18 | 2020
ANO IX, número 18
Edição Especial: Dossiê Coronavírus - Parte II
Edição electrónica
URL: http://journals.openedition.org/espacoeconomia/11397 DOI: 10.4000/espacoeconomia.11397
ISSN: 2317-7837 Editora
Núcleo de Pesquisa Espaço & Economia Refêrencia eletrónica
Espaço e Economia, 18 | 2020, « ANO IX, número 18 » [Online], posto online no dia 21 abril 2020,
consultado o 23 setembro 2020. URL : http://journals.openedition.org/espacoeconomia/11397 ; DOI : https://doi.org/10.4000/espacoeconomia.11397
Este documento foi criado de forma automática no dia 23 setembro 2020. © NuPEE
Espaço e Economia: Revista Brasileira de Geografia Econômica dedica esta edição especial à segunda parte do Dossiê Coronavírus.
SUMÁRIO
Editorial / Apresentação
Dossier Covid-19: Who is afraid of pandemics? Geographies and geopolitics of Covid-19
Guilherme Ribeiro, Floriano José Godinho de Oliveira, Leandro Dias de Oliveira e Regina Tunes
Artigos
Covid-19 : fim da geografia da hipermobilidade?
Gérard-François Dumont
Espaço-tempo de confinamento no Oeste francês: estatísticas, mapas, impressões
Alexandre Queiroz Pereira
Crisis del coronavirus: impacto y medidas económicas en Europa y en el mundo
Javier Cifuentes-Faura
Geodemographic Aspects of Covid-19
Milen Penerliev e Veselin Petkov
A África subsaariana diante da pandemia de Coronavírus/COVID-19: difusão espacial, impactos e desafios
Frédéric Monié
Ásia Central e seus desafios geoeconômicos perante o COVID-19
Jonathan Christian Dias dos Santos
América Latina ao extremo: relato a partir da cidade do México
Ana Luisa Senna, Karen Lisset Baltazar Herrera e Jhonatan Bento da Silva
Geopolítica e diplomacia em tempos de Covid-19: Brasil e China no limiar de um contencioso
Pablo Ibañez
Pandemia covid-19: o caráter emergencial das transferências de renda direta e indireta para a população vulnerável do estado de Goiás
Tadeu Alencar Arrais, Adriano Rodrigues de Oliveira, Diego Pinheiro Alencar, Tathiana Rodrigues Salgado, Juheina Lacerda Viana e Amanda Fernandes Miranda
Pandemia do Coronavírus e (des)coordenação federativa: evidências de um conflito político-territorial
Juliana Nunes Rodrigues e Daniel Abreu de Azevedo
O Consórcio do Nordeste e o federalismo brasileiro em tempos de Covid-19
Rinaldo de Castilho Rossi e Simone Affonso da Silva
O mundo, a Amazônia e a região de fronteira no fio da navalha: o Sul e Sudeste do Pará em tempos da pandemia do coronavírus
Eudes Leopoldo
Rede urbana, interações espaciais e a geografia da saúde: análise da trajetória da Covid-19 no estado do Pará
A COVID-19 na Baixada Fluminense: Colapso e apreensão a partir da periferia metropolitana do Rio de Janeiro
Alexandre Fortes, Leandro Dias de Oliveira e Gustavo Mota de Sousa
Globalização, gestão e acesso aos sistemas público e privado de saúde: a Baixada Fluminense no contexto da pandemia
André Santos da Rocha
Pandemia é pandemia em qualquer lugar – vivendo a crise da Covid-19 de fora dos grandes centros
Tatiana Tramontani Ramos
A Pandemia e seus (des)caminhos
Jorge França da Silva Medeiros
Reflexões geográficas em tempos de pandemia
Rogério Haesbaert
Escassez, economia e meio ambiente: o desserviço de Paulo Guedes
Carlos Walter Porto-Gonçalves
De neoliberais e de keynesianos em tempos de Coronavírus
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Biopolítica, guerra híbrida e reestruturação do capitalismo: a globalização como ela é
Rafael Roxo
Capitalism über alles: uma interpretação da pandemia de coronavírus no Brasil à luz da
geografia radical de Neil Smith
João Alves de Souza Neto e Fernando Molnar Castro
A distopia brasileira: o governo dos homens baixos
Glauco Bruce Rodrigues
A pandemia do coronavírus e a escalada do poder militar no Estado brasileiro
Pedro Henrique Pedreira Campos
A ilusão de Paschoal ou Cinco efeitos negativos do impeachment de Jair Bolsonaro para a esquerda e para a democracia no Brasil
Guilherme Ribeiro
Resenha
Neoliberalismo em tempos de coronavírus ou coronavírus em tempos de neoliberalismo?
Dossier Covid-19: Who is afraid of
pandemics? Geographies and
geopolitics of Covid-19
Dossier Covid-19: Who is afraid of pandemics? Geographies and geopolitics of
Covid-19
Guilherme Ribeiro, Floriano José Godinho de Oliveira, Leandro Dias de
Oliveira and Regina Tunes
1 When Espaço e Economia was launched in the second semester 2012, the aim of the founding editors was to enhance the field of economic geography in Brazil, as well as to provide an instrument for political and intellectual interventions on current topics. 2 Whether in the past or in the present, the métier of the geographer cannot separate
scholarship from politics, which would result in a sterile and ideological interpretation of reality. From the choice of key notions to the publication of research results, geographyis inseparable from the political dimensions that organise the social life. To all geographers and social scientists who accepted the challenge of writing in the heat of the crisis thanks to the intellectual, affective, and political complicity that unites us, our most sincere acknowledgements.
3 While in Age of Extremes: 1914-1991, the great Marxist historian Eric Hobsbawm argued that the Second World War was a true lesson of world geography (Hobsbawm 1990), the spread of Covid-19 was also a very lesson to contemporary geography, in addition to reveal the terrifying face of the neoliberalism, globalization, and urban segregation. 4 So, the impact of neoliberalism on a global scale and its territorial consequences in a
peripheral country such as Brazil represents a death threat for thousands of indigenous peoples, Afro-Brazilian communities, as well as for urban workers in the metropolitan peripheries. Following work and pensions’ “reforms” — this word is deliberately inappropriate in order to mask its real meaning —implemented since 2016 by Michel Temer’s and Jair Bolsonaro’s governments and celebrated with enthusiasm by the market, the suppression of public services in the name of the privatization of life has been adopted as a norm.
5 Our use of the word “norm” is not accidental. It is a keyword in the comprehension of capitalism as a system obliged to create incessantly an appearance of normality but, due to its own quintessence, one which is unable to hide its contradictions — despite the fact we that are many times unable to distinguish them.
6 The pandemics revealed all of them.
7 If the solution to Covid-19 consists in a vaccine, what would be the solution to the virus of income concentration, exploitation of work, outrageous interests, deplorable billionaire bank profits, and to an authoritarian state that criminalizes social movements?
8 A full reply will not come from Biochemical, nor from Epidemiology, but from what the state has been doing with its population. If normality implies that the public health system is close to collapse, managing the medical-hospital care increase will be a hard task. If normality admits millions of houses without conditions of life, demanding special care from the peripheries sounds like an inversion of values. If normality admits wages as just even if they are whimsy, temporary suspensions of employees and government support will be automatically seen as legitimate measures aiming to overlap crisis.
9 By the way, what is the Leitmotiv of that crisis?
10 The present dossier is no mean our modest reaction to the research funding cuts in general and of the Humanities in particular from the Bolsonaro Government. If the relevance of the technological and innovation spheres is unquestionable in the twenty-first century, disregarding the extent of Humanities in the comprehension of themes such as democracy, politics, citizenship, xenophobia, education, culture, ethics, religion and memory — just for mentioning some of them — means adhering to a technique and pragmatic world vision whose dangerous as fatal effect is the complete annihilation of the other.
11 The recognition of the other — of ourselves, evidently — belongs to a series of social practices established precisely on the notion of public and on the complex equilibrium between private freedom and collective guarantees. Nevertheless, in a country torn by slavery, subalternity, and authoritarianism, the rise of neoliberalism and its emphasis on individualism has built the perfect scenery to the stranglehold of the discussion about the sense of the public, the social, and the collective.
