A MÍSTICA E SUAS INTERSEÇÕES TEATRAIS Lenilton Teixeira
UFRN
Palavras-chave: Mística, criação ,teatralidade
Este texto tem como objetivo traçar um diálogo com a Mística, no que se refere às categorias de criação artístico-teatrais evidenciadas em seu processo de construção.
O presente texto tem como objetivo traçar um diálogo entre a Mística, objeto de nosso estudo, em seus aspectos de criação artístico-teatral, e as manifestações populares empreendidas pelo MST, na forma como se configuram suas representações sob uma concepção ideológica.
A mística que observarei é uma atividade realizada pelo MST, que traz características e elementos semelhantes à apresentação teatral, sua prática situando-se num campo laico e ideológico, encarada como um elemento de grande importância na formação e manutenção do espírito de luta de seus integrantes, como afirma NETO:
Nesse aspecto, a mística constitui-se num importante elemento de formação, que ajuda a manter viva a esperança de um povo que por algum tempo havia se acostumado à falta de esperanças e de alternativa de vida. Para o MST, mística significa o conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam as pessoas e movimentos na vontade de mudanças, ou que inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face aos fracassos históricos. (NETO, 1999, p.36-37).
Estando associada a um objetivo pedagógico e de luta, a Mística traz em seu processo de criação elementos que fazem interseções com o teatro – “figurino”,
“cenário”, “texto”, música, “atores” e “espectadores”. Nesta pesquisa buscaremos compreender o processo de criação/prática da Mística frente ao processo de criação/
prática teatral, tentando estabelecer um dialogo que torne possível perceber que tipo de intercessão há no que se refere a sua teatralidade.
A pesquisa será realizada numa perspectiva analítico-crítica focalizando os aspectos teatrais e metodológicos que compõem a preparação e realização da mística e suas possíveis intercessões com o fazer teatral.
Segundo PEIXOTO, teatro é
Um espaço, um homem que ocupa este espaço, outro homem que o observa. Entre ambos, a consciência de uma cumplicidade, (...) o primeiro sozinho, ou acompanhado, mostra um personagem e um comportamento deste personagem numa determinada situação, através de palavras ou gestos, talvez através da imobilidade e do silêncio, enquanto que o segundo, sozinho ou acompanhado, sabe que tem diante de si uma reprodução, falsa ou fiel, improvisada ou previamente ensaiada, de acontecimentos que imitam ou reconstituem imagens da fantasia ou da realidade. O primeiro, ou os primeiros são movidos por um impulso criativo que incorpora emoção e razão num ato de desenfreada ou controlada entrega, celebrando um ritual quase místico de epidérmica necessidade, ou exercendo a rigorosa tarefa de uma profissão complexa e densa. Enquanto o segundo, ou os segundos, assistem passiva ou ativamente, entorpecidos por uma magia que os envolve numa cerimônia que faz fugir da própria realidade para um mergulho num universo de encantamento ou mentira ou ilusão, ou, ao contrário, aprofundam o conhecimento lúdico e crítico da própria realidade que os cerca (...) (Peixoto, 2003, p. 9-10)
O que é possível encontrar de interseção na Mística? Vejamos num primeiro momento o “personagem”. No teatro, quando abordamos o personagem, associamos este a um trabalho de construção do ator que passa por diversas etapas até uma aproximação (às vezes quase mimética) da representação que o ator e/ou o encenador deseja para se aproximar do que se pretende da encenação. Cabe ao ator e ao encenador/diretor a escolha de abordagens estéticas e formas de trabalho preparatório que orientem essa construção. Tanto ator como encenador/diretor devem caminhar numa mesma linha, o personagem sendo fruto de uma construção elaborada.
Na mística, o “personagem” aparece para tornar mais claro o que se deseja ressaltar naquele momento, e em alguns momentos se confunde com os próprios militantes. A escolha de cada “personagem”/participante obedece também ao número de integrantes que irão organizar cada mística (cada núcleo têm em média oito militantes, que podem, caso desejem, convidar membros de outros núcleos para realizar a mística). A escolha pode passar também pela admiração do militante para com a personalidade a ser
representada (a grande maioria sendo mártires e ídolos que representam as lutas de classes). A “preparação” para representar essas “personalidades” ocorre de forma simples, rápida, prática e objetiva. Tudo pode ser definido em algumas horas de preparação.
O “cenário" - quando a estrutura material do local onde se encontram os militantes é grande, costuma-se não “economizar” nestes elementos:
Bandeiras, tecidos e objetos do cotidiano do Movimento são utilizados para “decoração.”
