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Ensaio sobre a poeira

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Academic year: 2019

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Universidade do Estado de Santa Catarina –UDESC Centro de Artes – CEART Programa de Pós- Graduação em Artes Visuais - PPGAV

Fabíola Scaranto

Ensaio sobre a poeira

Dissertação de Mestrado elaborado junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do CEART-UDESC para obtenção de título de Mestre em Artes Visuais, na linha de pesquisa Processos Artísticos Contemporâneos.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Raquel da Silva Stolf

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4 S285e Scaranto, Fabíola

Ensaio sobre a poeira / Fabíola Scaranto. – 2015. 160 p. : il. color ; 21 cm

Orientadora: Maria Raquel da Silva Stolf Bibliografia: p. 156-159

Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Florianópolis, 2015.

1. Ensaio. 2. Vídeo - arte. 3. Experiência artística. I. Silva, Maria Raquel da. II. Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais. III. Título.

CDD: 778.599 – 20.ed.

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5 Ensaio sobre a poeira | Fabíola Scaranto

______________________________________________ Dissertação de Mestrado elaborado junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do CEART-UDESC para obtenção de título de Mestre em Artes Visuais, na linha de pesquisa Processos Artísticos Contemporâneos.

Banca examinadora:

Profa. Dra. Maria Raquel da Silva Stolf (Ceart/Udesc)

Profa. Dra. Regina Melim Cunha (Ceart/Udesc)

Profa. Dra. Clélia Maria Lima de Mello e Campigotto (Cce/Ufsc)

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Ag r a d e c i m e n t o s

Raquel, pela orientação, confiança, abertura, contribuições e, sobretudo, generosidade.

Professora Regina Melim, pela leitura do trabalho e pelo estímulo desde minhas primeiras experiências.

Professora Clélia Mello, pela leitura do trabalho, conversas e questionamentos.

Aos meus pais Elza e Reni e minhas irmãs Daniela, Sabrina e Bianca, pelo apoio e incentivo.

Claudia Zimmer, pela amizade e por compartilhar comigo suas experiências. Aos professores, colegas e funcionários do PPGAV.

A CAPES, que incentivou a pesquisa.

Aos artistas e seus trabalhos, assim como aos autores e seus escritos. Ao meu filho, Bento, que tornou tudo mais leve.

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Re s u mo

Esta pesquisa é uma investigação acerca de três séries de vídeos

desenvolvida na forma de ensaios escritos e visuais que apresentam

algumas vias de acesso a essa prática artística que envolve várias

camadas. Para isso, aborda-se o conceito de forma do ensaio, tanto na

escrita quanto na imagem, como experiência, através de diversos

autores como Theodor Adorno, Michel Montaigne, Arlindo Machado,

Jorge Larrosa, Philippe Dubois, entre outros, para pensar não só como

um modo de escrita, mas também pensar o ensaio como uma prática

artística. Neste sentido, são realizados dez ensaios escritos que

apresentam diferentes aspectos de tal prática artística, através de uma

escrita voltada para o exame dessas séries de vídeos, que levou em

consideração o processo que as constitui como os pensamentos

desencadeadores de tais experimentos, as especificidades dos meios e

dos materiais empregados, e os possíveis sentidos que esse fazer

articula em torno de si.

Palavras-chave

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A bs tr ac t

It is research is an investigation into three series of videos developed in

the form of written and visual essays that show some access ways to

this artistic practice that involves many layers. For this, it approaches

the concept of the essay form both in writing as in the image as

experience through several authors as Theodor Adorno, Michel

Montaigne, Arlindo Machado, Jorge Larrosa, Philippe Dubois among

others to think not only as a writing mode, but also think of the essay as

an artistic practice. In this sense, are produced to ten written essays

that present different aspects of such artistic practice through a

directed writing to the examination of these series of videos, which

took into account the process that are like triggers thoughts of such

experiments, the specificities of means and materials employed, and

the possible meanings that this do articulate.

Keywords

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No t a s ob re o í n d ice

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Ensai o sobre o ensai o

Inicio este ensaio tateando as primeiras linhas. Uma escrita ainda

cambaleante, que parte de uma prática artística em processo. Lancri

(2002), teórico e artista que estuda a pesquisa em artes, considera que

a melhor maneira para iniciar uma pesquisa em artes seria a partir do meio, no caso, “do meio de uma prática, de uma vida, de um saber, de uma ignorância” (p.18). Sem dúvida, parto de um meio, mas ainda envolto em muitas dúvidas. Adorno (2003), ao referir-se sobre o início

de uma escrita e também ao seu fim, é mais objetivo ao dizer que se inicia “sobre o que deseja falar; e termina onde se sente ter chegado ao fim, não onde nada mais resta a dizer.” (p.17). Não sei ainda

exatamente o que desejo falar e nem onde pretendo chegar, e, embora

vislumbre um corpo a essa escrita que inicio, este será “um trabalho a

ser feito que é feito no processo de fazê-lo”1. Alguns meses atrás, ao ler

uma pesquisa em poéticas2, que se apresentava em forma de ensaios,

chamou-me atenção a ênfase que a artista dava para sua abordagem na

1 AUSTER, 1982, p.92 2

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escrita. O ensaio como meio de expor e pensar uma pesquisa em

processos artísticos. Na verdade, o texto era algo já familiar. Uma

escrita em primeira pessoa que expunha e pensava seu objeto de

estudo de forma flexível, sem tanta rigidez, mas que não fugia à

pesquisa. Entretanto, despertou-me o interesse sobre o ensaio como

forma e passei investigá-lo mais a fundo antes de iniciar qualquer

escrita.

Nesse mergulho, não somente redescobri esse modo de escrita, como

surgiram muitas razões que reforçaram a escolha do ensaio para

apresentar e refletir minha prática artística. Assim, entre tantos

motivos, opto pelo ensaio como meio porque tem o sujeito como lugar;

porque é uma escrita da experiência; porque acolhe a possibilidade do

erro; porque pode ser ambíguo; porque que é experimental; porque

não se compromete com nenhuma verdade em relação a sua matéria;

porque não segue as regras do jogo; porque não é definitivo; porque

ocupa um lugar entre os despropósitos; porque corre riscos; porque

negligencia a certeza; porque deixa escapar o pensamento; porque

duvida; porque é um conflito em suspenso; porque não é sistemático;

porque pode ser contraditório; porque é fragmentado; porque recua;

porque é descontínuo; porque é tentativa; porque volta atrás; porque

se repete; porque não quer provar; porque acolhe o fracasso; porque é

atento aos detalhes; porque é um lugar; porque é inseguro; porque

suspende o juízo; porque é um híbrido; porque vai e volta; porque é

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repente; porque escreve com letras invisíveis; porque abandona;

porque titubeia; porque não afirma; porque não conclui; etc.3

Todos esses motivos foram colhidos de uma série de textos que

definem o ensaio, em geral, pela sua indefinição. No entanto, o

principal interesse pelo ensaio deu-se pela sua relação direta com a

experiência. Entre muitas considerações e contradições sobre essa

escrita, todos concordam em um ponto: a experiência. Larrosa (2004) descreve o ensaio como uma “linguagem da experiência” (p.31). Adorno afirma que o ensaio “confere substância à experiência”4

(p.26).

