inserindo-os nos contextos necessários, ao longo do processo de construção da República brasileira. Para realizar tal tarefa, investigamos um amplo conjunto de documentos, em distintas faces de sua formação: a carreira jurídica, jornalística, literária e política. Nosso foco foi este último ponto, contemplado pela bibliografia sobre o tema. A modernidade política de Rui Barbosa esteve presente nos debates sobre república, federalismo e abolicionismo PALAVRAS-CHAVE: Rui Barbosa. Modernização Política. Liberalismo..
(9) ABSTRACT This paper aims to study Rui Barbosa’s speeches of political modernisation from the end of the 19th Century to the middle of the 20th Century. Through the speeches given by Rui Barbosa, we intend to find elements of his political modernity, from the main events in Brazilian history during this period. One of the main initial subjects of this research was the study of his political formation and his fundamental influence in the construction of political thought in Brazil, thereby attempting to correlate the origin of his thought with the process of consolidation of the liberal values that he preached, especially at the time of the First Republic. So it was essential for us to understand the content of his liberal thinking, inserting it into the necessary contexts, during the process of construction of the Brazilian Republic. To carry out this task we investigated a large set of documents on different facets of his formation: his legal, journalistic, literary and political career. We focused mainly on this last item, considered by the bibliography on the theme. Rui Barbosa’s political modernity was present in debates on the republic, federalism and abolitionism. KEY WORDS: Rui Barbosa. Political modernisation. Liberalism..
(10) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................... CAPÍTULO 1 - A FORMAÇÃO DO DISCURSO MODERNIZADOR DE RUI BARBOSA: DO BERÇO LIBERAL OLIGÁRQUICO AO GABINETE DE CANSANSÃO DE SINIMBU (1849-1879) .................................................................... 1.1 Uma breve síntese biográfica ................................................................................... 1.2 Os diversos olhares sobre Rui .................................................................................. 1.3 A modernidade polimórfica ...................................................................................... 1.4 Culturas políticas compartilhadas ........................................................................... 1.5 Considerações finais .................................................................................................. CAPÍTULO 2 - O LIBERALISMO DE RUI BARBOSA: AS VÁRIAS FACES DE UMA TRADIÇÃO POLÍTICA (1879-1907) ................................................................. 2.1 As metamorfoses liberais no processo de construção do imaginário republicano 2.2 Rui e os grandes debates nacionais: Abolição, República e Federalismo 2.3 A Segunda Conferência de Haia (1907) ................................................................... 2.4 Considerações finais CAPÍTULO 3 - A CAMPANHA CIVILISTA DE 1910 .............................................. 3.1 Origens da Campanha Civilista e sua posteridade imediata ................................. 3.2 A oposição de Rui ao governo Hermes da Fonseca ................................................ 3.3 Rui e a Guerra da Democracia ................................................................................. 3.4 Os últimos anos (1918-1923) ..................................................................................... 3.5 Considerações finais CONCLUSÃO ................................................................................................................. BIBLIOGRAFIA ..............................................................................................................
(11) 9. INTRODUÇÃO. 1. A proposta do presente trabalho consiste em estudar o discurso de modernização política de Rui Barbosa, ao longo da segunda metade do século XIX, fase do II Império e, fundamentalmente, durante a Primeira República. Estabelecemos como marco inicial cronológico, o ano de seu nascimento, em 1849, por entendermos que sua formação familiar foi um elemento fundamental na construção de seu imaginário político até o ano de sua morte, 1923. Em linhas gerais, a historiografia recente sobre o tema tem procurado analisar a figura de Rui Barbosa como uma das expressões políticas mais importantes de nossa história, no que tange à lógica de construção de um espaço público legalista, no âmbito dos debates da montagem institucional da República liberal brasileira. Por mais esforços que os pesquisadores acerca do assunto tenham feito, grande parcela dessas obras ainda acabam se concentrando em certa dose de enaltecimento de sua figura, o que procuraremos mostrar no bojo de nossa pesquisa. 2 Nossa proposta consiste em fazer uma biografia de Rui Barbosa, a partir de novas formas de fazer biografias, tendo como ponto de partida a nova história política. Como nossa personagem aqui se encaixa no conjunto do pensamento da elite de uma época, percebemos a. 1. Disponível em: www.senado.gov.br. Acesso em: 01 mai. 2009. A título de exemplo poderíamos enquadrar nessa corrente: CARDIM, Carlos Henrique. A raiz das coisas: Rui Barbosa – o Brasil e o mundo. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2007 e GONÇALVES, João Felipe. Vida, glória e morte de Rui Barbosa: a construção de um herói nacional. 1999. Dissertação de Mestrado Universidade Federal do Rio de Janeiro: PPGAS / Museu Nacional / UFRJ, 1999. 2.
(12) 10. validade da análise de Heinz, quando o autor nos oferece um conjunto de possibilidades analíticas surgidas mediante a aplicação da metodologia das biografias ou grupos de elites.3 Segundo Heinz, as elites são definidas pela detenção de certo poder ou então como produto de uma seleção social ou intelectual. O estudo das elites seria um meio para determinar quais são os espaços e mecanismos de poder utilizados por diferentes tipos de sociedade ou, ainda, para delimitar os princípios empregados para o acesso às posições dominantes. Tal perspectiva, somada ao recurso metodológico das biografias coletivas, foram responsáveis pelo grande sucesso desse tipo de pesquisa entre os historiadores. Essa combinação possibilitaria, segundo o autor, realizar uma análise mais fina dos atores situados no topo da hierarquia social, permitindo compreender a complexidade de suas relações, de seus laços objetivos, com o conjunto ou com setores da sociedade.4 Os trabalhos mais antigos acerca de Rui Barbosa se concentravam em torno de algumas matrizes que percebemos como universais: o apego exacerbado ao seu legado histórico, vinculado ao seu heroísmo; a mistificação de sua figura política; a ênfase na sua cultura enciclopédica; no jargão simbolizado como homem além de seu tempo; um homem público portador de causas humanas; um desenraizado no ambiente político de sua pátria; um paradigma nos assuntos de justiça; um impecável estudioso das letras; um homem dotado de grande capacidade de sacrifício, entre outras questões análogas a tais adjetivos.5 Pretendemos distanciar-nos de tais abordagens e estabelecer uma análise mais equilibrada a respeito de Rui Barbosa. Não queremos engrandecer exacerbadamente sua figura e nem depreciar suas contribuições na formação do liberalismo-democrático-nacional. Procuraremos identificar Rui, nos contextos mais amplos, levando em consideração a tradição de seu liberalismo-oligárquico, conforme a ele se referiu um grupo de historiadores.6. 3. HEINZ, Flávio M. Por outra história das elites. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006. pp. 12-45. Ibid, pp. 12-45. 5 Como exemplos desse conjunto de pensadores, citamos: VIANA, Filho, Luiz. A vida de Rui Barbosa. São Paulo: Martins, 1965.; ______. Rui Barbosa: seis conferências. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura ( MEC) / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977.; ______. A vida de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Cia. editora nacional, 1977.; VILLAS-BOAS, N.B. A Rui o que é de Rui. Rio de Janeiro: MEC / Casa de Rui Barbosa.; MONTEIRO, Exupero. Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Casa de Rui Barbosa, 1958.; PIRES, Homero. Rui Barbosa e os livros. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1949. ; LIMA, Hermes. O construtor, o crítico e o reformador na obra de Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1958.; entre outros que mostraremos ao longo de nosso capítulo 1. 6 RESENDE, Maria Efigênia Lage de. O processo político na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucília de A. Neves (org.). O tempo do liberalismo excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. v. 1, p. 98-100. Cf .também CARONE, Edgard. A Primeira República (1889-1930). São Paulo: Difel, 1975, pp. 112-134. ______. A República Velha: instituições e classes sociais (1889-1930), 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988. pp.23-38. CARONE, Edgard. A Primeira República (1889-1930). São Paulo: Difel, 1975. ____. A República Velha: instituições e classes sociais (1889-1930). 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988. pp. 25-74. 4.
