Universidade Estadual de Campinas
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Márcio de Aguiar Vasconcelos Moneta
A VONTADE DE TRABALHAR PARA SI
Emprego e experiência de classe
Campinas
2017
Márcio de Aguiar Vasconcelos Moneta
A VONTADE DE TRABALHAR PARA SI
Emprego e experiência de classe
Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor em Sociologia.
Orientador: Ricardo Luiz Coltro Antunes
Coorientador: Cristiano Ferraz
Este exemplar corresponde à versão final da tese defendida por Márcio de Aguiar Vasconcelos Moneta, orientada pelo Prof. Dr. Ricardo Luiz Coltro Antunes e coorientada pelo Prof. Dr. Cristiano Ferraz
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Campinas
2017
Universidade Estadual de Campinas
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, composta pelas/os Professores/as Doutoras/es a seguir descritos/as, em sessão pública realizada em 1º de novembro de 2017, considerou o candidato Márcio de Aguiar Vasconcelos Moneta aprovado.
Prof. Dr. Ricardo Luiz Coltro Antunes (orientador) Prof. Dr. Adalberto Moreira Cardoso
Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos
Profa. Dra. Angela Maria Carneiro Araújo Profa. Dra. Bárbara Geraldo de Castro
A Ata da Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Paulo Roberto de Oliveira - CRB 8/6272
Moneta, Márcio de Aguiar Vasconcelos,
M746v MonA vontade de trabalhar para si - emprego e experiência de classe / Márcio de Aguiar Vasconcelos Moneta. – Campinas, SP : [s.n.], 2017.
MonOrientador: Ricardo Luiz Coltro Antunes. MonCoorientador: Cristiano Ferraz.
MonTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Mon1. Classe trabalhadora. 2. Emprego. 3. Experiência. 4. Trabalho e
trabalhadores - Recife, região metropolitana do (PE). I. Antunes, Ricardo Luiz Coltro. II. Ferraz, Cristiano. III. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. IV. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: The will to work for oneself - employment and class experience Palavras-chave em inglês:
Working Class Employment Experience
Work and workers - Recife, Metropolitan Area of (PE, Brazil) Área de concentração: Sociologia
Titulação: Doutor em Sociologia Banca examinadora:
Ricardo Luiz Coltro Antunes [Orientador] Adalberto Moreira Cardoso
Marcelo Badaró Mattos Angela Maria Carneiro Araújo Bárbara Geraldo de Castro Data de defesa: 01-11-2017
Programa de Pós-Graduação: Sociologia
Agradecimentos
Foi-me fundamental a bolsa de doutorado concedida pela Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); ser financiado pelo orçamento público dá à minha prática profissional outra dimensão de compromisso.
Devo me estender nas menções ao Prof. Ricardo Antunes, a quem me sinto imensamente grato por todo o período de convivência, que antecede a orientação de doutorado. Ricardo recebeu-me pela primeira vez mesmo antes de eu ser aluno de pós-graduação, quando, ainda tateando um trajeto como pesquisador, resolvi procurá-lo. Esteve presente no meu mestrado, quando me acolheu para um estádio acadêmico na Unicamp, junto ao seu grupo de pesquisa e orientação; depois, integrou a banca examinadora da minha dissertação e lá foi crucial. Já no doutorado, fui, além de seu orientando, seu estagiário docente e com ele pude aprender coisas muito valiosas. Contei sempre com sua confiança, seu respeito, sua disponibilidade e seu indispensável suporte institucional. Será uma honra poder seguir por perto.
Sem o Prof. Cristiano Ferraz, do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco, esta tese não existiria desta maneira. Como professor, Cristiano me possibilitou sólida formação em métodos quantitativos; como coorientador, foi um verdadeiro supervisor da pesquisa de campo. Sua acolhida não pode ser bem caracterizada tão somente pelo qualificativo de generosa; foi infinitamente além disso. Tê-lo como amigo é certamente um alegre e inestimável legado desse período. Trago, além disso, a ansiosa expectativa de darmos prosseguimento à parceria acadêmica.
Não contei com financiamento adicional para a realização da pesquisa de campo. Nessa precariedade institucional, pude esbanjar o privilégio de contratar – com recursos próprios, friso – alguém de extrema competência para me auxiliar na coleta de dados. Sem tempo hábil para realizar o processo seletivo adequado – através do recrutamento impessoal de um/a assistente –, fui agraciado com o aceite de Marina Moneta para trabalhar nessa fase da investigação. Não é exagero afirmar que a coleta de dados ocorreu porque ela estava lá; sem sua presença, não consigo imaginar a viabilidade de tudo que foi feito. Além disso, tendo sua experiência do lado, eu tive a tranquila segurança de que contaria com qualidade máxima nos dados, nos registros, nos relatos. Contei ainda com sua memória prodigiosa para dirimir
perícia profissional, Marina é minha irmã amada, parceira na vida, e a convivência com ela tornou a pesquisa de campo, frequentemente dura e por vezes desanimadora, uma empreitada infinitamente mais divertida. Não bastasse tudo isso, ela ainda me ajudou a me manter inteiro, quando precisei concluir a tese – sua intervenção garantiu que, ao final do prazo, eu tivesse um documento montado e organizado para enviar à banca. Serei eternamente grato a ela, a quem estarei, como sempre estive, prontamente disponível.
Jefferson Fritsch, meu companheiro, minha casa, concorreu de todas as formas possíveis para que esta tese ganhasse existência. Acompanhou-me na seleção de doutorado. Ajudou-me na ida a Campinas; recebeu-me no meu retorno ao Recife. Colaborou decisivamente para que a pesquisa de campo fosse realizada, primordialmente com o transporte, mas também em outros incontáveis pormenores práticos; no apoio irrestrito que forneceu, sua atuação, como de costume, deixou tudo com cara mais profissional. Auxiliou ainda com a solução de dúvidas na redação e mesmo na confecção do exemplar da tese para a banca examinadora. É claro que isso é nada perto de ter sido sempre uma fortaleza do meu lado. Companhia: sobretudo, foi para mim perene companhia em tão prolongada e custosa temporada – pelo que jamais será suficiente agradecer, meu amor!
Agradeço à minha mãe, Ednes Andrade, e ao meu pai, Luiz Moneta, toda a estrutura que me possibilitaram. Agradeço o apoio emocional e material que me permitiu seguir em frente, cursar o doutorado, fazer a pesquisa e escrever a tese. Obrigado por cada uma dessas coisas. Amo vocês.
(Aqui vai também um beijinho para a canina Juju e para o canino Bolinha <3)
Em Campinas, minha vida foi enormemente facilitada, foi imensamente melhor porque eu fui acolhido por muitos amores.
Maria Teresa Sgarbi Rocha, de quem, com sorte infinita, fui inquilino e (viva!) vizinho, me deu a honra de me tornar seu amigo, de se tornar minha amiga – grande amiga, imprescindível amiga. Nossas conversas são inesgotáveis. A Teresa meus agradecimentos não têm fim: da mais acolhedora das recepções quando da minha chegada, ao abrigo-abraço nos meus reiterados retornos à Unicamp. Minha amiga querida!
reencontro precioso, que deu a mim e a Jefferson o nosso caro amigo Ricardo Scutari e uma família em território campineiro. Uma e outro tornaram muito mais fáceis meu estabelecimento e minha estadia por lá. Por fim, chegou Carmem, essa lindeza que fez ainda melhores os meus retornos a Barão Geraldo.