Montaigne (2010), considerado um dos precursores no uso do gênero,

não só escrevia a partir de suas experiências, como também escreveu sobre a experiência como meio de “chegar ao conhecimento na falta da razão” (p.512).

Ao pensar o ensaio como uma “linguagem da experiência”, volto-me à própria prática artística. Montaigne (2010), nos muitos momentos em

que se refere à experiência, descreve que “a experiência tem por diversas práticas produzir a arte” (p.509). Sendo a matéria dessa escrita que seguirá uma prática artística, não consigo imaginar outra forma

para desenvolver essa pesquisa, senão através de ensaios. Ao

3 George Lukács, Jorge Larrosa, Theodor Adorno, Michel Montaigne, Bento Itamar

Borges, Víctor Gabriel Rodríguez.

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considerar essa prática essencialmente experiência, o ensaio

apresenta-se, assim, como um meio necessário para expor meu objeto e

submetê-lo a uma reflexão.

De certo modo, contaminada pelo conceito de experiência de Larrosa,

ao ler, há muitos anos atrás, seu texto Notas sobre a experiência,

contamino-me agora com seu texto Operação Ensaio, o qual expõe a

experiência sob a ótica da escrita. Diferente dos outros autores, que

pensam o ensaio como um gênero ou forma literária, Larrosa (2004)

trata-o como uma operação, sobre “o que acontece ao pensamento

quando ensaia, e à escrita, e à vida; sobre porque, às vezes, o pensamento e a escrita e a vida ensaiam, se fazem ensaio” (p.32). Assim, não só escrita, mas começo a pensar minha prática artística sob

a ótica do ensaio e questionar-me de que maneira esta é atravessada

pela operação ensaio.

Em princípio, consigo identificar dois atravessamentos por esta

operação ensaio em minha produção artística, sobretudo os trabalhos

produzidos por meio do vídeo e objetos de estudo desta pesquisa. O

primeiro atravessamento ocorre nas ações registradas e o segundo no

uso do próprio vídeo. Larrosa, ao escrever sobre o ensaio, brevemente,

sinaliza o ensaio na perspectiva do cinema; embora o ensaio possa

assumir forma em qualquer linguagem artística. Ao pesquisar outros

teóricos5 que debatem o ensaio no meio audiovisual, encontrei distintos

modos de referir-se a essa forma, como filme-ensaio, ensaio fílmico,

cinema da experiência, cinema experimental, cinema conceitual, vídeo

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experimental, ensaio em vídeo, ensaísmo no cinema, ensaios não

escritos, etc. Embora se atribua diferentes terminologias, todos os

autores pesquisados pensam o ensaio a partir da literatura, dentro das

mesmas características aplicadas à escrita: pela sua falta de definição,

liberdade formal, reflexividade e ausência de determinações e regras.

Entre as similaridades também está a relação do sujeito que fala e

pensa por trás da escrita e da imagem. No ensaio escrito, talvez seja

mais fácil identificar pelo uso da primeira pessoa. No entanto, como alerta Larrosa (2004), “essa primeira pessoa não está presente necessariamente como ‘tema’, mas como ponto de vista, como olhar, como posição discursiva, como posição pensante.” (p.36). No ensaio

não escrito, o autor coloca-se de outros modos, como nas suas escolhas

e intenções com as imagens. Contudo, ambos apresentam-se como uma

reflexão sobre mundo, a partir de um “sujeito como lugar”.

A intenção aqui não é esgotar esse assunto que se desdobrará em

outros ensaios, mas apenas introduzir o meio escolhido para

desenvolver este estudo. Assim, através de ensaios escritos e visuais,

exporei algumas práticas artísticas em vídeo que estou desenvolvendo

ao longo desse período de pesquisa. Esses ensaios abordarão diferentes

aspectos dessa prática, que divido em três momentos: ensaios sobre o

processo artístico, nos quais apresento minha produção, descrevendo

sua fatura e especificidades desse processo; ensaios sobre questões

internas da prática artística como o seu meio e conceitos relacionadas à

arte; e ensaios sobre questões externas através de referências de

outras áreas de conhecimento que permeiam minhas experiências.

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apresentadas em partes distintas no corpo da dissertação que se caracterizará pela sua fragmentação. Como descreve Adorno (2003), “o ensaio pensa em fragmentos, uma vez que a própria realidade é

fragmentada.” (p.35). Todos os ensaios serão independentes e sem indicações que lhe atribuam algumas dessas abordagens que poderão

modificar-se no decorrer desse processo de prática, pesquisa e escrita.

Enfatizo isso, pois o intuito é desenvolver uma escrita no presente, ou

como melhor define Larrosa (2004), uma “escrita que estabelece uma certa relação com o presente.” (p.33). Ainda sobre essa temporalidade, sendo esta também uma das particularidades do ensaio, Larrosa pontua que “o ensaio não se situa fora do tempo, mas no tempo e, além disso, num tempo consciente de sua fugacidade, de sua caducidade, de sua

finitude, de sua contingência.” (p.33).

Consciente dessa fugacidade e também desse território movediço,

tanto do ensaio como da própria pesquisa e prática artística, a intenção

é produzir um estudo que não se feche, através de delimitações de

tema. Fugir da lógica em que quanto mais focado seu objeto de

pesquisa, mais domínio exerce-se sobre ele. Ao contrário, não há

intenção alguma em dominá-lo, mas em deixá-lo escapar. Tentar

produzir, “uma espécie de raciocínio multifacetado sobre o objeto”

(p.17), como Auerbach (2010) descreve o ensaio na introdução do livro

Os Ensaios de Montaigne ou mesmo “atacá-lo de diversos lados”, como

Adorno (2003) refere-se ao objeto no ensaio. Adorno (2003) ainda

menciona que escreve ensaisticamente “quem compõe

experimentando; quem vira e revira o seu objeto, quem o questiona e o

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vislumbrar sob as condições geradas pelo ato de escrever.” (p.35) Por isso, essa introdução trata-se muito mais de intenções do que uma

apresentação, visto que não há nada a apresentar-se nesse momento, a

não ser anseios. Talvez uma “intenção tateante” sobre algumas séries de vídeos, alguns já finalizados como a Série Ponto de Fuga, outros que

estão sendo produzidos e talvez outros que surjam em meio a esse

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Sobre o que resiste

Debruço-me neste ensaio para pensar aspectos processuais de minha

produção artística em vídeo referente a procedimentos que culminam

na retenção de uma imagem. A partir de minhas práticas, compreendo

esse processo de construção em três momentos: o da percepção, da

subtração e do que resiste. Embora apresente, aqui, tais momentos

distintamente, eles contaminam-se e sobrepõem-se a todo o momento

na produção de um trabalho. Nesse sentido, tentarei expor, através de

minhas experiências, algumas peculiaridades desse processo

atravessado por pensamentos e práticas artísticas de distintas áreas de

conhecimento, nas quais consigo identificar proximidades com meu

processo artístico.