(13) 11. Para compreendermos as propostas da modernização política de Rui Barbosa, levamos em conta a noção de contexto, defendida por Alban Bensa. Para esse autor, não se pode pensar no contexto como uma estrutura estática, pois ele é imanente às práticas sociais, faz parte delas. O contexto histórico, em sua concepção, seria composto por “múltiplas contradições e fraturas internas”, podendo suscitar a ideia de que “vários contextos muitas vezes antinômicos se encontram cristalizados no próprio interior do comportamento dos atores”. 7 Esta ideia se encaixa no contexto – ou nos “contextos” – aqui analisados, pois os fatores da construção do discurso modernizador de Rui são múltiplos e regados por variáveis, como mostraremos. Rui se insere no fervor de uma identidade particularizada por suas culturas política. De acordo com Serge Berstein, a cultura política constitui um “conjunto coerente em que todos os elementos estão em estreita relação uns com os outros, permitindo definir uma forma de identidade do indivíduo que dela se reclama”.8 Ela permitiria ainda uma leitura comum do passado e uma projeção para o futuro. É exatamente este o caso do discurso difundido por Rui Barbosa em sua época. Notadamente, perceberemos que em grande parte de sua vida, em especial, na Primeira República, há uma leitura negativa em relação ao passado – visto como o atraso, a república dos coronéis, excludente e elitista – e um projeto político para o futuro: democratização, concretização dos ideais republicanos, defesa das liberdades individuais – com a inserção política das camadas médias urbanas e populares através do voto secreto e uma pretensa “moralização” da política brasileira. O final do Segundo Reinado e o processo da Primeira República foi um período adequado para o estudo do discurso de modernização política de Rui, uma vez que vários debates políticos sobre a sociedade brasileira nele se estabeleceram. Entre as principais discussões, citamos a questão da escravidão e o abolicionismo; a construção de um modelo republicano, inspirado nos arcabouços da cultura política anglo-saxônica; a necessidade de se criar um espaço político no país para aumentar a demanda natural da necessidade de participação política, como foi o caso dos anseios da classe média; a luta em torno do habeascorpus, a proposta de formular um Código Civil fundamentado nas garantias das liberdades individuais; a discussão em torno da reforma no ensino, entre outros problemas políticos de. 7. BENSA, Alban. Da micro-história a uma antropologia crítica. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 52. 8 BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean Pierre & SIRINELLI, Jean-François (org.). Para uma história cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998. p. 349-50..
(14) 12. inserção de uma cidadania moderna refinada e redefinida no curso da investigação histórica, respeitando as especificidades da realidade brasileira. Não existem trabalhos específicos que tratam dos discursos de modernidade política de Rui, que levam em consideração toda a sua vida, sua trajetória e suas culturas políticas compartilhadas. Nesse sentido, estudar o tema se torna instigante e nos motiva a colaborar para o debate historiográfico baseado na rediscussão da modernização política na História do Brasil. Ao lançarmo-nos no calor de nossa pesquisa algumas perguntas nos inspiraram. Quais obras ele lia e em quais autores ele se inspirou? Que valores políticos Rui transmitia em seus discursos? Quais são as principais ideias liberais que influenciaram Rui Barbosa? Havia homogeneidade em seu discurso político? Por que os eventos dos quais ele participou expressaram elementos de modernização política? Qual a importância da modernidade política de Rui para a classe média? De que forma Rui articulou o seu liberalismo oligárquico? Qual sua postura em relação à política externa? De que forma ele agia na política? Havia coerência entre seus discursos e sua atividade na vida pública? Como ele se posicionou na Campanha Civilista de 1910? Quais os significados de suas ideais para a atualidade? Para respondermos as questões propostas, examinamos toda a documentação disponível acerca dos seus discursos e verificamos que, de fato, Rui Barbosa esteve envolvido diretamente com a rotina de projetos liberais, sem, contudo, abandonar sua tradição oligárquica, para realizar seus cálculos e interesses. Porém, ao mesmo tempo, verificamos a importância de suas bandeiras políticas na construção da dignidade dos valores liberais. Percorremos sua vida política analisando sua passagem no poder como Deputado Provincial, Deputado Geral, Senador, Ministro dentre outras funções por ele ocupadas. Constatamos que Rui Barbosa representou determinados avanços para o debate político no Brasil, principalmente, em suas críticas ao militarismo e na usurpação do poder público em nome da filosofia do autoritarismo. Ele postulou a liberdade contra as arbitrariedades de determinadas práticas políticas tirânicas de governantes nacionais e internacionais. Após seguirmos todos esses passos, dividimos o nosso trabalho em três capítulos. No primeiro, verificamos de que forma Rui Barbosa construiu suas ideias modernizadoras e liberais. Pontuamos as origens de sua construção ideológica alicerçada em seu forte liberalismo oligárquico. No levantamento realizado, observamos que Rui construiu seus valores políticos em torno do legado de sua formação familiar e intelectual, especialmente, na Faculdade de Recife, local onde diversos temas políticos brasileiros eram debatidos..
