2011.2
2011.2
UFPB/ UFPB/ Departamento de Geociências/ Departamento de Geociências/ Curso de Geografia Curso de GeografiaPROFESSORA: Araci Farias Silva
PROFESSORA: Araci Farias Silva
[
[PLANEJAMENTO URBANO
PLANEJAMENTO URBANO
E REGIONAL
E REGIONAL]
]
O material está dividido em cinco unidades. A primeira Unidade levanta o histórico do
O material está dividido em cinco unidades. A primeira Unidade levanta o histórico do
urbanismo, com uma breve introdução, seguido do cenário do Urbanismo no período
urbanismo, com uma breve introdução, seguido do cenário do Urbanismo no período
Industrial e suas problemáticas. A segunda Unidade se pauta no Urbanismo brasileiro, onde
Industrial e suas problemáticas. A segunda Unidade se pauta no Urbanismo brasileiro, onde
suas cidades e tendências são os eixos norteadores. Mostrando o seu passado e seu
suas cidades e tendências são os eixos norteadores. Mostrando o seu passado e seu
presente. Na terceira Unidade, abordagem feita da cidade é
presente. Na terceira Unidade, abordagem feita da cidade é na perspectiva da sociologia, porna perspectiva da sociologia, por
meio do conceito de vizinhança. Já na quarta Unidade a abordagem se dá por meio do
meio do conceito de vizinhança. Já na quarta Unidade a abordagem se dá por meio do
Planejamento Urbano, seus objetivos, seus Instrumentos de Planejamento e a área de
Planejamento Urbano, seus objetivos, seus Instrumentos de Planejamento e a área de
atuação do Planejamento Urbano. No quinto bloco e último se trabalha a Unidade de
atuação do Planejamento Urbano. No quinto bloco e último se trabalha a Unidade de
vizinhança, como uma nova forma de ordenar o espaço, uma unidade secundária, como se
vizinhança, como uma nova forma de ordenar o espaço, uma unidade secundária, como se
Originou, se Introduziu e se Desenvolveu no Brasil.
SUMÁRIO SUMÁRIO 1. HISTÓRIA DO URBANISMO... 1. HISTÓRIA DO URBANISMO... 33 1.1 INTRODUÇÃO... 1.1 INTRODUÇÃO... 33 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL... 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL... 44
1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX
1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX ... 44 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno... 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno... 44 1.2.3 A Corrente Progressista ... 1.2.3 A Corrente Progressista ... 55 1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. ... 1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. ... 66 1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade ... 1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade ... 77 1.3
1.3 UM UM PROBLEMA PROBLEMA SEM SEM SOLUÇÃO SOLUÇÃO : : O O GIGANTISMO GIGANTISMO URBANO... URBANO... 88 1.4
1.4 CONCLUSÃO... CONCLUSÃO... 1010 2. O URBANISMO NO BRASIL
2. O URBANISMO NO BRASIL – –CIDADES E TENDÊNCIAS...CIDADES E TENDÊNCIAS... 1010 2.1 O passado das cidades brasileiras ... 2.1 O passado das cidades brasileiras ... 1111 2.2 O presente das cidades brasileiras ... 2.2 O presente das cidades brasileiras ... 1313 2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro... 2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro... 1515 3. A
3. A VIZINHANÇA: VIZINHANÇA: A A SOCIOLOGIA SOCIOLOGIA DESENHA DESENHA A A CIDADE... CIDADE... 1616 3.1 Difusão da idéia... 3.1 Difusão da idéia... 1717 3.2 Críticas ... 3.2 Críticas ... 1818 4.
4. PLANEJAMENTO PLANEJAMENTO URBANO URBANO ... ... 1919 4.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO ...
4.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO ... 2323 4.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO... 4.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO... 2323
4.2.1
4.2.1 Plano Plano Diretor...Diretor... ... 2424 4.2.1.1
4.2.1.1 Objetivos Objetivos ... ... 2424 4.2.1.2
4.2.1.2 Área Área de de Atuação... Atuação... 2525 4.2.2
4.2.2 Lei Lei de de Zoneamento Zoneamento e e Uso Uso do do Solo... Solo... 2626 4.2.2.1
4.2.2.1 Definição Definição ... ... 2626 4.2.2.2
4.2.2.2 Objetivos Objetivos ... ... 2626 4.2.2.3
4.2.2.3 Área Área de de Atuação... Atuação... 2626 4.2.3
4.2.3 Lei Lei de de Parcelamento Parcelamento do do Solo Solo ... ... 2727 4.3
4.3 ÁREA ÁREA DE DE ATUAÇÃO ATUAÇÃO DO DO PLANEJAMENTO PLANEJAMENTO URBANO URBANO ... ... 2727 4.4
4.4 CONCLUSÃO... CONCLUSÃO... 2828 5. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE SUA ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E 5. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE SUA ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO NO NO BRASIL... BRASIL... 2828 5.1 INTRODUÇÃO ... 5.1 INTRODUÇÃO ... 2828 5.2 A IDÉIA DE
5.2 A IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS...UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS... 3030 5.3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE
5.3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA ...VIZINHANÇA ... 3434
5.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE
5.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL...UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL... 3737
5.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE
5.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES...BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES... 4040
5.6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA... 5.6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA... 4040
SUMÁRIO SUMÁRIO 1. HISTÓRIA DO URBANISMO... 1. HISTÓRIA DO URBANISMO... 33 1.1 INTRODUÇÃO... 1.1 INTRODUÇÃO... 33 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL... 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL... 44
1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX
1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XX ... 44 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno... 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno... 44 1.2.3 A Corrente Progressista ... 1.2.3 A Corrente Progressista ... 55 1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. ... 1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade. ... 66 1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade ... 1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade ... 77 1.3
1.3 UM UM PROBLEMA PROBLEMA SEM SEM SOLUÇÃO SOLUÇÃO : : O O GIGANTISMO GIGANTISMO URBANO... URBANO... 88 1.4
1.4 CONCLUSÃO... CONCLUSÃO... 1010 2. O URBANISMO NO BRASIL
2. O URBANISMO NO BRASIL – –CIDADES E TENDÊNCIAS...CIDADES E TENDÊNCIAS... 1010 2.1 O passado das cidades brasileiras ... 2.1 O passado das cidades brasileiras ... 1111 2.2 O presente das cidades brasileiras ... 2.2 O presente das cidades brasileiras ... 1313 2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro... 2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro... 1515 3. A
3. A VIZINHANÇA: VIZINHANÇA: A A SOCIOLOGIA SOCIOLOGIA DESENHA DESENHA A A CIDADE... CIDADE... 1616 3.1 Difusão da idéia... 3.1 Difusão da idéia... 1717 3.2 Críticas ... 3.2 Críticas ... 1818 4.
4. PLANEJAMENTO PLANEJAMENTO URBANO URBANO ... ... 1919 4.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO ...
4.1 OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO URBANO ... 2323 4.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO... 4.2 INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO... 2323
4.2.1
4.2.1 Plano Plano Diretor...Diretor... ... 2424 4.2.1.1
4.2.1.1 Objetivos Objetivos ... ... 2424 4.2.1.2
4.2.1.2 Área Área de de Atuação... Atuação... 2525 4.2.2
4.2.2 Lei Lei de de Zoneamento Zoneamento e e Uso Uso do do Solo... Solo... 2626 4.2.2.1
4.2.2.1 Definição Definição ... ... 2626 4.2.2.2
4.2.2.2 Objetivos Objetivos ... ... 2626 4.2.2.3
4.2.2.3 Área Área de de Atuação... Atuação... 2626 4.2.3
4.2.3 Lei Lei de de Parcelamento Parcelamento do do Solo Solo ... ... 2727 4.3
4.3 ÁREA ÁREA DE DE ATUAÇÃO ATUAÇÃO DO DO PLANEJAMENTO PLANEJAMENTO URBANO URBANO ... ... 2727 4.4
4.4 CONCLUSÃO... CONCLUSÃO... 2828 5. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE SUA ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E 5. UNIDADE DE VIZINHANÇA: NOTAS SOBRE SUA ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO NO NO BRASIL... BRASIL... 2828 5.1 INTRODUÇÃO ... 5.1 INTRODUÇÃO ... 2828 5.2 A IDÉIA DE
5.2 A IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS...UNIDADE DE VIZINHANÇA E SUAS ORIGENS... 3030 5.3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE
5.3 APLICAÇÕES DA IDÉIA DE UNIDADE DE VIZINHANÇA ...VIZINHANÇA ... 3434
5.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE
5.4 A INTRODUÇÃO DAS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL...UNIDADE DE VIZINHANÇA NO BRASIL... 3737
5.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE
5.5 A CONCEPÇÃO DE UV DE BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES...BRASÍLIA: PRECEDENTES E AFINIDADES... 4040
5.6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA... 5.6 LÚCIO COSTA E AS IDÉIAS DE UNIDADE DE VIZINHANÇA... 4040
1.