12 Close to itself, individualism is the shortest way to the proliferation of all kinds of dogmatism. In the name of private interests, it cultivates fear of dialogue, of pluralism, of discussion. Perhaps, this pandemics could temporarily displace its beliefs. This is one of the reasons for which public, free, and high level University symbolizes a threat to the status quo. It orbits partially out of the control and vigilance state. Certainly free thought has an action ray that goes beyond the limits of predictable.
AUTHORS
GUILHERME RIBEIRO
PPGGEO/UFRRJ. Email: [email protected] FLORIANO JOSÉ GODINHO DE OLIVEIRA PPFH/UERJ. Email: [email protected] LEANDRO DIAS DE OLIVEIRA
PPGGEO/UFRRJ. Email: [email protected] REGINA TUNES
Covid-19 : fim da geografia da
hipermobilidade?
Covid-19 : fim da geografia da hipermobilidade?
Covid-19: ¿fin a la geografía de la hipermovilidad?
Le covid-19 : la fin de la géographie de l’hypermobilité ?
Is covid-19 the end of the geography of hypermobility?
Gérard-François Dumont
NOTA DO EDITOR
Originalmente publicado como Dumont, Gérard-François, "Le covid-19 : la fin de la géographie de l’hypermobilité ?", Société de Géographie, 7 avril 2020. Disponível em
https://socgeo.com/2020/04/07/le-covid-19-la-fin-de-la-geographie-de-lhypermobilite-par-gerard-francois-dumont/ . A presente versão foi traduzida do original francês pelo professor Guilherme Ribeiro (PPGGEO/UFRRJ) como parte das atividades do Laboratório Política, Epistemologia e História da Geografia (LAPEHGE) e no âmbito do Edital Faperj de Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (2019).
Introdução
1 Em 23 de janeiro de 2020, a China inverte seu discurso oficial ao reconhecer a transmissão do coronavírus entre humanos e recomenda detecções na saída dos aeroportos. O risco epidêmico ligado à mobilidade humana torna-se finalmente admitido. Certamente, Taiwan 1já o havia evidenciado ao decidir, desde 31 de dezembro de 2019, controlar passageiros oriundos da província de Wuhan a fim de identificar a presença de febre e de sintomas associados à pneumonia. Porém, não sendo Taiwan um Estado reconhecido internacionalmente e, por conseguinte, não integrante da OMS, seu discurso não foi bem entendido apesar de Taiwan ser, provavelmente, o território mais
bem informado sobre a realidade chinesa. Infelizmente, sua clarividência foi ignorada, já que a ilha não é considerada senão uma “província da China”. No final de 2019, as conveniências diplomáticas ainda prevaleciam sobre os imperativos militares. Estávamos há anos-luz de roubos de máscaras nos países ocidentais — algo que ocorreria três meses mais tarde em março de 2020.
2 Porém, no decorrer das semanas, as autoridades de diferentes países do mundo reconheceram, umas após as outras, a associação entre mobilidade e difusão do coronavírus o qual intervém quando pessoas se encontram. Decisões relativas à restrição da mobilidade surgiram conforme modalidades diferentes: parcial, imposta unicamente para as pessoas infectadas em países realizando testes; temporária, notadamente em países africanos que praticaram toque de recolher face às dificuldades de implementação de um confinamento generalizado; e, nos demais países, total, com exceção das pessoas cujas atividades são essenciais para assegurar alimentação, higiene pública e saúde da população.
3 A despeito da variedade decisória e de cronogramas, a epidemia admite um elemento em comum: a correlação entre sua difusão e a geografia das mobilidades — inicialmente no interior da China para, em seguida, fora dela.
Wuhan, uma cidade vulnerável
4 Diga-se desde já que a aparição do coronavírus em Wuhan não é apenas fruto do acaso. Claro que o comércio de animais selvagens para fins de alimentação, medicina tradicional chinesa ou certos benefícios atribuídos — geralmente inverídicos — não é específico de Wuhan. Porém, ela possui um nível de poluição atmosférica particularmente elevado na China, algo explicado (como em outras cidades chinesas) pelo desenvolvimento do uso do automóvel e pela importância de energias poluentes sobretudo para eletricidade. Assim, suas necessidades aumentaram consideravelmente pois a aglomeração populacional de Wuhan é estimada em 8,4 milhões de habitantes em 2020 2contra 2,4 em 1979 — ano em que a China inicia sua política de abertura econômica. A multiplicação da população por 2,4 em um intervalo de meio século é, sem dúvida, ligeiramente inferior à de Xangai (a aglomeração mais populosa 3) ou à de Beijing 4(2ª maior do país); porém, Xangai é a grande cidade portuária beneficiada do
status de zona econômica especial desde 1979 5, e Beijing é a capital política cuja pretensão é a de ser vitrine do regime e pólo de uma rede econômica e turística.
5 A alta poluição de Wuhan também é acentuada pelo peso considerável das indústrias. Se é verdade que Xangai ou Beijing também possuem inúmeros estabelecimentos industriais, nelas, porém, o setor terciário é nitidamente mais importante. O resultado é que nos últimos anos Wuhan, mais que outras metrópoles chinesas, sofreu um aumento das doenças respiratórias e, em média, um enfraquecimento da imunidade face ao que no final de 2019 ainda era visto como uma pneumonia atípica.
6 Ademais, as condições higiênico-sanitárias de parte significativa da população urbana chinesa não pode ser considerada satisfatória, pois estamos diante de populações “flutuantes” 6[flottantes]. Elas trabalham e estão na cidade mas, sem dispor de uma licença de residência permanente, também não possuem os benefícios de proteção social.
O sistema específico de migrações internas, fator agravante da
difusão do Covid-19 na China
7 As reformas econômicas iniciadas na China em 1979 se traduzem por um relaxamento do controle das migrações internas, o que deu lugar a uma maciça emigração rural e faz evocar o seguinte provérbio chinês: “A água escorre rumo à baixada; o homem procura lugares altos”. Tal emigração corresponde ao surgimento do que se convencionou chamar “população flutuante”, ou seja, pessoas que de acordo com suas autorizações de residência (Hukou) deveriam viver no campo mas, na realidade, vivem nas cidades. Segundo o último recenseamento, em 2010 essa população podia ser estimada em 300 milhões, ou seja, por volta de um a cada cinco chineses.
8 A pobreza é um traço explicativo central dessa emigração rural rumo a territórios urbanos mais desenvolvidos e capazes de oferecer empregos ou formação a pessoas pouco ou sem qualificação.
9 A população flutuante 7pertence às categorias sócio-profissionais menos favorecidas. Inicialmente, ela corresponde aos trabalhadores migrantes sazonais, os chamados min
gong. Eles nos fazem lembrar dos pássaros migratórios deslocando-se conforme os
meses do ano a fim de encontrar trabalho. Assim, eles podem ser empregados em uma região no momento da colheita do algodão, em outra quando da colheita agrícola e em uma cidade por ocasião de um incremento da construção imobiliária. Outra componente trabalha em ofícios de baixa qualificação na construção ou na indústria, em pequenas atividades comerciais ou de serviços tais como conserto de bicicletas, salões de cabeleireiro, restaurantes, hotéis, domésticas ou babás.
10 As populações flutuantes caracterizam-se por condições sociais piores que as urbanas beneficiadas pelo documento de residência na cidade. Ocorre que estas não aceitam bem aquelas, responsabilizando-as pelo aumento da criminalidade ou pela sobrecarga na infraestrutura urbana incapaz de acompanhar a rapidez da crescente taxa de urbanização. Os flutuantes também são criticados por terem alta incidência de AIDS devido à prostituição e ao uso de seringas para consumo de drogas.
11 Em 2003 o governo central chinês lançou o “novo paradigma para o desenvolvimento”, uma política destinada a melhorar o bem-estar dos imigrantes rurais que vivem nas cidades. Entretanto, a maior parte dos governos locais está longe de tê-la efetuado em sua plenitude. Assim, ainda que a lei preveja a melhoria do acesso à saúde e à habitação, seguro desemprego e direito à aposentadoria aos flutuantes, tais objetivos não foram atingidos — tanto mais pelo fato da inexistência de controle ou de avaliação da realização dessa nova política.
