PODER JUDICIÁRIO
SÃO PAULO
SEGUNDO TRIBUNAL DE ALÇADA CIVIL Décima Câmara
APELAÇÃO COM REVISÃO Nº 579.034-0/8 - CAMPINAS Apelante: Vanny Joaquina Hipólito de Abreu
Apelada : Maria Aparecida de Oliveira
AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. MANDATO. A Requerente não é carecedora da ação porque demonstrou formalmente os pressupostos legais e, com isto, fica prejudicada a condenação por litigância de má-fé. Não há nulidade se as contas não forem apresentadas em forma contábil, permitindo-se a produção de provas para a fixação do ‘quantum’.
ACORDO FIRMADO PELOS ADVOGADOS DAS PARTES. DISCORDÂNCIA DA CREDORA. No caso de ser comprovada a contrariedade às instruções da mandante, por ter a mandatária praticado atos processuais não autorizados, embora dentro dos limites estabelecidos no mandato através dos poderes especiais, responderá a outorgada pelas perdas e danos que possam resultar da inobservância dos poderes concedidos. Essas perdas e danos devem abranger, além do que a parte considerar, mediante provas, que efetivamente perdeu, mais o que razoavelmente deixou de lucrar, com os acréscimos legais compatíveis.
Voto nº 4.142 Visto.
VANNY JOAQUINA HIPÓLITO DE ABREU ingressou com Ação de Prestação de Contas contra MARIA APARECIDA DE OLIVEIRA, partes qualificadas nos autos, porque, como Advogada recebeu poderes da outorgante para representá-la na Ação de Reclamação Trabalhista contra Galvani Armazéns Gerais Ltda., nº 2004/93, perante a Junta de Conciliação e julgamento de Campinas, mediante honorários de 30% sobre o crédito. Em 23.10.95 houve pagamento do débito em forma de acordo, recusando a Requerida ao acerto por não concordar com o imposto de renda retido na fonte.
Formalizada a angularidade a Requerida apresentou contestação. Inviabilizada a conciliação houve
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entrega da prestação jurisdicional julgando extinto o processo e condenando a Requerente ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios de 10% sobre o valor da causa, corrigido desde o ajuizamento. Reconhecida a conduta desleal foi também condenada ao pagamento de 1% sobre o valor da causa, corrigido desde o ajuizamento, e à indenização de 20% sobre o valor da causa. Vislumbrando indícios de ilícito penal, determinou o MM. Juiz a remessa de cópias do processo ao Ministério Público.
WANNY (ou Vanny - folha 252) JOAQUIM HIPÓLITO DE
ABREU interpôs recurso. Persegue a reforma da decisão enfatizando não ter ocorrido inépcia da inicial, uma vez que
“... os fatos narrados são evidentes e bem claros ...” (folha 234); ter
demonstrado o interesse de agir, a legitimidade de parte e a possibilidade jurídica do pedido; não ser o caso de litigância de má-fé porque “... EM NENHUM MOMENTO a autora aduziu que houve a homologação do acordo, mas sim, como descrito
acima, que HOUVE O PAGAMENTO TOTAL DO PROCESSO ...” (folha 236).
MARIA APARECIDA DE OLIVEIRA ingressou com contrariedade às razões, defendendo o acerto da decisão, pois, vencida a matéria preambular, não se deu o pagamento da dívida.
É o relatório, adotado no mais o da r. sentença. O recurso deve ser apreciado nos limites especificados pelas razões para satisfação do princípio
tantum devolutum quantum appellatum.
Vencidos diversos atos processuais perante ao r. Juízo da Junta de Conciliação e Julgamento de Paulínia, Comarca de Campinas, Galvani S. A. e Maria Aparecida de Oliveira, através de seus patronos, peticionaram:
“... dizer que se compuseram, na seguinte forma
(...). Pedem a homologação do acordo ...” (folhas 126).