Eu conheci uma recifense na Unicamp, ela se chama Camila Teixeira Lima. Eu a reconheci de imediato, somos basicamente da mesma matéria. Ela é mais do que minha amiga, o que me faz ser muito grato por poder encontrá-la no Recife. Obrigado, meu amor. Obrigado pelo abrigo nas minhas idas aí, obrigado pela troca intelectual, afetiva, de vida – eu nem me atrevo a delimitar.
Em Pedro Queiroz eu encontrei um amigo, um interlocutor intelectual, um parceiro de grupo de pesquisa, um companheiro de afinidades políticas. Com Pedro aprendi e aprendo demais. Obrigado, meu amigo, por toda a companhia em Barão Geraldo, na defesa e nesse mundo!
Henrique Pasti e Sheyla Diniz são um amigo e uma amiga que a Unicamp me deu. Eu dei a sorte imensa de poder transformá-lxs, de colegas de turma, em confidentes e parceiro/a. É um privilégio e uma felicidade contar com vocês ao lado para viver o pior e o melhor que o trabalho acadêmico tem a nos oferecer. A Henrique agradeço adicionalmente a fina consultoria técnica que me deu na revisão desta versão final.
Patrícia Villen, por essas coincidências da vida, tornou minha nova chegada a Campinas e à Unicamp um caminho muito mais seguro. Através dela e de sua presença sempre atenciosa, solidária e carinhosa, agradeço muito a convivência com colegas e parceiras/os do Grupo de Pesquisa “Estudos sobre o mundo do trabalho e suas metamorfoses”, liderado por Ricardo Antunes e integrado por suas/seus orientandos/as e outros/as colegas pesquisadoras/es.
Com afeto, agradeço de modo especial a convivência com outros/as amigas/os e colegas: Júlia Abdalla, Murillo van der Laan, Raphael Silveiras, Nara Roberta da Silva, Mariana Roncato, Ricardo Festi, Danilo Farias, Raul Lima, Benjamín Juarez.
A pesquisa que aqui apresento tem grandes dívidas com Lidiane Maciel e Marcela Feital, colegas de turma, leitoras do meu projeto de pesquisa. Muitíssimo obrigado!
Um leitor crucial do meu projeto foi o incomparável Prof. Fernando Lourenço. Generoso e erudito, admirado e querido, Fernando deu sugestões definitivas para o desenvolvimento da minha pesquisa. Fui, ademais, um entusiasmado aluno seu, na disciplina tão thompsoniana que ofertou logo no início do meu doutorado. Um abraço, Fernando!
Agradeço ainda ao Prof. Jesus Ranieri, pelas aulas que assisti como aluno ouvinte. Sobretudo, os valiosíssimos debates em torno de Hegel, Marx e Lukács.
Deixo, ainda, um reconhecimento ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Sou grato pelas condições de tranquilidade com que pude realizar este doutorado.
Dirijo meus mais sinceros agradecimentos à competência e seriedade das/os funcionários/as do IFCH; em particular, às/aos da Secretaria da Pós-Graduação em Sociologia. Agradeço a Daniel Cardoso, Sônia Miranda e, de modo especial, a Priscila Gartier. Com muito afeto, deixo minha homenagem a Christina Faccioni.
A Benedito de Souza, do serviço de cópias do IFCH, envio um abraço de sincera gratidão.
Tenho alguns agradecimentos ainda a fazer em nome das contribuições imensuráveis que recebi durante a pesquisa.
Glícia Pontes, não satisfeita em me ajudar com a leitura do projeto de pesquisa que me deu ingresso no doutorado, diagramou o questionário utilizado na coleta de dados e fez dele uma ferramenta insubstituível – mesmo depois, quando na análise e na escrita. Mas isso é parte ínfima (embora incalculável) da minha gratidão por Glícia, amiga amada. Saudades!
É indescritível o suporte que me foi oferecido por Juliana Bacelar, parceira de tantos interesses intelectuais comuns, sempre a postos para iluminar e resolver. Textos e
RPA1 utilizado em campo.
A Ana Helena Silva, minha amiga da vida inteira, agradeço a irrestrita colaboração que tornou viável e fácil a realização de algo tão fundamental quanto os pré-testes. É um conforto saber que conto sempre contigo, Ana.
Izabel Fonseca veio sempre em meu socorro, nas minhas inúmeras dúvidas. E me alegrou demais todas as vezes em que estivemos em presença. Espero tê-la mais perto, depois de derrotado o Golpe de 2016 e de restabelecidas as possibilidades de futuro que tramávamos em parceria.
A querida Helena Oliveira e o querido Jailson Júnior prestaram fundamental supervisão e auxílio na tradução para o inglês.
A defesa desta tese me foi um evento memorável. Isso me torna devedor de agradecimentos redobrados às Professoras Angela Carneiro Araújo e Bárbara Geraldo de Castro, que compuseram já a banca do meu exame de qualificação. Suas críticas foram essenciais e espero ter conseguido dar a elas bom encaminhamento, nos limites do possível. A abertura (e convite) ao diálogo, as indicações e sugestões por elas trazidas apresentaram sólidas possibilidades de caminhos futuros para o meu trabalho.
Agradeço aos Professores Adalberto Moreira Cardoso e Marcelo Badaró Mattos, pelo gentil aceite em compor a banca examinadora da tese. Agradeço demais a leitura rigorosa e, por isso, respeitosa do meu trabalho. Espero ter dado conta de parte substancial das sugestões a mim remetidas, pelas quais sou bastante grato.
Juliana Matos, esse meu amor que mora longe, me recebeu em sua casa quando, no Rio de Janeiro, estive em pesquisa. Ela e Jovelina Brito se fizeram presentes à defesa e a transformaram numa farra inesquecível!
Essa festa não teria sido o que foi sem Mariana Moreira, paixão na minha vida. Obrigado por ter me emprestado teus olhos quando tanto precisei. Foi uma alegria tê-la comigo na
participação delas, elas estão sempre, para sempre presentes na minha vida. A Mariana Pires devoto adicional e absoluta gratidão pela luxuosa e competentíssima intervenção numa primeira revisão e formatação da tese.
Cíntia Albuquerque só pôde se juntar a nós na comemoração da defesa – e, quando o fez, me fez contente demais! –, mas esteve sempre lá. Contei a todo tempo com seu incentivo firme e seu entusiasmo contagiante. Obrigado, amiga amada!
Virgínia e Bruna Lima depositaram ainda mais amor e afeto na minha defesa. Em sua casa, tive e tenho um pouso e um aconchego permanentes.
Sou grato a José Luiz Ratton e a Neri de Souza, pelo apoio que me dirigiram. Agradeço profundamente a Angela de Lima, por seu trabalho; e a Jane Lúcia de Souza e Rosilene Souza, pelo trabalho e pelo afeto. E deixo beijos para Carol Laranjeiras, Marlene Fritsch, Alice Valença Araújo, Ana Maria Straube, Liu Leal, Pedro Del Guerra, Rodolfo Cabral e Turla Alquete.
Rosário de Sá Barreto se foi e isso faz de mim, em alguma medida, um órfão. Esperava, ansioso, pela oportunidade de a ela entregar um exemplar desta tese; por pouco, não pude. Obrigado, Rosário, para sempre e com amor!
De um modo geral, aos/às amigas/os e familiares, agradeço a compreensão com tanta distância e ausência em razão desta tese. E por isso me desculpo, especialmente com Luana Vasconcelos e Matheus França, afilhada e afilhado, com quem contraí enorme dívida; irei saná-la, meus amores!
Por fim, me emociona agradecer a todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores que colaboraram com esta pesquisa, do primeiro pré-teste à última entrevista. Em razão do assumido compromisso de confidencialidade, não posso nomeá-los/as. É grande demais o que eu sinto quando me recordo da generosidade na interação memorável com que, via de regra, fui agraciado. Não tinha e não tenho muito a lhes oferecer, se não meu compromisso, minha aliança, meu companheirismo. Obrigado, profundamente obrigado.