A percepção, também compreendida como observação, é o primeiro

sinal de uma possibilidade de retenção de uma imagem. Algo chama

atenção. Um acontecimento, uma situação, um lugar. A observação

concentra-se. Olhar torna-se um mecanismo microscópico e tão logo se

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“A observação é seletiva”. Desta forma o cineasta Tarkovski6 (1998) descreve seu processo de criação cinematográfico, apontando a

observação como “princípio da imagem”. Tarkovski sublinha que nessa construção só “permanece no filme aquilo que se justifica como essencial à imagem” (p.78). Seu relato sobre observação seletiva reflete-se em seus filmes, principalmente no número reduzido de

planos caracterizados pela duração estendida. De algum modo, sempre

me atraí por seus filmes, não apenas por suas imagens, mas

principalmente pelo tempo de suas observações captadas, sendo uma

referência constante no meu modo de pensar e construir uma imagem.

A ideia de seleção que Tarkovski (1998) atribui à observação já era tema

de estudos do filósofo Bergson7 através do conceito de percepção,

também entendido pelo filósofo como um mecanismo de seleção.

Bergson (2010) coloca que “perceber consiste em separar, do conjunto dos objetos, a ação possível de meu corpo sobre eles. A percepção então não é mais que uma seleção.” (p. 267-268). Desse modo, tanto Tarkovski quanto Bergson descrevem a observação/percepção como

6 Tarkovski, cineasta russo, teve sua formação e grande parte de sua produção

realizada na antiga União Soviética. A partir do conceito de tempo impresso, o diretor tratava o tempo como matéria-prima do cinema e defendia a autonomia do cinema enquanto linguagem artística.

7 Filósofo francês, precursor da filosofia moderna. A filosofia de Bergson é, a

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um processo que foge de uma posição passiva e torna-se um processo

ativo. Bergson (2010) é mais incisivo ao tratar a percepção como ação,

deixando de atrelar-se, como tradicionalmente, à contemplação ou à

mera especulação. Dessa maneira, perceber ou observar significa agir

através de escolhas que se projetam sobre o objeto percebido.

Essa noção de percepção reflete-se na construção de meus trabalhos

em vídeos através do processo de seleção, que defino como subtração

ou esvaziamento. À medida que a observação prolonga-se, passo a

subtrair meu ponto de atenção, eliminando as arestas dessa percepção

inicial a fim de concentrar a ação.

Tanto Tarkovski quanto Bergson também descrevem indiretamente o

processo seletivo através do conceito de subtração. Tarkovski (1998)

apresenta esse processo como uma forma de “esculpir o tempo”8, comparando ao trabalho de um escultor que toma um bloco de

mármore e elimina tudo que não faz parte dela – do mesmo modo o cineasta, a partir de um “bloco de tempo” constituído por uma enorme e sólida quantidade de fatos vivos, corta e rejeita tudo aquilo de que não necessita”. (p.72). Já Bergson (2010) refere-se à percepção como uma “forma de eliminar do conjunto das imagens todas aquelas sobre as quais não teria nenhuma influência, e depois, de cada uma das

imagens retidas, tudo aquilo que não interessa as necessidades da imagem” (p.267-268).

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Ambos apresentam um mecanismo de subtração, mas de modos

distintos. Tarkovski faz uma analogia ao processo escultórico de

subtração da matéria, em que se retira o que não é necessário,

diferente do processo escultórico por adição de matéria em que a

construção dá-se pelo acúmulo de matéria selecionada. Bergson

apresenta ao menos dois momentos de subtração, uma espécie de

dupla filtragem. A primeira trata-se de subtrair as imagens que fogem

ao conjunto de imagens de interesse e depois subtrair o excesso das

imagens que foram retidas. Assim, embora a percepção seja também

um processo seletivo, apresentam-se distintos meios e formas de

realizar a seleção.

O processo de esvaziamento ou subtração é presente sob diversos

aspectos no pensamento e na arte oriental que influenciou muitos

artistas ocidentais. Um exemplo disso pode ser visto, sobretudo, na

pintura chinesa. O esvaziamento torna-se um processo fundamental,

que parte de uma observação minuciosa do artista, o qual subtrai do

que vê tudo que considera excessivo, assim o pintor preenche os

espaços da superfície com vazios9.

Influenciado pelo conceito oriental de vazio, o coreógrafo americano

Cunningham trabalhava com a ideia de esvaziamento através de dois

modos: o esvaziamento do exterior e o esvaziamento do interior. O

9

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esvaziamento exterior referia-se à cena, ou seja, ao espaço dos corpos.

Gil Vicente (2004), teórico pesquisador da obra de Cunningham,

sublinha que o esvaziamento exterior significa “abrir o espaço cênico para que todas as espécies de acontecimentos possam ter lugar: o

mesmo sentimento que prevalece em muitos pintores permitindo-lhes

construir um espaço onde tudo pode acontecer” (p.34). Já o

esvaziamento do interior refere-se ao corpo do bailarino, “esvaziar o

corpo de sua interioridade psicológica e eliminação de referencias exteriores” (p.96), obrigando a atenção do bailarino a concentrar-se no movimento. Através do esvaziamento, Cunningham criava vazios para

as ações e acontecimentos, assim como na pintura chinesa.

O processo de subtração ou esvaziamento na minha prática

apresenta-se em três momentos. O primeiro refere-apresenta-se à concepção do trabalho,

quando ainda é apenas uma promessa ou uma “ação virtual” como Bergson (2010) refere-se quando projetamos uma ação, a partir de uma percepção em que “preparamos as reações do corpo sobre os corpos circundantes(p. 267), ao esboçar nossas ações mentalmente. Esse

momento, por ser a parte do processo com maior duração entre todas

as etapas, é o que sofre mais subtrações através de um procedimento

que defino como uma espécie de filtragem. Uma infinidade de filtros

em que só se materializa o que consegue passar por todos os filtros.

Estudando aspectos conceituais, calculando as possibilidades de

materialização, dificuldades, potenciais e desdobramentos.

O segundo momento refere-se àquele em que a ação virtual torna-se

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o próprio fazer, em que busco eliminar tudo que possa interferir na

ação projetada anteriormente. No caso dos vídeos, por exemplo,

elimino todos os elementos desnecessários no enquadramento,

subtraindo quase sempre a um único plano, tempo e ação. Embora isso

já tenha sido virtualizado na etapa anterior, somente nesse segundo

momento a subtração torna-se concreta, devido aos imprevistos que

podem ocorrer em uma situação real de execução. Ainda nessa etapa, o

outro elemento que passa pelo processo de subtração refere-se ao meu

corpo que está presente em todos os vídeos dentro de ações,

acontecimentos ou gestos. Embora as experiências tragam meu corpo,

em nenhum momento quero levar a carga da figura do artista para o

trabalho. Assim, tento esvaziar minha imagem de elementos que façam

qualquer tipo de menção há algum tipo de identidade. No entanto, esse

esvaziamento não acena a uma interioridade psicológica como ocorre

em Cunningham, mas a elementos da exterioridade do corpo que o

mantenha neutro, através da subtração de elementos que possam

atribuir alguma identidade como elementos de figurino, acessórios,

marcas no corpo, cortes de cabelo, etc. Esvaziando o máximo possível a

imagem do corpo, para que nada chame mais atenção do que a própria

ação. Todo esse processo acaba resultando numa economia, em que o

objetivo principal é voltar a atenção somente aquilo que é necessário.