12 Ilustremos a situação dos flutuantes por meio dos trabalhadores migrantes rumo às fábricas de Wuhan e seus baixos salários — de toda maneira superiores em relação ao que eles poderiam ganhar na agricultura. Ressalte-se a dureza das condições de trabalho, tais como longas jornadas, feriados anuais curtos, serviços em cadeia, repetitivos e desgastantes. Como se não bastasse, a maior parte dos flutuantes reside nas instalações das empresas em dormitórios lotados e mal aquecidos. O resultado é simultaneamente forte promiscuidade e alta possibilidade de difusão de epidemias. 13 Finalmente, como os flutuantes não se destinam a serem residentes permanentes, a
falta de equipamento hospitalar é incontestável e as estruturas do sistema de saúde estão voltadas prioritariamente aos que possuem registro de permissão à residência.
14 A combinação de um alto nível de vulnerabilidade à transmissão do vírus, de uma população flutuante significativa e de uma oferta médica insuficiente, faz de Wuhan uma cidade particularmente exposta a tal vírus. Além disso, a maneira como os diferentes estratos do Partido Comunista chinês controlam a difusão da informação faz com que as estatísticas oficiais apareçam como pouco confiáveis — tanto mais quando comparadas às de outros Estados afetados 8.
Mobilidade e propagação do vírus na China
15 Era inevitável que a mobilidade na província de Hubei espalhasse a pandemia de Wuhan por lá. De fato, a mobilidade sempre foi o vetor das pandemias outrora conhecidas pela humanidade — seja a grande peste do século XIV, seja o espraiamento da AIDS na África 9.
16 Ademais, Wuhan é uma cidade conectada à China e ao mundo. Seu aeroporto contabilizou 25 milhões de passageiros em 2018 e, assim, provavelmente, mais de 3 milhões entre o começo da epidemia e o confinamento operado em 23 de janeiro. Inaugurada em 2009, a relevância de sua estação TGV pode ser estimada pelo fato de que ela dispõe de vinte vias para os trens que ligam as grandes cidades do país como Beijing, Guangzhou (Cantão) e outras. Como o primeiro caso suspeito foi oficialmente declarado em 8 de dezembro de 2019 (datando, provavelmente, de 17 de novembro) e que o início do confinamento em Wuhan e na província de Hubei foi efetivado apenas em 23 de janeiro de 2020, o vírus teve várias semanas para difundir-se pela China e fora dela.
Mobilidade e propagação asiáticas
17 Inicialmente, incidiu sobre os países vizinhos cujas relações com a China são intensas. Em 20 de janeiro de 2020, a Coréia do Sul teve o primeiro caso confirmado referente a uma mulher chinesa10. No dia seguinte, Taiwan detecta o primeiro caso a partir de uma mulher de negócios taiwanesa que trabalha em Wuhan de regresso à casa. Ao mesmo tempo, Japão, Hong Kong e Cingapura também são afetados. Esta última admite alta vulnerabilidade, posto que é a primeira escala dos vôos oriundos de Wuhan.
18 A OMS só reconheceu a existência da transmissão do vírus entre humanos em 23 de janeiro do presente ano, enquanto o vírus não cessava de seguir as pessoas infectadas mesmo após várias semanas. Após esta data, a mobilidade continuou como antes na maioria dos países do mundo já que a OMS (cujas diretivas são úteis para que os países possam justificar suas ações) não declarou tratar-se de uma pandemia — decisão tomada apenas em 11 de março de 2020.
As lógicas da mobilidade na Europa
19 O vírus não poderia permanecer na Ásia pois tanto o continente quanto a China possuem múltiplas relações com outros continentes. O fato de que o norte da Itália tenha sido a primeira região européia afetada é explicado pela relevância das diásporas chinesas e da mobilidade Milão-China. Por outro lado, o sul da Itália, muito mais afastado da globalização, encontrou-se de alguma forma protegido.
20 Do lado francês, a lógica da mobilidade como fator de difusão do vírus é igualmente comprovada. Evidentemente, é a Île-de-France que registra maior mobilidade áerea com Wuhan, cidade onde inúmeras empresas francesas estão instaladas como Renault e PSA, p.ex. Até o início do primeiro trimestre de 2020, cumpre observar as ligações aéreas diárias entre o aeroporto Roissy-Charles de Gaulle e a capital de Hubei.
21 Contudo, uma outra difusão veio à tona: em Mulhouse, a igreja evangélica “Porta aberta cristã” promoveu uma reunião internacional (autorizada) de oração com 2300 fiéis, o que representou uma dupla oportunidade para o vírus devastador. Em primeiro lugar, a duração do evento (17-24 de fevereiro) favoreceu uma ampla difusão. Em segundo, ao voltarem às suas casas, franceses e alemães, ainda que sem o saber, transportaram o vírus. Foi assim que a Córsega, a priori relativamente isolada durante o inverno, foi desde cedo afetada por duas pessoas presentes à reunião 11.
22 Consequentemente, na sequência o governo francês e a imprensa referiram-se ao peso da epidemia na região “Grande Leste”. Felizmente, tratou-se de um erro crasso. No momento em que escrevemos, os únicos departamentos desta região fortemente impactados foram aqueles caracterizados por maior mobilidade em razão do núcleo inicial em Mulhouse e de dezenas de milhares de trabalhadores fronteiriços (quer no Haut-Rhin ou no Bas-Rhin [portanto na Alsace] e em Moselle). Nos demais sete outros departamentos dessa nova e vasta região criada pela fusão de três antigos em 1º de janeiro de 2016, os números são comparáveis aos do sudoeste da França em um contexto em que as mobilidades sócio-econômicas são bastante diferentes. Em termos mais gerais, o mapa da geografia da epidemia na França marca com nitidez as regiões fronteiriças enquanto territórios mais afetados — incluindo a Île-de-France a qual, por suas redes aéreas e ferroviárias internacionais, é a primeira região fronteiriça da França.
23 Destarte, em 28 de março de 2020, quatorze departamentos franceses não contabilizavam morte alguma por covid-19: Alpes-de-Haute-Provence, Ardennes 12, Ariège, Cantal, Creuse, Dordogne, Landes, Lot, Lozère, Nièvre, Puy-de-Dôme, Guyane, Réunion e Mayotte. A maior parte deles não possui aeroporto ou, quando o têm 13, a intensidade internacional é restrita.
A interrupção da hipermobilidade
24 A geografia da mobilidade explica claramente a difusão inicial na China do covid-19 e, em seguida, sua intensidade internacional variável segundo os territórios e em todas as escalas geográficas. Ela explica tanto as políticas de isolamento das pessoas infectadas nos países que realizaram número considerável de testes quanto o confinamento sistemático nos países cujos testes permanecem insuficientes.
25 A interrupção da hipermobilidade 14e, mesmo, da mobilidade em geral, engendra um incremento inédito do teletrabalho como se, sob a coerção do vírus, a preferência pela proximidade prevalecesse sobre a mobilidade 15. A geografia da mobilidade encontra-se reduzida ao seu mínimo vital, tal como podemos atestar pelos milhares de hotéis e restaurantes fechados. Mais ainda, pela disposição de milhares de quartos de hotéis desocupados aos profissionais da saúde cujos domicílios são distantes de seus trabalhos.
Um novo tipo de migração : os « corona-migrantes »
26 Além disso, no âmbito das mobilidades as migrações internacionais encontram-se, de todo modo, atreladas às consequências do covid-19. Os que pensavam em mudar de país (seja para deixar o de origem ou para retornar) já não podem fazê-lo. Houve, inclusive, situações particulares de pessoas dispondo de uma autorização para um dado país mas que, uma vez bloqueadas em um aeroporto de escala, constataram que a autorização havia vencido. As migrações internacionais mais espetaculares são aquelas realizadas por países como o Senegal, que se organizou para repatriar seus cidadãos 16.
27 Em síntese, os « corona-migrantes », termo proposto aqui para os migrantes internacionais por ocasião do covid-19, são muito menos numerosos que os migrantes (independente das circunstâncias) do período anterior. Até se pode perguntar, considerando os repatriamentos, se o número de imigrantes no mundo 17não vai diminuir.