Como a classe trabalhadora brasileira se posiciona frente ao assalariamento? Esta tese se debruça sobre uma dimensão vital da direção cultural da dominação capitalista: procura captar as expressões contemporâneas de negação e de consentimento quanto à relação social fundamental do capitalismo. Por meio de um levantamento de amostragem probabilística realizado com trabalhadoras/es formalmente assalariados/as do Recife (PE), investigou-se a percepção que se tem do trabalho assalariado, bem como as aspirações laborais da população em questão. O foco principal esteve na vontade de trabalhar para si próprio/a, categoria nativa tida como um significativo traço da experiência de classe no Brasil. Esses dados quantitativos foram, em sequência, lidos pela revisita àqueles coletados e interpretados por uma vasta e diversa produção das ciências sociais brasileiras sobre o tema. Em complemento, foram vistos no quadro de um regime de produção flexível e na relação com as características atuais do assalariamento capitalista no país. Adicionalmente, os dados primários relativos à organização e à ação política da classe foram apreciados. Considerado o fato notório de que o trabalho para si integra estratégias (ideológicas e organizacionais) contemporâneas de degradação do trabalho, o desafio foi o de apontar nesse cenário novas contradições entre autonomia e heteronomia e os germes que podem conduzir a aspirações emancipatórias. Assim, se as manifestações de vontade de trabalhar para si expuseram uma superdisponibilidade para o trabalho e uma inegável legitimidade conferida à ordem classista, elas simultaneamente se compuseram de elementos de negação da integralidade da relação assalariada – isto é, uma negação não somente em termos de exploração (de mais-valia), mas estendida às configurações heterônomas do estranhamento do trabalho. Apesar do reconhecimento crucial da diversidade da classe – a constatação da interveniência de outras forças de determinação da vida social, de outras relações sociais, tais como as de gênero, raça, sexualidade –, conclusões mais aprofundadas a esse respeito encontraram/enfrentaram severas limitações estatísticas. De todo modo, esforços foram empenhados para assegurar que os dados fornecessem, ao menos, indícios e hipóteses robustas quanto às disparidades entre mulheres e homens, ou entre indivíduos brancos e negros, por exemplo.
What is the stance of the Brazilian working class on wage labour? This study deals with a crucial dimension of the cultural direction of capitalist domination: it aims to identify the contemporary expressions of negation and consent regarding the fundamental social relation of capitalism. The research relied on a probabilistic sampling survey carried out among formal employees in Recife, Pernambuco. Their perceptions on the meanings of work, including the assessments on their own jobs, as well as their labour-related aspirations and ideals were enquired. The main focus was cast on the will to work for oneself; such native category is understood to be an important and meaningful trait of class experience in Brazil. Then, these quantitative data were read within a revisit to those collected and interpreted by a large and diverse production that Brazilian social sciences devoted to the subject. Furthermore, they were seen in the context of flexible capitalist production and in relation with nowadays characteristics of employment in the country. Also, attention was given to primary data related to the organization and the political action of the class. Taking into account the overt fact that the work for oneself integrates contemporary (ideological and organizational) labour-degrading strategies, the challenge was to point out in this scenario new contradictions between autonomy and heteronomy and the germs that might lead to emancipatory aspirations. Thus, if the utterances of will to work for oneself displayed a super-availability for work and an undeniable legitimacy of the classist order, they simultaneously could be seen in its elements of negation of the integrality of the relation based on wage labour – that is, not only in (surplus value) exploitation terms, but also considering the heteronomous features inscribed in the estrangement of work. Despite the fundamental acknowledgement of the diversity of the class – the recognition of other forces of determination of social life, other social relations, like gender, race, sexuality –, further conclusions on this matter met some statistical restraints; anyhow, efforts were made in order to assure that data could supply at least important indications and strong hypothesis about the disparities between men and women or between black and white people, e.g.
Introdução 14
Trabalhar para si 17
Classe, experiência de classe, cultura de classe, consciência de classe 25
A operacionalização teórico-conceitual da pesquisa 32
Procedimentos e métodos 34
A diversidade da classe (e algumas limitações da pesquisa para lidar com ela) 36
1. Trabalhar numa sociedade duplamente periférica 41
1.1 A especialização terciária 47
1.2 A classe trabalhadora ocupada no centro expandido do Recife 51
2. Percepções do trabalho 61
2.1 Satisfação e insatisfação 72
2.2 Significados do trabalho 83
3. A vontade de trabalhar para si e os ideais laborais 87
3.1 Exame dos aspectos da relação de trabalho: duas decisões hipotéticas 99
3.2 O trabalho ideal 107
3.3 Aspirações laborais: negação em integralidade e uma ética do trabalho 117
4. A vontade de trabalhar para si: presença histórica e interpretações 123
4.1 As pesquisas do Projeto Emprego 132
5. O assalariamento, a negação e o consentimento 145
5.1 A ação da classe e o poder 153
5.2 O assalariamento capitalista. A dialética entre a negação e o consentimento 160
Apêndice B 179
Apêndice C 185
Apêndice D 191
Apêndice E 209
Introdução
Possivelmente crise tem sido a palavra mais utilizada nos últimos decênios para descrever um sujeito central na história das sociedades industriais – a classe trabalhadora. Sua importância histórica se comprova inclusive pelo fato de que a crise da sua organização como sujeito coletivo levou a que se questionasse sua real existência. No limite, é a crise de ideário, de programa, de organização, de projeto estratégico da classe trabalhadora o que legitima os discursos contemporâneos propugnadores de “fim da história”, de “não há alternativa” e argumentações assemelhadas: a crise política da classe trabalhadora nos faz falar em uma crise da própria política.
A crise se deixa ver pela ruína das duas principais vias estratégicas que orientaram as lutas coletivas das/os trabalhadores/as no século XX. O cenário em fins de século era o de recomposição mundial da dominação capitalista – além da derrota dos partidos e movimentos comunistas de uma via baseada na estatização dos meios de produção (e quase sempre insurrecional), teve início o desmonte do pacto de Bem Estar Social, que orientou a via socialdemocrata. Conjuntamente, deu-se o arruinamento das duas imagens ideais de trabalho vinculadas às duas vias estratégicas: o trabalho em propriedade pública e/ou estatal e o emprego estável e protegido na produção capitalista1.
Do ponto de vista do pacto socialdemocrata, o quadro teve seus antecedentes no processo combinado de reestruturação produtiva e de ascensão neoliberal, movimentos reativos à crise do capital da década de 1970. A passagem do regime de acumulação do fordismo-taylorismo-keynesianismo para aquele baseado na produção flexível e no neoliberalismo se deu com alterações na organização da produção e do trabalho, com a desestabilização do emprego estável e protegido e com alteração da composição socioprofissional da classe trabalhadora, bem como com a regressão de conquistas e direitos sociais e trabalhistas. Em outra chave teórica, Machado da Silva (2002) diz se tratar de uma crise do assalariamento como centro de um consolidado padrão de integração sistêmica, como modo de regulação capaz de articular a exploração do trabalho e a ampliação dos direitos de cidadania, como utopia e cultura de trabalho. Dito de outro modo, é uma crise das aspirações por trabalho protegido, estável, bem remunerado, garantidor de acesso ao consumo e de direitos – o modelo de trabalho do pacto socialdemocrata de Bem Estar Social. Em paralelo,
1
Se é bem verdade que a defesa de formas cooperativas e associativas de produção constituía parte importante do repertório das lutas dos/as trabalhadores/as desde o século XIX, as outras duas formas vicejaram com mais pujança nas agendas das organizações mais numerosas e/ou destacadas da classe trabalhadora.
deu-se a derrocada do bloco soviético e a afirmação cultural, política, econômica e social da dominação do capitalismo neoliberal, com suas consequências em termos de individualismo e de fragmentação e atomização social, para não falar na fragilidade e no enfraquecimento da legitimidade pública das críticas anticapitalistas e da proposição de alternativas societárias. De um modo geral, é uma crise da representação e da expressão política da classe: crise do sindicalismo e das organizações e partidos operários tradicionais, sujeitos centrais na cena política e social dos séculos XIX e XX (HARVEY, 1992; BIHR, 1998; GORZ, 2007; LINHART, 2007).
