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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL. JOSÉ GERALDO MAGALHÃES JÚNIOR. INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA: UM APROFUNDAMENTO SOBRE AS MUDANÇAS NO MODO DE SE FAZER REPORTAGENS. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de PósGraduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção de grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. José Salvador Faro. SÃO BERNARDO DO CAMPO – SP 2017.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA. Magalhães Júnior, José Geraldo. M271i. Investigação jornalística: um aprofundamento sobre as mudanças no modo de ser fazer reportagens / José Geraldo Magalhães Júnior. 2017. 116 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2017. Orientação de: José Salvador Faro.. 1. Jornalismo investigativo. 2. Tribuna de Minas (Jornal) -. Análise de conteúdo 3. O Estado de Minas (Jornal) - Análise de conteúdo. 4. Repórteres e reportagens. 5. Hospital Colônia -. Barbacena (MG) I. Título. CDD 302.2.
(4) FOLHA DE APROVAÇÃO A dissertação de mestrado sob o título “Investigação Jornalística: um aprofundamento sobre as mudanças no modo de se fazer reportagem”, elaborada por José Geraldo Magalhães Júnior foi defendida e aprovada em 26 de setembro de 2017, perante banca examinadora composta por Dra. Marli Santos, Dr. José Salvador Faro e Dra. Michelle Roxo.. Assinatura do Orientador: ................................................................................................. Dr. José Salvador Faro. São Bernardo do Campo, 15 de novembro de 2017.. Visto do coordenador do Programa de Pós-Graduação: ............................................... Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais Projeto temático: Jornalismo investigativo: Hospital Colônia.
(5) RESUMO. A partir da análise de duas séries de reportagens sobre o Hospital Psiquiátrico Colônia de Barbacena, publicadas em décadas diferentes, a pesquisa procura identificar as prováveis mudanças no percurso metodológico empregado na investigação; além das mudanças na construção da reportagem que compartilha os resultados obtidos com a investigação. Empregamos uma metodologia que está descrita em capítulo à parte, entretanto, coletamos quase 50 publicações sobre o tema entre 1938 a 2011, na expectativa de encontrar respostas ao questionamento colocado, as duas principais séries de reportagens escolhidas como objetos deste estudo, denunciaram a degradante situação em que viviam os pacientes psiquiátricos de Minas Gerais antes da Reforma Psiquiátrica brasileira. A primeira é da autoria de Hiram Firmino e foi publicada em 1979 pelo jornal O Estado de Minas e a segunda é da autoria de Daniela Arbex e foi publicada em 2011 pelo jornal Tribuna de Minas. Optamos por essas duas, pois se trata da primeira e da última série publicada sobre o tema que foram premiadas. Palavras-chaves: Jornalismo Investigativo, Hospital Colônia, Reportagem, O Estado de Minas, Tribuna de Minas..
(6) ABSTRACT. Based on the analysis of two major reports on the Colony Psychiatric Hospital of Barbacena, published in different decades, the research seeks to identify: a) probable changes in methodology used in research; b) changes in construction of the Report that shares the results obtained with the research justifying the low quality or not of the journalistic productions today. We employ a methodology that is described in a separate chapter, however, collect almost 50 publications on the subject between 1961 to 2011, in the expectation of finding answers to the questions posed, the two main series of reports chosen as objects of this study, have denounced the degrading situation in which the psychiatric patients of Minas Gerais lived before the Brazilian Psychiatric Reform. The first is the author of Hiram Firmino and was published in 1979 by the newspaper O Estado de Minas and the second is the author of Daniela Arbex and was published in 2011 by the newspaper Tribuna de Minas. We opted for these two, because it is the first and last series published on the theme that were awarded.. Key words: Investigative Journalism. Hospital Colony. Hiram Firmino. Daniela Arbex. Reportage. State of Minas. Tribuna de Minas..
(7) AGRADECIMENTOS. Escrever essa parte na dissertação, embora, talvez o maior interessado aqui seja eu mesmo que passei dois anos em busca de respostas para uma inquietação inicial, mas sinto a necessidade de registrar os nomes das pessoas que colaboraram com esse projeto. Primeiramente a Deus que me deu fôlego de vida e renovou às forças, principalmente na etapa final de análises dos resultados. À Lucimar Pereira Coordenadora do Museu da Loucura, em Barbacena. Foi ela quem me respondeu os e-mails em busca de informações e atendeu minhas ligações. À Biblioteca Estadual de Minas Gerais que cedeu praticamente todo o acervo utilizado nessa pesquisa e a Biblioteca Nacional que cedeu cópias de arquivo da Revista O Cruzeiro, de 1961. Ao professor e orientador Dr. José Salvador Faro, homem sábio, inteligente e com uma memória incrível para lembrar datas. Foi ele que me norteou quando, em dado momento, me perdia diante do desafio proposto. Também foi paciente muitas vezes, e outras, fez cobranças no tempo certo, mas deu a liberdade para pesquisar o que me trouxe para o Programa de Pós-Graduação. Isso, também não vou esquecer. Aos professores do Programa, meus agradecimentos pelos ensinamentos compartilhados, em especial à Dra. Marli Santos, que meu deu aulas na graduação em Jornalismo e acalmou meu coração em tempos de crises. Às meninas da secretaria do Programa: Kátia Bizan, Priscila Wagna, Anadelia Davanso e Regiane Vitalino que deram todo o suporte durante o curso para os mais desavisados. Aos amigos que entenderam que foi preciso abrir mão de estar com eles em muitos momentos festivos, mas pude reencontrá-los no período da dor. À vocês também agradeço porque “há amigos mais chegados que irmãos”. Agradeço também à Igreja Metodista, minha comunidade de fé, pois foi necessário pedir licença do ministério pastoral para dedicação exclusiva à pesquisa. À Capes que cedeu a bolsa de estudo do início ao fim do curso. Gostaria de frisar que sem esse apoio seria difícil concluir esse projeto pessoal. agradecimento a essa comissão séria e competente.. Meu.
(8) DEDICATÓRIA À minha esposa Márcia Valéria Chagas Magalhães e a meu filho de 11 anos Rafael que foram mais que compreensíveis durante a realização dessa pesquisa. A eles darei todos os meus dias!.
(9) EPÍGRAFE “Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. O trem do sertão passava às 12h45m”. (Trecho do conto de Guimarães Rosa, Sorôco, sua mãe, sua filha, que retrata a chegada dos trens de “doidos” na estação de Bias Fortes, em Minas Gerais)..
