O impacto da criptomoeda nas empresas de software em Portugal
Ana Filipa Pires NogueiraDissertação
Mestrado em Economia e Gestão da Inovação
Orientado por
Prof. José Pedro Coelho Rodrigues
Agradecimentos
Ao meu orientador, Prof. José Pedro Coelho Rodrigues, quero agradecer por ter aceite o desafio que lhe propus e por todo o seu apoio e constante disponibilidade.
Às quatro entidades que se disponibilizaram para a realização de entrevistas, e que, com isso, puderam contribuir para o meu estudo, um especial agradecimento por toda a partilha de conhecimento e simpatia que transmitiram durante todo o processo.
A todos os professores e colegas do mestrado, que tive a oportunidade de conhecer, também gostaria de deixar o meu agradecimento, por de uma maneira ou de outra terem contribuído para o meu percurso académico.
À minha família e ao meu namorado, que foram o incentivo para me inscrever no mestrado, um enorme agradecimento, por todo o apoio.
Resumo
A adoção de criptomoeda é um tema inovador que pretende revolucionar a sociedade como é conhecida. Para tal, é necessário que se normalizem os processos e se torne facilmente acessível a qualquer pessoa. Baseado nessa abordagem surge esta dissertação, com o principal objetivo de dar resposta a duas questões:
1. Quais as vantagens e desvantagens que a criptomoeda pode trazer para as empresas e utilizadores?
2. Qual o impacto, a nível técnico, económico e pessoal, que a utilização da criptomoeda pode trazer para empresas de software portuguesas?
Para responder a estas questões utilizou-se uma metodologia qualitativa, dividida em preparação do estudo, recolha de dados e por fim, apresentação, discussões e conclusões dos mesmos. Inicialmente fez-se um levantamento de estudo de caso e também uma recolha de literatura, sendo que os casos escolhidos levaram à possibilidade de realização de entrevistas que permitiram a recolha de dados mais específicos nomeadamente, sobre que vantagens e desvantagens, os utilizadores e as empresas, consideram que a tecnologias lhes pode proporcionar.
Por fim, as conclusões a que este trabalho empírico conduziu, revelam que a utilização de criptomoeda pode conduzir a um impacto positivo para o utilizador e para a empresa. Contudo, a nível empresarial, para que a adoção da criptomoeda seja bem sucedida é essencial que o negócio passe por uma fase de adaptação à nova tecnologia, preparando estratégias que satisfaçam necessidades que possam surgir, como por exemplo, a contratação de pessoal especializado na área. Em suma, conclui-se que a utilização é cada vez mais utilizada em contexto empresarial e como forma de levantamento de capital. As principais vantagens apresentadas foram relativas a baixos custos associados nas transações com criptomoedas, e à transparência que a tecnologia pode fornecer, já as desvantagens apontaram para a constante variação de valor da criptomoeda e ainda a possibilidade de o utilizador poder perder a sua carteira digital, sem ter a possibilidade de a recuperar.
A limitação que mais impacto teve na dissertação, foi relativa à reduzida quantidade de empresas de software que utilizam criptomoeda, em Portugal. Esta limitação influenciou os resultados obtidos, uma vez que se trata de um estudo empírico e apenas quatro empresas se disponibilizaram para a realização de entrevistas, o que limitou a variedade de informação recolhida.
Abstract
Cryptocurrency adoption is an innovative subject that intends to revolutionise society as we know it. For that, it is necessary that processes are normalised and that it becomes easily accessible to any person. That is the approach on which this dissertation is based, whose main objective is to answer two questions:
1. What are the advantages and disadvantages that cryptocurrency can bring to companies and users?
2. What is the impact, technically, economically and personally, that cryptocurrency use can bring to Portuguese software companies?
To answer these questions, a qualitative methodology was used - divided in preparing the study, gathering data, and finally, presenting, discussion and concluding it. Initially, a case study audit was done, as well as a revision literature gathering - being that the chosen cases led to the possibility of conducting interviews, which in turn allowed for the gathering of more specific data: namely, about the advantages and disadvantages that both users and companies think this technology can bring them.
Finally, the conclusions this empirical work led to reveal that the use of cryptocurrency can lead to a positive impact for the user and for the company. However, at the company level, in order for cryptocurrency to be successfully adopted, it is essential that the business goes through a phase of adaptation to the new technology, preparing strategies that satisfy the needs that may arise, such as for example, hiring specialised staff.
In summary, we conclude that this technology is mainly used in a corporate c context, and as a way to withdraw capital. The main advantages presented related to the low costs that are associated to cryptocurrency transactions, and the transparency that the technology can provide. The
disadvantages pointed towards the constant variation of cryptocurrency value, and the possibility that the user can lose their digital wallet without having the chance to recover it.
The most impactful limitation on this dissertation had to do with the small amount of companies that use cryptocurrency software in Portugal. This limitation influenced the results we obtained, since this is an empirical study and only four companies made themselves available to interviews, which limited the variety of the information that was gathered.
Índice
1. Introdução ... 1
2. Revisão de literatura ... 3
2.1. Da moeda tradicional à criptomoeda ... 3
2.2. História da criptomoeda ... 4
2.3.A evolução da blockchain ... 5
2.4.A evolução da criptomoeda ... 8
2.4.1. ICO’s ... 13
2.5. Vantagens e desvantagens na adoção de criptomoeda ... 15
2.6. O impacto das tecnologias no setor financeiro, o caso da blockchain ... 18
3. Método ... 21
4. Análise dos resultados ... 25
4.1. Principais resultados ... 25
4.1.1. Utilização e contexto ... 25
4.1.2. Propósitos que levaram a empresa à utilização de criptomoedas ... 26
4.1.3. Criptomoedas mais utilizadas ... 28
4.1.4. Alternativas ... 28 4.1.5. Vantagens ... 28 4.1.6. Desvantagens ... 30 4.2. Outros resultados ... 34 5. Discussão ... 38 6. Conclusões ... 42 Referências ... 46 Anexos ... 50
Índice de imagens
Figura 1- Linha de tempo da blockchain. ... 7
Figura 2 – Gráfico da capitalização de mercado da criptomoeda ... 11
Índice de tabelas
Tabela 1 – Dados Hold ... 22Tabela 2 – Dados Utrust ... 23
Tabela 3 – Dados Aptoide ... 24
Tabela 4 – Resumo dos resultados principais ... 33
Tabela 5 – Resumo dos resultados secundários ... 37
1. Introdução
Atualmente, os conceitos blockchain e criptomoeda têm sido bastante reconhecidos e explorados pela sociedade em geral. Este tipo de tecnologia parece conseguir criar novas oportunidades e desafios, particularmente em empresas, contribuindo para um melhor desempenho a uma maior velocidade, para além do visível crescimento no número de empresas que estão a começar a envolver pagamento de bens e/ou serviços com criptomoedas específicas (Hudson, 2019).
Embora as tecnologias que constituem a blockchain já existam há vários anos, só nos últimos tempos é que a sua utilização se tornou popular através da bitcoin, umas das criptomoedas mais conhecidas. A bitcoin veio criar um novo paradigma: a descentralização da confiança em transações eletrónicas seguras sem a necessidade de uma autoridade de controlo central ou de intermediários. Prevê-se, com o avanço da popularidade de outras criptomoedas, que será uma inovação que afetará uma grande proporção da sociedade e da indústria (Miltiadis D. Lytras, Julio C. Mendoza-Tello, Higinio Mora, & Francisco A. Pujol-López, 2019). Com o aparecimento da bitcoin, um pequeno nicho de empresas começou a demonstrar algum interesse sobre a tecnologia, como por exemplo a Microsoft que começou a aceitar pagamentos através de bitcoin. Rapidamente, ao longo dos tempos, outras grandes empresas acabaram também por aderir, desde a Samsung que, com o lançamento do Galaxy S10, incluiu uma carteira embutida que permite “guardar” criptomoedas, até o Facebook que decidiu investir na sua própria criptomoedas, entre outras tantas como a Starbucks, Tesla, Google, Apple e Intel (Martucci, 2018).
