Enfermeiro pelas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (Fatea)
Enfermeira. Mestre em Saúde Coletiva pela USP. Professora do curso de graduação em Enfermagem das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (Fatea)
Fabiano Fernandes de Oliveira
Rosana Tupinambá Viana Frazili
Espiritualidade: seu significado no
contexto do acadêmico de enfermagem
Resumo
To uncover the meanings of spirituality emerging in nursing university students in their last year before graduation. This is a descriptive, exploratory, and field study with qualitative approach and Bardin’s content analysis. The data collection was carried out through semi-structured interview with nine nursing students in their last year before graduation who were practicing, in accordance with the Research Ethics Committee, under the Opinion 47/2010. The results the analysis of the interviews emerged three central categories: “The spiritual dimension and its meanings”; “Spirituality, faith, and cure”; and “The spiritual assistance and the nursing teaching”, which consists of the subcategories “Perception of the spiritual needs” and “The importance of spiritual assistance”. Conclusion there’s a lack of clarity for the nursing students on what is spirituality; another important aspect is that the theme causes a personal doubt with regard to its religious basis, on its conception of human being and the sense of life; such questions lead to private conflicts, many times no conclusive ones. It was shown there’s a need for a formal discussion on this theme in the undergraduate Nursing
AbstrAct
Espiritualidade, Enfermagem, Assistência spiritual, Ensino de enfermagem
PAlAvrAs-chAve:
Desvelar os significados da espiritualidade emergentes em acadêmicos de enfermagem do último ano de graduação. Trata-se de estudo descritivo, exploratório e de campo, com abordagem qualitativa e análise de conteúdo de Bardin. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada com nove discentes de enfermagem do último ano de graduação que atuavam na prática, em acordo ao Comitê de Ética em Pesquisa, com Parecer n. 47/2010. Os resultados mostram que a análise das entrevistas emergiram três categorias centrais: “A dimensão espiritual e seus significados”; “Espiritualidade, fé e cura”; e “A assistência espiritual e o ensino na enfermagem”, composta pelas subcategorias “Percepção das necessidades espirituais” e “A importância do atendimento espiritual”. Conclui-se que há falta de clareza para os discentes de enfermagem sobre o que é a espiritualidade; outro aspecto importante é que o tema provoca um questionamento pessoal com relação à sua base religiosa, sobre sua concepção de homem e o sentido da vida; questões que geram conflitos íntimos, muitas vezes não conclusivos. Ficou evidenciado que é necessária a discussão formal dessa temática na graduação em Enfermagem porque a essência do trabalho da enfermagem é o cuidar.
course, since the essence of the nursing work is caring.
Spirituality, Nursing, Spiritual assistance, Nursing teaching
Keywords:
INTRODUÇÃO
O tema espiritualidade continua sem uma definição aceita por todos, apesar de que nos últimos anos encontrarmos cada vez mais bibliografias e fóruns de discussão sobre o tema.
A espiritualidade poderia ser definida como uma propensão humana na busca do significado para a vida, por meios de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo que é maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal (1).
Convém definir nesse cenário que a religiosidade e a espiritualidade, apesar de relacionadas, não são claramente descritas como sinônimos.
A religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo (2),com outra conotação, a espiritualidade tem como referência a questão
sobre os significados do propósito de vida, como crença em aspecto espiritualista para justificar sua existência e significados (3).
Muitos profissionais de saúde procuram estudar e implementar esse conceito, enquanto outros ainda são céticos e acham que essa não é uma questão científica (3).
O modelo do sistema de cuidado de saúde refere que a pessoa é um ser aberto que interage com o meio externo, possui linhas de energia que mantêm harmonia entre o interior e o exterior, por isso, acredita-se que não somos apenas corpos, mas, sim, espíritos, por isso a importância de cuidar também da espiritualidade (3).
A enfermagem sempre teve na sua prática a preocupação de assistir o cliente nas suas necessidades espirituais, porém, tem tido dificuldade em diferenciar a espiritualidade dos aspectos religiosos e psicossociais do indivíduo (3).
