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A construção da identidade do Presidente Lula

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS. A Construção da identidade do Presidente Lula. Marcus Petrônio Fernandes Iglésias. Recife 2009.

(2) UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS. A Construção da identidade do Presidente Lula. Marcus Petrônio Fernandes Iglésias. Dissertação apresentada ao programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco como requisito parcial à obtenção do Grau de Mestre em Lingüística. Orientador: Profº Drº Marlos de Barros Pessoa.

(3) Iglésias, Marcus Petrônio Fernandes A construção da identidade do Presidente Lula / Marcus Petrônio Fernandes. – Recife: O Autor, 2009. 102 folhas Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Letras, 2009. Inclui bibliografia. 1. Linguística. 2. Análise do discurso. 3. Ideologia 4. Identidade. 5. Intextualidade. I. Título. 801. CDU (2.ed.). 410. CDD (22.ed.). UFPE CAC2009-22.

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(5) RESUMO:. O discurso político tem um caráter, eminentemente argumentativo. Nesta pesquisa, analisamos o discurso do Presidente Lula em dois momentos distintos: o primeiro, em novembro de 2005, no auge da crise política que abalou a credibilidade do governo do Presidente; o outro momento deu-se uma semana antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2006. Os dois discursos foram veiculados pela Rede Cultura, no Programa Roda Viva. Analisamos como o discurso do Presidente, nas duas entrevistas coletivas, criou uma nova identidade, completamente distinta daquela que tinha sido tecida pela grande mídia e setores da oposição, que perceberam, na crise de 2005, uma oportunidade para retirar o Presidente do poder. A análise do corpus foi feita, a partir dos postulados da Análise Crítica do Discurso, levando-se em conta a ideologia, intertextualidade e argumentação. A pesquisa dialogará com a História, as Ciências Políticas e as Ciências que estudam as mídias. A Pragmática e a Lingüística textual, também, foram utilizadas, com o intuito de desvelar as interações entre o Presidente e os entrevistadores. É importante compreender o funcionamento de um discurso proferido pelo em um cenário cujos interlocutores, em muitos momentos, não tinham uma relação amistosa em relação ao Presidente da República. Havia, nas duas entrevistas coletivas uma forte tensão, seja em função dos escândalos, que assolaram a o centro do poder político, seja nos momentos que antecederam o segundo turno das eleições presidenciais. O Presidente necessitou ativar diversas competências: lingüísticas, comunicativas e enciclopédicas, a fim de agir sobre o outro, no caso, os telespectadores do Programa Roda Viva. Palavras-chave: interação, ideologia, discurso, intertextualidade e argumentação..

(6) ABSTRACT:. The political discourse has, most of all, an argumentative attribute. In this research we analyzed the political discourse of President Lula in two distinctive moments. The first one is in November 2005 during the peak of a political crisis that affected the credibility of the president’s government. The second moment is the one, which happened a week before the second round of presidential elections in 2006. Both discourses were broadcasted via the TV program Roda Viva of Rede Cultura. Our analysis, in both interviews, focused on how the president’s discourse created a new identity entirely distinct from the image fashioned by the media and the government’s opposition, who perceived in the crisis an opportunity to remove President Lula from the government. The corpus analysis was based on the postulates of the Critical Analysis of Discourse, taking into consideration the ideology, intertextuality, and the argumentation. The research allows dialogism with other academic disciplines such as History and Political Science, as well as disciplines which approach the media. It was also utilized in this research the Pragmatic and Textual Linguistics with the intention to reveal the interactions between President Lula and the interviewers. It is significant to understand how the discourse uttered by Presidente Luís Inácio Lula da Silva works, in different moments, within a scenario in which the interlocutors did not have an amicable relationship with the president. There was in both interviews a strong tension as a result of scandals that reached the core of political power and prior to the second round of presidential elections. The president had to access different competencies such as linguistic, communicative, and encyclopedic in order to achieve the audience of the program Roda Viva. Key words: interaction, ideology, discourse, intertextuality and argumentation.

(7) SUMÁRIO 1. Introdução Alguns conceitos utilizados nesta Dissertação 1. A ideologia e a construção de identidades. 09 14 15. 1.1 Ideologia não é visão de mundo. 15. 1.2 Um pouco da história da ideologia. 15. 1.3 Ser totalmente livre: A grande ilusão produzida pela Ideologia. 16. 1.4 A mídia como porta-voz da ideologia e outras formas de dominação. 17. 1.5 Ideologia e Hegemonia. 17. 1.6 A quem serve a ideologia?. 18. 1.7 Ideologia e linguagem. 19. 1.8 Ideologia e poder. 20. 2. As mídias nas eleições de 2006: construindo identidades 2.1 Padrões de manipulação da grande mídia. 22 22. 2.1.1 Padrão de ocultação. 24. 2.1.2 A fragmentação da notícia. 25. 2.1.3 O padrão da inversão. 25. 2.1.4 O padrão da indução. 26. 2.1.5 Padrão específico do jornalismo da televisão e rádio. 27. 2.2 A atuação da grande mídia nas eleições presidenciais de 2006. 28. 2.3 Quando a mídia se transforma em partido político. 29. 2.4 As notícias veiculadas acerca do governo Lula não correspondiam às mudanças socias por que passava o Brasil. 31. 2.5 Alguns jornalistas denunciam parcialidade da mídia. 33. 3. Argumentatividade como construção de identidade. 35. 3.1 A argumentação a partir de pensamento grego. 35. 3.1.1 O exórdio. 35. 3.1.2 A narração. 36. 3.1.3 A prova. 37. 3.1.4 O epílogo. 37. 3.1.5 A refutação. 38. 3.2 A recapitulação como recurso retórico. 39.

(8) 3.3 A construção de identidade a partir do ethos, pathos e logos. 39. 3.4 A argumentação do Presidente Lula. 41. 3.5. Discurso como ação sobre o outro. 41. 3.6 Discurso não-autoritário e discurso autoritário. 42. 4. A intertextualidade na construção de sentidos e identidades. 44. 4.1 A gênese do termo intertextualidade. 44. 4.2 A intertextualidade e a construção de sentidos. 45. 4.3 O conhecimento enciclopédico do interlocutor para a construção de sentidos. 45. 4.4 A importância da intertextualidade na análise crítica do discurso. 47. 4.5 O discurso direto e indireto na construção de sentidos. 48. 4.6 A intertextualidade e a mudança social. 48. 5. O discurso e o enunciador. 50. 5.1 As leis do discurso. 50. 5.2 O princípio de cooperação. 50. 5.3 A lei da pertinência. 50. 5.4 A lei da sinceridade. 51. 5.5 A lei da informatividade. 51. 5.6 A lei da exaustividade. 51. 5.7 Lei da modalidade. 52. 5.8 Os atos de fala. 52. 5.8.1 O ato ilocucionário. 53. 5.8.2 O ato perlocucionário. 53. 6. Os cenários que construíram uma nova identidade para o Presidente Lula. 55. 6.1Os símbolos utilizados no cenário da primeira entrevista coletiva. 55. 6.2 A força dos símbolos ideológicos. 57. 6.3 A vestimenta do presidente como elemento que compõe o cenário. 57. 6.4 Os símbolos utilizados no cenário da segunda entrevista coletiva. 58. 7. Metodologia. 60. 8. Análise do corpus. 64. 8.1 A cassação de José Dirceu e as injustiças cometidas no Brasil. 64. 8.2 O mensalão e o dossiê. 67.