1. HISTÓRIA DO URBANISMOHISTÓRIA DO URBANISMO
HAROUEL, Jean-Louis.
HAROUEL, Jean-Louis. SÍNTESE DA HISTÓRIA DO URBANISMO.SÍNTESE DA HISTÓRIA DO URBANISMO. Campinas - SP : Papirus, 1990
Campinas - SP : Papirus, 1990
1.1 INTRODUÇÃO 1.1 INTRODUÇÃO
O termo “urbanismo” é um neologismo inventado há mais de um século. Este O termo “urbanismo” é um neologismo inventado há mais de um século. Este significado designa uma realidade específica: o surgimento no final do séc. XIX de uma significado designa uma realidade específica: o surgimento no final do séc. XIX de uma nova disciplina que se apresenta
nova disciplina que se apresenta como uma ciência e uma teoria da cidade “como uma ciência e uma teoria da cidade “ distinguindo-se das artes urbanas anteriores pelo seu caráter reflexivo e crítico e pela distinguindo-se das artes urbanas anteriores pelo seu caráter reflexivo e crítico e pela sua pretensão científica ”.
sua pretensão científica ”.
O termo “urbanismo“ passou a englobar uma grande parte do q
O termo “urbanismo“ passou a englobar uma grande parte do q ue diz respeito a cidade,ue diz respeito a cidade, obras públicas, morfologia urbana, planos urbanos, práticas sociais e pensamento obras públicas, morfologia urbana, planos urbanos, práticas sociais e pensamento urbano, legislação e direito relativo a cidade.
urbano, legislação e direito relativo a cidade.
O pensamento urbanístico moderno é uma criação específica do espírito ocidental. É O pensamento urbanístico moderno é uma criação específica do espírito ocidental. É portanto essencial reconstituir a evolução do urbanismo ocidental, no final do qual portanto essencial reconstituir a evolução do urbanismo ocidental, no final do qual nascerá o urbanismo moderno.
nascerá o urbanismo moderno.
Há duas fontes intelectuais do urbanismo moderno, ambas da Renascença. A primeira é Há duas fontes intelectuais do urbanismo moderno, ambas da Renascença. A primeira é aa De re Aedificatoria De re Aedificatoria, de Alberti, que procura conceituar de maneira definitiva as regras, de Alberti, que procura conceituar de maneira definitiva as regras racionais que propiciam uma criação harmoniosa, tanto de uma casa quanto de uma racionais que propiciam uma criação harmoniosa, tanto de uma casa quanto de uma cidade. A segunda é
cidade. A segunda é A Utopia A Utopia, de More, primeiro modelo espacial e ideológico, de More, primeiro modelo espacial e ideológico completo de uma realidade futura.
completo de uma realidade futura.
Antes da afirmação de um discurso teórico autônomo que pretende fundar sob seu único Antes da afirmação de um discurso teórico autônomo que pretende fundar sob seu único domínio a realidade urbana, desenvolve-se no Ocidente uma longa fase preparatória. É domínio a realidade urbana, desenvolve-se no Ocidente uma longa fase preparatória. É só de maneira progressiva que uma parte da humanidade se distancia de uma visão do só de maneira progressiva que uma parte da humanidade se distancia de uma visão do espaço urbano condicionada pela religião, pelo sagrado, por práticas e representações espaço urbano condicionada pela religião, pelo sagrado, por práticas e representações sociais que por sua vez está em conformidade com uma determinada concepção de sociais que por sua vez está em conformidade com uma determinada concepção de mundo.
mundo.
A antigüidade greco-romana contribui para amenizar os laços de dependência que ligam A antigüidade greco-romana contribui para amenizar os laços de dependência que ligam a religião à organização do espaço constituído. Na Idade Média, embora toda a a religião à organização do espaço constituído. Na Idade Média, embora toda a sociedade esteja imersa num ambiente profundamente religioso, são as autoridades sociedade esteja imersa num ambiente profundamente religioso, são as autoridades leigas que procuram estabelecer um domínio no espaço urbano. A partir da Renascença, leigas que procuram estabelecer um domínio no espaço urbano. A partir da Renascença, os fundamentos urbanísticos autônomos se encontram colocados, mas a ruptura com o os fundamentos urbanísticos autônomos se encontram colocados, mas a ruptura com o passado não está de fato consumada. Se a razão se impõe cada vez mais, a utopia está passado não está de fato consumada. Se a razão se impõe cada vez mais, a utopia está presente ainda nas portas das cidades.
presente ainda nas portas das cidades.
É a Revolução Industrial que engendra o urbanismo moderno, provocando uma rejeição É a Revolução Industrial que engendra o urbanismo moderno, provocando uma rejeição efetiva das concepções tradicionais da ci
1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL 1.2 O URBANISMO DA ERA INDUSTRIAL 1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e 1.2.1 A Evolução Urbana nos Séculos XIX e XXXX
Se a população mundial aumenta prodigiosamente nos últimos dois séculos, o Se a população mundial aumenta prodigiosamente nos últimos dois séculos, o crescimento da população vivendo nas cidades é mais rápido ainda. Enquanto a crescimento da população vivendo nas cidades é mais rápido ainda. Enquanto a população mundial quadruplica após 1850, a população urbana se multiplica por dez. população mundial quadruplica após 1850, a população urbana se multiplica por dez. Este grande inchaço é conseqüência dos progressos técnicos e científicos realizados a Este grande inchaço é conseqüência dos progressos técnicos e científicos realizados a partir da metade do séc. XVIII.
partir da metade do séc. XVIII.
É a Europa ocidental que desencadeia o processo, logo seguida e posteriormente É a Europa ocidental que desencadeia o processo, logo seguida e posteriormente ultrapassada pelos Estados Unidos
ultrapassada pelos Estados Unidos
Nos países onde ocorre o progresso técnico, o aumento da produtividade do trabalho Nos países onde ocorre o progresso técnico, o aumento da produtividade do trabalho acarreta um aumento da produção global, o que possibilita o crescimento demográfico e acarreta um aumento da produção global, o que possibilita o crescimento demográfico e a elevação do nível de vida.
a elevação do nível de vida.
Paralelamente, a estrutura da população ativa se transforma. Enquanto no início do séc. Paralelamente, a estrutura da população ativa se transforma. Enquanto no início do séc. XIX todas as nações ocupam 80% de sua população no setor primário (agricultura), 8% XIX todas as nações ocupam 80% de sua população no setor primário (agricultura), 8% no secundário (indústria) e 12% no terciário (serviços), assiste-se nos países no secundário (indústria) e 12% no terciário (serviços), assiste-se nos países industrializados a uma verdadeira fundição do primário em benefício do secundário e do industrializados a uma verdadeira fundição do primário em benefício do secundário e do terciário. Posteriormente, em função de um novo progresso da produtividade na terciário. Posteriormente, em função de um novo progresso da produtividade na indústria, o secundário diminui por sua vez em benefício do terciário, que é o grande indústria, o secundário diminui por sua vez em benefício do terciário, que é o grande beneficiário do desenvolvimento econômico.
beneficiário do desenvolvimento econômico.