Não se questiona os atos processuais e nem os despachos proferidos na ação de reclamação trabalhista. Limita-se aos poderes conferidos pela outorgante aos outorgados, constantes do documento base para o
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supedâneo desta ação.
O ponto central controvertido tem seu fato gerador nesse mandato outorgado por MARIA APARECIDA DE OLIVEIRA a VANNY JOAQUINA HIPÓLITO DE ABREU, RICARDO VALENTIM MOTTA, DALVARO DA SILVA e ANTONIO PAULUCCI, todos com Escritório na Avenida Campos Salles, nº 715, em Campinas, onde se encontram definidos alguns poderes específicos:
“... para confessar, desistir, transigir, firmar compromissos ou acordos, receber e dar quitação, agindo
em conjunto ou separadamente ...” (folha 19 – Grifou-se).
Transigir, do latim transigere, quer dizer chegar a um acordo, ou condescender. Acordo corresponde a combinação, ajuste, pacto, harmonia, consonância,
conformidade, composição. Observados os poderes ad
judicia, a procuradora recebeu poderes especiais para
transigir e firmar acordo. Resultam as obrigações
recíprocas, interessando hic et nunc as concernentes à
outorgada.
A inicial diz:
“... em determinada fase do processo houve um primeiro acordo, onde foi recusado pela ré, e em função
dessa recusa o processo prosseguiu” (folha 2).
“... em (...) 23/10/95, embora em forma de acordo, o que houve o pagamento total do processo a essa advogada (doc. Anexo)” (folha 3).
“Nessa ocasião foram feitas as atualizações devidas, quer quanto ao principal, quer quanto aos encargos sociais ...” (folha 3).
Ao inserir detalhes sobre a recusa da outorgante (Apelada) sobre essa composição, a outorgada (Apelante) deixou implícito que não se tratou de “forma de
acordo”, mas de acerto que definiria o curso do processo
trabalhista, tanto que ali os patronos, signatários e
responsáveis pelos atos praticados, requereram “... a
suspensão do leilão determinado para o dia 24/10/95 ...” (folha 126).
É o que se evidencia da petição:
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por diversas vezes a fim de receber o valor acima, sempre recusou-o, vindo inclusive a repetir tal recusa diretamente nos autos de reclamação trabalhista, onde afirmou que não concordava com o acordo efetivado, em razão da dedução do imposto de renda. Declarou ainda que nada recebeu em relação ao acordo noticiado. Todavia, nada recebeu, por sua própria causa, já que conforme declarou naquele feito, fls. 166, não concordava com a dedução do imposto de renda, porque segundo informações sabia ser indevido tal desconto ...” (folha 3).
A própria Apelante admite que a Apelada não quis receber o valor por discordar, mesmo que em parte, dos termos da composição firmada pelos advogados. Não fez encarte de nenhum documento nesse sentido.
A ação de prestação de contas compete a quem tem o direito de exigi-las e a quem tem a obrigação de
prestá-las1. Em princípio, recebendo a advogada
importância em nome de sua cliente, havendo recusa desta em aceitar o valor que lhe seria destinado, cabível a ação de prestação de contas, por força do art. 916 do Cód. de Proc. Civil.
Formalizada a angularidade, contestada ou impugnada as contas, se houver necessidade de produção de provas deve ser designada audiência de instrução e julgamento, conforme se verifica do art. 916, § 2º, do Cód. de Proc. Civil.
As contas devem ser apresentadas em forma mercantil, com especificação da receita e das despesas e, evidentemente, do saldo respectivo (credor ou devedor), com documentos essenciais2.
Para propor ou responder ação é necessário ter interesse e legitimidade3. O interesse processual reflete-se
na necessidade do pedido da sentença de mérito e na utilidade dessa prestação jurisdicional. Legitimidade é o consentimento dado pelo ordenamento jurídico para que alguém se afirme, em juízo, como titular de um direito
1 - Cód. de Proc. Civil, art. 914, incs. I e II. 2 - Cód. de Proc. Civil, art. 917.