(9) 8.3 Pedido de impeachment. 73. 8.4 A construção da imagem da oposição. 74. 8.5 A recuperação da imagem do partido dos trabalhadores. 77. 8.6 A privatização no período FHC. 79. 8.7 O papel das empresas públicas. 82. 8.8 O que se espera de um governo republicano. 85. 8.9 Impostos no Brasil. 87. 8.10 Bolsa família. 89. 8.11 Economia. 90. 8.12 Empregos. 93. 8.13. A construção da identidade de Lula a partir de narrativas autobiográficas ou interações com jornalistas. 94. 9. Algumas Conclusões. 97. 10. Bibliografia. 100. Anexo I. 103. I - Primeira entrevista coletiva. 104. 1. Desenvolvimentismo. 104. 2. Ética. 105 110. Anexo II II - Segunda entrevista coletiva. 111. 1. Desenvolvimentismo. 111. 2. Ética. 115.

(10) 1. INTRODUÇÃO. Em meados de 2005, o Presidente Luís Inácio Lula da Silva enfrenta a mais grave crise política de seu Governo. São criadas Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs – dos correios, do mensalão e dos sanguessugas , com o intuito de investigar denúncias de corrupção no Governo Federal. As acusações de compra de votos de aliados da base governista, episódio denominado mensalão, tomaram conta do noticiário nacional. Praticamente, todos os dias, uma nova denúncia é veiculada pela mídia, atingindo os mais fiéis e antigos colaboradores do Presidente da República. Lula determina publicamente a apuração de todos os fatos noticiados, ao mesmo tempo em que nega conhecer corrupção dentro do governo e, caso haja, afirma que todas as acusações serão apuradas pelos órgãos competentes: Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público, e por fim o Judiciário. Desta maneira, o governo estaria atuando republicanamente, pois todas as esferas políticas e jurídicas estavam agindo dentro da normalidade que se espera de um estado democrático. A avalanche de acusações continua. Ministros e Secretários de Estado são exonerados, a popularidade do Presidente despenca e uma reeleição, praticamente vitoriosa, transforma-se em uma grande incógnita. As perspectivas políticas eram extremamente desfavoráveis para Lula. A própria governabilidade era questionada por alguns setores da sociedade. Diante desse quadro político, o Presidente participa de um programa de entrevistas: Programa Roda Viva, transmitido pela TV Cultura. A entrevista foi realizada no Palácio do Planalto, no dia sete de novembro de 2005, tendo na bancada de entrevistadores ex-mediadores do Programa supramencionado. Não se poderia esperar uma entrevista amistosa ou – chapa branca – referência esta às mídias pró-governo. O embate entre o Presidente e os entrevistadores foi, em alguns momentos, tenso. Muitas questões relacionadas ao desenvolvimento 1 e à ética foram debatidas por Lula e pelos jornalistas que participaram das duas entrevistas coletivas. O Presidente utilizou-se do recurso da comparação entre o governo dele e os anteriores, apresentando números que sinalizavam para um crescimento econômico 1. Nesta pesquisa, os temas deverão ser considerados hiperônimos: ética e desenvolvimentismo. As temáticas serão consideradas hipônimos, e várias delas serão analisadas a partir dos pressupostos da ACD. Temáticas como o mensalão e o dossiê; Bolsa Família, entre outros, serão analisados no capítulo 8 desta dissertação.. - 09 -.

(11) muito mais consistente e robusto, no período em que ele governava o Brasil. Lula também comparou seu governo aos anteriores, quando o assunto era o combate à corrupção, demonstrando que as ações contra o crime organizado foram muito mais exitosas no governo petista que nas gestões que o precederam, utilizando como argumento a apresentação de estatísticas que comprovavam a veracidade de suas palavras. O comportamento lingüístico do Presidente Lula foi analisado nas duas entrevistas coletivas. Esse comportamento discursivo serviu como munição não apenas para militantes e simpatizantes petistas, mas também para os aliados do Palácio do Planalto, das mais distintas esferas da vida social, o que acarretou uma divisão de águas no que se refere à defesa do Governo Federal e ao ataque às oposições que vislumbravam o retorno ao poder. Esse discurso político será comparado ao discurso veiculado no mesmo Programa Roda Viva, realizado em outubro de 2006, uma semana antes do segundo turno das eleições presidenciais. Tal comparação foi feita a fim de se verificar coincidências de vocábulos e enunciados que possam construir uma identidade para o Presidente Lula e, por conseguinte, construir 2 a imagem de seu principal opositor. Esse gênero discursivo “entrevista coletiva” possui características interessantes.. O. Presidente foi obrigado a ativar diversas competências lingüísticas, comunicativas e extralingüísticas, com o intuito de responder perguntas, muitas vezes constrangedoras, utilizando diversas estratégias verbais e não verbais para fugir ou enfrentar os questionamentos feitos pelos entrevistadores; na segunda entrevista coletiva, o Presidente e candidato à reeleição repetirá muito do que foi enunciado em 2005, intensificando temas como desenvolvimento, ética e por último as privatizações, inviabilizando, de certa forma, o discurso do candidato opositor, que afirmava que o Brasil tinha deixado de crescer e que o Presidente Lula tinha sido omisso e conivente em relação aos casos de corrupção, amplamente noticiados pela imprensa. É mister citar, apenas para contextualizar, o escândalo da tentativa de compra de um suposto dossiê por parte de militantes petistas. O dossiê relacionaria o candidato ao. 2. Nesta dissertação será usado o termo “construção de identidade”, independentemente se essa construção for negativa – desconstrução – ou positiva, haja vista a construção de identidade ser um processo contínuo e quando se “desconstrói” o que se faz é “construir” de uma maneira distinta daquela almejada pelo sujeito do discurso, no caso o Presidente Lula.. - 10 -.

(12) Governo de São Paulo, José Serra, a compra de ambulâncias superfaturadas à época em que Serra era Ministro da Saúde no Governo Fernando Henrique Cardoso. O Presidente Lula, nessa segunda entrevista, defenderá uma investigação completa, que busque a verdade e o “arquiteto” que planejou a compra do dossiê. O escândalo da tentativa da compra do dossiê e sua repercussão nos principais meios de comunicação e no Horário Eleitoral Gratuito foi o responsável, segundo analistas políticos, pela ida de Lula e do candidato do PSDB ao segundo turno das eleições presidenciais em 2006 (cf. Lima 2007), haja vista a diferença entre Lula e Geraldo Alckmin durante todo período eleitoral ter sido sempre em torno de 20 pontos percentuais a favor do Presidente, o que garantiria a reeleição de Lula no primeiro turno. Esse percentual, contudo, chegou a sete pontos percentuais, após a repercussão da tentativa da compra do dossiê por alguns “aloprados”, termo utilizado por Lula para criticar aqueles que participaram direta ou indiretamente na “operação dossiê”. A pesquisa realizada dialogará com a Ciência Política, a História, a Filosofia e as Ciências que estudam a Comunicação Midiática, entretanto a ênfase é dada aos aspectos lingüísticos que foram analisados, a partir da Análise Crítica do Discurso – ACD –, levando-se em conta a argumentatividade, a ideologia e a intertextualidade como elementos/fenômenos que criam significados para os telespectadores. Utilizamos também como referenciais teóricos a Pragmática e a Lingüística Textual. Assim, espera-se contribuir com o estudo da linguagem em uso, uma lingüística que, ao estudar o discurso político, possa verificar a ocorrência ou não de mudanças sociais em função do discurso, ou mudança de discurso em função das mudanças sociais, (Fairclough 2001). A análise dos argumentos utilizados pelo Presidente, na primeira entrevista coletiva, para manter-se no poder, haja vista a movimentação de certos setores da sociedade que cogitavam o afastamento dele; e os argumentos de Lula, como candidato à reeleição, para continuar no poder por mais um mandato será o objetivo de investigação geral desta pesquisa. A argumentatividade como estratégia de convencimento dos eleitores indecisos será analisada nesta pesquisa. Ao final das eleições de 2006, o candidato à reeleição obteve 60.8% dos votos válidos. O discurso de Lula conseguiu sobrepor-se ao discurso das oposições e ao discurso das mídias, que, em 2006, não viam com bons olhos um segundo mandato para ele. (Lima 2007) - 11 -.