É, portanto, evidente o aumento do número de empresas que procuram utilizar este tipo de tecnologia, com mudanças significativas no seu negócio e nos produtos que fornecem aos clientes. O que ainda não é totalmente claro é o verdadeiro impacto que o uso da criptomoeda pode ter nas empresas. Sabe-se que a diferença começou a ser notável em empresas do setor financeiro. Contudo, nos últimos tempos em todas as outras áreas começa a existir uma interligação com a tecnologia, descentralizada e segura, fazendo com que as empresas repensem a sua posição no mercado e possam vir a considerar a utilização da criptomoeda. Embora o número de novas empresas, que iniciam os seus projetos com base em blockchain e criptomoeda, tenha vindo a crescer, o impacto analisado dessa adesão é
ainda pouco significativo, ainda que os seus investidores estejam confiantes que os retornos no futuro serão elevados (Dutra, M. Welpe, & Tumasjan , 2018).
O fato de serem conceitos tão recentes, cria dificuldades de perceção no que toca a alguns pontos que podem ser relevantes para quem vende os produtos e para quem os compra. Esta dissertação tem como objetivo identificar em que dimensões da empresa é que a adoção da ciptomoeda tem impacto. Para isso serão recolhidos dados sobre os verdadeiros propósitos que levaram algumas empresas a aderir à tecnologia, quais as alternativas que se podem encontrar e por fim analisar todas as vantagens e desvantagens encontradas, nomeadamente face às alternativas. O foco passará por um estudo empírico de alguns casos baseados em empresas de desenvolvimento de Software Portuguesas, sendo que será utilizada uma metodologia qualitativa, analisando e explorando dados provenientes não só da literatura e de notícias, mas também de entrevistas vindas de outras fontes, onde se obteve feedback sobre este tópico em primeira mão.
Com isto, a presente dissertação exibe uma estrutura divida em cinco pontos: primeiro um levantamento de literatura existente, criando uma base de conhecimento para o resto do estudo; segundo a apresentação do método utilizado e das empresas que foram entrevistadas; terceiro apresentação dos resultados, com as entrevistadas realizadas e outras entrevistas relevantes; por último, o quarto e quinto ponto, apresentam as discussões e conclusões, com o intuito de aprimorar toda a informação recolhida e chegar a uma resposta para as questões levantadas.
2. Revisão de literatura
Esta secção documenta o resultado de uma pesquisa com o objetivo de explorar toda a informação existente, desde o início do estudo da criptomoeda até ao que se conhece nos dias de hoje. São aprofundados os conceitos de criptomoeda e blockchain, apresentando a evolução a da tecnologia, assim como as principais vantagens e desvantagens que a sua utilização pode trazer para os utilizadores e empresas.
A base incidirá em vários autores, artigos científicos, revistas científicas e económicas, para que se possam estabelecer alicerces que contribuam para um bom desenvolvimento e apoio a esta dissertação. É interessante reparar na tendência que a investigação tem para divergir para a evolução da tecnologia e a forma como as empresas podem tirar proveito dela.
2.1. Da moeda tradicional à criptomoeda
O dinheiro é normalmente associado a notas ou moedas físicas e, tem diversas funções como o pagamento de bens e serviços, transações financeiras, entre outros. Quando se fala em dinheiro, fala-se em algo que significa valor, que tem funções como servir de meio de pagamento, ser de fácil transporte, aceite em toda a comunidade, que contém um valor normalmente constante e que faz com que exista economia, através da fiscalização concebida pelos bancos centrais de cada país.
Comparado moedas tradicionais com criptomoedas, ambas detêm características semelhantes como: serem uma unidade de medida que permite a comparação de valor entre diferentes bens e serviços, ambas servem como um meio de pagamento, possuem o mesmo valor em todo o mundo, e poderão não ser cobradas taxas de câmbio, a menos que seja para troca de outras moedas. Porém existem ainda algumas diferenças que as distinguem como: o facto de as criptomoedas terem maior poder de portabilidade, em que para se conseguir aceder a criptomoedas é necessário uma chave de acesso; embora o número de pessoas e empresas que aceitam a utilização de criptomoedas tenha vindo a aumentar o acesso a esse tipo de moeda ainda tem algumas limitações; as criptomoedas mostram bastante volubilidade relativamente ao seu valor; esta, ao contrário da moeda tradicional, não é controlada por bancos ou por outra qualquer entidade de supervisão (Barros, 2019).
2.2. História da criptomoeda
O conceito teórico de criptomoeda já foi introduzido há vários anos, muito antes de ser lançada a primeira moeda virtual. A ideia surgiu de investigadores que pretendiam alcançar, através da matemática e das ciências da computação, soluções que resolvessem algumas deficiências práticas e políticas das moedas físicas como conseguir uma maior independência do estado ou a importância de garantir privacidade nas transações (Martucci, 2018).
Os primeiros desenvolvimentos técnicos datam dos inícios dos anos 80, com David Chaum a inventar “dinheiro eletrónico incondicionalmente não rastreável”, através de um algoritmo computacional que permitia trocas de informações seguras e imutáveis. Contudo existia a desvantagem de ser muito mais fácil replicar dinheiro virtual do que o físico (Chaum, 1988). Com o passar do tempo várias soluções foram propostas para remediar esse problema como, Dwork e Naor, que em 1992 conseguiram o acesso a recursos para combater e-mails indesejados e Back que em 1997 apresentou outro projeto semelhante (Barros, 2019). Chaum, nos finais dos anos 80 fundou uma empresa com fins lucrativos, a DigiCash, que produzia moedas virtuais através de um algoritmo que criou. O domínio das moedas DigiCash não era descentralizado, logo a empresa continha o monopólio da oferta. Contudo o seu potencial ficou em risco quando o banco central da Holanda (país de origem da empresa) lançou um ultimato à empresa exigindo que apenas vendesse dinheiro para bancos licenciados. Mais tarde foi a vez da Microsoft tentar fazer uma pareceria com a mesma empresa, solicitando que fosse permitido aos primeiros utilizadores do Windows a possibilidade de realizarem compras com a moeda DigiCash, o que acabou por não acontecer devido a um desentendimento entre as duas empresas, levando posteriormente à falência da DigiCash, no fim dos anos 90 (Martucci, 2018).
Foi nesta altura que Wei Dai introduziu o conceito de b-money, uma nova arquitetura de moeda virtual que contempla “muitos dos componentes básicos das criptomoedas modernas, como proteções complexas de anonimato e descentralização” (Martucci, 2018, p. 1, tradução livre). Porém este tipo de arquitetura nunca foi adotado. Logo em seguida, também Nick Szabo criou e lançou para o mercado mais uma criptomoeda, a Bit Gold, que já utilizava um sistema blockchain (que atualmente é a tecnologia base utilizada por todas as criptomoedas existentes), contudo foi mais um fracasso (Martucci, 2018).
Só no ano de 2008 é que Satoshi Nakamoto escreveu um artigo a esboçar a primeira criptomoeda moderna, a bitcoin, que é a primeira moeda pública onde há uma conjugação tecnológica que permite descentralização, utilizador anónimo e escassez interna, com base em tecnologia blockchain. Com o lançamento da criptomoeda o utilizador poderia beneficiar de um anonimato total, em que o mesmo tinha a possibilidade de comprar ou vender bitcoin sem ver qualquer informação sua ligada à transação (Nakamoto, 2008).
Umas das fortes características que a bitcoin tem é ser descentralizada, ou seja, disponibiliza a possibilidade de atuar livremente sem a influência ou domínio de uma entidade superior, política ou bancária. Com a utilização da blockchain é possível criar um “livro aberto” onde é possível visualizar todas as transações que são executadas, o que faz com que exista uma ligação mais direta entre quem compra e quem vende criptomoedas, reduzindo a possibilidade de erros (Meiklejohn & Danezis, 2015). A escassez é uma condição essencial para que se torne possível conceder valor a dinheiro, em que a um nível micro atua como forma de adulteração, já a um nível macro, imobiliza o crescimento de dinheiro mantendo os preços estáveis. A bitcoin surgiu com o primeiro mecanismo capaz de fornecer uma escassez interna absoluta por acréscimo de dinheiro (Moore, Edelman, Christin, & Böhme, 2015).
