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IÊNCIAS
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Entre a norma social e os processos de individuação
Lia Pappámikail Ribeiro d’Almeida
Tese orientada pelo Prof. Doutor José Machado Pais
Doutoramento em Ciências Sociais
Especialidade: Sociologia Geral
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Agradecimentos
Levar um projecto de doutoramento a bom porto é, em grande medida, um trajecto individual e solitário. Espera-nos uma navegação seguramente mais agitada e turbulenta porém, se não se puder contar, ao longo da viagem, com o incondicional apoio de pessoas e instituições. A todos eles são devidos, por essa razão, os meus mais sinceros agradecimentos.
No plano institucional, uma especial referência é devida à Fundação de Ciência e Tecnologia que financiou através de uma bolsa de doutoramento este projecto, permitindo que a ele me pudesse dedicar durante quatro anos. Ao Instituto de Ciências Sociais estendo o agradecimento, por me acolher e apoiar (a mim e à pesquisa), e por me ter permitido beneficiar das condições de excelência para a investigação e debate científico que pautam a sua actividade académica. Ao Observatório Permanente de Escolas, estou particularmente grata pelos vívidos debates e discussões e pelo ambiente fraterno que se criou entre os colegas do grupo de seminários do OPE a quem hoje dedico um forte sentimento de amizade e com quem muito tenho aprendido.
No plano estritamente pessoal, congratulo-me pela extensa lista de pessoas que me vem à mente quando penso nas pessoas que me acompanham desde sempre e a quem gostava de agradecer individualmente. Se a alguns bastou-lhes estar presentes, como sempre, outros, por circunstâncias e conjunturas diversas, acompanharam este desafio mais de perto, escutando-me, partilhando angústias, fazendo leituras críticas, sugerindo bibliografias, relativizando medos e anseios.
À minha família, mãe, avó e irmãs, sobrinhos e cunhado, por cada um à sua maneira constituir um exemplo de coragem, dignidade e perseverança, que muito me orgulha e inspira. À Sofia, especialmente, e porque além de irmã é colega, agradeço o apoio incondicional que só uma irmã pode dar e a serenidade e confiança que transmite em todas as esferas da minha vida.
A todos os meus colegas do ICS (investigadores e técnicos), especialmente os do quarto piso (como a Vanessa e a Alice, entre outros), pela cumplicidade forjada no quotidiano de trabalho. Um agradecimento muito especial e sentido aos amigos que por lá fui fazendo e que se tornaram âncoras fundamentais na minha vida. Ao Vítor Ferreira tudo o que me deu a aprender, cientifica e humanamente. A ele e ao Pedro Alcântara da Silva devo também, aliás, doses regulares de ânimo, cozinhado em momentos de cumplicidade e descontracção onde reina sempre o bom humor e a ironia. À Cátia, o mais recente elemento do grupo, devo a disponibilidade constante, manifestação de um coração maior, e o enorme favor de ter traduzido o resumo da dissertação e de se ter empenhado na revisão atenta de parte deste manuscrito, alcançando gralhas e lapsos que os meus olhos já não eram capazes de ver. Já à Sofia Aboim une-me uma dívida de amizade e gratidão, por me ter ajudado a abrir horizontes intelectuais e por sempre se ter disposto, generosa como só
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ela, a escutar desabafos e a ajudar-me a encontrar soluções para os bloqueios vários que a escrita conheceu.
Ainda no ICS, à Maria Manuel Vieira, coordenadora do OPE, agradeço especialmente a companhia, a boleia e o apoio numa decisiva incursão no terreno em Fevereiro de 2006 e tudo o se seguiu. À Karin Wall agradeço o carinho, preocupação e atenção que me dedicou, e as várias oportunidades que me ofereceu de trabalhar com ela, enriquecendo a minha experiência académica com outros temas e horizontes.
Fora do ICS, do outro lado do Atlântico, a Melissa, e do lado de cá, a Ana Isabel e o Manelinho, a Guida e o Zé Mário, a Alice e o Pedro, a Sofia e o Luís, a Camila, o Bruno, a Jussara foram alguns dos nós fundamentais de uma rede de afectos que deram mais cor aos tempos livres, fornecendo energia vital para os tempos do trabalho. À Filipa, uma justa homenagem pelas cumplicidades forjadas a par e passo (literalmente), pelas discussões infindas sobre todos os assuntos e pelas pontes que estabelecemos entre os nossos objectos. À Patrícia cuja perspicácia e inteligência nunca pára de me surpreender, agradeço (para além de tudo o resto que nada tem a ver com este trabalho) ter-se dedicado à revisão do manuscrito, melhorando-o com sugestões certeiras.
Ao meu orientador, Doutor José Machado Pais quero agradecer, em primeiro lugar, a oportunidade que me deu em 2001 para ingressar numa carreira de investigação. Tenho procurado honrá-la dando o meu melhor. Em segundo, e sobretudo, por me ter empurrado, com uma mestria incomparável, para fora da minha zona de conforto em todas os momentos da pesquisa (e da escrita), fazendo constantes interpelações (e provocações), espicaçando-me com o seu sagaz espírito crítico, forçando-me, enfim, a pensar mais e melhor em todas e cada uma das palavras que fui escrevendo.
Aos meus entrevistados, o maior dos agradecimentos pela generosidade com que acederam a partilhar um pouco das suas vidas. Devo-lhes afinal a existência da matéria-prima que me permitiu trabalhar e compor esta narrativa.
Agradeço, por fim, ao António todo o amor, dedicação e paciência (em doses iguais), a compreensão e partilha quotidiana, e o trazer signficado ao esforço que tudo isto representou.
Ao Lourenço, inesgotável fonte de inspiração, dedico esta dissertação. Ansiei-lhe o fim como se de uma gravidez se tratasse: com ansiedade, expectativa e alguma angústia. Foram muitos os dias em que, embalada na escrita, via o fim cada vez mais próximo. Então olhava o relógio e constatava já ter chegado a hora de o ir buscar. E lá ia sentir-lhe os abraços do reencontro e as saudades de um dia separados. Olhando para trás, vejo que completei este enorme desafio sem nunca ter ido buscá-lo tarde, sem nunca abdicar da sua presença ao final do dia, sem nunca pôr o filho de papel à frente do filho de carne e osso. E o facto é que acabei (mal ou bem, melhor ou pior) mesmo assim. Não é, na verdade, ter acabado que me deixa mais feliz, é ter conseguido (ou feito questão de) que a vida continuasse com as prioridades no seu devido lugar.
Aos meus rapazes agradeço, pois, por me lembrarem a cada instante daquilo que é verdadeiramente importante na vida.
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Resumo
Nesta pesquisa discutiu-se, através do estudo de jovens adolescentes e suas famílias, a relação que o valor da autonomia tem com os processos de individuação, aferindo as lógicas sociais através das quais os sujeitos reportam à norma. Esta emergiu como plural nos seus sentidos, pois compósita de elementos mais racionais, que remetem para a integração (social e grupal), e mais expressivos, que evocam a autenticidade (de modos de ser e de estar).
Justificou-se, em primeiro lugar, a centralidade da autonomia na paisagem ética e cultural da contemporaneidade, ensaiando uma genealogia conceptual, por via da recolha de contributos da Filosofia e da história. Ao situar a autonomia no vértice dos dilemas fundamentais da modernidade, explanou-se como estes se reflectem na construção paradigmática da Teoria Social, em geral, e na forma como a Sociologia tem abordado o indivíduo, em particular.