Assim, nos países desenvolvidos, um número restrito de agricultores (5 a 10%) é Assim, nos países desenvolvidos, um número restrito de agricultores (5 a 10%) é suficiente para alimentar o conjunto de habitantes. Ora, eles são 80% dois séculos antes. suficiente para alimentar o conjunto de habitantes. Ora, eles são 80% dois séculos antes. Isso significa que todos os excedentes, que exploram as terras menos rentáveis, são Isso significa que todos os excedentes, que exploram as terras menos rentáveis, são obrigados a partir. O êxodo rural transforma-os, mesmo a contragosto, em citadinos. O obrigados a partir. O êxodo rural transforma-os, mesmo a contragosto, em citadinos. O despovoamento do campo acarreta o aumento da população nas cidades.
despovoamento do campo acarreta o aumento da população nas cidades. 1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno
1.2.2 A Gênese do Urbanismo Moderno
A Revolução Industrial, que nasce na Inglaterra, lança toda uma população operária nas A Revolução Industrial, que nasce na Inglaterra, lança toda uma população operária nas cidades, que não estão preparadas para acolhê-las. Resulta uma proliferação de cortiços. cidades, que não estão preparadas para acolhê-las. Resulta uma proliferação de cortiços. As famílias operárias amontoam-se em locais estreitos e sem conforto em Lille, As famílias operárias amontoam-se em locais estreitos e sem conforto em Lille, Liverpool e Manchester. Aos olhos dos contemporâneos, é toda a cidade que está Liverpool e Manchester. Aos olhos dos contemporâneos, é toda a cidade que está doente. Balsac classifica Paris de “cancro“. Médicos,
doente. Balsac classifica Paris de “cancro“. Médicos, filantropos, sociólogos,filantropos, sociólogos, economistas, romancistas, diante das epidemias e da delinqüência, vêem aí os frutos economistas, romancistas, diante das epidemias e da delinqüência, vêem aí os frutos envenenados dos cortiços, as infecções de uma cidade má, acusada de corromper a raça envenenados dos cortiços, as infecções de uma cidade má, acusada de corromper a raça humana, de destilar o vício e o crime.
humana, de destilar o vício e o crime.
Uma série de pensadores repudia a noção tradicional de cidade e elabora modelos que Uma série de pensadores repudia a noção tradicional de cidade e elabora modelos que permitem reencontrar uma ordem perturbada pelo maquinismo. É desta pesquisa que permitem reencontrar uma ordem perturbada pelo maquinismo. É desta pesquisa que nasce a principal corrente do urbanismo moderno, a corrente progressista.
1.2.3 A Corrente Progressista
Baseia-se numa concepção abstrata do homem, indivíduo mutável no tempo e no espaço. A ciência deve, portanto permitir a definição exata de um modelo urbano perfeito que convenha a todo grupo humano.
Desde 1901 o arquiteto Tony Garnier elabora um plano da cidade industrial, onde se encontra quase tudo o que está na base do urbanismo atual. Os “arquitetos racionalistas“ constituem, a partir de 1928 um movimento internacional (CIAM - Congresso Internacional de Arquitetura Moderna). Em 1933 os arquitetos do CIAM elaboram um manifesto doutrinal : “A Carta de Atenas“. Verdadeiro catecismo do urbanismo progressista, este documento teve muitas idéias de Le Corbousier.
O urbanismo progressista é obcecado pela modernidade. A cidade do séc. XX devia ser de seu tempo, afirmar a contemporaneidade de tudo aquilo que se traduz como o avanço da técnica: a indústria, o automóvel, o avião.
Há uma preocupação desvairada pela higiene, que se concretiza nas exigências de sol e verde.
A Carta de Atenas exige construções altas, afastadas umas das outras, isoladas no verde e na luz. Um outro teorema do urbanismo progressista é a abolição da rua, denunciada como anacrônica, barulhenta, perigosa, contrária aos imperativos de luminosidade e higiene. A Carta de Atenas exige que os imóveis sejam implantados longe dos fluxos de circulação.
O modelo progressista fundamenta-se na análise das funções urbanas acompanhadas de zoneamento: habitação, trabalho, lazer. A circulação é concebida como uma função distinta, independente em relação às edificações, com diferenciação de vias segundo velocidades.
O esquema urbano é concebido para o homem-padrão. Em qualquer lugar do mundo. Tanto para as grandes como para as pequenas cidades. Qualquer que seja o regime político ou o nível de desenvolvimento econômico. Deste volume de realizações surgem Chandigarh, a partir dos planos de Le Corbousier e Brasília, com planos de Niemeyer. Encomendados pelos presidentes Neru e Juscelino, respectivamente, constituem grandiosas manifestações do urbanismo e da estética progressistas.
Edifícios públicos gigantescos que dominam imensos espaços vazios constituem uma escultura urbana de inspiração cubista, à base de volumes geométricos simples. Em Brasília os bairros habitacionais não diferem muito dos conjuntos habitacionais de Singapura, Paris e Moscou.
1.2.4 As Dificuldades: O Urbanismo Contra a Cidade.
O modelo urbanístico dominante é hoje amplamente contestado. Paralelamente, a cidade saída do passado, contra a qual foram dirigidas as ironias e as ofensas do urbanismo progressista, é objeto de uma reabilitação que felizmente não é sempre póstuma.
Um urbanismo desumano. Esta é a principal crítica endereçada atualmente ao modelo dominante. Ë forçoso constatar essa recusa pelo usuário das cidades modernas e do sistema de valores que lhes é subjacente. Cada vez mais nossa sociedade recusa as caixas de habitação e o concreto que invade e que agride a cidade antiga e desnatura os espaços rurais.
Contudo, isto de certa forma é inevitável, devido a evolução econômica e demográfica. No pós guerra, na Europa, é necessário construir abundantemente em função das destruições, do crescimento demográfico e do êxodo rural que acompanhava o crescimento econômico e o progresso social. Volta-se para uma produção maciça de habitações sociais. Os grandes conjuntos habitacionais proliferam-se. Esse urbanismo, embora sob certo ponto de vista insatisfatório, ao menos assegura à grande massa da população o benefício das principais conquistas da técnica moderna tanto no sanitário quanto no econômico. Ë um grande resultado. Mas poder-se-ia ter adotado fórmulas de habitat mais humanas.
O emprego do concreto e de outros materiais modernos é inevitável. Jamais se construirá como no passado, em nome do qual nos regozijamos ou não. Os materiais e as técnicas modernas permitem um grande aumento da produtividade: a construção necessita de bem menos horas de trabalho humano que outrora. No mais, o metal e o concreto armado permitem alturas e cargas impossíveis para a pedra e a madeira. Esse aumento da produtividade é algo excelente, pois o trabalho humano é caro nas sociedades industriais, mesmo quando é pouco produtivo.
Se a produtividade na construção não tivesse aumentado nos últimos cem anos, não se pagaria aos operários como se paga atualmente. E, como o número de horas de trabalho necessárias para um dado edifício teria permanecido bastante elevado, a construção seria bem mais cara: viveríamos cinco em cada cômodo. Para subsistir nas sociedades industriais, a atividade da construção exige uma produtividade o mais alta possível. Esse imperativo proíbe praticamente em nossos dias o emprego de material tradicional, desuniforme, lento para separar, trabalhar e colocar no devido lugar.
A civilização dos cortadores de pedra e dos montadores de belos telhados está praticamente morta. Nós somos uma triste civilização de empilhadores de tijolos furados, de concreto de estruturas metálicas. Tal é o prêmio técnico, da nossa vida materialmente fácil e da nossa habitação decente.
Tudo isso está unido de maneira indissociável, e ninguém pode fazer nada, não mais os urbanistas e os arquitetos que o comum dos mortais. Não é o emprego do concreto que
se deve censurar no urbanista progressista, mas o fato de ter erigido como dogma a superioridade estética intrínseca do concreto.
Sobretudo a grande culpabilidade do urbanismo progressista é de apresentar a cidade futurista, com seus imóveis coletivos gigantes, formigueiros extremamente confortáveis com inúmeras células habitacionais, como o lugar da felicidade perdida. De modo que quando chega a hora de construir bastante e depressa, arquitetos e urbanistas, impregnados da ideologia progressista, julgam normal e desejável a realização de grandes conjuntos. O grande pecado do urbanismo progressista é ter imposto o ideal não confesso de um universo kafkiano, à base de espaços desestruturados e de gigantescas “máquinas de habitar”, para homens-máquina.
1.2.5 De Volta a Uma Concepção Mais Tradicional da Cidade
A cidade volta a ser moda, a cidade verdadeira, com ruas de pedestres, lojas, oficinas. Desde 1961, a socióloga americana Jane Jacobs, analisando os prejuízos do urbanismo e da renovação urbana nos Estados Unidos, mostra que o abandono da rua acarreta o desaparecimento das principais vantagens da vida urbana: segurança, contato, formação das crianças, diversidade das relações. Ela acrescenta que a estrita aplicação do princípio do zoneamento esvazia durante o dia os bairros habitacionais: reina então um sentimento de tédio que reforça a padronização da arquitetura.
