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TRABALHO DOMÉSTICO E A DOMICÍLIO: ESPAÇOS PRODUTIVOS?

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Academic year: 2021

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Nosso objetivo é fazer uma breve reflexão sobre o profundo distanciamento da pesquisa geográfica em relação às questões derivadas da divisão sexual do trabalho ou das relações de gênero. São poucos os esforços desenvolvidos no sentido de tornar as relações de gênero, uma categoria analítica reveladora das transformações sócioespaciais. Seja para temáticas mais gerais, focadas ou locais, a Geografia tem por tradição pesquisar um “sujeito neutro”, mas que quase sempre começa com o artigo “o”, de masculino. Nosso propósito é não só despertar o interesse assim como levantar questões que mais expressam nossas angústias diante desse desafio. Como nosso campo de pesquisa volta-se para análise de espaços produtivos, neste artigo apresentamos algumas reflexões sobre o trabalho doméstico e a domicílio como pilares organizadores tanto do espaço da reprodução familiar como do espaço do capital.

1. O cenário de fundo

Mészáros (1996:180) considera que a constituição do sistema do capital está ligada organicamente à emergência de uma segunda ordem de mediações, pois a exigência de sua expansão subordina a totalidade das funções de reprodução social, ou seja, torna em mercadorias as necessidades humanas, convertendo toda a reprodução societal em valor de troca, o que impõe o estabelecimento de condições para instaurar uma estrutura hierárquica do trabalho que permita uma contínua, sistemática e crescente ampliação de valores de troca.

Esse processo de sujeição assume a forma da divisão da sociedade em classes sociais irremediavelmente opostas entre si e a forma de um controle político. Essa contradição tem como um de seus principais pilares de sustentação a divisão hierárquica do trabalho, na medida em que as funções de produção e de controle do processo de trabalho devem estar separadas umas das outras e realizadas por diferentes classes sociais. O capital, além de mediar as relações de poder no interior do processo de trabalho tem, também, um importante papel ideológico, ao “naturalizar” a hierarquia e a subordinação estruturalmente desigual.

O capital, portanto, é uma estrutura totalizadora de controle societal orientada para a expansão e acumulação que, para atingir a sua forma plenamente desenvolvida, tem de se constituir em um sistema global. Sendo modo e meio dinâmico de mediação produtiva articulada com estruturas e práticas sociais historicamente construídas, agrega um sistema de mediações que subordina todas as funções de reprodução social – das relações de gênero e família até a produção material e a de criação de obras de arte – às exigências de sua constante expansão, construindo funções vitais, as mediações de segunda ordem, para a sua permanente acumulação. Seu imperativo de expansão manifesta, por sua vez, paradoxalmente, uma perda de controle, uma incontrolabilidade total diante dos problemas e contradições que lhes são constitutivos, chamados por Mészáros (1996:105), de defeitos estruturais:

Primeiro, a produção e o seu controle estão radicalmente isolados entre si e diametralmente opostos.

Segundo, no mesmo espírito e surgindo das mesmas determinações, a produção e o consumo adquirem uma independência e uma existência separadas extremamente problemáticas, de modo que, no final, o “excesso de consumo” mais absurdamente manipulado e desperdiçador, concentrado em poucos locais, encontre seu corolário macabro na mais desumana negação das necessidades elementares de incontáveis milhões de pessoas.

E, terceiro, os novos microcosmos do sistema do capital combinam-se em alguma espécie de conjunto administrável, de maneira que o capital social total seja capaz de penetrar – porque tem de penetrar – no domínio da circulação global (ou, para ser mais

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preciso, de modo que seja capaz de criar a circulação como empreendimento global de suas próprias unidades internamente fragmentadas), na tentativa de superar a contradição entre produção e circulação. Dessa forma, a necessidade de dominação e subordinação prevalece, não apenas no interior de microcosmos particulares – por meio de atuação de cada uma das “personificações do capital” – mas também fora de seus limites, transcendendo não somente todas as barreiras regionais, mas também todas as fronteiras nacionais. É assim que a força de trabalho total da humanidade se sujeita – com as maiores iniquidades imagináveis, em conformidade com as relações de poder historicamente dominantes em qualquer momento particular – aos imperativos alienantes do sistema global.