A adolescência e juventude emergiram, pois, como um período do ciclo de vida particularmente denso e intenso de abertura ao mundo, em que simultaneamente se expandem as relações sociais e os territórios de existência num processo complexo de aquisição de liberdades e independências. Um processo em que participam, ainda assim, os contextos económicos, culturais e sociais em que vivem os jovens. É nessa medida que a adolescência surge como um fenómeno simultaneamente individual, familiar e social. Com efeito, são múltiplos os desafios e provas que ao longo do percurso enfrentam os sujeitos, o que imprime um carácter probatório às suas performances, donde resultam hesitações, dúvidas e vulnerabilidades. Ao mesmo tempo que crescem e amadurecem, procuram, pois, (ou é-lhes oferecido um espaço para) acomodar a autonomia que vão construindo, no sistema de relações familiares, relativamente estável até então. Ao reivindicar um novo estatuto e encetando um percurso de desafiliação relativa, os sujeitos interpelam a família cuja acção é orientada pela dupla injunção de proteger e emancipar, forçando à recomposição e transformação das relações, o que torna a adolescência um período igualmente desafiante para os progenitores.
Estes constituem os principais traços que resultaram da análise da forma como o valor da autonomia se inscreve nas culturas familiares, aferindo traços de transformação social e cultural; da forma como os jovens adquirem ou conquistam mais liberdade de acção e circulação, por um lado, e mais independência instrumental e financeira, por outro; e dos trilhos que os jovens percorrem para constituir, expressivamente no espaço doméstico e relacional, universos privados e íntimos.
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Abstract
In this research through the study of young teenagers and their families, the relationship that the value of autonomy has with the processes of individualization was discussed, by assessing the social logics through which individuals report to the norm. This emerged as plural in its different meanings, composed of more rational elements, related to integration (group and social), and more expressive ones that evoke authenticity (ways of being and doing).
First, the centrality of autonomy within the ethic and cultural background of contemporary societies was justified; drawing on a conceptual genealogy which gathered contributes of history and philosophy. By placing autonomy at the vertex of the fundamental dilemmas of modernity, it was explained how these reflect a paradigmatic construction of Social Theory, in general, and the way Sociology has been portraying the individual, in particular.
Adolescence and youth emerged, thus, as a period of the life cycle particularly dense and intense of openness to the world, where social relations and territories of existence expand simultaneously in a complex process of gaining freedoms and independences. This is a process that involves, nevertheless, the economic, cultural and social contexts in which young people live in. It is in this vein that adolescence is simultaneously an individual, social and family phenomenon. In fact, multiple are the challenges and proofs that individuals face throughout this path, which give a probational character to their performances, resulting in hesitations, doubts and vulnerabilities.
As they grow up and mature, they seek (or are provided with space for) to accommodate the autonomy they are creating, within the system of family relations, which has been relatively stable until then. While claiming a new status and setting up a trajectory of relative disaffiliation, individuals interpellate the family whose action is directed by the dual injunction of protect and emancipate, which forces the recomposition and transformation of relations, making adolescence a period equally challenging for parents too.
These constitute the main outlines that resulted from the analysis of how the value of autonomy is inscribed in family cultures, assessing characteristics of social and cultural transformation; the way young people get or conquer more freedom of action and movement, on the one hand, and more instrumental and financial independence, on the other; and the “routes” that young people go through to constitute - expressively within the domestic and relational space - private and intimate universes.
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“Ser, parecer
Entre o desejo de ser e o receio de parecer o tormento da hora cindida Na desordem do sangue a aventura de sermos nós restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos” Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Ed. Caminho, 1999
xi ÍNDICE Agradecimentos ... iii Resumo ... v Abstract ... vii Introdução ... 1 PARTE I A autonomia na paisagem ética contemporânea: da genealogia teórica de um conceito à definição de um objecto de pesquisa ... 11
CAPITULO 1 Autonomia, Indivíduo e Modernidade: em busca das raízes filosóficas da noção de sujeito ... 14
Apresentação ... 15
1.1 Autonomia no projecto moderno: entre o indivíduo e o bem comum ... 18
1.2 Desafiando os paradoxos da autonomia: o sujeito filosófico em análise ... 24
Razão e reflexividade, primeiro. ... 24
Controlo, responsabilidade e respeito, entretanto. ... 27
Autenticidade, Identificação e Identidade, por fim. ... 29
CAPÍTULO 2 Modernidade, autonomia e Ciências Sociais: das questões éticas às respostas científicas ... 37
Apresentação ... 39
2.1 O sujeito nas narrativas do nosso tempo: o comprometimento esquecido das Ciências Sociais? ... 40
2.2 Modernidade e códigos binários: divergências paradigmáticas ... 44
CAPÍTULO 3 A fabricação do Indivíduo na Sociologia:49 (mais) variações sobre o tema da autonomia ... 49
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Apresentação ... 51
3.1 O indivíduo socializado ... 53
3.2 O indivíduo actuante: entre o racional e o relacional ... 63
O Indivíduo Racional ... 65
O Indivíduo Relacional ... 69
3.3 Ultrapassando antagonismos: reflexões em torno de uma visão dialógica de indivíduo ... 84
CAPÍTULO 4 Modernidade, família e indivíduo em devir:(re)definindo conceitos, lançando pistas ... 91
Apresentação ... 93
4.1. Algumas notas sobre importantes mudanças sociais que afecta(ra)m a família e as relações de filiação ... 93
4.2 Entre fase da vida e categoria social? Das perspectivas sobre a juventude às experiências dos jovens ... 106
4.3 O problema das transições juvenis para a vida adulta e o seu contributo para a clarificação e definição dos conceitos: distinguindo autonomia, liberdade e independência ... 114
4.4 Do corpo que cresce e da autonomia que se constrói: um (novo) olhar sobre o processo de individuação ... 123
CAPÍTULO 5 Objecto, Metodologia e procedimentos:um percurso reflexivo ... 131
5.1 Objecto e objectivos: trilhos, questões e reflexões ... 133
5.2 Desenho da pesquisa e trabalho de campo: opções metodológicas, definição de procedimentos e sua aplicação ... 139
5.3 Da análise dos dados à composição de uma narrativa ... 151
PARTE II Juventude, autonomia e família:iluminando o processo de construção de si ... 159
CAPÍTULO 1 Culturas familiares e objectivos educativos:continuidades e mudanças ... 163
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Apresentação ... 165
1.1 Patrimónios normativos e lógicas de transmissão: objectivos de ser, ter e fazer ... 170
«O importante era ir estando feliz»: liberdade, autonomia e identidade ... 171
Do Respeito pelos outros: pluralidade de sentidos e de orientações ... 176
Do ser e do ter: ambivalências em torno do materialismo... 188
Conforto material e mobilidade social: entre aspirações e estratégias ... 193
Esforço e trabalho: entre o sacrifício e o mérito ... 198
1.2 Do filho que fui, ao pai que sou: continuidades e mudanças na sociedade portuguesa ... 202
A experiência da ausência: entre a privação e a solidão ... 205
A experiência da distância: afectos, comunicação e afinidades ... 208
“Éramos sempre muitos”: a experiência do convívio, da festa e da rua ... 216
Concluindo… ... 220
CAPÍTULO 2 Efeitos de luz?:liberdade de circulação e acção e reformulação do estatuto na família a partir da análise das interacções ... 225
Apresentação ... 226
2.1. Dos percursos que se trilham durante o dia: uma primeira abordagem às lógicas de acção individuais e aos seus efeitos no processo de individuação em termos de liberdade e independência... 234
