Distinção conceitual
Ensino da Religião: prática específica de
evangelização, catequização ou doutrinação em espaços formais ou informais.
Ensino Religioso: prática sistemática de instrução
religiosa nos estabelecimentos de ensino, com o caráter de ‘disciplina escolar’.
Ensino leigo: práticas educativas pautadas na
liberdade de consciência e no caráter “público” da escola.
Ensino Religioso: componente curricular responsável por
assegurar o respeito à diversidade religiosa, sem proselitismo.
O Ensino da Religião
Os reis de Portugal buscaram estabelecer na colônia
brasileira um Estado Católico;
O ‘Estado’ assumiu um caráter eminentemente
confessional;
No contexto do século XVI, ao rei cabia zelar pela
vivência e execução dos valores religiosos; administrar os dízimos; sustentar os clérigos; garantir os estatutos jurídicos das ordens religiosas, etc. (Paiva, 2004).
Regime do padroado.
O Ensino da Religião
A Religião (Igreja Católica) não estava à parte, mas
amalgamada à tessitura do todo social;
O religioso estava profundamente incorporado ao
poder político, cabendo àquele evangelizar e doutrinar, especialmente aos (ainda) não cristãos;
Tanto o rei como o clero eram responsáveis pela
instrução popular: colégios foram instalados para conjugar o indissociável ensino da fé e das letras.
Era impensável a educação não ser religiosa!
O Ensino da Religião
Coube às ordens religiosas, como a jesuíta e a
franciscana, a tarefa da catequese e instrução;
O ensino da religião se fundiu a um processo de
subjugação dos povos indígenas, produzindo a subalternização cultural de fundo religioso;
Mais tarde, a mesma estratégia foi utilizada para com
os povos africanos trazidos ao Brasil;
Processo de conversão do outro e negação da
diversidade religiosa.
O Ensino Religioso
A instalação da Monarquia não produziu ruptura da
lógica colonial-confessional;
A Igreja continuou respaldada pelo poder estatal no regime do regalismo, que fazia do Imperador a
autoridade maior da Igreja Católica;
A primeira Constituição do país, de 1824, previa, em
seu artigo 5º, que a “religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império” (Brazil, 1924).
O Ensino Religioso
A Igreja mantinha uma relação privilegiada com o
Estado, cabendo-lhe a responsabilidade direta pela instrução, conforme previsto no Artigo 6º do Decreto Imperial de 15 de outubro de 1827:
“[...] os professores ensinarão a ler, escrever as quatro operações de arithmética, prática de quebrados, decimaes, proporções, as noções, mais geraes de geometria prática, a gramática da língua nacional, e os princípios de moral christã e da doutrina da religião cathólica apostólica romana, proporcionados à compreensão dos meninos; preferindo para as leituras a Constituição do Império e a história do Brasil”.
O Ensino Religioso
Decreto nº 630/1851, que reformou o ensino primário e
secundário do Município da Corte, ao estabelecer uma divisão nas escolas públicas, definiu os conteúdos específicos para cada uma:
Nas [escolas] de segunda classe o ensino deve limitar-se á leitura, calligraphia, doutrina christã, principios elementares do calculo e systemas mais usuaes de pesos e medidas.
Nas [escolas] de primeira classe o ensino deve, alêm disto, abranger a grammatica da lingua nacional, e arithmetica, noções de algebra e de geometria elementar, leitura
explicada dos evangelhos, e noticia da historia sagrada,
elementos de geographia, e resumo da historia nacional, desenho linear, musica e exercicios de canto (BRASIL, 1851).
O Ensino Religioso
O Decreto nº 7.427/1879, que reformou o ensino primário e secundário no município da Corte e em todo o Império, estabeleceu que a “Instrução moral” e a “Instrução religiosa” constituía “disciplina” do ensino primário:
“Os alumnos acatholicos não são obrigados a frequentar a aula de instrucção religiosa que por isso deverá effectuar-se em dias determinados da semana e sempre antes ou depois das horas destinadas ao ensino das outras disciplinas” (BRASIL, 1879).
O Ensino Religioso
Fatos novos:
- O Ensino da Religião, que até então estava integrado ao das demais matérias, passou a ser disciplina, ‘distinto’ das ciências escolares;
- Pela primeira vez a legislação reconhece a existência de estudantes ‘não católicos’, abrindo a possibilidade da ‘facultatividade’ do Ensino Religioso, oferecido agora ‘fora’ dos horários normais do ensino das demais Ciências.
O Ensino Leigo
Com a República, o Decreto nº 119-A de 1890: extinguiu o regime do padroado;
proibiu o Estado de eleger ou vetar alguma religião ou
de criar diferenças de tratamento entre cidadãos por motivos de crenças, adesão filosófica ou religiosa;
Assegurou a liberdade religiosa, para que todas as
confissões pudessem praticar seus cultos;
A Constituição de 1891, estabeleceu que fosse “leigo o
ensino ministrado nos estabelecimentos públicos” (§6º, Art. 72, Brasil, 1891).
O Ensino Leigo
A partir de então, o Ensino Religioso deveria ser
excluído, já que representava a permanência do elemento eclesial na escola.
Mas a questão da sua exclusão ou permanência se
tornou um dos temas mais polêmicos da história da educação brasileira.
As disputas em torno da questão marcaram as
constituintes estaduais realizadas no final do século XIX;
O Ensino Leigo
Surgiram movimentos pós e contra, os quais deram
origem a distintos encaminhamentos em âmbito regional, estadual e nacional;
Vários Estados (CE, MG, RS, SE, PE e SC) ‘flexibilizaram o
ensino leigo’, mantendo ou reintroduzindo o ER;
Esta flexibilização ocorreu por conta da mobilização
regional da Igreja, que militou não somente com as congregações religiosas, mas também disputando a opinião pública através da imprensa.