Assim, de algum modo cada elemento tem maior ou menor destaque de acordo com a estrutura de cada local.
Percebe-se que a Mística tem no texto (texto escrito/literário) o elemento mais importante na sua “representação”. O texto que surge vem das palavras de ordem, das poesias, das falas emocionadas dos militantes, dos gestos simples dos homens, mulheres e crianças. Estão presentes nos símbolos sempre requisitados: enxadas, foices, facões, a bandeira do MST, a bandeira brasileira e de outros países, como é o caso de Cuba.
Outro dado importante é a emoção, considerada um critério muito forte para avaliar uma boa mística, ou seja, quanto mais emocionados seus participantes e
“espectadores” ficam, maior terá sido o efeito da mística sobre eles.
A bandeira do MST fica sempre em destaque, enxada e foice também fazem parte desses símbolos, assim também como bandeiras de outros países da América Latina. Outro elemento importante é o deslocamento, quando o MST faz suas marchas com centenas de trabalhadores. Nesse momento a grande massa de pessoas caminhando com bandeiras e ferramentas de trabalho forma uma espécie de “cortejo” /Mística.
Esses elementos que compõem a Mística nos levam a crer que a mesma está situada em uma fronteira artístico-teatral, embora esses primeiros dados ainda não sejam suficientes para se afirmar o campo de processo de interseção dos elementos da teatralidade com os elementos que compõem a mística.. Quando nos referimos as interseções do teatro com a mística, compreendemos o conceito de interseção partindo do que nos diz Aurélio (2006, P.:): Operação por meio da qual se forma o conjunto de todos os elementos que pertencem simultaneamente a dois ou mais conjuntos.
Quando observamos a utilização dos elementos teatrais, cenários, figurino, adereços, texto, ator/atriz, pelo MST, notamos que a transgressão ao usar esses elementos pode associar a mística num primeiro olhar a uma prática pós-dramática (LEHMANN 2007, p19). No que se refere à Performance nos diz COHEN :
A apresentação de uma performance muitas vezes causa choque na platéia (acostumada aos clichês e à previsibilidade do teatro). A performance é basicamente uma
arte de intervenção, modificadora, que visa causar uma transformação no receptor.. A performance não é, na sua essência, uma arte de fruição, nem uma arte que se proponha a ser estática (muito embora, como já levantamos, se utilize de recursos cada vez mais elaborados para conseguir aumentar a
“significação” da mensagem.) (COHEN: 1989, p. 45, 46)
É importante observar que apenas a aproximação de um conceito com a Mística não a define de forma plena, devido às várias possibilidades de associações da mesma a outras esferas do conhecimento, como nos mostra ainda em relação ao termo performance GOLDBERG (2006):
A expressão “arte da performance” tornou-se uma palavra- ônibus que designa todo tipo de apresentações ao vivo - de instalações interativas em museus, a desfile de moda cheio de criatividade e djs em casa noturnas-, obrigando tanto o público quanto os críticos a elucidar as respectivas estratégias conceituais, verificando se e ajustam mais aos estudos da performance ou a uma análise mais convencional da cultura popular. Nos círculos acadêmicos os estudiosos estão produzindo um vocabulário para a análise crítica, bem como uma base teórica para o debate – o termo “performativo”, por exemplo, usado para descrever o engajamento espontâneo do espectador e do performer na arte, também passou para esfera da arquitetura, da semiótica, da antropologia e dos estudos do gênero sexual.
(GOLDBERG, 2006, p.216)
O emprego da palavra – ônibus para “arte da performance” também pode ser atribuído de certa forma à mística, a qual é usada no campo da religiosidade, do misticismo e, por vezes de uma forma preconceituosa, com significado pejorativo.
Nesta pesquisa, quando falamos em interseção, performance, teatro, e teatro pós – dramático, estamos nos referindo às relações mais diretas que vislumbramos e com as quais dialogaremos com a Mística em seu processo de criação.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BEZERRA NETO, Luiz. Sem-terra aprende e ensina: estudo sobre as práticas educativas do movimento dos trabalhadores rurais. Campinas, SP: Autores Associados, 1999.
PEIXOTO, Fernando. O que é teatro. São Paulo, SP: Brasiliense, 2003.
GOLDBERG, Roselee. A arte da performance: do futurismo ao presente. Tradução Jefferson Luiz Camargo.São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.
LEMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático: São Paulo, SP: Cosac Naif, 2007.