Em 2009, a bitcoin foi lançada no mercado e a sua adesão foi bastante favorável, todavia apenas em 2010 é que começaram a ser realizadas as primeiras trocas públicas e se estrearam também outras alternativas, como a litecoin. Passado dois anos, grandes empresas como a WordPress, a Microsoft e a Expedia começaram a permitir que os pagamentos fossem feitos utilizando bitcoin, a criptomoeda que veio estabelecer um novo paradigma para a sociedade e que conseguiu, pela primeira vez para uma moeda virtual, transmitir confiança e legitimidade nos pagamentos (Martucci, 2018).
2.3. A evolução da blockchain
A blockchain é uma tecnologia que funciona como um livro, onde tudo é registado em blocos interligados, o que torna difícil ludibriar o sistema, pois para se conseguir modificar um bloco é necessário que todos os que a ele estejam ligados, modiquem também. Trata-se de uma rede onde as pessoas, após uma verificação de identidade, podem realizar qualquer tipo de transações de informação sem necessitar da intervenção de terceiros. É importante salientar que a utilização do conceito de blockchain é informal, no sentido em que a maior parte das
vezes é definida pela circunstância de utilização, que reflete uma estratégia de marketing, sendo em todos os casos garantida a segurança e restantes propriedades que são características da blockchain e serão apresentadas mais adiante (Hoonsopon & Viriyasitavat, 2019).
Segundo Toueg e Bracha, a blockchain é definida como “Um sistema no qual um registo de transações feitas com bitcoin ou outra criptomoeda, é mantido em vários computadores que estão ligados por uma única rede” (Toueg & Bracha, 1985, p.824, tradução livre). As criptomoedas são consideradas recursos que utilizam a blockchain como base (Toueg & Bracha, 1985).
O IEEE (instituto de engenharia elétrica e eletrotécnica) publicou um artigo, com o nome “Do you need a Blockchain?”, onde descreve várias características que a tecnologia pode proporcionar. Umas delas refere-se ao facto de ser um sistema em que qualquer individuo pode ter perceção dos procedimentos que ocorrem dentro da blockchain, pois ser um sistema distribuído faz com que cada transação compilada, necessite de ser validada por um grupo específico de utilizadores. Contudo, o facto de ser um sistema unificado faz com que quem analisa essas transações, não consiga obter um total controle sobre se o seu estado foi bem sucedido, e nesse sentido podem contar com o sistema tecnológico para lhes fornecer qual o estado correto (Wüst & Gervais, 2018).
Duas propriedades bastante importantes para qualquer que seja a tecnologia, e que a blockchain garante entregar aos seus utilizadores, é a transparência dos dados e ao mesmo tempo privacidade das informações referentes ao utilizador. Revela clareza no que toca a certa informação e a métodos de atualização de estado, porém contém informação restrita a cada utilizador, cada um deles tem acesso a determinado tipo de informação. Na blockchain é necessária uma autorização para qualquer alteração, o que leva à existência de uma integridade do sistema, em que todos os dados são protegidos, garantindo assim privacidade a cada utilizador. Esta verificação excessiva da informação é bastante importante em muitas das utilizações da blockchain, esta redundância de dados que a tecnologia fornece é uma propriedade intrinsecamente fornecida pelos observadores que tratam de replicar diferentes servidores e de fazer vários backups ao sistema (Wüst & Gervais, 2018). Mais adiante será melhor especificado quem são estes utilizadores que tratam de validar as transações.
A Figura 1 representa toda a evolução da blockchain, representada numa linha temporal, relativamente às funções que foi adquirindo:
Figura 1- Linha de tempo da blockchain
Fonte: 101 blockchains (2018)
Sobre a história da blockchain, sabe-se que o termo só começar a ser conhecido desde o aparecimento da primeira criptomoeda, a bitcoin, algo semelhante já teria sido imaginado por Stuart Haber e W. Scott Stornetta no ano de 1991, com o desenvolvimento de um trabalho que consistia numa cadeia de blocos protegida através de criptografia, prevenindo assim o desfralde de carimbos em documentos. No ano seguinte ainda se chegou à implementação de algo mais eficiente, mas só em 2008 com o lançamento do artigo de Satoshi Nakamoto, como referido na secção anterior, é que o conceito blockchain começa a ganhar prestígio e a ter muitas outras aplicações. Nakamoto apresenta a bitcoin como uma aplicação da blockchain, mas também descreve todos os detalhes sobre a tecnologia provando que transmite confiança digital, uma vez que é um sistema descentralizado (Goyal, 2018).
Em 2013 iniciou-se uma nova fase com o aparecimento da blockchain 2.0, em que Vitalik Buterin tornou a blockchain mais adaptável, passando a permitir a execução de novas funções, como a possibilidade das pessoas registarem outras, através por exemplo de contratos. Em 2015 ocorreu o lançamento oficial da ethereum blockchain com a competência de suportar contratos inteligentes usados para o bom funcionamento de diferentes funções. Desde então, cada vez mais novos produtos/serviços estão a ser desenvolvidos como recursos à blockchain. Um exemplo de uma nova criptomoeda que já começa a ter bastante prestígio é a IOTA que se trata de um recurso blockchain de segunda geração, pode ser otimizada para um sistema de internet das coisas (IoT), fornecendo zero taxas de transações e vários processos de verificação exclusivos, para além de resolver problemas antigos associados à bitcoin. Todo o processo é passado numa rede pública de blockchain, à qual qualquer individuo pode ter acesso, no entanto, com a evolução emergente da tecnologia várias empresas começaram a ter proveito da mesma, apenas como forma de aumento da eficiência operacional (Goyal, 2018).
2.4. A evolução da criptomoeda
De maneira geral e segundo a European Company and financial law review, as criptomoedas podem ser dividas em três tipos: moeda, tokens de utilidade e de investimento. As criptomoedas em forma de moedas, são geralmente originárias de ICOs e desenvolvem um meio de pagamento por bens ou serviços exteriores à tecnologia. Já os tokens de utilidade, para além de terem o mesmo comportamento, conduzem ainda alguma utilidade funcional aos investigadores no que toca a acesso de um produto que os próprios criaram, neste caso os tokens são produzidos pelos emissores de criptomoeda. Por fim, os tokens de investimento comprometem-se com aos investidores relativamente a retornos futuros em criptomoedas. É importante realçar que os tokens que pretendem servir como utilidade também podem ter um componente de investimento, visto que cada token pode ser negociado e vendido com lucro (Thomale & Hacker, 2018).
As propriedades que melhor as caracterizam as criptomoedas são:
• Controlo total de fundos baseados em criptomoedas, em que cada utilizador possui uma chave privada que corresponde a uma moeda virtual, esta pode ser utilizada de “forma especulativa ou como meio de troca, os fundos não podem ser apreendidos
e as transações não podem ser censuradas” (Hileman & Rauchs, 2017, p. 106, tradução livre);
• Cada token nativo, correspondente a cada criptomoeda, fornece uma base resistente no que toca à reprovação ou censura da mesma, esta é uma característica fundamental;
• As criptomoedas fornecem a possibilidade de pagamentos de forma rápida, económica, global e irreversível;
• Funcionam de uma maneira descentralizada, sem a necessidade de nenhuma autoridade de controlo, tal como a blockchain (Hileman & Rauchs, 2017).
Contudo, a sua principal característica é o poder de mineração, que acaba por ser intrínseca às criptomoedas, pois sem este processo elas não poderiam existir. Segundo a Forbes, trata-se de um procedimento mais complexo do que apenas “encontrar moedas” (Evangelho, 2018, p. 1, tradução livre). Como já foi referido anteriormente, o sistema de validação de transações que ocorrem na blockchain é verificado por utilizadores com o nome de mineradores, estes possuem um hardware que mantem a estrutura a funcionar, responsável por garantir a autenticidade das informações e atualizar a blockchain com a transação. Como recompensa do esforço aplicado, cada minerador recebe uma nova criptomoeda do tipo que está a minar (Evangelho, 2018).