(10) LISTA DE ILUSTRAÇÕES. Figura 1 – Vista parcial dos pavilhões do Hospital Colônia de Barbacena ................ 39 Figura 2 – Estação Bias Fortes: última parada dos internos de Barbacena .............. 39 Figura 3 – Retrato das condições em que viveram as crianças do Hospital Colônia de Barbacena antes da Reforma Psiquiátrica Brasileira ........................................... 40 Figura 4 – Síntese histórica do Hospital Colônia de Barbacena: período entre 1903 e 1979 .......................................................................................................................... 43 Figura 5 – Síntese histórica do Hospital Colônia de Barbacena: período entre 1980 a 2017 .......................................................................................................................... 44 Figura 6 – Livros-reportagens publicados por Hiram Firmino e Daniela Arbex ......... 50. Quadro 1 – Modelo tradicional de classificação dos gêneros jornalísticos ................ 30 Quadro 2 – Primeiras publicações jornalísticas relativas ao Hospital Colônia de Barbacena ................................................................................................................. 45 Quadro 3 – Principais publicações jornalísticas relativas ao caos na Saúde Mental entre 1979 e 1985 ..................................................................................................... 47 Quadro 4 – Principais publicações jornalísticas relativas ao caos na Saúde Mental entre 1979 e 1985 ..................................................................................................... 48 Quadro 5 – Principais publicações jornalísticas relativas ao caos na Saúde Mental brasileira entre 1993 e 2011 ...................................................................................... 48 Quadro 6 – Séries de reportagens: objetos de estudo da pesquisa .......................... 51 Quadro 7 – Categorias e subcategorias e respectivas finalidades ............................ 52 Quadro 8 – Síntese metodológica da pesquisa ......................................................... 52 Quadro 9 – Referências para identificação dos objetos de análise ........................... 55 Quadro 10 – Série 1: Subcategoria: Fontes Documentais: resultados obtidos ......... 56 Quadro 11 – Série 1: Subcategoria: Relatos de entrevistas/declarações espontâneas: ............................................................................................................. 57 Quadro 12 – Série 1: Subcategoria: Registro de imagens: resultados obtidos ......... 58 Quadro 13 – Série 1: Subcategoria: Registro de imagens: resultados obtidos ......... 59 Quadro 14 – Série 1: Subcategoria: Produção de provas durante a investigação .... 59 Quadro 15 – Série 2: Subcategoria: Fontes Documentais: resultados obtidos ......... 59 10.
(11) Quadro 16 – Série 2: Subcategoria: Fontes Documentais: resultados obtidos ......... 59 Quadro 17 – Série 2: Subcategoria: Relatos de entrevistas/declarações espontâneas: resultados obtidos ............................................................................... 60 Quadro 18 – Série 2: Subcategoria: Registro de imagens: resultados obtidos ......... 61 Quadro 19 – Transcrição das primeiras introduções das reportagens que compõem a série Os Porões da Loucura, de Hiram Firmino ........................................................ 63 Quadro 20– Série 1: Subcategoria: 1ª Introdução: resultados obtidos ...................... 64 Quadro 21 – Série 1: Subcategoria: 2ª Introdução: resultados obtidos ..................... 65 Quadro 22 – Série 1: Subcategoria: 3ª Introdução: resultados obtidos ..................... 67 Quadro 23 – Série 1: Subcategoria: Desenvolvimento: resultados obtidos .............. 68 Quadro 24 – Série 1: Subcategoria: Conclusão: resultados obtidos ......................... 68 Quadro 25 – Série 2: Subcategoria: 1ª Introdução: resultados obtidos ..................... 69 Quadro 26 – Série 2: Subcategoria: 2ª Introdução: resultados obtidos ..................... 70 Quadro 27 – Série 1: Subcategoria: Desenvolvimento: resultados obtidos .............. 71 Quadro 28 – Série 1: Subcategoria: Conclusão: resultados obtidos ......................... 72. 11.
(12) SUMÁRIO. 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 14. 1 JORNALISMO INVESTIGATIVO ...................................................................... 19 1.1 A HISTÓRIA DO JORNALISMO INVESTIGATIVO ........................................ 20 1.2 O CASO WATERGATTE E A IMPRENSA BRASILEIRA ............................... 21 1.3 JORNALISMO INVESTIGATIVO É UM GÊNERO JORNALÍSTICO? ............ 23 1.4 A GRANDE REPORTAGEM .......................................................................... 26 1.5 O LIVRO-REPORTAGEM COMO ESCAPE DE JORNALISTAS ................... 27 1.6 A INSERÇÃO DA INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA NO DEBATE ESPECIALIZADO: UMA VISÃO PRUDENTE ...................................................... 29 1.7 EM DEFESA DE REVISÕES E ATUALIZAÇÕES .......................................... 32. 2. O HOSPITAL COLÔNIA DE BARBACENA .................................................... 38 2.1 O INÍCIO DAS MUDANÇAS ........................................................................... 41 2.2 O PAPEL DO JORNALISMO NO CONTEXTO DA REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA ........................................................................................................ 45. 3 METODOLOGIA DA PESQUISA...................................................................... 51 3.1 SOBRE O OBJETO DE ESTUDO E AS CATEGORIAS DE ANÁLISE .......... 53 3.2 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS ........................................................ 54 3.2.1 Categoria de análise: Métodos de Investigação ..................................... 55 3.2.1.1 Série 1. Hiram Firmino, 1979 .................................................................... 55 a) Subcategoria: Fontes documentais ......................................................... 55 b) Subcategoria: Relatos de entrevistas/declarações espontâneas............. 57 c) Subcategoria: Registro de imagens ......................................................... 58 d) Subcategoria: Produção de provas durante a investigação .................... 59 4.2.1.2 Série 2. Daniela Arbex, 2011 .................................................................... 59 a) Subcategoria: Fontes documentais ......................................................... 59 b) Subcategoria: Relatos de entrevistas/declarações espontâneas............. 60 c) Subcategoria: Registro de imagens ......................................................... 61 12.
(13) d) Subcategoria: Produção de provas durante a investigação ..................... 62 3.2.2 Categoria de análise: Construção Textual .............................................. 62 3.2.2.1 Série 1. Hiram Firmino, 1979 .................................................................... 62 a) Subcategoria: Introdução ......................................................................... 62 b) Subcategoria: Desenvolvimento .............................................................. 67 c) Subcategoria: Conclusão ......................................................................... 68 3.2.2.1 Série 2. Daniela Arbex, 2011 .................................................................... 69 a) Subcategoria: Introdução ......................................................................... 69 b) Subcategoria: Desenvolvimento .............................................................. 71 c) Subcategoria: Conclusão ......................................................................... 71 3.3 ANÁLISE DOS RESULTADOS ...................................................................... 72. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 78. BIBLIOGRAFIA ................................................................................................... 81. ANEXOS .............................................................................................................. 87 1 Diários Associados Press S/A ........................................................................... 87 2 Registros de contatos por e-mail’s Biblioteca Nacional ..................................... 88 3 Registros de e-mail’s Biblioteca Estadual de Minas Gerais............................... 90 4 Registros de e-mail’s Museu da Loucura .......................................................... 93 5. REPORTAGENS ANALISADAS ...................................................................... 95 5.1 TRIBUNA DE MINAS: TRAGÉDIA SILENCIOSA........................................... 95 5.2 O ESTADO DE MINAS: NOS PORÕES DA LOUCURA ................................ 103 5.3 REVISTA O CRUZEIRO (MAIO/1961): SUCURSAL DO INFERNO .............. 113. 13.
(14) 1 INTRODUÇÃO. Cresci ouvindo que meu tio ia internar minha avó em Barbacena por qualquer coisa que ela fizesse de errado ou que ele julgasse que estivesse errado. Mais tarde descobri que Barbacena era a cidade dos loucos por ter recebido, em 1903, o primeiro Hospital psiquiátrico do país – O Colônia. Guimarães Rosa também retratou a loucura de Barbacena no conto Sorôco, sua mãe e sua filha que veremos mais adiante, além da cidade ser satirizada pelo ator Antônio Carlos Pires que interpretava Juscelino Barbacena na Escolinha do Professor Raimundo – programa de humor da Rede Globo de Televisão. Esses fatores acima, que fizeram parte de minha infância, contribuíram fortemente pelo interesse do tema dessa pesquisa que passa pelo viés da investigação jornalística, enquanto processo fundamental não apenas para iluminar verdades ocultadas1 por interesses escusos, mas também como esforço de se produzir novos conhecimentos. Portanto, fizemos um levantamento de quase cinquenta reportagens sobre o Hospital Colônia desde a fundação, em 1903, até 2011, embora a primeira reportagem que localizamos foi em 1938, para averiguar por meio do processo investigativo, como os jornalistas contribuem com os interesses públicos tornando o próprio Jornalismo numa poderosa força no processo de construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e atualizada. Foi assim, que constatamos, após denúncias na Revista O Cruzeiro e no jornal O Estado de Minas, que a Reforma Psiquiátrica no Brasil tomou rumo. Isso mostra que um jornalismo de qualidade não nega a sua origem: no latim (in: em; vestigare: ir atrás, seguir a pista; vestigium: pegada, marca deixada no chão). De maneira geral, a investigação jornalística é vista apenas como vinculada ao contexto dos conflitos de interesses públicos e privados. De fato, as denúncias jornalísticas cumprem a função de garantir a transparência e, em certa medida, de manter viva a esperança de mudanças, de dias melhores. No entanto, a nosso ver, a. No decorrer do estudo são apresentadas as justificativas para o emprego da expressão “ocultadas” e não “ocultas”. 1. 14.
