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Causas do abandono escolar de jovens mulheres no Brasil e na Espanha
Enerci Candido Gomes1, Maria das Graças Campos1, Teresa Alzás2, Luis M. Casas2
1Mestrado em Educação Universidade de Cuiabá, Cuiabá-Brasil. [email protected]
Departamento de Educação Universidade de Cuiabá, Cuiabá-Brasil. [email protected]
2
Universidad de Extremadura - España, [email protected], [email protected]
Resumo. Este trabalho apresenta duas pesquisas que, coincidentemente, estudaram o abandono e a exclusão escolar dos alunos da educação de jovens e adultos, sendo uma realizada pelo programa de Pós-Graduação da Universidade de Cuiabá Estado de Mato Grosso Brasil, e outra na região Extremadura - España. O artigo propõe analisar os pontos semelhantes, conflitantes e resultados em torno da temática. A análise objetiva compreender os motivos que levaram jovens e adultos a interromper os estudos, com uma abordagem de cunho qualitativo,
Palavras-chave: Jovens e Adultos; Abandono Escolar; Ensino. Causes of School Dropout of Young Women in Brazil and Spain
Abstract. This study presents two studies that coincidentally studied the abandonment and exclusion of students from youth and adult education, one of which was carried out by the Graduate Program of the University of Cuiabá State of Mato Grosso, Brazil, and another in the Extremadura - Spain. The article proposes to analyze the similar points, conflicting results on the theme.
Keywords: Young people and adults; School Abandonment; Teaching
1 Introdução
No Brasil, a pesquisa originou-se da observação dos elevados índices de abandono escolar, visto que, a realidade não condiz com as conquistas da base legal.
Uma comprovação de que o sistema regular de oferta da Educação Básica no país, não vem permitindo a permanência e o sucesso escolar dos jovens e adultos são os altos índices de matrícula na EJA em 2015, já havia quase 3,5 milhões de matriculados, sendo 2.182.611 no Ensino Fundamental e 1.309.258 no Ensino Médio. Constata-se ainda que milhões de jovens brasileiros de 15 a 17 anos não completam o ano letivo frequentando a escola, e consequentemente, abandonam a os estudos antes de concluir esta etapa de ensino (Brasil, 2017).
Em Mato Grosso a situação não se configura diferente, pode-se considerar que o fator mais preocupante é que um número expressivo de alunos que iniciam e não concluem os estudos na rede oficial de ensino. Os dados obtidos com a pesquisa, realizada nas duas unidades escolares do Estado de Mato Grosso, uma em um bairro da capital Cuiabá e a outra no centro da cidade de Várzea Grande, mostraram que entre os anos de 2012 e 2016 foram matriculados na Educação de Jovens e Adultos – EJA, 8.002 alunos no ensino médio, destes 2.795abandonaram o curso.
No entanto, a análise dos dados fornecidos por uma das escolas pesquisadas evidencia que no início de cada ano letivo há um número expressivo de matrículas para os cursos da EJA, mas no decorrer do ano as desistências vão acontecendo, de modo que ao final do ano letivo esse número de matriculados não se mantém.
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Conforme dados da escola intitulada de A na pesquisa realizada em Cuiabá, 6.695 alunos foram matriculados na EJA, entre 2012 e 2016, nesta escola, muitos desistiram no decorrer dos anos letivos. Não são diferentes os dados da escola B,mostra que a escola efetivou 1.307 matrículas na EJA, entre 2012 e 2016. Desse total, 622 desistiram.
Quanto à Europa e Espanha, os dados mais recentes sobre a evasão escolar de jovens entre 18 e 24 anos mostram que, enquanto a Europa se aproxima da meta de reduzir a taxa de abandono para 10%, a Espanha ainda registra uma taxa de abandono escolar. 18,3% (Eurostat, 2017). Na Espanha, há diferenças entre regiões: a Extremadura melhorou seus números nos últimos anos, embora esteja acima da média nacional, em 19,2% a partir de 2017 (CCOO, 2017). Um dos aspectos preocupantes em relação ao abandono escolar é a diferença nas taxas de evasão registradas em mulheres e homens, sendo maior nos últimos.