Quanto aos espaços verdes e terrenos circunvizinhos destinados a jogos nos conjuntos habitacionais, eles favorecem a delinqüência de grupos adolescentes: lá eles encontram um espaço mais favorável que a rua para seus delitos, pois eliminam a vigilância dos adultos. J. Jacobs observa que nos bairros sem atração para o público, os parques não fazem mais que acentuar “o tédio, a insegura nça e o vazio“. Para ela, o essencial é refazer as ruas, que ela deseja vivas, animadas, comerciais, locais de sociabilidade e de segurança. Suas idéias inspiram parcialmente a reordenação do centro de grandes cidades como Boston e Filadélfia.
Sociólogos e psiquiatras constatam que um bairro considerado deteriorado e insalubre pode revelasse muito mais sadio socialmente do que um bairro renovado pelos urbanistas; é o que testemunham as estatísticas relativas aos distúrbios mentais, ao alcoolismo e à delinqüência.
A abolição da rua e sua substituição por grandes espaços vazios se traduzem por uma certa desintegração mental dos habitantes, enquanto que uma forte estruturação do tecido urbano é, ao contrário, acompanhada de uma forte estruturação psíquica dos habitantes.
O modelo urbano progressista, com seus grandes conjuntos habitacionais e seus espaços livres pode, portanto, revelar-se favorável ao desenvolvimento da imoralidade. Se os bairros recentes respondem aos imperativos da higiene e da salubridade física, sua arquitetura e seu espaço desestruturado podem ser fonte de angústia, escondendo uma certa insalubridade psíquica.
A idéia de refazer as ruas ganha terreno a cada dia. “A cidade readquiriu coragem e passou a lutar. Fala-se novamente das ruas. Fala-se da vida citadina“. Mas isso supõe tornar bastante flexível as regras do zoneamento, que dissociam a função da habitação das demais funções urbanas. Senão, realizam-se somente ruas mortas de cidades-dormitórios. E antes mesmo de dar vida às ruas a tarefa mais urgente consiste em interromper a destruição das ruas existentes. Elas constituem um capital urbano que nos coloca na incapacidade de substituir por qualquer coisa da mesma qualidade.
1.3 UM PROBLEMA SEM SOLUÇÃO : O GIGANTISMO URBANO
Poucos temas tem tanta repercussão em nossa época como o dos aspectos negativos da megalópoles; caráter inviável da grande cidade, problemas de circulação e de abastecimento, esgotamento nervoso dos habitantes, poluição, etc.
De fato, as grandes aglomerações urbanas gigantes do século XX não possuem mais nada daquilo que no passado chamava-se cidade. Enquanto cidades como Nova Iorque, Londres ou Paris expandem-se na escala de uma região, outros agregados de zonas urbanas justapostas formam enormes conurbações, como a do Ruhr na Alemanha, ou da costa leste dos Estados Unidos, invadindo imensos territórios.
Todavia, no início do século, grandes cidades como Londres e Paris ocupam ainda um espaço relativamente limitado. Os seis milhões de habitantes da aglomeração londrina ocupam uma área num raio de 20 km ao redor do centro: os quatro milhões de habitantes de Paris e de seus subúrbios concentram-se num círculo de 20 km de diâmetro. Mas no período entre as duas guerras mundiais as duas capitais conhecem uma explosão espacial sem precedentes: em Londres assiste-se à triplicação do espaço urbanizado.
Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, as autoridades britânicas tomam plena consciência dos inconvenientes que representa a concentração num espaço limitado de uma grande parte da população e da infra-estrutura industrial do país. Segundo as conclusões do relatório Barlow (1940) é adotada, logo após a 1ª guerra, uma política de descentralização industrial que se apóia na criação de cidades novas, tanto na região de Londres quanto em outras partes da Inglaterra. O “Plano da Grande Londres“, elaborado por Sir Patrick Abercrombie, estabelece um cinturão verde ao redor da aglomeração existente e prevê a criação de oito cidades novas a aproximadamente 40 km da capital. Nas últimas décadas do séc. XX há um prenúncio de crescimento desenfreado das metrópoles. No entanto, se as metrópoles da Europa Ocidental e da América do Norte apresentam ora inconvenientes inerentes à sua enormidade, elas são, por outro lado, o local de um alto nível de vida. Mas não ocorre o mesmo nas grandes cidades da maioria de outros países.
Na Moscou comunista, um quarto da população vivia em apartamentos exíguos, muitos deles possuindo apenas um banheiro e uma cozinha para várias famílias. Ë nos países do Terceiro Mundo que o gigantismo urbano se revela mais assustador. Sua característica
particularmente desumana resulta do imenso crescimento demográfico do país onde a ciência e as técnicas médicas do Ocidente foram introduzidas artificialmente, rompendo o equilíbrio existente entre fecundidade e mortalidade “naturais”.
O aumento populacional segue uma progressão geométrica pois há o crescimento do número de nascimento e a queda da taxa de mortalidade. Contrariamente ao que se passou no Ocidente, o crescimento demográfico precede o progresso econômico, ao invés de acompanhá-lo. Foi necessário, “a posteriori“, suscitar a sobrevivência do excedente populacional.
A explosão urbana no terceiro mundo cresce assustadoramente. Caracas quintuplica sua população depois da Segunda Guerra mundial. Em São Paulo, Lima e na Cidade do México ela triplicou. Em Argel e Teerã a população triplicou e quadruplicou, respectivamente, nos últimos 20 anos do séc. XX. O Cairo, concebido para três ou quatro milhões de habitantes, conta aproximadamente com 10 milhões.
Menos ainda que as cidades européias do séc. XIX, as cidades do Terceiro Mundo não conseguem acolher as massas humanas que para elas fluem. São rodeadas de imensos subúrbios feitos de favelas. Em Lima, 1/3 da população vive em favelas. Mesmo Brasília possui suas favelas.
Em algumas destas cidades gigantes não existe nem mesmo eliminação de esgoto e coleta de lixo. Os detritos acumulam-se na periferia em verdadeiras colinas sobre as quais vive um povo miserável de mendigos e das quais retiram sua subsistência. Trata-se, portanto, no final das contas, de uma situação bastante pior que aquela das grandes cidades ocidentais do séc. XIX. E os problemas se agravam ainda mais por alguns países não poderem ou não desejarem interromper seu absurdo crescimento demográfico.
Se na Índia, no Zaire ou no Brasil deixa-se a pequena cidade para se amontoar nas favelas, é porque existe diferença de nível entre as grandes cidades e o campo, totalmente incapaz de possibilitar a sobrevivência ao enorme excedente populacional. Apesar de sua miséria dramática, a cidade gigante do terceiro mundo é o local de esperança, onde talvez se tenha a chance de obter um emprego produtivo e, portanto, um salário.
1.4 CONCLUSÃO
Até a Revolução Industrial, apesar de uma evolução da imagem urbana, permanece válida a definição da cidade dada pela Enciclopédia: “Um conjunto de edifícios dispostos em ruas e cercados por um muro comum”.
Com a chegada do progresso técnico e da civilização industrial, essa visão tradicional é superada, multiplicando-se os problemas com os quais uma cidade se depara: crescimento demográfico, condições de habitação da população operária e, sobretudo,
enriquecimento global da sociedade, que se traduz pelo fato de que cada um se beneficia com um espaço mínimo cada vez mais significativo, de objetos materiais cada vez mais numerosos e complexos e de uma quantidade crescente de prestações de serviços.
Desses novos problemas nasce o urbanismo moderno, que se pretende uma ciência, mas que é na realidade alimentado de utopias com caráter totalitário mais ou menos confesso. Em particular o urbanismo progressista, cuja influência é predominante, decorre em grande medida de modelos utópicos como os de Fourier, veiculando uma ideologia anti-urbana, que confunde a distinção tradicional entre espaço urbano e espaço rural. De modo que o urbanismo progressista resulta paradoxalmente no que mesmo Marx preconiza, em nome de uma ideologia anti-rural, a abolição da diferença entre cidade e campo e uma urbanização generalizada deste último.
Os resultados obtidos pelo urbanismo moderno são de um valor discutível, mas de uma amplitude arrasadora: isto se deve não a uma suposta qualidade enquanto ciência, mas às possibilidades geradas pelos meios técnicos que a civilização industrial coloca à disposição dos arquitetos, dos engenheiros e dos urbanistas. Graças a esses meios, o urbanismo progressista prossegue ao menos no Ocidente, a alojar decentemente os homens.
Mas ele não prova que as vias utilizadas são as únicas nem as melhores. Elas constituem em todo o caso uma negação e mesmo assassinato da cidade. Quanto ao espaço rural, ele é simplesmente abandonado no percurso natural de uma urbanização difusa, que em uma geração o descaracteriza com construções de rara mediocridade. A salvação do que resta ainda das paisagens e dos sítios constitui uma das tarefas prioritárias do urbanismo atual e futuro.