O direito à mobilidade numérica
28 Além do mais, o covid-19 18revela novas possibilidades de teletrabalho, estimula a regionalização das cadeias de valor e provoca maior desenvolvimento da economia circular e da soberania territorial ao redor de bens essenciais como a saúde. Enfim, uma verdadeira revolução da geografia da mobilidade se faz necessária. Na França, trata-se do inverso das políticas de transformação do território, na qual a grande Paris Express, em função dos recursos financeiros envolvidos (mínimo de 38 milhões de euros) quando comparado ao proposto às demais áreas do território francês, é um dos símbolos. Parte importante dos habitantes da Île-de-France, Paris e suas periferias, cientes de que todos clamam por um melhor funcionamento do transporte público existente, não pedem mais mobilidade para a Île-de-France, mas, sim, desejam sair dela 19. Essa revolução na mobilidade exige, mais que nunca, a realização da igualdade digital para todos os territórios 20(e, portanto, o direito à mobilidade digital) a fim de permitir que todos se comuniquem e que haja o melhor desenvolvimento territorial para cada um.
29 O mito da hipermobilidade, ou seja, de um mundo de nômades descolados de qualquer identidade territorial, quer dizer, o de uma humanidade cujo progresso só é possível exclusivamente através de uma mobilidade cada vez mais intensa, encontra-se em xeque. Saberemos fazer dessa necessidade conjuntural uma virtude estrutural? Afinal, menos deslocamentos entre e no bojo de territórios sempre mais adensados é tanto limitar o risco de pandemias quanto uma das chaves da redução de emissões de partículas finas e do efeito-estufa. Por fim, será o covid-19 um mal pontual em nome de um benefício duradouro?
BIBLIOGRAFIA
Amat-Roze, Jeanne-Marie, Dumont, Gérard-François, « Le Sida et l'avenir de l'Afrique », Ethique, n. 12, p. 37-60, 1994.
Dumont, Gérard-François, « Quel aménagement du territoire ? Face aux enjeux du développement durable, de la décentralisation et de la mondialisation », Les analyses de Population & Avenir, mars 2020
Dumont, Gérard-François, Géographie des populations. Concepts, dynamiques, prospectives, Paris, Armand Colin, 2018.
Dumont, Gérard-François, Yiliminuer, Tuerxun, « Les migrations internes accentuent l’inégalité historique du peuplement de la Chine », Informations sociales, n° 185, septembre-octobre, p. 24-32, 2014.
Farinelli, Bernard, « Territoires : préférer la mobilité ou la proximité ? », Population & Avenir, n° 728, mai-juin, 2016.
Moriniaux, Vincent (direction), Les mobilités, Paris, Éditions Sedes, 2010.
United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2018). World Urbanization Prospects: The 2018.
NOTAS
1. Em Taiwan o covid-19 é chamado « pneumonia de Wuhan », denominação bem anterior à
escolha de covid-19 para identificar esse coronavírus.
2. United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2018). World
Urbanization Prospects: The 2018.
3. Uma população de 27 milhões de habitantes estimada em 2020, ou seja, um crescimento
multiplicado por 3,7 desde 1979.
4. Uma população de 20,5 milhões de habitantes estimada em 2020, ou seja, um crescimento
multiplicado por 2,9 desde 1979.
5. Atraente, assim, para os investimentos estrangeiros que se beneficiam de incentivos fiscais,
direitos aduaneiros favoráveis, procedimentos alfandegários simplificados e regulações menos coercitivas que no restante do país.
6. Dumont, Gérard-François, Yiliminuer, Tuerxun, « Les migrations internes accentuent
l’inégalité historique du peuplement de la Chine », Informations sociales, n° 185, septembre-octobre 2014, p. 24-32.
7. Sua mobilidade residencial, embora juridicamente ilegal, é admitida na prática, o que explica
os baixos custos da mão-de-obra na China e contribui para a competitividade de suas exportações. O governo anuncia periodicamente o fim da hukou, mas ela permanece em vigor.
8. Ao invés de 3305 mortos em toda a China continental e 2500 em Wuhan segundo as cifras
oficiais governamentais, algumas estimativas indicam por volta de 60 mil mortos para Wuhan e 100 mil para a China. Ver www.caijinglengyan.com
9. Amat-Roze, Jeanne-Marie, Dumont, Gérard-François, « Le Sida et l'avenir de l'Afrique »,
Ethique, n° 12, 1994, p. 37-60.
10. Seguida em fins de janeiro de uma mobilização da população pela interdição à entrada de
11. Notemos que fenômeno semelhante, porém juridicamente diferente, ocorreu na Coréia do Sul
em uma difusão associada a uma reunião da seita religiosa Shincheonji em fevereiro de 2020. Ela é suspeita de ter transmitido o vírus a centenas de pessoas na cidade de Daegu. Em 1º de março de 2020, o governo municipal de Seul depositou uma queixa-crime contra o líder da seita acima por morte e violação da lei sobre controle de doenças.
12. Departamento fronteiriço, mas cuja mobilidade com a vizinha Bélgica são frágeis em relação
às múltiplas mobilidades entre Moselle, Sarre e, principalmente, Luxemburgo.
13. Como o aeroporto Bergerac Dordogne Périgord.
14. Sobre hipermobilidade, ver, por exemplo, Moriniaux, Vincent (direction), Les mobilités, Paris,
Éditions Sedes, 2010.
15. Farinelli, Bernard, « Territoires : préférer la mobilité ou la proximité ? », Population &
Avenir, n° 728, mai-juin 2016.
16. Entre os primeiros países a se mobilizarem desde 31 de janeiro de 2020, a Coréia do Sul
evacuou setecentos repatriados de Wuhan e os acolheu em dois centros de isolamento, p.ex.
17. Lembremos a definição da ONU : imigrante é alguém que habita em um país distinto do seu de
nascimento por, pelo menos, um ano.
18. Um risco epidêmico que os estudos prospectivos não nos deixavam ignorar encontra-se no
livro Géographie des populations. Concepts, dynamiques, prospectives, tal como podemos ler no seguinte trecho: “As causas da insuficiência sanitária acima sintetizadas também existirão no futuro, sem esquecer epidemias hoje desconhecidas as quais o mundo talvez não saberá ou reprimirá de maneira insuficiente” (p.89). Em seguida, esta hipótese é aprofundada na seção do livro dedicada aos prognósticos sobre envelhecimento (Dumont 2018).
19. “Aspirações e projetos de mobilidade residencial dos habitantes da Île-de-France, Paris e suas
periferias”: estudo do Fórum Vias Móveis realizado por Obsoco (Observatório Sociedade e Consumo) em abril de 2018. Tal intenção não foi apenas apresentada, já que o saldo migratório da região Île-de-France é deficitário desde os anos 1990 até aproximadamente 50 mil pessoas por ano — diferença negativa entre as pessoas que vêm habitar nessa região e aquelas que a deixam. Em outras palavras, o crescimento demográfico da Île-de-France explica-se apenas pelo movimento natural, a saber, o excedente dos nascimentos sobre as mortes em um contexto onde a composição por idade do sistema migratório da região concorre para o seu rejuvenescimento e, portanto, para uma proporção elevada de pessoas em idade fértil, com os imigrantes tendo em média fecundidade nitidamente superior à média nacional.
20. Dumont, Gérard-François, « Quel aménagement du territoire ? Face aux enjeux du
développement durable, de la décentralisation et de la mondialisation », Les analyses de Population & Avenir, mars 2020
RESUMOS
Com o progresso dos transportes aéreos (e, sobretudo, a forte diminuição das escalas) e o incremento da globalização nos anos noventa, o mundo entrava em uma era de hipermobilidade. Os partidários de um planeta nômade, desdenhosos daqueles que mesmo apreciando o mundo permaneciam atados a certa identidade territorial, se deleitavam. De fato, o direito adquirido à mobilidade, impulsionado nos anos dois mil pelo desenvolvimento das companhias aéreas low
econômicos e turísticos. Entretanto, a pandemia da Covid-19 revelou que a hipermobilidade também tem seus inconvenientes.
Con el progreso de los transportes aéreos (y, sobre todo, la fuerte disminución de las escalas) y el incremento de la globalización en la década de 1990, el mundo entró en una era de hipermovilidad. Los partidarios de un planeta nómada, despreciando aquellos que a pesar de tener intereses en disfrutar del mundo permanecieron atados a una determinada identidad territorial, estaban encantados. De hecho, el aumento del derecho a la movilidad, acentuado en la década de 2000 por el desarrollo de aerolíneas de bajo costo, reveló ventajas, por ejemplo, para los países que sabían cómo desarrollar sus activos económicos y turísticos. Sin embargo, la pandemia de Covid-19 reveló que la hipermovilidad también tiene sus inconvenientes.
