EDUCAÇÃO MEDIADA POR TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: PRESSUPOSTOS E AVALIAÇÃO

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Nº 3, volume 11, artigo nº 2, Julho/Setembro 2016 D.O.I: http://dx.doi.org/10.6020/1679-9844/v11n3a2

ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 25 de 200

EDUCAÇÃO MEDIADA POR TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

E COMUNICAÇÃO: PRESSUPOSTOS E AVALIAÇÃO

EDUCATION MEDIATED INFORMATION TECHNOLOGY AND

COMMUNICATION: ASSUMPTIONS AND EVALUATION

Enedina Betânia Leite de Lucena Pires Nunes1, Isabel Cristina Auler Pereira2

1Universidade Federal do Tocantins, Palmas, TO, Brasil, enedina@uft.edu.br

2Universidade Federal do Tocantins, Palmas, TO, Brasil, isabel@uft.edu.br

Resumo - Os avanços e a propagação do uso das tecnologias de informação e

comunicação abrem novas perspectivas para a educação a distância apoiada em ambientes digitais de aprendizagem mediados pelo computador. O grande desafio é a incorporação e o adensamento dos estudos e pesquisas orientados para os processos decorrentes dessas tecnologias digitais no âmbito educacional, tendo em vista as práticas pedagógicas tradicionais e a natureza das políticas educacionais voltadas para essa temática. O presente artigo tem como objetivo analisar os pressupostos dos mecanismos de interação entre estudantes, professores e tutores que são avaliados nos Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância (BRASIL, 2007) e no Instrumento de Avaliação de cursos de graduação presencial e a distância (BRASIL, 2015), aprovados pelo Ministério da Educação e que fundamentam a organização e estruturação dos projetos pedagógicos dos cursos oferecidos na modalidade a distância. Este estudo será realizado por meio de revisão bibliográfica a partir dos fundamentos teóricos de Primo (2000, 2003); Almeida (2003, 2011); Valente (2008) e Lévy (1999) e de análise de conteúdo (BARDIN, 1977) dos documentos oficiais, numa abordagem qualitativa. Como reflexão final tem-se que a utilização das tecnologias digitais na interação entre docentes, tutores e discentes devem integrar o projeto pedagógico como um elemento do currículo,

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 26 de 200 sendo que sua utilização deve ser planejada de forma sistêmica e aliada a outros meios. Os cursos devem estar apoiados em um sistema de comunicação multidirecional que possibilite a resolução com rapidez de questões relativas ao material didático e seus conteúdos e orientação da aprendizagem, promovendo a interação entre todos os sujeitos envolvidos nesse processo educativo.

Palavras-chave: Educação a distância. Educação mediada por tecnologias de

informação e comunicação. Interatividade.

Abstract – The advances and the spread of the use of information and

communication technologies open new perspectives for distance education supported in virtual environments mediated by computer. The big challenge is the development and the consolidation of the studies and research oriented to the processes arising from these digital technologies in the educational field, in view of the traditional teaching practices and the nature of educational policy for this theme. This actual article aims to analyze the assumptions of the mechanisms of interaction between students, teachers and tutors are assessed in the references of Quality of Higher Distance Education (BRAZIL, 2007), and Assessment Instrument courses of graduation in person and distance (BRAZIL, 2015), approved by the Ministry of Education and that establish the organization and structure of the pedagogical projects of the courses offered in the distance. This study will be conducted through bibliographic review from the theoretical elements of Primo (2000, 2003); Almeida (2003, 2011); Valente (2008) and Levy (1999) and content analysis (Bardin, 1977) of the official documents, a qualitative approach. As a final reflection is that the use of digital technologies in the interaction between teachers, tutors and students be included in the pedagogic project as an element of the curriculum, and its use should be planned in a systematic way and combined with other means. Courses should be supported in a multi-directional communication system that enables fast resolution of issues relating to teaching materials and their contents and guidance of learning, promoting interaction between all subjects involved in this educational process.

Keywords: Distance education. Education mediated by information and

communication technologies. Interactivity.

1. Introdução

Os avanços e a propagação do uso das tecnologias de informação e comunicação abrem novas perspectivas para a educação a distância apoiada em ambientes digitais de aprendizagem mediados pelo computador. Ambientes digitais de aprendizagem são sistemas computacionais disponíveis na internet, destinados ao

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 27 de 200 suporte de atividades mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação digitais. São diferentes de salas de aula e livros, e requerem posturas e propostas diferentes frente aos seus recursos e estende o âmbito da comunicação eletrônica para todo o domínio da vida: de casa a trabalho, de escolas a hospitais, de entretenimento a viagens (CASTELLS, 1999, p. 332).

Embora as tecnologias da informação e comunicação tenham adentrado o âmbito escolar, imensos são os desafios e problemas relacionados às formas como essas tecnologias foram introduzidas no currículo escolar. Para entendê-los e superá-los é fundamental reconhecer as potencialidades das tecnologias e a realidade em que a escola se encontra. Faz-se necessário identificar as características do trabalho pedagógico, o potencial do corpo docente e discente e o envolvimento da comunidade interna e externa. O que se observa, de modo geral, é que a interação é bastante restrita entre os sujeitos do processo educativo, sobretudo devido aos modelos centrados no professor e a reprodução no virtual do modelo centralizado no conteúdo e no professor. Apesar disso, a educação mediada pelas tecnologias ganha adesão por apresentar maior flexibilidade para o estudante especialmente devido às demandas de formação de populações que residem em cidades menores.