(15) 13. Discutimos as propriedades do debate acerca do “Moderno”, levando em conta os seus discursos e a formação dos grupos políticos, entre os quais ele compartilhou valores. No segundo capítulo, analisamos a tradição política liberal de Rui Barbosa, tendo como preocupação central enumerar e refletir sobre os principais eventos políticos em que ele manifestou sua presença na arena política. Os documentos serviram de base para constatarmos o perfil de seu pensamento liberal e os traços de modernidade política pelos quais ele se empenhou durante sua época. Os documentos nos mostraram seu apreço pelos ideais políticos norte-americanos, sua inclinação pelas simpatias ao parlamentarismo britânico, embora na Constituição de 1891, tenha sido defensor, pelo menos, no início, do presidencialismo estadunidense. As fontes nos mostraram a pluralidade das culturas políticas de Rui Barbosa e dos grupos políticos que disputavam a hegemonia pelo poder. Ainda no segundo capítulo falamos sobre a Segunda Conferência de Paz em Haia e discutimos as principais causas defendidas por Rui. Ao examinarmos as fontes, percebemos que suas atitudes, realmente, foram dignas para a defesa do Brasil, em sua imagem pública internacional. Falamos, em seguida, sobre a fabricação mítica de Rui Barbosa, notadamente, quando de sua volta para Brasil, em que discutimos os contextos de formação do símbolo com que ficara conhecido: “O Águia de Haia”. O debate sobre sua participação na política externa refletiu profundamente em outras políticas compartilhadas por ele, que verificamos de forma macro, no âmbito da Campanha Civilista de 1910. No terceiro e último capítulo, examinamos a Campanha Civilista de 1910, onde discutimos as nuances do processo histórico, bem como os valores disseminados por Rui acerca de seu antimilitarismo. A documentação examinada nos levou a verificar o apreço político de Rui Barbosa à permanência de uma estrutura política civil no Brasil, contra o militarismo, que, em sua leitura, expressava relações de similitude com o autoritarismo dos grandes impérios. Os documentos nos mostraram as críticas que Rui fez à possibilidade de vitória do militarismo no pleito de 1910. Logo, em seguida analisamos, após a derrota de Rui, a oposição feita por ele contra Hermes da Fonseca. Pudemos constatar que, nas fontes pesquisadas, Rui travou várias discussões sobre os fundamentos do liberalismo. Analisamos, para elucidar tal assertiva, a campanha de Rui contra a lei de vacina obrigatória e a sua forte oposição ao governo Hermes, no que tange à política de intervenções militares. Outro assunto de que tratamos, no terceiro capítulo, foi o empenho de Rui em recrutar uma defesa política contra a neutralidade na Guerra. Ao verificarmos a documentação.
(16) 14. sobre esse assunto, ficaram evidentes suas ligações com os “Aliados” e a importância do papel histórico de tal evento na política externa e interna no Brasil. Terminamos nosso trabalho discorrendo sobre os últimos anos de sua vida, quando das homenagens que lhe foram prestadas, no Jubileu Cívico e Literário, e também sobre seu envolvimento político, no contexto do governo Arthur Bernardes. A documentação pode nos mostrar as especificidades políticas no final de sua vida, garantindo nosso argumento de em relação à sua heterogeneidade de discurso..
(17) 15. CAPÍTULO 1 - A FORMAÇÃO DO DISCURSO MODERNIZADOR DE RUI BARBOSA: DO BERÇO LIBERAL OLIGÁRQUICO AO GABINETE DE CANSANSÃO DE SINIMBU (1849-1879) O Brasil não é isso. É isto. O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é esta assembléia. O Brasil é este comício imenso de almas livres. Não são os comensais do erário. Não são as ratazanas do Tesoiro.Não são os mercadores do Parlamento. Não são as sanguessugas da riqueza pública. Não são os falsificadores de eleições. Não são os compradores de jornais. Não são os corruptores do sistema republicano. Não são os oligarcas estaduais. Não são os ministros de tarraxa. Não são os presidentes de palha. Não são os publicistas de aluguer. Não são os estadistas de impostura. Não são os diplomatas de marca estrangeira. São as células ativas da vida nacional. É a multidão que não adula, não teme, não corre, não recua, não deserta, não se vende. Não é a massa inconsciente, que oscila da servidão à desordem, mas a coesão orgânica das unidades pensantes, o oceano das consciências, a mole das vagas humanas, onde a Providência acumula reservas inesgotáveis de calor, de força e de luz para a renovação das nossas energias. É o povo, em um desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade. 9. 1.1 Uma breve síntese biográfica Pretendemos neste trabalho possibilitar outros olhares sobre a História política da Primeira República. Para isso falaremos um pouco do contexto anterior visando explicar a trajetória de Rui Barbosa. Sabemos que, possivelmente, a tradução do liberalismo oligárquico foi consubstanciada na figura emblemática de Rui, nosso objeto de estudo.108 9. Disponível em: www.pensadoresbrasileiros.home.comcast.net. Acesso em: 10 abr. 2009. RESENDE, Maria Efigênia Lage de. O processo político na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucília de A. Neves (org.). O tempo do liberalismo excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. op.cit. pp 100-101. 10.
(18) 16. 11. O caminho que escolhemos para desenvolver este trabalho consiste em fazer uma análise cronológica, destacando os eventos em que Rui esteve envolvido, tendo como eixo a perspectiva de sua modernidade política. A partir de tais eventos, avaliamos as culturas políticas da época levando em conta a coesão oligárquico-familiar e personalista e, ainda, buscamos perceber a visibilidade nacional de Rui, almejando os mais altos postos da política Federal. Para Serge Bernstein,12 a cultura política surgiu na tentativa de oferecer uma explicação mais satisfatória dos comportamentos políticos, pelo fato de não apresentar-se como uma “chave universal” que explica todos os fenômenos, mas como uma ferramenta de “múltiplos parâmetros” que permite adaptar-se à complexidade dos comportamentos humanos. É levando em consideração tais colocações que vamos procurar compreender a dinâmica política de Rui envolvida em torno das particularidades contraditórias do Brasil 11. Caricatura de Rui Barbosa disponível em www.casaruibarbosa.gov.br. Acesso em: 10 abr. 2009. BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean Pierre & SIRINELLI, Jean-François (org.). Para uma história cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998. pp. 349-50.. 12.