Depuis le progrès des transports aériens et notamment la très forte diminution du besoin d’escales techniques, puis l’essor de la globalisation dans les années 1990, le monde était entré dans une ère d’hypermobilité. Les thuriféraires d’une planète nomade, dédaigneux de ceux qui, tout en aimant le monde, demeuraient attachés à une identité territoriale, s’en réjouissaient. Effectivement, le droit accru à la mobilité, ensuite accentué dans les années 2000 par le développement des compagnies aériennes à bas coût, décelait des avantages, par exemple pour les pays sachant valoriser leurs atouts économiques et touristiques. Mais la pandémie de covid-19 a révélé que l’hypermobilité avait également des inconvénients.
With the progress of air transport (which includes the strong diminution of stopovers) and the increase of globalization in the nineties, the world has entered into an era of hypermobility. Supporters of a nomadic planet, disdainful of those who remained tied to a certain territorial identity even enjoying the world, were delighted with it. Indeed, the right to mobility intensified by low-cost enterprises in the 2000’s show some benefices for countries who knew how to value its touristic and economic advantages.
ÍNDICE
Keywords: Covid-19, China, globalization, hypermobility, geography. Palabras claves: Covid-19, China, globalización, hipermovilidad, geografía Mots-clés: Covid-19, China, mondialisation, hypermobilité, géographie. Palavras-chave: Covid-19, China, globalização, hipermobilidade, geografia.
AUTOR
GÉRARD-FRANÇOIS DUMONT
Universidade de Paris-Sorbonne, Presidente da revista Population & Avenir (www.population-et-avenir.com) e Administrador da Société de Géographie. Email :
Espaço-tempo de confinamento no
Oeste francês: estatísticas, mapas,
impressões
Espaço-tempo de confinamento no Oeste francês: estatísticas, mapas, impressões
Espace-temps de confinement dans l’Ouest de la France : des statistiques, des
cartes, des impressions
Espacio-tiempo de confinamiento en el oeste francés: estadísticas, mapas,
impresiones
Space-Time of confinement in the French West: statistics, maps and impressions.
Alexandre Queiroz Pereira
Agradecimentos
O autor agradece aos financiamentos dos projetos CAPES PGPSE Proc. 88887.123947/2016-00: Sistemas Ambientais costeiros e ocupação econômica do Nordeste; CAPES PRINT Proc. 88887.312019/2018-00: Integrated socio-environmental technologies and methods for territorial sustainability: alternatives for local communities in the context of climate change, Bolsa de Professor Visitante Junior, e Programa CAPES/FUNCAP Proc. 88887.165948/2018-00: Apoio às Estratégias de Cooperação Científica do Programa de Pós-Graduação em Geografia – UFC.
Introdução
1 Na história estão registradas pestes, epidemias e pandemias, tais como peste bubônica no século XIV; cólera no XIX; varíola e tuberculose no XIX-XX; gripe espanhola, tifo, febre amarela, sarampo, malária e ebola no XX. Variam o local da disseminação, os transmissores e o número de mortes, porém as mudanças derivadas são sempre catastróficas e capazes de provocar efeitos colaterais na política, na economia e na cultura. O que essas experiências históricas e trágicas nos ensinaram?
2 Em texto datado de 2004 intitulado Teorias médicas e gestão urbana: a seca de 1877-79 em
XIX, de que forma os doentes eram tratados e os graves problemas gerados nas cidades — sobretudo nas mais pobres. Ela explica ainda a relação entre a varíola, a estiagem e as graves desigualdades sociais no Ceará, especialmente em Fortaleza. À época, os confinamentos forçados dos mais pobres nos abarracamentos foi a principal solução tomada e recaiu sobre um quantitativo próximo a vinte e sete mil famílias. Ao refinar o estado da arte, Costa enfatiza o papel e o poder do discurso médico higienista no ordenamento da sociedade e dos espaços, principalmente as cidades (COSTA, 2013; 2014). Na segunda década do século XXI, o discurso médico tornar-se-á predominante na regulação do cotidiano de massas urbanas? Outros profissionais e suas teses e estratégias ganharão destaque? 1
3 No ano de 2020, para todos os países e sociedades, o desafio é o vírus SARS-CoV-2 e a doença derivada, COVID-19. Se pensarmos friamente, sobretudo pelo conhecimento já acumulado, há razões para estranhar a surpresa pela qual a pandemia de COVID-19 é noticiada e sentida. Primeiro, os vírus do tipo corona há tempos são conhecidos pelos pesquisadores — basta lembrar as síndromes respiratórias aguda grave (SARS) e a do Oriente Médio (MERS), ambas correlacionadas a esta família viral. Segundo, desde janeiro, na província chinesa de Wuhan e, em seguida, em outras cidades e países do sudeste asiático, verificou-se a velocidade de contaminação e o percentual de casos que evoluíam para estados graves. Terceiro, Milton Santos, ainda nos anos 1990, tratava a unicidade das técnicas e do tempo como característica-chave para pensar o contemporâneo e alcançar os efeitos do processo de globalização.
4 Esta unicidade não se constitui sem fluxos e estes, e as redes, são fotografias do modo de vida urbano-regional-internacional do qual usufruimos para comprar, viajar, vender, produzir e comunicar 2. Certamente, na contemporaneidade o sentido etimológico da palavra pandemia 3ganha, de fato, condições empíricas de realização.
5 À luz tanto de fatos quanto de especulações, autores mundialmente reconhecidos se pronunciaram ao analisar o momento e a difusão da COVID-19. Noam Chomsky teme a escalada das formas de autoritarismo. Mike Davis descreve a gravidade da situação para as classes sociais mais pobres por causa do enfraquecimento dos sistemas públicos de saúde. Por sua vez, David Harvey cita o abalo do sistema de consumo de rápida rotatividade. A impotência e a paralisia do Estado frente às crises é destacada por Bruno Latour. Domenico de Masi e Manuel Castells impressionam-se com as condições da Itália e da Espanha. A partir de outra perspectiva, Byung-Chul Han compara a ação dos países europeus com a dos principais países asiáticos sublinhando diferenças na organização sociocultural, política e tecnológica. Mais otimista frente a mudanças radicais, Slavoj Zizek menciona um possível “golpe” fatal no capitalismo e a reinvenção do comunismo 4.
6 Neste sentido, nossa pretensão é mais singela frente às avaliações globais dos autores mencionados. A orientação geral do texto é relatar a disseminação da pandemia em território francês. Assim, necessitamos esclarecer que, mesmo habitante de Fortaleza-Ceará-Brasil, atualmente estamos em solo francês. No último dia 09 de março, desembarcamos em Paris e nos deslocamos para a cidade de Le Mans, no departamento de Sarthe, oeste francês. Nesta altura, a França já registrava 1412 casos confirmados, sendo 66 graves e 25 mortes de pessoas que foram hospitalizadas. No Brasil, o primeiro caso foi registrado dia 26 de fevereiro em São Paulo e, no início de março, casos foram registrados no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Na sequência, dia 11, a Organização Mundial de Saúde declara estado de pandemia. A partir de então, debates sobre a
disseminação, as mortes e os confinamentos já ganhavam a pauta do cotidiano dos brasileiros e, mais ainda, dos franceses.
7 No dia 17 de março iniciou-se o confinamento social na França. De lá pra cá, acompanhamos a situação nacional e internacional a partir de um apartamento localizado na rue Gambeta, na cidade de Le Mans, inscrita no departamento de Sarthe, integrante da região Pays de la Loire. Trataremos destes espaços específicos, mas sob duas escalas e enfoques distintos. Na primeira delas, a da região, apresentaremos a evolução da doença e suas repercussões. Na segunda, a da cidade, a partir de um olhar estrangeiro recentemente instalado tentaremos apreender a difusão das notícias, os debates e, sobretudo, como a situação de confinamento afeta o cotidiano da cidade de Le Mans.