Na realidade, a utilização da internet na escola passou a ser uma exigência da cibercultura1, que apresenta um novo espaço de sociabilidade, de organização, de informação, de conhecimento e de educação. Essa mediação ocorre a partir de uma ambiência comunicacional que já não se define pela centralidade da emissão, como nos meios tradicionais (rádio, imprensa, televisão), baseados na lógica da distribuição que supõe concentração de meios e a uniformização dos fluxos. Na cibercultura, a lógica comunicacional supõe rede hipertextual, multiplicidade, interatividade, imaterialidade, virtualidade, tempo real, multissensorialidade e multidirecionalidade (LÉVY, 1998, LEMOS, 2002).

Com o intuito de melhor entender a evolução da educação mediada pelas tecnologias e os direcionamentos emitidos pelo Ministério da Educação em relação à organização dos espaços e dos mecanismos de mediação das tecnologias digitais

1

Por cibercultura entendemos modos de vida e de comportamentos assimilados e transmitidos na vivência histórica e quotidiana marcada pelas tecnologias informáticas, mediando a comunicação e a informação via internet. (LEVY, 1998).

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 28 de 200 na escola, o presente artigo tem como objetivo analisar os pressupostos dos mecanismos de interação entre estudantes, professores e tutores2 que são avaliados nos Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância (BRASIL, 2007) e no Instrumento de Avaliação de cursos de graduação presencial e a distância (BRASIL, 2015), aprovados pelo Ministério da Educação e que fundamentam a organização e estruturação dos projetos pedagógicos dos cursos oferecidos na modalidade a distância. Estes instrumentos subsidiam o processo de criação e avaliação dos cursos na modalidade a distância e possuem indicadores que norteiam as atividades de tutoria; do material didático, dos docentes e os mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes.

O estudo será realizado por meio de revisão bibliográfica, de análise de conteúdo (BARDIN, 1977) dos documentos oficiais, numa abordagem qualitativa. As reflexões teóricas sobre a interatividade e os elementos necessários à integração dos recursos tecnológicos aos currículos, de forma a potencializar novas formas de construção do conhecimento serão fundamentadas em estudiosos como Lévy (1999). Primo (2000, 2003); Valente (2008) e Almeida (2003, 2011). A análise de conteúdo foi uma das técnicas utilizadas nesta investigação para interpretação de indicadores consubstanciados no instrumento para avaliação de cursos de graduação presencial e a distância e caracteriza-se como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) de mensagens” (BARDIN, 1977, p. 42).

Com o propósito de se extrair significados e correlações entre as dimensões e seus indicadores, adotou-se a sistemática de identificar a presença e as relações estabelecidas com as palavras ‘interação’, ‘sujeitos’, ‘informação e comunicação’, ‘mídias’, ‘tecnologia de informação e comunicação’ (TIC), ‘ambientes virtuais de aprendizagem (AVA’), ‘tempo e espaço’, presentes nos indicadores dos documentos citados. Estas palavras foram escolhidas por estarem relacionadas aos atores (docentes, estudantes e tutores) envolvidos diretamente nos cursos mediados por tecnologias de informação e comunicação. Na perspectiva de Bardin (1977, p. 21),

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Esses mecanismos são constituídos pelo “conjunto de estruturas de tecnologia de informação e comunicação assim como pelos procedimentos e formas de utilização, que caracterizam a dinâmica de comunicação e de interação entre os docentes, tutores e discentes” (BRASIL, 2015, p. 44).

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 29 de 200 numa abordagem qualitativa, a análise de conteúdo considera como mensagem ou informação, a presença ou ausência de determinada característica de conteúdo. Neste sentido, partindo, especificamente para a análise dos indicadores para a modalidade a distância, esta técnica foi utilizada para interpretar esses indicadores contidos no instrumento de avaliação externa de cursos de graduação presencial e a distância.

2. A integração da educação mediada pelas tecnologias da

informação e comunicação ao sistema educacional brasileiro

A virtualidade é um fenômeno cada vez mais presente no cenário educacional. A revolução tecnológica abre caminhos para uma reestruturação paradigmática e operacional da organização e da cultura escolar e, sobretudo, da práxis educacional no que se refere ao processo de desenvolvimento da autonomia bem como às possibilidades de aquisição de novas aprendizagens, tanto docente quanto discente. Atuar nesses ambientes significa “estar junto virtual”3

e expressar pensamentos, tomar decisões, dialogar, trocar informações e experiências e produzir conhecimento. “As interações por meio dos recursos disponíveis no ambiente propiciam as trocas individuais e a constituição de grupos colaborativos que interagem, discutem problemáticas e temas de interesses comuns, pesquisam e criam produtos ao mesmo tempo em que se desenvolvem” (ALMEIDA, 2003, p. 334).

Para que esse processo de interação ocorra é necessário que as instituições educativas disponham dos elementos técnicos e de professores capacitados para o

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Conforme Prado e Valente (2002, p. 29) as abordagens de educação a distância (EaD) por meio

das tecnologias da informação e comunicação (TIC) podem ser de três tipos: broadcast, virtualização da sala de aula presencial ou estar junto virtual. Na abordagem denominada broadcast, a tecnologia computacional é empregada para ''entregar a informação ao aluno'' da mesma forma que ocorre com o uso das tecnologias tradicionais de comunicação como o rádio e a televisão. Quando os recursos das redes telemáticas são utilizados da mesma forma que a sala de aula presencial, acontece a virtualização da sala de aula, que procura transferir para o meio virtual o paradigma do espaço–tempo da aula e da comunicação bidirecional entre professor e alunos. O estar junto virtual, também denominado aprendizagem assistida por computador (AAC), explora a potencialidade interativa das TIC propiciada pela comunicação multidimensional, que aproxima os emissores dos receptores dos cursos, permitindo criar condições de aprendizagem e colaboração.