Objetivos e argumentos da pesquisa de Cuiabá, MT, Brasil
O problema da pesquisa está relacionado aos altos índices de abandono escolar e às questões inerentes ao trabalho, gravidez precoce, maternidade, e outras, que na maioria das vezes são colocadas como motivos principais do abandono escolar, o que levará ao questionamento de quais seriam as implicações dos fatores intraescolares na desistência de jovens mulheres dos cursos do EJA? O principal objetivo desse trabalho foi compreender a dinâmica e os motivos que levaram jovens mulheres a interromper os estudos na EJA, nos aspectos intra e extraescolares.
Quanto aos objetivos do trabalho assim foram propostos pela Espanha
- Para lidar com as causas pessoais que levam ao abandono escolar. - Estudar os fatores intraescolares que provocam a evasão, ou a exclusão. - Saber se as causas do abandono são diferentes em mulheres e homens.
2 Método
Para o alcance dos objetivos propostos, optou-se pela pesquisa qualitativa. Inicialmente na
pesquisa a preocupação foi o levantamento dos dados, zelando pelo significado do processo de construção das percepções das jovens mulheres e não apenas com os resultados e o produto final. Na percepção de Bogdan e Biklen (1994), para a edificação de uma pesquisa via abordagem qualitativa, os dados devem ser recolhidos em seu ambiente real, sem que haja nenhum tipo de manipulação intencional, apreciados em sua importância e evidenciados de forma descritiva.
Para apreensão dos dados e melhor compreensão sobre a realidade das entrevistadas, optou-se pela utilização da ferramenta história oral que, na concepção de alguns autores, nesse tipo de estudo, pode ser de grande relevância.
Neste trabalho, dois tipos diferentes de técnicas qualitativas são utilizados. No estudo desenvolvido na Espanha, utilizou-se a técnica da história. Os participantes foram solicitados a responder por escrito a uma questão ampla, abrangendo toda a trajetória pessoal, bem como a interpretação e o significado de sua situação.
Com base nos dados obtidos, foi realizada uma análise de conteúdo (Krippendorff, 2004) utilizando o programa webQDA (De Souza, Costa, Moreira e De Souza, 2013), após o qual foram analisadas as manifestações mais importantes e frequentes dos participantes.
É importante esclarecer que, embora ambos os estudos tenham uma abordagem qualitativa, as técnicas usadas para coletar dados são diversas. Esse é um aspecto muito interessante, pois permite
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conhecer as vantagens e limitações de cada técnica. Por exemplo, as entrevistas permitem uma maior abordagem da experiência pessoal e facilitam uma análise biográfica das trajetórias educacionais que levam ao abandono escolar; enquanto as histórias exigem que cada aluno conte sua história, mas se concentre em aspectos mais concretos, o que também permite uma análise de conteúdo mais rápida e, portanto, trabalha com um número de amostra maior.
3 Resultados obtidos
3.1. Categorias de análise encontradas no Brasil
A pesquisa foi realizada pelo Programa de Pó- Graduação da Universidade de Cuiabá em duas unidades escolares do Estado de Mato Grosso, sendo uma localizada no centro da Cidade de Várzea Grande e outra em um bairro da capital Cuiabá, sendo recorte da pesquisa do programa de mestrado da Universidade de Cuiabá, quando foram ouvidas 16 jovens. Na fase do campo observou-se a trajetória e o abandono escolar de 16 jovens mulheres. Assim o quadro a seguir demonstra os principais motivos para a não permanência escolar.
Quadro 2: Principais motivos da desistência escolar na EJA 1.
Não tinha com quem deixar os filhos pequenos
Das entrevistadas 32% apontaram como principal motivo para a desistência da EJA, não ter com quem deixar os filhos pequenos.
2.
Problema de saúde 6% disseram que por problemas de saúde não puderam continuar os estudos
3. Dificuldade conciliar trabalho, em afazeres
domésticos e estudar
31% disseram ter desistido porque não conseguiram conciliar o trabalho, com os afazeres domésticos e os estudos.
4.
Falta de apoio e incentivo da família
25% disseram que faltou apoio e incentivo da família, inclusive em cuidar dos filhos enquanto estas estudavam.
5. Dificuldades com
os professores 6% apontaram que tiveram problemas com os professores. Fonte: Elaborada pela autora a partir das entrevistas.