(13) Será verificado como o Presidente conseguiu, através da argumentatividade, construir uma nova identidade para si e ao mesmo tempo construir a identidade de seu principal adversário. Essa análise é de capital importância quando se deseja compreender a linguagem como instrumento de ação sobre o outro, um TU, que estará em constante interação. Esse TU será o telespectador, o simpatizante político, o formador de opinião, o eleitor de outros candidatos, o indeciso, ou aquele que sempre anula o voto. Outro aspecto importante nessa pesquisa é verificar como são construídos argumentos que sejam não apenas compreendidos pelos eleitores, mas também repetidos e massificados, ao ponto de transformar determinados enunciados do Presidente em teses que foram utilizadas até o último dia da campanha eleitoral em 2006 pela militância pró-Lula. A análise do discurso político numa perspectiva lingüística é, sem dúvida alguma, de grande relevância quando se deseja compreender o funcionamento da linguagem em instâncias do poder central, das mídias e das oposições ao Governo Federal, em função de existir um diálogo intenso entre eles. Assim, o discurso de um estará respondendo, ou melhor, dialogando – intertextualizando-se - com o discurso do outro. Toda a pesquisa será norteada pela pergunta-problema: Como o Presidente Lula conseguiu, a partir de um discurso ético e desenvolvimentista, sobrepor-se ao discurso das mídias e das oposições? Algumas hipóteses descritas abaixo podem dialogar com o problema supramencionado: •. O Presidente criará significados, a partir de uma argumentação alicerçada na. comparação do governo petista com os oito anos do governo FHC; •. Os sentidos são construídos, a partir de textos anteriores, o que permite trazer à. memória dos telespectadores a imagem de um Presidente que para chegar ao poder percorreu um caminho que transita da fome absoluta, à fuga da miséria de Caetés, à chegada a Santos, ao trabalho como torneiro mecânico, líder sindical, presidente de honra do PT e, finalmente, Presidente da República em 2002; •. Lula massifica um discurso que além de preservar a imagem dele acerca de. denúncias da grande mídia e das oposições, consegue que vários enunciados sejam repetidos pelos simpatizantes e militantes, no sentido de fortalecer a imagem de um Presidente que conseguiu realizar muito mais que seus antecessores. - 12 -.

(14) Ora, se de fato havia todo um cenário negativo à reeleição de Lula e, o candidato/presidente conseguiu reverter tal situação, através de um discurso concatenado e pronunciado de maneira simples aos eleitores, simpatizantes políticos, militantes e formadores de opinião, pesquisar tais discursos, dentro de um programa de entrevistas, focalizando dois temas recorrentes nos Programas em questão: desenvolvimentismo e ética será fundamental, quando se discute o uso da linguagem em situações concretas e em um contexto adverso para o entrevistado. O discurso do Presidente tem um caráter mais cuidadoso, pelo menos quando esse discurso é enunciado em uma esfera pública, no caso, o locus da enunciação foi o próprio Programa Roda Viva.. Um político que se apresente na televisão, ainda não em horário nobre, estará muito mais comprometido com o que diz do que se escrevesse em uma revista de pequena tiragem. Embora oral, sua fala tornou-se estável, podendo ser repetida quantas vezes se quiser e difundida quase instantaneamente no mundo inteiro. (Maingueneau 2005:75). A contribuição que se espera com essa pesquisa é a descrição e analise de como um Presidente da República consegue convencer uma significativa parcela da sociedade brasileira acerca de um Programa de Governo que foi apresentado durante a campanha eleitoral e a defesa do Governo Petista, a partir do escândalo do mensalão. Para fundamentação teórica, optamos pelos seguintes autores, que dedicaram seus esforços acadêmicos em diversas áreas do conhecimento: Fairclough e a Análise Crítica do Discurso nortearão esta pesquisa; Maingueneau e seus estudos sobre comunicação; Charaudeau e o discurso midiático e político; Koch discutindo o papel da argumentação e a Lingüística Textual; Chauí e Thompson analisando a ideologia e os meios de comunicação de massa; Marcuschi amparando esta pesquisa com a Análise da Conversação e vários fenômenos da oralidade. Todos os autores citados na bibliografia têm, de uma maneira ou de outra, suas vozes presentes no texto. Nos capítulos de 1 a 6, apresentamos a fundamentação teórica desta pesquisa, e todo o contexto em que as duas entrevistas foram veiculadas. No capitulo 7, descrevemos a. metodologia empregada e no capítulo 8, é feita a análise das. transcrições dos DVDs dos Programas Roda Viva em que o Presidente Lula foi entrevistado, a partir dos aparatos teóricos e metodológicos da Análise Crítica do Discurso.. - 13 -.

(15) ALGUNS CONCEITOS UTILIZADOS NESTA DISSERTAÇÃO. •. Enunciador: aquele que comunica, trazendo alguma informação para o outro. A. linguagem é usada com o propósito de convencer, de agir sobre outrem; •. Co-enunciador: aquele em que no momento da interação é o destinatário da informação, entretanto esse ator não é um ser passivo, ele interage, constantemente com o enunciador. As enunciações produzidas sem a presença de um co-enunciador serão marcadas por uma interatividade. Maingueneau (2005:54).. •. Coenunciadores: são os dois parceiros do discurso;. •. Enunciado: pode ser utilizado para texto/discurso na modalidade escrita ou oral.. “... uma seqüência verbal que forma uma unidade de comunicação completa...” (Maingueneau 2005:56); •. Enunciação: um fragmento de fala produzido por um enunciador. Para Maingueneau “... enunciado se opõe a enunciação da mesma forma que produto se opõe ao ato de produzir...” (Maingueneau 2005:56);. •. Sujeito do discurso: aquele que enuncia; que, apesar de sofrer as influências da. ideologia e do mundo que o cerca, é senhor de seu discurso, porque o retextualiza, o contextualiza, não sendo, portanto, simplesmente um porta-voz do que já foi dito; •. Discurso: tem o mesmo sentido de texto, nesta dissertação.. - 14 -.

(16) 1. A IDEOLOGIA E A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES. “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Cazuza. 1.1 IDEOLOGIA NÃO É VISÃO DE MUNDO. Antes de tudo, não se pode confundir ideologia com ideário. O ideário seria um conjunto sistemático de idéias encadeadas. As empresas, a grande mídia, os partidos políticos, as organizações não-governamentais, as pessoas possuem sua visão de mundo. Já a ideologia teria como finalidade ocultar a realidade, no sentido de assegurar e manter a exploração econômica, desigualdades sociais e, por fim a dominação política. (Chauí 2004) Nesta dissertação, compartilhamos do conceito de ideologia que a filósofa Marilena Chauí postula. Outros autores como Fairclough, Thompson e o educador Paulo Freire também têm suas vozes presentes neste texto e sintetizam a ideologia como um sofisticado fenômeno que faz as classes subalternas acreditarem que não existem explorações. A filósofa disseca, incisivamente, o termo ideologia, quando remete à exploração de classes por grupos sócio-econômicos mais privilegiados e detentores de poder: Em sociedades divididas em classes (e também em castas), nas quais uma das classes explora e domina as outras, essas explicações e essas idéias e representações serão produzidas e difundidas pela classe dominante para legitimar e assegurar seu poder econômico, social e político. Por esse motivo, essas idéias e representações tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Esse ocultamento da realidade chama-se ideologia. (Chauí 2004:23). 1.2 UM POUCO DA HISTÓRIA DA IDEOLOGIA. Percorrendo o longo caminho da história da ideologia, partimos do pensamento positivista de Augusto Comte, de grande influência em nossa República. Dois lemas, ou melhor, dois dogmas são sistematicamente apregoados pelos adeptos do Positivismo: o primeiro seria saber para prever, prever para prover. Para que não haja desordens e - 15 -.