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 30 de 200 entendimento de que as tecnologias devem estar pensadas como elementos do currículo e não apenas como ferramentas ou dispositivos transmissores de informações e conteúdos. O desafio mais imediato é a incorporação do desenvolvimento tecnológico ao âmbito da educação escolar. Mas talvez seja ainda mais desafiador o adensamento dos estudos e pesquisas orientados para os processos decorrentes dessas tecnologias digitais, tendo em vista, entre outras, a discussão das práticas pedagógicas e das políticas educacionais voltadas para a sua incorporação. Isso porque o avassalador desenvolvimento tecnológico é frequentemente visto como decorrência de ordem natural e não resultante de processos sociais historicamente construídos.

No cenário educacional brasileiro, a oficialização da integração das tecnologias de informação e comunicação e, por consequência da educação a distância, surgiu com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/1996), que estabelece em seu artigo 80, o incentivo do Poder Público no desenvolvimento e veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidade de ensino (BRASIL, 1996). A partir daí, torna-se fundamental a compreensão dessa modalidade de ensino como um campo de estudo, além de apresentar-se como uma das formas de democratização do acesso ao ensino superior. Nesse mesmo ano, é criada a Secretaria de Educação a Distância (SEED/MEC), com a finalidade de implementar uma política de formação a distância, pois, até esse momento, as ações no campo da EaD eram pontuais, emergenciais, acontecendo na periferia do sistema educacional.

Posteriormente, o Decreto nº 5.622/2005, que regulamenta o artigo 80 citado, caracteriza a educação a distância como “modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos” (BRASIL, 2005). Estabelece também que a educação a distância deve organizar-se segundo metodologia, gestão e avaliação peculiares, quanto ao cumprimento de atividades, exigindo a obrigatoriedade de momentos presenciais para avaliações de estudantes; estágios obrigatórios; defesa de trabalhos de conclusão de curso e atividades relacionadas a laboratórios de ensino, abrangendo na educação superior,

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 31 de 200 os cursos e programas seqüenciais, de graduação, de especialização, de mestrado e doutorado (BRASIL, 2005).

Embora alguns autores sinalizem que coube à Universidade Federal do Mato Grosso, em 1995, oferecer o primeiro curso de graduação a distância no país, o de Pedagogia, por meio de seu Núcleo de Educação aberta e a distância, que foi criado em 1992, Primo (2003) sinaliza que o Instituto Universal Brasileiro (IUB) 4, uma empresa que já atua desde 1941, apresenta seus cursos como “pioneiros no ensino a distância em nosso país”, por meio de material apostilado entregue em casa pelo correio convencional e agora na versão online. Trata-se, pois de uma prática antiga e popular de educação a distância que surgiu muito antes da criação da internet. Esta, por sua vez, ao explodir em muitos países, nas últimas décadas do século XX, penetrou na sociedade, da mesma forma que a energia elétrica no passado e apresentou um novo mundo cheio de vantagens e facilidades. Informação, interatividade, relações pessoais, negociações, notícias, compras e outras necessidades do dia a dia ganharam um grande espaço na web. Todavia, é importante conforme afirma Alex Primo,

[...] que, passada a névoa do deslumbre pela nova tecnologia, discuta-se não apenas as ferramentas que a informática oferece, mas que se pense os métodos e as práticas educacionais. A rigor, a web pode ser um suporte

tanto para cursos construtivistas quanto para treinamentos

comportamentalistas (2003, p. 14).

Em 2003, o Ministério da Educação lançou o documento “Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância”, atualizado em 2007, que descreve os elementos estruturantes de um curso superior a distância. Apesar de não ter força de lei, busca garantir a qualidade nos processos de educação a distância no Brasil. Em 2006, foi instituído o Sistema Universidade Aberta do Brasil5 (UAB), que teve como objetivo “fomentar a educação a distância nas instituições públicas de ensino superior, incentivando a colaboração entre a União e os entes federativos e

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Disponível em: https://www.institutouniversal.com.br/servicos/como-estudar. Acesso em: 01 maio 2015.

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Instituído pelo Decreto nº 5.800, de 8 de junho de 2006. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ civil _03/ato2004-2006/2006/decreto/d5800.htm>. Acesso em 09 maio de

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 32 de 200 estimulando a criação de centros de formação permanentes por meio dos polos de apoio presencial em localidades estratégicas” (BRASIL, 2006).

O Censo de Educação Superior (BRASIL, 2014) destacou grande crescimento na educação a distância no país. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), essa modalidade educativa está em constante expansão, com participação superior a 15% do total de matriculados no ensino superior do país. Ainda de acordo com Inep, entre 2003 e 2013, o número de ingressos nos cursos de graduação a distância passou de cinco mil para trinta mil (BRASIL, 2014). Esse crescimento pode ser atribuído a diversos fatores, tais como a democratização do ensino possibilitando a inclusão e qualificação de milhares de brasileiros nas mais diversas regiões do Brasil, a possibilidade de se conciliar estudo sem sair de casa ou do trabalho; a escolha das aulas de acordo com a disponibilidade do aluno; economia; custos mais acessíveis, dentre outras. De acordo com Valente (2002),

se pensarmos nas dimensões do nosso país, na quantidade de pessoas para serem educadas, na infraestrutura física disponível, assim como no número de educadores com capacidade para facilitar esse processo de construção de conhecimento, facilmente chegamos à conclusão de que a educação a distância é uma solução viável (p. 1).

Atualmente, a grande demanda de oferta de cursos na educação a distância provoca discussões acerca dos padrões de qualidade e amplia a necessidade de implementação de normas relativas às condições de oferta assim como de acompanhamento do processo de avaliação desses cursos. Os quesitos pelos quais se avalia o ensino ofertado estão relacionados à organização didático-pedagógica, ao corpo docente e às instalações físicas. Essa avaliação é realizada por comissões de avaliação in loco designadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), seguindo as diretrizes da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (Conaes) que se utilizam do Instrumento de Avaliação dos Cursos de Graduação presencial e a distância (BRASIL, 2015).