(15) investigação jornalística também pode, e deve ser resultado do esforço do jornalista pela busca daquilo que é pouco conhecido ou inexplorado, de modo a apontar novos caminhos, novos horizontes. Evidentemente, não seria possível fazer uma incursão em todas as reportagens que alavancaram processos sociais, políticos etc. transformadores revelando a força e a importância do Jornalismo. No decorrer deste estudo apresentamos um bom exemplo disto ao discorrermos sobre a participação da imprensa mineira naquilo que veio a ser chamado de a Reforma Psiquiátrica Brasileira. Portanto, selecionamos duas séries de reportagens premiadas sobre o Hospital Colônia, sendo uma em 1979 publicada no jornal O Estado de Minas; e a outra em 2011 publicada no jornal Tribuna de Minas, para averiguar se houve ou não avanços no modo de se produzir reportagens investigativas. Ambas tiveram sua importância em décadas diferentes, mas o resultado após as análises e metodologias aplicadas sugere que o jornalismo passa por constantes mudanças que precisam ser consideradas ao longo de décadas. A questão é que atualmente existem muitos debates e embates especializados, ou não, em torno das profundas mudanças provocadas por fenômenos como a revolução industrial e tecnológica. No bojo das discussões e apelos se encontram as crises das instituições. Conhecimentos que norteavam grande parte das atividades humanas, hoje são exaustivamente aprofundados e confrontados na esperança de se construir novos saberes ou atualizar saberes antigos que consigam pôr a sociedade em marcha, rumo a um lugar seguro e próspero. Evidentemente, a Mídia está inserida no “olho do furacão” e, por consequência, o Jornalismo que, conforme se procura mostrar neste estudo, atravessa um momento muito preocupante. Predomina no debate especializado uma forte discussão sobre gêneros jornalísticos. Correntes de pensamentos se dividem sustentando as ideias tradicionais ou dando vida a novas formas de se pensar o jornalismo, de certa forma, numa tentativa de fazer “renascer” o verdadeiro Jornalismo, sugerindo, em tese, que é justamente pelo fato da investigação jornalística estar sendo negligenciada – para 15.
(16) alguns mais radicais até mesmo abandonada – que o Jornalismo enfrenta aquilo que parece ser sua pior crise. As facilidades tecnológicas também estão sendo muito discutidas, pois, entende-se que, com exceções, é claro, o repórter que antes penetrava lugares inimagináveis com seu caderninho de anotações para fazer notícia, hoje muitos se movimentam apenas no mundo virtual. Um dos pontos mais nevrálgicos do debate diz respeito ao fato da investigação ser elemento constitutivo, ou não, do Jornalismo. Uma corrente de pensamento entende que não há o que discutir, já que a investigação é da natureza do Jornalismo: toda produção jornalística deve ser fruto de alguma apuração, a despeito da função que cumpre, a qual, inclusive, determina o nível de abrangência e de aprofundamento que a apuração deve ter. Entretanto, outra corrente, mesmo reconhecendo que a investigação é própria do Jornalismo, defende a ideia de que a investigação leva o jornalista a se tornar um intérprete das informações e que, portanto, a reportagem precisa ser enquadrada no gênero interpretativo, e não o meramente informativo. Ainda há quem defenda a ideia de um gênero próprio, o Jornalismo Investigativo. Como bem destaca Dines (1986, p. 90), o leitor da atualidade não apenas quer informações sobre os acontecimentos, mas também garantir sua posição em relação aos mesmos, o que requer o engrandecimento da informação a tal ponto que ela “contenha os seguintes elementos: a dimensão comparada, a remissão ao passado, a interligação com outros fatos, a incorporação do fato a uma tendência e a sua projeção para o futuro”. A nosso ver, as afirmações de Dines (1986) não apenas fazem sentido, como também são suficientes para que a comunidade científica promova um esfriamento do debate em torno dos gêneros, dando lugar ao aquecimento das discussões sobre a práxis jornalística que, ao final de tudo, é o que mais importa. De outro modo, que valor teria a ciência se mantivesse seu foco apenas nos problemas, sem avançar em busca de soluções?. 16.
(17) Certamente um aprofundamento etimológico poderia revelar muito mais sobre a palavra “apuração” que, de maneira geral, é compreendida como “purificar”, “tornar “puro”, e é neste sentido que a apuração jornalística é tomada neste estudo como o processo de purificação da informação, de retirada dos ruídos que podem intervir na comunicação da notícia, o que exige, evidentemente, ações como a checagem de fontes, conhecimento prévio sobre o tema noticiado, aprofundamentos de várias ordens etc. Porém, investigar já nos parece algo que vai além da apuração dos fatos aportando no campo do inexplorado, pouco conhecido ou ocultado. A questão posta na mesa de debates é que a prática jornalística foi se enfraquecendo ou mesmo extinguindo ao longo do tempo e isto coloca o Jornalismo numa situação de urgência. Em síntese, as principais justificativas presentes no debate especializado para a baixa qualidade da maioria de produções jornalísticas são: a) baixo ou nenhum investimento financeiro em reportagens; b) baixa autonomia dos jornalistas decorrentes de variadas imposições das empresas; c) deficiências na formação dos jornalistas; d) subordinação obrigatória ou espontânea dos profissionais ao jornalismo de release. Estas justificativas sinalizam que a investigação jornalística, essência do Jornalismo, não apenas está seriamente comprometida, como também deve ocupar lugar central nas discussões. Diante da problemática exposta, a seguinte questão foi estabelecida como norteadora da pesquisa: que diferenças podem ser assinaladas entre reportagens passadas e atuais, que justifiquem a crise anunciada no Jornalismo, evidenciada, particularmente no debate especializado, pelas mudanças constantes da prática de investigação jornalística? Considera-se que a presente pesquisa se justifica pela urgência de se aprofundar a práxis jornalística com vistas ao fortalecimento do desempenho profissional. A metodologia empregada nesta pesquisa se encontra descrita em capítulo à parte. Entretanto, na expectativa de encontrar respostas ao questionamento colocado, os seguintes objetivos foram traçados: . Objetivo geral:. 17.