Dessa forma, verificou-se que quando trata se de mulheres, as dificuldades são inúmeras, se consideradas as várias atribuições que exercem, observa se ainda a ausência de programas públicos privados de apoio e incentivo as jovens mulheres possam conciliar as atividades educativas com atuação no mercado de trabalho, em especial, após a maternidade.
3.2. Categorias de análise concebidas na Espanha.
As histórias foram recolhidas por 309 pessoas, das quais 60,52% eram homens e 39,48% mulheres. Quanto às causas do abandono escolar, foram identificadas as seguintes categorias: preferência pelo trabalho, necessidade de ajuda do ambiente familiar, regulação do sistema educacional, clima no centro educacional, situações pessoais e, por fim, desmotivação para os estudos.
Preferência trabalhista é muito presente nas histórias, é visto em expressões como "Parei de estudar porque havia trabalho e gostei mais". De fato, muitos jovens abandonaram a escola porque
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encontraram trabalho, o que é observado em expressões como "Parei de estudar porque encontrei trabalho" ou "Saí porque comecei a trabalhar".
Além disso, essas preferências trabalhistas estão ligadas a argumentos que recorrem principalmente à liberdade e à independência, como "Saí da escola para trabalhar e tenho meu primeiro salário e ser um pouco mais independente" ou "Comecei a trabalhar com 16 anos para me tornar independente e fazer o que eu quisesse. "
Em outros casos, a ideia de ter dinheiro está presente: "Eu queria ganhar dinheiro quando os outros estavam estudando" e "Eu queria trabalhar e começar a ganhar dinheiro". Por outro lado, a motivação para o trabalho é acompanhada de desmotivação para estudos, o que acaba sendo a justificativa para deixar de “parar de estudar aos 15 anos por falta de motivação e pensar que ganhar dinheiro poderia ser mais independente”.
Sobre a necessidade de ajuda do ambiente familiar, a principal necessidade de ajuda da família é econômica, e muitas pessoas dizem que precisam ir trabalhar porque precisam ajudar a família. Um exemplo dessa situação está na reportagem em expressões como "Parei de estudar porque em minha casa a situação econômica era muito complicada, encontrei um emprego que me deu a oportunidade de contribuir com dinheiro em casa por algum tempo". Há também casos de pessoas que pararam de estudar porque economicamente a família não podia cobrir as despesas educacionais "não poderia, não havia recursos em casa".
Em relação à regulamentação do sistema de ensino, que inclui aquelas situações relacionadas à legislação educacional ou regulamentação escolar, vale ressaltar os casos de abandono escolar por atingir a idade máxima (18 anos) e não poder continuar treinando em o centro educacional "quando eu quis estudar, já era tarde e eu repeti o curso no 4º ESO com 18 anos com 3 matérias e não pude voltar à escola".
No que diz respeito ao clima no centro educacional, são recolhidos comentários relacionados com as relações de conflito que ocorrem entre professores-alunos e entre estudantes e alunos. Dentro da interação aluno-professor deve notar-se comentários como "Naquele tempo eu parei de estudar porque eu odiava a escola, estudos e até mesmo professores, levou-me a tudo isso as numerosas discussões com os professores durante anos, talvez várias vezes com razão e outros sem ela ". Em relação ao conflito entre iguais, observa-se mais do que o esperado, como afirmam algumas das histórias "Parei de estudar porque sofri assédio no Instituto, fiquei com medo de ir porque um grupo de alunos me atacou".
No que diz respeito às situações pessoais, ou seja, o conjunto de circunstâncias que forçam o abandono, é importante salientar as doenças e gestações em adolescentes como o que é mais transmitido nas diferentes histórias. Quanto à doença são mencionados como "parou de estudar 17 anos devido à doença, passei três anos operando então" e sobre a gravideze evidenciou-se declarações como "Eu parei de estudar porque engravidei e tive que encontrar trabalho para apoiar minha filha".
3.3. Semelhanças e diferenças Brasil / Espanha.
Observa-se no Brasil, diferentemente da Espanha os jovens são excluídos prematuramente do Sistema Regular de Ensino. São na maioria de 14 a 17 anos de idade que ficam diante de uma única opção educativa: frequentar a modalidade da EJA.