Umas das formas mais simples para o utilizador usar e armazenar criptomoedas são as carteiras virtuais. Tratam-se de pequenos cartões com um microprocessador onde a memoria é armazenada, com um poder de compra numa conta oscilante, previamente aberta quer seja num banco, quer seja numa entidade emissora da criptomoeda. A compra é efetuada sem envolver informações sobre o seu utilizador, ou seja, as carteiras têm como grande benefício no que toca a segurança e ainda de uma forma simplicista para o utilizador (Sahut, 2008). Após o aparecimento da bitcoin, cerca de 1500 novas criptomoedas foram desenvolvidas, das quais apenas 600 ainda se encontram ativas (ElBahrawy, Alessandretti, Kandler, Pastor-Satorras, & Baronchelli, 2017). Apesar de serem todas baseadas em tecnologias blockchain, todas elas estão alocadas a diferentes redes podendo ter diferentes finalidades. Cada vez mais o interesse por este tipo de moedas está a aumentar, o que tem conduzido a uma progressão tecnológica e a uma crescente regulação dos mercados.
• Bitcoin: a criptomoeda mais conhecida e mais mencionada neste relatório, por consequente, foi então a primeira moeda descentralizada a ser criada por Nakamoto. Para além de poder ser utilizada para a compra de produtos, serviços ou para troca por outras moedas, é produzida como recompensa gerada por um processo de mineração. “A universidade de Cambridge estima que em 2017 existiriam entre 2,9 a 5,8 milhões de utilizadores” a utilizar uma carteira digital, em que a maior percentagem era ocupada pela bitcoin (Bhsolae & Mavale, 2018, p. 1, tradução livre); • Ethereum: ou também conhecida como ether, pois advém de uma blockchain específica de rede ethereum, com características comuns a qualquer outras blockchain, disponibilizando o seu código e baseando-se em blocos. Foi inicialmente apresentada em 2013 por Vitalik Buterin, tornando acessíveis para venda cerca de 11,9 milhões de moedas aos utilizadores. Serve como método de pagamento de serviços e é considera uma versão melhorada da bitcoin. O seu valor tem crescido bastante nos últimos anos (Bhosale & Mavale, 2018);
• Litecoin: foi criada em Outubro de 2011 por Charles Lee, com o objetivo de processar transações a um menor valor, o mais rápido possível. Nos dias que correm é considerada uma adversária da bitcoin, pois para além de existirem mais Litecoins em circulação do que bitcoins, as Litecoins têm um grande poder de processamento no que toca a minerar, sendo acessível em qualquer computador pessoal, o mesmo não acontece com a bitcoin (Bhosale & Mavale, 2018);
• Ripple: teve início em 2012, fundada pela empresa OpenCoin, de quem Chris Larsen é líder, com o intuito de funcionar como um sistema de pagamento, rápido e permitindo transferências por qualquer tipo de moeda (Bhosale & Mavale, 2018).
Desta análise pode-se concluir que uma das principais funções das criptomoedas são os pagamentos, embora possam ter outros fins como as transferências de dinheiro entre países diferentes ou a conversão de valores entre moedas com taxas associadas muito reduzidas. São estes fatores que tornam o mercado das criptomoedas único e com um preço que está sempre em constante oscilação. Acerca do poder de minar moedas em sistemas distribuídos sabe-se que atualmente a Google e outras grandes empresas utilizam a cloud como forma de
armazenamento, mas teriam mais vantagens economicamente se começassem a utilizar sistemas distribuídos (Bhosale & Mavale, 2018).
O crescimento no mercado das criptomoedas é evidente, sendo que atualmente a bitcoin o lidera, embora seja constantemente desafiada por “preocupações técnicas e por melhorias tecnológicas de outras criptomoedas”. Segundo um estudo de mercado realizado entre Abril de 2013 e Maio de 2017 publicado pela revista “The Royal Society”, a bitcoin foi perdendo alguma vantagem em relação a outras criptomoedas. O estudo refletiu sobre o histórico da participação das diferentes criptomoedas no mercado, onde se concluiu que após um período de pouca movimentação, a partir de maio de 2017 a capitalização do mercado subiu quatro vezes mais do que no mesmo mês do ano anterior (ElBahrawy, Alessandretti, Kandler, Pastor-Satorras, & Baronchelli, 2017).
A figura 2 apresenta um gráfico que ilustra a evolução da capitalização de mercado das criptomoedas entre 2013 e 2017.
Figura 2 – Gráfico da capitalização de mercado da criptomoeda
Como pode ser observado na figura 2, a capitalização de mercado obteve um crescimento exponencial entre o final do ano de 2015 até 2017, sendo que a bitcoin sofreu uma pequena diminuição comparativamente a outras criptomoedas ativas. Relativamente ao valor que estas representam no mercado é bastante evidente que a criptomoeda com maior preço sempre foi a bitcoin (ElBahrawy, Alessandretti, Kandler, Pastor-Satorras, & Baronchelli, 2017). Através do site Coin Market Cap, que emite o estado de evolução no mercado das criptomoedas, consegue-se perceber que entre a bitcoin, a ethereum, a litecoin e a ripple, a criptomoeda que domina o mercado é sem dúvida a bitcoin, visto que sempre esteve no domínio de preços aplicados a cada uma das restantes moedas (coinmarketcap, 2013). O que realmente faz com que estes preços estejam em constante oscilação ainda é um tema bastante debatido nos dias de hoje. Contudo, segundo Yhlas Sovbetov, podem existir fatores internos e externos que influenciem os valores que cada criptomoeda pode tomar (Sovbetov, 2018).
Os fatores internos que podem ter influência são os da oferta e da procura com: • custos de transação associado;
• sistema de recompensa;
• dificuldade de mineração e circulação de moedas.
Os fatores externos a ter em conta, que podem ter efeito no mercado de criptomoedas, são por exemplo:
• o tipo de popularidade ou atratividade da criptomoeda – na tendência de mercado vencem fatores como as especulações;
• a existência de mercados de ações, a nível de sistemas macro-financeiros;
• no rating de taxas de câmbios prevalecem fatores externos como o preço do ouro, taxa de juros, entre outros, e ainda a nível político é exigido alguma legalização e restrições a ter em conta (Sovbetov, 2018).
2.4.1. ICO’s
Quatro anos após o lançamento da bitcoin, surgiu uma nova modalidade de criação da criptomoeda como forma de captura de recursos para as empresas, com o nome de ICO, que em Português quer dizer oferta inicial de moeda, também com base em tecnologia blockchain. Esta modalidade concede às empresas a possibilidade de uma nova iniciativa de financiamento, construído a sua própria criptomoeda através de tokens que podem ser transmitidos entre clientes, investidores, fornecedores ou outros interessados. Este tipo de tokens podem ser usados na internet ou vendidos, com o intuito de no futuro poderem ser utilizados para adquirir produtos, serviços ou lucros (Chohan, 2020).
Segundo um artigo publicado na conferência IEEE (instituto de engenharia elétrica e eletrotécnica) ICE/ITCM (International Conference on Engineering, Technology and Innovation) de 2019, os investidores ainda não estão totalmente confiantes na aplicação deste conceito. Com base nesta premissa, os autores do estudo identificaram fatores críticos, assim como formas de utilização de ICOs para garantir rentabilidade para a empresa. Para isso, dizem ser importante para qualquer empresa ou organização, ter bem estruturado e integrado “o modelo de negócio, o plano de negócio e o plano de comunicação, com o plano do token” (Redaelli, Camoesa, Rigotti , & Spinedi, 2019, p.1 , tradução livre).
O artigo realça a importância do modelo de negócio e como este pode influenciar a missão da empresa, a estratégia, meios de promoções de venda, entre outros. Para isso é necessário que a empresa idealize quatro pontos estratégicos: uma estratégia bem definida sobre o contexto que pretende utilizar como forma de negócio; uma análise SWOT conduzindo a hipóteses de pontos fracos, fortes, oportunidades e ameaças; deve ainda fazer uma análise de mercado e por fim assegurar uma estratégia específica para a ICO (Redaelli, Camoesa, Rigotti , & Spinedi , 2019).
O plano de negócios também é de extrema importância, pois estima-se que não sendo bem estruturado pode ser uma das causas de insucesso das empresas. Por isso, é importante reter alguns pontos como um estudo da perda e do lucro que a empresa pode adquirir, fazer uma plano de investimento, entre as carências de investimento e a angariação de recursos, por fim é necessário fazer balanço entre todos os recursos e validar se o contexto da empresa tem fundamento e de que maneira pode contribuir para o rendimento da empresa (Redaelli, Camoesa, Rigotti , & Spinedi , 2019).