Este instrumento, que é aplicado exclusivamente por meio do sistema eletrônico e-MEC6, subsidia os atos autorizativos de cursos para fins de autorização,

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O e-MEC é o sistema de tramitação eletrônica dos processos de regulação (Credenciamento e

Recredenciamento de Instituições de Ensino de Superior, modalidade presencial e a distância, bem

como (Autorização, Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento de Cursos, em ambas modalidades). Conforme a Portaria Normativa no 40 de 12 de dezembro de 2007, consolidada em 29

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 33 de 200 reconhecimento e renovação de reconhecimento. Possui indicadores que referenciam a avaliação dos cursos de bacharelado, licenciatura ou tecnológicos, presenciais e a distância. Para os cursos mediados por tecnologias, há os seguintes indicadores: 1) atividades de tutoria; 2) material didático institucional; 3) mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes; 4) titulação e formação do corpo de tutores do curso; 5) experiência do corpo de tutores em educação a distância; 6) requisitos legais e normativos: prevalência de avaliação presencial para educação a distância7. Dentre estes, o indicador “mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes” está diretamente relacionado com este estudo.

Embora as tecnologias estejam cada vez mais presentes na vida dos estudantes, cotidianamente conectados à internet sabemos que somente a tecnologia não basta. Almeida e Valente (2011, p. 32) destacam que é preciso “criar condições para que os educadores compreendam a tecnologia em seus modos de produção de forma de incorporá-la na prática”. É necessário criar mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes.

3. A interatividade como fundamento da educação mediada por

tecnologias

A interatividade é indubitavelmente uma palavra de ordem no mundo das mídias eletrônicas. Tudo se vende como interativo; da publicidade aos aparelhos. A noção de “interatividade” está diretamente ligada às novas mídias digitais. O que compreendemos hoje por interatividade nada mais é que uma nova forma de interação técnica, de cunho “eletrônico digital”, diferente da interação “analógica” que caracterizou a mídia tradicional (LEMOS, 2015). A interatividade assinala muito mais um problema, evidencia “a necessidade de um novo trabalho de observação, de concepção e de avaliação dos modos de comunicação do que uma característica

de dezembro de 2010(Brasil,2010). Disponível: <

http://download.inep.gov.br/download//superior/2011/portaria_normativan40_12_dezembro_2007.pdf>

. Acesso em: 09 mai. 2015. 7

Esta avaliação está disposta no Dec. 5.622/2005, art. 4º, inciso I, que regulamenta o art. 80 da Lei

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 34 de 200 simples e unívoca atribuível a um sistema específico” (LÉVY, 1999, p. 82), não se limitando às tecnologias digitais.

A interatividade ressalta a participação ativa do indivíduo em uma transação de informação, possibilitando-lhe a reapropriação e a recombinação da informação dentro de suas possibilidades (LÉVY, 1999). Nas práticas na educação a distância torna-se relevante a capacidade da interação e a interatividade8 entre os sujeitos, assim como os meios e os conteúdos do conhecimento. O tempo e espaço são flexíveis, os processos cognitivos virtuais por meio de inúmeras tecnologias dependem de acompanhamento contínuo e permanente, inclusive com momentos presenciais. Tal capacidade leva ao desenvolvimento de competências e habilidades, a tomada de decisão, a criatividade e a emancipação do educando, aspectos fundamentais para a sua formação profissional, inserção no mercado do trabalho e como cidadão (BRASIL, 2014).

Desta forma, a educação mediada por tecnologias de informação e comunicação deve ser configurada a partir de concepções de ensino e aprendizagem que incluam o diálogo, reconhecendo as necessidades, experiências e o contexto do aluno. A interação é uma das características que frequentemente tem sido discutida nos estudos relacionados às tecnologias, embora muitas vezes seja utilizado de forma metafórica, problemática e indiscriminada quanto ao conceito de interativo.

Primo (2003, p. 45; 2005, p, 16) destaca os variados enfoques sobre o termo interatividade a partir de visões limitadas e tecnicistas, que se referem à interação com a máquina como um diálogo. O enfoque transmissionista é de caráter mecânico e tem a sua origem no estudo da telefonia, em que o emissor cria e estrutura a mensagem que deve afetar o outro polo, o receptor. Este enfoque, que remonta ao modelo emissor-mensagem-canal-receptor, é deficiente e não representa o contexto

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Segundo Primo (2003, p. 15), a interação é uma "ação entre", isto é, a relação mantida entre os participantes (interagentes), enquanto a interatividade baseia-se na diferença entre a interação mútua (interdependência e autonomia) e a reativa (limitada por escolhas pré-determinadas). Silva pontua que há os que dizem que interação refere-se a relações humanas, enquanto interatividade está restrita à relação homem-máquina (tecnologias, equipamentos, sistemas, no sentido do sistema hipertextual, da tecnologia informática), que em princípio ele não concorda com tal posição. Para o autor, a interatividade está mais “para uma interação, para uma hiper-interação, para bidirecionalidade (fusão emissão-recepção), para participação e intervenção”. O que é Interatividade. Boletim Técnico do Senac. Disponível em: <http://www.senac.br/informativo/bts/242/boltec242d.htm>. Acesso em: 10 jun. 2015.

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 35 de 200 da comunicação humana. O enfoque informacional incorpora os pressupostos da teoria da informação, possibilitando a escolha entre alternativas disponíveis, considerando a frequência, amplitude e significância dessas escolhas, mas se mostra insuficiente para pensar outras formas interativas como a criação ou diálogo (PRIMO, 2005, p. 3-5).