Assim como Cunningham esvazia a cena e o corpo para o

acontecimento, também procuro esvaziar o lugar e meu corpo para que

um acontecimento seja retido através do vídeo.

O último procedimento de subtração refere-se à finalização do trabalho

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esvaziamentos, comparado a etapas anteriores. Umas das

características é uso mínimo dos recursos de edição, além da subtração

do áudio dos vídeos como uma forma de suspensão da ação dirigida

para o vídeo. Muito mais que um registro, o vídeo torna-se uma

extensão dessa percepção construída.

Ao final de tudo, o que se iniciou com uma promessa de trabalho, fica

retido apenas o que resiste desse processo, visto que nem sempre uma

promessa consegue reter-se em imagem, pois, à medida que se subtrai

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Ponto de fuga

Há alguns anos atrás, em uma viagem de carro pelo interior, observava

as paisagens daquele percurso fazendo um exercício mental de

decomposição de algumas imagens percebidas em meio àquele

movimento. Procurava os elementos que compunham tais paisagens,

principalmente suas linhas e pontos de fuga que lembravam pinturas.

Tentava imaginar a distância dos pontos mais afastados e sua íntima

relação com a linha do horizonte. As paisagens abertas10 chamavam

maior atenção, pois se dilatavam para uma observação minuciosa, visto

que meu corpo estava em movimento. À medida que observava essas

paisagens também era absorvida por elas. Não só as linhas convergiam

ao ponto de fuga, mas meus pensamentos. Passei a imaginar-me

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correndo em direção ao horizonte conduzida pelas linhas de fuga e as

relações entre a ação de fuga e o conceito de perspectiva como fuga.

A série em vídeo surgiu como uma extensão de todas essas

observações. Da mesma forma que enxergava tais paisagens como

pinturas, passei a projetar esses registros por meio de quadros fixos

como se fossem quadros pictóricos. Esse seria o primeiro vislumbre do

que, mais tarde, tornar-se-ia a série Ponto de Fuga.

Naquela ocasião, embora projetasse o trabalho de forma muito clara,

sua realização, por mais simples que aparentasse ser, era impraticável.

Até então, todos os trabalhos que havia realizado eram produções que

dependiam apenas de meu esforço. Em geral, vídeos produzidos dentro

de espaços íntimos de meu convívio, onde tinha controle do contexto e

situações registradas.

As circunstâncias para realização da série fugiam do meu domínio, não

somente por tratar-se de paisagens externas, distantes e

desconhecidas, mas também por requerer pelo menos uma segunda

pessoa na sua execução com quem tivesse intimidade suficiente para

ocupar seu tempo. Levaria pelo menos mais dois anos até iniciar os

primeiros ensaios da série11.

Antes de conseguir realizar o primeiro vídeo da série, fiquei, durante

muito tempo, pensando sobre e ensaiando o trabalho mentalmente.

Estudava os tipos de paisagens e vestimentas ideais para a corrida em

11

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28

fuga. Pensava na relação com a pintura e nos meios necessários para

enfatizar essa questão. Comecei a estudar os elementos clichês para

compor uma cena de pintura. O enquadramento com uma visão ampla

de uma paisagem bucólica, um ponto de fuga bem definido e

centralizado, e, por fim, o vestido como vestimenta ideal para tal

situação. Além da preocupação na composição das imagens captadas,

pensava a série no espaço de exposição e na sua relação direta com a

imagem fixa, como a fotografia e a pintura. Passei, então, a projetar os

vídeos expostos em suportes separados em um único espaço como se

fossem telas, pois embora se tratem de imagens em movimento, tal

movimentação seria, na maior parte do tempo, mínima. Assim, o

trabalho aos poucos foi concretizando-se na minha mente enquanto

esperava a oportunidade de realizá-lo.

Somente em 2009, dois anos após a viagem em que projetei a série,

concretizaria o primeiro Ponto de fuga. Na ocasião, viajava com meu

companheiro, com quem havia já compartilhado a ideia. Assim, como

na primeira vez, observava a paisagem, em princípio sem intenções de

realizar nada até aquele momento, até visualizar uma paisagem

propícia para a ação. Um campo de trigo recém-colhido, o céu azul

carregado de nuvens e uma topografia com leve inclinação ascendente,

o que era favorável à ação, pois uma paisagem totalmente plana

tornaria a ação de correr até desaparecer na linha do horizonte algo

impossível, pelo menos para mim, visto que a linha que se estende até

onde o olhar alcança em uma paisagem plana tem em média 4 km.

Toda a ação foi muito rápida. Por sorte, trazia um vestido na mala,

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29

Na ocasião, tinha apenas uma câmera doméstica de baixa resolução

para realizar o registro. Embora a situação fugisse um pouco da que

havia imaginado, pois não tinha os instrumentos adequados, realizei

meu primeiro ponto de fuga. Naquele momento, a ansiedade tomava

conta de mim, era primeira vez que correria em fuga. Improvisando um

tripé posicionei a câmera procurando o melhor recorte da paisagem.

Posicionei-me alguns metros atrás para pegar impulso e esperei alguns

segundos enquanto me concentrava e dava tempo para a captação da

paisagem vazia. Depois de alguns instantes invadi a paisagem e corri em

direção à linha do horizonte. A sensação era que realmente estava em

fuga por invadir um território alheio12, acelerando minha corrida para

que tudo terminasse logo. À medida que corria, a paisagem

transformava-se, causando uma espécie de vertigem, pois a paisagem

que havia visualizado e recortado inicialmente modificava-se à medida

que meu corpo avançava. No entanto, concentrava-me no quadro inicial

prolongando a corrida para ter certeza que desapareceria na paisagem

registrada pela câmera sem ser enganada pela nova paisagem que se

apresentava aos meus olhos, conforme me deslocava naquele espaço.

Parei somente depois de ter certeza que havia desaparecido do quadro,

já em uma paisagem completamente distinta da inicial e com o corpo

esgotado. A aflição por estar em um lugar estranho fez-me logo iniciar

uma fuga de retorno ao ponto inicial descobrindo que havia corrido

12 Desde o início dos primeiros pontos, sempre optei pela invasão dessas paisagens,

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30

muito mais que o necessário. Nesse mesmo dia gravaria mais dois

pontos.