Exercitando competências: estratégias e práticas educativas em análise ... 236
Gestão do quotidiano e controlo à distância: confiança ou crença? ... 240
Banalização e rotinização: a fixação de novas fronteiras aos territórios de liberdade diurna ... 243
Lógicas de acção parental e filial: diferentes perfis de interacção, diferentes resultados? ... 247
2.2 Sair à noite: o pomo da discórdia e a turbulenta transformação da relação de forças no sistema de gestão dos tempos e espaços de vida juvenis ... 257
As divergências fundamentais ... 262
Da semelhança nos argumentos e nas razões à diferença nos resultados: retomando a análise das lógicas de acção e os perfis de interacção ... 268
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A via do ajustamento e do compromisso: construindo estratégias de controlo e vigilância ... 288 Para lá dos consensos: estratégias para contornar e transgredir regras e limites ... 312 Concluindo… ... 317
CAPÍTULO 3
O valor que o dinheiro tem: reequacionando a (in)dependência juvenil na sua relação com a liberdade de acção e circulação ... 327
Apresentação ... 329 3.1 Gestão das trocas financeiras: dois modelos, várias interpretações ... 340 A aprendizagem da responsabilidade: o dinheiro como território educativo . 341 A afirmação ritual da dependência no quotidiano: indiferença ou controlo? . 350 3.2. Trabalho, independência e liberdade: transições estatutárias e acção parental ... 367 Concluindo… ... 377
CAPÍTULO 4
O meu quarto sou eu?: territórios partilhados, universos privados e identidades em construção ... 385
Apresentação ... 387 4.1 Fazer parte: dinâmicas familiares, partilhas e construção de um espaço individual ... 396
Partilhar o quarto: género, idade e intimidade relacional ... 398 O meu quarto é na casa deles: da gestão dos espaços à gestão das relações .. 403 Privacidade, universo íntimo e reformulação das relações ... 426 4.2 Estar à parte: subjectividades, narrativas e autenticidade em construção .... 439 O quarto como espaço para a reorganização reflexiva de si? ... 440 O meu quarto sou eu?: uma análise aos objectos mais significativos ... 445 Concluindo ... 459
CONCLUSÕES FINAIS: do valor social da autonomia e a sua expressão nos processos de individuação ... 467
xv Uma autonomia compósita e plural: dos ideais à experiência, um fluxo de tensões
e paradoxos (i)resolúveis? ... 468
Adolescência, individuação e família em transformação: interpelação dos sujeitos e construção da autonomia ... 475
REFERÊNCIAS ... 491
ANEXO 1 ... 505
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Introdução
Nesta pesquisa estudaram-se jovens adolescentes em processo de construção de si. Para o efeito seguiu-se o fio condutor da autonomia. E a noção de autonomia surgiu na pesquisa por dois caminhos distintos, cujas interligações se desejaram ver melhor explicadas. Por um lado, perceber como uma norma social é interpretada e acolhida pelos indivíduos. Por outro, aferir os processos através dos quais autonomia se constrói e concretiza (ou não), constituindo-se como um dos eixos centrais do percurso de construção identitária. Em suma, averiguar como se articula um paradigma normativo, onde a autonomia parece ocupar um lugar de destaque, com os processos concretos (mesmo que inacabados) de emancipação individual.
Sendo uma problemática transversal ao ciclo de vida, concentrou-se o olhar numa fase em particular – a adolescência – na medida em que esta constitui um período particularmente intenso em experiências relacionadas com a construção da autonomia, a conquista de liberdade e a aquisição de independência. Porquê? Em virtude dos sujeitos estarem imersos num processo de abertura ao mundo, pleno de desafios e transformações físicas, psicológicas e sociais, em que se interpelam a si e aos outros. Com efeito, investigar esta etapa da vida pode contribuir para a compreensão dos modos como num espaço relacional, como é a família, se cruzam e confrontam em diferentes contextos sociais e culturais, experiências de construção da autonomia e de transformação das relações. Ou seja, à medida que (para além de tudo o resto) os jovens reclamam um novo estatuto na família, que se constituiu, por esta razão, a principal plataforma de observação dos processos individuação, ainda que se reconheça a existência e a importância de muitos outros territórios de socialização e interacção (a escola, os grupos de pares, os media, etc.).
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A formulação problemática do objecto não surgiu, claro está, de geração espontânea mas antes de um percurso por vezes cronológico (episódios que se sucedem), por vezes lógico (reflexões que se organizam). Na verdade, o processo de construção de objectos de investigação sociológica também pode obedecer à velha máxima de Lavoisier: «nada se cria, nada se perde, tudo se transforma». Ou seja, os objectos não se inventam, antes estão por aí, nos trilhos do quotidiano, à espera de ser interpelados (Pais 2002, 247-261).
Essencialmente, as inquietações que motivaram o desejo de estudar a autonomia juvenil numa nova perspectiva surgiram de pistas soltas resultantes dum percurso de pesquisa sobre juventude (Pappámikail 2004, 2005, Pappámikail e Pais 2004). Constatou-se a dada altura, analisando os testemunhos de jovens entrevistados para uma pesquisa sobre apoio familiar nas transições da escola para o mercado de trabalho, a afirmação recorrente da autonomia1 de escolhas e decisões como um traço importante de afirmação de si, pelo que a centralidade que a autonomia tinha nos discursos constituía um caminho que deveria ser explorado mais aprofundadamente. Mais, falando sobre o seu quotidiano actual, a maioria situava no passado um período tenso ou mesmo turbulento na relação com a família, de fixação de limites e regras de convivência, mas sobretudo um período fundamental para nela forjar um novo estatuto, mais igualitário face aos progenitores. Restava pois saber, que lógicas e processos sociais subjaziam a esse percurso. Por outro lado, outra importante questão continuava por responder de forma satisfatória: porque é que, apesar de objectivas situações de dependência e influência familiar (instrumental e afectiva), a maioria dos jovens reivindicava uma condição de autonomia na gestão da sua vida, sublinhando o facto de, ao mesmo tempo, serem responsáveis pelas suas acções?
A autonomia reivindicada nos discursos parecia assumir um carácter mais retórico do que prático, como aliás defendem alguns autores nas suas pesquisas sobre jovens contemporâneos (Thomson et al. 2002). Ou seja, emergia um paradoxo que faz com que muitos jovens contemporâneos possam ter a sensação de ser autónomos, sem terem autonomia de facto. Mais do que tomar esta dualidade como um pressuposto, adensou-se sobretudo a ideia de que se lidava com uma noção, no mínimo, paradoxal, ao condensar vários sentidos. Estariam afinal em jogo não um, mas vários conceitos relacionados associados a uma só palavra?
1 Desde logo um reparo: à época da realização da referida pesquisa o uso do termo autonomia pode ter sido precipitado, carecendo, em abono da verdade, da aturada clarificação conceptual que aqui se defende ser necessária.
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UTONOMIA3 Levando na bagagem estas inquietações e uma revisão breve de literatura, lançou-se a pesquisa sem mais demora: entrevistas a jovens rondando o limiar da maioridade e a pelo menos um dos progenitores. As suas características socioeconómicas de origem eram diversificadas, sendo que a maioria estudava ainda. Seguindo o conselho de Kaufmann (1996, 36), optou-se deliberadamente por partir para o terreno sem um aprofundamento bibliográfico demasiado estruturado para que os aportes teóricos não contaminassem o olhar e as perguntas colocadas, ocultando a novidade e a surpresa com a confirmação empírica de postulados teóricos. Importa, pois, ressalvar o facto de muitos dos questionamentos teóricos, que na primeira parte se exploram, terem sido suscitados e desenvolvidos, na verdade, no contacto com a empiria, ou seja, através das tensões e inquietações surgidas da análise dos testemunhos que se recolheram (vide capítulo 5, Parte I para mais explicações sobre o percurso de investigação). Foi, em suma, o somatório de todas estas questões, que serviu de ponto de partida para o percurso de indagação teórica que pretende contextualizar a problemática da autonomia nas sociedades contemporâneas.