No enfoque tecnicista, a interação mediada por computador depende de um aparato tecnológico e teórico que prioriza as características técnicas das máquinas, das redes, dos programas, linguagens e bancos de dados e remonta à teoria da informação, ligada à capacidade do canal. A partir disso, o autor sugere quatro padrões de comunicação: transmissão, conversação, consulta e registro. Levando-se em conta essa padronização, a programação televisiva é considerada transmissão, um diálogo ao telefone é uma conversação, uma visita às páginas na web é uma consulta e uma pesquisa de opinião de audiência é um registro (PRIMO, 2005, p. 6).

No enfoque mercadológico, a interatividade apenas cria uma ilusão de que o usuário está incluso na ação, causando uma “falsa expressão”, servindo como um argumento de venda, não apenas na economia, mas também no “mercado” teórico. A interatividade é vista pelo marketing como uma possibilidade de inserção dos dados no site, de acordo com as instruções apresentadas para obter as informações solicitadas (PRIMO, 2005, p. 9). O enfoque antropomórfico é abordado por Primo (2005, p. 16), a partir da citação de Bairon (1995, p. 9) "Por interativo podemos entender todo sistema de computação onde se manifesta um diálogo entre o usuário e a máquina”, e questiona, no entanto, que tipo e que diálogo é esse, se seria um fenômeno comunicativo ou é uma figura de linguagem. Segundo ele, por exemplo, a simples utilização do sistema operacional seria um diálogo entre o usuário e a máquina, desconsiderando as diferenças entre o funcionamento da máquina e o comportamento humano. Finalmente, Primo (2005, p. 10) defende uma abordagem sistêmico-relacional de interação, ressaltando que, enquanto a comunicação de massa configura-se como “um-todos”, as tecnologias de informação permitem o que se chama de “um-um” ou “todos-todos”.

Nesse sentido, a concepção de tecnologia presente no projeto pedagógico de um curso tem um papel fundamental e deve abordar as estratégias de ensino e

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 36 de 200 aprendizagem a serem adotadas, os mecanismos de interação entre os envolvidos e os recursos tecnológicos a serem utilizadas como jogos, vídeos, chat, fóruns, redes sociais, hipertextos, entre outros de modo a propiciar o trabalho colaborativo e a construção do conhecimento pelos estudantes. Além disso, a formação dos professores e tutores, a concepção do material didático são elementos de fundamental importância para a interação entre os sujeitos da aprendizagem.

Primo (2000, p. 7) divide a modalidade de interação em dois tipos: mútua e reativa, levando em consideração a relação entre os participantes, chamados por ele de interagentes. Esta divisão é analisada quanto aos seguintes pontos: Sistema (inter-relação entre as partes formando um todo), Processo (possibilidade de mudanças no tempo), Operação (relação entre a ação e a transformação), Fluxo (caminho ou sequência da relação), ‘Throughput’ (codificação e decodificação por meio do uso), Relação (trocas entre partes do sistema) e Interface (superfície de contato do sistema).

A interação mútua se caracterizada por ser um sistema aberto de relações construídas na interdependência, reciprocidade e no contexto social e temporal. Dessa forma, leva a problematizações e negociações, causando impacto sobre o comportamento dos interagentes. Como consequência, transforma o sistema de forma permanente e contínua (PRIMO, 2000, p. 7; 2003, p. 99). Ou seja, “não faz sentido observar uma ação como expressão individual ou como mensagem transmitida”, mas “no contexto global do sistema” (PRIMO, 2003, p. 100). Como exemplo, podemos citar um debate na sala de bate-papo em um fórum de um ambiente virtual moodle.

A interação reativa se caracteriza por ser um sistema fechado de relações lineares, unilaterais, limitadas por relações determinísticas de estímulo e resposta por pelo menos um dos envolvidos na interação. Como exemplo temos os videogames, que são jogos eletrônicos que solicitam a resposta do jogador, entre um conjunto de alternativas pré-determinadas, ou seja, conforme as regras estabelecidas pelo jogo. Outro exemplo é quando clicamos em um link, ele nos direciona sempre para uma página determinada, e não podemos alterá-lo, a interconexão já está pré-estabelecida. A comunicação nesse sistema é uma troca simbólica, manipulada e hegemônica da parte do emissor, prejudicando as trocas de

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 37 de 200 comunicação e a capacidade de resposta do reagente, não permitindo a criatividade. Nesse sentido, como afirma Primo citando Paulo Freire, trata-se de “uma educação bancária, reprodutora” (UNIVERSIA, 2004).

Partindo desse entendimento, discute-se quão interativas seriam essas relações reativas uma vez que são manipuladas, sendo a liberdade cerceada, não havendo condição de se apresentar uma argumentação. Exemplificando mais, entre as aplicações de Primo (2003) está a criação de um robô do sexo feminino que ele denominou Cybelle, que conversa e responde perguntas. Nessa aplicação, o autor busca mostrar que não é possível reproduzir o comportamento humano, pois o robô é programado para respostas determinadas, portanto não percebe o contexto (PRIMO, 2003, p. 154).

Como contribuição teórica e conceitual, Primo (2003, p. 208) criou um roteiro com questões desafiadoras para avaliar a interação em ambientes de educação a distância que pode ser utilizado por outros pesquisadores, inspiradas na abordagem construtivista, fundamentadas na obra piagetiana e em uma educação problematizadora, segundo Paulo Freire (1987). O autor procura valorizar a relação interpessoal e detalha os parâmetros avaliativos de cada uma das questões: Qual modelo pedagógico inspira o ambiente? O ambiente educacional incentiva a cooperação? O ambiente incentiva a autonomia dos aprendizes? O ambiente incentiva o trabalho em grupo? Como e quando os educandos são avaliados? Que recursos multimidiáticos e de automação são usados e com que finalidade? Que características apresentam a interface do ambiente informático?