(18) Através da comparação de reportagens de diferentes épocas, identificar possíveis mudanças que justifiquem a baixa qualidade das produções jornalísticas atuais. . Objetivos específicos: A partir da análise de duas grandes reportagens sobre um mesmo tema,. publicadas em época distintas, identificar prováveis mudanças no percurso metodológico empregado na investigação; além das mudanças na construção do relato (reportagem) que compartilha os resultados obtidos com a investigação. As séries de reportagens, objetos deste estudo, denunciaram a degradante situação em que vivam os pacientes psiquiátricos de Minas Gerais antes da Reforma Psiquiátrica brasileira. A primeira é da autoria de Hiram Firmino e foi publicada em 1979 pelo jornal O Estado de Minas e a segunda é da autoria de Daniela Arbex e foi publicada em 2011 pelo jornal Tribuna de Minas. Destacamos aqui a reportagem de José Franco em 13 de maio de 1961 na Revisa O Cruzeiro. Essa última publicação (ver em anexo) descortinou novas publicações. Em Santana (2011) encontrou-se uma importante fonte para a pesquisa. Como jornalista, a autora manifesta em sua tese as impressões que tinha no passado (período anterior à construção de sua tese) sobre o jornalismo estar cada vez mais impreciso, questionável e servindo como um mero disseminador de releases. A pesquisa que realizou em campo obrigou-a a mudar os caminhos que havia traçado para a pesquisa. Ao se inserir no cotidiano de quatro jornalistas, a autora foi surpreendida pela maneira como os mesmos conseguiam, ainda que aprisionados por uma série de impedimentos e sujeitos a diversos constrangimentos, fazerem aquilo que ela chama de “jornalismo possível”. No minucioso estudo histórico de Duarte (2009) foi possível resgatar dados e informações sobre a participação da imprensa no processo que culminou na Reforma Psiquiátrica brasileira e, particularmente, a reforma do Hospital Colônia de Barbacena, cidade que ficou conhecida como a “Cidade dos Loucos”, cujas razões serão explicitadas ao longo deste trabalho.. 18.
(19) 1 JORNALISMO INVESTIGATIVO. A expressão “jornalismo investigativo” parece ser contraditória, pois na prática, precisa ir atrás das informações que estão ocultas. Para nos ajudar a compreender esse dilema, Fortes aponta que o termo pode ser muito mais que um simples conceito: O termo “jornalismo investigativo” é muito mais uma marca do que um conceito. É consenso razoável entre os jornalistas que o ofício de se publicar notícia é, por si só, resultado da atividade investigativa que demanda, em graus diferentes, um processo de apuração. (2005, p.14).. A investigação jornalística é, portanto, parte de um todo que vai, desde a reunião de pauta, até a publicação da reportagem. Não dá para separar jornalismo da prática investigativa como apontou Fortes acima. Sequeira acredita que “só no momento em que o repórter passa a utilizar técnicas e estratégias que não fazem parte das rotinas dos trabalhos jornalísticos da atualidade a reportagem se transforma em reportagem investigativa” (2005, p.74). Ainda de acordo com Sequeira, a diferença entre jornalismo investigativo e o tradicional, está exatamente em não informar apenas o factual, ou seja, a investigação precisa ir além dos fatos comuns ao buscar situações que prejudicam a sociedade. “O profissional lançará mão de estratégias que os jornalistas da atualidade não costumam empregar” (2005, p.74). Para Sequeira (2005), o termo “jornalismo investigativo” é muito usado e aceito entre os norte-americanos e profissionais de imprensa. Eles classificam dessa forma as reportagens que, durante as apurações, foram colocadas em práticas ferramentas não utilizadas durante as apurações de reportagens factuais. Para muitos jornalistas no Brasil, o termo é considerado redundante, de acordo com Sequeira (2005), o trabalho do profissional já necessita de certa investigação. A expressão serviria apenas para definir de um modo mais admirável uma reportagem bem elaborada, mais analítica que outras. Sequeira busca ainda mostrar em que contexto o jornalismo investigativo é praticado na atualidade. A pesquisadora buscou como referência os estudos de Carlos 19.
(20) Manuel Chaparro (1997, pp.75-94) que compreendem 50 anos de jornalismo no Brasil, e comprovam discretamente essa prática investigativa em nosso país.. 1.1 A HISTÓRIA DO JORNALISMO INVESTIGATIVO. Várias pesquisas já apontam para o surgimento do jornalismo investigativo, principalmente no conhecido caso Watergate, nos Estados Unidos da América. Vamos dialogar com os teóricos José Luiz Proença, Dirceu Lopes e Cleofe Sequeira nesse subtópico. Os primeiros trabalhos caracterizados como jornalismo investigativo ou investigative journalism, em inglês, deram-se a partir do período pós-Segunda Guerra Mundial, produzidos a partir de 1955 por jornalistas norte-americanos. Conforme Sequeira (2005), o jornalismo investigativo começa a se transformar na época da Ditadura Militar (1964), quando os organizadores do Prêmio Pulitzer, sob os auspícios da Universidade de Columbia, premiaram o Philadelphia Bulletin pela reportagem investigativa que denunciou a corrupção policial na cidade. Para os teóricos Bill Kovak e Tom Rosenstiel, citado por Sequeira: “foi dessa forma que o establishment jornalístico norte-americano outorgou, pela primeira vez, o seu aval a um trabalho investigativo. Com esse episódio, o jornalismo estadunidense, especialmente o praticado em Washington D.C., começou a mudar” (SEQUEIRA, 2005, p.28). Dirceu Fernandes Lopes (2003), aponta que o jornalismo investigativo se propõe a recuperar os fatos de interesse público, expor injustiças, divulgar o que os poderes públicos querem esconder, promover mudanças, desvendar atos ilícitos, mostrar como trabalham esses órgãos, corroborar com os eleitores sobre os políticos, suas ambições e, principalmente, como pretendem atuar. O jornalismo investigativo deve tentar definir e denunciar o que seja operacionalmente ou conceitualmente falso. O jornalismo de investigação tem objetivos concretos que transcendem a informação diária, cuja produção fica velha em 24 horas” (LOPES, 2003, p. 14).. 20.
(21) 1.2 O CASO WATERGATTE E A IMPRENSA BRASILEIRA. Outra reportagem investigativa de grande repercussão foi veiculada na imprensa dos Estados Unidos em 18 de junho de 1972. O diário The Washington Post publicou uma reportagem que desvendou um plano de espionagem que o comitê para a reeleição do presidente Richard Nixon tentara implantar no prédio Watergate, sede do Partido Democrata em Washington. A investigação dos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, ganhou força frente à opinião pública e culminou na renúncia do presidente em 1974. Para Sequeira, “o início do caso Watergate, cuja série de matérias começou a ser publicada em 1972 e culminou com a renúncia do ex-presidente americano Richard Nixon, em 1974, sendo, até hoje, considerada um paradigma no jornalismo investigativo” (SEQUEIRA, 2005, p.19). Cleofe Sequeira destaca que, na mesma década, começa a surgir algo semelhante na imprensa brasileira: “em meados dos anos 1970, quando a censura imposta pela ditadura militar já havia deixado as redações depois de uma longa e tenebrosa temporada de arbítrio, era possível encontrar nos jornais reportagens denunciando os atos do governo” (SEQUEIRA, 2005, p.18.). Em 1976, o jornal O Estado de S. Paulo publica então uma série de três reportagens ousadas, que denunciam a vida de privilégios e regalias de ministros e altos funcionários da corte instalada em Brasília e capitais federais. “Assim vivem os nossos superfuncionários”, publicadas de 1 a 4 de agosto de 1976, deram à equipe coordenada pelo jornalista Ricardo Kotscho o Prêmio Esso daquele ano, inaugurando o jornalismo investigativo no Brasil, que se converte, assim como nos Estados Unidos, em representante e porta-voz dos interesses dos cidadãos. Anos mais tarde, depois da suspensão da censura, de acordo com Sequeira (2005), em fevereiro de 1979, teve grande repercussão no Brasil. O jornalista Antônio Carlos Fon, da revista Veja, denunciou as práticas de torturas do governo Geisel com a reportagem “Descendo os porões”. O tema era proibido de ser comentado no país, até então. 21.