Por fim o plano de comunicação deve enfatizar a nova relação que será construída entre todas as partes envolvidas, trazendo assim um ambiente e uma relação estável, de confiança
e de transparência. A relação direta que se concebe, sem intermediários, traz novas medidas de comunicação entre os produtores e os fornecedores, como por exemplo através de roteiros ou de documentos com informações necessárias, levando tudo isto à desejada transparência e confiança (Redaelli, Camoesa, Rigotti , & Spinedi , 2019).
Estudos de Caso de utilização de ICO
A Universidade de Maryland, apresentou estudos de caso sobre empresas que estão diretamente ligadas com criptomoeda e ICOs especificamente. O documento aborda vários caminhos possíveis quando o assunto trata de produção e venda de ICOs, revelando a importância da existência de sistemas credíveis que devolvam firmeza, confiança, e bons fundamentos no que toca às transações entre os tokens da ICO em questão (Rhue, 2018). O artigo começa por fazer referência a relatórios exibidos pela CoinDesk, um site próprio de exibição de relatórios sobre criptomoedas, em que os mesmos revelaram factos interessantes sobre o ano de 2017, que teve início com apenas cinco tokens por mês, e acabou com 175 por mês. Acredita-se, e como já foi referido, que a causa está no possível levantamento de capital que uma empresa pode vir a adquirir e os retornos que os seus investidores possam vir a alcançar. Segundo o que a Coin Market Cap apresenta, em março de 2018 existiam cerca de 1566 moedas com uma capitalização média de mercado de 2,9 milhões de dólares.
Segundo o estudo, as ICOs provam ser uma aposta positiva para os investidores, porém também um fator de risco, exigindo que exista alguma investigação sobre o assunto. Nesse sentido, os estudos de caso conduzidos “examinaram as métricas de sucesso no mercado de ICO e no mercado de câmbio de moedas” (Rhue, 2018, p. 12, Tradução livre).
As principais conclusões foram:
• As ICOs contam com um valor médio de cerca de 15 milhões de dólares, embora o objetivo fosse 25 milhões;
• Cada token ronda um valor médio de 0,16 dólares;
• As criptomoedas mais utilizadas são a bitcoin e a ethereum;
• A média de valor de mercado é de 1,39 milhões de dólares, o que sugere uma boa oportunidade para quem vende tokens;
• Os tokens geram uma maior capitalização de mercado, pois apesar de os seus preços poderem ser reduzidos, os mesmos reproduzem um maior número de volume de negócios;
• Outro fator de sucesso pode ser a reputação que a ICO tem no mercado (Rhue, 2018).
2.5. Vantagens e desvantagens na adoção de criptomoeda
Como esperado, devido à elevada adoção por particulares, as criptomoedas começam a ter cada vez mais aceitação entre as empresas, apostando algumas na criação das suas próprias carteiras e na criação da sua própria criptomoeda. A decisão de implementar tecnologia blockchain em empresas, com recurso a criptomoedas, proporciona uma interseção entre as moedas virtuais e o setor financeiro, gerando um sistema financeiro diferente do tradicional, capaz de trazer grandes benefícios (DeVries, 2016).
Um estudo realizado por Saeed Alzahrani e Tugrul Daim, com base na utilização de um Modelo de Decisão Hierárquica (HDM), conduziu à proposta de perspetivas e critérios, extraídas de uma combinação de revisão de literatura e de um estudo empírico que envolveu utilizadores de moedas virtuais, que conduziram a fatores que podem ser decisivos na adoção de criptomoedas. A investigação com caracter multidimensional baseou-se em quatro perspetivas distintas: técnica, económica, social e pessoal (Alzahrani & Daim, 2019).
A um nível técnico foram identificados os seguintes benefícios:
• Controlo sobre o sistema: todo o sistema de criptomoedas é controlado pela tecnologia blockchain, ou seja, é apenas controlado pela rede em que se insere e sem necessidade de uma autoridade controladora. É um sistema descentralizado que exprime toda a execução da rede, de uma ponta a outra;
• Anonimato: numa situação normal, como um banco, as informações referentes ao cliente, incluindo cartões e caixas online, estão associadas a um nome, morada e outras informações, o que faz que o cliente não esteja livre que os seus dados sejam utilizados sem o seu conhecimento ou permissão. No caso das criptomoedas o mesmo não acontece, as transações são seguras e não contêm nenhuma informação pessoal do proprietário relacionada com a transação;
• Rápidas transferências: as transferências poderão ser quase instantâneas e estão disponíveis 24 horas por dia, todos os dias da semana;
• Lógica de funcionamento da blockchain: trata-se de uma plataforma de software financeiro que conduz a enormes ganhos para os utilizadores, como redução de custos em transações e supressão de intermediários;
• Segurança do sistema: dificilmente este sistema é danificado, é bastante fiável e seguro. O facto de ser absolutamente digital faz com que exista um registo completo desde a sua criação até ao pagamento, e com isto seja quase impossível a sua réplica, pois para acontecer era preciso assumir um controlo de mais de 50% de todas as moedas virtuais que existem na rede.
A nível económico encontraram-se os seguintes benefícios:
• Oportunidade de investimento: embora os preços das criptomoedas sejam bastante mutáveis, nos últimos tempos os seus valores têm mantido um constante aumento, o que pode significar que esta poderá ser uma boa fase para investir; • Transações de baixo custo: comparando preços com os bancos tradicionais, as
taxas aplicadas à transação de criptomoedas são consideravelmente mais baixas. A bitcoin tem das taxas mais baixas em comparação com as outras fontes de financiamento digitais, e sem ter necessidade de intermediários;
• Sistema bancário alternativo: novo sistema financeiro que carreta uma maior confiança aos utilizadores, do que o sistema atual. A criptomoeda pode ser tratada como uma reserva de valor ou ativos, bem como uma moeda;
• Reconhecimento pelas empresas: Apesar de ainda não ser elevado o número de empresas que decidiram usar criptomoedas, há sempre um novo nicho de mercado que se cria. As empresas que tanto aceitam bitcoins como outras moedas têm a possibilidade de ser mais bem-sucedidas do que aquelas que querem usar a bitcoin como moeda única. Contudo, os empreendedores dizem ser arriscado investir em criptomoedas devido à instabilidade de preços que estas apresentam, logo as empresas que arriscam poderão não conseguir ver os seus benefícios realizados.
A nível social temos:
• Normas subjetivas: o utilizador rege-se por influência de outros, com quem se relaciona e que ditam se este deve comprar ou usar criptomoedas;
• Atenção global: a adoção mundial à criptomoeda tem crescido dramaticamente, especialmente desde que os preços deram um salto gigante, e por exemplo a bicoin alcançou o seu maior valor de 18 mil dólares, no final de 2017. O número elevado de investigação sobre o tema ilustra o prestígio que está a alcançar;
• Influenciadores: a existência de empresários conhecidos, influenciadores e celebridades que já mostraram o seu interesse na utilização de criptomoedas.
Por último, o nível pessoal:
• Curiosidade tecnológica: a criptomoeda é um tema que atrai os mais interessados por novas tecnologias. O dinheiro e a forma como é utilizado já variou tanto ao longo dos anos que existe sempre uma enorme curiosidade em relação às novidades nesse domínio;
• Controlo do dinheiro: é possível que o utilizador tenha total controlo por onde circula o seu dinheiro, transferindo uma quantia indefinida para qualquer canto do mundo;
• Privacidade: Alto nível de privacidade, sobre quantas moedas o utilizador possui, ou com que finalidade as gasta.
O estudo chegou à conclusão que as perspetivas económicas e socias são as que mais peso têm para os utilizadores, que olham para a criptomoeda como uma oportunidade de investimento (Alzahrani & Daim, 2019).
Todos estes fatores favoráveis fazem com que, tanto nas pequenas como nas grandes empresas tecnológicas, a adoção de criptomoedas tenha tido um aumento significativo nos últimos tempos. Desde o ano de 2017 que o interesse começou a aumentar, mas só nos últimos anos é que grande parte das empresas tem autorizado que as criptomoedas entrem nos seus negócios. Através de uma pesquisa feita pela Big Think é possível verificar que
empresas com bastante prestígio como o Facebook, Google, Yahoo, Microsoft e a Amazon, estão a tomar medidas que possivelmente envolverão, num futuro próximo, um grande apelo à adoção de criptomoedas em massa (Jackson, 2019).