Ensino Leigo x Ensino Religioso
Tão logo Vargas iniciou o Governo Provisório, criou o
Ministério da Educação e da Saúde Pública, nomeando Campos como ministro;
Em troca de apoio político, Vargas estreitou as relações
com a Igreja, concedendo à ela alguns dos seus pedidos;
Inspirado na ‘solução mineira’, Campos atendeu o
desejo dos católicos e acabou regulamentando o ER nos cursos primário, secundário e normal, através do Decreto n° 19.941, de 30 de abril de 1931:
Ensino Religioso
Art. 1º Fica facultado, nos estabelecimentos de instrução primária, secundária e normal, o ensino da religião.
Art. 4º A organização dos programas do ensino religioso e a escolha dos livros de texto ficam a cargo dos ministros do respectivo culto [...]
Art. 5º A inspeção e vigilância do ensino religioso pertencem ao Estado, no que respeita a disciplina escolar, e às autoridades religiosas, no que se refere à doutrina e à moral dos professores.
Art. 6º Os professores de instrução religiosa serão designados pelas autoridades do culto a que se referir o ensino ministrado (Brasil, 1931).
Ensino Religioso
Em meio a fortes embates, a Constituição de 1934 definiu que o
ER de,
“freqüência facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão religiosa do aluno manifestada pelos pais ou responsáveis” e que “constituiria matéria dos horários nas escolas públicas primárias, secundárias, profissionais e normais” (Brasil, 1934).
Nota-se:
Manutenção da fórmula da facultatividade.
Inclusão definitiva da disciplina no horário escolar.
Persistência do caráter confessional garantindo a
continuidade do controle das autoridades religiosas sobre a “escola laica”.
Ensino Religioso
Em detrimento da laicidade do Estado, a oferta
facultativa foi a ‘solução’ encontrada pelos legisladores para garantir o direito à liberdade de consciência dos não católicos.
Tal formulação, ambígua e contraditória, foi adotada
por todas as demais Cartas Magnas do século XX;
Até meados da década de 1990, o ER continuou
diretamente vinculado às instituições religiosas, enquanto disciplina confessional nas escolas;
Constituição Federal 1988
Art. 210:
§ 1º - O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá
disciplina dos horários normais das escolas públicas de
1995: Fundação FONAPER
19
LDB 9.394/96
O Ensino Religioso na Escola de hoje
Art. 33 em sua redação alterada pela Lei nº 9.475/97:
“O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental,
Currículo do Ensino Religioso
Primeiras Orientações Nacionais (Pós 1997)
Ensino Religioso
ESTUDO DOS
FENÔMENOS RELIGIOSOS
• Proporcionar o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, a partir das experiências religiosas vivenciadas no contexto dos educandos;
Objetivos do Ensino Religioso
Analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas e manifestações socioculturais;
Objetivos do Ensino Religioso
Valorizar a diversidade cultural presente na sociedade, a fim de auxiliar na convivência entre identidades e diferenças, no constante propósito da promoção dos direitos humanos.
Eixos Organizadores do Conteúdo
Culturas e Tradições Religiosas;
Textos Sagrados;
Teologias;
Ritos;
Ethos.
Tratamento Didático
Ensino-Aprendizagem:
- Problematização; - Contextualização; - Debates; - Leituras; - Análises; - Pesquisas; - Produções; - Reflexões;Função Social
- (Re)conhecimento da diversidade religiosa;
- Valorização das identidades pessoais e sociais;
- Ruptura com as formas excludentes de compreender a diversidade (processos de exclusão e desigualdade);
Formação Continuada de Docentes
Caderno 01: ER: disciplina integrante da formação básica do cidadão Caderno 02: ER na diversidade cultural-religiosa do Brasil
Caderno 03: ER e o conhecimento religioso
Caderno 04: O Fenômeno Religioso (FR) no Ensino Religioso
Caderno 05: ER e o FR nas Tradições Religiosas de Matriz Indígena Caderno 06: ER e o FR nas Tradições Religiosas de Matriz Ocidental Caderno 07: ER e o FR nas Tradições Religiosas de Matriz Africana
Caderno 08: ER e o FR nas Tradições Religiosas de Matriz Oriental Caderno 09: Ensino Religioso e o Ethos na vida cidadã
Caderno 10: ER e os seus Parâmetros
Caderno 11: ER na Proposta Pedagógica da Escola. Caderno 12: ER no Cotidiano da Sala da Aula.
Base Comum Nacional
Integram a base nacional comum nacional:
a) Língua Portuguesa; b) Matemática;
c) Conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena,
d) a Arte, em suas diferentes formas de expressão, incluindo-se a música;
e) a Educação Física; f) o Ensino Religioso.
Currículo EF9 anos
Os componentes curriculares obrigatórios do Ensino Fundamental serão assim organizados em relação às áreas de
conhecimento: I – Linguagens:
II – Matemática;
III – Ciências da Natureza; IV – Ciências Humanas:
V – Ensino Religioso.
http://basenacionalcomum.mec.gov.br/
Ações Concretas
Projeto Cultura Negra na Escola - Diversidade Religiosa Brasileira: A Força Negra
Autoras: Adriana Candido Delphino e Cleusa Schmidt Krüger (Jaraguá do Sul)
Prêmio Elpídio Barbosa – CEE/SC 2010
http://www.fonaper.com.br/noticia.php?id=1011
Ações Concretas
Projeto Cultura e religiosidade africanas nas aulas de ensino religioso
Autor: Morche Ricardo Almeida
Escola Básica Municipal Machado de Assis (Blumenau/SC)
http://www.fonaper.com.br/noticia.php?id=967
Referências
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