Nos pontos subsequentes, que levaria mais alguns anos para realizá-los,

a aflição dos pontos iniciais diminuiria. Passei a ceder mais tempo à

situação, sem acelerá-la para que tudo logo acabasse. Ao longo desse

tempo já não tenho certeza de quantos pontos corri. Foram tantas

paisagens experimentadas que mesmo à distância posso saber se são

frescas, movediças, cortantes, duras, macias, quentes, pesadas,

alérgicas, úmidas, difíceis, perigosas, etc. Alguns pontos fui impedida de

correr, abandonei outros por serem impossíveis, em um ponto,

perdi-me em perdi-meio à paisagem, em muitos cortei pés e pernas na vegetação e

fui picada por insetos, além da insolação e queimaduras de sol, apesar

de todo esforço para proteger-me.

Ao produzir os vídeos, inicialmente, concentrava-me na ação registrada

do ponto de vista do olhar da câmera, o qual posteriormente

compartilharia. No entanto, o quadro tornou-se outro quando

experienciei a ação a partir do meu ponto de vista. Ao escolher uma

paisagem para realizar a ação, não tenho a preocupação em analisá-la

antes para certificar-me como é seu terreno e de possíveis perigos,

apenas posiciono a câmera e corro tentando concentrar-me no

percurso, principalmente no chão para que não ocorra nenhum

acidente durante a corrida. Assim, nunca sei o que há depois da linha do

horizonte enquadrado pela câmera, sendo muitas vezes surpreendida

pela paisagem que surge ao mover-me. Recentemente, li algo a respeito

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31

que tenho nessa experiência de deslocamento na paisagem. A leitura

em questão fala da relação do corpo e percepção, em que a autora

Maria Cristina Franco Ferraz (2010) cita o filosofo alemão Martin

Heidegger, que questiona a noção física de que nos movimentamos no

espaço através da percepção humana a partir da qual ressalta que

produzimos espaço quando nos movemos, inclusive cita o exemplo do deslocamento da linha do horizonte quando nos movemos. “Eu ando ocupando espaço. Quando me movo, o horizonte se afasta.” (p.85). O encontro com a linha do horizonte é impossível, pois ela é infinita. A

corrida de fuga torna-se uma corrida de encontro na medida em que

penetro a paisagem. Diferente do olhar que avista meu

desaparecimento na paisagem imóvel em uma corrida sem volta.

A possibilidade ambígua da fuga como um meio de ir ao encontro

fez-me lembrar do último trabalho do artista holandês Bas Jan Ader,

intitulado In Search of the Miraculous (1975), registrado em película, no

qual, em um pequeno barco, tentou realizar a travessia do Oceano

Atlântico, partindo dos Estados Unidos com destino ao continente de

sua origem. O filme registra seu barco lentamente afastar-se da

margem até desaparecer na linha do horizonte, numa ida sem retorno e

ao encontro do desconhecido, gerando uma espécie de vácuo quando a

ausência do corpo passa a preencher a paisagem, antes atravessada por

ele. A apreensão de que algo acontecerá é frustrada com o decorrer do

tempo.

O conceito de fuga tornou-se um ponto determinante na construção

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32

envolvida entre pintura e imagem em movimento. O interesse inicial

sobre o conceito de ponto de fuga na pintura e suas relações com

conceito da ação de fuga transbordaram para as possíveis relações com

o meio escolhido para a produção da série, no caso o vídeo, e a ideia de

tratar características de um meio através de outras linguagens também

como modo de fuga. Christine Mello, ao referir-se aos processos

artísticos em que os meios deixam-se contaminar por outros, coincidentemente trata essas experiências “como uma fuga do epicentro da linguagem” (2008, p.28).

Como apontado no início, a contaminação inicia-se pela escolha do

quadro a ser registrado, em que o próprio termo quadro tem sua

origem na pintura, mas tanto o cinema quanto o vídeo apropriaram-se

para também compor sua gramática. O quadro é o que limita o campo

da imagem. Assim, o que compõe o interior desse campo é pensado

dentro de princípios da pintura de paisagem campestre. Todos os

quadros registrados apresentam-se através de quadros fixos com

movimentação mínima no seu interior para passar a impressão de

imobilidade da imagem embora se tratem de vídeos. No entanto,

diferente do quadro na pintura, ou mesmo na fotografia, o quadro de

uma imagem em movimento é instituído pelo fora-de-campo, pois não

é somente um recorte de um bloco de espaço, mas de tempo. Assim, se

o campo é a dimensão e a medida espacial do quadro, o fora-de-campo

é a medida temporal do quadro. Aumont (2004), teórico que estuda a

imagem, ao descrever o fora de campo como essa dimensão temporal,

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33

do esvaecimento: lugar do futuro e do passado, bem antes de ser o presente.” (p.40). Aumont trata o quadro na imagem em movimento, tanto no cinema quanto no vídeo, também como borda, na qual o

artista irá exercer o trabalho de transbordá-la, pois, segundo o autor, é

nas bordas da imagem que se operam as transformações do campo da

imagem enquadrada. Na série Ponto de fuga, essas transformações

operam-se através da iminência de um acontecimento, no caso da

imobilidade do campo ser interrompida subitamente pela travessia de

meu corpo no seu interior, que se dá justamente através desse

transbordamento da imagem concedida pelo fluxo temporal do seu

meio.

A sensação de iminência ou mesmo suspensão é intensificada pelos

planos de longa duração13, o que aumenta a sensação de inatividade. O

tempo que flui quase imperceptível no interior desses planos cede

também a um tempo de atenção e espera, pois como descreve Aumont

(2004) “planos longos são destinados a valorizar o não-é-grande-coisa e o quase-nada” (p.66). Da mesma forma, a imobilidade da imagem

restitui uma mobilidade ao olhar que se perde com a pressa das

imagens que imobiliza o olho, pois a pressa não cede mais tempo para o

olhar mover-se na imagem. O fluir do tempo do quadro videográfico faz

com que o redor ou fora de campo opere diretamente, no que é

tecnicamente chamado de quadro centrífugo por Aumont (2004), por

levar o olhar para suas bordas longe do centro do quadro, ao contrário

13 Planos longos e abertos permitem ao olhar percorrer a tela e refletir, ou seja, há

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34

da pintura, onde o olhar volta-se para o interior do quadro pictórico

definido por Aumont (2004) como movimento centrípeto. Assim,

pode-se afirmar que, na série Ponto de fuga, acabam ocorrendo esses dois

movimentos: centrífugo e centrípeto, em momentos diferentes.