Na França, na Região Pays de la Loire
8 Brevemente, atrevemo-nos a apresentar características gerais da França, com destaque para sua organização administrativa territorial (pelo menos em escala regional) e informações demográficas e econômicas. No que tange à gestão do território, basicamente, a França é dividida em 18 regiões e estas estão subdividas em 101 departamentos 5(figura 1). A mais importante e dinâmica região é a conhecida Île-de-France, onde se encontra a cidade de Paris.
Figura 1. Território Francês em Regiões e Departamentos.
Fonte: INSEE, 2020
9 Em termos demográficos, dados de 2016 demonstram que a França tem população aproximada de 66,3 milhões de habitantes. As regiões da Île-de-France (12,2 milhões de habitantes ou 18,3% do total), Auvergne-Rhône-Alpes (7,9 milhões ou 11,9%), Hauts-de-France (6 milhões ou 9%), Nouvelle-Aquitaine (6 milhões ou 8,9%) e Occitanie (5,8 milhões ou 8,7%) e Grand-Est (8,3 milhões) são as seis mais populosas. Pays-de-la-Loire agrega 3,7 milhões de habitante e é a 8ª mais populosa (5,6%). (figura 2)
10 Da população em tela, 23,2% apresentam idade acima de 59 anos, ou seja, 16,69 milhões. Essa informação ganha importância, sobretudo, em virtude da maior letalidade da COVID-19 em tais faixas etárias.
Figura 2. Distribuição populacional por região, 2016.
Fonte: INSEE, 2020.
11 Em termos econômicos, 73,8% da população é considerada ativa (entre 15 e 64 anos). A taxa de desemprego atinge 14,1%, em 2016, frente à taxa de 12,8% em 2011 (INSEE, 2016). Para o contexto nacional, os empregos por atividades econômicas encontram a seguinte distribuição: 46,4% empregam-se em atividades comerciais, de transporte e de serviços; 32,3% na administração pública, ensino, saúde e ação social; 12,2% trabalham no setor industrial, 6,5% na construção e 2,7% na agricultura. O valor médio da hora trabalhada é igual a 25,9 euros para profissionais intelectuais com ensino superior e gerentes de empresas, 14,7 euros para profissionais de formação intermediária e, aproximadamente, de 11 euros para operários e demais trabalhadores (INSEE, 2016). 12 Seja pela situação geográfica, pelas condições econômicas e a distribuição da população,
é prudente compreender a heterogeneidade do território. Essa diversidade pode nos ajudar a entender as diferenças no desenrolar do processo de disseminação da COVID-19.
Pays-de-la-Loire e COVID-19
13 O Pays-de-le-Loire é a sétima região de maior produção de riqueza, com PIB igual a 109.797 M€, ou seja, 5% de participação nacional, frente aos 668.823 M€ da Île-de-France (30,4% do total) (INSEE, 2015). Loire-Atlantique, Maine-et-Loire, Vendée, Sarthe e Mayenne são os departamento a compor a região, sendo Nantes a principal cidade, seguida de Angers, Le Mans, Laval, e La Roche-sur-Yon (figura 3).
14 Bem servida por serviços de transportes rodoviário e ferroviário, as distâncias em relação a Paris são rapidamente percorridas. Por TGV (trens de alta velocidade), uma viagem entre Paris e Nantes dura, aproximadamente, duas horas e trinta minutos.
Figura 3. Pays de la Loire
Legenda: região e seus departamentos demarcados por elipse pontilhada; Rennes (em vermelho) é a principal cidade
Fonte : INSEE, 2020.
15 A região, banhada pela água do rio Loire e repleta de belos castelos, é um conjunto regional relativamente periférico face à dinâmica econômica e populacional de outras regiões mais ao nordeste, a leste e ao sul. Estas características apenas nos ajudam a localizar o contexto a partir do qual observaremos a pandemia.
16 Na França, no dia 16 de março, quando mais de 4,8 mil casos e 147 mortos haviam sido registrados, em pronunciamento em cadeia nacional o presidente Emmanuel Macron usou a metáfora da guerra para fortalecer seu discurso e conclamar seus concidadãos a confiarem nas medidas do governo central. Àquela altura, os conselheiros científicos da presidência anunciavam a onda de contaminação e a possível saturação do sistema de saúde francês. Em seu discurso à nação, o presidente anunciou o confinamento social a partir das 12h do dia seguinte. Exceto supermercados, farmácias e alguns outros serviços essenciais, todas as demais empresas e instituições cessaram suas atividades. Os deslocamentos passaram a ser regulados e com necessidade de atestação de motivo. Sem isso, os agentes policiais são autorizados a multar os que infringirem as regras estabelecidas no decreto de 16 de março.
17 Numa democracia, medidas desta natureza não são constituídas sem críticas e efeitos controversos, sobretudo, como defende Paul Preciado, quando entendemos a imunidade como um conceito socialmente construído e atrelado a decisões políticas e ao controle social. Contudo, em linhas gerais a imprensa francesa engajou-se na campanha Restez Chez Vous 6. Lógico que esse comportamento está diretamente alinhado
ao avanço do número de casos severos de contaminação e às condições precárias dos sistemas de saúde italiano e, atualmente, espanhol. Mesmo os reticentes governantes do Reino Unido e dos Estados Unidos da América percebem o quanto a rapidez da contaminação e a elevação dos casos graves dependiam de condições de atendimento mais complexas.
18 A imprensa local, antes de pôr em questão o confinamento propriamente dito, fez a crítica maior ao atraso na decisão de decretar o confinamento. Os críticos relacionam este retardo aos interesses políticos frente ao primeiro turno das eleições municipais realizadas dia 15 de março, ou seja, dois antes do confinamento na França.
19 Até a primeira semana de abril 7, os dados da John Hopkins University & Medice apontava mais de 1 milhão de contaminados. EUA (245 mil), Itália (115 mil), Espanha
(112 mil), Alemanha (84 mil), China (82 mil) e França (59 mil) lideravam o ranking do número de contaminados. Contudo, em número de mortes, impressionam os dados registrados na Itália (13,9 mil) e na Espanha (10,3 mil) (figura 4). Os grandes focos de contaminação migraram do leste asiático para a Europa ocidental e para a América — sobretudo a do Norte. Contudo, os efeitos em países da África e das Américas Central e do Sul estão em plena evolução, e podemos imaginar desdobramentos mais graves face a outros problemas sociais e às deficiências nos sistemas públicos de saúde.
Figura 4. Número de contaminados por país até 03 de abril de 2020
Fonte: John Hopkins University, 2020. Disponível em https://coronavirus.jhu.edu/map.html
20 Diante do agravamento da situação e a fim de mitigar conflitos socioeconômicos, o governo francês estabeleceu medidas paliativas, a saber: novos prazos para pagamento de tributos e impostos; remissão de impostos diretos; adiamento de pagamentos e faturas residenciais (água, gás, eletricidade); apoio econômico (auxílio de até € 1.500) para trabalhadores mais pobres, freelancers e microempresários; empréstimo garantido pelo Estado; mediação de crédito para reprogramação de empréstimos bancários; regime de desemprego parcial; mediação de empresas em caso de conflito; férias coletivas, e perdão de encargos por possível multas não pagas nas datas de vencimento. Ressalva: é necessário distanciamento temporal e aprofundamento nos números e em outras evidências para avaliar a eficácia ou não destas medidas — condições que fogem ao escopo deste escrito.
21 Por outro lado, o governo é amplamente criticado por sua ineficiência em propiciar insumos básicos para as práticas de tratamento e de prevenção de contaminação. Os exemplos mais claros são as máscaras, os testes e os aparelhos respiratórios. A impressa local (Le Monde, Le Figaro, Le Parisien) informa a ausência de máscaras inclusive para médicos e demais profissionais de saúde. O governo apelou para empresas (Slip Fracais, Les senteurs, 1083, Atelier Tuffery, Payote, Shanti K’réa, Ouvry, Guerlain, Tereos, the Bordeaux distilling company, Ibbeo, entre outras) a mudar linha de produção e ampliar a fabricação de álcool em gel, máscaras e aparelhos respiratórios. Ao mesmo tempo, no
fabricadas na China. Com o lançamento da Operação Resiliência, as Formas Armadas também foram convocadas. O aumento do número de leitos se fez por organização imediata de hospitais de campanha.