(19) 17. Oligárquico. A modernidade de Rui é manifestada à luz dessas circunstâncias históricas. Na leitura de Marshall Berman em seu livro “Tudo que é sólido desmancha no ar”13: Ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição. É sentir-se fortalecido pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder de controlar e freqüentemente destruir comunidades, valores, vidas; e ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, a lutar para mudar o seu mundo transformando-o em nosso mundo. É ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador: aberto a novas possibilidades de experiência e aventura, aterrorizado pelo abismo niilista ao qual tantas aventuras modernas conduzem, na expectativa de criar e conservar algo real, ainda quando tudo em volta se desfaz.Dir-se-ia que para ser inteiramente moderno é preciso ser anti-moderno.. Confirmando que as contradições da modernidade é que dão a ela seu verdadeiro sentido, Rui Barbosa parece não ter sido exceção diante da amplitude desse conceito. As peculiaridades de seu tempo eram carregadas de incoerências, porém explicáveis diante da teia de suas relações políticas e de seu comportamento típico, retrato de uma geração de pensadores sociais que nem sempre lutava amplamente por direitos sociais, mas apenas por direitos políticos: [...] a modernidade foi marcada, portanto, por esse caráter profundamente excludente. Existia uma descrença na capacidade da população negra e mestiça. Por isso a adoção de práticas democráticas mostrou-se tão problemática. A civilização não implicava a democratização social, mas antes, no reforço dos ideais aristocratizantes. No Rio de Janeiro, em particular acabaram-se criando novos mecanismos de exclusão social, já que a abolição da escravidão – pelo menos em teoria – determinava a igualdade de direitos.Os ideais civilizatórios passaram a ser claramente endereçados às elites. Essas, identificadas com a cultura européia passaram a ser claramente endereçadas às elites. Essas, identificadas com a cultura européia, tentavam negar as origens mestiças da nacionalidade. Para isso recorriam abusivamente aos mecanismos de diferenciação.. Rui foi a expressão nítida do discurso de modernização política. Nossa premissa, assim como na visão de uma parcela de historiadores, é que toda a sua modernidade também foi levada pelo apego às tradições. Nasceu em Salvador, em 1849, filho de João José Barbosa e Maria Adélia Barbosa de Almeida. Para entendermos um pouco mais a vida de nossa personagem principal, vamos procurar conhecer a importância de seu pai, célebre por ter tido uma grande barganha nos relacionamentos políticos. João José Barbosa tinha a formação em Medicina, mas sua paixão era a política. Era um liberal, formado na tradição inglesa, mas também nos princípios do Contrato Social de 13. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo. Ed: Cia. das Letras, 1982. p. 84.
(20) 18. Rousseau e nos Direitos do Homem e do Cidadão, uma das representações mais significativas da Revolução Francesa. Tais influências acabaram por despertar sua participação na revolta regencial conhecida como Sabinada. Foi um homem voltado sempre para os problemas da educação e da cultura e, por esse motivo, dirigiu a “Instrução Pública” de sua província, publicando importantes relatórios e sustentando polêmicas a respeito de sua atividade. Foi dele a principal influência sobre o filho, benéfica em pelo menos dois sentidos: no amor à leitura dos clássicos e no respeito à documentação em suas pesquisas. No contexto em que João José Barbosa era Diretor de Instrução Pública, Rui foi estudar no Ginásio Baiano, que funcionava na antiga mansão do Marquês de Barbacena. Seu Diretor era Dr. Abílio Borges, homem culto e liberal. Na memória da cidade era um homem ligado à moderna educação. Foi ele quem aboliu a palmatória para os alunos que eram designados pejorativamente de preguiçosos. Em 1865, Rui terminara o curso ginasial e ficaria pronto para cursar a velha Faculdade de Direito de Recife, lugar onde os grandes debates acadêmicos aconteciam no país. João Barbosa veio do Rio de Janeiro assistir à formatura no curso ginasial e se espantou com o discurso proferido pelo filho. Na ocasião, Rui lançara as bases de seu liberalismo ao defender a unidade nacional e ao proclamar grande parte dos anseios da juventude de sua época, calcados no modernismo liberal. Sem dúvida, como dissemos, um passo importante de Rui foi o seu ingresso na Faculdade de Direito de Recife. Outra Faculdade, que mais tarde se tornaria um forte campo de debates, foi a Faculdade de Direito de São Paulo. No contexto, a cultura jurídica era uma forma de ascensão política. Gilberto Freyre, em sua obra “Sobrados e Mocambos”, afirma que os bacharéis de São Paulo trouxeram uma determinada perspectiva de renovação das elites, simbolizada na proposta de substituição de um patriarcado rural tradicional por um urbano fortemente europeizado. Sabemos que o foco de Rui foi voltado para os direitos civis e políticos, não tendo a mesma preocupação com os direitos sociais, nosso lugar de discussão a partir daqui. Entendemos que o cunho liberal de Rui não abarcou uma ampla cidadania social, em quase toda a sua carreira política. A relação entre o seu discurso e a questão da cidadania devem, portanto, serem esclarecidas, uma vez que o ideário liberal-democrático enfatizou seus horizontes na lógica do debate sobre a cidadania, entendida esta no âmbito jurídico-político, nada além disso. Um dos retratos mais marcantes de Rui foi a possibilidade de ele expressar a coexistência de práticas políticas oligárquicas com os princípios norteadores do Constitucionalismo Liberal, tendo como eixo os discursos favoráveis às demandas do.
(21) 19. liberalismo individual. Essa lógica também foi uma das fortes motivações de seu pai, que se fundamentava no modelo político anglo-saxão. Rui teve uma vida mergulhada nesses grandes anseios.Como desdobramento de sua formação todas as leituras e influências de seu pai acabaram por levá-lo a ser conhecido como um “homem das letras”. Sua vocação era estar inclinado ao aperfeiçoamento da linguagem, a fim de torná-la cada vez mais um instrumento de combate. Essa tarefa era de permanente investigação, parte de um universo de perpétua pesquisa sistemática. Os livros eram amados por ele. Para termos uma ideia de sua motivação pela cultura, basta observarmos o tratamento que ele dava à própria organização de suas fontes de pesquisa, revelando o apreço que tinha por elas. As obras eram cuidadosamente citadas com indicações de edição, local, data, página e, às vezes, até de linhas. As mais antigas edições eram de Castilho Antônio, Camões, Shakespeare, Lincoln, Herculano, Frei Luís de Souza, Frei Heitor Pinto, Dr. Antônio Vieira e, mais que todos, Pe. Antônio Vieira. As publicações do pai apresentam a mesma preocupação fundamental. As notas citadas por Rui são tomadas caprichosamente, de acordo com a preocupação de indicar as fontes. Os originais são sempre limpos, caligráficos, frequentemente com tinta de duas cores para destaque dos trechos principais. De acordo com nossa pesquisa, os cadernos mais recentes datam dos últimos anos de sua vida, depois da polêmica sobre o Código Civil (1902), assunto que aprofundaremos no capítulo 2. São centenas de fichas, que representam a negação do improviso e a inspiração momentânea.9 Seus horizontes políticos foram consolidados numa série de eventos. Destacou-se como autor de projetos de reforma eleitoral e de emancipação dos sexagenários, o que expressa sua ligação com o contexto do abolicionismo. Foi autor dos pareceres sobre a reforma de ensino, entendendo que uma sociedade deveria ser organizada a partir de uma comunidade letrada. Notamos que isso era tão significativo, pois defendia a tese de que os analfabetos não deveriam exercer o direito de voto. Somente a partir da alfabetização o status de cidadão poderia ser preenchido no sentido de exercer o discernimento e lutar pelos direitos constitucionais, como fica claro no seguinte documento: “[...] a instrução do povo, ao mesmo tempo, que o civiliza e o melhora, tem especialmente em mira a habilitá-lo a se governar a si mesmo, nomeando periodicamente, no município, no Estado, na União, o chefe do Poder Executivo e a legislatura”. Entre suas lutas mais proeminentes citamos o fato de ele ser um grande líder do Federalismo. Ideário político totalmente influenciado pelo modelo norte-americano, em 9. Documento publicado no Jornal da Bahia, Salvador, em 2 de julho de 1877. Cf. LACERDA, Virgínia Cortes Escritos e Discursos Seletos. Ibid. pp. 736-756..