Todos esses contornos pictóricos, que traço nessa experiência, talvez

digam mais a respeito do artista-pintor do que propriamente sobre o

meio e as tentativas de produzir sensações pictóricas no vídeo, embora

a própria fabricação de sensações também seja um dos modos muito

usados na pintura como, por exemplo, no impressionismo, para obter,

através de artifícios, sensações que de algum modo expressassem uma

veracidade. No entanto, nesse ponto, não cabe, aqui, aprofundar

aspectos e diferenças entre esses meios, mas pensar a minha

contaminação enquanto artista por esses meios. Mais que impressões

pictóricas através das tentativas de composição dos quadros e tempo

impresso, falo sobre a absorção na produção da série que envolve um

tempo sem pressa. Aumont trata sobre o desejo de muitos cineastas em

serem um pouco pintores, mas não na real prática de produção de

imagens pictóricas, mas em uma certa liberdade artística e no tempo

perdido que envolve a pintura. Aumont (2004) referencia o cineasta

Martin Scorsese em uma citação na qual fala sobre esse desejo do cineasta, “o importante seria [...] fazer filmes como se fosse um pintor. Pintar um filme, sentir fisicamente o peso da pintura sobre a tela. Não

ser incomodado por ninguém. Deixar repousar uma tela inacabada e

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35

Embora minha experiência com pintura seja praticamente nula, de

certo modo, trago esse envolvimento pictórico na sua produção, ao

buscar essas paisagens, em esperar a melhor luz ou a melhor estação

para ter uma imagem só possível em determinada época do ano, ao

experimentar o clima dessas paisagens, em desacelerar seu ritmo, no

trabalho silencioso e mesmo no tempo perdido de anos de feitura e

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Ensai o sobre a poeir a

Uma linha de poeira lentamente forma-se acima de copas de árvores

em meio a uma paisagem distante. Assim como a fumaça, a linha

movente de poeira avisa a presença de alguém em movimento por uma

estrada inóspita e empoeirada. Posso imaginar, pela velocidade que se

forma a linha de poeira, tratar-se de um carro. À medida que a linha

estende-se sobre as árvores também se dissipa no ar. A mesma poeira,

que em repouso sobre uma superfície sinaliza ausência, em movimento

torna-se presença. Através dessa impressão ao acaso sobre uma

situação transitória, passei a imaginar meios que pudessem acionar tal

fenômeno de deslocamento da poeira no espaço e suas implicações

relacionadas à presença e ausência e à mobilidade e imobilidade da

paisagem.

A poeira pode ser suspendida pelo movimento do ar como o vento, pelo

movimento de veículos e movimento de corpos. A partir dessas

observações sobre a poeira em estado de suspensão na paisagem, foi

produzida a série de vídeos Ensaio sobre a poeira. Nesta série, tento,

através de distintos meios, como o meu próprio corpo, suspender a

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53

condições atmosféricas e paisagens peculiares para tornar tal ação

possível.

Diferente de vídeos anteriores, nos quais tenho certo domínio sobre as

situações captadas, nessa série, isso não ocorre devido às circunstâncias

características necessárias para tal ação acontecer. Assim, apenas

vislumbro uma situação que se encontra em um centro de

indeterminações, o que faz o trabalho caracterizar-se por seu processo

poroso em que seus limites tornam-se frouxos.

Por não ter uma visão lúcida e precisa das condições necessárias para

realizar a série, não consigo projetar a ação, ou mesmo visualizar uma

imagem. O momento de sua execução torna-se imprevisível, o que

sublinha tal porosidade, mais que outras séries de vídeos em que a

imprevisibilidade é menos frequente, conferindo sob vários aspectos,

uma inflexão ensaística a essa série. Assim, mais que realizar uma ação,

trata-se de tentativas na sua maioria fracassadas pela permeabilidade

da ação.

Ao nomear a série de Ensaio, embora muitas séries de vídeos anteriores

também carreguem de algum modo aspectos ensaísticos, procuro frisar

esse caráter não exatamente por aspectos que tentam definir uma linha

audiovisual ou literária, mas pensar o ensaio através da própria ação de

suspensão da poeira em que o registro, aqui, apresenta-se como uma

extensão. O ensaio como um meio de testar situações e coletá-las

através de registros numa espécie de experimento, surgindo, assim,

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54

A primeira dificuldade da série é a espera pelo clima favorável coincidir

com a disponibilidade de tempo para execução do trabalho. Depois,

encontrar um lugar favorável, que contenha poeira com baixa

densidade e acúmulo suficiente para levantá-la. Devido à exigência de

tais condições, as alternativas são restritas, não havendo oportunidade

de escolher o lugar. Assim, adéquo-me às raras oportunidades que se

apresentam, mesmo que a paisagem não me atraia tanto, muitas vezes

restringindo até mesmo o plano de visão da câmera para registro.

Ao realizar pela primeira vez a série, depois de muitas dificuldades até

encontrar um lugar propício para suspensão da poeira, deparei-me com

uma situação de quase impossibilidade. Posicionei a câmera em um

ponto fora de uma estrada de terra aparentemente de pouca

movimentação. Durante cerca de 40 minutos, tentei diversos modos de

suspender a poeira. Corri, arrastei galhos, chutei a poeira, varri o chão,

repetindo exaustivamente esses gestos na tentativa de produzir algum

deslocamento mínimo de poeira. Depois de inúmeras e exaustivas

tentativas, e já asfixiada pela poeira aspirada, todos os testes

resultaram em dois pequenos vídeos-ensaio ambos com 45 segundos de

duração que apresentaram um resultado satisfatório para o objetivo

previsto pela ação.

Testar é o meio possível para acionar o trabalho, no entanto

experimentar demanda de um tempo maior na sua execução por não

haver um plano definido. Assim, a repetição torna-se um instrumento

importante de familiarização, pois através do acúmulo de experiências

em torno da ação adquire-se certo domínio sobre a situação. Maria

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55

espaço ao seu entorno, a partir dos estudos de Bergson, descreve a

repetição como processo metodológico característico do próprio

ensaio, enquanto forma, como meio de desenvolver um determinado

conhecimento e domínio. Assim, a autora coloca que “a repetição desenvolve, a cada novo ensaio, movimentos envolvidos; chama a cada

momento atenção do corpo para um novo detalhe que havia passado despercebido.” (p. 92)

Através da repetição, descobri que tal fenômeno não poderia ser

realizado em ambientes com a presença do vento, pois dissiparia

qualquer possibilidade de suspensão. Deste modo, os ensaios partem

sempre da estagnação da paisagem até que sua imobilidade seja

interrompida pela reação do meu corpo através do deslocamento da

poeira. A estagnação atmosférica possibilita duração suficiente para

visualizar nitidamente a suspensão da poeira e o movimento de

decantação. Da mesma maneira que necessito de imobilidade para

realizar tal ação, os redemoinhos de poeira na natureza são conhecidos

por serem antecipadas por um estado de calmaria e anormal

imobilidade da paisagem. Para que tal fenômeno ocorra, é necessária a

ausência de vento contrariando o que poderia imaginar-se. O artista

Fracys Alÿs explorou tal fenômeno através de uma série de registros de

formação de redemoinhos de poeira que durou cerca de 10 anos e

resultou no trabalho Tornado (2000-10), um trabalho em que Alÿs

desdobra-se em tentativas de alcançar o epicentro de redemoinhos de

poeira, em uma região desértica próxima à Cidade do México. A

formação desses redemoinhos é imprevisível e caracteriza-se por seu

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56

paisagem. Ao conseguir encontrar tal fenômeno, Alÿs vai em direção ao

epicentro sendo encoberto completamente pela poeira.