(22) Gabriel García Márquez, jornalista colombiano, defendeu em 1966 na 52º Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa, em Los Angeles, que o jornalista precisa fazer jus a profissão, ou seja, investigar. “A investigação não é uma especialidade do ofício, sendo que todo jornalismo deve ser investigativo por definição (MÁRQUEZ apud SEQUEIRA, 2005, p.15) e, que a investigação é uma especialidade do ofício. De qualquer forma, é chamado de investigativo o jornalismo que trata de temas relacionados à prática de corrupção, tortura, pedofilia, narcotráfico, terrorismo e toda e qualquer prática que envolva atividade ilícita e que aborde questões de interesse público. Sendo assim, o jornalismo investigativo age de forma a informar e denunciar práticas ilegais, como afirma Quesada (187, p. 85), citado por Sandra Moura, (2007, p. 15): “O objetivo geral que não deve elucidar nunca o jornalismo investigativo lhe obriga a não se limitar simplesmente a informar sobre situações ilegais, sendo que deve haver sempre implícita vontade de denunciar essas situações”. Para Sequeira (2005), as matérias veiculadas em revistas, jornais e outros veículos de comunicação são, em geral, produzidas a partir de atividade investigativa profissional. Isso não significa que todos os textos são das equipes de redações, pois muitas dessas matérias já chegam finalizadas às editorias por meio de profissionais ligados a órgãos públicos e empresas privadas que enviam materiais no formato de pressreleases. Alberto Dines (1986), considera que o jornalismo investigativo foi abandonado de forma gradativa pela imprensa brasileira, a partir do momento em que as grandes empresas midiáticas adotaram a linha “empresarial”, que consiste em informar sem comprometer-se. Segundo Alberto Dines (1986, p. 91), essa atitude acaba sendo uma herança do regime autoritário pós ditadura de 1964, pois esta, segundo o pesquisador, trouxe a imprensa brasileira para a prática da “nota oficial”, ao invés do jornalista ir atrás de suas informações.. 22.
(23) 1.3 JORNALISMO INVESTIGATIVO É UM GÊNERO JORNALÍSTICO?. Nos estudos sobre categorias e gêneros do jornalismo – que vamos retomar mais adiante, muitos autores quase não consideram ou, até mesmo, ignoram o jornalismo investigativo como categoria. Sequeira (2005) se remete à pesquisa de José Marques de Melo que considera o jornalismo em duas categorias separando, assim, as versões dos fatos, classificando-as em opinativa e informativa Na classificação de Melo, o jornalismo investigativo agrega os gêneros notícia, nota, entrevista e reportagem na categoria informativa. Já o jornalismo opinativo são os editoriais, comentários, artigos, colunas, resenhas, caricaturas, cartas e crônicas. Refletindo-se sobre as colocações de José Marques de Melo, pode-se concluir que, embora suas análises tenham, segundo afirmação do próprio autor, como referência a práxis jornalística, o jornalismo investigativo não foi contemplado em sua classificação (SEQUEIRA, 2005, p. 19).. Alberto Dines é um dos poucos jornalistas a reconhecer o jornalismo investigativo como categoria. Dines publicou na obra O papel do jornal (1986) as modificações ocorridas nos textos jornalísticos, publicados no Jornal do Brasil em uma década (1960-1970). Segundo Dines, as empresas de comoção assumiram um viés que as caracteriza como sendo indústria de informações e se tornam obrigadas a expandir as informações oferecidas aos leitores que passam a ser mais exigente a cada dia. Para o autor, a diferença do trabalho investigativo para o interpretativo está na motivação. O jornalismo investigativo requer maior tempo de apuramento, dedicação do repórter e cuidado. O profissional precisa ir buscar respostas para sua pauta e ir atrás de suas fontes, o que de certa forma, não acontece completamente no jornalismo informativo, que incide basicamente em informar sem necessariamente se comprometer e investigar. O repórter e todo processo jornalístico acomodaram-se e deixaram de investigar. O jornalismo brasileiro como alternativa passou a viver de eventos e levantamentos. A única abertura que nos permitimos foram as novas frentes de notícias, logo corrompidas pelo sistema de releases (DINES, 1986, p. 91).. 23.
(24) Portanto, podemos dizer que o jornalismo investigativo se diferencia pelas técnicas e processos de apuração utilizados, denominados de “metodologia de trabalho”. Para Quesada, citado por Sequeira (2005, p.74) uma das diferenças principais do JI para o jornalismo informativo se depara no objetivo específico da primeira categoria, que explica os acontecimentos e aponta as circunstâncias que confundem a sociedade em busca da “verdade jornalística”. Assim, o jornalista fará uso de algumas ferramentas não utilizadas por profissionais que se atêm a informar o factual. O jornalismo investigativo tem forma peculiar, onde são coletados e apresentados dados, documentos, e gráficos incomuns no jornalismo factual. Onde o repórter garimpa as informações e batalha pelas provas. O simples fato de um texto jornalístico conter cifras, estatísticas, porcentagens econômicas, documentação e declarações não o define como jornalismo investigativo, já que todas essas informações podem ter sido obtidas de uma fonte oficial, extraída de documentação ou entregue em forma de press-release.“ Só no momento em que o repórter passa a utilizar técnicas e estratégias que não fazem parte das rotinas dos trabalhos jornalísticos de atualidade a reportagem se transforma em reportagem investigativa (SEQUEIRA, 2005, p. 74).. Para se estabelecer uma opinião a respeito do jornalismo investigativo como gênero, retomamos os pontos destacados por Santoro e Lopes que consideram alguns aspectos importantes na atividade jornalística. Segundo eles, o gênero jornalismo investigativo define-se basicamente por possuir três características básicas que precisam ser realizadas por jornalistas superando os obstáculos e tentativas de impedir que a informação chegue ao público por parte de autoridades. 1. que a investigação seja resultado do trabalho do jornalista, não informação elaborada por outras áreas. Por exemplo: a polícia; 2. que o objetivo da investigação seja razoavelmente importante para grande parte da população, não, por exemplo, para os interesses de determinados setores; 3. que os investigados tentem esconder esses dados do público (LOPES, 2003, p. 12).. Para Lopes, colocar em prática o jornalismo investigativo é: “Não se limitar a ser meramente intermediária entre os canais oficiais e a opinião pública, reproduzindo releases ou comunicados” (LOPES, 2003, p.10). Para o pesquisador, os dois pontos que conduzem o jornalismo investigativo são a busca pela verdade dos fatos e o ajuntamento das frações da realidade para estabelecer relações entre eles: “Em vista 24.
(25) disso, jornalismo investigativo pode ser definido como a busca da verdade oculta ou mesmo como uma reportagem em profundidade” (LOPES, 2003, p. 12). Segundo o autor, o debate entre o jornalismo convencional e o jornalismo investigativo está na essência, mas também na arte da criação da notícia. O jornalista tradicional é o transmissor da notícia, no sentido de ser o criador do texto jornalístico que informa os fatos da atualidade a partir de uma linguagem e de uma estrutura precisa. Ao contrário, o jornalista investigador é virtualmente o criador da informação ou o investigador dessa mesma informação (LOPES, 2003, p. 15).. Essas práticas jornalísticas que são qualidades do trabalho de investigação, não fazem parte dos modelos da construção da notícia nas empresas de comunicação do mundo contemporâneo, pois trata-se de um procedimento cuidadoso que exige maior tempo e planejamento para o repórter fazer a sua investigação se atentando pelos detalhes. Essa metodologia empregada no jornalismo investigativo questiona as causas e os efeitos dos fatos. A ideia é esclarecer e estabelecer uma relação entre eles. Torna-se de extrema importância para o repórter, o estilo de apuração e denúncia, onde será necessário apresentar ou ouvir todos os envolvidos no caso. Dessa forma, os prazos pré-definidos, prática comum nos veículos diários e jornais, acaba por dificultar os processos de investigação e a realização das reportagens investigativas. Segundo aponta Sequeira, as reportagens investigativas são raras no jornalismo atual. “Pode-se concluir que o repórter investigativo, que precisa de tempo para apurar suas histórias, suas fontes de informação e checar documentos, é uma peça destoante da engrenagem” (SEQUEIRA, 2005, p. 41). O jornalismo atual é caracterizado pela instantaneidade e rapidez na divulgação dos fatos e acontecimentos jornalísticos. Os consumidores de notícias são exigentes nas apurações dos fatos. O furo da notícia por algum jornalista e a divulgação dela são as credenciais dos veículos, mas nem sempre, o jornalista utiliza as práticas indispensáveis à atividade jornalística que são investigação e checagem das informações divulgadas.. 25.