(17) caos nas sociedades, outro enunciado bem conhecido dos brasileiros e que está escrito na bandeira do Brasil é repetido pelos positivistas quase como um mantra: ordem e progresso. Só há progresso se houver uma ordem estabelecida, uma ordem dominante e pelo progresso tudo é permitido ou, dependendo do caso, proibido. Essa busca pela regularidade (ordem) somada ao crescimento econômico, irá produzir consensos ou discordâncias, conforme determinados enunciados como os descritos abaixo: É “permitido” aos meios de comunicação de massa denominar, por exemplo, grevistas de “arruaceiros”, noticiar o quanto o Brasil deixou de recolher impostos e quanto os empresários deixaram de exportar e gerar riquezas, em função de uma greve, feita, é claro, pelas classes subalternas, prejudicando, desta forma, toda a sociedade brasileira. Nesse enunciado, há um forte componente ideológico, quando se afirma as perdas sofridas pela pátria-mãe e oculta as perdas salariais dos trabalhadores ao longo de vários anos, além de jogá-los no universo semântico dos antipatriotas. Por outro lado, é proibido que tais grupos subalternos queiram desafiar o Estado. Para tanto, o Estado, através do aparato policial, tem legitimado ações truculentas contra organizações que se rebelam de alguma forma à ordem estabelecida. Assim se fará crer que seguindo esses preceitos o Brasil será alçado ao tão almejado progresso. A ordem, a regularidade de uma sociedade será perseguida não apenas pela classe dominante, mas também pelos Estados dominantes, os partidos dominantes, a etnia dominante, o gênero dominante. A grande mídia será um agente estratégico para que a ideologia dos dominadores seja ‘passivamente’ aceita pelas classes consideradas subalternas. Fairclough, ao analisar a ideologia através do marxista Althusser, também corrobora o pensamento de Chauí. Para o lingüista inglês: “... a ideologia funciona pela constituição das pessoas em sujeitos sociais e sua fixação em posições de sujeito, enquanto ao mesmo tempo lhes dá a ilusão de serem agentes livres”. (Fairclough 2001:52). 1.3 SER TOTALMENTE LIVRE: A GRANDE ILUSÃO PRODUZIDA PELA IDEOLOGIA. Essa ‘ilusão’ que o sujeito tem de que é totalmente livre, de que não vive em uma relação assimétrica, seja com o Estado, com a organização em que trabalha, apenas - 16 -.

(18) citando essas duas formas de dominação, é exatamente o que a ideologia faz crer. Essa mesma ideologia que anuvia o entendimento que as classes trabalhadoras têm de si fez com que esse enorme segmento da sociedade acreditasse, por muito tempo, que apenas uma ínfima parcela da sociedade teria a posse ou monopólio do saber sistematizado e apenas esses privilegiados teriam a capacidade para governar um país.. 1.4 A MÍDIA COMO PORTA-VOZ DA IDEOLOGIA E OUTRAS FORMAS DE DOMINAÇÃO. Se a ideologia tem como objetivo esconder que há lutas de classe, a grande imprensa será um eficiente instrumento das classes dominantes. A ideologia oculta as lutas dos Estados dominadores com os Estados subalternos. Um Estado com forte poder bélico pode invadir outro Estado e essa invasão pode ser legitimada pela ideologia: o Estado dominador e democrático invade um Estado subalterno e sem democracia. Em nome da paz mundial, um país é destruído com armas cada vez mais mortíferas e se tais armas dizimar civis inocentes, a expressão “efeito colateral” ideologicamente construída, será utilizada para que a sociedade aceite a morte de muitos cidadãos, pois existiria “uma causa justa”. Chauí vislumbra o processo ideológico como fenômeno restrito às lutas entre classes sociais. Existem, entretanto, outras lutas entre dominadores e dominados: lutas de gêneros, lutas que envolvem etnias, enfim, lutas escamoteadas que demonstram que existem dominados e dominadores, contudo o reconhecimento de tais embates é praticamente invisível àqueles que desconhecem que as relações humanas são assimétricas e a igualdade seria o grande engodo produzido pela ideologia. Thompson (2002). A filósofa sintetiza seu pensamento com o seguinte enunciado: “A ideologia é o processo pelo qual as idéias da classe dominante tornam-se idéias de todas as classes sociais.” (Chauí 2005:84). 1.5 IDEOLOGIA E HEGEMONIA. A ideologia estaria relacionada à manutenção do poder, mas não apenas dos poderes daqueles que detêm cargos políticos: o poder da grande mídia, o poder dos. - 17 -.

(19) homens sobre as mulheres e outras dominações que precisam ser denunciadas. A professora e filósofa considera a hegemonia um fenômeno que teria como função maior a manutenção do status quo.. Uma classe é hegemônica não só porque detém a propriedade dos meios de produção e o poder do Estado (isto é, o controle jurídico, político e policial da sociedade), mas ela é hegemônica, sobretudo porque suas idéias e valores são dominantes, e mantidos pelos dominados até mesmo quando lutam contra essa dominação. (Chauí 2005:99). Mas quem seriam os apóstolos da idéia da hegemonia que estabelece nas sociedades hodiernas a ideologia da aceitação? Afinal, somos um povo ordeiro, ou seria cordeiro?. Não se perde de vista, também, que a produção e distribuição dessas idéias ficam sob o controle das classes dominantes, que usa as instituições sociais para sua implantação – família, escola, igrejas, partidos políticos, magistraturas, meios de comunicação da cultura permanecem atrelados à conservação do poder dos dominantes. (Chauí 2005: 88). Verifica-se que várias instituições cooperam para a manutenção do poder como, por exemplo, os partidos políticos, grandes empresas, sistema bancário e, em especial, os meios de comunicação de massa. Essas instituições tiveram importante papel nas eleições presidenciais de 2006 que desejavam que o poder fosse mantido nas esferas estaduais, em especial nos estados do Sul e do Sudeste, e na esfera federal houvesse alternância de gestão.. 1.6. A QUEM SERVE A IDEOLOGIA?. Surge uma questão epistemológica: se os meios de comunicação servem aos dominadores e esses estão no poder, então, com absoluta certeza, a imprensa estaria submissa aos desejos do Presidente Lula. Contudo essas relações não são tão simplistas assim. Quando se faz uma retrospectiva da cobertura das eleições presidenciais pósditadura civil-militar, verifica-se que a mídia apoiou, de forma velada, ou explícita, candidatos que pudessem, de alguma maneira, beneficiar as organizações que atuam no seguimento da informação e entretenimento: televisão, revista, jornal, rádio, internet. Aliás, algumas organizações midiáticas conseguem convergir todas essas mídias,. - 18 -.