A falta de controle do capital decorre, portanto, da ausência de unidade das estruturas que o constitui que, fragmentadas, assumem a forma de antagonismos sociais, conflitos de interesses hegemônicos alternativos. Portanto, ao tornar a reprodução societal uma “viabilidade produtiva”, paga um preço diante de um comando de múltiplas hegemonias: a perda do controle sobre os processos de decisão seja ao nível da produção como do consumo e circulação, tanto para o trabalho (sempre) como para o próprio capital.

A ruptura entre produção e consumo, a perda da predominância do valor de uso, não estabelece limites para a expansão do capital, afirma o autor. A grande maioria da sociedade é excluída do controle dos processos de reprodução e do consumo, sendo, porém, legalmente protegida pela forma alienante de consumidor individual onde o verdadeiro produtor da riqueza, o sujeito, desaparece. O Estado, portanto, tem o papel de regular e reforçar o domínio do capital diante dessas contraditórias desigualdades, além de assumir as funções de comprador, consumidor e provedor de necessidades sociais básicas.

Entende Mészáros que a formação do Estado moderno constitui uma ação corretiva dos antagonismos, dos “defeitos” da estrutura do capital. Sua estrutura legal é uma necessidade para administrar a separação entre produção e controle, isto é, sancionar e proteger os meios de produção e suas personificações e mediar os conflitos entre capital e trabalho. O desenvolvimento do Estado moderno sendo, ao mesmo tempo, o do capital, tem o poder de exercer um controle sobre a reprodução profundamente desigual da sociedade.

As estruturas e o comando político do sistema do capital se articulam como Estados nacionais, portanto, confinados a limites territoriais. Entretanto, sua permanente necessidade de expansão faz com que a esfera da circulação constitua um elo articulador global das estruturas fragmentadas, entre produção e circulação dos Estados nacionais. O Estado possui um importante papel na administração dessa importante e orgânica contradição ao instituir, segundo Mészáros, (1996:94/115), um sistema de “duplo padrão”: os países centrais do sistema global do capital e os da “periferia subdesenvolvida” constituindo um sistema internacional de dominação e subordinação, uma hierarquia de Estados nacionais submetida à lei do desenvolvimento desigual. O Estado rege esses antagonismos ao comportar-se diferentemente quanto aos interesses internos e externos: internamente, protege o capital nacional administrando sua gênese concentradora / centralizadora, enquanto que externamente, apóia os interesses monopolistas do seu capital nacional.

Sem a constituição do Estado moderno, ainda segundo o mesmo autor (p.109), o controle metabólico do capital não poderia estabelecer um sistema constituído por microcosmos socioeconômicos (unidades reprodutivas socioeconômicas do capital), produtores e extratores de trabalho excedente, devidamente integrado. Na qualidade de comando político do capital, o Estado é pré-requisito da transformação das unidades fragmentadas em um sistema viável e o quadro geral para a articulação em um sistema global, tornando-se, portanto, parte integrante da base material do capital.

Para alguns autores, as transformações ocorridas possibilitaram o surgimento de um novo padrão produtivo organizacional e de técnicas de gestão informacionais, que permitiram o desenvolvimento de uma estrutura mais “flexível”, através de processos de externalização de etapas do processo produtivo e de deslocamento de unidades para espaços com vantagens

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locacionais mais “competitivas”. Ao mesmo tempo, a recomposição do sistema metabólico global do capital, a expansão dos capitais produtivos e financeiros, é acompanhada por uma lógica destrutiva acelerada, isto é, desmontagem e desestruturação de áreas, regiões ou países que, subordinados, são penalizados pela desigual competição inter- capitalista que, ao mesmo tempo em que atinge profundamente as forças produtivas locais, as reorganiza precariamente em novos espaços produtivos. È um movimento integrado de mudanças técnicas e organizacionais que promovem uma re-divisão global do trabalho assim como de mercados, através do fechamento e/ou enxugamento de unidades produtivas.

A acumulação mais “flexível” se apóia na “flexibilidade” dos processos de gestão, produtivo e mercados de trabalho, de produtos e padrões de consumo. No lugar das corporações com centenas ou milhares de operários, produzindo desde a matéria-prima até os produtos finais, redes burocratizadas hierarquizadas, vem ocorrendo uma deslocalização seletiva de atividades, permitindo a ampliação de processos de subcontratação e terceirização, forjando como novas antigas formas de trabalho. Essa fase de “racionalização da produção” evidencia um “novo quadro” de estruturação do mercado de trabalho em que o declínio da parte do trabalho produtivo no emprego total criado não é contraditório com o crescimento da produção industrial total, pois a redução do emprego regular é acompanhada pelo crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado, incrementando o chamado novo proletariado fabril e de serviços, de acordo com Antunes (2000, 2000a).