Nesse atual cenário de fortalecida hegemonia capitalista, a que aspiram os/as trabalhadoras/es? Qual é o ideal que projetam sobre o trabalho? O estudo que aqui se inicia se debruça sobre uma dimensão vital da direção cultural da dominação capitalista: a posição da classe trabalhadora brasileira frente ao assalariamento. Abordam-se, aqui, a negação e o consentimento de trabalhadores e trabalhadoras à relação de assalariamento capitalista; a resultante dessa contradição, procurarei demonstrar, é aspecto fundamental da sustentação da hegemonia capitalista no Brasil contemporâneo e dá feição concreta à experiência da classe trabalhadora brasileira.
As motivações para a proposição dessa pesquisa partem, de início, da observação empírica vivenciada, tanto cotidianamente, nos meus círculos de convivência, quanto na minha prática profissional, junto ao mundo do trabalho no Brasil. Em particular, na minha cidade, o Recife, percebi em jovens filhos de trabalhadores uma disposição acentuada, na transição para a vida adulta, a se ocuparem em modalidades de trabalho distintas do assalariamento convencional – aquele assalariamento com remuneração correspondente a um quantum de tempo trabalhado, geralmente em contratação por período indeterminado –, o que ia ao encontro de um sedimentado (e já extensivamente estudado) histórico de ocupação da classe trabalhadora brasileira, de que descendiam tais jovens.
Adicionalmente, tais observações e impressões se integraram a um percurso acadêmico que se interrogava sobre as particularidades da forma contemporânea de ser da classe trabalhadora brasileira e sobre as diversas maneiras pelas quais se constroem, nessa classe, a rejeição e/ou o consentimento à sociabilidade capitalista. Ao investigar como setores urbanos eram mobilizados através do trabalho autogestionário em grupos de produção do Movimento de Trabalhadores/as Desempregados/as (MTD), no Rio Grande do Sul, pude constatar que motivações outras, além da inadiável busca por rendimentos, informavam a presença, naqueles grupos, das mulheres, que constituíam praticamente a íntegra da força de trabalho ali reunida: se, por um lado, diante do horizonte de um apartamento perene do
mercado formal de trabalho, a organização nesses grupos aparecia como imperativo; por outro, pude coletar, durante a investigação, relatos de uma opção pela permanência no trabalho dos grupos mesmo quando havia possibilidade de retorno ao trabalho assalariado, que poderia garantir vantagens notórias, tais como a segurança advinda dos salários e a garantia de direitos trabalhistas, diferentemente do que se dava nos grupos de produção do MTD. A preferência pela permanência nos grupos era justificada, entre outras coisas, pela intolerância desenvolvida quanto à relação heterônoma entre patrão/oa e empregada/o (“eu não aceito mais ser mandada”, conforme depoimento de uma das trabalhadoras) e pela possibilidade de se ter controle sobre o conteúdo do trabalho e sobre o tempo a ele dispensado. Posteriormente, em outra empreitada como pesquisador, pude ainda integrar investigação sobre a produção no chamado polo de confecções do Agreste pernambucano e, lá, mais uma vez, me foi possível constatar as reservas que homens e mulheres dirigiam ao assalariamento convencional, o que resultava numa escassez de oferta de força de trabalho àquela indústria em franco percurso de concentração de capitais.
Esses elementos ajudaram a conformar a suposição de que um traço significativo da experiência da classe trabalhadora brasileira é a vontade de se ocupar em modalidades de trabalho distintas do assalariamento convencional – a vontade de trabalhar para si próprio/a. E, se esse traço encontra parte de seus motores no contexto mundial de derrota soviética, de transformações sofridas pelo trabalho na transição (tendencial) do fordismo-taylorismo para a acumulação flexível e de uma decorrente crise programática sofrida pela classe trabalhadora; ele é também informado pelas particularidades que integram a formação dessa classe no Brasil – mais especificamente, por uma longuíssima tradição (que acompanha toda a trajetória do capitalismo nacional) de ocupação nessas modalidades distintas do assalariamento convencional.
Para além da minha proximidade com a cidade, escolheu-se o Recife como necessária delimitação desta investigação pela importância histórica da presença dessas formas de trabalho, determinada inclusive, dentre outras coisas, pela industrialização restrita que aí teve lugar – como, em geral, ocorreu em todo o Nordeste brasileiro –, insuficiente para subsumir toda a oferta de força de trabalho surgida com o declínio econômico da atividade agroexportadora em Pernambuco (o açúcar e o algodão, basicamente) e no processo de urbanização, especialmente no século XX. Por outro lado, ao contrário do que se deu em São Paulo, por exemplo, a participação imigrante no operariado da cidade foi ínfima; desse modo, é razoável supor que operários e trabalhadores ocupados em modalidades diversas de trabalho
possuíam laços mais estreitos e compartilhavam, de maneira menos heterogênea, valores, aspirações e práticas (SINGER, 1977; BERNARDES, 1996).
Trabalhar para si
Inspirada em E. P. Thompson, há uma pressuposição que acompanha essa argumentação: a de pensar a classe como um fenômeno histórico; desse modo, refletir sobre o processo de formação da classe trabalhadora brasileira – em especial, de sua parcela recifense – e suas especificidades é um momento indispensável. Isso significa considerar, de antemão, a maneira pela qual o capitalismo e sua sociabilidade por aqui se construíram: no Brasil, não se pode falar em condição assalariada sem levar em consideração o passado colonial e escravocrata do país, sua situação de nação subordinada e, mais tarde, periférica e dependente. Tal desenvolvimento proporcionou importantes particularidades em termos de estrutura e relações de classe, bem como em torno do estatuto do trabalho no conjunto da vida social (FERNANDES, 2006; PRADO JR, 1994; OLIVEIRA, 2003; PAOLI, 1989; CARDOSO, 2010).
De início, é possível verificar que a transição do trabalho escravo para o trabalho não escravo no país não se deu de maneira estanque: trabalhadores/as escravizadas/os, ex-escravizados/as e não escravizadas/os se ocupavam conjuntamente em diversos ramos da economia (NEGRO; GOMES, 2006; CARDOSO, 2010; MATTOS, 2013). Inclusive, não era raro, ao final do período escravista, que os próprios indivíduos escravizados trabalhassem mediante remuneração – eram os chamados “escravos ao ganho”.