(20) algumas inclusive, agregam igrejas, e em muitos momentos funcionam como verdadeiros partidos políticos. Em 1989, houve um apoio maciço da grande mídia ao então desconhecido caçador de marajás, Fernando Collor de Melo. Em 1994, no embalo do Plano Real, o ex-ministro da Fazenda do Presidente Itamar Franco é eleito Presidente da República. A Constituição foi modificada e permitiu-se a reeleição de presidentes. Fernando Henrique Cardoso é reeleito, independente de o Brasil viver uma grave crise econômica, silenciada pela imprensa burguesa comercial. Em 2002, após a divulgação da Carta ao Povo Brasileiro, a grande mídia sentiu-se mais à vontade em “permitir” que um peão fosse eleito Presidente da República, entretanto tal ‘permissão’ não implicou uma adesão incondicional. A imprensa comercial conseguiu, ao longo dos quatro anos do governo Lula, construir uma nova identidade para o retirante de Caetés, arranhando a imagem forjada desde os anos 80, quando nas greves no ABC paulista, o ex-sindicalista enfrentava um regime civil-militar cambaleante, mas ávido de permanecer no poder. Por outro lado, percebe-se, e esta informação é crucial para o entendimento desta dissertação, que o Presidente Lula consegue construir uma identidade completamente distinta daquela que estava sendo tecida pela grande mídia e partidos de oposição ao Governo Federal. Quando Lula concedeu em 2005 uma entrevista coletiva ao Programa Roda Viva, utilizando um discurso com viés ético e desenvolvimentista e, ao mesmo tempo, comparou seu governo aos anteriores, ele conseguiu sobrepor-se aos discursos que apostavam em um desgaste político, praticamente impossível de ser revertido. Esse discurso, como se verificará na análise do corpus, foi reutilizado na segunda entrevista coletiva, no segundo turno das eleições presidenciais de 2006. Não é bom esquecer que estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco, por exemplo, eram governados por oposicionistas, que se aproveitando do discurso das mídias apostaram todas as fichas na fragmentação do Partido dos Trabalhadores e de seu mais importante membro: Luiz Inácio Lula da Silva. 1.7 IDEOLOGIA E LINGUAGEM. É importante compreender o conceito de ideologia, empregado nessa dissertação. Retirar o véu que cobre os discursos das classes dominantes implica entender, entre outras coisas, o que a ideologia significa para as classes dominadas: - 19 -.

(21) deixá-las inocentes, subalternas, dóceis. Freire, ao discutir o papel do docente e do discente, irá tecer um comentário acerca da ideologia que vai ao encontro do pensamento dos autores citados: “É que a ideologia tem que ver diretamente com a ocultação da verdade dos fatos, com o uso da linguagem para penumbrar ou opacizar a realidade ao mesmo tempo em que nos torna míopes”. (Freire 2005:125) A linguagem estará, portanto exalando ideologia e aqueles que detêm a informação poderão carregar nas tintas para que seus comentários/notícias sejam convincentes e se tornem verdadeiros para leitores, ouvintes, telespectadores e internautas ávidos por notícias espetaculares. O discurso do Presidente Lula, pronunciado nas duas entrevistas coletivas, irá dialogar com os discursos das mídias e dos partidos políticos que faziam oposição a ele. Esse diálogo não é travado de maneira clara, há muitos implícitos que necessitam emergir da profundeza do texto/discurso que era veiculado tanto pela imprensa como por partidos de oposição. Portanto, compreender o que significa ideologia implica entender o funcionamento da linguagem em instâncias de poder e como discursos disfarçados de modernos podem ser desmascarados, a partir da argumentatividade e intertextualidade.. 1.8. IDEOLOGIA E PODER. As mídias possuem um discurso ideológico que revela um desejo de manter determinados grupos políticos no poder, ou, simplesmente apeá-los, quando tais grupos não têm mais serventia. Assim os meios de comunicação de massa seriam ao mesmo tempo emissários da ideologia dos dominantes e beneficiários dela. Os governos podem ser desestabilizados à Assis Chateaubriand ou de maneira mais sutil, mais refinada como atualmente as grandes corporações midiáticas têm influído em nossa sociedade. Desta forma, o discurso de Lula estará dialogando de maneira sutil com o discurso das mídias que, de certa forma, representa o discurso dos dominadores. Para encerrar essa discussão, se é que isso possa ser feito em relação ao fenômeno da ideologia, faz-se necessário compreender como a Análise Critica do Discurso compreende tal relação, que mantém controladores e controlados convivendo de forma pacífica. Fairclough acredita na possibilidade de transformações nas relações em que há dominadores e dominados. A mudança social, a partir de um discurso é - 20 -.

(22) possível, ou vice versa, e tais fenômenos são abordados na análise do corpus desta dissertação. Portanto, compreender as práticas discursivas e a ideologia que são montadas e construídas sob vários enunciados é de fundamental importância na análise de discurso, em especial os discursos políticos. No próximo capítulo, analisamos o discurso midiático nas eleições presidenciais de 2006. O fenômeno da ideologia estará permeando a linguagem da mídia, o que nos faz crer que uma (ideologia) não subsiste sem a outra (linguagem).. - 21 -.

(23) 2. AS MÍDIAS NAS ELEIÇÕES EM 2006: CONSTRUINDO IDENTIDADES. Como enfrentar o extraordinário poder da mídia, da linguagem da televisão, de sua ‘sintaxe’ que reduz a um mesmo plano o passado e o presente e sugere que o que ainda não há já está feito. Mais ainda, que diversifica temáticas no noticiário sem que haja tempo para a reflexão sobre variados assuntos. De uma notícia sobre Miss Brasil se passa a um terremoto na China; de um escândalo envolvendo mais um banco dilapidado por diretores inescrupulosos temos cenas de um trem que descarrilou em Zurique. (Freire 2005). Neste capítulo, analisamos o comportamento da grande mídia nas eleições presidenciais em 2006. Essa análise é necessária em virtude do problema central que envolve esta dissertação: como o discurso de Lula se sobrepôs ao discurso das mídias e das oposições no processo eleitoral de 2006? Evidentemente que o discurso de Lula irá dialogar com outros discursos, no intuito de esclarecer aos eleitores dúvidas em relação às questões suscitadas, seja por certos setores midiáticos, seja por parte da oposição. O diálogo entre esses muitos discursos foi analisado no corpus desta pesquisa, entretanto, neste primeiro momento, verificamos como a imprensa utiliza-se de certos padrões de manipulação, a fim de construir identidades, distorcer fatos, ou simplesmente fazer crer aos incautos que há isenção e imparcialidade, por parte da mídia, o que a tornaria, se essas afirmações fossem verdadeiras, em arauto da verdade. Analisamos o comportamento da grande mídia, a partir das reflexões de Patrick Charaudeau, Fairclough e Perseu Abramo, além de alguns jornalistas que criticaram o comportamento da imprensa na cobertura das eleições presidenciais em 2006.. 2.1 PADRÕES DE MANIPULAÇÃO DA GRANDE MÍDIA. Ao analisarmos o fragmento, extraído do ensaio Padrões de manipulação na grande imprensa de Perseu Abramo, que trata da falsa objetividade da mídia, verificamos que a grande imprensa é vista como instrumento das elites com o intuito de controlar a sociedade.. - 22 -.