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material. O pedido é juridicamente possível quando não encontrar óbice ou proibição legal.
São as “condições da ação”, matéria de ordem pública que pode e deve ser apreciada em qualquer época e grau de jurisdição. O Requerente será considerado carecedor da ação quando não estiverem presentes todas as suas condições (legitimidade, interesse e possibilidade jurídica do pedido).
A Requerente, ora Apelante, não é carecedora da ação porque demonstrou formalmente os pressupostos legais e, com isto, prejudicada a condenação por litigância de má-fé, neste momento, nada contrariando seja o tema reexaminado em outra oportunidade.
“Não há nulidade se não forem apresentadas em forma contábil (Bol. AASP 1.053/38), devendo o juiz determinar que sejam produzidas provas para fixação do
‘quantum’ devido (RJTJESP 90/272) 4”.
“Provado o mandato e o fato de o mandatário ter praticado atos em nome do mandante, como a venda de bens e o recebimento de indenização trabalhista, tem o
primeiro obrigação de prestar contas 5”.
“O advogado é obrigado a prestar contas ao cliente por quantias recebidas no processo, sob pena de cometer infração disciplinar que autoriza suspensão da atividade profissional. Exegese dos artigos 34, XXI e 37 § 2º
do Estatuto do Advogado 6”.
“À luz do disposto nos artigos 9º do Código de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil; 34, XXI da Lei 8.906/94; e 1.301 do Código Civil, a prestação de contas pelo advogado é dever ético-legal cuja finalidade é espancar de forma clara dúvidas e pendências decorrentes
4 - Cfr. THEOTONIO NEGRÃO - Código de Processo Civil e Legislação Processual em vigor – 27ª edição, Saraiva, nota 1 ao artigo 917.
5 - 2º TACivSP - Ap. c/ Rev. 516.783 - 3ª Câm. - Rel. Juiz JOÃO SALETTI - J. 24.11.98.
6 - 2º TACivSP - Ap. c/ Rev. 564.022-00/7 - 2ª Câm. - Rel. Juiz FELIPE FERREIRA - J. 13.12.99. No mesmo sentido: Ap. c/ Rev. 525.922 - 9ª Câm. - Rel. Juiz FRANCISCO CASCONI - J. 26.8.98; Ap. c/ Rev. 529.752 - 12ª Câm. - Rel. Juiz OLIVEIRA PRADO - J. 25.2.99; Ap. c/ Rev. 521.797 - 12ª Câm. - Rel. Juiz OLIVEIRA PRADO - J. 11.3.99; Ap. c/ Rev. 536.557 - 12ª Câm. - Rel. Juiz CAMPOS PETRONI - J. 25.3.99; Ap. c/ Rev. 545.961 - 2ª Câm. - Rel. Juiz FELIPE FERREIRA - J. 3.5.99.
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da relação jurídica que emana do mandato outorgado por seu cliente 7”.
No caso de ser comprovada a contrariedade às instruções da mandante, por ter a mandatária praticado atos processuais não autorizados, embora dentro dos limites estabelecidos no mandato através dos poderes especiais, responderá a outorgada pelas perdas e danos que possam resultar da inobservância dos poderes concedidos. Essas perdas e danos devem abranger, além do que a parte considerar, mediante provas, que efetivamente perdeu, mais o que razoavelmente deixou de lucrar, com os acréscimos legais compatíveis.
Em face ao exposto, dá-se provimento ao recurso para anular a sentença, a fim de que outra seja proferida com exame do mérito e declara-se prejudicada a condenação por litigância de má-fé.
IRINEU PEDROTTI Relator
7 - 2º TACivSP - Ap. c/ Rev. 525.922 - 9ª Câm. - Rel. Juiz FRANCISCO CASCONI - J. 26.8.98.