A questão capital era, no entanto, a autonomia. E como estudar um conceito cujo conteúdo não é sequer consensual? Mais, como operacionalizar um conceito tão complexo, sem explorar criticamente a sua já longa história, negligenciado o papel fundamental que desempenhou no desenvolvimento das sociedades ocidentais? Recorrendo à terminologia usada por Wagner (2001) há questões de pesquisa que são inescapáveis, se se pretende aprofundar um determinado tema. Procurar soluções para aqueles dilemas – implicados na tarefa de procurar definir a autonomia enquanto valor e enquanto processo - representou um esforço de indagação que conduziu a pesquisa, não só às origens da própria disciplina de Sociologia (através da genealogia do conceito), como a um dos fundamentos normativos das sociedades contemporâneas ocidentais: a noção de indivíduo emancipado, isto é, livre, autónomo e independente2.
Em suma, mobilizar o conceito de autonomia revelou-se desde cedo particularmente complexo, pelo facto de ser um vocábulo que se multiplica numa série de sentidos: políticos (a cidadania implica a autonomia dos sujeitos); éticos (devemos ser autónomos ou
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Perguntar-se-á nesta altura o leitor como foi possível alargar a escala da discussão (da aparente retórica de autonomia juvenil aos fundamentos das sociedades ocidentais) ao ponto de se estar já a fazer referência a aspectos políticos, históricos e filosóficos da noção de autonomia, quando «apenas» se pretende estudar jovens e respectivas famílias. Na verdade, o interesse num dado objecto, observado nas suas manifestações empíricas mais simples e prosaicas, não deve representar desinteresse pelas questões teóricas que, de forma mais ou menos subtil, os trespassam. Impôs-se portanto como tarefa desta pesquisa não só avançar com interpretações para os conteúdos empíricos da autonomia, mas também explorar o porquê de a pensarmos como pensamos.
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a autonomia é a plena realização da individualidade), comportamentais (ter autonomia), identitários (ser autónomo), processuais (tornar-se autónomo).
Também é verdade que se trata de uma palavra banalizada tanto no seu uso quotidiano, como no vocabulário das Ciências Sociais, onde autonomia surge frequentemente ora como causa, ora como consequência de fenómenos, como manifestação ou como explicação de comportamentos, como indicador ou como dimensão de análise, sem muitas vezes se dar conta de qual concepção de autonomia está a ser mobilizada. É, na realidade, uma das armadilhas mais frequentes das Ciências Sociais: longe de qualquer definição «pura», o vocabulário conceptual é constituído de palavras que, para além dos usos múltiplos no quotidiano, carregam uma história que lhes atribui significados que são, na sua génese pelo menos, normativos.
É, ainda assim, possível afirmar que na literatura científica contemporânea a noção de autonomia surge presidindo a um universo semântico povoado de conceitos com sentidos próximos, o que resulta em serem muitas vezes tomados como sinónimos. Senão veja-se: autonomia surge por vezes como equivalente de liberdade, mas também de auto-regulação ou de soberania; é associada à dignidade, à integridade, à individualidade, à independência, à responsabilidade e ao auto-conhecimento; é vista como uma qualidade que se relaciona com a assertividade, reflexão crítica, libertação dos compromissos, ausência de coacção externa e conhecimento de si; é uma característica atribuível às acções, às crenças, às razões para agir, às regras, às vontades de outros, aos pensamentos e aos princípios (Dworkin 2001, 6).
Na verdade, circulam muitas concepções para um só conceito, como justamente reconhece Dworkin (2001, 9), referindo-se à importância de se proceder à sua clarificação. Recorrer à etimologia da palavra, exercício fundamental para a clarificação conceptual, não se revela, neste caso, suficiente. Autonomia significa literalmente dar lei (nomos) ao próprio (auto), o que apontando direcções semânticas e o seu sentido geral, não dá conta nem da importância e alcance do conceito, nem do seu lugar como norma social, nem tampouco das características específicas que permitem (ou não) considerar alguém autónomo.
A autonomia, não obstante os múltiplos significados a ela atribuídos, surge assim no centro dum triângulo cujos vértices representam importantes debates nas Ciências Sociais: a individualização (tempo histórico), individuação (tempo biográfico) e a identidade (tempo subjectivo). Uma triangulação vital para abordar o conceito. Reconhecê-lo não significa, contudo, que nos satisfaçamos com uma mera referência às teses da
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UTONOMIA5 individualização, pois trata-se de um processo socio-histórico de tal modo complexo que merece um exame mais detalhado. Christman (2003) lembra, justamente, que «a autonomia está, na verdade, no vortex3 da complexa discussão acerca da modernidade», e este é um debate que tem interessado uma miríade de teóricos sociais (Alexander 1995, Corcuff et al. 2005, Kaufmann 2008, Taylor 1989, 2004, Turner 1990, Wagner 2001, Wagner 2002 [1994], só para citar alguns dos mais relevantes).
A centralidade da autonomia deve-se, de acordo com Wagner (2001, 4), a partir da tese de Castoriadis (1975), ao facto da autonomia, a par da racionalidade que permite ao ser humano controlar a sua relação consigo próprio e com a natureza, se constituírem como a dupla significação do imaginário da modernidade. Muito para além de um conceito operativo que refere processos empíricos, a autonomia está, pois, na base dos princípios filosóficos e políticos que ajudam a pensar as sociedades contemporâneas e a mapear as paisagens éticas e morais que servem de pano de fundo às trajectórias de vida.
Assim, analisar narrativas familiares, histórias de vida concretas desenroladas em quotidianos «banais», só sublinhou o facto de estarmos perante um tema que congrega uma rede complexa de intuições, questões empíricas e conceptuais, bem como importantes discussões normativas (Dworkin 2001, 7). Não se quis, contudo, e face à complexidade que se tem procurado demonstrar, correr o risco de fazer um uso dogmatizado da noção de autonomia, limitando a discussão ao interpretar na realidade estudada as propriedades atribuídas ao conceito (Corcuff 2005a), pela simples razão deste estar difusamente definido e mostrar ser plural nos seus significados.
De acordo com algumas abordagens mais críticas (Corcuff 2005a, 2007, Wagner 2001) a dogmatização resulta, justamente, da pré-estruturação do olhar sociológico que, ao negligenciar as raízes filosóficas dos seus questionamentos de base, bem como do seu espaço interpretativo. Acaba assim, muitas vezes, por encaixar mecanicamente os conceitos nos seus esquemas de inteligibilidade, não os interpelando sistematicamente. Há, com efeito, em muita Teoria Social contemporânea um substrato ideológico que não deve ser ignorado. Hoje, no entanto, é muito menos visível do que, por exemplo, na Teoria Social clássica, onde a articulação entre éticas e teorias sociais era aliás assumida como um objectivo (nomeadamente Alexander 1995, 13, Cohen 2002, 136)4. Encetar um percurso de
3 A referência ao vortex, por contraponto à ideia de vértice, remete justamente para o carácter dinâmico de tal debate, uma vez que vortex evoca a ideia de um fluxo em espiral, em constante movimento de rotação.
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reflexividade que tentasse, no mínimo, contornar este risco, conduziu, assim, a uma averiguação que rapidamente obrigou a saltar as fronteiras disciplinares da Sociologia, para dialogar com particular intensidade com a Filosofia. O diálogo entre estes dois registos intelectuais revelou-se muito inspirador e permitiu, não só situar uma problemática particular no trilho das questões histórico-filosóficas que estruturam o debate sociológico5, como emprestou à análise um adicional rigor conceptual. Mais não se fez, neste caso, do que seguir o convite de Corcuff (2007, 116), para quem uma maior densificação teórica é um resultado do convite à renovação conceptual que só se consegue, em seu entender, através do estabelecimento de uma saudável distância crítica de noções rotinizadas por via de diálogos interdisciplinares.