Constatando também que as possibilidades de formação escolar foram menos eficazes para as mulheres do que para os homens, o que nos obriga a refletir sobre esse fato e a considerar se essas políticas têm menos efeito sobre as motivações das mulheres para abandonar a escola. É necessário, então, conhecer essas motivações e agir contra elas,no Brasil observa-se que tal qual na Espanha as taxas de abandono são diferentes por regiões. Assim para o abandono escolar de mulheres no Brasil é maior que na Espanha, sendo que na Espanha as estatísticas de abandono escolar é maior nos homens.
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Enfocando que os principais motivos que envolvem o abandono escolar no Brasil, conforme a pesquisa são: fatores extraescolares (gravidez precoce, maternidade, dupla jornada de trabalho, não ter com quem deixar os filhos pequenos, falta de incentivo da família, desânimo, dificuldade de aprendizagem, dentre outros) e fatores intraescolares (questões culturais e de gênero, dificuldade em atender aos objetivos e preferências dos alunos.
Na Espanha os motivos do abandono podem ser considerados semelhantes tais como: a questão familiar, a questão econômica quando muitos jovens de maneira precoce entram no mercado de trabalho para contribuir com a renda familiar, assim também a questão da precarização econômica da família implica no abandono escolar com evidência nas duas pesquisas, uma vez que as pessoas não possuíam recurso suficiente para com os gastos educativos. Outra semelhança tanto no Brasil quanto na Espanha que provocam o abandono escolar está relacionada à gravidez na adolescência. Assim, no Brasil e na Espanha nos relatos de jovens a semelhança para as questões sociais, de vulnerabilidades, envolvimento com drogas, sendo que no Brasil existe com mais frequência aglutinando para o convívio com grupos ou pessoas em conflitos com a lei.
4 Conclusões
Trabalhando com as duas pesquisas, observa se as diferenças relevantes conforme indicado: no Brasil, a evasão escolar é maior nas mulheres, enquanto na Espanha é maior entre os homens. Porém, além dessas diferenças, o trabalho permitiu incorporar a perspectiva de gênero ao objeto de estudo, conhecendo as realidades compartilhadas dos alunos que saem do sistema educacional, tais como são: a gravidez precoce, trabalho, a desestruturação familiar, vulnerabilidade econômica e social, falta de estímulo com os estudos, dificuldades em acompanhar em algumas disciplinas e propostas curriculares.
Conclui- se, que, tanto no Brasil, quanto na Espanha o estudo sobre o abandono escolar dos (as) jovens tem sido uma preocupação em comum, tendo em vista a constatação que no Brasil há maior quantidade de abandono escolar pelas mulheres, efetivamente são maiores do que pelos homens. E isso acontece em sentido contrário na Espanha
Mediante análises das fontes documentais, orais, escritas, bem como das propostas e curriculares atinentes às duas pesquisas verificou-se que a mediação, o apoio familiar, bem como as políticas públicas de melhorias educacionais, direcionadas às mulheres são imprescindíveis. Principalmente, no momento em que a jovem mulher decide pela continuidade dos estudos, sabendo que a escola ainda é uma das fontes de conhecimento que possibilita ao ser humano ter uma educação formal e, consequentemente, um melhor desempenho na vida e no trabalho.
Considerando os motivos intraescolares as pesquisas sinalizam para a necessidade dos currículos sejam construídos respeitando os saberes e as peculiaridades dos alunos (as), contemplando também, uma formação continuada dos professores diante das especificidades desse público-alvo.
Assim o ensino de um modo geral deve atentar para a melhoria, das propostas e das atividades escolares com objetivo de atender às perspectivas desses (as) jovens, afim de que possam permanecer e concluir a educação básica.
Agradecimentos UNIVERSIDADE DE CUIABÁ
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Referências
Bogban, R. Biklem, S. (1994). Investigação Qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto, Portugal: Porto Ed
Brasil (2017). Anuário Brasileiro da Educação Básica, Pnad Contínua, Movimento Todos pela Educação: Educação de Jovens e Adultos, Moderna. Disponível em:www.arede.inf.br/anuario-brasileiro-da-educacao-basica-2017/ Acesso 12/01/ 2018.
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