Ao contrário de Alÿs que vai ao encontro do fenômeno, esse encontro

também pode ser casual, como ocorre em uma cena capturada por

Tarkovski em seu filme Stalker (1978). O registro dura cerca de 30

segundos e mostra o princípio de formação de um redemoinho de

poeira que percorre alguns metros na paisagem que logo se dissipa no

ar. A cena é inserida entre uma cena e outra como uma pausa. Não há

nada além do redemoinho, que surge espontaneamente na paisagem.

Diferente de Alÿs que vai ao encontro de tal situação e de Tarkovski que

é surpreendido pela iminência de tal fenômeno, na série Ensaio sobre a

poeira, não vou ao encontro e nem fico à espera, mas tento de alguma

forma produzir tal situação que se caracteriza pela sua impossibilidade

diante das circunstâncias em que ocorrem essas ações em geral

frustradas. No entanto, uma transformação mínima é gerada no espaço

pela presença e movimento da ação, e embora muito inferior à

percepção inicial descrita no início desse ensaio, onde o fenômeno pode

ser avistado à distância sobre a copa de árvores, descobri, sobretudo,

que tal situação tem a mesma medida e intensidade do corpo e força

que lhe afeta. Assim, o corpo, como aponta Bergson (2010), é um

centro de ações, “recebendo e devolvendo movimento, com a única

diferença, talvez de que meu corpo parece escolher, em certa medida, a

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Vídeo-ensaio

A escolha do ensaio como meio de apresentar e pensar minha pesquisa

artística enquanto escrita levou-me a debruçar-me sobre o conceito de

ensaio sob outras perspectivas e o quanto a minha prática artística é

contaminada por tal operação. O ensaio, como já mencionado, tem sua

origem no discurso da palavra e é uma forma de pensamento, onde seu

autor apresenta suas ideias partindo de experiências pessoais através

de um caráter subjetivo, liberdade formal e expressividade da escrita

como um meio de criação e não apenas exposição de ideias. Entretanto,

muitos teóricos defendem o ensaio sob outras formas artísticas como

os ensaios não escritos, que Arlindo Machado (2004) nomeia em seu

texto O Filme-Ensaio, ao abordar o ensaio como enunciados

audiovisuais, pois, de acordo com Arlindo, “é possível imaginar ensaios

em qualquer modalidade de linguagem artística como forma de conhecimento” (p.03).

Embora possa imaginar-se o ensaio sob várias modalidades artísticas,

ainda poucos estudos existem sobre tal tema. Além da bibliografia já

existente na literatura e filosofia, os estudos sobre os ensaios não

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67

arriscar-me-ei, nas linhas que seguirão, a pensar as possíveis inflexões

ensaísticas em minha prática artística em vídeo a partir das referências

sobre o ensaio no cinema e sua influência no vídeo. Buscarei também

refletir o conceito ensaio não apenas pela sua origem na literatura e

filosofia, mas o ensaio enquanto conceito etimológico e suas aplicações

nas diversas esferas de conhecimento e as possíveis relações entre tais

conceitos e minha pesquisa artística.

Embora o uso do termo ensaio visual seja recorrente nas artes visuais,

inclusive sob forma de publicações acadêmicas, nas inúmeras revistas

do gênero que circulam no meio, não há estudos concretos na área

sobre o uso do termo ensaio nas artes visuais. Em geral, as abordagens

do ensaio não escrito ou visual sempre chegam ao mesmo destino: o

cinema. As poucas aproximações teóricas entre o ensaio e as artes

visuais dão-se por meio do cinema experimental e sua contaminação

com as artes visuais através do uso do vídeo por inúmeros cineastas.

Alguns teóricos como Philippe Dubois, Christine Mello e Arlindo

Machado, abordam o ensaio, mas ainda de maneira indireta, ao

tratarem o vídeo nas artes visuais como um meio híbrido,

principalmente através do conceito de Christine Mello (2008) sobre o

vídeo enquanto extremidade que se dá mais por suas fissuras do que

pelas especificidades do vídeo, possibilitando essa abertura à

experimentação e acolhendo artistas de outras áreas como o cinema.

Talvez a resposta para tal dificuldade encontre-se ao pensar nas

próprias características do ensaio na escrita, um espaço no qual seu

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68

suas próprias regras e experimentar. Características que talvez soem

tão naturais para um artista visual que justificaria tal indiferença, por

ser um estado já absorvido. No entanto, talvez uma liberdade

expressiva difícil de ser colocada em prática na esfera do cinema, por

exemplo, devido às proporções para produzir um filme e tudo que

envolve seu mercado. Isso não é uma certeza. Arrisco-me pensar em tal

conclusão ao encontrar escritos de cineastas que apresentam uma certa

resistência à experimentação como é o caso de Tarkovski (1998), ao

dizer que o artista deve ter uma visão lúcida e precisa do seu trabalho

para afastar a necessidade de recorrer a experimentos.Ele ainda refuta

comparações entre artes e ciências ao falar sobre experimentos, ao

colocar que a arte não é ciência, não se começa a partir de experimentos: “quando um experimento não ultrapassa o nível de experimento, e não constitui uma etapa do processo de criação da obra

concebida anteriormente pelo artista, o objetivo da arte não foi

alcançado.” (p.112). É compreensível o pensamento de Tarkovski ao considerar-se a época e o contexto político e social de seu país, que

sofria duramente com um regime comunista, no qual Tarkovski viveu e

produziu, e onde os recursos eram escassos, não havendo possibilidade

de o artista arriscar-se tanto no momento de produção. Não por acaso,

o cineasta russo tenha produzido tão pouco comparado a seus colegas

contemporâneos como Godard, devido à dificuldade de conseguir

recursos para a produção de seus filmes, e que apesar de todas as

restrições ainda conseguia realizar um cinema autoral.

Ao pensar nos contemporâneos de Tarkovski como Godard, percebe-se

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franco-69

suíço com maior abertura e disponibilidade de recursos para suas

produções. Godard é considerado, por muitos, um cineasta ensaísta,

justamente pela possibilidade de poder arriscar-se e experimentar

dentro de um contexto que favorecia isso, comparado a realidade de

Tarkovski. Philippe Dubois (2004) dedica um capítulo de seu livro

Cinema, vídeo, Godard, intitulado Os ensaios em vídeo de Jean-Luc-

Godard: o vídeo pensa o que cinema cria, onde Dubois descreve esse

lado ensaísta do cineasta, através de sua produção experimental em

que experimentou e ainda experimenta novos sistemas de sons e

imagens, buscando saídas e arriscando-se, principalmente, com o uso

do vídeo que passou a redefinir não só a produção do cineasta, mas seu

pensamento. Dubois (2004) coloca o vídeo não apenas como um período do cineasta, mas um modo de ser de Godard, “uma forma do olhar e do pensamento [...] bem mais que um objeto ou que uma

técnica o vídeo para ele é um estado permanente.” (p.290).