(22) 20. especial, aquele defendido por Lincoln na época da Guerra de Secessão. Tal federalismo estadunidense era tão expressivo, que o próprio Lincoln colocava a possibilidade de abolir a escravatura para atingir os seus objetivos de Federação. No ano de 1868, Rui aos 19 anos, fez um discurso saudando o deputado José Bonifácio, sobrinho e neto do velho fundador do Império brasileiro, um de seus professores em São Paulo. No ano em questão, o Imperador D. Pedro II, contrariando o princípio moderador da Coroa, destituiu o Gabinete Zacarias, recém-convertido ao Liberalismo, pondo em seu lugar Itaboraí. Rui protestou a atitude do Imperador no jornal chamado “Clube da Reforma”, porém depois foi levado a reconhecer o exagero de suas críticas tendo a postura de dizer que o importante era a reforma do Estado, desde que se preservasse a liberdade. Foi logo depois disso que ele proferiu seu discurso em homenagem a José Bonifácio, pois este também era contra a arbitrariedade do Imperador. Após esse discurso, Rui viria a fundo na sua carreira jornalística no “Radical Paulistano”, miniatura do “Clube da Reforma”, sendo parceiro de Luís Gama, Américo de Campos e Bernardino Pamplona. Foi nesse jornal que Rui passou a canalizar suas ideias sobre ensino livre, abolição da escravatura e eleições diretas. No sentido geral, esses jornais surgiram a partir de algumas discussões travadas por determinados grupos intelectuais, defensores dos valores liberais-democráticos. Outro aspecto de notoriedade da carreira de Rui Barbosa foi, no ano de 1869, quando teve uma atuação pública bastante significativa, por meio da saudação proferida às tropas que voltavam da Guerra do Paraguai. Durante três noites fez discursos aos soldados defendendo as bandeiras da liberdade e do civilismo. Esse episódio aprofundou a mística de Rui em torno de sua imagem pública. Em 1875, Rui protestou contra o serviço militar obrigatório decretado pelo Império. Sua perspectiva era no sentido de defender a liberdade contra o militarismo excessivo. Utilizando--se das premissas filosóficas de John Locke, fez um discurso calcado nos pilares das liberdades individuais, trilhando o seu caminho em direção à identidade de sua eloquência. Estabelecendo um pequeno paralelo entre sua vida política e pessoal, no contexto de 1876, Rui conheceu sua paixão, Maria Augusta Viana Bandeira. Moça pobre, filha de funcionário público, mas vinda de uma ilustre família tradicional aristocrata baiana. A história nos conta que ele tinha que adquirir determinados capitais para os fundos da realização de seu amor e por isso foi para o Rio de Janeiro. Na Corte, logo se empregou em um escritório de advocacia, por recomendação do conhecido político Manuel Dantas e passou a escrever no.
(23) 21. jornal “A Reforma”, cujo eixo temático principal era a crítica direta ao Partido Conservador, então no governo. Como orador discursou ao embaixador do Chile e proferiu discursos realizados numa Loja Maçônica, o que legitimou seu nome na cidade. O primeiro discurso foi uma defesa da liberdade individual e o segundo, a favor da separação entre a Igreja e o Estado.10 No contexto da chamada “Questão religiosa” o anticlericalismo de Rui ganhou espaço proeminente. A gênese dessa questão se encontra na prisão dos bispos do Pará e de Olinda, no ano de 1873, acusados de hostilidades contra os maçons. A ação dos bispos decorrera da obediência, a uma Bula Papal que o imperador não ratificara, sendo assim considerada um desrespeito aos poderes do imperador sobre o clero. No “Diário da Bahia”, Rui se posicionou favoravelmente aos dois bispos, mas quando eles foram anistiados em 1875, Rui protestou o fato nas páginas do jornal. Nesse passo se desenvolvia o processo de sua posição a favor da liberdade religiosa e da separação entre a Igreja e o Estado. Esta postura de Rui se deve ao fato de ele defender um Estado laico e o contexto de transição da Monarquia à República favorecer plenamente sua postura política nesse sentido. Ainda se tratando da “Questão Religiosa”, Rui se envolveu em outras histórias. Um livro francês contra o dogma da Imaculada Conceição, traduzido e prefaciado por João José Barbosa, fora publicado logo após sua morte. Atacado por defensores das posições papais, Rui Barbosa saiu em defesa do trabalho do pai com uma crítica virulenta das prerrogativas temporais do papa, da intolerância religiosa, dos dogmas da infalibilidade papal e da Imaculada Conceição. Em 1875, logo depois da anistia aos bispos, Rui mais uma vez suscitou a revolta do clero contra si, ao defender publicamente a apresentação, na Bahia, da peça “Os Lazaristas”, considerada anticlerical por discutir os dogmas recentes da Igreja e a atuação temporal do papa.11 Quando Rui chegou ao Rio, novamente o “capital social” herdado de seu pai funcionou a seu favor. Vinculou-se à Saldanha Marinho, que ampliava o anticlericalismo estabelecendo uma parceria com Rui ao convidá-lo para traduzir a obra antipapista, do alemão Johann Dollinger. Rui aceitou, pois estava com dificuldades econômicas e precisava obter renda para cumprir os seus principais compromissos. Saldanha garantiu a Rui que a maçonaria compraria 1.500 exemplares do livro, o que seria um grande elemento para se livrar das dívidas herdadas do pai. 10. GONÇALVES, João Felipe. Rui Barbosa: pondo as idéias no lugar. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2000. pp. 12-16. 11 GONÇALVES, João Felipe. Op. cit., pp.12-24..