2. O URBANISMO NO BRASIL – CIDADES E TENDÊNCIAS
DIAS, Solange Irene Smolarek. Modelo de Sistema Municipal de Planejamento. Qualificação de doutorado. Florianópolis: PPGEP, 2008
No Brasil, atualmente, pressupõem-se e determina-se que a gestão pública municipal possua a participação popular. Tal determinação decorre tanto dos preceitos legais contidos na Constituição Federal brasileira, quanto da Lei Federal denominada Estatuto da Cidade. A participação popular também foi reivindicação da própria sociedade, especialmente dos segmentos mais politizados e esclarecidos, que solicitaram das administrações municipais o atendimento das necessidades básicas de seus munícipes. Por tais solicitações, necessidades e determinações, o Ministério das Cidades, órgão gestor do Governo Federal brasileiro, orienta e regulamenta a elaboração de Planos Diretores Municipais - PDMs, no princípio de participação popular tanto na sua elaboração, quanto na sua implantação. Recomenda ainda o MC que tais planos diretores se utilizem da metodologia do planejamento estratégico.
Por que planejamento estratégico? No mundo percebe-se que, atualmente, há cidades que dão certo, e outras que não dão. Verifica-se que, entre outros, um dos fatores de sucesso das que dão certo, é o envolvimento de todos os atores sociais na melhoria contínua, implantada no processo de planejamento estratégico Municipal. No entanto, antes de propor metodologia e soluções para a atual cidade brasileira, faz-se necessário conhecer e entender sua história.
2.1 O passado das cidades brasileiras
Percorramos rapidamente a história. Em 1427 e em 1445, Portugal descobre as ilhas de Açores e Cabo Verde. Em 1492 Cristóvão Colombo descobre a América e reclama-a, oficialmente, para Isabel. Após essa data, Castela deu início à exploração do continente americano. Pelas descobertas e desentendimentos entre ambas as Coroas, em 1493 é emitida uma bula papal que estabelece um meridiano que separara as terras de Portugal e de Castela. O meridiano passa a cem léguas a oeste dos Açores e de Cabo Verde, e denomina-se Inter Caetera.
Tal linha descontenta Portugal, que já tinha conhecimento da existência da América. Então, em 1494 é assinado entre Portugal e Castela, na povoação castelhana de Tordesilhas, um tratado que define a partilha do chamado Novo Mundo, entre ambas as Coroas. É o Tratado de Tordesilhas.
Após o Tratado de Tordesilhas, em 1500, o Brasil é descoberto pelos portugueses. O Brasil pouco muda em 250 anos de colonização portuguesa, e é significativa a diferença de ocupações espanholas e portuguesas na América do Sul, em 1650. As cidades brasileiras, na época, e de uma maneira geral, são portos atlânticos de escoamento da madeira e de recebimento de escravos. No interior há agrupamentos de bandeirantes, que a partir do século XVI penetraram nos sertões brasileiros em busca de riquezas minerais, sobretudo a prata, tão abundante na América Espanhola.
Esse avanço dos bandeirantes portugueses atinge o território espanhol definido pelo Tratado de Tordesilhas, e gera o Tratado de Madrid, firmado na capital espanhola entre Portugal e Espanha, em 1750. As negociações para o tratado basearam-se no chamado Mapa das Cortes, privilegiando a utilização de rios e montanhas para demarcação dos limites. O documento consagrou o princípio do direito privado romano de que quem possui de fato, deve possuir de direito, delineando os contornos aproximados do Brasil atual. Com as entradas e bandeiras, promovidas pelos bandeirantes, cidades no interior do Brasil são criadas. O Brasil, na época, ocupava-se com a exploração do ouro e das pedras preciosas.
Já no panorama internacional, estão ocorrendo mudanças: Em 1776 os Estados Unidos tornam-se independentes da Inglaterra. Em 1789, ocorre a Queda da Bastilha na França. A economia portuguesa era, na época, ligada à Inglaterra. Como a Revolução Francesa ameaça todas as monarquias européias, em 1793, o Rei de Portugal alia-se à Espanha no combate a tal Revolução. Em 1799 Napoleão Bonaparte assume o governo francês e em 1801 reinicia luta contra a Inglaterra.Para tanto, busca aliados. Convence a Espanha a
atacar Portugal. D. João VI, rei de Portugal, não tendo condições de enfrentar a Espanha, pede a paz, prometendo fechar seus portos à parceira comercial, Inglaterra. No entanto, se cumprisse a promessa, corria o risco de ver seus portos bloqueados pela poderosa armada inglesa.
Em 1806 Napoleão I fez-lhe um ultimato: ou fechava os portos à Inglaterra ou a França invadiria Portugal. A decisão de Dom João VI, para não estar em solo português quando da chegada da França, é o de transferir a corte para o Brasil. Em 1808 chega à cidade de Salvador. O Brasil era, então, um país extrativista, e suas cidades pontos de apoio ao extrativismo.
Em 1815 Napoleão Bonaparte é derrotado. Tal situação, entre outras, faz com que os artistas neoclássicos franceses percam o principal pilar que os sustentava, financeira e ideologicamente: Necessitaram então migrar para outras terras. Estando D. João VI, na época, instalado com sua corte no Rio de Janeiro, promove o desenvolvimento industrial e o ensino superior na cidade. Para tanto, necessita de artistas e intelectuais. Assim, foi composta a Missão Francesa Brasileira. A missão, entre outros objetivos, idealizaria e organizaria a criação de uma Academia de Belas Artes: neoclássica, como era o estilo da época.
Por volta de 1850 em Paris, e agora com Napoleão III, o modelo urbanístico da cidade foi revisto: a cidade necessitava de saneamento físico e político. Em 1853 assume a sua prefeitura Haussmann,que re-define a cidade com amplas avenidas “que simplifiquem a defesa, nos dias de revolta”.
O Rio de Janeiro, e depois outras cidades brasileiras, pela influencia estética criada com a missão francesa, e apesar de não terem tido os problemas políticos de Paris, copiam a nova forma da cidade, como modelo. Tal modelo perdura, sem grandes alterações, até a construção de Brasília, em 1960. São cerca de 100 anos em que o imaginário urbano burguês brasileiro sonhou com grandes avenidas e divisão de classes sociais, no modelo parisiense de Haussmann.
Brasília foi criada com o objetivo estratégico de retirar a capital brasileira do litoral. Construída de 1956 a 1960, é a representação viva no Brasil da Carta de Atenas, nos modelos de separar as áreas de habitação, trabalho, ócio, e interligá-las por vias de circulação.
Em 1964 o Brasil inicia a ditadura militar e o modelo do urbanismo modernista, progressista, materialmente construído em Brasília, é amplamente difundido pelo Governo Federal brasileiro. Essa difusão é decorrente (apesar da ideologia política distinta entre a ditadura e a democracia que a antecedia), pela doutrinação e fascinação dos urbanistas brasileiros para com o modelo urbano modernista.
A partir dos anos 1970, no Brasil, e dentro da metodologia de trabalho militarista, o cenário urbano foi enfrentado com instrumentos legislativos e normativos, com a missão de promover o desenvolvimento integrado e o equilíbrio entre as funções urbanas. O Plano Diretor – PD passou a ser o principal instrumento de controle urbano.
A concepção de então se baseava num modelo espacial de cidade ideal (a ser alcançado através de índices de taxas de ocupação, coeficientes de aproveitamento, tamanho mínimo de lotes), denominado de Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado – PDDI. Nessa concepção, o PDDI era realizado de forma centralizada e tecnocrática.
Zoneamentos, Sistemas Viários, Códigos de Obras e de Posturas proliferaram em leis urbanísticas de cidades brasileiras. Muitos desses documentos eram puras cópias dos de outras cidades. As cidades, para obterem recursos financeiros do Governo Federal, elaboram Planos Diretores que ficam, na maioria das vezes, somente nas prateleiras dos prefeitos.
A partir dos anos 1980, acompanhando a tendência mundial, é evidente o fracasso do modelo modernista urbano brasileiro. A corrente do pós-modernismo critica o modelo anterior. Nessa linha de pensamento, e a partir daí, cada cidade deveria ter uma “Imagem”, uma identidade urbana sígnica, iconoclasta, que a diferenciasse das demais. A questão é que o pós-modernismo urbano aos criar ícones locais, o faz no intuito mercantilista, transformando a cidade em capital-dinheiro, num contexto em que dominava a economia de mercado e o capitalismo financeiro.