O Facebook construiu uma nova empresa, com o nome de Libra Networks, em que pretende desenvolver a sua própria moeda e permitir que os seus utilizadores possam transferir dinheiro além-fronteiras e realizar compras online. A Google lançou novas ferramentas de pesquisas ligadas a criptomoedas, que permitem exibir moedas virtuais de uma maneira mais simples para o utilizador, mostrado informações relevantes, principais notícias e ainda sugerindo novas moedas durante a pesquisa do utilizador (Jackson, 2019).
Contudo existem também alguns riscos associados ao uso de criptomoedas. Segundo Tymoigne existem contrapartidas como (Tymoigne, 2015):
• Forte volatilidade – a grande oscilação de preços, particularmente visível através da bitcoin, poder trazer alguns benefícios, mas também pode ser considerada como um problema a curto prazo;
• Grandes riscos são associados ao investimento em criptomoedas, que devem ser tidos em contas a médio e longo prazo.
Inúmeros desses riscos atualmente conhecidos, são normalmente direcionados para a bitcoin, contudo podem ser igualmente associados a outras criptomoedas. Os problemas podem relacionar-se com o risco de lavagem de dinheiro, terrorismo e outros financiamentos ilegais de atividades, falta de emissor, que simboliza que não existe uma entidade formal e legal para garantir, nomeadamente em caso de falência. Contudo, como já foi referido anteriormente, os investigadores e os profissionais garantem que o futuro das criptomoedas tem tudo para ser extraordinário, pois removerá as barreiras comerciais, diminuirá preços de transações e levará a um aumento no comércio e na economia (Vora, 2015).
2.6. O impacto das tecnologias no setor financeiro, o caso da
blockchain
O setor financeiro tem sofrido alterações significativas ao longo dos tempos, os sistemas tradicionais têm vindo a ser substituídos por tecnologias inovadoras, digitalizando os serviços financeiros. Segundo um estudo realizado por Tariq Abbasi e Hans Weigand, a existência de
serviços financeiros digitais contribui para um melhor desempenho da empresa, mantendo-a competitivmantendo-a no mercmantendo-ado. Conseguir que mantendo-a instituição se mmantendo-antenhmantendo-a nummantendo-a bomantendo-a posição de mercado leva a um aumento da sua rentabilidade e a uma melhor qualidade do próprio setor financeiro (Weigand & Abbasi , 2017).
Quando se fala em Serviços Financeiros Digitais (DFS), fala-se em serviços financeiros tradicionais, como por exemplo os pagamentos, as poupanças, os seguros, ou outras informações financeiras, que são realizados ou acedidos de forma digital. Para o acesso digital são necessários recursos como a internet, telemóvel, cartões, entre muitos outros aparelhos digitais (Weigand & Abbasi , 2017).
Várias entidades financeiras, como bancos ou instituições, e entidades não financeiras, como operadoras, estão a migrar os seus serviços para canais digitais que permitam uma maior conformidade com as necessidades dos seus clientes. O principal objetivo é apostar em novas tecnologias que mantenham os serviços financeiros digitais o mais tangíveis possível pelos seus utilizadores, com preços mais baixos, comparativamente aos que são normalmente praticados, e de uma forma segura (Weigand & Abbasi , 2017).
Relativamente aos serviços digitais acedidos via dispositivo móvel, sabe-se que é dos acessos que tem mais impacto na sociedade e cujo crescimento económico não deve ser negligenciado. O seu uso extensivo pode aumentar o PIB anual de todas as economias emergentes em 3,7 triliões de dólares até 2025 (aumento de 6%), em que 65% desse aumento consistirá na produtividade de empresas e governos como resultado do compromisso de pagamento digital. Com isto milhões de novos empregos poderão vir a surgir em todos os setores (Weigand & Abbasi , 2017).
O aumento da utilização da tecnologia blockchain no setor financeiro através de criptomoedas tem vindo a mudar radicalmente o paradigma utilizado anteriormente no setor financeiro, como por exemplo a maneira como se compra e vende. Segundo um estudo do jornal económico Montenegrin, concluiu-se que a tecnologia blockchain tem já um grande impacto no setor financeiro. Espera-se que num período de cinco a dez anos, se descubra o verdadeiro poder da tecnologia e todos os setores passem por um processo de migração dos seus sistemas para tecnologias blockchain (Knezevic, 2018).
Sarah Underwoodv argumenta que “A tecnologia blockchain deverá revolucionar os modos operacionais do comércio, indústria, educação, bem como promover o rápido desenvolvimento da economia baseada no conhecimento a uma escala global. Devido à sua
imutabilidade, transparência e confiabilidade para todas as transações executadas por uma rede blockchain, essa tecnologia inovadora tem muitas potenciais aplicações” (Underwood, 2016, p. 16, tradução livre).
Consta que a tecnologia blockchain aumenta a eficiência nos mercados financeiros, pois uma das suas funções é a prática de contratos inteligentes, estes que evitam erros, atrasos, ou custos adicionais. Através de um contrato inteligente, que nada mais é que um pedaço de código para o computador ler, ficam registados todos os passos executados. Além de ser possível rastear transações financeiras, também se conseguem manter informações confidenciais, de uma forma bastante segura” (Underwood, 2016).
Com isto a tecnologia blockchain promete ainda dar muito que falar e conduzir a uma enorme oportunidade de mudança no setor financeiro. O sistema financeiro global move milhares de milhões de dólares por dia, atendendo assim a milhões de pessoas. Os mais poderosos do sistema por vezes impõem monopólio, gerando assim maiores benefícios para si próprios, o que faz com que haja uma desaceleração do sistema. A sua posição monopolística é um obstáculo para melhorar produtos, aumentar a eficiência e melhorar a experiência com o utilizador. Todavia a blockchain parece querer alterar este padrão, oferecendo à população e às instituições a escolha de criar e gerar valor de uma forma simples, a um custo menor, à velocidade da luz, com menores riscos, considerada uma grande inovação de valor e adaptabilidade. Tudo isto é adaptável “não só a pagamentos como também a bancos de investimento, contabilidade e auditoria, capital de riscos, seguros, indústrias de título, gestão de riscos corporativos, e outras indústrias” (Underwood, 2016). Evidentemente, a criptomoeda como uma vertente da tecnologia blockchain começou a ser vista também como uma inovação radical a partir do momento de sucesso da bitcoin, pois foi também nessa altura que começou a ser mais utilizada. A tendência é que venha modificar o comportamento económico e convergir condutas de pagamento (Cato, 2015).
Relativamente ao impacto que a adoção das criptomoedas têm nas empresas e nos utilizadores em geral, ainda é um tópico escasso de informação, onde não existe ainda muito conhecimento. No sentido de contribuir para essa falha na literatura, esta dissertação investiga a fundo que vantagens e desvantagens este impacto pode ter para os negócios e para os seus clientes.
3. Método
Para este trabalho utilizou-se o método de investigação qualitativa, como forma de recolher dados detalhados sobre a utilização de criptomoedas, e na procura de desenvolver uma perceção sobre o impacto dessa utilização em empresas. Uma vez que os resultados extraídos deste tipo de investigação poderão ser influenciados pela subjetividade dos entrevistados, procurou-se realizar o máximo de entrevistas possíveis para que umas pudessem confirmar a informação recolhida nas outras.
A investigação incidiu em três fases, inicialmente por uma preparação do estudo (que incluiu a seleção dos casos e a revisão de literatura), depois recolha de dados (através de entrevistas realizadas e pesquisadas) e por fim análise dos mesmos (apresentando, discutindo e concluindo os dados obtidos).