22 Neste momento, quando se espera a chegada do “pico de contaminação”, a maior preocupação diz respeito à sobrecarga dos profissionais de saúde, inclusive com crescimento do número de profissionais contaminados. A figura 5 expressa o quadro até início de abril e é possível verificar a desigualdade na distribuição regional dos casos. A região da Île-de-France é a mais afetada (10273), juntamente com todas àquelas mais a leste — Hauts-de-France [1824], Grand Est [4657], Auverge-Rhône-Alpes [2706] e Provence-Alpes-Côte d’Azur [1492]).
Figura 5. Distribuição, por região, dos casos de COVID-19 na França Metropolitana.
Fonte: https://www.gouvernement.fr/info-coronavirus/carte-et-donnees, 03/04/2020.
23 Seguindo outra lógica, as regiões mais a oeste apresentam os menores índices, a saber Bretagne (391) e Pays de la Loire (571). As regiões mais contaminadas são as com maior peso demográfico. Pensamos que a situação geográfica pode contribuir para explicar este quadro. Diferentes das mais infectadas, as regiões do oeste não são os principais nodais de atração e distribuição de fluxos do país. Da mesma forma, estão confinadas pelo oceano, sem fronteiras com outras nações. Lógico que imaginamos que o confinamento social contribui deveras para as menores taxas de contaminação.
24 Em termos de comparação, Île-de-France conta atualmente com 2301 pessoas hospitalizadas e a utilizar aparelhos para respiração. A região Pays de la Loire, por sua vez, apresenta 141 pacientes na situação mais grave. O governo inclusive trata como principal informação não mais o número de casos absolutos, mas o número de pacientes en réanimation, posto indicar maior tendência de saturação dos equipamentos
hospitalares. Até o dia 02 de abril, na região do Pays de la Loire, Loire-Atlantique apresentava 52 pacientes, Maine-et-Loire 40, Sarthe 22, Vendée 17 e 10 em Mayenne. 25 Aparenta-nos que a disseminação do caso, malgrado exceções, é mais intensa nas
centralidades das redes urbanas. Mas, por quê? É a diversidade e intensidade dos fluxos e trocas com o exterior o fator decisivo para o estabelecimento inicial da epidemia. Em seguida, a própria aglomeração populacional contribui. Neste modelo, muitos dos comportamentos pessoais e coletivos tendem a espalhar o vírus (contatos diários, uso de transporte público, aglomeração em grandes centros comerciais...). Daí, os desdobramentos da epidemia variam conforme a antecipação de medidas coletivas e pessoais de confinamento e cuidados higiênicos, capacidade de testar e isolar pessoas ou áreas de maior contaminação, eficácia no modelo comunicacional e de convencimento da população e, por fim, organização dos sistemas de saúde — triagem dos casos, elevação do número de leitos e atendimento imediato dos mais graves. 26 Essa diferenciação regional na distribuição dos casos foi constatada e duas principais
medidas têm sido executadas. A primeira consiste no convite a profissionais de saúde de espaços menos afetadas a exercerem suas funções em hospitais saturados de outras regiões. A segunda ação corresponde à transferência de pacientes em reanimação para centros hospitalares sediados em regiões com melhores condições de atendimento, visto o número de leitos vagos. A título de exemplo, TGV’s adaptados (TGV Santé) foram utilizados para conduzir pacientes em estado grave para cidades como Rennes (Bretagne) e Angers (Pays de la Loire). Administradores de hospitais em Paris defendem maior integração entre os países europeus visando permitir o atendimento de necessitados em nações menos impactadas.
27 Na “guerra contra o vírus”, além do confinamento, o debate nacional aponta para a cidade de Marseille e o uso da substância cloroquina no tratamento da COVID-19. O médico e cientista Didier Raoult, diretor do Instituto Mediterrâneo de Infecções, é figura reconhecida e não menos polêmica. Sua defesa da cloroquina é analisada com cuidados por outros médicos e cientistas, haja vista a ausência de pesquisas seguras e capazes de comprovar a eficácia da substância em tela e seus possíveis efeitos colaterais — como os que podem comprometer o sistema cardiovascular, por exemplo. Para este momento, porém, o médico de Marseille defende ações mais heterodoxas e faz críticas aos ortodoxos das metodologias científicas. Entre as tensões e as discussões médica, científica e ética, no dia 26 de março o governo francês acabou por autorizar a administração do medicamento.
28 A situação mantém-se grave 8. Todavia, os debates já se encaminham para as ações em função do término do confinamento. Além da profusão do uso cotidiano de máscaras à moda asiática e da possibilidade de liberação por faixa etária, eleva-se o interesse pelo uso de sistemas de geolocalização — também utilizados em países como China e Coréia do Sul). O principio é sugerir aos usuários (“cidadãos”) o uso de aplicativos para telefones portáteis e a transmissão de dados via bluetooth. Desta forma, é possível vigiar, avisar e punir pessoas infectadas/doentes que teimam em deslocar-se, detectar quais entraram em contato e por onde circularam. Há mudança na escala de acompanhamento: do confinamento físico residencial para um acompanhamento individual e em tempo real a ponto de propiciar territórios flexíveis de isolamento. Encaminha-se para o quadro destacado por Paul Preciado9, a saber, o corpo como fronteira.
O confinamento e as sensações a partir de Le Mans.
29 Dadas as características gerais do processo e certos impactos a nível regional, essa seção do texto ganha características distintas. Inicialmente, muda-se a escala espacial e aponta-se para um lugar específico: uma cidade. Por fim, a segunda distinção reside na abordagem, menos quantitativa e pragmática, e mais da descrição das sensações e das impressões a partir de vivência in loco.
30 Como outrora informado, encontramo-nos na cidade de Le Mans, capital do departamento de Sarthe, a uma hora e meia de Paris. A cidade, bem lembrada por evento automobilístico (as 24h de Le Mans), é residência de 146.804 habitantes e sede aglomerado urbano a reunir 205.113 habitantes (INESS, 2016).
31 Ville tranquila, que nem de longe lembra o cotidiano das grandes aglomerações, tem ruas bem cuidadas, margeadas por belos sobrados de cores pálidas. Dos primeiros cinco dias, não notávamos expressivas mudanças posto à ameaça da doença mundial. Pessoas comuns, no vai e vem próprio, a marcar a paisagem urbana temperada pelas baixas temperaturas do fim do inverno.
32 Bem próximo as águas do Sarthe, a Place de la République e a Place des Jacobins, no centro da cidade, são os espaços públicos por excelência (figura 6). Nas praças o fluir de gente quebra a monotonia das belas e limpas ruas secundárias e lá, de fato, sentimos a sensação de urbanidade.
Figura 6. Le Mans e seu centre-ville.
Legenda: Prace de la Republique (círculo azul); Place des Jacobins (círculo vermelho). Fonte: Google Earth, 2020.
33 Se antes do confinamento social não pressentíamos nenhum temor ou grande atenção ao quadro nacional e internacional, hoje a situação mudou. Não constatamos pânico ou grande temor. Pensamos que se explica pelo número relativamente menor de casos e internações. Até o dia 03 de abril, Sarthe contava 18 mortes, 80 hospitalizados sem gravidade e 25 em reanimação. Nos últimos seis dias o número de hospitalizados se estabilizou (figura 7).
Figura 7. Evolução do número de casas em reanimação do departamento de Sarthe.
Fonte: Governo Francês. Disponível em https://www.gouvernement.fr/info-coronavirus/carte-et-donnees.
34 Com todas as instituições de ensino fechadas, comércios e transporte público vazios, a cidade quase pára. Da janela da rue Gambetta, vemos alguns poucos a praticar esportes, crianças em movimentos leves e felizes, senhores e senhoras numa marcha lenta e a perseguir alguns raios de sol ou com suas baguettes à mão. Mas o que mais impressiona é o silêncio. Raramente escutamos qualquer vibração sonora que lembre o burburinho de pessoas, de trânsito, de agitação (figura 8). Os debates midiáticos e o discurso médico continuam a impactar o uso do espaço público (COSTA, 2016).
Figura 8. Rua de Le Mans em período de confinamento
35 Após as últimas recomendações governamentais, é perceptível a adoção do hábito do uso de máscaras. Nos supermercados há controle de entrada e filas, mas sem desabastecimento e sem correria. Lógico que a economia da cidade foi muito afetada, sobretudo os profissionais liberais e prestadores de serviços não essenciais. Neste sentido, a esperança é a flexibilização do confinamento social associada a maior controle das medidas de higiene e distanciamento cotidiano.