No caso do Rio de Janeiro, uma abordagem detalhada dessa sociedade escravista – principalmente urbana – possibilitaria análises mais complexas e perspectivas mais estimulantes sobre a integração da população negra no mercado de trabalho. Em vez de uma classe débil e do atraso tecnológico – com escravidão e escravos –, seria possível matizar a historicidade do processo de urbanização e de industrialização no Rio de Janeiro desde o final da primeira metade do século XIX. O crescimento urbano tornaria mais complexas as relações sociais de trabalho numa sociedade escravista, aumentando os setores de serviços e a participação da mão-de-obra envolvente. A maior parte dos setores de transportes, abastecimento e serviços contava com a população negra, incluindo livres e libertos. Não seria muito diferente para as áreas urbanas de Salvador, São Luís, Recife, Porto Alegre e São Paulo. (NEGRO; GOMES, 2006, p. 226)
Foi considerável o tempo em que se deu essa convivência entre os trabalhos escravo e não escravo – sobretudo enquanto vigeu o “enlace” entre o mercado capitalista moderno e o sistema de produção escravista2. Aponte-se, ainda, a influência exercida pelo compartilhamento de costumes e tradições entre trabalhadores escravizados e libertos sobre a organização de lutas pelos/as não escravizados/as. Mattos (2009) relata, nesse sentido, a aproximação entre lideranças abolicionistas e nascentes organizações operárias.
O que se procurou identificar aqui, a partir da discussão sobre algumas trajetórias de lideranças, foi o impacto político do compartilhamento de experiências de trabalho e vida em algumas cidades brasileiras com forte presença da escravidão, ao longo do século XIX. Tais trajetórias e seus cruzamentos foram possíveis porque trabalhadores escravizados e livres partilharam formas de organização e de luta, gerando valores e expectativas comuns, que acabariam tendo uma importância central para momentos posteriores do processo de formação da classe. (MATTOS, 2009, pp. 63-4) Posteriormente, o abandono da escravidão, em finais do século XIX, se deu com o apartamento de massas consideráveis de ex-escravizados/as do emprego e do acesso à propriedade da terra. Os/as primeiras/os trabalhadores/as empregadas/os no plantio do café e, mais tarde, na nascente indústria eram prioritariamente imigrantes europeus – isso especialmente no Sudeste do país, mais especificamente em São Paulo; no Rio de Janeiro, a força de trabalho imigrante se fez presente, mas disputou espaço com trabalhadoras/es negros/as. Aos/às ex-escravizadas/os, restaram formas de trabalho não capitalistas – embora inteiramente articuladas à produção e à reprodução capitalistas –, quase que exclusivamente para fins de subsistência, ainda assim mal garantida. No Nordeste latifundiário, não foi a concorrência com a mão-de-obra imigrante o que condenou os/as trabalhadoras/es egressos/as da escravidão à penúria: a decadência econômica das monoculturas (de cana-de-açúcar e de algodão) e a insipiência da atividade industrial que tentaria se constituir resultaram num mercado de trabalho de reduzidas dimensões, inepto para assalariar as/os sobreviventes (SINGER, 1977; CARDOSO, 2010; NEGRO; GOMES, 2006).
É razoável supor que, nesse momento, assalariados/as (operárias/os ou não), subempregados/as, sem ocupação – entre todos esses, quantos/as seriam as/os ex-escravizados/as e suas/seus descendentes? – compartilharam em alguma medida uma experiência de classe, especialmente se levarmos em consideração os lugares onde a presença imigrante era irrisória (como no Recife, por exemplo).
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Os termos são de Fernandes (2006) e fazem referência ao período que sucede a independência brasileira (1822) e que ele denomina de transição neocolonial. A convivência entre trabalho escravo e não escravo é, todavia, anterior a esse momento, remete à própria sociedade colonial.
Na antiga Guanabara, os favelados integravam a classe operária, disso sabia o pecebista Moisés Vinhas (...). Muitas vezes, conduziam a uma polarização “de massas populares num lado único, ou simétrico, frente às classes dominantes”, absorvendo o proletariado e camadas pauperizadas das classes médias, formando um “contingente popular”. No Recife, os subempregados e os marginalizados também imprimiam seu caráter “individualista, instável e explosivo”. Dilatando as fronteiras da classe, formavam “aglomerados de ‘mocambos’”, com pressões que davam “lugar à luta de classes”. (NEGRO; GOMES, 2006, p. 233)
Barbosa (2003) registra, entre as frações diversas das classes trabalhadoras do início do século XX, esse terreno compartilhado quanto à experiência de classe. Refere-se à “classe operária” como uma “pequena faixa indiferenciada”; e descreve os serviços como a ocupar “uma mão-de-obra excedente de forma irregular e eventual, que vivia aglomerada nos mocambos, local de residência de metade da população recifense” (BARBOSA, 2003, pp. 293-4).
Referindo-se já a período mais recente, Oliveira (2003) aborda a expressiva parcela da classe trabalhadora brasileira ocupada de modo distinto do assalariamento convencional quando, na década de 19703, destaca a grande presença do setor Terciário na estrutura de ocupações no Brasil. Em geral, a expansão do setor se deu sem financiamento capitalista – dado o quadro de baixa capitalização da economia brasileira –, e esteve assentada em “serviços realizados à base de pura força de trabalho, que é remunerada a níveis baixíssimos” (OLIVEIRA, 2003, p. 57). Oliveira se refere, por exemplo, a comerciantes ambulantes (de produtos agropecuários e industrializados), a mecânicos, lavadores de carro, realizadores de reparos domésticos e em bens de consumo (eletricistas, encanadores, pedreiros), entre outros. O autor aponta a íntima associação entre esse “crescimento não capitalístico do setor Terciário” (OLIVEIRA, 2003, p. 57) e a industrialização e a urbanização brasileira pós-1930 – porque atendeu o primeiro às demandas por serviços advindas dessas últimas e ao rebaixamento do custo de reprodução da força de trabalho4.
Não é possível, pois, falar em classe trabalhadora no Brasil pós-escravidão apenas pelos ocupados no assalariamento capitalista convencional. O desenvolvimento capitalista se valeu aqui de uma forma específica, periférica de estruturar as relações de produção, forma que encontra expressão lapidar, por exemplo, nos conceitos de sobre-exploração (FERNANDES, 2006) ou de superexploração do trabalho (MARINI, 2005) e cujos mecanismos de reprodução tiraram partido de um conjunto de trabalhadores/as pouco
3 A edição original de Crítica à razão dualista é de 1972. 4
Inclusive em associação a práticas de trabalho para consumo próprio. Oliveira (2003) cita os habituais mutirões de construção de habitação, atividades que, no limite, contribuíram para um aumento da taxa de exploração da força de trabalho.
diferenciado internamente, a abarcar subempregadas/os, ocupados/as em meios próprios, desempregados/as, segmentos que compuseram com os/as assalariadas/os convencionais uma totalidade cultural e social. Conferiu-se, assim, uma feição particular à forma de ser da classe trabalhadora brasileira e às práticas, à identidade e à cultura dessa classe (FERNANDES, 2006; CARDOSO, 2010; SINGER, 1977; NEGRO; GOMES, 2006).
Ainda assim, se a estrutura ocupacional brasileira nunca conferiu ao operariado fabril o lugar que ele teve em outras nações – nas nações centrais, mais especificamente –, a última década do século XX representa para o Brasil um marco de profunda precarização do trabalho: interrompe um processo de estruturação do mercado de trabalho, que observava um crescimento contínuo do emprego formal; vê o número de trabalhadores informais superar os formalizados e ultrapassar o patamar de 50% da População Economicamente Ativa (PEA); e massifica o desemprego, que passa a afetar todos os estratos da PEA5 (ANTUNES, 2005; POCHMANN, 2001). Concomitantemente, em consonância com o panorama mundial da precarização “flexível” do trabalho, teve curso uma operação ideológica de celebração de ideias como “empreendedorismo” e “empregabilidade”, em contraposição à defesa do emprego estável e protegido. Nesse contexto, há uma transmutação no sentido atribuído à informalidade, vista agora em suas virtudes “flexíveis” e “empreendedoras” (MACHADO DA SILVA, 2002; LIMA, 2010).