Nesse processo houve cidades que deram certo, e outras não. No entanto, e apesar dos planos, a separação do planejamento urbano da esfera da gestão provocou uma espécie de discurso desconexo: de um lado os planos reiteravam os padrões, modelos e diretrizes de uma cidade racionalmente produzida; de outro, o destino da cidade era negociado com interesses econômicos, locais e corporativos. As cidades brasileiras foram se caracterizando pelo contraste entre um espaço contido no interior de uma moldura da legislação urbanística e outro, situado numa zona entre o legal e o ilegal. E como está o panorama atual?
2.2 O presente das cidades brasileiras
Em documento lançado em dezembro de 2008 (IBGE, 2008), constata-se que, em 2003, 32,6% dos municípios brasileiros tinham mais de 50% de sua população vivendo na pobreza absoluta. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE cruzou os dados de Índice de pobreza com os de desigualdades (medidas pelo índice de Gini), e constatou:
[...] a tendência de concentração de maior incidência da pobreza em municípios de menor porte. Já a desigualdade é maior nos municípios mais populosos. No caso extremo estavam os 13 municípios brasileiros com mais de um milhão de habitantes: não havia município com mais de 50% de pobres, mas a desigualdade acima de 40% abrangia todo o grupo. (IBGE, 2008).
Com respeito ao conceito de pobreza, o IBGE (2008) cita que:
Nos anos recentes, diversos estudiosos do tema tendem a concordar com uma definição abrangente considerando a pobreza como privação do bemestar, pela ausência de elementos necessários que permitam às pessoas levarem uma vida digna em uma sociedade. Sob este aspecto, a ausência de bem-estar está associada à insuficiência de renda, à nutrição,
à saúde, à educação, à moradia, aos bens de consumo e aos direitos de participação na vida social e política da comunidade em que vivem (IBGE, 2008)
Na outra ponta estão as cidades que lideram o ranking de riqueza por habitante no Brasil. De acordo com dados divulgados pelo mesmo IBGE, em dezembro de 2008 e relativos à 2006 entre os 10 municípios de maior Produto Interno Bruto – PIB per capita do Brasil estão os com um número pequeno de habitantes e casas e, em geral, apenas uma grande empresa.
O município com maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil em 2006 foi Arapurã, em Minas Gerais, com R$ 261 mil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a posição é explicada pelo fato de a cidade possuir a maior hidrelétrica do Estado e a riqueza produzida pela empresa ser distribuída entre poucos habitantes, como é método para chegar ao indicador. Vale lembrar que isto não significa que cada habitante ganhou este valor no ano, mas que o total de riqueza produzida por eles em relação ao número de pessoas que moram no município é o maior do País. Os dados foram divulgados nesta terça-feira pelo IBGE. Em segundo lugar aparece São Francisco do Conde, na Bahia, com PIB per capita de R$ 217 mil, em 2006. Na terceira posição ficou Triunfo, no Rio Grande do Sul, com R$ 180 mil. O município de Guaribas, no Piauí, possuía em 2006, o menor PIB per capita do Brasil: R$ 1.368. De acordo com o IBGE, a cidade possuía 52% de sua economia dependente da administração pública.
No final do século XX e início do XXI a crise da cidade é mundial, e é produto da racionalidade imposta pelo planejamento funcionalista, pelas estratégias do poder e pelo crescimento econômico que cria uma ordem planificada e programada. As estratégias urbanas atuais devem, então, priorizar as relações sociais, não esquecendo, no entanto que a criação de quaisquer estratégias não pode deixar de considerar o espaço, posto que as relações sociais se realizam num espaço concreto, que não é o institucional. A perspectiva que se abre é de considerar a cidade enquanto prática social.
O Brasil segue a tendência mundial de possuir parcela de população urbana quatro vezes maior que a rural. O que parece soar como modernidade e melhoria de vida não ocorrem, pois as cidades, no crescimento acelerado, não possuem planejamento para tal, o que leva à desordem. Na desordem, o ser humano e o ambiente sofrem as conseqüências.
Qual a solução? Mais uma vez, determinações legais. A partir de 1988, com a nova Constituição Federal, houve a definição da obrigatoriedade do Plano Diretor Municipal – PDM para cidades com população acima de 20.000 habitantes. Em 2001 a Lei Federal do Estatuto da Cidade reafirma essa diretriz, estabelecendo o PDM como instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana (artigos 39 e 40). Inclui, na obrigatoriedade, municípios situados em regiões metropolitanas ou aglomerações
urbanas, em áreas de interesse turísticos, ou em áreas sob influências de empreendimentos de grande impacto ambiental.
O novo enfoque brasileiro parte do entendimento de que a cidade possui vários agentes atuantes que, a partir de um pacto comum, determinam por meio de ações coordenadas a cidade que todos querem, o que, portanto, deve corresponder aos interesses da maioria. Segundo Rolnik. “a grande diferença é olhar pro conjunto (...) a responsabilidade pela implementação desse plano não é apenas do governo ou do poder público, ela é também de todos os cidadãos que vão estabelecer entre si regras básicas de convivência naquele lugar”. É, no Brasil, a visão da polis.
2.3 Considerações sobre o urbanismo brasileiro
O Brasil é descoberto por Portugal em 1500. Com ação urbana incipiente, inicia sua urbanização somente em meados de 1850, copiando modelos franceses e desconsiderando a cultura local. As cidades brasileiras, desde então, existem de maneiras paralelas, pois há a cidade legal e a real. Entre a cidade legal e a real, há distinções.
Em meados dos anos 1960 promoveu-se, intensamente, a elaboração de Planos Diretores, em todo o Brasil. Estes planos tinham por campo de intervenção os aspectos sociais, econômicos, físicos e institucionais - daí sua denominação de planos integrados. Seu método era o de aproximações sucessivas: começava por um estudo preliminar, a seguir desenvolvia um plano de ação imediata ou, nas situações mais complexas, um plano de desenvolvimento local integrado. Eram os Planos Diretores elaborados em concepção que exaltava a racionalidade.
Tudo se passava como se o planejamento fosse externo à administração. Tudo se passava como se os problemas locais, indicados por um competente estudo preliminar, fossem sempre os mesmos, independentes do observador e de sua perspectiva; como se as causas destes problemas fossem sempre as mesmas; como se fosse possível decidir sobre objetivos a alcançar ou sobre soluções dos problemas, independentemente da composição do poder local. Seu equívoco e fracasso foram desconhecer as categorias presentes e atuantes no meio comunitário, representadas por todos os atores sociais. Atualmente, após a Constituição Federal de 1988, do Estatuto da Cidade, e da ação do Ministério das Cidades, o processo de planejar envolve um modo de pensar participativo e compromissado, no princípio de que um salutar modo de pensar envolve indagações; que indagações envolvem questionamentos sobre o que fazer, como, quando, quanto, para quem, por quem e onde. A atividade de planejamento é complexa, pressupõe um processo contínuo de pensamento sobre o futuro, a partir de um processo decisório permanente, acionado dentro de um contexto ambiental, interdependente e mutável. Por esta imensa presença e participação, o processo de planejamento é muito mais importante que seu resultado final que, normalmente, materializa-se num plano.
Muito se tem discutido atualmente no Brasil sobre os Planos Diretores Municipais. Com a aprovação do Estatuto da Cidade em 2001, esse instrumento voltou a despertar atenção da sociedade, depois de anos de descrédito. Se for superado o entrave da sensação, nas pessoas, de que o proposto não é duradouro, mas direcionado para objetivos limitados, com duração definida, é possível que os atuais PDMs, concebidos na metodologia do planejamento estratégico, consigam êxito.
3 A VIZINHANÇA: A SOCIOLOGIA DESENHA A CIDADE
FERRARI, Celson. Planejamento municipal integrado. 7. ed. São Paulo: Pioneira, 1991.
A unidade de vizinhança é um escalão urbano que se assemelha ao bairro e é resultado da reunião de várias unidades residenciais. Ela foi idealizada como uma resposta ao crescimento dos grupos secundários (característicos das grandes áreas urbanas) de forma que os grupos primários seriam reforçados, através de uma configuração urbana que propiciasse a convivência e os contatos sociais.
Clarence Artur Perry estabeleceu a escola primária como equipamento central e o delimitador espacial de uma unidade de vizinhança: ela se estenderia de forma que sua população não ultrapassasse a capacidade de uma escola primária.