(24) 22. Em fins de 1876, Rui retornaria à Serra Fluminense, mas ficaria doente de tifo, chegando a passar por risco de vida. Em seguida retornou a Salvador em meados de 1877, quando assumiu a direção do “Diário da Bahia”, devido à ausência de Rodolfo Dantas, passagem de sua vida que comprova mais uma vez os benefícios das relações pessoais e políticas de seu pai. Em artigo publicado no jornal “Diário da Bahia”, Rui expressava seus anseios em relação ao povo brasileiro destacando o fato de os homens serem donos de sua própria história. A modernização política de Rui também era celebrada por sua ampla visão acerca da liberdade individual dos homens, como nos mostra o seguinte trecho: “[...] um povo digno de dominar os seus destinos, de ser indisputadamente senhor de si mesmo, não delira, não se atordoa, não fecha os olhos à realidade severa da sua posição. Nas horas mais freqüentes do regozijo, quanto a imaginação e o entusiasmo dourarem das suas irradiações os feitos de nossos pais, ouçamos, cada um no seio de sua alma”.12 Outro marco importante de sua vida também ocorreu em 1877, quando ocorreu a homenagem ao General Osório, equivalente liberal ao Duque de Caxias para o Partido Conservador. Rui foi escolhido como orador para saudá-lo em nome da Comissão Central do Partido Liberal, em janeiro de 1878, com o Gabinete de Cansansão de Sinimbu. É notória a importância da ascensão de Sinimbu. As eleições parlamentares imperiais eram feitas para referendar o Gabinete que assumia, e, portanto os liberais tinham sido a minoria parlamentar nos últimos 10 anos de governo conservador. A partir desse momento, com a ascensão dos liberais ao poder, jovens políticos, como Rui Barbosa, saíam do ostracismo.13 Fica evidente que para a eleição de Rui, para ambas as câmaras, provincial e geral, foi decisiva a influência de Manuel Dantas. Este garantiu as eleições, como de costume na época, sem campanha, utilizando-se de arranjos internos da elite conforme as questões complexas de articulações políticas que envolviam as elites no final do século XIX e início do século XX.14 No comentário de João Felipe Gonçalves a expressão política de Rui, corroborada por Dantas, pode ser sintetizada nas suas origens da seguinte forma: como deputado provincial a atuação de Rui não teve muitos incidentes dignos de nota (devido a sua curta duração). O maior embate em que se envolveu foi acerca de uma crise no abastecimento de farinha na 12. Documento publicado no Jornal da Bahia, Salvador, em 2 de julho de 1877. Cf.. LACERDA, Virgínia Cortes Rui Barbosa: escritos e discursos seletos. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa/Editora Nova Aguilar, 1995.p.736. 13 LAMOUNIER, Bolívar. Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999. 14 CARVALHO, José Murilo. Op. cit. (nota 26), pp. 107-108..
(25) 23. cidade de Salvador. Rui defendeu um projeto que proibia temporariamente a exportação de farinha como forma de resolver a crise. Sobre essa polêmica, dois aspectos são de destacar. Primeiro, a defesa de Rui Barbosa foi inteiramente calcada em exemplos similares da história parlamentar inglesa, mostrando a validade da suspensão do livre câmbio em certos casos. Segundo, o fato teve grande repercussão porque o grande opositor do projeto era Luís Antônio Barbosa, tio de Rui, com quem este rompera relações desde que ele rompera com Dantas e João José Barbosa. Tio e sobrinho passaram ao ataque mútuo e constante nos jornais soteropolitanos, trocando agressões abertas. Em mais um duelo verbal se envolvia o jovem Rui, e ia crescendo sua fama de orador e escritor capaz de destruir o argumento alheio. Desse duelo familiar Rui saiu em dezembro de 1878 para ocupar a cadeira na Assembléia Geral, na corte. Mas logo teria também ali chances de se sobressair através de polêmica igualmente ferozes.15. Por último, abordamos os primeiros discursos de Rui na qualidade de Deputado Geral. O primeiro discurso foi contra o seu correligionário do Partido Liberal, Gavião Peixoto. Na ocasião, Rui argumentou que o candidato conservador João Mendes apresentava legitimidade para preencher a vaga na Assembléia, uma vez que defendia a tese de que Gavião Bueno tinha sua elegibilidade invalidada por ser concessionário de serviços públicos. Seu argumento não convenceu a Câmara Liberal, que acabou favorecendo a Gavião Peixoto, porém Rui aumentou com tal estréia sua tradição de tribuno eloqüente e perspicaz. O segundo discurso significativo de Rui foi em defesa de uma atitude do governo imperial: ter dado o poder a um Gabinete Liberal e convocado novas eleições. Rui proferiu um discurso de aproximadamente quatro horas legitimando uma de suas marcas políticas. Mas o seu maior triunfo foi o duelo de eloqüência com Gaspar Silveira Martins, que tinha sido ministro da Fazenda do Gabinete Sinimbu, então no poder, o qual criticava.. Martins discordava da reforma eleitoral proposta por Sinimbu, que não dava direitos políticos aos não-católicos, ponto defendido pelo grupo democrata de que era líder. Rui foi encarregado de defender o Gabinete Sinimbu na Assembléia. No dia 16 de abril de 1879, o dissidente liberal atacaria o governo e Rui revidaria saindo vitorioso. Porém o ponto mais irônico da questão é que no ano seguinte Rui sugeriu um projeto de reforma eleitoral que determinava a concessão aos não-católicos dos direitos políticos de voto e elegibilidade, ponto que ocasionara a dissidência de Martins em relação ao Gabinete Sinimbu. Isso demonstra que não existia uma homogeneidade no discurso de Rui e. 15. GONÇALVES, João Felipe. Op. cit. (nota 22), p. 34..
(26) 24. ele agiria na arena política de acordo com seus interesses conjunturais em busca de atingir os seus principais objetivos. 16 Devemos nos lembrar que Rui se encaixava num contexto político que se fundamentou na razão clientelista. Na época, fim do Império início da República, a distribuição de favores governamentais tinha o nome de “patronato e filhotismo”. O meio pelo qual se exercia o patronato era o empenho, ou seja, o pistolão, o pedido, a recomendação, a intermediação, a proteção, o apadrinhamento e a apresentação. Rui viveu nesse período e utilizava a retórica liberal dispondo das benesses das políticas de troca de favores. Foi nesse turbilhão que Rui se fez.17 Na história de sua formação, a própria carreira política do pai de Rui foi facilitada pelo apoio de um parente, Luís Antônio Barbosa de Almeida, e de um político conhecido como Manuel de Souza Dantas. A elite política controlava as promoções de cargos através do clientelismo e exercia dessa forma suas práticas de dominação. 18 Como visto, a formação intelectual de Rui foi espelhada em clássicos da Modernidade como Shakeaspeare, Vitor Hugo, Camões, John Locke, Tocqueville, Montesquieu, Adam Smith, Rousseau, Cavour, Darwin, Lincoln e outros. Já aos 10 anos recitava poemas de Camões e tinha grande familiaridade, conforme dito anteriormente, com os sermões do Pe. Antônio Vieira, base de sustentação de seu cristianismo liberal, que mais tarde se inclinaria ao que poderíamos denominar como “valor do salvador” 19. No âmbito de sua carreira política, em 1884 deixou o parlamento, recandidatou-se por duas vezes consecutivas ao cargo, em 1885 e 1886, mas não conseguiu se reeleger. Fora da Câmara dedicou-se à advocacia, à imprensa e publicou a tradução de “Lições de Coisas”, do educador americano Norman Calkins, em 1896. Na Imprensa, Rui Barbosa continuou a luta pela abolição, interrompendo-a em 1887, quando ficou doente. Em 1888, foi decretada a abolição da escravatura, o que encerrou a questão para o autor. No ano seguinte, ele envolveu-se em incidentes entre o governo e o exército e com a questão da federação. 16. GONÇALVES, João Felipe. op. cit. (nota 22), p. 34-40 Ver o artigo publicado na Revista Dados de José Murilo de Carvalho: “Rui Barbosa e a razão clientelista. Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 12 abr. 2009. 18 Segundo Flávio Heinz, o termo elite não designa apenas a compreensão das instâncias burocráticas e nas realizações de tarefas. No sentido mais amplo se remete não mais a um simples critério funcional, mas a uma percepção compartilhada por agentes históricos pelo qual eles se situam como iguais ou desiguais na realização de seus papéis sociais e políticos. A partir desse conceito é que vamos procurar compreender as variações das culturas políticas existentes na época de Rui. CF. HEINZ, Flávio M. Por outra história das elites. Rio de Janeiro: Ed: FGV 2006. pp 8- 9. 19 Para mais detalhes sobre os mitos políticos Cf. GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Ed: Cia das Letras, 1987. pp.12-45. 17.