Mas um trajecto de averiguação teórica, por muito valor que tenha enquanto exercício intelectual, só teve interesse (e justificação) na medida em que servia o objectivo de iluminar um objecto empírico concreto: as experiências de jovens adolescentes e suas famílias. Esta trajectória de reflexividade conceptual foi pois, antes de mais, essencial na construção de um esquema de inteligibilidade, tecido a partir das pistas recolhidas da análise dos dados. Isto é, o exercício é válido na medida em que forneceu os elementos críticos que permitiram aprofundar as relações entre categorias e conceitos, porque ajudou a destrinçar os nós interpretativos que em que se hesitou durante a análise, e porque permitiu consolidar o fio condutor que orientou a construção da narrativa, criando sentidos para a leitura das múltiplas experiências que um corpus empírico contém.
Esta dissertação é, pois, composta por dois percursos principais que visam, em última análise, promover uma discussão acerca da autonomia enquanto conceito, norma social e processo. Na primeira parte (Parte I), dá-se conta do percurso de definição conceptual através da elencagem dos contributos relevantes à construção do modelo de análise, procurando tornar o conceito chave desta pesquisa – a autonomia – operacionalizável e heurístico. Ao fazê-lo, explora-se a sua trajectória conceptual, os seus sentidos e os seus conteúdos históricos, filosóficos e sociológicos. Um percurso que abre portas a um outro (Parte II) em que se retratam experiências juvenis a partir de vários recortes temáticos que abordam alguns elementos fundamentais para a compreensão dos processos de construção da autonomia juvenil e suas implicações na vida familiar.
5 Mesmo que frequentemente se ignore essa relação, o que leva vários autores a criticar ora a concentração no presente, ora a uma recolha demasiado selectiva de elementos do passado na produção das Ciências Sociais na actualidade (como refere, por exemplo, Wagner 2001, 78).
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UTONOMIA7 Na Parte I faz-se uma aproximação progressiva ao objecto de pesquisa (do geral ao particular) em cinco momentos. No Capítulo 1 parte-se em busca das raízes filosóficas da noção de sujeito, a partir de uma genealogia histórico-filosófica, breve e sintética, da noção de autonomia enquanto eixo central do ideário moderno. Uma particular atenção é dada aos paradoxos que resultam da afirmação da autonomia como valor, tanto na sua definição formal e conceptual, como na distância que se estabelece entre o indivíduo ético e a experiência do indivíduo empírico, paradoxos que inspiram, aliás, uma longa corrente de debates em torno do sentido a dar à existência humana.
Já no Capítulo 2 pretende-se reflectir sobre o modo como o ideário moderno influi na génese e desenvolvimento das Ciências Sociais e na forma como estas se organizam paradigmaticamente em torno de compromissos éticos e propósitos reformadores (embora nem sempre explícitos). Procurará argumentar-se como é a leitura da autonomia enquanto valor fundamental, herdada dos antagonismos vigentes no pensamento filosófico, e os progressos e regressos que a história trouxe aos sujeitos, o eixo fundamental do debate sociológico, na forma como pensadores oriundos de várias tradições interpretam o seu tempo e a condição humana em sociedade.
No Capítulo 3 chega-se finalmente às estratégias intelectuais usadas pela Sociologia para abordar o indivíduo, aqui organizadas em função do tratamento que dão à autonomia do sujeito e à capacidade deste ser ou não verdadeiramente autónomo. Para o efeito, procurou fornecer-se uma visão dinâmica e processual dos vários aportes teóricos no sentido do que são as tendências contemporâneas na análise da complexidade e pluralidade dos indivíduos e suas trajectórias de vida.
O Capítulo 4 debruça-se, por fim, sobre as transformações da instituição família, a par de uma revisão crítica de alguns contributos resultantes da produção da Sociologia dedicada à juventude, com o fito de estabelecer, por um lado, directrizes para a interpretação do objecto, através de exercícios de clarificação conceptual, e, por outro, desenhando um olhar teórico sobre a adolescência e os processos de construção de si que sintetiza, de certa forma, os múltiplos contributos que definem autonomia enquanto conceito compósito e plural e o processo de individuação como um percurso dinâmico e relacional.
Partindo da sistematização dos objectivos específicos que orientam a construção desta narrativa, no Capítulo 5 condensa-se, por fim, a descrição do e as reflexões sobre o percurso de investigação. Versa o último capítulo da primeira parte sobre a estratégia e
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procedimentos metodológicos adoptados bem como sobre os fundamentos epistemológicos que os justificam.
A segunda parte é dedicada a analisar e discutir os traços que caracterizam os processos de construção de autonomia por parte dos jovens, tendo em conta os vários eixos de significação da autonomia enquanto norma social e processo psico-social que força a recomposição das relações familiares, averiguando o modo como se cruza com factores de desigualdade social, cultural ou de género. Quatro capítulos a compõem. Em primeiro lugar (Capítulo 1), perscrutam-se os contextos e as estratégias de socialização familiar, através da discussão das várias faces e interpretações da autonomia nas culturas familiares e nas estratégias educativas desenvolvidas e aplicadas por famílias com perfis distintos do ponto de vista socioeconómico. Que valores desejam os pais transmitir aos seus filhos? Que tipo de percursos lhes auguram? Que competências consideram ser essenciais a uma trajectória bem sucedida? Em torno das respostas a estas questões compõe-se a paleta dos principais eixos de objectivos educativos de que se pintam as várias culturas familiares. Estas não devem ser tomadas, porém, como elementos estáticos ou perenes no tempo, antes se (re)compondo das experiências dos indivíduos que a alimentam, rompendo ou subscrevendo tradições e visões do mundo. Na segunda parte do Capítulo 1, percorrem-se, ainda, algumas experiências vividas pelos progenitores que, num quadro mais amplo de transformações culturais e recomposição social, influenciaram os processos de revisão crítica das culturas familiares, dos modelos educativos, dos patrimónios normativos, aí se entrevendo eixos de mudança e continuidade.
Apesar de serem importantes os contextos familiares de socialização, não deve ser desprezada a força das interacções, na medida em que os jovens sujeitos não são receptáculos passivos das heranças parentais, nem um seu reflexo imediato. Ou seja, os contextos e as lógicas de socialização não explicam nunca a totalidade da acção do sujeito, apenas uma parte. Na realidade, não só a gestão da tensão entre o desejo de proteger e a missão de emancipar os filhos gera inevitáveis paradoxos, como a acção parental esbarra na influência de outros contextos de socialização formal e informal (a escola e os amigos), que ajudam a compor a autonomia do sujeito, na continuidade e na ruptura com a cultura familiar. Isto porque, num período da vida marcado pela abertura ao mundo, os sujeitos reclamam não só um novo estatuto (em relação à família) como procuram e experimentam a sua identidade enquanto indivíduos singulares. Não raras vezes fazem-no interpelando a família e a legitimidade desta em gerir os seus percursos e o seu quotidiano.
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UTONOMIA9 Os Capítulos 2 e 3 debruçam-se, assim, sobre a importância das interacções, que geram um espaço de intersubjectividade partilhada, na compreensão da acção e das trajectórias sociais. Isto é, reconstitui-se o jogo assimétrico, ao longo do tempo, entre actores que desempenham diferentes papéis no sistema de relações familiares, no qual mobilizam competências e estratégias com vista à concretização dos seus fins (mais ou menos divergentes). Para o efeito analisaram-se os percursos de reivindicação, conquista e/ou concessão de liberdade e independência, e as consequências positivas e negativas que estas experiências têm no processo de construção da autonomia (processo distinto, mas inter-relacionado). Por um lado, analisaram-se as modalidades de resolução progressiva das tensões que resultam do esforço de ampliação do perímetro de liberdade de circulação e acção no sentido da conquista de novos tempos e territórios públicos de interacção, nomeadamente numa lógica de lazer (Capítulo 2). Por outro, perscrutaram-se os sentidos implícitos na forma como são geridas as trocas financeiras na família, na medida em que a posse e gestão de dinheiro podem ser consideradas um indicador de independência (Capítulo 3).