Nessa perspectiva, o acompanhamento e a qualidade da mediação entre os estudantes, os professores e tutores se constituem em indicadores imprescindíveis para o desempenho e a avaliação de cursos e programas na educação a distância. “O princípio da interação e da interatividade [...] por se constituir em indicador fundamental para a indução da qualidade na educação a distância, deve ser garantido no uso de qualquer meio tecnológico a ser disponibilizado” (BRASIL, 2007, p. 10). Considerando o estudante como elemento central do processo educacional, a interação entre professores, tutores e estudantes torna-se um indicador fundamental para garantir a qualidade de um curso mediado pelas tecnologias de informação e comunicação.

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4. Interação como indicador de qualidade na avaliação dos cursos

de graduação a distância

A versão atual do ‘Instrumento de Avaliação de cursos de graduação presencial e a distância’ foi apresentada pelo Ministério da Educação (MEC), em março de 2015 e subsidia os atos de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento de cursos superiores de tecnologia, de licenciaturas e de bacharelados. O diagnóstico contempla 69 indicadores e três dimensões: organização didático-pedagógica; corpo docente e tutorial e infraestrutura. Neste artigo, vamos aprofundar as reflexões sobre o indicador “Mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes”, que é definido de acordo com o Glossário do Instrumento como:

o conjunto de estruturas de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) e os respectivos procedimentos e as formas de utilização que caracterizam a dinâmica da comunicação e da interação entre os sujeitos envolvidos nos processos acadêmicos e de ensino e aprendizagem (BRASIL, 2015, p. 44).

Por sua vez, o mesmo glossário define o termo tecnologias de informação e comunicação:

São recursos didáticos constituídos por diferentes mídias e tecnologias, síncronas e assíncronas, tais como ambientes virtuais e suas ferramentas, redes sociais e suas ferramentas, fóruns eletrônicos, blogs, chats,

tecnologias de telefonia, teleconferências, videoconferências, TV

convencional, TV digital e interativa, rádio, programas específicos de

computadores (softwares), objetos de aprendizagem, conteúdos

disponibilizados em suportes tradicionais (livros) ou em suportes eletrônicos (CD, DVD, Memória Flash, etc.), entre outros (BRASIL, 2015, p. 45).

Analisando o Instrumento de Avaliação, verificamos que termos como ‘interação’, ‘informação e comunicação’, ‘mídias’, ‘tecnologia de informação e comunicação (TIC)’, ‘ambientes virtuais de aprendizagem (AVA)’, tempo e espaço’, não aparecem nos critérios de análise dos indicadores, mas estão descritos na definição sobre mecanismo de interação, que consta no Glossário no final desse instrumento.

O referido instrumento atribui conceitos numa escala que varia entre 1 (um) a 5 (cinco) a cada um dos indicadores de cada uma das três dimensões citadas

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 39 de 200 anteriormente. Os conceitos são: 1 - Não Existente; 2 – Insuficiente; 3 - Suficiente; 4 - Muito Bom/Muito Bem; e 5 - Excelente. Desta forma, quando um determinado indicador obtiver o conceito 3 (Suficiente), será considerado um indicador de qualidade satisfatório e o referencial mínimo de qualidade pelo INEP/MEC.

Ao confrontar com o indicador analisado neste estudo "Mecanismos de interação entre os docentes, tutores e estudantes", o Instrumento apresenta como critérios de análise deste indicador os conceitos:

a) 1 - Quando não há mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes;

b) - Quando os mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes previstos/implantados atendem, de maneira insuficiente, às propostas do curso;

c) 3 - Quando os mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes previstos/implantados atendem, de maneira suficiente, às propostas do curso;

d) 4 - Quando os mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes previstos/implantados atendem muito bem, às propostas do curso; e

e) 5 - Quando os mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes previstos/implantados atendem, de maneira excelente, às propostas do curso;

Assim, constata-se que o instrumento de avaliação externa de cursos de graduação a distância deveria prever entre os seus indicadores os ambientes virtuais de aprendizagem e suas ferramentas, a utilização de mídias e tecnologias, síncronas e assíncronas, considerando que esses recursos didáticos e tecnológicos ultrapassam o ambiente físico atingindo a interatividade, a virtualidade e o "estar virtual".

Por sua vez, o documento “Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância”, que teve sua primeira versão apresentada pela Secretaria de Educação a Distância (SEED) no ano de 2003, sendo republicado em 2007 com novas possibilidades pedagógicas relacionadas à utilização de tecnologias de

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 40 de 200 informação e comunicação9. Segundo esses referenciais, o projeto pedagógico dos cursos mediados pelas tecnologias da informação e comunicação deve contemplar integralmente os seguintes tópicos: concepção de educação e currículo no processo de ensino e aprendizagem; sistemas de comunicação; material didático; avaliação; equipe multidisciplinar; infraestrutura de apoio; gestão acadêmico-administrativa; sustentabilidade financeira (BRASIL, 2007).

Dentre estes, o tópico “Sistemas de comunicação” aborda a importância do uso da tecnologia educacional na aprendizagem como uma maneira de proporcionar efetiva interação e o desenvolvimento de atividades e projetos compartilhados, referindo ao princípio da interação e a interatividade como sendo fundamental no processo de comunicação, independentemente do recurso tecnológico disponibilizado. A interação entre professores, tutores e estudantes é para evitar o isolamento, além de motivar a aprendizagem colaborativa, o respeito e a solidariedade com o outro, possibilitando ao estudante a participação coletiva.