(27) 25. No jornal “Diário de Notícias”, iniciou forte campanha para que o modelo monárquico fosse substituído pelo regime federativo, a exemplo dos Estados Unidos. Foi convidado pelo Visconde de Ouro Preto para ser ministro, mas Rui Barbosa, devido às suas ideias sobre federação no país, não aceitou, desvencilhando-se do Partido Liberal e da Monarquia. Proclamada a República pela tropa comandada pelo general Deodoro da Fonseca, foi convidado para ocupar a pasta de finanças. Como ministro, foi bastante ousado: abandonou o lastro-ouro, ampliou as emissões de papel moeda e alterou o regime das sociedades anônimas, provocando uma reviravolta completa na vida econômica do Brasil. Alastrou-se, porém, pelo país o delírio da especulação, culminando com o encilhamento. Rui Barbosa foi criticado com violência. No início da República, o ministro dedicou-se também à questão do saneamento urbano e à redação da nova Constituição. Foi nomeado vice-presidente da república, no período de 31 de dezembro de 1889 a agosto de 1890. Assim, como ministro da Fazenda e vice-presidente, trabalhou por quinze meses para o governo republicano – de novembro de 1889 a janeiro de 1891. Logo depois sua demissão, o presidente da república teve muitos atritos com o parlamento e acabou pondo fim à Câmara. Em 23 de novembro de 1891, Floriano Peixoto liderou uma revolução restabelecendo o Congresso, o que levou a renúncia de Deodoro da Fonseca. Peixoto, como vice-presidente, assumiu o governo. Este não aceitou convocar nova eleição para presidente, decretando, em seguida, estado de sítio, levando muitos opositores ao cárcere. Encerrado o estado de sítio, Rui Barbosa, como advogado, pediu o hábeas-corpus em favor dos desterrados. Pela imprensa, divulgou os trabalhos norte-americanos e a sua influência na Constituição. Em 1892, reelegeu-se senador pela Bahia e assumiu a direção do Jornal do Brasil, onde pedia eleição para presidente. O país agitava-se: em seis de setembro de 1893 ocorreu a revolta da Marinha contra o governo Floriano Peixoto. Embora Rui Barbosa não estivesse envolvido com os revoltosos, sob ameaça do estado de sítio, foi obrigado a procurar abrigo na legação do Chile. Em seguida, saiu do país com destino à Argentina. Tentou retornar ao Brasil, mas não obteve sucesso. Assim, fixou-se na Argentina, com a família, permanecendo neste país seis meses. Em seguida, mudou-se para Portugal, posteriormente se transferindo para a Inglaterra, e lá se estabeleceu em Londres, onde colaborou com o Jornal do Comércio. Com a reunião dos artigos publicados neste jornal escreveu “Cartas da Inglaterra”..
(28) 26. Em 1895 retornou ao Brasil e no ano seguinte se reelegeu senador pelo seu estado natal. Rui Barbosa voltou-se para o jornalismo e publicou artigos no jornal “A Imprensa”. Em 1902 trabalhou na comissão incumbida de estudar o projeto do Código Civil. Em 1905 participou das discussões sobre os limites entre Brasil e a Bolívia, que disputavam o território do Acre. Rui Barbosa saiu desta negociação por discordar do encaminhamento dado por Rio Branco, ministro das Relações Exteriores. Após a resolução desta questão, assumiu, como advogado, a causa movida pelo estado do Amazonas contra o Brasil, pelo qual requisitava o território do Acre. Em 1907 foi convidado para ser representante brasileiro na Segunda Conferência da Paz, que seria realizada em Haia. Sua participação nesta conferência é descrita, pelos biógrafos e comentaristas, com muitos louvores. No ano de 1909 candidatou-se para presidente da República, disputando o pleito com Hermes da Fonseca. Esta disputa ficou conhecida como campanha civilista. Ele obteve a maioria de votos das grandes cidades, porém perdeu no interior do país. Em 1916 ele foi convidado por Wenceslau Braz para representar o país na Argentina, na qualidade de embaixador, durante as comemorações da independência daquele país. As nações reunidas na Faculdade de Buenos Aires decidiram que não ficariam neutras diante da Primeira Guerra. O ano de 1918 foi especial, pois ocorreu a comemoração do Jubileu Cívico de Rui Barbosa, sendo que, logo depois, inaugurou-se o seu busto na Biblioteca Nacional. No ano seguinte, concorreu para a presidência do país, disputando a eleição contra Epitácio Pessoa, que acabou saindo vitorioso. Com o fim dessa eleição, foi para a Bahia apoiar um candidato de oposição. Em 1921 renunciou à cadeira de senador, porém seu mandato foi renovado. No ano de 1922, em que Artur Bernardes passou a comandar a presidência da república. Rui Barbosa não acompanhou esse governo, pois ficou doente e se retirou para Petrópolis. O diagnóstico do médico apontava para uma “paralisia bulbar”. Na tarde de março de 1923, Rui faleceu..