No bojo das transformações do chamado “mundo do traballho” interessa-nos, particularmente, aqueles que, de fato, sempre estiveram presentes no processo geral de acumulação: o trabalho doméstico e a domicílio. O trabalho a domicílio é uma forma de obtenção de renda que cada vez mais se generaliza, seja através de vigorosos sistemas técnicos , ligados às redes informacionais, como aqueles de baixa remuneração e precárias condições de trabalho como o de costura, artesanato, produção caseira de alimentos dentre outros (Lavinas et al., 1998,2000).

2. Apresentando nossa problemática

O trabalho a domicílio é predominantemente feminino1 e compartilha o mesmo espaço com o trabalho dos afazeres domésticos, o “cuidar da casa”. Ambos invisíveis são pouco reconhecidos como condições de reprodução societal. A ruptura do espaço da reprodução familiar e do trabalho ocorreu com a expansão do capital industrial que, para realizar-se, separou a unidade doméstica da unidade de produção, proporcionando uma divisão sexual do trabalho, na qual a mulher se tornou a responsável, no âmbito do lar, pela reprodução da força de trabalho, e o homem, o provedor do lar através de atividades produtivas geradoras de renda fora do “lar”, no espaço público.

O estudo Comércio, gênero y equidad en America Latina: conocimiento para la acción política (2007) destaca a relevância da “economia del cuidado”, uma vez considerada como atividades dadas e desprezadas pelas políticas econômicas, ressaltando que “a riqueza de um país consiste não somente em bens e serviços produzidos pelo setor privado e pelo setor público, mas também do que a “econonia del cuidado” provê que são as capacidades humanas e a coesão social” (p. 6). Embora nos enfoques econômicos tradicionais a casa, o lar, seja visto somente como uma unidade de consumo, o estudo destaca duas razões para que o trabalho doméstico, atividade não remunerada, seja considerado nas análises macroeconômicas (p.7):

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Vide Teixeira et al. (1986), Abreu e Sorj (1994), Lavinas et al. (1998,2000) , Leite (2004) e Mattos (2005).

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1. os insumos do trabalho não remunerado e os produtos do trabalho doméstico são essenciais para o bem estar humano. Demasiado trabalho não pago e a escassez “de cuidado” colocam em perigo a possibilidade de viver uma vida digna.

2. ainda que a o trabalho doméstico não remunerado esteja fora das fronteiras da produção (definida pelo Sistema de Contas Nacionais), suas implicações afetam a esfera produtiva.Por um lado, porque gera impactos sobre a quantidade e qualidade da força de trabalho que se oferece. Por outro, porque haveria impactos sobre a quantidade e qualidade da demanda de bens e serviços. Por fim, se afeta e a estabilidade do tecido social, impacta o ambiente onde tanto o mercado como o Estado se desenvolvem.

De acordo com Hirata (2002) e Bruschini (2008), desde a década de 1970 estudos têm sido realizados sobre a importância do trabalho doméstico na reprodução social. O ano de 1975, considerado o Ano Internacional da Mulher, é um marco para o crescimento do interesse e pesquisas sobre as condições de vida e trabalho da mulher. As primeiras investigações objetivaram revelar as condições, situações e posições das mulheres sob um olhar descritivo reificador de sua subordinação. Machado (1998, p.110) reconhece que os estudos de mulheres:

tratavam especificamente de retirar mulheres da situação de relativa invisibilidade pelo encompassamento da idéia de “homens” como se “neutros” fossem em relação ao sexo, da relativa invisibilidade pela sua inserção privilegiada na história privada e pela sua quase exclusiva visibilidade enquanto exercendo funções complementares ao sexo masculino.

O movimento feminista e a crescente participação da mulher em funções até então dominadas pelo trabalho masculino e na vida pública em geral, foram conduzindo o debate sobre as condições da mulher para o plano teórico, e o crescente interesse pelo trabalho doméstico como objeto de estudos, investigando a sua importância na reprodução familiar assim como na reprodução social e o questionamento de sua atribuição exclusivamente feminina, colocando em evidência, cada vez mais, a desigual divisão sexual do trabalho.