36 O medo em relação à contaminação e ao adoecimento é pensamento recorrente. Contudo, é impossível não destacar a dificuldade em incorporar a regulação do ir e vir. Quando vamos à rua por necessidade de primeira ordem, a sensação de vigilância produz desejo de retorno à residência. A qualquer momento, todos estão sujeitos à interpelação por um agente de segurança, daí a necessidade de identificação e, ao mesmo tempo, de relatar e comprovar o motivo que justifica a saída à rua.
37 A relação entre casa e rua ganha novo significado. Da janela, o olhar atento vislumbra a paisagem urbana ou, pelo menos, seus sub-recortes, e virtualiza os fluxos, os contatos e o vir-a-ser. Não sabemos quanto e como isso tais condições vão mudar. Por enquanto,
RESTEZ CHEZ VOUS, e se munir de [cuidados e] esperança.
Conclusões
38 Num sistema-mundo baseado na circulação, é óbvio que bactérias e vírus rapidamente se espalham e se espalharão. A perplexidade social e as dificuldades políticas frente à pandemia atual, fazem-nos pensar como nossos sistemas pedagógicos e de comunicação são ineficazes. Dizemos isso inicialmente pela ausência de perspectiva histórica deste tipo de acontecimento e, segundo, por constatar que a avalanche de informações acessível não consegue produzir quadro educacional no qual os povos e seus governos tenham ciência das probabilidades críticas. As instituições públicas e as empresas de controle de dados não conseguem domar a produção e o impacto negativo das noticias falsas (fakenews). Em momentos de medo, epidemia e crise econômica, elas são mais avassaladoras e preocupantes.
39 Estes momentos nos fazem avaliar a importâncias das reflexões históricas e geográficas. No tempo e no espaço, é prudente conhecer o processo de mundialização das relações e práticas sociais e, simultaneamente, identificar as rugosidades e a “força dos lugares”. Com isso, aprendemos a parametrizar a eficácia ou não de dadas ações, como por exemplo as restrições sociais, o fechamento de fronteiras nacionais, a deterioração das relações de produção e a degradação socioambiental.
40 Não são necessários muitos argumentos para identificar a gravidade da situação sanitária e sócio-espacial diante da expansão do COVID-19. Contudo, não cremos em mudanças generalizadas no sistema de produção e no modelo de distribuição de riquezas. Nos países do capitalismo central, pensamos que se estabeleceram ajustes na divisão internacional de trabalho — sobretudo para itens relacionados à manutenção dos sistemas de saúde e proteção. Nos países do capitalismo periférico, dificilmente vislumbramos saltos qualitativos no enfrentamento das injustiças sociais e de saúde. Muito provavelmente, com as dificuldades econômicas, medidas de austeridade serão propostas no futuro pós-epidemia.
41 Acreditamos que assim como foram produzidos aparatos legais e de controle em relação à prevenção de ações terroristas (geopolítica do medo), pensamos que governos
como os dos países europeus (liderados por França e Alemanha) proporão novos esquemas de “segurança” biológica. Neste sentido, além dos saberes médicos, os discursos das empresas de tratamento de dados e de comunicação serão importantes para o monitoramento de cargas, substâncias e, mais ainda, de pessoas. Não sabemos se organizações como a OMS serão fortalecidas. Provavelmente, cada país ou bloco regional construirá suas regulações, métricas e procedimentos de controle.
42 Na escala das pessoas e das relações cotidianas, o momento pós-crise COVID-19, ao nosso pensar, não trará novos princípios humanitários de compartilhamento e de solidariedade. Muito provavelmente, em algumas sociedades, daqui pra frente, os contatos em espaços públicos ou semi-públicos serão, consciente e inconscientemente, mais distantes e regulados, novas formas de apropriação dos espaços públicos surgirão. Por fim, no Ocidente, máscaras e luvas podem se tornar os novos acessórios de moda.
BIBLIOGRAFIA
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COSTA, M C L. A casa e a rua: objetos a medicalizar. Boletim Goiano de Geografia, v. 36, p. 197-219, 2016.
COSTA, M C L. Influências do discurso médico e do higienismo no ordenamento urbano. Revista da ANPEGE, v. 9, p. 63-73, 2013.
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COSTA, M C L. Teorias médicas e gestão urbana: a seca de 1877-79 em Fortaleza. Hist. cienc.
saude-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 11, n. 1, p. 57-74, Abr. 2004. https://doi.org/10.1590/ S0104-59702004000100004.
GOVERNO FRANCES. Dados e cartas – COVID-19. 2020. Disponível em https:// www.gouvernement.fr/info-coronavirus/carte-et-donnees
GUIMARÃES, R B. Saúde: fundamentos de geografia humana. 1ª ed. São Paulo: Editora da UNESP, 2015. v. 1. 112p .
INSEE. Insitut Nacional de la Statisque et des Études Économiques.[2016] 2020. Disponível em https://www.insee.fr/fr/accueil.
SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2006.
NOTAS
1. Vale salientar que não nos atreveremos a construir análise baseada em abordagens da
2. Sugerimos leitura dos textos síntese publicados por Maria Encarnação Sposito e Raul Borges
Guimarães (www.revistaplaneta.com.br/por-que-a-circulacao-de-pessoas-tem-peso-na-difusao-do-coronavirus/).
3. Do grego pandemías, as; pan, “todo” + demos “povo” + ia. Doença infecciosa e contagiosa que se
espalha muito rapidamente e acaba por atingir uma região inteira, um país, continente etc. Aproximamente, duzentos países registram ocorrências da doença. Para mais informações, acessar https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019.
4. Acesse estes e outros artigos de opinião no sítio eletrônico http://agbcampinas.com.br/site/ 5. Guadaloupe, Martinique, Guyane, La Réunion e Mayotte são denominados ultramarinos. 6. Tradução: “Fique em casa!”
7. Momento que finalizamos a escrita do manuscrito.
8. Eleva-se o número de mortes em retiros e casos para idosos.
9. http://agbcampinas.com.br/site/2020/paul-b-preciado-aprendendo-com-o-virus/
RESUMOS
A partir da experiência da quarentena vivida por um geógrafo brasileiro na cidade de Le Mans, apresentamos as características territoriais da França, da região do Pays de la Loire e da própria Le Mans visando compreender a difusão desigual da Covid-19. Finalmente, cremos menos em grandes transformações sócio-econômicas que em ajustes na escala das nações e nos espaços da vida cotidiana.
A partir de l’expérience de la quarantaine vécue par un géographe brésilien dans la ville de Le Mans, on présente les caractéristiques territoriales de la France, de la région du Pays de la Loire et de la ville elle-même à fin de comprendre la diffusion inégale de la Covid-19. Finalement, on croire en des mesures d’ajustement à l’échelle des nations et dans les espaces de la vie quotidienne plus qu’en des grandes transformations socio-économiques.
Con base en la experiencia de cuarentena vivida por un geógrafo brasileño en la ciudad de Le Mans, presentamos las características territoriales de Francia, la región del Pays de la Loire y la propia Le Mans para comprender la difusión desigual de Covid-19. Finalmente, creemos menos en las grandes transformaciones socioeconómicas y más en los ajustes en la escala de las naciones y en los espacios de la vida cotidiana.
Based on the quarantine experience lived by a Brazilian geographer in the city of Le Mans, we present the territorial characteristics of France, the Pays de la Loire region and the Le Mans itself to understand the uneven diffusion of Covid-19. Concerning the consequences of Covid-19, we believe less in major socio-economic transformations than in some changes in the scale of nations and the spaces of everyday life as well.
ÍNDICE
Mots-clés: Covid-19; France; Pays de la Loire; Le Mans; quarantaine. Keywords: Covid-19; France; Pays de La Loire; Le Mans; quarentine. Palabras claves: Covid-19; Francia; Países del Loira; Le Mans; cuarentena. Palavras-chave: Covid-19; França; Pays de la Loire; Le Mans; quarentena.
AUTOR
ALEXANDRE QUEIROZ PEREIRA
Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC, Laboratório de Planejamento Urbano Regional, Bolsista Pq/CNPq. Email: [email protected]