(29) 27. 1.2 Os diversos olhares sobre Rui. 20. Segundo o historiador Boris Fausto, a grande parte das obras dedicadas ao estudo sobre Rui Barbosa possui diversas distorções, entre as quais passamos a tratar com mais cuidado a partir daqui. Uma das principais correntes que se dedicou aos estudos sobre Rui foi inspirada pelos ideólogos autoritários, como Azeredo Amaral e Oliveira Vianna,21 que enfocavam Rui como um exemplo de idealismo utópico desvencilhado da realidade do país. A tônica era voltada para a busca da legitimidade simbólica de Rui, tendo como envergadura essencial o enaltecimento exacerbado de sua figura na História do Brasil. Outra corrente enfatizou a questão do desprezo pela sua atuação. Notemos que essa leitura equivocada foi feita por uma determinada parte da historiografia marxista dos anos 50, que preteria o esforço de Rui pela recriação do espaço público e pela consolidação de sólidas 20. MADEIRA DE FREITAS. Arquivo História da Fundação Casa de Rui Barbosa. IN: VIEIRA, José de Araújo. A cadeia velha: memória da câmara dos deputados. Brasília: Senado Federal e Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, MEC, 1980. p. 90. 21 CARDIM, Carlos Henrique. Op. cit., pp. 22-26..
(30) 28. instituições políticas. A questão era desprezar o cunho liberal de Rui em defesa de uma bandeira ideológica do socialismo, alijando suas contribuições no desenvolvimento brasileiro. Por último, ressaltamos a corrente que fez um balanço pouco equilibrado de sua figura, ligada aos liberais conservadores da UDN, nas Faculdades de Direito, despindo Rui da dimensão humana e levando a fabricação intensa de sua expressão mítica.22 Essas análises esbarram nas premissas de suas contribuições jurídicas, encarando a realidade como mero produto da fabricação de normas e regras de convivência no âmbito de comunidades políticas cívicas, na qual o grau de participação política é diretamente relacionado ao grau de complexidade das instituições políticas em seus planos de representação de cidadania.23 Nossa preocupação nesse momento é avaliar as correntes mais tradicionais ligadas ao heroísmo ruiano e procurar apontar para outras direções, que possam ser mais equilibradas ao analisar Rui também, no que tange às suas contribuições e desafios para a construção de nossa história, tendo como eixo seus principais projetos de modernização política. Embora não sendo nosso foco central, os trabalhos biográficos sobre nossa personagem, encontrados antes de 1960, são biografias apologéticas, que procuram explicar o homem Rui Barbosa, centrando no indivíduo e fazendo uma descrição de sua vida. Nossa opção consiste em procurar perceber através de uma nova leitura política de que forma Rui e o grupo com o qual ele estava envolvido participou do processo de redefinição de uma identidade pública. Para isso, tornase necessário também perceber suas limitações, incongruências e imperfeições. Esta opção de nosso trabalho é justificada pela compreensão de que a nova história política pode suscitar explicações profundas da história de Rui Barbosa, a partir das diversas dimensões dos contextos históricos. Para fins de organização das principais correntes que abordaram o pensamento de Rui destacamos três momentos históricos distintos. Nas décadas de 30 e 40, autores que fizeram uma leitura sobre Rui a partir de olhares de autodidatas vinculados, a título de exemplo, ao IHGB (Instituto Histórico Geográfico Brasileiro). Das décadas de 50 a 70, desenvolveu-se outro grupo ligado diretamente à Academia, cuja preocupação era analisar Rui no campo de suas contribuições jurídicas, porém ainda presos ao enaltecimento da figura de Rui Barbosa. Por último, a nova história política, a partir dos anos 80, preocupada em inserir a figura de Rui nos contextos mais amplos, procurou destacar, inclusive, suas incongruências. 22. FAUSTO, Boris. “Revisão de Rui”. In: Folha de São Paulo, 15 de novembro de 1999. p. 26. Cf. alguns autores que comungavam com os ideais da UDN como Américo Palha e Exupero Monteiro dos quais falaremos mais adiante em neste trabalho. 23.
(31) 29. Começando então pela corrente desenvolvida a partir dos anos 30 citamos, a priori, a contribuição de um grande pensador, um dos maiores exemplos da abordagem tradicional sobre Rui: Homero Pires. Em conferência em 1938, sublinhava que Rui era um homem dos livros. Ficou conhecido como um homem retórico e divorciado da realidade nacional, embora para Pires ele fosse conhecedor do mundo que o cercava.24 A conferência proferida por Homero Pires na Fundação Casa de Rui Barbosa, em 5 de novembro de 1938, mostra com detalhes todo o conteúdo existente em sua biblioteca, o que denotava sua erudição acima de qualquer suspeita. Confiramos abaixo o documento que descreve um pouco sobre a leitura de Pires acerca de Rui: A filosofia está nobremente figurada em Platão e Aristóteles, em Leibnitz e Spinosa, todos com as suas obras completas, bem como Francisco Bacon, cuja Confissão de Fé o próprio Rui Barbosa teve oportunidade de caracterizar como "admirável Summa Theologiae em sete páginas, de uma língua deliciosamente pura, verdadeiro monumento dos mais capazes de abalar os espíritos menos dóceis à inspiração cristã". Descartes, na edição de Júlio Simon. Rousseau, Voltaire, Locke e Hegel, em obras incompletas. Hume, Kant, Comte, Spencer, quase integrais. Já Schopenhauer só nos surge nos seus livros menores, sem o Mundo como Vontade e como Representação. Nietzsche, William James, Bergson, Bertrand Russel, Dewey, correspondem todos à chamada. Vêm depois os manuais de filosofia, as histórias da filosofia. Contra o que geralmente se diz, Rui Barbosa explorou as grandes construções filosóficas, lendoas integralmente, conforme confissão sua, desde Platão aos modernos. Ele teve também uma fase intensa de inquietação religiosa, que o levou a pesquisar esses sistemas: "Percorri as filosofias", disse Rui desse estado do seu espírito; "mas nenhuma me saciou: não encontrei repouso em nenhuma. Entre o espiritualismo, o agnosticismo, o materialismo, muitas vezes se me levantou da razão esta pergunta: onde está a ciência"?25. Luiz Delgado (1945) em “Rui Barbosa”, considerou-o realista apesar de ser chamado de homem de biblioteca e ser acusado de não ter experiências. Na visão de Delgado, Rui não se esquecia dos problemas sociais, pois era vinculado à lei. Tal noção se deve ao fato de Rui ter sido o campeão jurídico em sua famosa defesa do “Habeas Corpus” aos desterrados perseguidos politicamente em 1893, em plena ditadura do governo Floriano Peixoto.26 Para analisarmos a corrente formada em torno da década de 50 até os anos 70 passamos agora a alguns de seus representantes. Américo Palha (1954) em “História da vida. 24. PIRES, Homero. Rui Barbosa e outros livros. Rio de Janeiro. Fundação Casa de Rui Barbosa. pp.12-34. Disponível em: www.casaruibarbosa.gov.br. Acesso em: 10 abr. 2009. Cf. Documento na íntegra do discurso de Homero Pires em 1938. A FCRB publicou em livro no ano de 1949. Acesso em: 10 abr. 2009. 26 DELGADO, Luiz. Rui Barbosa: tentativa de compreensão e síntese. Rio de Janeiro, José Olympio, 1945. 25.
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