É a partir dos anos de 1990 que a expressão relações de gênero passa a ser cada vez mais utilizada nas pesquisas acadêmicas. Machado (1998) afirma que o uso do conceito de gênero desnaturalizou biologicamente as categorias homem e mulher, submetendo-as às condições sociais e culturais da sociedade que as constitui. Moraes (1998), por sua vez, chama a atenção que perspectiva culturalista dominante nas análises sobre essência masculina e feminina não é produto da sexualidade biológica, mas, sim, produto de relações sociais de uma determinada estrutura de poder. Para a mesma autora (p. 101):

A categoria gênero, se for epistemologicamente neutra, deve indicar que partimos do ponto de vista de que a sociedade atua sobre o biológico, vale dizer que, não obstante estarmos “determinados” pelo ritmo da vida, da biologia – pois ninguém escapa de seu destino biológico – nós enfatizamos a “coerção” do social (as normas e valores) e a plasticidade do biológico.

Moraes (1998) também chama a atenção para o uso impreciso da categoria gênero, sendo a maior parte das vezes tratada como sinônimo de homem e mulher. Por sua vez, Hirata (2002) observa que existem múltiplas explicações para a divisão sexual do trabalho, pois “as categorias relacionadas ao sexo aparecem e desaparecem com o modo como, por exemplo, o trabalho e a produção são conceitualizados...”(p.279). Nesse sentido, reconhece dois divergentes campos teóricos sociológicos da divisão sexual do trabalho: a conceitualização em termos de “vínculo social” que tem a complementaridade, a divisão de papéis, a parceria e a solidariedade orgânica, como alguns de seus fundamentos conceituais e uma outra prespectiva embasada em uma teoria geral das relações sociais que tem a divisão do trabalho, a contradição, a opressão e o poder como exemplos de seus norteadores conteúdos analíticos.

Quanto ao campo de análise que privilegia a divisão sexual do trabalho em termos de “vínculo social”, Hirata (2002) afirma que a idéia de complementaridade entre homens e

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mulheres leva a um modelo onde não só fica estabelecida a especialização dos papéis sexuais assim como os laços de conciliação entre as atividades familiares e profissionais, buscando uma igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, não reconhecendo que as relações sociais são hierarquizadas, portanto, desiguais entre homens e mulheres. É justamente nos antagonismos e conflitos decorrentes dessa hierarquia estruturante que a conceitualização da divisão sexual em termos da relação social delimita seu campo de ação, pois:

“a divisão sexual do trabalho é considerada como um aspecto da divisão social do trabalho, e nela a dimensão opressão/dominação está fortemente contida. Essa divisão social e técnica do trabalho é acompanhada de uma hierarquia clara do ponto de vista das relações sexuadas de poder”(Hirata, 2002, p.280)

Saffioti (2004) em lúcido análise sobre gênero e patriarcado ressalta a importância da teoria como instrumento transformador, entretanto, observa que “é necessário precaver-se no sentido de impedir que a resultante da ação coletiva fique aquém, ou muito aquém, do fim posto” (p.43). Qual o sentido dessas palavras? A autora objetiva mostrar que a “teoria de gênero” não garante uma sociedade igualitária como pressupõem algumas teóricas feministas diante de sua excessiva generalidade justificando seu posicionamento:

“Não se trata de abolir o uso do conceito de gênero, mas de eliminar sua utilização exclusiva. Gênero é um conceito por demais palatável, porque é excessivamente geral, a-histórico, apolítico e pretensamente neutro. ... O patriarcado ou ordem patriarcal de gênero, ao contrário, como vem explícito em se nome, só se aplica a uma fase histórica, não tendo a pretensão da generalidade nem da neutralidade, e deixa propositadamente explícito o vetor da dominação-exploração. É, por conseguinte, um conceito de ordem política. (Saffioti, 2004, p.43:44)

A autora reconhece os objetivos transformadores das teorias feministas, entretanto, a construção de uma sociedade igualitária não pode restringir-se à luta pelo domínio de gênero, mas, sim, por todos os agentes que constituem a formação socioespacial: “e poderia ser de outra ordem se o objetivo das (os) feministas consiste em transformar a sociedade, eliminando as desigualdades, as injustiças, as iniqüidades, e instaurando a igualdade? questiona. (Saffioti, 2004, p. 44 citado por Saffioti, 1997a).

Tais proposições revelam as múltiplas possibilidades de superação, ou não, das precárias e, na maioria das vezes, cruéis condições de vida e trabalho das mulheres principalmente daquelas que articulam, no espaço da casa, o trabalho doméstico com o trabalho em domicílio.