Para melhor entender esses mecanismos de interação que o docente, tutor e estudante fazem uso no processo de ensino e aprendizagem, assim como a relação destes sujeitos com esses recursos tecnológicos na sala de aula virtual interativa, o documento Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância sinaliza que

é recomendável que as instituições elaborem seus materiais para uso a distância, buscando integrar as diferentes mídias, explorando a convergência e integração entre materiais impressos, radiofônicos, televisivos, de informática, de videoconferências e teleconferências, dentre outros, sempre na perspectiva da construção do conhecimento e favorecendo a interação entre os múltiplos atores (BRASIL, 2007, p. 14)

Considerando o exposto, os docentes necessitam de capacitação para a utilização desses recursos cotidianamente em sala de aula e também em suas vidas. A utilização de blogs, vídeos, hiperlinks, chats e e-mails, entre outros, pressupõe qualificação de seus professores para desenvolverem as atividades

9

Trata-se de um referencial do Ministério da Educação relativo a processos de regulação, supervisão

e avaliação da educação a distância no país contendo orientações que devem nortear a concepção teórico-metodológica e a organização de sistemas de educação a distância. Esta proposta surgiu também orientada pelos resultados dos procedimentos avaliativos realizados pelo MEC em diversos programas nesta modalidade no país, no sentido de atender aos requisitos mínimos de qualidade (BRASIL, 2007).

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 41 de 200 acadêmicas. Segundo esses referenciais de qualidade definidos pelo MEC, os professores devem ser capazes de:

estabelecer os fundamentos teóricos do projeto; selecionar e preparar todo o conteúdo curricular articulado a procedimentos e atividades pedagógicas; identificar os objetivos referentes a competências cognitivas, habilidades e atitudes; definir bibliografia, videografia, iconografia, audiografia, tanto básicas quanto complementares; elaborar o material didático para programas a distância; realizar a gestão acadêmica do processo de ensino-aprendizagem, em particular motivar, orientar, acompanhar e avaliar os estudantes; avaliar-se continuamente como profissional participante do coletivo de um projeto de ensino superior a distância (BRASIL, 2007, p. 20)

Igualmente, segundo o documento Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância, o tutor desempenha papel de fundamental importância no processo educacional de cursos superiores a distância, uma vez que participa ativamente da prática pedagógica, desenvolvendo atividades a distância e/ou presencialmente. A tutoria a distância faz a mediação do processo pedagógico junto a estudantes vinculados aos polos de apoio presencial, esclarece dúvidas por meio de fóruns de discussão pela internet, pelo telefone, videoconferências, entre outros, além de se responsabilizar pelos espaços de construção coletiva de conhecimento, material didático e de participar dos processos avaliativos de ensino-aprendizagem, junto com os docentes. A tutoria presencial atende aos estudantes nos polos, esclarece dúvidas sobre o conteúdo específico e o uso das tecnologias disponíveis, bem como participa de avaliações, aulas práticas em laboratórios e estágios supervisionados, e deve estar em constante comunicação com os estudantes e a equipe pedagógica do curso (BRASIL, 2007, 21-22).

Com vistas a garantir o processo de interação, os Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância recomendam que os projetos pedagógicos dos cursos devam:

descrever as formas interação entre estudantes, tutores e professores; quantificar o número de professores, estudantes e tutor; informar a previsão dos momentos presenciais planejados para o curso e qual a estratégia a ser usada; descrever o sistema de orientação e

acompanhamento do estudante; dispor de polos de apoio

descentralizados de atendimento ao estudante, com infraestrutura compatível, para as atividades presenciais; valer-se de modalidades comunicacionais síncronas e assíncronas como videoconferências, chats na Internet, fax, telefones, rádio para promover a interação em tempo real entre docentes, tutores e estudantes; facilitar a interação entre estudantes, por meio de atividades coletivas, presenciais ou via ambientes

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 42 de 200 de aprendizagem adequadamente desenhados e implementados para o curso, que incentivem a comunicação entre colegas; Planejar a formação, a supervisão e a avaliação dos tutores e outros profissionais que atuam nos polos de apoio descentralizados, de modo a assegurar padrão de qualidade no atendimento aos estudantes. (BRASIL, 2007, p. 11-12).

Em suma, o princípio de interação entre todos os envolvidos no processo educacional é uma maneira de diminuir o isolamento do estudante, o que é apontado como uma das principais causas da perda de qualidade e um dos fatores de evasão nos cursos a distância.

Esse documento apresenta aspectos do indicador “Sistemas de Comunicação” que são contemplados no item “Mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes” do Instrumento de Avaliação Externa dos cursos de graduação. Esse indicador nos Referenciais de Qualidade da Educação Superior a Distância abrange um conjunto de aspectos que consideram o princípio de interação e interatividade entre docentes, tutores e estudantes como sendo fundamental para o processo de comunicação na utilização dos meios tecnológicos a ser mediados no processo ensino-aprendizagem. A partir desse entendimento, presume-se que nos cursos mediados pelas tecnologias de informação e comunicação seja recomendável a inserção de recursos tecnológicos que garantam as condições nos seus sistemas de comunicação, como por exemplo: materiais impressos, televisivos, informáticos, telefone, correio eletrônico, videoconferência, fórum de debate pela Internet, ambientes virtuais de aprendizagem, dentre outros, sempre na busca do conhecimento e promovendo a interação entre os professores, tutores e estudantes.

Entretanto, esses aspectos estão ausentes nos critérios de avaliação do Instrumento de Avaliação, objeto de análise desta pesquisa, a não ser na definição do Glossário, que não faz parte do cálculo do conceito da avaliação. Além do mais, de acordo com os Referenciais de Qualidade, os indicadores considerados em uma avaliação "não são entidades isoladas, se interpenetram e se desdobram em outros subtópicos", tópicos não previstos na avaliação externa de cursos de graduação a distância.