(26) Ainda segundo Sequeira, os jornalistas têm de desenvolver estratégias específicas próprias, muitas vezes, e nem tão pouco rígidas. “Uma das estratégias mais comuns nas rotinas de trabalho do repórter investigativo é o uso da infiltração do profissional no centro dos acontecimentos” (SEQUEIRA, 2005, p. 75). Por abordar assuntos de interesse público, o JI tem questões éticas balizadoras nos caminhos da investigação das informações. Sequeira afirma: “as reportagens investigativas estão na contramão do fluxo de informação, quer pela apuração entre as fontes utilizadas, quer pelo tempo de que o repórter necessita para concluir seu trabalho” (SEQUEIRA, 2005, p. 38). 1.4 A GRANDE REPORTAGEM. A imprensa do século XXI, encaminha todos os dias, ao seu público, uma espécie jornalismo com ênfase apenas na exposição dos acontecimentos diários. Dentro das redações, os profissionais dedicados ao jornalismo de investigação parecem estar extintos. O intuito maior é dar a notícia em primeira mão, independente, se a informação está completa ou não. Claro, que há regras, mas na maioria das vezes falta aos repórteres o tempo necessário para efetuar uma reportagem em profundidade. Aqui, cabe, então, uma pergunta. Será que a imprensa está preocupada apenas em passar a informação porque o público precisa saber? Ou a imprensa não está preocupada com que as pessoas analisem, pensem e questionem a versão dos fatos para formar, assim, a sua própria opinião a respeito do assunto noticiado? Talvez, os dois questionamentos acima, são as consequências do ritmo industrial que invadiu, sem pedir licença, as redações de nosso tempo com um jornalismo midiático. Mesmo sendo online, os jornalistas querem o “furo”, o ineditismo para publicar antes de qualquer veículo. Nesse sentido, a inquietação atualmente é muito maior com a agilidade da publicação do que com a característica e quantidade de informações que uma matéria pode trazer ao leitor. 26.
(27) O método de fazer jornalismo já vem “pronto”, ou seja, o profissional aprende na academia, a fazer uma passagem, olhar para a câmera, produzir um texto enxuto para um podcast ou programa de rádio, mais enxuto ainda se for para a Televisão, ou até mesmo, consegue passar a informação com um bom texto no impresso usando recursos gramaticais e literários para não ficar apenas no lead e responder as cinco perguntas básicas: o quê? Quando? Onde? Como? E o porquê? Aconteceu tal coisa. Talvez determinado assunto merecia um destaque maior, além de uma simples nota no site. As preocupações com as questões sociais e com grupos menos favorecidos e, que, raramente conseguem um espaço nos principais veículos de comunicação, precisam ser o motivo maior das pessoas que escolheram a profissão. Reportar uma história não é uma tarefa fácil; sempre alguém, principalmente os mais poderosos querem levar vantagem.. 1.5 O LIVRO-REPORTAGEM COMO ESCAPE DE JORNALISTAS. Euclides da Cunha, autor do livro Os sertões, foi repórter do jornal O estado de São Paulo, em 1902. Antes de “Os Sertões” ser publicado como livro, foi publicado em capítulos no periódico. Essa é a principal argumentação de muitos para que “Os Sertões” seja considerado como o primeiro livro-reportagem publicado no Brasil. O Jornal da Tarde e a Revista Realidade, dois veículos lançados, em 1966, no Brasil, segundo Edivaldo Pereira Lima (1993), podem ter sidos influenciados pelo New Journalism. Realidade vai além do factual, a proposta era sair do dia-a-dia para a eternidade. As abordagens não estavam isoladas do imediatismo, mas sim com ocasião, a totalidade onde esses acontecimentos se dão (LIMA, 1993, p.170). Já o Jornal da Tarde se dava o trabalho de reportar a São Paulo como arena principal de cobertura jornalística. Lima aponta que esse padrão pré-estabelecido passa por algumas alterações no decorrer dos anos, mas impõe duas tendências: a capacidade criadora do texto literário e a procura da interpretação (LIMA, 1993, p. 177).. 27.
(28) Não podemos esquecer que na época do lançamento das duas publicações, o país respirava a ditadura militar, portanto, não faltava assuntos polêmicos sobre política, mas o que faltava mesmo era a permissão para a publicação nos periódicos. Nesse viés, os diversos meios de comunicação procuravam abordar temas de cunho social para não serem censurados nas redações. Segundo Edvaldo Pereira Lima: O livro-reportagem cumpre um relevante papel, preenchendo vazios deixados pelo jornal, pela revista, pelas emissoras de rádio, pelos noticiários de televisão. Mais do que isso, avança para o aprofundamento do conhecimento do nosso tempo, eliminando, parcialmente que seja, o aspecto efêmero da mensagem da atualidade praticada pelos canais cotidianos da informação jornalística. (LIMA, 1993, p.16). Lima aponta uma realidade ao afirmar a superficialidade que muitos jornais diários tratam a notícia. Nesse caso, o livro-reportagem cumpre um papel fundamental preenchendo as lacunas deixadas pelos jornais diários e revistas. Só para se ter uma ideia dessa realidade, em 8 de maio de 2005, a coluna Ombudsman do jornal Folha de São Paulo, destacou como uma matéria tratada por cima, sem aprofundamento, contamina a reportagem policial. ...os textos ainda são predominantemente superficiais e descontextualizados. É como se cobríssemos o crime pelo crime, sem atenção para os fenômenos que o cercam. (...) Os jornais não podem continuar cobrindo apenas o factual e a ação da polícia. As reportagens são feitas nas delegacias e ignoram os personagens, as vítimas, as comunidades, as famílias, o ambiente social em que a violência e a criminalidade prosperam. As reportagens têm aspas, mas faltam histórias.. Quando jornalistas fazem uso do livro-reportagem como recurso para publicar uma obra independente ou para ampliar a reportagem, surge também a necessidade de empreender as técnicas libertárias que o jornalismo literário oferece. Segundo Lima, o gênero foi amadurecido nos anos 20 unindo o conto jornalístico aos recursos literários. Lima busca embasar seus conceitos em, pelo menos, dois autores que definem as qualidades que uma reportagem precisa oferecer: Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari apontam a “predominância da forma narrativa”, a “humanização do relato”, o “texto de natureza impressionista” e a “objetividade dos fatos narrados”, frisando: “Conforme o assunto ou o objeto em torno do qual gira a reportagem, algumas dessas características poderão. 28.