3. Nossos preliminares caminhos

Dedicamo-nos, desde 2005, a analisar e revelar a importância do trabalho em domícilio no processo geral de acumulação. Trabalho invisível integra o espaço da produção com o da reprodução, conforme entretanto, reconhecendo a pertinência do estatuto teórico, perguntamo-nos: que espaços são esses?

A lógica acumulativa do sistema metabólico do capital é, por natureza, expansiva e destrutiva, isto é, para realizar-se, mundializar-se, destrói ou submete tudo aquilo que possa impedir o seu histórico desenvolvimento. Esse movimento de (des)reconstrução é, também, (des)reconstrução do espaço porque a reprodução do seu metabolismo ocorre sobre o espaço, utiliza o espaço, produz espaço, tornando-o, também, um elemento estruturador de sua reprodução, não apenas das relações de produção mas da reprodução das relações sociais, a reprodução da totalidade social.

Santos (1978:37) em momento epistemológico fundante, afirma que o espaço geográfico só poderá ser corretamente compreendido, a partir do seu reconhecimento como um fato histórico, isto é, fruto da história da sociedade, pois a história não se reproduz fora do espaço e nem a sociedade se realiza, se reproduz sem o espaço. O espaço geográfico é, por

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natureza, social, por ser transformado através do trabalho, em bens que o homem (nem sempre) necessita. Essa contínua transformação da primeira natureza em espaço, segunda natureza, é o próprio processo de constituição dos modos de produção e das suas materializações, das suas espacialidades territorializadas. Sua decisiva trajetória na construção de uma ontologia do espaço consagrou as seguintes interpretações ( 1996, p.51):

“o espaço é formado for um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como quadro único no qual a história se dá” e “o espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes”. Por sua vez, Lefebvre (1986) afirma que o espaço é produto, é instrumento tanto para o conhecimento como para a ação, é abstrato e real, é objetivação: por ser tudo isso o espaço (social) é um produto (social). O espaço é histórico e social porque a sociedade para reproduzir-se, no mais amplo sentido, reproduz o espaço. Os homens para se reproduzirem biologicamente e socialmente, reproduzem o espaço: da produção, do culto, dos encontros, dos monumentos..., entretanto dependendo do momento histórico o fazem de modo diferenciado, de acordo com o estágio de desenvolvimento das forças produtivas. Portanto, o espaço é um produto social porque não é vazio de conteúdo, sem sujeitos, mas, sim, fruto de atos e relações sociais, relações sociais de produção, isto é, as relações da reprodução biológica (da família), da reprodução da força de trabalho (a classe operária) e a reprodução das relações de produção, ou seja, a reprodução das relações de produção que constituem a sociedade capitalista.

Para Lefebvre (1986), a produção do espaço e a sua reprodução implicam em uma triplicidade: as práticas espaciais – o espaço percebido, as representações do espaço – espaço concebido e os espaços de representação – espaço vivido. Esses três momentos “construtores” do espaço entrelaçam-se continuamente, propiciando um confronto permanente, uma arena de lutas do seu uso. Enquanto valor de uso o espaço é apropriado pelo cotidiano, pelo imaginário, pelo corpo, pela obra que cada vez mais se coisifica pela expansão do racional, de representações espaciais da sua mercantilização. A contradição está no seio dessas relações, pois configuram práticas de atores sociais em permanente conflito, relações permanentes de dominação e resistência. Entretanto, o espaço contém múltiplas formas de produção e de reprodução organicamente contraditórias, apresentando-se relativamente coesas, no possível, através das representações. Para Lefebvre, as representações são produto de um determinado processo social, de uma história, de correlação de forças de uma estrutura constituída por classes ou grupos que se “representam”, se projetam não só a si, como a toda sociedade. É um espelho, reflexo, portanto? Não, são mediações que alinhavam a vida, o cotidiano, o poder, que são representados por coisas, sentimentos, idéias que fazem com que os indivíduos pensem ser verdadeiro, “real”, tudo aquilo que pensam e vivem.

Representar a sociedade é constituir as condições para que seja possível a convivência dos conflitos e para isso é preciso que eles sejam banalizados, cotidianizados, como se, necessariamente, fizessem parte da vida. As representações têm o papel de mediar tanto os conflitos, “naturalizando-os”, como agudizá-los, aliás, os conflitos são representações. Para Lefebvre (1981:60), “os dominados (sexo, idade, grupo, classe, país) não tem mais remédio do que aceitar as imagens impostas pelos dominantes e reproduzi-las interiorizando-as, não sem desviá-las segundo a força do protesto e endereçá-las contra quem as produzem”.