Portanto, o encontro dos influxos da ofensiva de recomposição mundial da hegemonia capitalista de finais de século XX com a consolidada tradição brasileira de ocupação em modalidades de trabalho distintas do assalariamento convencional pode nos ajudar a vislumbrar a conformação de um traço cultural específico – Lima (2010) chega mesmo a interrogar sobre a emergência de uma nova “cultura do trabalho”.
Como esse traço cultural se mostra nos projetos e aspirações dos/as trabalhadoras/es? Quão revelador ele pode ser sobre a posição dos/as trabalhadoras/es frente ao assalariamento? A proposta desta pesquisa é, então, partir de um questionamento prosaico, acerca da vontade de trabalhar para si mesmo/a – ou, simplesmente, de trabalhar para si. Parte-se daí com o intuito de acessar as dimensões de consentimento e de negação do/a trabalhador/a quanto à relação assalariada capitalista.
5 Ou, acompanhando Guimarães (2004), trata-se de um momento em que, na “ausência de um regime público de
proteção”, é possível verificar o “fenômeno da recorrência no desemprego” e em que se encontra rompido “o elo entre emprego e desemprego (o emprego deixa de ser o outro do desemprego), e o trânsito no mercado de trabalho assume uma pluralidade de formas, necessárias à produção do rendimento que garante sobrevivência”. (GUIMARÃES, 2004, p. 29)
Trabalhar para si: trata-se de uma categoria nativa, uma noção empregada no convívio social. Sob seu abrigo, estão, na verdade, diversas modalidades de trabalho distintas do assalariamento convencional – isto é, distintas da modalidade majoritária de recrutamento da força de trabalho no capitalismo. Do ponto de vista fenomênico, trabalhar para si mesmo/a pode significar trabalhar através de meios próprios de produção; pode significar se ocupar na prestação eventual de serviços, sem a subordinação permanente a uma firma empregadora, independentemente de possuir meios próprios de produção, ou se ocupar nas diversas formas de trabalho temporário (“bicos”, “biscates”, free-lances, entre outros) e/ou em tempo parcial; pode significar ainda o engajamento eventual em trabalho remunerado por produção, por empreitada ou por peças; pode, por certo, nomear o trabalho em empreendimentos associados, cooperativados e autogestionários; e, no limite, pode dizer respeito ao trabalho exclusivo para autoconsumo ou para subsistência6. A bem da verdade, tais modalidades conformam uma zona cinzenta, já que o conjunto de práticas de trabalho arroladas não representa uma demarcação clara com o assalariamento tout court, como é o caso do trabalho assalariado por peça, “uma forma metamorfoseada do salário por tempo”, na visão de Marx (1984, p. 139)7.
De todo modo, o que permite a essas modalidades díspares de ocupação se unificarem em distinção ao assalariamento capitalista convencional, aquilo, que no limite, as distingue do trabalho assalariado por tempo é o seu caráter em alguma medida menos heterônomo, de atividade sobre a qual podem se projetar aspirações de autonomia, ainda que isso frequentemente não signifique menos exploração, menos tempo de trabalho ou algo além de uma autonomia funcional no cotidiano do seu trabalho. Estamos diante aqui de contradições entre heteronomia e autonomia que não podem ser escamoteadas.
Por certo, o trabalho para si carrega uma aparência autônoma que frequentemente ofusca elos de subordinação à produção capitalista. No capitalismo de produção flexível e seus expedientes de externalização/terceirização, de desterritorialização e descentralização mundial, a produção “autônoma” é subsumida no capital. Há subsunção formal, no caso de processos de produção não especificamente capitalistas, mas geradores de mais valia para empresas capitalistas (trabalho doméstico, boa parte da produção autogestionária, eventualmente produtores em meios próprios). Não raro, trabalhadores ocupados dessa
6 A adoção da expressão “trabalhar por conta própria” possivelmente restringiria o sentido da pergunta. Como
categoria nativa, creio que abarca um espectro menos abrangente do que “trabalhar para si”.
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Além disso, no caso da modalidade “possuir meios próprios de produção”, muitas vezes estamos tratando da constituição de firmas de relações capitalistas de assalariamento e torna-se impreciso, inclusive, falar em
trabalho para se referir a empresários/as (cf. Marx, 1985). Isso não inviabiliza a constatação de que é possível
que, em empresas diminutas, a/o proprietário/a participe do processo de valorização, na medida em que seja um dos membros do trabalhador coletivo; isso sem mencionar ainda o importante fato de sua relação com o modo de vida comum à classe trabalhadora.
maneira descendem abaixo do minimamente necessário para a sua reprodução de modo a garantir a mais valia (absoluta). Há ainda subsunção real no capital – no caso, por exemplo, de falsas cooperativas, que servem apenas à burla da legislação tributária e à proteção trabalhista, mas aí dificilmente se reivindica a ideia de trabalhar para si. São inúmeras as formas de articulação com a acumulação capitalista, algumas inclusive menos diretas – a concorrência com os produtos advindos da indústria capitalista, a submissão à ordem da mais valia relativa, leva a que produtos gerados em outros processos de produção tenham que sacrificar a reprodução dos trabalhadores para chegar ao preço produzido sob o funcionamento da mais valia relativa.
Há uma reveladora coincidência terminológica. Ao falar de artesãos e camponeses, Marx (1987) descreve os trabalhadores que se ocupam em meios próprios como assalariados de si e capitalistas de si. Isso se aplica a uma específica modalidade de trabalho para si, de mais autonomia, que apenas indiretamente se relaciona com a acumulação capitalista – porque, nesse termo nativo encontramos também simplesmente assalariados (de outrem), e, em princípio, simplesmente capitalistas (de outrem). De um modo geral, nomear esse conjunto de modalidades como trabalhar para si é sintomático do sentido de exploração de que o trabalho se reveste nas sociedades de classe. É um termo que carrega em si a história: é testemunha do caráter estranhado8 do trabalho assalariado. Se não houvesse o trabalhar para outrem – isto é, trabalhar de modo subordinado, ou mais, subsumido – careceria de sentido a noção de trabalhar para si.
Nisso se revela a contradição. Os aspectos de autonomia não são apenas aparentes. Envolvem práticas e (auto)percepções. Podem significar a possibilidade de algum controle sobre tempo, intensidade e rotina de trabalho – ainda que todos esses pontos, no limite, sejam determinados por ditames objetivos advindos da existência numa ordem econômica capitalista. Tais modalidades de trabalho podem também representar a oportunidade de se auferirem maiores rendimentos, ainda que seja maior também a extração de mais valia.
É inspiradora a análise de Bihr (1998), que identifica as diferentes formas das contradições entre autonomia e heteronomia, “entre privação e envolvimento” tanto no capitalismo fordista, quanto no de produção flexível. Por esse caminho, busco identificar, na
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O/a leitor/a menos familiarizada/o com o léxico marxiano poderá encontrar nos Manuscritos de 1944 as elaborações sobre o estranhamento no trabalho. Diz Marx (2004, pp. 177-8): “A efetivação do trabalho tanto aparece como desefetivação que o trabalhador é desefetivado até morrer de fome. A objetivação tanto aparece como perda do objeto que o trabalhador é despojado dos objetos mais necessários não somente à vida, mas também dos objetos do trabalho. (...) A apropriação do objeto tanto aparece como estranhamento (Entfremdung) que, quanto mais objetos o trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio do seu produto, do capital”.
especificidade brasileira contemporânea, novas contradições que digam respeito ao recurso do capitalismo de subsunção de formas não especificamente capitalistas de produção e às aspirações de autonomia surgidas nesse processo.