O registo de uma acção mais racional, feito da aferição de estratégias, lógicas de acção e confrontos mais ou menos tensos, é uma visão que devolve aos actores capacidade para agir sobre si próprio e sobre o seu universo de experiência. A mesma experiência a que procuram, a par e passo, dar sentido, ensaiando uma unidade narrativa que exprima aquilo que o sujeito quer ser, ou pensa ser de facto. O Capítulo 4 procura abordar o registo da subjectividade, observando as dinâmicas inerentes à vivência do espaço privado da casa, bem como os sentidos que lhes são atribuídos. Simultaneamente estuda-se o modo como num território colectivo e partilhado, se vão construindo espaços privados e íntimos, onde se pode expressar objectivamente traços de uma identidade em construção (ainda que provisória e hesitante) e manifestar a assumpção de um novo lugar na família, atenuando eventualmente assimetrias estatutárias e relacionais.
Para finalizar, resumem-se nas Conclusões Finais as principais reflexões retiradas deste percurso entrecruzado de debates teóricos e vidas de jovens e respectivas famílias, no sentido de contribuir para a compreensão de algumas das muitas questões relacionadas com a autonomia, na dupla vertente de valor matricial e processo social, na sociedade portuguesa contemporânea.
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PARTE I
A autonomia na paisagem ética contemporânea: da
genealogia teórica de um conceito à definição de um objecto de
pesquisa
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CAPÍTULO 1
Autonomia, Indivíduo e Modernidade:
em busca das raízes filosóficas da noção de sujeito
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Apresentação
A autonomia é frequentemente invocada como um dos eixos centrais da constelação de valores que caracterizaria a contemporaneidade6. Com efeito, as sociedades ocidentais contemporâneas têm sido apresentadas como sociedades crescentemente diferenciadas e individualizadas, o que justifica, para autores como Beck por exemplo, que se entendam os processos de individuação actuais como substancialmente diferentes do que eram há algumas décadas atrás. No desenvolvimento do seu programa teórico e empírico defende que, muito embora considere que não se possa falar de pós-modernidade – prefere o termo segunda modernidade –, se deu uma ruptura em relação ao passado nas sociedades contemporâneas (Beck e Lau 2005, 526). Essa ruptura pode representar-se no primado do princípio utópico que afirma que cada indivíduo pode (e deve, aliás) tornar-se maestro da sua própria vida (Singly 2006b, 11).
Assim, qualquer indagação sobre o tema do indivíduo, qualquer que seja a fase do ciclo de vida, e das identidades deparar-se-á com um emaranhado de referências ao eventual fim ou à continuidade da modernidade enquanto tempo histórico, à emergência de uma «nova» ordem de valores centrada no indivíduo (em que a autonomia ocuparia um papel de destaque), à assumpção plena do indivíduo como unidade base da organização social, ao maior ou menor alcance do processo de individualização e ao desenvolvimento do individualismo nas sociedades actuais (em versões mais liberais ou mais
6 Recorre-se ao termo contemporaneidade propositadamente. Com efeito, uma das determinações posta em prática neste trabalho é o uso de vocábulos relativamente neutros para nomear o tempo presente. Quantos trabalhos não farão um uso acrítico de expressões hoje já banalizadas como modernidade tardia, segunda modernidade, alta modernidade, pós-modernidade, etc.?
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institucionalizadas) (Bauman 2001, Beck e Beck-Gernsheim 2002, Beck et al. 2000, Giddens 1994, 1996, Kaufmann 2008, Singly 2000a). Termos como fragmentação, incerteza e risco emergem como alguns dos principais atributos que adjectivam as trajectórias de vida na contemporaneidade, agora muito menos previsíveis do que anteriormente. Justificando estas interpretações estão mudanças no mundo do trabalho, com a flexibilização e precarização das relações contratuais a par da reconfiguração do tecido produtivo (com os processos de terciarização e a expansão das tecnologias da informação, nomeadamente); o aumento progressivo da duração média das carreiras escolares e prolongamento da co-residência familiar por parte dos jovens; o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e as mudanças no seio das relações de género na família que habitualmente lhe são associadas; o aumento da divorcialidade e das uniões conjugais não oficializadas, entre outras; e o declínio da participação política e a crise dos Estados-Providência. Em suma, em causa estão processos de desestruturação, desinstitucionalização e mudança cultural. Apesar de sentidas com diferentes graus de intensidade consoante os contextos, são tendências partilhadas pela maioria dos países «ditos» ocidentais.
Destas leituras, três conclusões principais. Primeiro, a importância da autonomia individual no sistema de valores contemporâneos. Ainda que seja forçoso referir a sua deficiente definição conceptual, a sua centralidade não se resume a uma constatação empírica ocasional, mas é algo amplamente referido na literatura, nomeadamente a que se ocupa das gerações mais jovens (Cicchelli 2001a, 2001b, 2007, Gaviria 2005, Henderson et al. 2007, Maunaye e Molgat 2003, Ramos 2002, Singly 2000b, 2005b, 2006a, Thomson et al. 2002, Thomson e Holland 2002, para citar apenas alguns exemplos). Segundo, apesar da omnipresença da autonomia, tratada tantas vezes como recurso explicativo adquirido, esta raramente é questionada ou abordada nas suas raízes conceptuais e normativas.
Terceiro, o discurso teórico foca demasiado o «novo» nas sociedades contemporâneas, fazendo uso de uma escala de análise temporal pouco profunda de um modo geral. Como justamente refere Martuccelli (2005), as perspectivas contemporâneas do indivíduo, lançado nas últimas duas décadas para a frente do palco do interesse sociológico, inscrevem-se na descendência e não tanto na ruptura de abordagens já centenárias. Acrescenta, aliás, que insistir na profunda continuidade do olhar sociológico permite ter uma atitude terapêutica face à ilusão amnésica que a afirmação da novidade de uma Sociologia do indivíduo constitui.
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UTONOMIA17 Na verdade, o facto de se referir a contemporaneidade como recorte temporal de referência não impede, muito pelo contrário, que se entenda a actualidade como o produto de processos a operar num tempo longo. A excessiva concentração no presente de muitas teorias de curto e médio alcance na Sociologia, por exemplo, tem sido fortemente criticado por autores como Norbert Elias (1987), que dedica todo um texto ao tema, embora outros também denunciem o mesmo problema como Jeffrey Alexander (1995), Pierre Corcuff (2007) e Peter Wagner (2001). Tende a haver, pois, um certo grau de precipitação no recurso ao adjectivo «novo» em muitas reflexões sobre a realidade contemporânea (Smart 1990, 20-22)7.
Pelo exposto entende-se que a reflexão sobre a autonomia passa por uma reflexão sobre o ideário cultural com origem na génese da modernidade e que, de acordo com a literatura sociológica, tem consequências passíveis de serem entrevistas nas experiências singulares. A autonomia remete, pois, invariavelmente para o indivíduo, quer na sua concepção ética e moral, quer na sua condição de sujeito empírico «amostra indivisível da espécie humana», para usar uma designação feliz que tanto Dumont (1992, 268) como Ricoeur (1996, 1) usam. As diferentes visões da forma como estes dois indivíduos se relacionam dominaram, de certa forma, as agendas de investigação da Sociologia desde a sua fundação até hoje, o que resultou de um modo geral em modelos interpretativos do indivíduo parciais e incompletos. É esse pelo menos o argumento que aqui se defende.