É momento de resgatarmos as categorias norteadoras de nossa reflexão: o trabalho a domicílio e o trabalho doméstico. Expusemos um sintético debate existente sobre a conceitualização de gênero e seus supostos limites. As restritas interpretações sobre a categoria espaço também constituem amarras para um posicionamento menos tendencioso, entretanto, como nossa pretensão é abrir o debate, fazemos algumas reflexões.

O trabalho a domicílio integra o denominado espaço da produção e o cotidiano da família, o espaço da reprodução, sobrepondo-os, intercalando múltiplas práticas, evidenciando ser o espaço, um híbrido (Santos, 1996, p. 72). No entanto, “a casa”, o “lar” é qualquer espaço?

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Para Yi-Fu Tuan, a partir da interpretação de Mello (2001), o lar, o lugar, são conceitos fundamentais em sua obra. Partindo do mundo vivido fenomenológico topofílico, ”o lar é um centro pleno de valores e aspectos familiares indissociáveis, assim como de evocações que permitem a pessoa “sentir-se em casa”. Mas o que é o lar, pergunta Mello? “É a velha casa, o bairro, a cidade ou a pátria,...uma infinita e complexa rede de sentimentos e entendimentos a propósito dos laços que unem os homens a “seus” nichos de proteção e convivência”, responde Tuan (p. 91). Pode ser?

Massey (2000), por sua vez, analisa as múltiplas dimensões que podem representar, hoje, os lugares, diante do fenômeno da compressão espaço-tempo, fruto da expansão de vetores tecnológicos que ao aproximar os lugares, transformando o sentido do “lugar”. Se a aceleração da reprodução do capital coloca os lugares, ao mesmo tempo, em múltiplas escalas,, o (des)(re)constrói permanentemente, isto é, suas práticas sociais. discorda das análises que estabelecem, apenas ao nível econômico os limites que o capital impõe às prática do lugar, pois obscurece outras dimensões configuradas por outros agentes sócias, como o cotidiano dos indivíduos, particularmente das mulheres, que sofrem, com mais freqüência, as restrições promovidas, em última instância, pelo avassalador processo metabólico do capital.

Massey também observa que a fluidez da informação, do “movimento”, ao contrário da interpretação de grande parte dos estudos desenvolvidos, promove uma diferenciação espacial, o que denomina “geometria do poder” (p.179), a partir do posicionamento dos diferentes grupos sociais diante desses fluxos e interconexões, propiciando, para alguns, um aprisionamento espacial (p.181).

Essas duas interpretações sobre o lugar: como o espaço da vida - vivido, concebido, mítico, sagrado, transitório ou eterno (Mello, 2001, p. 94) ou como uma espaço hierarquizado, múltiplo e , ao mesmo tempo, singular pois a especificidade do lugar “deriva do fato de que cada lugar é o centro de uma mistura distinta das relações sociais mais amplas com os locais” (Massey, 2000, p. 185), nos indicam possibilidades, ou não, de compreender a persistência do tratamento profundamente perverso dado a grande maioria das mulheres que em jornadas duplas e às vezes triplas, dedicam grande parte de seus dias para garantirem as condições possíveis de sua reprodução social.

Qual o sentido desses últimos parágrafos? Contribuir com categorias muito caras à Geografia, espaço e lugar, para uma análise que a aproxime do “real”, a divisão sexual do trabalho no espaço privado da reprodução e da produção, objeto sexuado construtor do espaço da vida e do trabalho. É o espaço do trabalho a domicílio um espaço da produção? Será o espaço da reprodução, um lugar? O lar, a casa, ao se constituir fronteira do cotidiano e da produção de mercadorias, é lugar e espaço ao mesmo tempo, dependendo do uso das práticas sociais? Por outro lado, o trabalho doméstico ao se constituir espaço da reprodução da família, é, também, ao mesmo tempo, espaço da produção já que é o lugar que garante a formação da força de trabalho para o trabalho? A “casa” articula múltiplas escalas, múltiplas racionalidades, que ora a aproxima das relações de troca, ora a distancia pelo uso?

São algumas questões que refletem nossas angústias mas é o desafio que estamos dispostos a enfrentar.

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REFERÊNCIAS

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