(24) Os estudos do professor Perseu desmascaram a autoproclamada “objetividade” da imprensa comercial-burguesa, mostram que se trata de uma “falsa objetividade” e situam o jornalismo praticado pelo mercado como um instrumento de controle político das elites, contrário aos interesses maiores do povo brasileiro. No debate sobre a verdadeira motivação da empresa de comunicação em manipular a informação e distorcer a realidade, Perseu coloca o campo econômico, a busca do lucro, num segundo plano, já que esse pode ser obtido com melhor resultado em outras atividades empresariais. Para ele, a motivação real está no campo político, na lógica do poder. (Abramo 2003:17). Hamilton Octávio, jornalista que escreve o prefácio acima, discute o fenômeno da ideologia, desvelando as relações existentes entre mídia e poder. Para o jornalista, o lucro obtido pelo setor midiático seria secundário; o que estaria de fato em jogo seria o poder. Para Fairclough, a mídia irá tratar as pessoas como consumistas que deverão comprar os produtos vendidos pela imprensa (as notícias), seja ela falada ou escrita, além é claro das novas mídias digitais que surgem com o advento da internet. Assim, para o lingüista inglês, o grande objetivo das empresas de comunicação seria o lucro.. A mídia de notícias tem mudado largamente nessa direção e é preciso se considerar por quê. Em um nível, isso reflete o que tem sido identificado como uma importante dimensão do consumismo: Uma mudança, ou mudança aparente, no poder dos produtores para os consumidores. A mídia de notícias está no negócio competitivo de ‘recrutar’ leitores, telespectadores e ouvintes em um contexto de mercado no qual suas vendas ou seus índices são decisivos para a sobrevivência. (Fairclough 2001:143). Não importa se a ênfase encontra-se no poder ou no lucro, o que na realidade é relevante nas duas palavras é que a grande mídia, denominada “burguesa”, deseja as duas coisas, e para conseguir seus objetivos ela terá competência para recrutar leitores, ouvintes, telespectadores, internautas. Esse poder de recrutamento é o negócio da grande mídia e conhecedora de seu ofício ela consegue manipular e distorcer a realidade. Não podemos esquecer que a notícia é carregada de ideologia, ela é sempre ideológica, haja vista ser ela uma versão dos acontecimentos cuja representação é mediada pelas palavras. Negar esse fenômeno na imprensa é no mínimo sinal de ingenuidade, ou mesmo uma materialização da ideologia. Conhecer os padrões de manipulação utilizados pela grande mídia é de suma importância quando se percebe que há um diálogo entre Lula e as acusações que eram feitas a ele e a seu governo: omissão do Presidente e corrupção dentro do Planalto.. - 23 -.

(25) Nas duas entrevistas analisadas. O Presidente da República, em suas interações, tentará demonstrar que, como instrumento de convencimento e expressão do livre pensamento, a mídia pode, equivocadamente ou com intenção explícita, favorecer determinados setores econômicos e políticos e destruir reputações como constatamos na fala de Lula: “... só pode acusar alguém se você tiver indícios muito fortes de provas... eu uma vez vi um deputado ser condenado... depois foi provado que ele não tinha nada... que foi o Alceni Guerra... eu vi o que foi feito com a Escola de Base lá em São Paulo... e que se execrou a escola... a família do dono da escola e depois prova-se que é inocente e não recupera mais...”. Anexo 1.. Nos dois casos mencionados, o Presidente relembra aos telespectadores fatos em que a mídia atuou como juiz de última instância ao condenar, antecipadamente o deputado e os proprietários da escola de Base. Foram utilizados determinados padrões de manipulação que não deram opção aos leitores ou telespectadores em seu julgamento que não fosse a condenação. Não há uma acusação clara de Lula à imprensa, mas quando analisamos todo contexto em que esse fragmento está inserido, percebemos que ele tenta, através destes dois exemplos, provar que nem sempre a História pode ser contada pela mídia. Perseu Abramo identifica cinco padrões de manipulação na imprensa, que seriam: a ocultação, a fragmentação, a inversão, a indução e, por último, o padrão específico do jornalismo de televisão e rádio.. 2.1.1 PADRÃO DE OCULTAÇÃO. O padrão de ocultação seria um silêncio, um emudecimento sobre determinados fatos que ocorrem na sociedade. Essa ocultação é determinada pelos donos das grandes mídias. A ocultação se dá quando a linha editorial define o que é um fato jornalístico e o que não é. Desta forma, a ocultação acaba manipulando os leitores/telespectadores, pois eles só lerão aquilo que é considerado um fato jornalístico. Podemos exemplificar a ocultação de um fato jornalístico quando, na reta final das eleições presidenciais, a mídia alardeou a tentativa da compra de um suposto dossiê que traria revelações catastróficas para os candidatos do PSDB à Presidência da República e ao Estado de São Paulo.. - 24 -.

(26) A grande mídia denuncia a tentativa da compra do dossiê por militantes petistas; por outro lado, o conteúdo do dossiê não é dissecado. Não há uma investigação para saber se tais fatos contidos nos documentos eram verdadeiros. Charaudeau (2006) ao analisar o discurso midiático, esclarece que o leitor/telespectador/ouvinte não tem acesso aos acontecimentos em sua totalidade, a notícia em estado bruto. Há um filtro por onde, obrigatoriamente passam as notícias. Esse filtro é utilizado com maestria quando se deseja manipular a sociedade através da informação, ocultando detalhes que poderiam esclarecer determinados acontecimentos.. 2.1.2 A FRAGMENTAÇÃO DA NOTÍCIA A fragmentação da notícia seria uma outra maneira de manipular o leitor/telespectador/ouvinte. O que é considerado um fato jornalístico é fragmentado. Não há conexões com outros fatos, o que, evidentemente, não acontece no mundo real que, aliás, desconhece o que é fato jornalístico e o que não é fato jornalístico. A fragmentação implica duas operações: “a seleção de aspectos ou particularidades do fato e a descontextualização.” (Abramo 2003: 27). Há uma seleção do que deve vir a público. Abramo conclui com as seguintes palavras sobre o processo de fragmentação:. A fragmentação da realidade em aspectos particularizados, a eliminação de uns e a manutenção de outros e a descontextualização dos que permanecem são essenciais, assim, à distorção da realidade e à criação artificial de uma outra realidade. (Abramo 2003:28). 2.1.3 O PADRÃO DA INVERSÃO. Um outro padrão de manipulação, não menos importante que os anteriores, é o da inversão. Esse padrão caracteriza-se pela destruição da realidade original e a criação artificial de outra realidade. São enumerados vários tipos de inversão pelo professor Abramo, entretanto exemplificaremos apenas a inversão da opinião pela informação, tão comum nas revistas semanais, jornais, telejornais, rádios e mais recentemente pela internet.. A utilização sistemática e abusiva de todos esses padrões de manipulação leva quase inevitavelmente a outro padrão: o de substituir, inteira ou parcialmente a informação pela opinião. Deve-se destacar que não se trata de dizer que, além. - 25 -.

(27) da informação, o órgão de imprensa apresenta também a opinião, o que seria justo, louvável e desejável, mas sim que o órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com a agravante de fazer passar a opinião pela informação. O juízo de valor é inescrupulosamente utilizado como se fosse um juízo de realidade, quando não como se fosse a própria mera exposição narrativa/descritiva da realidade. O leitor/espectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece, porque o seu conhecimento lhe foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão. (Abramo 2003:31).. O que o autor critica não é a liberdade de opinião da imprensa. A mídia tem todo direito de opinar e deve fazê-lo, mas de modo claro, dentro de gêneros como artigos, ensaios, editoriais, ou seja, nas categorias opinativa e interpretativa, a fim de que o leitor/telespectador/ouvinte tenha alternativas para formação de opinião, sem que esteja comprando a opinião alheia por uma informação acerca de determinado fato. E conclui o mestre:. O jornalismo, assim, não reflete nem a realidade nem essa específica parte da realidade que é a opinião pública ou do seu público. Ao leitor/espectador, assim, não é dada qualquer oportunidade que não a de consumir, introjetar e adotar como critério de ação a opinião que lhe é autoritariamente imposta sem que lhe sejam igualmente dados os meios de distinguir ou verificar a distinção entre informação e opinião. (Abramo 2003: 32). O analista de discurso francês corrobora a opinião de Abramo ao afirmar:. Diz-se que as mídias não têm que tomar posição, que devem mostrar neutralidade, mas sabe-se que essa neutralidade é ilusória. Entretanto, há gêneros redacionais que se prestam mais ou menos a uma avaliação. Nos editoriais e em algumas crônicas, por exemplo, espera-se que o jornalista nos esclareça sobre o debate das idéias, dando sua opinião e argumentando. (Charaudeau 2006:180). 2.1.4 O PADRÃO DA INDUÇÃO. Outro padrão de manipulação seria a indução. Esse processo é assim descrito pelo jornalista:. A indução se manifesta pelo reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade, pelo subtexto – aquilo que é dito sem ser falado – da diagramação e da programação das manchetes e notícias, dos comentários, dos sons e das imagens, pela presença/ausência de temas, segmentos do real, de grupos da sociedade e de personagens. (Abramo 2003:34). - 26 -.