É possível notar no Plano de Barcelona, de Ildefonso Cerda, preocupações na distribuição dos equipamentos urbanos e suas relações com os habitantes, de certa forma antecipando conceito de unidade de vizinhança. No início do século XX, estudiosos constataram o desaparecimento das relações sociais entre vizinhos com o crescimento das metrópoles. Esses grupos primários seriam importantes para uma vida saudável e a falta de convivência nesses grupos poderia até provocar desordens mentais. A idéia então foi usar o planejamento urbano como forma de recriar essas relações. Em 1923, Clarence Perry, inspirado em Ebenezer Howard, pela primeira vez mostra o conceito de unidade de vizinhança. Para ele, os equipamentos urbanos deveriam estar próximos às habitações e estas não deveriam ser interrompidas por vias de trânsito de passagem, mas apenas tangenciadas, preservando a vida comunitária e dando segurança às crianças. Estas poderiam ir à escola sozinhas, já que os caminhos eram seguros e a distância era ideal para não cansá-las. Por isso, a escola primária era o equipamento básico de uma unidade de vizinhança.
Enquanto Perry desenvolvia seus estudos, Henry Wright e Clarence Stein aplicaram conceitos parecidos nos conjuntos habitacionais próximos a Nova Yorque. Stein define a unidade de vizinhança como uma área residencial delimitada (mas não cortada) por vias de trânsito de passagem e que seriam projetadas para uma população que necessitasse de uma escola elementar. Queen Carpenter confirma a função da unidade
de vizinhança em recriar os laços de contatos primários, onde "os residentes se conhecem pessoalmente e têm o hábito de se visitar" e onde "os membros se encontram em terreno conhecido [...] para desenvolver actividades sociais primárias e contatos sociais espontâneos ou organizados".
3.1 Difusão da idéia
O conceito de unidade de vizinhança se difundiu após os anos 1920. Após a Segunda Guerra Mundial, os debates sobre a organização habitacional foram bastante influenciados pela unidade de vizinhança e modelos funcionais e organizacionais foram considerados muito importantes. A partir daí a unidade de vizinhança foi amplamente usada. Seus conceitos foram usados, por exemplo, em Porto Rico, França, Inglaterra, Estados Unidos da América, Brasil, União Soviética e Áustria.
Esse conceito pode ser dividido em duas correntes. A primeira, anglo-saxônica, baseia-se nas cidades jardins e em baixas densidades demográficas. É o caso do Plano da Grande Londres (a partir de 1944), de Patrick Abercombie, e das novas cidades inglesas (da primeira e segunda gerações). A segunda corrente foi influenciada pelo racionalismo europeu e por Le Corbusier. Nela são explorados os edifícios habitacionais. São os casos das superquadras de Brasília e daUnité d‟ Habitacion.
3.2 Críticas
Por cerca de 40 anos a unidade de vizinhança foi idéia corrente no urbanismo, constituindo uma "fórmula mágica de constituir comunidades de habitantes". Seu uso intenso e o tempo levariam à reflexão e às primeiras reações contra a unidade de vizinhança. Após anos de experimentação, chegou-se à conclusão de que as unidades de vizinhança não atenderam às expectativas em torno da recriação dos grupos primários. As causas de tal fracasso seriam a própria tendência de a população urbana de se isolar (diretamente proporcional ao tamanho da cidade), graças às relações sociais mais alargadas permitidas pelos meios de transportes e comunicação e à impossibilidade de evolução da forma urbana concebida, no tocante a oferecer postos de trabalho, tanto no setor terciário quanto no secundário.
Apesar disso, uma das funções da unidade de vizinhança foi alcançada: dar proteção à criança.. Suas diretrizes de distribuição de equipamentos e serviços na área urbana também estão presentes hoje, como medidas de planejamento compatíveis com o desenho urbano.
A Unidade de Vizinhança é uma idéia simples, que contrasta com a dos bairros existentes nas cidades tradicionais. Essas unidades deveriam possibilitar através de um número estabelecido de habitantes, de equipamentos e serviços lá introduzidos, as relações sociais da comunidade.
O americano Clarence Perry estudou nos anos 20 as relações entre os habitantes das comunidades e os equipamentos existentes nelas. A partir destes estudos identificou que, os principais equipamentos deveriam estar próximos às habitações, e que a circulação de veículos não deveria cortar os acessos aos serviços nem perturbar a vida da comunidade. Para ele, a vida social desenvolvia-se a partir da utilização dos serviços comuns, da sua estruturação e organização que atendem a determinada comunidade. Clarence Stein defendia que a unidade de vizinhança além de área residencial, deveria atender à população que necessitasse de uma escola elementar. Deveria também ser delimitada por vias suficientemente largas, permitindo que o trânsito passasse pela unidade sem atravessá-la. Deveria existir também uma área com pequenos parques e locais para recreação.
Para Queen Carpenter e Ruth Glass, a unidade de vizinhança era um conceito sociológico. Nela os habitantes teriam o hábito de se visitar e trocar objetos ou serviços. Nela se formaria um grupo territorial em que os membros estariam em território conhecido.
Desde Cerdà em seu projeto para o Plano de Barcelona, observa-se a tentativa de, a partir da unidade de vizinhança, estabelecer relação entre os grupos. Para os teóricos o conceito de unidade de vizinhança interessava mais no sentido de entender os aspectos sociais (dimensões, quantitativos, etc) do que o traçado e a forma urbana decorrentes deles. Estas teorias influenciaram a organização de áreas habitacionais a partir dos anos vinte, especialmente a partir do pós-guerra que exigiu um maior debate sobre a reconstrução das cidades e, a melhor forma de suprir o déficit habitacional. Os urbanistas de todos os países experimentaram os conceitos de unidade de vizinhança e utilizaram-no de forma indiscriminada.
Na cidade moderna, a unidade de vizinhança tornou-se a principal forma de organização e de definição do desenho da área habitacional. Entre os anos 50 e 60, esta forma inseriu-se na organização urbana. Neste período surgiram também, duas correntes de utilização dos conceitos de unidade de vizinhança:
1. A corrente origem anglo-saxônica, baseada essencialmente em pesquisas do modelo sociológico de comunidade habitacional;
2. A corrente mais ligada ao Racionalismo Europeu de Le Corbusier concretizou-se a partir das tipologias arquitetônicas, procurando um modelo de edificação que permitisse uma unidade habitacional que se integrasse aos equipamentos.
No Plano da Grande Londres (1944-45) e de algumas cidades inglesas, a unidade de vizinhança apareceu como elemento base de toda a organização urbana. Este modelo estava diretamente ligado às baixas densidades e a idéia de cidade-jardim. Nela a Unidade de Vizinhança constitui-se num “bairro” habitacional separado das vias por áreas verdes e com equipamentos no interior.
A segunda corrente incluiu as idéias do racionalismo europeu, apresentando-se na forma das unidades habitacionais de Le Corbusier e das Superquadras de Brasília, onde foi utilizada a possibilidade de construção de edifícios em altura.
Os modelos de Le Corbusier inspiraram-se nos modelos utópicos dos „falanstérios‟, tentando integrar o maior número de serviços dentro da Unidade, ou seja, cada edifício constituía uma Unidade de Vizinhança, „autônoma‟.
Durante quatro décadas o modelo de Unidade de Vizinhança dominou o urbanismo, apresentando-se como modelo simplista de organizar à expansão urbana e permitindo a incorporação de unidades autônomas, colocando em segundo plano o desenho urbano e a morfologia da cidade e priorizando o funcionalismo da mesma.
Após alguns anos de experimentações destes conceitos, surgiram as primeiras críticas ao observarse que a idéia de convivência em que se baseia a teoria, havia fracassado. Este fracasso resultou de dois aspectos, o primeiro de que é impossível impor a formação de grupos sociais através de um plano urbanístico. O segundo está relacionado às formas urbanas adotadas, que segundo alguns estudiosos, foram inadequadas.
Nos anos 70, estas críticas levaram ao abandono das idéias de Unidade de Vizinhança, porém alguns métodos decorrentes destas idéias permaneceram e são adotados em planejamento de cidades até hoje, como as relações equipamentos-população.