Dubois apresenta Godard ensaísta em quatro momentos. O primeiro

refere-se a “filmes-ensaios” de 1974-1976, obras experimentais, em

que mescla suportes diferentes, o vídeo e o cinema, nos quais tenta “inventar uma nova forma de escrita” com a imagem em movimento, usando meios discursivos do ensaio escrito, como a primeira pessoa do

autor assumindo uma posição discursiva na transmissão de um

pensamento para outro, no caso o próprio diretor coloca-se como

narrador de seus filmes-ensaios, que Dubois descreve como

autor-narrador. A partir desses primeiros filmes-ensaios, o diretor passa a

realizar diversos experimentos, como o uso de imagens eletrônicas e

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janelas, recursos até então pouco explorados pelo cinema, e usar o

vídeo para pensar o próprio cinema. O segundo momento de Godard

refere-se às séries de televisão, onde o cineasta explorou, sobretudo, as

variações de velocidade, dando continuidade aos ensaios anteriores, no

entanto, dando mais ênfase na busca de uma lentidão, “ir menos depressa para ver e compreender melhor os processos do mundo” (p.300), o que Dubois define como efeito pintura. Num terceiro

momento Dubois apresenta a fase que considera ensaio no sentido

estrito, que são os vídeos-roteiros, os quais são como rascunhos,

esboços e notas de pesquisador, pequenos vídeos produzidos por

Godard, que eram feitos antes, durante ou depois de muitos filmes

conhecidos do diretor, como a Trilogia do Sublime14, onde Godard apresentava suas reflexões sobre questões desses filmes. E, por último,

os ensaios que são trabalhos produzidos inteiramente em vídeo,

independentes de seus filmes, construindo uma produção paralela a sua

produção cinematográfica, que Dubois analisa como um mergulho de

Godard, em que o vídeo tornou-se uma “uma maneira de ser, pensar e viver se tornou uma espécie de segunda pele de Godard”. (p.312)

O vídeo tornou-se determinante para Godard lançar-se aos seus

experimentos que resultaram em seus ensaios audiovisuais. O vídeo

também passou a ser absorvido por muitos cineastas, pela sua

praticidade e baixo custo comparado ao cinema tradicional. Entre os

teóricos que estudam o ensaio audiovisual no cinema, em geral todos

se atêm principalmente ao documentário, mas também ao

14 Fazem parte da trilogia os filmes

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71

experimental que são contaminados principalmente pelas artes visuais,

e é nesse ponto que encontro referências que fazem menção ao ensaio

especificamente nas artes visuais, mas ainda pelo caminho do cinema.

No entanto, não me aterei, aqui, a aprofundar questões do ensaio nas

artes visuais, pois, como Arlindo Machado (2004) já menciona, é

possível imaginar o ensaio em qualquer linguagem artística. Assim me

debruçarei a refletir meu próprio processo artístico e produção em

vídeo a partir do ensaio na sua origem, suas possíveis características e

desdobramentos e na figura do artista, seja ele escritor, cineasta ou

artista visual. Como num ensaio escrito, um ensaio não escrito tem a

iminência de sua produção personificada no seu autor através de sua

subjetividade, na maneira de como seu fazer reflete seus pensamentos

sobre determinado material que ele constrói e como isso se reflete no

modo do artista de relacionar-se com seu entorno, e por isso mesmo

rejeitam-se as tentativas de enquadrar o ensaio como um gênero com

regras e convenções, pois trata-se justamente de um modo de ser.

Portanto, a partir de minhas experiências e modo de ser enquanto

artista, refletirei o quanto esta operação ensaio atravessa-me.

Devo confessar que, até pouco tempo, a palavra ensaio no sentido da

escrita soava-me algo distante, sabia que se tratava de uma forma de

escrita, mas pouco sabia a respeito. Numa pesquisa em dicionários

etimológicos, o ensaio tem uma infinidade de significados e usados em

diversas áreas do conhecimento. Entre os muitos significados que os

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antecipação, testar, prova, estudo, experiência15 . Embora os inúmeros significados, minha relação mais íntima dá-se através da música, através

da convivência com meu companheiro, violonista e maestro, em que a

prática do ensaio é uma constante. Embora o ensaio na música tenha

outros significados, diferente do ensaio escrito, não deixo de encontrar

alguns pontos de relação entre ensaio escrito e ensaio sonoro. Entre os

significados no dicionário etimológico, o que mais se aproxima do

ensaio na música seria representar antecipação, mas também momento

de experimentar e arriscar-se. É muito comum ouvir um músico dizer

que no ensaio consegue-se atingir o melhor desempenho do artista do

que na performance com audiência.

Outra proximidade minha com o ensaio, no entanto, é o uso do termo

ensaio na ciência e minha vivência familiar com meu pai, professor de

ciência, e os laboratórios e tubos de ensaios e a relação com a

experiência, como forma de testar, provar ou refutar. Recentemente

em uma pesquisa sobre o conceito de ensaio visual, descobri que o “ensaio visual” é um termo científico, sendo uma prática utilizada em experimentos, onde não envolva destruição do material testado,

também conhecido como ensaios não destrutíveis. Esse nome é dado,

pois a principal ferramenta deste tipo de ensaio é os olhos que

examinam determinado objeto, assim esses ensaios caracterizam-se por

não deixar marcas no material ensaiado. No entanto, longe de ser uma

cientista, musicista, ou cineasta, posso afirmar que, enquanto artista

visual, sou contaminada por essas diferentes possibilidades de pensar o

15 CUNHA, Antônio Geraldo da.

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ensaio. Entretanto, tratarei, aqui, particularmente de minha produção

em vídeo, onde consigo pensar tal produção sobre esse prisma

ensaístico. Arlindo Machado (2004) ao referir-se o cinema sobre esse

prisma identifica-o como filme-ensaio, outros autores identificam como

cinema experimental, ensaio fílmico, cinema conceitual, ou mesmo

ensaio não escrito. Aqui, por abordar minha produção em vídeo,

tratarei esses trabalhos como vídeos-ensaios.

Grande parte de minha produção artística dá-se através do vídeo,

embora nunca pense no vídeo como o meio inicial para um trabalho. O

vídeo apresenta-se a mim como uma extensão natural do trabalho ou

mesmo do pensamento. Até algum tempo atrás, ao referirem-se a mim

como artista que trabalhava com vídeo, tal definição soava-me

estranha. Internamente questionava-me, pois não pensava meus

trabalhos como vídeos, embora se apresentassem através de tal meio,

mas como intenções. O uso do vídeo na sua maioria dava-se apenas

como registros de ações, sem manipulação ou pós-produções que

denotassem algum aprofundamento na linguagem videográfica ou que

apontassem algum domínio meu sobre o meio e muito menos de

apoderamento para determinar-me como uma artista do vídeo.

Arlindo Machado (2004), ao mencionar Jacques Aumont, na sua defesa pelo ensaísmo no cinema, defende a ideia de que o cinema “é uma forma de pensamento: ele nos fala a respeito de ideias, emoções e

afetos através de um discurso de imagens e sons tão denso quanto o

discurso das palavras.” (p.01). Poderia afirmar que estava interessada muito mais no pensamento do que propriamente no vídeo ou até

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