(29) aparecer com maior destaque. Mas será sempre necessário que a narrativa esteja presente numa reportagem. Ou não será reportagem”. (1993, p. 28).. O fato da reportagem ser uma notícia ampliada, pode-se acordar que o livroreportagem, nada mais é que, um meio de comunicação impressa sem periodicidade e, que, se apresenta com reportagens superiores aquelas tratadas na cotidianidade das redações jornalísticas. (LIMA, 1993, p. 29). Para ampliar um pouco mais sobre esse tópico, O e-book coletivo e colaborativo, Práticas Jornalísticas na Contemporaneidade2, reúne várias pesquisas que podem nos ajudar a pensar sobre como fazer jornalismo na contemporaneidade. O estudo foi dividido em cinco capítulos, a saber: Formas e Narrativas Estudos; Distribuição e Circulação; Modelos de Organização; Formas de Consumo; Perfil do Jornalista e Modos de Produção.. 1.6 A INSERÇÃO DA INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA NO DEBATE ESPECIALIZADO: UMA VISÃO PRUDENTE. Em Melo e Assis (2016) encontramos uma abordagem mais conservadora que expressa uma grande preocupação com o futuro do Jornalismo. A nosso ver, os autores não se encerram em posições rígidas, mas mantêm-se fundamentalmente aberto a atualizações, desde que estas sejam resultado de análises coerentes, realistas e, essencialmente, produtivas. Entende-se que os autores almejam um horizonte seguro que oriente a reflexão e a prática jornalística. Assim sendo, este tópico se dedica à exposição do suporte para nossas impressões sobre os posicionamentos de Melo e Assis (2016): Os autores definem o campo da comunicação como um campo constituído por conjuntos processuais, sendo que um deles é a comunicação massiva que, por sua. 2. Produzido por alunos durante o curso de mestrado em comunicação da Universidade Metodista de São Paulo produzido na disciplina Práticas Jornalísticas contemporâneas, ministrada pela professora Marli dos Santos. Trata-se de disciplina vinculada à linha de pesquisa Comunicação Midiática, processos e práticas socioculturais. Disponível em: https://jorcontemporaneo.atavist.com/praticasjornalisticas> Acesso em 25/04/2017.. 29.
(30) vez, se organiza em modalidades, dentre as quais se encontra a comunicação periodística (jornal/revista). Assim sendo, propõem que o trabalho jornalístico seja pensado a partir de pelo menos duas subdivisões ou estágios complementares: “gêneros” e “formatos” (Quadro 1): Quadro 1 – Modelo tradicional de classificação dos gêneros jornalísticos Gênero. Função. Formato. Informativo. Vigilância social. Nota; Notícia; Reportagem; Entrevista.. Opinativo. Fórum de ideias. Editorial; Comentário; Artigo; Resenha; Coluna; Caricatura; Carta; Crônica.. Interpretativo. Papel educativo, esclarecedor. Análise; Perfil; Enquete; Cronologia; Dossiê.. Diversional. Distração, lazer. História de interesse humano; História colorida.. Utilitário. Auxílio nas tomadas de decisões cotidianas. Indicador; Cotação; Roteiro; Serviço.. Fonte: Elaboração do autor com base em Melo e Assis (2016).. Para os autores, as manifestações textuais não são suficientes para, por si só, nivelar o teor do jornalismo, pois, embora sejam muito importantes, o exame de uma atividade profissional está também atrelado a outros elementos como: técnicas empregadas, modos próprios de fazer jornalismo e ambientes culturais e ideológicos. A classificação das manifestações jornalísticas, no tempo e no espaço, vem sendo objeto de instigante debate entre teóricos, desde que o Jornalismo se converteu em objeto de reflexão acadêmica. Há os que advogam critérios fundamentados na observação empírico, ou seja, ancorados nas práticas cotidianas das empresas. Outros constroem esquemas baseados em variáveis exógenas, subordinadas à natureza das expressões linguísticas correntes na sociedade. E há até mesmo os que endossam categorias pósmodernas, caracterizadas pelo hibridismo das formas e pela contaminação dos fatos (MELO, 2009 apud MELO; ASSIS, 2016, p. 41). Os autores criticam as abordagens que tratam os gêneros e formatos jornalísticos com base tão somente nas particularidades linguísticas e/ou textuais das matérias que a Mídia circula, pois estas desconsideram os universos culturais ou ideológicos: [...] nosso pressuposto é o de que a compreensão dos gêneros jornalísticos e de suas extensões só tem sentido se inseri-los no ambiente que lhes é peculiar, ou seja, os suportes metodológicos e as engrenagens produtivas. 30.
(31) que permitem o fluxo de mensagens concebidas, produzidas e difundidas pela corporação jornalística, o que inclui evidentemente os mecanismos de interação com o público-alvo – leitores, radiouvintes, telespectadores, internautas etc. (MELO; ASSIS, 2016, p. 42). E ainda, consideram que os avanços no debate permanecem represados pela insistência em polêmicas conceituais que não são iluminadas pela prática jornalística que constrói o dia a dia das redações. Para fundamentar seus posicionamentos, os autores enfocam a teoria funcionalista e a teoria da crítica. A teoria funcionalista mostra que os meios de comunicação e, evidentemente, o jornalismo, naturalmente vão se organizando à medida das demandas sociais que são geradas pelos diversos desempenhos dos atores sociais. Da teoria da crítica os autores se valem do conceito de estereotipação para justificar a importância de formas rígidas e fixas (gêneros e formatos jornalísticos) para se definir o modelo de atitude do espectador e determinar a percepção que ele tem do teor da comunicação. Posicionando-se em favor da “forma” como meio para se entender as possibilidades e os limites das unidades que constituem os gêneros, os autores consideram: “O formato, portanto, é a unidade substancial ou material, com determinada configuração e certas características peculiares, que distinguem os itens da mesma natureza” (MELO; ASSIS, 2016, p. 48). Nota-se que na visão de Melo e Assis (2016) a reportagem, objeto deste estudo, se enquadra no conceito de gênero informativo, desconsiderando a possibilidade de haver a categoria Jornalismo Investigativo, defendida por outros autores, o que reafirma o princípio de que a investigação é da natureza do Jornalismo. Não se pode ignorar que, ao submeter a reportagem a apenas uma “espécie” dentro do gênero informativo, os autores desconsideram argumentos consistentes em favor da elevação da investigação jornalística ao nível de um gênero próprio, incorrendo no risco de impedir que a investigação jornalística assuma novos contornos no debate. 31.
(32) Em suma, se, de fato, a investigação é a essência de toda forma de Jornalismo, como, então, podemos entender o jornalismo vulgarmente conhecido como jornalismo fastfood?. 1.7 EM DEFESA DE REVISÕES E ATUALIZAÇÕES. Este tópico apresenta uma síntese panorâmica do debate especializado em relação ao tema deste estudo (investigação jornalística). Notar-se-á o esforço de vários autores em lidar com a crise instalada no Jornalismo. Consideramos esta leitura importante, já que existe um consenso de que a própria evolução social cria novas demandas e estas impactam diretamente o desempenho do Jornalismo. Para alguns todo Jornalismo é, em princípio, investigativo, pois, de outro modo não seria Jornalismo. No entanto, há quem defenda que a questão não deve ser tratada com tal maniqueísmo, já que muitas informações de interesse público podem ser noticiadas sem muito esforço como, por exemplo, a cotação diária do dólar ou algo semelhante, enquanto revelar à sociedade informações que pessoas ou instituições se esforçam para manter ocultas costuma exigir do jornalista um esforço específico, uma apuração diferenciada. Lopes e Proença (2003) evocam o sentido da investigação jornalística para sustentar a ideia de gênero investigativo: Há no amago da palavra investigar o ocultado (encoberto, sonegado, escondido, dissimulado, disfarçado) e não o oculto (misterioso, inexplorado, desconhecido). Fruto da vontade de esconder, de resistir a ser revelado, consequentemente, com uma cara de ilegalidade. Portanto, investigar também tem que ser um ato de vontade de descobrir verdades, de revelar, e exige diferenciais (LOPES; PROENÇA, 2003, p. 196).. Para os autores, há que se ter cuidado para não generalizar a expressão “investigativo”, na medida em que nem todas as matérias são investigativas: “É preciso distinguir a chamada matéria bem apurada da reportagem investigativa. Esta tem características bem específicas que podem ser identificadas nitidamente” (LOPES; PROENÇA, 2003, p. 195).. 32.