Historicamente, o exercício da enfermagem esteve a cargo de religiosos, em diferentes épocas e lugares (3). O surgimento e a propagação do cristianismo no
Ocidente influenciaram diretamente o interesse dos cristãos em cuidar de pessoas doentes, pobres, viúvas e órfãos. E esse modo de cuidar incluía a assistência espiritual (4).
Florence Nightingale, a criadora da enfermagem moderna, recebeu toda a sua formação em instituição religiosa, além do mais, teve uma vivência religiosa significativa, tendo feito da enfermagem uma missão (4).
Acreditava que havia sido chamada por Deus, conforme escreveu no seu diário aos 17 anos: “Deus me falou e me chamou para este serviço” (4).
Desse modo, tinha a convicção plena de que ao exercer a enfermagem estava “a serviço da obra de Deus” (4), porque “a vida é a mais preciosa dádiva de Deus” (4) e era posta em suas mãos.
A década de 1980 foi chamada de “a década do cuidar”, na qual a enfermagem visava colocar o paciente em melhores condições, contribuindo para que se restabelecesse o mais rápido possível sua independência (4). Com o intuito da
implementação do “cuidar”, foram instituídos os instrumentos de mensuração do bem-estar espiritual, baseados no conceito de espiritualidade, envolvendo um componente vertical, o religioso (um sentido de bem-estar em relação a Deus), e um outro componente horizontal, o existencial (um sentido de propósito e satisfação de vida) (5).
Com o decorrer do tempo, o pensamento da enfermagem sobre a dimensão espiritual foi se modificando, passando de uma tendência de ver a espiritualidade atrelada à religião para reflexões de caráter ético, bioético, filosófico e a tentativa de compreender os fenômenos da espiritualidade nos pacientes, como, também, no próprio profissional de enfermagem (6).
Podemos observar, ainda, a importância da espiritualidade assinalada no
Diagnóstico de enfermagem da Nanda — definições e classificações 2009-2011,
por três diagnósticos que estão relacionados com a espiritualidade, são eles: disposição para o bem-estar espiritual aumentado, sofrimento espiritual e risco de sofrimento espiritual (7).
O ser humano é essencialmente comunicante, mesmo em seu mais profundo silêncio. É justamente nesse não dito que podemos captar a subjetividade do diálogo, transparecido na linguagem e, de modo mais abrangente, pelas outras dimensões do não verbal dos indivíduos, ou seja, das expressões faciais, gestos, posturas corporais o olhar, entre outras (8).
Assim, identificar a dimensão espiritual através da relação de cuidado depende, fundamentalmente, da sensibilidade e emoção do observador no processamento e interpretação do conteúdo observado, para, então, emergir a resposta do comunicacional, que para a enfermagem é o ato de cuidar (8).
A pergunta que nos norteia e que traz a relevância deste estudo é se o ensino de Enfermagem incorpora o fato de que a espiritualidade faz parte dos cuidados de enfermagem na prática e traz benefício ao paciente.
OBJETIVO
Desvelar os significados da espiritualidade, emergentes de acadêmicos de Enfermagem do último ano de graduação.
MÉTODO
Trata-se de uma pesquisa do tipo descritiva, exploratória de campo, de abordagem qualitativa, que verifica a relação dinâmica entre o mundo real e o
sujeito, isto é, o vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito, que não pode ser traduzido em números (9).
Este estudo foi realizado em uma instituição de ensino superior no fundo do Vale do Paraíba, em um curso de graduação em Enfermagem, tendo como sujeitos nove discentes do quarto e último ano do referido curso, que atuavam em estágio supervisionado em enfermagem.
Para a coleta de dados foi aplicado um instrumento semiestruturado elaborado pelos autores, composto de questões-chave que forneceram subsídios para interpretação e alcance do objetivo proposto; as entrevistas foram individuais, em locais apropriados; os discursos foram gravados e transcritos.
Após a coleta, os dados foram tratados por meio da técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (10), uma vez que o discurso do significado da
dimensão espiritual necessita de um método analítico capaz de conduzir o pesquisador por um caminho seguro.
Quanto aos aspectos éticos, cumpriu-se o estabelecido pela Resolução n. 196/96 do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa — Conep, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fatea, sob o Parecer n. 47/2010.