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 43 de 200 Indubitavelmente, o avanço tecnológico na área da informação e comunicação promoveu mudanças nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), importante ferramenta tecnológica de informação e comunicação. Analisando o Instrumento de Avaliação dos cursos a distância, no que se refere às exigências de interação entre os sujeitos da aprendizagem - docentes, tutores e estudantes - verifica-se que não há uma explicitação clara da estrutura disponibilizada capaz de favorecer a aprendizagem, considerando aspectos da interação nestes ambientes.

Nesse instrumento de avaliação externa de cursos de graduação presencial e a distância existe apenas um indicador que avalia a interação de comunicação nos cursos a distância, embora saibamos que mediação entre docentes, tutores e alunos em um curso de graduação a distância seja um fator de extrema relevância. Explicita que a aprendizagem no ensino em ambientes virtuais deverá estar apoiada na interação, colaboração e cooperação entre os participantes, constituindo na comunidade virtual de aprendizagem, onde os participantes poderão aprender as atividades colaborativas de ensino, além dos conteúdos temáticos, novas relações, na busca permanente pela construção do conhecimento tanto individual como coletivo ou conectado.

Faz-se necessário, portanto, que a concepção de um curso a distância inclua interfaces nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), que potencializem a interatividade e a aprendizagem colaborativa entre os sujeitos envolvidos (professores, tutores e principalmente estudantes), por meio de processos de comunicação síncronos (‘chats’, videoconferência) e assíncronos (fórum de discussão, lista, ‘blogs’, ‘webfólios’), que propiciem condições favoráveis à autoaprendizagem.

Em seu texto “Desenvolvimento de Objetos de Aprendizagem para Plataformas Colaborativas” (2005, p. 181-193), Dias afirma que a articulação entre os processos de interação, colaboração e o ambiente on-line implica que o objeto de aprendizagem seja uma produção resultante não só dos conteúdos disponibilizados na plataforma (ou acessíveis por meio dela), mas também das atividades de exploração conduzidas por meio da interação e dos processos colaborativos. A plataforma, nesse sentido, se transforma num meio potencializador dos processos

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 44 de 200 de interação e experimentação; se torna dialógica.

O dialogismo é um dos princípios teóricos fundamentais para se pensar uma prática educativa que não se pretenda estática e ‘bancária’, mas provocadora de experiências, de possibilidades para a construção dos saberes, por meio da consciência de que o ‘ser humano é um ser inacabado’, que está em permanente ‘estado de busca’ (FREIRE, 1996). A linguagem, nessa percepção, se torna a base da relação entre sujeitos, a ferramenta básica para a construção do conhecimento na relação entre o sujeito, seus pares e a cultura, no processo de educação a distância. Ao mesmo tempo em que é constituída, exerce uma função organizadora e planejadora do pensamento, pois tem uma função social e comunicativa.

A partir desses pressupostos, a análise do Projeto Pedagógico do curso mediado pelas tecnologias deveria ter como exigência a utilização de um explicitar como o discente pode adquirir conhecimentos e habilidades, por meio de atividades da comunicação, interação e troca de experiências. Não basta garantir as tecnologias de informação e comunicação (TIC), elas devem ser efetivas na comunicação dos envolvidos. Também a formação dos gestores, professores e dos alunos em relação ao potencial das tecnologias é de fundamental importância.

As tecnologias precisam ser valorizadas de forma adequada visando à melhoria do ensino e aprendizagem e não serem consideradas como um apêndice incorporado à prática pedagógica. Com a facilidade do acesso à internet, torna-se imprescindível ao professor utilizar-se da mediação dos meios de comunicação para realizar a interação com os alunos e melhor conduzir as suas práticas pedagógicas. Em educação a distância, os ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) devem facilitar a comunicação entre professores, tutores e alunos, por meio de vídeo aulas, chats, fóruns etc.

O planejamento torna-se imprescindível para a utilização das TICs na interação entre docentes, tutores e discentes, para que não haja um desperdício no sistema de comunicação e que o uso das tecnologias seja efetivo na construção do conhecimento adquirido pelo aluno. A esse respeito, Tornaghi (2006, p. 170)) afirma que “os recursos tecnológicos nada significam em si, nada fazem por si sós. Eles precisam estar a serviço de um projeto pedagógico claro. Seu uso precisa ser planejado de forma sistêmica e estar aliado a outros meios”.

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ISSN: 16799844 - InterSciencePlace - Revista Científica Internacional Páginas 45 de 200 Nesse sentido, os cursos superiores a distância devem estar apoiados em um sistema de comunicação que possibilite a resolução com rapidez de questões relativas ao material didático e seus conteúdos e orientação da aprendizagem, promovendo a interação entre os docentes, estudantes, tutores e demais sujeitos envolvidos no gerenciamento acadêmico e administrativo na modalidade a distância. E o Instrumento de Avaliação do MEC deveria ter indicadores mais efetivos no sentido de fazer com as instituições de ensino fossem induzidas a uma maior reflexão sobre a necessidade de que haja comunicação síncrona e assíncrona entre os sujeitos da aprendizagem.

Concluímos que a predominância do modelo atual de avaliação tem suas limitações e prioriza dados quantitativos em favor de uma avaliação formativa. Sabemos, todavia, que os processos de interação e comunicação na educação mediada pelas tecnologias “orientam-se para a formação de um novo homem, autônomo, crítico, consciente da sua responsabilidade individual e social, enfim, um novo cidadão para uma nova sociedade” (KENSKI, 2008, p. 19).

Com certeza cabe aos gestores, professores, tutores e alunos incentivarem esse debate.

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