O objetivo principal do estudo é perceber qual o impacto que a utilização de criptomoedas tem, a um nível técnico, económico ou pessoal, nas empresas e por consequência nos seus clientes. O método seguido baseia-se em estudos de casos relacionados com empresas Portuguesas. Numa fase inicial foi realizada uma pesquisa com intuito de encontrar empresas portuguesas com práticas de utilização de criptomoedas. Após a conclusão da pesquisa e juntamente com os contactos e conhecimentos adquiridos na área de engenharia de software, elaborou-se uma lista com as pequenas e grandes empresas elegíveis para participar no estudo. Posteriormente foram enviados emails na tentativa de entrar em contacto com cada empresa. No final apenas foram possíveis entrevistas a quatro empresas:
• HOLD – CEO: Guilherme Almeida • Utrust – CEO: Nuno Correira • Lifeonmars – CEO: Júlio Santos • Aptoide – CEO: Paulo Trezentos
A Hold, fundada em 2018, é uma empresa que para além de ter a sua própria moeda digital, também chamada de hold token, conjuga várias funcionalidades numa só aplicação, com uma carteira digital, um serviço de troca de moedas tradicionais e digitais, e ainda facilita aos utilizadores, através de um cartão visa, a mobilização dos seus fundos. Qualquer utilizador com interesse em criptomoeda pode aderir, a aplicação encontra-se disponível em qualquer
telemóvel que disponha de uma loja online. Em seguida serão apresentadas algumas informações da empresa como a capitalização de mercado, o volume de negócios e o valor do hold token, que estarão representados em dólares americanos, assim como o total de hold tokens existentes até aos dias de hoje, e ainda os que estão em circulação (coinmarketcap, 2013). Capitalização de mercado Volume de negócios Tokens em circulação
Total de tokens Valor do token
$534 011 USD $3573,80 USD 704 821 305 HOLD 923 453 365 HOLD $0,000758 USD
Tabela 1 – Dados Hold
Com uma base de negócio muito semelhante existe a Utrust, fundada em 2017, é uma empresa à escala global que desenvolve aplicações de software com uma carteira de dinheiro tradicional e criptomoedas permitindo pagamentos, revolucionado assim a indústria tradicional. Pretende oferecer rápidas transações, proteção do consumidor e liquidação instantânea de criptomoeda para dinheiro aos seus consumidores. Disponibiliza ainda às empresas, que adquirem o produto, um painel que verifica todos os detalhes de pedidos, transações e reembolsos. Com isto, sabe-se que os seus clientes são essencialmente as empresas, sendo que apoiam projetos em mais de 180 países, abrangendo praticamente todos os setores e ainda apoiam cerca de 30 moedas pelo mundo. A Hold faz parte dos seus clientes.
Em seguida é apresentada uma tabela com a descrição de algumas informações sobre a Utrust (coinmarketcap, 2013): Capitalização de mercado Volume de negócios Tokens em circulação
Total de tokens Valor do token
Tabela 2 – Dados Utrust
Já a Life on mars foi fundada em 2016, tendo como foco o desenvolvimento de produtos digitais, com sede na Alemanha e em Portugal. Em tempos desenvolveu um produto utilizando criptomoeda, de suporte a ICOs, entretanto já descontinuado, que recolhia fundos de vários participantes e que passavam por uma verificação de identidade requerida pela blockchain. Caso a identidade fosse aprovada era permitido aos utilizadores participar na distribuição de tokens, em que eram colecionadas algumas das várias criptomoedas (bitcoin, ethereum, entre outras), e posteriormente eram distribuídos tokens resultantes em proporção ao investimento de cada participante. Portanto o produto consistia em monitorizar a blockchain e garantir que os pagamentos eram realizados, através da elaboração de contratos inteligentes para implementar a funcionalidade desejada por estes ICOs.
Atualmente, o foco da empresa Life on mars, para satisfazer a necessidade dos clientes, passa por juntar qualidades de engenharia com um conjunto de processos ágeis, fornecendo assim um software funcional de qualidade, ao mesmo tempo que lidam com requisitos que estão em constantes mudanças. Os seus clientes vão desde startups em estágio inicial, a grandes empresas como o Twitter.
Por fim, a Aptoide em que o seu projeto inicial foi lançado em 2009, mas apenas teve a oportunidade de ser fundada em 2011, trata-se de uma outra empresa que investiu na sua própria ICO, as AppCoins e beneficia de uma aplicação concorrente à loja online (store) da Apple e do Android. Durante as compras realizadas em aplicações pelos utilizadores, como jogos ou outras, a empresa utiliza a blockchain por detrás das transações que acontecem dentro das aplicações. Com a sua loja online disponibiliza aos seus utilizadores a possibilidade de criarem as suas próprias apps ou tornarem-se administradores das suas próprias lojas online. O foco é em clientes que disponham de um sistema Android e que pretendam descobrir, partilhar e instalar aplicações. Mais uma vez a tabela seguinte representa alguns detalhes do mercado em que a Aptoide se encontra (coinmarketcap, 2013):
Capitalização de mercado Volume de negócios Tokens em circulação
Total de tokens Valor do token
Tabela 3 – Dados Aptoide
Foram preparadas as entrevistas de acordo com o contexto de cada empresa e estudadas as possibilidades de observação da utilização das criptomoedas em cada empresa. Cada entrevista, para cada empresa, pôde contar com a comparência dos seus respetivos CEOs. As entrevistas focaram-se em compreender o processo de adoção deste tipo de moedas, as dificuldades encontradas na sua implementação e as vantagens e desvantagens dessa utilização para a empresa. Para complementar os resultados principais, com os mesmo objetivos, foi ainda feita uma recolha de outras entrevistas encontradas em revistas e outros sites da internet. Por fim, adicionando a esta informação mais alguma recolha de dados provenientes da revisão de literatura, devolvidos em meios de pesquisa como o Google Schoolar, o Scopus, o B-on e o IEEE, foi possível ter dados suficientes para analisar e refletir sobre todas as informações recolhidas.
A análise dos dados está divida em duas secções, a primeira com os principais resultados e a segunda com resultados secundários. Na primeira parte estão exibidos, por tópicos, os principais assuntos que foram abordados nas entrevistas realizadas às empresas, em que para cada ponto é descrito um contexto juntamente com um alinhamento das respostas recebidas através dos entrevistados. Já na parte dos resultados secundários serão apresentadas duas entrevistas, encontradas através de uma pesquisa, também acerca do impacto que a blockchain e as criptomoedas têm nas empresas. Para este caso, é também possível encontrar a apresentação das entrevistas por tópicos e respetivas respostas. Finalmente, para cada subseção é ainda apresentada uma tabela resumo que sumaria os resultados obtidos e que foram utilizadas para realizar uma análise cruzada de dados.
4. Análise dos resultados
4.1. Principais resultados
As entrevistas realizadas às empresas de software, referidas no capítulo anterior, levaram ao levantamento de factos e opiniões que fundamentaram os estudos de caso aplicados a esta dissertação, apresentadas pelos seus respetivos CEOs. Assim, esta seção encontra-se organizada por subseções que correspondem aos temas que foram abordados durante as entrevistas, como o tipo de utilização e contexto pessoal de cada entrevistado, os propósitos que levaram a empresa à utilização da criptomoeda, as criptomoedas que mais utilizam, as alternativas que praticam face à tecnologia e, por fim vantagens e desvantagens da utilização das criptomoedas. A informação encontra-se apresentada por tópicos e no final de cada seção é apresentado um resumo de toda a informação numa tabela.
4.1.1. Utilização e contexto
Todos os entrevistados responderam positivamente no que diz respeito a uma possível utilização de criptomoeda, quer a nível pessoal quer a nível empresarial. E ainda quando questionados sobre que tipo de conhecimento teriam sobre o assunto, também a totalidade dos entrevistados assumiu ter, quer conhecimento funcional quer teórico, pois acreditam que um está necessariamente interligado com o outro. Contudo não se pôde verificar ao longo das entrevistas que o nível de conhecimento estaria ao mesmo nível para os quatro.
Embora haja um consenso de utilização entre os entrevistados, o mesmo não acontece com o contexto em que cada um aplica a tecnologia. É através deste contexto de utilização que se pode perceber melhor quais dos entrevistados detêm mais conhecimento sobre o assunto. Os contextos que surgiram referem-se a:
• Forma de negócio ou contexto especulativo: em que as criptomoedas têm valor e podem ser utilizadas como meio de troca, por elas próprias ou por outro tipo de moeda tradicional. Nuno Correira da Utrust, afirma utilizar critpomoedas em “contexto especulativo, como investimento, compra e venda, e ainda para fazer pagamentos”;
• Reserva de valor: tanto o dinheiro tradicional como as criptomoedas têm como característica a reserva de valor, ou seja, algo que retenha poder de compra no futuro.