RESULTADOS
Com base no instrumento para caracterização do sujeito foram levantados dados como sexo, idade, estado civil, profissão, religião e se pratica a religião que professa.
Dos nove discentes que participaram da pesquisa, sete eram do sexo feminino e dois do sexo masculino.
Em relação à idade, foi possível observar que se tratou de um grupo de discentes adulto jovem, no qual sete tinham entre 20 e 30 anos e 2 tinham entre 31 e 40 anos de idade.
No que diz respeito à profissão exercidas pelos discentes, três eram somente estudantes, cinco atuavam como profissionais da área da saúde, ocupando o cargo de técnico ou auxiliar de enfermagem, e uma das entrevistadas era professora.
Oito dos nove entrevistados eram solteiros e moravam com os pais e somente um era casado.
Na questão sobre a religiosidade, oito referiram adotar o catolicismo como religião e, dentre esses, sete referiram ser praticantes da religião adotada, somente um não respondeu essa questão.
coletado, emergiram três categorias centrais e duas subcategorias, que compõem o corpo de discussão deste trabalho.
“A dimensão espiritual e seus significados”; “Espiritualidade, fé e cura” e “A assistência espiritual e o ensino na Enfermagem”, que são compostas pelas duas subcategorias: a “Percepção das necessidades espirituais” e “A importância do atendimento espiritual”, que serão discutidas de acordo com a subjetividade do sujeito.
DISCUSSÃO
Dentre os discentes que participaram desta pesquisa houve predominância do sexo feminino, uma das características encontradas na categoria de enfermagem. Em alguns estudos, observou-se que ao transpor essa reflexão para o trabalho da enfermagem depara-se com a fragilidade da argumentação da relação “cuidado/ ação feminina” e da “relação de serviço”, como características constitutivas da inclinação das mulheres para determinados setores (11).
A primeira categoria, que discute a “Dimensão espiritual e seus significados” evidencia uma questão atualmente discutida na literatura e diz respeito ao significado que as pessoas dão ao aspecto espiritual com definições como “Crença em Deus”, “Fé”, “Força para viver”, e “Esperança e solidariedade”. Os participantes da pesquisa relataram que o significado da espiritualidade para eles seria acreditar em um Deus maior; também afirmaram que a espiritualidade está ligada à paz que o ser humano precisa ter no seu dia a dia, algo que vai além do corpo e da mente e que transcende o ser humano.
Observou-se que, dentre as diversas ideias, a mais frequente foi “ser algo inerente ao ser humano”; isto significa que a espiritualidade faz parte do ser humano e está inserida no próprio homem.
Há um estudo que afirma que a espiritualidade proporciona sentido transcendente à vida passageira e que Deus é, antes de mais nada, esse sentido. Com essa assertiva, a espiritualidade faz bem não só à mente, mas, também, ao corpo, garantindo equilíbrio existencial ao homem (12).
Essa discussão é compartilhada pela teoria da “logoterapia”, que se concentra no sentido da existência humana e diz que o sentido da vida é a principal forma motivadora do viver (13).
Outra categoria encontrada é a “Percepção das Necessidades Espirituais”, que elenca e discute os meios pelos quais os entrevistados percebem a necessidade do aspecto espiritual em relação ao cliente.
Fundamentalmente, emergiram as seguintes subcategorias “cuidar do próximo com amor”, “paz e segurança para o próximo”, “praticar a religião”, “fé
como base”, “conforto” e “motivação”, enfatizando que a necessidade espiritual está mais atrelada a uma prática religiosa; em acreditar em “algo”; uma questão de fé como essência e fundamento.
Existem evidências crescentes de que a religiosidade está associada à saúde mental: a revisão sistemática de aproximadamente 200 artigos, realizada por Panzini (14) demonstrou a associação positiva em 50% dos casos e neste estudo a
religiosidade foi considerada como sendo um fator protetor contra suicídio, abuso de drogas e álcool e sofrimentos psicológicos.
Observou-se também a categoria da “Assistência espiritual e o ensino”, na qual os participantes foram questionados sobre a importância de aprender a realizar cuidado espiritual durante a graduação, o que gerou respostas positivas, colocando-se ser o papel do enfermeiro prover assistência de base científica e propiciadora de conforto para o paciente.