As transformações sociais mais recentes redundaram, no entanto, numa maior exposição do indivíduo, ele próprio e não apenas enquanto suporte corpóreo das estruturas sociais nem tão pouco uma abstracção teórica pura (abordagens dominantes até certa altura), dando origem a um renovado interesse por parte dos investigadores sociais. Martuccelli (2005) considera mesmo que esse interesse resultou numa inflexão nas teorias sociológicas no sentido de passarem a abordar a complexidade inerente à experiência individual (vide à frente Capítulo 3, Parte I).
Pensar a autonomia nos dias de hoje não se pode reduzir, ainda assim, à análise e discussão de um projecto filosófico – o moderno, tal como visto do presente. O mundo, na sua globalidade, assistiu a profundas transformações nos últimos séculos que reformularam as paisagens empíricas e éticas onde os indivíduos fazem os seus percursos de vida. A
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Quer isto dizer que quando se referenciam mudanças, fazem-no grosso modo por referência a um eixo temporal curto, sendo as mudanças no mundo do trabalho um bom exemplo: se se recordar todo o período que antecedeu os denominados «trinta gloriosos anos» que sucederam à 2ª Guerra Mundial, será mais rigoroso chamar às mudanças no mundo do trabalho um retorno em novos moldes aos sistemas precários de relações laborais que inspiraram os movimentos sindicalistas do século XIX e XX.
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diversidade das e nas experiências de vida tem, com efeito, renovado constantemente o stock de problemáticas e inquietações disponíveis à reflexão social e sobre o social. Mudanças que parecem ter-se acelerado e intensificado nas últimas quatro décadas, como têm verificado os teóricos sociais que as têm procurado interpretar (concorde-se ou não com as suas propostas) e que fazem com que a valorização do Eu seja tida como uma das características mais consensuais das sociedades de hoje (Ion 2005, 28 ver também Kaufmann 2008). Assim, se no plano das ideias podem por vezes parecer demasiado estanques e antagónicas as diversas linhagens conceptuais, mesmo quando se perscrutam as relações que estabelecem entre si, é importante sublinhar a fluidez e continuidade, se se tiver em conta a dimensão histórica que faz com que certas ideias só surjam num determinado tempo, e num determinado lugar8. Esta menção serve apenas para sublinhar que é esta a razão que leva a que o percurso de discussão teórica, que agora se inicia, recue mais de dois séculos no tempo para situar as raízes da importância atribuída (ainda) hoje à autonomia enquanto norma central da paisagem ética.
1.1 Autonomia no projecto moderno: entre o indivíduo e o bem comum
No que importa para esta pesquisa, o facto é que ensaiar uma genealogia situada no tempo do conceito de autonomia e do seu peso nos sistemas éticos e normativos implicou uma completa imersão num debate deveras persistente nas Ciências Sociais9, desde a sua fundação no século XIX, que é aquele que se debruça sobre os modos de afirmação e as características de uma era civilizacional – a modernidade – surgida a partir de meados do século XVIII. Época que pode até, na perspectiva de alguns, ter já dado lugar a um novo tempo. Na verdade, um dos aspectos positivos a destacar da controvérsia acerca da
8 Na verdade, o plano da história das ideias está intimamente associado às várias tradições nacionais de pensamento, como demonstra o percurso feito por Levine (1995). Será indiferente o facto de Dewey, que com Mead desenvolve as bases do interaccionismo simbólico, ter sido aluno de Hegel, apesar de ser igualmente forte a influência do pragmatismo de Pierce? Hegel, um autor que, por sua vez, se integra num conjunto de pensadores apologistas da ideia que os fenómenos humanos não podem ser reduzidos a propensões e mecanismos naturais, mas que manifestam a sua distintividade através dos sentidos imbuídos nas acções pelos actores (ideia que irá inspirar Weber e Simmel, por exemplo). Já a tradição francesa, que tem em Durkheim um ilustre representante - ele próprio um republicano militante, responde ao individualismo metodológico desenvolvido na tradição britânica vinda de Hobbes, postulando que a sociedade é um fenómeno com propriedades não redutíveis às propensões dos indivíduos que a compõem (Levine 256-260, 300-306).
9 O uso do termo Ciências Sociais tem o propósito de reforçar a ideia de que se trata de um debate teórico gerador de uma meta-linguagem de interpretação do mundo social, comum às várias disciplinas da área das Ciências Sociais e, por isso, anterior às fronteiras entre objectos e à criação de abordagens específicas e particulares.
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UTONOMIA19 existência de uma pós-modernidade é o facto de ter renovado, desde há algumas décadas, o interesse no estudo da modernidade ela própria, dando origem a interessantes reflexões e questionamentos críticos acerca do património teórico das Ciências Sociais (Wagner 2001, 5).
Com efeito, a modernidade é aqui encarada na sua dupla vertente de projecto e processo. Reconhecer esta dualidade é, segundo Wagner (2001, 4, argumento desenvolvido parcialmente em A Sociology of Modernity, 2002 [1994], 3-4), o primeiro passo para que as dimensões éticas e históricas da modernidade sejam situadas nos respectivos planos, malgrado a tensão existente entre ambas:
«O termo modernidade carrega inevitavelmente uma dupla conotação; é sempre tanto filosófica como empírica, ou tanto substantiva como temporal, ou (…) tanto conceptual como histórica.»10
Parece ser consensual que o papel da autonomia nas sociedades contemporâneas está relacionado com a emergência de um ideário cultural próprio da modernidade ocidental. Esta terá sido fundada sobre um programa normativo em que a autonomia, juntamente com a busca do controlo racional sobre a natureza, assim entendida como inteligível e dominável, se constituem no duplo imaginário da modernidade (Wagner 2001, Wagner 2002 [1994], a partir de uma ideia original de Castoriadis). Taylor (1989, 12) sustenta uma interpretação semelhante, afirmando que a noção de autonomia é a base de qualquer interpretação da modernidade (ou seja, referência tanto para partidários como opositores). A verdade é que a discussão sobre a autonomia não mais perdeu terreno no plano da discussão filosófica e, de forma menos óbvia, na sociológica também. Senão veja-se.
Não obstante diferenças específicas nas diversas leituras da modernidade, quase todas situam no período iluminista um importante movimento filosófico, cujos efeitos se estendem à política e à economia, no modo de conceber e organizar as sociedades ocidentais. A afirmação do racionalismo, da razão enquanto referência fundamental para o Homem, é o primeiro traço desse novo tempo a merecer destaque. É, com efeito, um racionalismo que libertaria (do ponto de vista ontológico e epistemológico) o Homem das amarras da religião e do destino tornando-o autónomo de instâncias metafísicas de regulação. Ou seja, trata-se de um racionalismo cuja concretização se articularia, também,
10 Com vista a tornar a leitura da dissertação mais escorreita, esta e todas as citações em língua estrangeira foram traduzidas livremente pela autora.
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com um processo de secularização. Note-se, porém, que o que caracterizava as sociedades democráticas que se desejavam implementar não estava no facto do indivíduo passar a achar em si a principal fonte de crenças em vez de o fazer no espectro do divino, mas sim que as crenças podiam ser encontradas na razão humana, ou seja, na opinião comum e não no sobrenatural (Descombes 2004, 372).