4. PLANEJAMENTO URBANO
ROHDE, Marisa Aparecida Rohde. Relatório Final de Estágio Curricular – Eng. civil – UNIOESTE 1999
Historicamente a apropriação do espaço físico foi marcada por lutas e guerras. Desde a Idade Antiga, quando as disputas por terras ocorriam entre tribos rivais até os dias atuais, onde presenciamos o conflito entre fazendeiros e sem-terras, o desafio de manter ou conquistar um pedaço de chão permanece. Se as estatísticas se confirmarem, em menos de 30 anos o Planeta Terra terá 10 bilhões de habitantes (atualmente possui 6 bilhões), dos quais cerca de 90% viverão nas cidades.
A busca por melhores condições financeiras nas últimas décadas, principalmente nas grandes cidades, desencadeou um processo de urbanização acelerado nas cidades brasileiras, as quais não se encontravam preparadas para comportar tal demanda. As conseqüências dessa ocupação desordenada do espaço físico são o reflexo da falta de planejamento, e constituem-se em problemas de ordem social, econômica e físico-administrativas.
Gerir o espaço físico, através de análise das relações sócio-econômicas, promovendo alterações urbanísticas, políticas e sociais, por meio de ações da administração pública e
iniciativa privada, visando criar melhor condição de ambiente urbano e promover o desenvolvimento da cidade, constitui o processo de planejamento urbano.
As primeiras aglomerações humanas com localização fixa assumiam espontaneamente a configuração e a estrutura mais apropriadas ao fim a que se destinavam: defender a coletividade do ataque das feras ou tribos inimigas. Na Idade Média, a proteção oferecida pelos senhores feudais fazia surgir uma nova forma de organização humana: os feudos (vilas auto-suficientes). Com o advento da navegação marítima, surge uma nova atividade – o comércio - dando origem às “urbs” e tornando mais complexas as relações humanas.
A progressão histórica acima reflete objetivamente a relação homem/espaço. O homem concebe-se, à prióri, no espaço geográfico que precede o espaço econômico, embora este é que comanda a expansão e desenvolvimento urbanos, acarretando muitas vezes na ocupação inadequada do espaço geográfico.
“O primeiro componente, portanto, do mecanismo ou do fenômeno que denominamos desenvolvimento é o espaço”, ( LINDGREN, 1978).
Pode-se caracterizar o espaço urbano como uma arena onde se defrontam interesses diferenciados em luta:
1- pela apropriação de benefícios em termos de geração de rendas e obtenção de ganhos de origem produtiva ou comercial, por um lado,
2- e em termos de melhores condições materiais e simbólicas de vida, por outro. Nesta luta pelo espaço pode-se identificar os seguintes agentes:
1. os proprietários fundiários e imobiliários; 2. os incorporadores e a construção civil; 3. os empreiteiros de obras públicas;
4. os concessionários de serviços, principalmente de transportes;
5. as camadas médias que buscam manter ou melhorar as condições de seu habitat, de forma a reproduzir e ampliar a distância social em relação às camadas populares, que marca sua posição na estratificação da sociedade.
É função do Planejamento Urbano gerir o espaço físico, através da análise das relações socioeconômicas, propondo uma política de desenvolvimento para a cidade que contemple os interesses da comunidade local e regulamente as atividades dos diversos setores que compõem a estrutura urbana.
Segundo RODRIGUEZ (1994), o planejamento é um procedimento técnico-administrativo, que possui um caráter normativo e instrumental, sendo que sua concepção metodológica é um elemento básico.
O planejamento público tem uma dimensão técnica e uma dimensão política.
1. Técnica porque implica o domínio de uma metodologia de trabalho própria, o acesso a informações atualizadas, sistematizadas e agregadas no nível adequado às necessidades e, freqüentemente, o apoio dos conhecimentos especializados de profissionais de diferentes áreas.
2. Política porque é, antes de tudo, um processo de negociação que busca conciliar valores, necessidades e interesses divergentes e administrar conflitos entre os vários segmentos da sociedade que disputam os benefícios da ação governamental, (OLIVEIRA, 1989).
O planejamento democrático, tão propalado atualmente, deve conciliar as duas tendências acima citadas, para que participem do processo de planejamento autoridades, técnicos, executores e beneficiários de forma a se chegar mais rapidamente às soluções mais criativas e decisões mais racionais e exeqüíveis.
Considerando que o objetivo principal do planejamento é promover alterações sócio-econômicas, urbanísticas, políticas, etc., o processo nem sempre é pacífico, pois as diretrizes estabelecidas podem ser contrárias aos interesses de alguns segmentos.
A permanente escassez de recursos em face de novas etapas a serem programadas, os a freqüente falta de complementaridade e integração das ações das várias esferas do governo e a comum falta de organização dos próprios segmentos sociais carentes da atenção governamental, são alguns dos obstáculos e contradições normalmente encontrados no fluir do processo de planejamento.
O planejamento governamental não deve constituir uma atividade esporádica, que venha a ocorrer apenas em determinado período de uma gestão. O processo de planejamento se inicia com o levantamento, por iniciativa do governo, dos problemas e situações que afetam a população. Prossegue com a análise das informações sobre esses problemas, a definição de objetivos a alcançar, a programação das ações adequadas, o acompanhamento da execução dessas ações, a tomada de medidas corretivas e o esforço para melhorar constantemente o próprio sistema de planejamento, tudo isso visando à melhoria crescente das condições de vida da população, (OLIVEIRA, 1989).
Planejamento pode ser definido como processo de decisão que objetiva causar uma combinação ótima de atividades em uma área específica e pelo qual a utilização dos instrumentos de política seja coordenada, considerados os objetivos do sistema e as limitações impostas pelos recursos disponíveis (HILHORST, 1975).
Na Carta dos Andes BIRKHOLZ (1980), conceitua que em um sentido amplo, planejamento é um método de aplicação, contínuo e permanente, destinado a resolver, racionalmente, os problemas que afetam uma sociedade situada em determinado espaço, em determinada época, através de uma previsão ordenada capaz de antecipar suas últimas conseqüências.
A distribuição e ocupação inadequadas do espaço físico territorial não é assunto de análise e discussão apenas das grandes cidades, onde a expansão urbana parece ter atingido o nível máximo.
O rápido crescimento urbano é uma característica dominante do desenvolvimento das economias mais avançadas, verificado principalmente após o fenômeno da Revolução Industrial que foi o principal responsável pela migração campo / cidade, na busca de uma melhor condição financeira, (SINGER, 1985).
No Brasil, a partir das décadas de 60 e 70, houve um grande aumento da população urbana, principalmente na região sudeste, que tornava-se o pólo industrial do país. A falta de uma política de desenvolvimento nacional voltada para a economia local, a agricultura, e o grande interesse político econômico em abrir o mercado brasileiro para a indústria internacional, foram os principais agentes responsáveis pelo êxodo rural e conseqüente crescimento da população urbana, acarretando os mais diversos problemas de ocupação e organização do espaço urbano.
Precedida por um estilo de desenvolvimento que impôs alto grau de centralização e concentração urbana, a dinâmica de modificar o espaço que se verifica nas cidades tem modificado o traçado urbano e suas formas de expansão, em particular nas grandes cidades. A forma como se produz a ocupação sem qualquer regra ou limite, sem previsão de áreas para equipamentos públicos nem infra-estrutura, e sem tampouco restrição à ocupação de área de risco (inundáveis e sujeitas a deslizamentos) e de proteção ambiental (faixas de drenagem e preservação permanente), ou à proximidade de fontes poluidoras, tudo isso acrescido de precário sistema de controle e fiscalização das unidades produtivas, armazenamento e transporte de substâncias tóxicas, FÓRUM DE ONGs BRASILEIRAS apud ORSI (1997).
A forma de ocupação do espaço, citada acima, gera o atual quadro de degradação do ambiente urbano verificado na maioria das grandes cidades dos países em desenvolvimento.
Dois fatores geram situações contraditórias e constantemente observadas, principalmente nas cidades do considerado terceiro mundo:
1. a concentração de pessoas e atividades no ambiente urbano promove a otimização da infraestrutura e serviços urbanos,
2. ao passo que a expansão da cidade e crescimento da população provocam uma pressão constante que determina a tendência à deficiência dos sistemas.
No sistema de circulação (sistema viário e de transportes), são crescentes as dificuldades de deslocamento pelo aumento progressivo da intensidade de fluxos. No saneamento são várias as insuficiências, com a impermeabilização excessiva do solo, erosão e inundações prejudicando a drenagem urbana, o comprometimento de mananciais provocando reflexos imediatos no abastecimento d‟água, o acréscimo constante de efluentes líquidos orgânicos pressionando o esgotamento sanitário, e a