(28) A manipulação através da indução implica fazer o leitor/telespectador/ouvinte acreditar em “verdades” que não passam de falácias. Esse processo se dá em função do uso ou desuso de elementos semióticos como sons, imagens, gráficos, manchetes, comentários, ausência de informação etc. Observamos que certas autoridades são, cinicamente, “vendidas” como se fossem “produtos de alta qualidade”, enquanto outras pessoas ou entidades passam despercebidas, quase invisíveis no noticiário, quando não são apresentadas como encarnação do mal. Basta observar como são tratados os movimentos sociais no Brasil, que representam um grande segmento de nossa sociedade. Não há voz para eles e quando são apresentados tem-se a impressão que se está diante de bandidos, cangaceiros da pós-modernidade. No corpus dessa pesquisa, o Presidente chega a ser incisivo com um jornalista, que em um primeiro momento, preferia acreditar em uma versão de um político, amplamente noticiada pelos meios de comunicação de massa: “H: presidente... quando essa pessoa diz que financiou a campanha do senhor... os partidos políticos que financiaram a campanha do senhor... que esse dinheiro veio do caixa dois do PT... como explicar isso a população? L: por que você acredita no que ele falou e não no que eu tô falando? H: não... eu acredito no que o senhor está falando agora... claro...”. Anexo 1.. 2.1.5 PADRÃO ESPECÍFICO DO JORNALISMO DE TELEVISÃO E RÁDIO. Por último, o mestre comenta o padrão específico do jornalismo de televisão e rádio. Para o professor, esse padrão de manipulação utiliza os quatro padrões analisados, entretanto há um maior refinamento. Nesse padrão, Abramo utiliza a metáfora de um espetáculo, dividido em três atos, que poderiam ser sumarizados em: (1) exposição dos fatos, que serão submetidos a todas as outras formas de manipulação, com forte apelo emotivo em detrimento da razão. Há uma valorização da imagem; (2) o segundo momento explora a voz do povo. Ele, o povo, comentará determinados fatos do cotidiano, mostrando o cidadão comum como testemunha viva dos acontecimentos; (3) no último momento, autoridades são mostradas solucionando problemas da sociedade. Nesse último ato, a autoridade funciona como um pai que acalma os filhos ou a sociedade em momentos difíceis. Esse ato é o epílogo do espetáculo. Os próprios jornalistas irão reforçar a idéia de que os problemas foram sanados, que medidas administrativas estão sendo tomadas e assim, a sociedade deve continuar sua rotina.. - 27 -.

(29) Esse último ato, na visão de Charaudeau trará alguns inconvenientes para os donos dos meios de comunicação de massa:. Com isso surge o seguinte problema; dar a palavra aos notáveis corresponde a mostrar-se como o organismo da informação institucional; dar a palavra aos anônimos corresponde a mostrar-se como organismo da informação cidadã ou mesmo popular. No primeiro caso, as mídias podem ser consideradas sérias, mas ao mesmo tempo podem ser consideradas suspeitas; no segundo caso, as mídias apresentam-se como a linguagem da democracia, mas também podem ser acusadas de demagógica. (Charaudeau 2006:168). Esses padrões de manipulação transformam a realidade em algo artificial, fabricada de forma extremamente competente pela grande mídia.. 2.2. A ATUAÇÃO DA GRANDE MÍDIA NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2006. O início oficial da campanha presidencial foi 06 de julho de 2006, entretanto, já se observa uma grande movimentação por parte da mídia em meados de 2005 com a cobertura do escândalo do mensalão. A gênese desse escândalo se dá após um afilhado político de o deputado Roberto Jefferson ter sido filmado nas dependências dos Correios recebendo propina. O deputado petebista se vê acuado diante do escândalo, que tem seu nome relacionado ao funcionário dos Correios. Para sair do foco das denúncias, Roberto Jefferson, utilizando-se de uma oratória teatral, acusa membros do Partido dos Trabalhadores de pagar mesadas a deputados da base aliada com a finalidade de que esses deputados votassem a favor do governo. A denúncia ganhou nome: mensalão, e o acusador, mesmo tendo contra si várias acusações de corrupção, recebeu os holofotes da imprensa, transformando-se em uma grande personalidade, uma espécie de estrela midiática.. As falas da oposição eram outro mecanismo de retórica midiática antilulista. A mídia deu total crédito a acusações formuladas por criminosos, alguns deles retirados diretamente da cadeia para depor na CPI, como foi o caso de Toninho da Barcelona. O próprio Roberto Jefferson, articulador da acusação fundante de toda crise, confessou práticas criminosas e, no entanto, foi sempre tratado como herói da crise. (Lima 2007: 142). Percebe-se que ora a oposição utiliza-se da mídia em seus discursos contra o Governo Federal, ora a mídia usa o discurso da oposição para legitimizar a sua própria. - 28 -.

(30) fala. Mas não foi apenas esse expediente usado pela imprensa para construir uma identidade para o Presidente Lula. As expressões cunhadas como mensaleiros, sanguessugas,. vampiros. eram. todas. direcionadas. ao. governo. petista.. A. espetacularização da notícia ficou patente e tais expressões facilitavam a compreensão dos telespectadores/(e)leitores/ouvintes na tomada de decisão.. Foram cunhadas novas expressões de culpabilização coletiva: os ‘mensaleiros’, os ‘vampiros’, os ‘sanguessugas’, violando mais um princípio da justiça, o da individualização da culpa. Mesmo depois de passada a crise, manteve-se a estigmatização. Criou-se uma linguagem virulenta e palavras e imagens pesadas. (Lima 2007:143). Sobre o espetáculo que as mídias podem promover, a fim de vender notícias, ou atuar de forma partidarizada, Charaudeau chega a ser irônico ao analisar tal fenômeno:. Como se sabe, a televisão é o domínio do visual e do som, lugar da combinação de dois sistemas semiológicos, o da imagem e o da palavra. Dessa combinação nasce um produto, talvez mais apto do que outros a fabricar imaginário para o grande público, isto é, um espelho que devolve ao público aquilo que é sua própria busca de descoberta do mundo. Mas, diferentemente do cinema, a televisão está obrigada, por contrato, a dar conta de uma determinada realidade. Assim sendo, ela não pode se apresentar como máquina de fabricar ficção, mesmo que, afinal, seja isso que ela produza. (Charaudeau 2006:223). Acerca da espetacularização da notícia, Charaudeau concluirá:. Como as mídias dedicam-se, por um lado, a procurar a revelação e, por outro, a ampliar a dramatização do conhecimento através de um relato ficcionalizante, o público não é mais tratado como cidadão, mas sim como espectador, de um mundo que se torna objeto de fascinação, o que lhe atrai e lhe causa repulsa ao mesmo tempo. Torna-se então refém de um processo de catarse social: as mídias – e particularmente a televisão – desempenham a função de produtores de catarse social. (Charaudeau 2006: 273). 2.3 QUANDO A MÍDIA SE TRANSFORMA EM PARTIDO POLÍTICO. Constata-se que a campanha presidencial começara há pelo menos um ano antes da data oficial, a partir do escândalo do mensalão. A grande mídia inseriu-se nesse processo como um grande partido de oposição, não deixando as coisas claras aos seus leitores/telespectadores/ouvintes. Os acusados já estavam julgados e condenados e qualquer voz contrária estaria associada à defesa de bandidos, que não poderiam ter. - 29 -.