Contudo as criptomoedas com as suas características de escassez e segurança, levam a reserva de valor a um alto nível, dai Guilherme Almeida revelar ser adepto deste tipo de contexto;
• Participação em projetos, em estágio inicial: estes que ajudam a ganhar tração, tomar decisões, entre outros. Júlio Santos confessa, “utilizo em pagamentos e em projetos “Early Stage”;
• Contexto profissional da empresa: Paulo Trezentos revela que “hoje pessoalmente, faço um ou outro pagamento, nada de especial, mas utilizo essencialmente em contexto empresarial”.
4.1.2. Propósitos que levaram a empresa à utilização de
criptomoedas
Como em qualquer empresa, quando se pensa em utilizar uma nova tecnologia, é necessário fazer um balanço de que fatores, positivos e negativos, essa mesma tecnologia pode trazer para o negócio. Os propósitos apontados foram bastante distintos de empresa para empresa, contudo a maior parte dos entrevistados revelou que o seu negócio era centrado em criptomoeda, como é o caso da Hold, da Utrust e da Aptoide.
Começando pela Hold, que é uma empresa que segundo Guilherme Almeida “conjuga essencialmente três coisas: uma carteira com criptomoedas, um serviço de exchange em que as pessoas podem converter euros em criptomoedas e vice-versa, uma vez que a Hold suporta feat (moeda tradicional), neste caso euros, podendo ainda depositar e levantar euros, por fim uma terceira parte que facilita com um cartão visa que os utilizadores mobilizem os seus fundos. Sabe-se que a sua ideia original tinha como alvo principal clientes, ou potenciais clientes, que já beneficiassem de criptomoedas, permitindo assim ao utilizador acesso simultaneamente a criptomoedas e a dinheiro tradicional, sem ser necessário vender a criptomoeda em si. Acredita-se que as moedas digitais vão continuar a subir de valor, mas é imprescindível a existência de liquidez por parte das empresas que queiram investir em ICOs. Com o intuito de acrescentar ainda mais valor à sua ideia inicial, a Hold incorporou também a função de troca de dinheiro (exchange) para facilitar às pessoas a compra de por exemplo, a sua primeira criptomoeda.
Segundo Nuno Correira, a Utrust tem como base de negócio o desenvolvimento de software de pagamentos envolvendo criptomoedas na blockchain. A empresa definiu como objetivo a rapidez no processo de pagamentos e ainda ser uma empresa além-fronteiras. Com o intuito de combater problemas existentes, por exemplo, quando se pretende adquirir algo de outro país, a compra e venda de produtos pode tornar-se demorada, as taxas de transferência são elevadas, é necessária a contribuição de um banco, entre outras coisas, que em contrapartida com a criptomoeda torna-se bastante mais eficaz, é momentâneo, em hora local.
No que diz respeito à Life on mars, a empresa trata de desenvolver aplicações quer para web quer para mobile, baseando-se em tecnologia blockchain. O produto que a Life on mars desenvolveu relacionado com criptomoedas já foi descontinuado, contudo Júlio Santos esclarece o que os levou à utilização de criptomoeda na empresa: “O produto era especificamente para trabalhar na blockchain, por isso não existiam grandes escolhas, é um produto de criptomoeda nativo”.
Aptoide disponibiliza uma aplicação concorrente à loja online do sistema Android e da Apple, trata-se de uma loja de compra e venda de diferentes tipos de aplicações, quando o utilizador adquire uma das aplicações a empresa utiliza blockchain para viabilizar essas compras. Paulo Trezentos resume “simplificando ao máximo diríamos que as transações que ocorrem dentro das aplicações vão via ethereum para a blockchain”. Relativamente ao propósito que os levou a utilizar criptomoedas, Paulo Trezentos, revelou que o principal objetivo tinha em conta o “levantamento de capital”, contudo outro propósito que os moveu foi o de desintermediar (acabar com intermediários) o Google e alinhar os incentivos entre os fabricantes de telemóveis e os que desenvolvem aplicações. Como resultado surge um alinhamento de incentivos que resultou muito bem para a Aptoide.
Para que esta utilização seja possível as empresas têm que estar preparadas, com equipas que contenham diferentes graus de competências técnicas. Apurou-se com os entrevistados que: engenharia em geral, especialmente de software, qualidade, designers, produto, suporte, marketing, contabilidade, operações, estratégia de blockchain, entre outras, são muito comuns em ambiente empresarial no mundo do software. Todas elas contribuem positivamente para a atividade da critpomoeda, contudo são essenciais os que direcionam para um conhecimento especialização relativamente à blockchain e às critpomoedas, como engenheiros ou estrategas de blockchain.
4.1.3. Criptomoedas mais utilizadas
Para além da Hold, Aptoide e da Utrust que utilizam as suas próprias criptomoedas, respetivamente hold token, appCoins e utrust token, as criptomoedas mais utilizadas e referidas pelos entrevistados foram:
• Hold: bitcon, ethereum, litcoin, hold token (ICO);
• Utrust: bitcoin, stablecoins, ethereum, utrust token (ICO); • Life on mars: bitcon, ethereum, lisk;
• Aptoide: ethereum, appcoins(ICO).
Como esperado, a Bitcoin está entre uma das mais utilizadas, assim como a Ethereum e a Litecoin, criptomoedas que já foram apresentadas na revisão de literatura.
As Stablecoins, segundo o Banco Central Europeu (BCE), são “[definidas como] unidades digitais de valor que não são uma forma de qualquer moeda específica, mas dependem de um conjunto de ferramentas de estabilização que devem minimizar as flutuações do seu preço nessa(s) moeda(s)” (Bullmann, Klemm , & Pinna, 2019). Já a criptomoeda Lisk é utilizada com o intuito de melhorar a experiência do utilizador, dar suporte a quem desenvolve e fornece ainda toda a documentação necessária.
4.1.4. Alternativas
Tanto a Hold, como a Utrust, consideram o sistema bancário como alternativa, afirmado por Nuno Correia e Guilherme Almeida que é um meio utilizado como alternativa, pela empresa, enquanto Paulo Trezentos revela que a Aptoide tem como alternativa o Paypal.
Júlios Santos afirmou que anteriormente “também aceitávamos euros e dólares, em troca de tokens, mas era praticamente inutilizável”.
4.1.5. Vantagens
Uma das questões iniciais visava compreender se a utilização de criptomoeda é considerada ou não, de uma forma geral, benéfica para a empresa. A resposta foi positiva pelos quatro
elementos entrevistados, contudo, Guilherme Almeida e Paulo Trezentos partilharam problemas a ter em conta, respetivamente, “se as pessoas não convertem o modelo de negócio da empresa não funciona”, e ainda “considero que ainda tem algumas limitações e que supostamente nesta altura já devíamos estar muito mais avançados relativamente ao custo de transações, velocidade e escalabilidade”.
Foi feito um levantamento de vantagens e desvantagens encontradas por cada elemento entrevistado, face às alternativas, a um nível técnico, económico e pessoal. As vantagens encontradas foram as seguintes:
Nível técnico:
• Rapidez: em relação à moeda tradicional, tem a vantagem de rápidas transferências. As criptomoedas têm características diferentes, o que faz que algumas sejam de rápidas transferências, outras possam demorar horas. Contudo, geralmente são mais rápidas do que as transações tradicionais, e com isso o utilizador pode beneficiar ganhar tempo no que toca a transações;
• Anonimato: é um benefício importante, não é transversal a todas as implementações da tecnologia blockchain, mas é possível. Com esta característica, o utilizador consegue manter secreta toda a sua informação, que poderia ser revelada aquando de uma transação;
• Confiança no sistema: se for enviado um email, o fornecedor de conta de email ( por exemplo, o Google) pode alterar qualquer informação sem que o utilizador se aperceba, com a blockchain isso não acontece, o que pode ser uma grande vantagem para o utilizador e para a empresa que ganha a confiança dos seus clientes;
• Decentralização: o facto de não ser bem encomendado por ninguém em especial e a facilidade de trocas, com dinheiro digital, traz benefícios não só à empresa que tem todo o controlo, mas também ao utilizador que têm a possibilidade de executar trocas ou pagamentos de uma forma mais simples.