Fugir da armadilha de unilaterizar essas práticas de trabalho requer que o indivíduo trabalhador seja visto em sua integralidade, na unicidade de sua concretude – a relação de assalariamento não se resume à sua dimensão de extração de mais-valia, mas, antes, diz respeito à busca por dominação e exploração da força de trabalho, de suas energias físicas e psíquicas, de sua intelectualidade e de sua subjetividade.
Nesse sentido é que, para além de salários e demais formas de remuneração, tais como comissões, abonos ou participações em lucros e resultados, isto é, para além de seus aspectos especificamente pecuniários, a relação assalariada diz respeito ao tempo e à intensidade de trabalho; à satisfação do/a trabalhador/a com o conteúdo do seu trabalho; ao controle mais ou menos heterônomo sobre a rotina e a forma de execução do trabalho; ao relacionamento com o/a patrão/patroa ou com colegas de trabalho; ao engajamento subjetivo com a empresa; à exposição ao risco e ao adoecimento. Em suma, se a extração de mais valia é o fim do assalariamento capitalista, o estranhamento que essa forma de dominação requer mobiliza o envolvimento do/a trabalhador/a na integralidade de sua individualidade, embora a captura dessa integralidade exista apenas como projeto, nunca chegue a se efetivar – não há dominação que não engendre resistência, ainda que essa última não se manifeste em toda e qualquer individualidade.
Assim, as motivações dessa vontade de trabalhar para si devem ser investigadas na totalidade da relação de assalariamento. Porque a exploração capitalista do trabalho assalariado pressupõe o estranhamento, porque envolve a subordinação, os elementos não diretamente remuneratórios inerentes à relação assalariada capitalista podem ter tanta ou mais influência na conformação desse eventual anseio, se comparados com os eminentemente pecuniários.
Historicamente, como se sabe, as revoltas empreendidas pela classe trabalhadora tiveram motivações as mais diversas, com origem nos distintos aspectos da condição proletária. As diversas facetas da exploração capitalista – incluídas aquelas externas à relação assalariada singular, como às ligadas ao consumo – têm o poder de motivar a percepção da condição explorada e são, muitas vezes, “mais prováveis de irromper na consciência política” dos/as trabalhadores/as (THOMPSON, 2001b, p. 166). A introdução do trabalho industrial provocou, por exemplo, em momentos e localidades distintos, a resistência dos trabalhadores antes ocupados em atividades produtivas não capitalistas – resistência ao disciplinamento e à
submissão ao tempo, bem como a um controle heterônomo sobre o processo de trabalho. No capitalismo fordista, o ritmo exaustivo de um trabalho intensificado fez com que greves, boicotes, sabotagens e dilapidações fossem promovidos; por outro lado, uma remuneração que permitisse acesso satisfatório ao consumo fez com que nesse mesmo capitalismo fordista se pudesse observar uma posição de considerável aquiescência dos trabalhadores. (THOMPSON, 1998; BIHR, 1998; LINHART, 2007; MARONI, 1982). Não digo novidades – e o rol de exemplos é interminável.
Como é notório, uso a ideia de negação, mais ampla que a ideia de resistência e com capacidade de abarcar posições as mais distintas. O termo resistência, ainda que alargado para abarcar microações cotidianas (Cf. SILVER, 2005; SCOTT, 2011; LINHART, 2007; MARONI, 1982), não me parece apropriado. Resistência, assim o vejo, pressupõe uma dada prática (ainda que essa venha a ser a recusa à ação) decorrente de um posicionamento de negação, categoria mais ampla que diz respeito ao antagonismo, à oposição, como o outro antagônico do consentimento.
De outra parte, entendo que o consentimento existe como conexão entre explorador e explorado, dominador e dominado – do ponto de vista da hegemonia do capital, o consentimento é par da coerção: ao mesmo tempo em que se diferencia do consentimento, a própria existência de coerção faz obter consentimento, da interação desse par, da interação entre “força e consenso”, se obtém a continuidade da dominação (como, a propósito de Gramsci, leio em Bianchi, 2008). Do ponto de vista do trabalho, o consentimento é o outro antagônico da negação.
A resposta do trabalho aos mecanismos de busca de consentimento desenvolvidos pelo capital envolve tanto o consentimento (do/a trabalhador/a), quanto a negação. Trata-se – a negação – de um continuum que vai, quanto à exterioridade da postura, da passividade que oculta um juízo negativo a respeito da relação à resistência mais ativa. Igualmente o consentimento envolve um continuum entre a atividade (a colaboração mais deliberada) e a passividade. A passividade é uma forma de consentimento. Já a resistência pressupõe ação nessa direção – a negação passiva é somente a negação. Consentimento e negação devem ser lidos não em chave dicotômica – a dialética entre um e outra admite a convivência quase obrigatória nos seres historicamente socializados na ordem classista capitalista.
Retomo, então, as questões desta tese. Se faço menção à complexidade de que se compõe a relação de assalariamento é para interrogar sobre as motivações da vontade de trabalhar para si. Elas são vistas a partir da posição (a resultante da contradição entre negação
e consentimento) dos/as trabalhadoras/es frente aos diferentes aspectos que concretamente compõem a totalidade da relação assalariada.
Restam, ainda, por se explicitar alguns dos principais construtos teóricos que ampararam o trajeto investigativo. Até agora, esteve praticamente de fora um debate crucial, que estrutura esta pesquisa: aquele sobre classe social. Não se trata de um conceito unívoco, sequer entre as tradições que descendem de Marx – e somente isso já justificaria que se explicitasse qual o partido que se toma aqui. Como já antecipei, a principal interlocução aqui se dá com as célebres formulações de E. P. Thompson. Sinto necessidade de, tão breve quanto possível, deixar claro como as mobilizo.
Classe, experiência de classe, cultura de classe, consciência de classe
Tem inestimável valor a teoria social que subjaz à investigação thompsoniana sobre a classe trabalhadora inglesa, seu objeto primordial. Aqui está algo primordial a se sublinhar. Não se trata apenas de conceituar “classe social”, nem de discutir os contornos metodológicos do conhecimento (especialmente o historiográfico) a seu respeito: há em Thompson um debate teórico profundo sobre o processo de determinação do ser social, para não mencionar o debate epistemológico sobre o materialismo – não seria exagero identificar em Thompson a conformação de uma bem definida postura metodológica, isto é, de uma particular articulação de uma ontologia, uma lógica, uma epistemologia e uma metateoria dadas, mas esse é um debate para outra oportunidade.
Sucintamente, em Thompson tem-se uma concepção dinâmica de classe social: a classe não pode ser vista como uma estrutura, nem como “uma coisa”; e tampouco se define a partir da mera alocação de determinado agrupamento de indivíduos numa dada relação com os meios de produção ou através de uma simples operação de medição quantitativa de um contingente de pessoas numa determinada estrutura. Para Thompson, a classe, ao contrário, é uma relação histórica, construída a partir de condições historicamente determinadas, e continuamente formada pela vivência de um determinado grupo de pessoas que compartilha condições e interesses, mas também tradições, legados históricos, valores – compartilha uma experiência. Ademais, a classe é construída necessariamente a partir da relação com outras classes sociais. (THOMPSON, 1997; 2001a; 2001b; 2001c) Contra uma visão estática das
classes sociais, vê-se a classe como fluidez, como “algo fluido que escapa”; como processualidade; como acontecimento.