(31) seus casos transformados em pizza. No fragmento abaixo de Bernardo Kucinski, colaborador do livro A mídia nas eleições de 2006, encontramos a gênese do processo eleitoral, antecipadamente desencadeado pela grande mídia.. O designativo mensalão simboliza todo esse processo de ofuscação dos sentidos, já que nunca foi provada uma correlação entre pagamentos mensais regulares e votações de deputados a favor do governo. O PT e o governo insistiam que os pagamentos eram ressarcimentos por gastos da campanha que tiveram que ser parceladas por falta de recursos, como sugeriu o próprio Roberto Jefferson, na sua denúncia inaugural da crise. Os jornalistas ignoraram deliberadamente os indícios de que não era lógica a hipótese dos pagamentos mensais para votar a favor do governo, principalmente porque a maioria dos beneficiados já era da base de apoio ao governo. Não precisavam ser pagos. Muitos deles petistas. Outros, como Roberto Brant, opositor ferrenho de Lula, nunca votaram com o governo. (Kucinski, in:Lima: 2007:141). Por que não houve uma outra linha de investigação para o caso do mensalão? Por que se preferiu o caminho mais fácil de colocar todos os “envolvidos” em um mesmo campo semântico, extremamente negativo, diga-se de passagem: mensaleiros, sanguessugas e vampiros. Essa será a linha editorial dos principais meios de comunicação de massa. Exaltam-se as qualidades dos candidatos da oposição e conferem ao Partido dos Trabalhadores e ao Presidente Lula a pecha de vilões da política brasileira. Entretanto, esses “recursos jornalísticos” serão, de certa forma, sobrepostos pelo discurso do candidato/presidente Lula, mesmo diante de um linchamento midiático nunca visto na vida política brasileira.. Em 2006 os brasileiros, pelo seu voto, sepultaram o que poderíamos chamar de “síndrome da Rede Globo” – a mania da família Marinho de querer instituir a história do Brasil em vez de se limitar a relatá-la. Creio ser esse o maior significado dessa eleição na esfera da comunicação. Ela aponta para o fim de todo ciclo que se iniciou quando os militares delegaram à Rede Globo a tarefa de controlar ideologicamente a sociedade brasileira a partir do momento em que o controle pela força se tornasse inviável. Acabou-se o poder instituinte da Rede Globo. (Lima 2007:144). Não se deve pensar apenas que as organizações Globo agiram como partido político nas eleições de 2006. A editora Abril (diga-se Veja), a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo entre outras, usaram os padrões de manipulação denunciados por Perseu Abramo e declararam guerra ao governo do PT.. - 30 -.

(32) Após a publicação pela Folha de São Paulo, em 6 de junho de 2005, de uma entrevista com o então deputado federal governista Roberto Jefferson (PTB-RJ – Partido Trabalhista Brasileiro), um setor dos meios de comunicação de massa avaliou que havia espaço para declarar uma guerra político midiática contra a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma parte desse setor entendia que era possível encurtar o mandato de Lula ou no mínimo conseguir garantias de que o presidente não disputaria sua reeleição. Isso foi verbalizado de forma clara à revista Exame de 1º de julho de 2005 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC): “Lula deveria anunciar que não é mais candidato à reeleição. Deveria escolher projetos importantes e abrir negociação com todos”. (Lima 2007:115). Percebe-se que a grande mídia e a principal oposição ao governo atuaram em bloco, minando de todas as formas a gestão petista e tentando inviabilizar a candidatura de Lula à reeleição. Essa ação conjunta, contudo, como mostra a história, não logrou êxito.. Entretanto, a grande novidade na análise das relações entre mídia, política e eleições de 2006 não é a atuação política assumida pela mídia, que em razoável medida retrocede a uma postura partidarizada como a de 1989, mas o enorme descompasso e o acentuado contraste entre a ampla, e muitas vezes feroz, cobertura predominantemente contrária ao governo, ao PT e ao candidato presidente Lula, e a posição favorável à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expressa pela parcela majoritária da população brasileira, em especial em seus setores populares, através de inúmeras sondagens de opinião e dos resultados do primeiro turno e, principalmente, do segundo turno da eleição. Neles, Lula obteve, respectivamente, 46.661.741 votos (48,6% dos votos válidos) e 58.295.042 votos (60,8% dos votos válidos), maior votação absoluta e a segunda maior votação relativa de um candidato a presidente do Brasil. (Lima 2007:162). 2.4 AS NOTÍCIAS VEICULADAS ACERCA DO GOVERNO LULA NÃO CORRESPONDIAM ÀS MUDANÇAS SOCIAIS POR QUE PASSAVA O BRASIL. A grande mídia e setores da oposição apostaram no desgaste natural de um governo, aliado à “artificialização” de uma crise. Acreditaram que as classes A e B, formadoras tradicionais da opinião pública, iriam multiplicar os votos, atraindo as classes menos abastadas para a candidatura tucana. Entretanto o que se percebeu após a contagem dos votos foi justamente o contrário. A “classe C”, com ganhos de dois a cinco salários mínimos, foi incorporada à classe média. Algumas estatísticas estimam que mais de seis milhões de brasileiros. - 31 -.

(33) migraram, no governo Lula, para a classe média, outros milhões que viviam abaixo da linha pobreza conseguiram fazer as três refeições diárias. Some-se a esse enorme contingente os eleitores orgânicos, aqueles que sempre votam em determinado candidato ou partido político. Segundo algumas pesquisas, Lula teria 30% desse eleitorado. (Lima 2007) Não se pode negar as profundas mudanças por que passou a sociedade brasileira em função de uma política social focada nas camadas menos favorecidas. A oposição irá denominar tais políticas de assistencialista e a grande mídia irá reproduzir o seguinte mote: não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. Esse enunciado, carregado de ideologia, foi e é repetido, freneticamente não apenas pela imprensa e partidos de oposição, mas também por parte da população brasileira. Mas como se aprende a pescar com fome? Como se aprende a nadar afogando-se? Evidentemente que o peixe deve ser dado enquanto se aprende a pescar; o afogado salvo para depois ser ensinado a nadar. Na analise do corpus, verificamos quais argumentos foram utilizados por Lula, a fim de construir uma nova identidade para si: um homem do povo com discurso e prática política desenvolvimentista e ética; diferentemente do que era apregoado por setores da mídia e da oposição que, ao longo da campanha, denominavam as ações do Governo e, por conseguinte, os discursos do Presidente de populista e assistencialista. O candidato oficial à Presidência da República escolhido pela grande mídia foi, sem sombra de dúvidas, Geraldo Alckmin. Mesmo nos momentos mais críticos do governo PSDB/PFL, como o terror que o Primeiro Comando da Capital – PCC – (organização criminosa criada e dirigida dentro de presídios em São Paulo) – impôs ao estado Paulista; a imprensa, de um modo geral, foi extremamente complacente em relação ao candidato e ex-governador tucano, ao federalizar um problema de segurança pública localizado no estado do ex-governador de São Paulo e agora candidato do PSDB à presidência da República. A grande imprensa também, silenciou-se diante de vários escândalos no Governo de São Paulo, que não se transformaram em Comissões Parlamentares de Inquérito, em função de o governo tucano ter a maioria dos deputados na Assembléia Legislativa daquele estado.. - 32 -.

Referências

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