Com efeito, Alexander (1995, 1-2) assinala que, não obstante o carácter de novidade que lhe é normalmente atribuído, não é totalmente verdade que o racionalismo, e mesmo o universalismo, sejam exclusivos da época moderna, afirmando que também a civilização judaico-cristã11 se organizou em torno de uma racionalidade com pretensões universais, embora inalcançável e exterior aos homens a ela subjugados. A transformação não se deu, na sua perspectiva, na forma mas sim no conteúdo: a razão do Homem separa-se definitivamente da razão de Deus, assumindo a primeira o lugar antes ocupado pela segunda enquanto princípio estruturador das visões do mundo. Durante muito tempo, aliás, do ponto de vista estritamente filosófico, a fé em Deus foi substituída pela fé no Homem, mantendo-se o «carácter linear, histórico, e governado por uma concepção poderosa de uma força impessoal e objectiva» embora sem «o satisfatório e confortante sentido de uma finalidade teológica, que a ancoragem transcendental fornecia». Ou seja, diz o mesmo autor mais à frente, que o que se viu de facto foram «os sonhos de salvação» serem «substituídos por sonhos de razão». Isto significava, em coerência com o optimismo do projecto moderno, capacitar os homens a alcançar a Verdade, através do conhecimento e do controlo sobre a natureza: a revolução nos modos de produção (agora industriais) e o desenvolvimento do conhecimento científico12 foram dois dos pilares fundamentais dessa crença13.
Subjacente ao projecto da modernidade está, também, um novo modo de conceber o indivíduo. Apesar de num primeiro momento o discurso filosófico estar mais atento ao Homem do que aos homens e mulheres concretos – configurando o que se poderá chamar
11 Se a modernidade evoca a noção de progresso, é necessário sublinhar que uma tal concepção só é possível devido à primazia progressiva de uma noção de tempo linear sobre uma de tempo cíclico característico de sociedades eminentemente agrícolas. A linearidade do tempo também é, note-se, um contributo das religiões monoteístas de raiz judaica (ver a este propósito Pereira 1989).
12 Berthelot (2008) lembra, justamente, como o conhecimento científico se instituiu como «a empresa da verdade» objectiva e irrefutável, fruto das capacidades que a razão humana conquistou na modernidade.
13 Sublinhe-se que este não é um argumento exclusivo de Alexander. Wagner (2002 [1994], 9) invoca um argumento semelhante ao falar da Razão referida pelo ideário iluminista como «uma categoria supra-individual e, talvez, supra-humana», tal como Taylor (1989, 21-22) que sublinha o facto de a ideia de desafiliação racional estar na continuidade do raciocínio teológico judaico-cristão.
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UTONOMIA21 um individualismo humanista – há importantes mudanças nos princípios antropológicos morais e, consequentemente, nas categorias de pensamento. Os indivíduos são, com efeito, instituídos como as unidades básicas e indivisíveis da organização social, unos por via da sua singularidade e dignidade individual (reveja-se a este propósito o ideário da revolução francesa e americana). Isto é, passa a ser valorizado o indivíduo (idealmente) autónomo, livre e independente, merecedor, por isso, de respeito e de tratamento igual ao próximo. Por outro lado, o modelo societário promovido pelo projecto moderno permitiria também ao indivíduo libertar-se da família, durante séculos nível único de integração social e, à luz dos novos princípios, um obstáculo à completa emancipação dos grilhões da tradição. O indivíduo por si só passa a concebido como tendo direitos inalienáveis, ou imanentes à sua condição humana (ao estilo da trindade lockeana – vida, liberdade e propriedade, por exemplo) e não exclusivos de uma qualquer condição social.
Significa isto que com a modernidade, a natureza humana emerge como o enquadramento antropológico da liberdade enquanto valor supremo (Wagner 2001, 8). Todo este edifício filosófico assenta no pressuposto da autonomia, pois dela depende o desenvolvimento de pressupostos como «a noção de sujeitos desafiliados, libertos de uma confortável mas ilusória sensação de imersão na natureza, objectivando o mundo à sua volta» (Taylor 1989, 12). Elevar a condição de indivíduo ao centro do pensamento filosófico e da organização política representa, como explica Elias (1993 [1987], 174-177), uma importante mudança, recordando que nas sociedades clássicas e até ao Renascimento, por exemplo, não existia um vocábulo que exprimisse a noção de indivíduo, enquanto pessoas independentes dos grupos a que pertenciam.
Na verdade, o projecto da modernidade foi desenhado como um programa de emancipação, ao visar reconhecer em todos os indivíduos o mesmo grau de integridade. Subjazem nesta afirmação duas importantes consequências filosóficas que se constituem como pilares igualmente importantes do projecto moderno: a noção de que com isso se promovia o bem comum, uma vez que se tratavam de princípios universais (porque derivando da natureza humana ela própria) o que permitiria articular a soberana vontade individual com o regular funcionamento da sociedade. É aliás no (des)equilíbrio precário entre a ênfase atribuída ao indivíduo e ao bem comum, na definição dos modelos societários, que assentarão os mais significativos debates políticos nos séculos que se seguirão.
Com efeito, no contexto anglo-saxónico parece ter prevalecido uma tradição de pensamento cuja orientação foi claramente mais individualista e utilitarista, ao entender, de
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um modo genérico, como objectivo último do sistema moral (e social) a busca da satisfação dos interesses individuais, assim garantindo a ordem social. Já no quadro do pensamento francês, a Filosofia social e política pendeu claramente para a valorização do bem comum, partindo de um ideal de sociedade em que era a garantia da ordem social que permitia aos indivíduos o exercício de liberdades e da sua autonomia (cf. Levine 1995). Como explica Ion (2005, 26),
«O ideal republicano valoriza a assembleia de cidadãos, reunião de indivíduos sem dependência, o que quer dizer, por um lado, libertos de todo os sistemas de pertença (religiosa, familiar, étnica, geográfica, profissional, etc.) e, por outro, informados pela razão e logo educados, capazes de debater o interesse geral da res publica, sem misturar qualquer tipo de interesse particular».
São estes, de forma muito sintética e forçosamente simplificada, os princípios básicos da modernidade filosófica que inspiraram a construção de (novos) modelos societários (variando a sua orientação conforme o contexto filosófico nacional). O Estado-Nação democrático, contrato social entre indivíduos-cidadãos, com as suas instituições centralizadas, reguladoras e independentes da Igreja é uma das formulações atribuídas à modernidade filosófica. Esta foi uma das soluções institucionais encontradas para materializar o bem e a justiça para todos os seus membros, através da promoção e garantia da liberdade e autonomia dos indivíduos. A expansão dos mesmos princípios normativos é sincrónica de um assinalável surto de desenvolvimento social, cultural, económico, político, tecnológico e científico, que deve ser estudado como modernidade, sim, mas tentando não confundir o que é o processo histórico-empírico com as dimensões epistemológicas, por um lado, e éticas, por outro, a que temos vindo a fazer referência (Wagner 2001, 1)14. Ainda assim, seria ingénuo analisar a modernidade nas suas duas vertentes sem considerar, a cada momento, as complexas relações que os princípios filosóficos têm no processo histórico, institucional e cultural de longo prazo.
Apesar de se poder falar de alguma hegemonia deste ideário, sobretudo na primeira fase do processo de industrialização com o desenvolvimento das Filosofias utilitaristas (no contexto britânico principalmente) e a emergência do económico como segmento separado do político (cf. Dumont 1992), hoje reconhece-se a natureza fragmentada das fontes culturais da modernidade, pelo que como processo histórico não deve ser interpretado
14 A ideia de que a época moderna resulta da forçosa relação entre a atitude que tornou possível a ciência moderna (onde se incluem as Ciências Sociais) e a atitude que tornou possíveis as revoluções políticas modernas faz particular sentido no plano da Filosofia da história, lembra Descombes (2004, 352), devendo ser questionada quando se trilham outras abordagens.