Não que Thompson esteja desprezando o papel das determinações objetivas para a conformação das classes sociais – ele apenas não nega aos membros da classe, em sua ação, seu papel indispensável na definição da forma de ser da classe. Ou, nos dizeres de Negro e Gomes (2006, p. 234): “Tudo isso é fundamental para assegurar que as classes subalternas não sejam destituídas de sofisticação no seu ato de fazer cultura e história”. E como sintetiza Wood: “determinações objetivas não se impõem sobre matéria-prima vazia e passiva, mas sobre seres históricos ativos e conscientes” (WOOD, 2003, p. 76). Batalha (2000) propõe que tais determinações ocupam, nas formulações thompsonianas, a função de “limites, fronteiras, de um campo de possibilidades no qual através da ação os homens [e mulheres] fazem escolhas e, consequentemente, sua própria história” (BATALHA, 2000, p. 198).
E isso não poderia ficar mais explícito no próprio Thompson: “(...) homens e mulheres, ao se confrontar[em] com as necessidades de sua existência, formulam seus próprios valores e criam sua cultura própria, intrínsecos ao seu modo de vida. Nesses contextos, não se pode conceber o ser social à parte da consciência social” (2001c, p. 260) Poderíamos tratar em termos de unidade a relação entre ser social e consciência social, mas essa é, na verdade, uma ideia imprecisa. A consciência social integra o ser social, o ser social tem na consciência social um momento necessário. A relação entre ser social e consciência social é, assim, interna ao ser.
Em coerência, então, com a proposição de não dissociar a consciência social do ser social, Thompson vem propor que a consciência de classe, entendida como “uma cultura global desprendida da formação” (2001a, p. 280), constrói a classe. A classe se constrói sobre interesses comuns e sobre um legado histórico e é necessariamente o resultado do vivido, o resultado de como a experiência de classe é vivida e percebida, de como é elaborada pela consciência de classe, mediação cultural de tal experiência9.
A classe acontece quando alguns homens [sic], como resultado de experiências comuns (herdadas ou compartilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. Podemos ver uma lógica nas reações de grupos
profissionais semelhantes que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. (THOMPSON, 1997, p. 10)10
Pelo exposto, pode-se apreender um postulado muito caro a Thompson: classe, antes de tudo, é um fenômeno histórico. Como categoria, é uma categoria histórica, diz respeito a um processo concreto, vivenciado por um grupo concreto de pessoas, acontecido num dado decurso de tempo. Isso não invalida, contudo, seu uso como “categoria heurística ou analítica”11. (THOMPSON, 2001a).
A referência à relação entre ser social e consciência social é aqui oportuna. Isso porque a concepção de classe em debate só pode ser satisfatoriamente compreendida se levamos em consideração o juízo negativo que Thompson tem em relação à metáfora base-superestrutura, que teria alcance limitado na obra de Marx e teria sido, no interior do marxismo, exorbitada em seus usos. Para Thompson (2001c), não se trata, em Marx, de atestar uma primazia do econômico na vida social, mas, antes, a centralidade do modo de produção e suas relações de produção – o que implica um empreendimento teórico muito distinto daquele que separa economia e cultura e subordina a segunda à primeira12. Para ele, tanto fenômenos econômicos, quanto fenômenos sociais e culturais estão “imersos no mesmo nexo relacional” (2001b, p. 167), “em seu surgimento, presos na mesma rede de relações” (2001d, p. 208).
A recusa de Thompson em explorar a metáfora estrutura-superestrutura e as formulações que elabora para alternativamente tratar do tema da determinação do ser social são férteis contribuições no interior do marxismo. Não é impossível que se leia Marx como um economicista – o autorizam tanto as oscilações no interior da sua própria obra, atestada por Thompson e por outras/os leitores/as, quanto a interpretação majoritária em correntes marxistas de muita visibilidade no século XX –, mas essa é, creio com Thompson, uma leitura empobrecida, incompleta, redutora. Trata-se, na verdade, de uma leitura que não faz justiça ao caráter dinâmico, de movimento, de tensão de que se imbui a exposição dialética de Marx.
10 Daí, para Thompson, a impossibilidade de haver uma falsa consciência de classe. Contudo, essa utilização do
conceito de consciência de classe, apesar de predominante nos escritos do historiador, não é a única possível. De acordo com Thompson, há ainda a possibilidade de uma “acepção mais limitada” do conceito, visto como “a política ou a estratégia dominante [da classe], numa relação com outras classes, conduzida por seus líderes, partidos, por outras instituições”. (2001a, p. 280) Apenas nesse uso mais restritivo – que se aproxima do uso corrente do conceito – seria possível, admite, falar em “falsa consciência de classe”. Voltarei ao tema da consciência de classe ao final deste tópico.
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A propósito, Thompson (1976) aponta uma “lacuna metodológica” derivada do fato de que sociólogos/as e historiadoras/es sociais têm divergido a respeito da capacidade de generalização de seus estudos – sociólogas/os veriam uma busca excessiva de particularização dos resultados de pesquisa na produção historiográfica, ao passo que historiadores/as tenderiam a ver, na sociologia, generalizações exageradas.
12 Thompson (2001c), aliás, rechaça a própria possibilidade dessa separação, senão como artefato meramente
Vamos à primeiríssima página de O Capital. É lá que Marx diz: “A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, se elas se originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa” (MARX, 1983, p. 45. Os grifos são meus). Exatamente ao final desse trecho, Marx interpõe uma nota de rodapé com o seguinte conteúdo: "Desejo inclui necessidade, é o apetite do espírito e tão natural como a fome para o corpo. (...) a maioria (das coisas) tem seu valor derivado da satisfação das necessidades do espírito" (BARBON, 1696 apud MARX, 1983, p. 45). No primeiríssimo momento de exposição daquela que é a categoria basilar da teoria do valor trabalho – a mercadoria –, matéria e ideia se fazem presentes.
E de que trata a categoria thompsoniana de “experiência” se não de articular materialidade e idealidade nos processos de determinação da vida social de uma classe, categoria que aqui interessa? Diz Thompson que a experiência
surge espontaneamente no ser social, mas não surge sem pensamento. Surge porque homens e mulheres (e não apenas filósofos) são racionais, e refletem sobre o que acontece a eles e ao seu mundo. Se tivermos de empregar a (difícil) noção de que o ser social determina a consciência social, como iremos supor que isto se dá? Certamente não iremos supor que o "ser" está aqui, como uma materialidade grosseira da qual toda idealidade foi abstraída, e que a "consciência" (como idealidade abstrata) está ali. Pois não podemos conceber nenhuma forma de ser social independentemente de seus conceitos e expectativas organizadores, nem poderia o ser social reproduzir-se por um único dia reproduzir-sem o pensamento.
A experiência, como “termo médio necessário entre o ser social e a consciência social” (THOMPSON, 1981, p. 112), em seu caráter histórico e vivenciado, é a mediação concreta que faz possíveis as determinações do modo de produção. Ela é quem “dá cor à cultura, aos valores e ao pensamento” (THOMPSON, loc. cit.).
Prossigamos no tema. Atentemos a este excerto de A Ideologia Alemã:
A forma como os homens produzem esses meios depende em primeiro lugar da natureza, isto é, dos meios de existência já elaborados e que lhes é necessário reproduzir; mas não deveremos considerar esse modo de produção deste único ponto de vista, isto é, enquanto mera reprodução da existência física dos indivíduos. Pelo contrário, já constitui um modo determinado de atividade de tais indivíduos, uma forma determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida determinado. A forma como os indivíduos manifestam a sua vida reflete muito exatamente aquilo que são. O que são coincide portanto com a sua produção, isto é, tanto com aquilo que produzem como com a forma como o produzem. Aquilo que os indivíduos são depende portanto das condições materiais da sua produção.
Esta produção só aparece com o aumento da população e pressupõe a existência de relações entre os indivíduos.