Esse relato está de acordo com outra pesquisa,que teve como sujeitos trinta enfermeiros e que concluiu existir necessidade de os cursos de graduação ampliarem a discussão acerca da espiritualidade e da assistência espiritual ao cliente (5).
A respeito da questão que discutia a influência da espiritualidade na cura e na recuperação do cliente, surgiu a categoria “Espiritualidade, fé e cura”, obtendo dos entrevistados na sua totalidade e de forma unânime a afirmação “sim”; acreditam que a espiritualidade interfere de forma relevante e concreta no tratamento de diversos diagnósticos.
Evidenciada pela subcategoria, a fé como influência positiva pode causar no paciente uma sensação de bem-estar físico e mental.
Isso condiz com um dos pioneiros nos estudos científicos do potencial da cura pela fé, que reuniu ao longo dos anos resultados de pesquisas que demonstram ser a fé não só capaz de prevenir, como também, poder ajudar na recuperação de doenças graves (15).
Outro estudioso do assunto, Benson16 procura explicar a fisiologia envolvida na
cura pela fé, indicando em seus estudos que 60% a 90% da procura pelos serviços de saúde envolvem doenças relacionadas ao estresse, hipertensão, insônias e problemas cardiovasculares.
Para o autor, esses pacientes possuíam um alto índice de norodrenalina e adrenalina, os chamados hormônios do estresse.
Para praticar suas orações, a pessoa se coloca em estado de concentração. Isso desacelera os batimentos cardíacos e a respiração, ela vai relaxando gradualmente. Conforme avança com as orações, reduz a velocidade de
suas ondas cerebrais. De que outra forma se consegue esse efeito no ser humano? Só com medicamentos. Sendo assim, a oração, movida pela fé, atua indiretamente no bem-estar e na recuperação (16).
Na última categoria central, a “importância do atendimento espiritual”, os entrevistados consideram necessário oferecer ao cliente uma assistência espiritual, buscando fornecer segurança ao paciente e “ver o outro como um todo”.
Esse olhar holístico na enfermagem vem se desenvolvendo há alguns anos na percepção de que pequenos gestos de afeto e atenção influenciam na recuperação do paciente, pois ele precisa encontrar pessoas solidárias que o auxiliem no enfrentamento de seu mal físico e de suas necessidades espirituais (17).
CONCLUSÃO
Objetivando desvelar os significados da espiritualidade, percebeu-se a existência de falta de clareza, também, para os discentes de enfermagem sobre o que é a espiritualidade.
Outro aspecto importante levantado neste estudo é que o tema provoca um questionamento pessoal com relação à sua base religiosa, sobre sua concepção de homem e o sentido da vida; questões que geram conflitos íntimos, muitas vezes não conclusivos.
Identificou-se a relação entre a espiritualidade e a dimensão do cuidar, evidenciada pela necessidade da discussão formal dessa temática no ensino de graduação em Enfermagem, podendo ser a essência do trabalho da enfermagem o cuidar do indivíduo em sua dimensão como um ser bio-psico-social e espiritual.
Utilizar as definições da Nanda e testar os indicadores propostos para detectar o “sofrimento espiritual” pode ser um ponto de partida para uniformizarmos essa linguagem.
Espera-se que a partir da reflexão apresentada nesta pesquisa novos interesses, tanto acadêmicos como profissionais sigam nesse sentido e passem a utilizar a espiritualidade para modificar seu modelo de ser e aprender. Espera-se trazer o cuidado em uma nova perspectiva, direcioná-lo para a espiritualidade, fazer com que ocorra uma conscientização desses profissionais para a necessidade de olhar o outro não somente como doença, mas como pessoa, um ser humano que tem suas individualidades.
REFERÊNCIAS
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Artigo elaborado a partir da monografia intitulada “Espiritualidade: o significado no contexto do acadêmico de enfermagem” apresentada às Faculdades Integradas Teresa D’ Ávila.
Responsável pela submissão
Fabiano Fernandes de OliveiraRecebido em 10/03/2012 Aprovado em 01/05/2012