(33) Lopes e Proença (2003) definem o jornalismo investigativo como aquele que busca uma verdade oculta ou como uma reportagem em profundidade, enquanto Lage (2009) pondera que, ao contar os fatos como eles são, o jornalismo investigativo cumpre o papel de guardião da sociedade: [...] por reconstruir acontecimentos importantes, expor injustiças e, principalmente mostrar os meandros da corrupção no setor público – que os poderes estatais querem esconder dos cidadãos –, o jornalismo investigativo, com sua face fiscalizadora, tornou-se conhecido da sociedade (SEQUEIRA, 2005, p. 61).. Para Sodré e Ferrari (1986), diferente da notícia, a reportagem tem como um de seus principais elementos característicos o detalhamento e a contextualização daquilo que já foi anunciado. Neste sentido, pode-se considerar que a reportagem visa o resgate da história dos fatos presentes, fatos estes frequentemente já noticiados. Fator determinante para a circulação de uma notícia é o tempo: o fato deve ser recente e o anúncio do fato, imediato. Este é um dos principais elementos de distinção entre a notícia e outras modalidades de informações. Aqui, talvez, um aspecto importante ao diferençar notícia de reportagem: a questão da atualidade. Embora a reportagem não prescinda de atualidade, esta não terá o mesmo caráter imediato que determina a notícia, na medida em que a função do texto é diversa: a reportagem oferece detalhamento e contextualização àquilo que já foi anunciado, mesmo que o seu teor seja eminentemente informativo. (SODRÉ e FERRARI, 1986, p.18).. O trabalho jornalístico abre espaço para repórteres especiais que são aqueles que normalmente se destinam a pautas especiais e que nunca, ou raramente, fazem jornalismo diário. Do trabalho dos repórteres especiais surgem grandes reportagens mais enraizadas e que, quase sempre, estimulam a opinião pública: A reportagem visa atender a necessidade de ampliar os fatos para uma dimensão contextual e colocar para o receptor uma compreensão de maior alcance, objetivo melhor atingido na prática da grande-reportagem, que possibilita um mergulho de fôlego nos fatos e em seu contexto e oferece ao seu autor uma dose ponderável de liberdade para superar os padrões e fórmulas convencionais do tratamento da notícia (LAGE, 2001, p. 31).. Lage (2001) considera três naturezas de reportagens: . Investigativa: aquela que consiste na apuração de um fato que leva a outros, que serão revelados ao longo da investigação.. 33.
(34) . Interpretativa: aquela que se origina de um fato que será observado pelo critério metodológico a partir da ciência.. . Novo jornalismo: que utiliza a literatura para construir as situações e histórias que serão reveladas ao público.. Na notícia, o elemento central são os fatos, as informações e as fontes envolvidas. Nela, a presença do repórter responsável costuma ser discreta, pois, mesmo tendo sido feita a apuração dos fatos, há sempre o risco de novas revelações que podem vir a confrontar a notícia. Assim sendo, é prudente que o jornalista mantenha uma postura neutra, para não incorrer no risco de compartilhar interpretações equivocadas. Na reportagem, o posicionamento do repórter é outro, pois, pressupõem-se que houve uma investigação aprofundada dos fatos, bem como um estudo sobre os mesmos, que dão a ele subsídios para interpretações: Para as notícias, as pautas são apenas indicações de fatos programados, da continuação (suíte) de eventos já ocorridos e dos quais se espera desdobramentos. [...] Reportagens supõem outro nível de planejamento. Os assuntos estão sempre disponíveis (a informação é a matéria-prima abundante, como o ar, e não carente, como o petróleo) e podem ou não ser atualizados (ou tornados oportunos) por um acontecimento. (LAGE, 2005, p. 55) (grifo nosso).. Em Lage (2005) encontramos a ideia de reportagem como aquela que apura abundância de informações sobre assuntos noticiados ou em discussão. Quando o volume de informações a serem compartilhadas resultam num texto muito longo, surgem as séries de reportagens, também chamadas de grandes reportagens. São publicações fracionadas e quase sempre diárias. A maioria das reportagens nascem justamente de uma observação direta do repórter e de seu interesse pelo que acontece na sociedade. “O que se consegue com a técnica de observação direta, nada mais é do que se perguntar constantemente o ‘por que das coisas’” (LOPES, 2003, p. 16). Nascimento (2010) considera que a maioria das matérias publicadas atualmente não são frutos de investigações e que, portanto, o jornalismo investigativo 34.
(35) não somente existe, enquanto gênero, como se diferencia do jornalismo diário e de outras formas comuns de se fazer jornalismo. O autor destaca que muitas reportagens se ancoram em investigações de outras reportagens, ao que ela chama de “jornalismo sobre investigações”, alegando que “muitas reportagens vendidas ao público como fruto de jornalismo investigativo – denúncias, flagrantes de corrupção, escândalos políticos – não passaram nem perto de uma investigação” (NASCIMENTO, 2010, p. 21). Sequeira (2005) defende a ideia de jornalismo investigativo argumentando que esta categoria já é consolidada e amplamente aceita pelos jornalistas norteamericanos. Para a autora, em tempos de “jornalismo fastfood”, o leitor escolhe a editora e a notícia que deseja ler nos portais de notícias na internet. O simples fato de um texto jornalístico conter cifras, estatísticas, porcentagens econômicas, documentação e declarações não o define como jornalismo investigativo, já que todas essas informações podem ter sido obtidas de uma fonte oficial, extraída de documentação ou entregue em forma de press-release. Só no momento em que o repórter passa a utilizar técnicas e estratégias que não fazem parte das rotinas dos trabalhos jornalísticos de atualidade a reportagem se transforma em reportagem investigativa (SEQUEIRA, 2005, p. 74).. Dines (2016) considera que o que se lê, ouve e vê diariamente na imprensa não é jornalismo complementando: Jornalismo hifenado, interpretativo, opinativo ou meta-qualquer-coisa, ou é um hífen ou uma cláusula limitativa. Diante de uma premissa tão drástica, qualquer Jornalismo hifenado mais confunde do que esclarece. É uma falsa questão. O que sobra da mídia diária é o que o olho do público vai buscar nas entrelinhas. Só se criam caçadores da verdade com treinamento intensivo – com fórmulas – e dedicação -intensivas. Mas o que estamos criando é um público dispersivo, apático, incapaz de reagir ou questionar. Estamos produzindo midiotas, negligentes e distraídos – um público disperso (DINES, 2016, p. 1).. Para o autor, o profissional precisa ir buscar respostas para sua pauta e ir atrás de suas fontes, o que de certa forma, não acontece completamente no jornalismo informativo, que incide basicamente em informar, sem necessariamente se comprometer e investigar: O repórter e todo processo jornalístico acomodaram-se e deixaram de investigar. O jornalismo brasileiro como alternativa passou a viver de eventos e levantamentos. A única abertura que nos permitimos foram as novas frentes de notícias, logo corrompidas pelo sistema de releases (DINES, 1986, p. 91).. 35.
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Tal será possível através do fornecimento de evidências de que a relação entre educação inclusiva e inclusão social é pertinente para a qualidade dos recursos de