PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Bruno Vinciprova Pileggi
Metamorfose do risco
:Uma mudança paradigmática da pós-modernidade
MESTRADO EM DIREITO
São Paulo 2020
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Bruno Vinciprova Pileggi
Metamorfose do risco
:Uma mudança paradigmática da pós-modernidade
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Direitos Difusos e Coletivos, sob orientação do Professor Doutor Marcelo Gomes Sodré.
São Paulo 2020
Bruno Vinciprova Pileggi
Metamorfose do risco
:Uma mudança paradigmática da pós-modernidade
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Direitos Difusos e Coletivos, sob orientação do Professor Doutor Marcelo Gomes Sodré.
Aprovado em: ___/___/___
Banca Examinadora:
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Dedico esta obra ao meu querido sogro José Antônio Vinciprova Machado, por todas as razões que sejam, mas principalmente por ser como sinto no meu coração neste momento.
AGRADECIMENTOS
Agradeço inicialmente ao professor Marcelo Gomes Sodré pela orientação e amizade ao longo desta jornada, especialmente por ter me apresentado um novo mundo de temas e discussões sem os quais esta obra não existiria.
Minha gratidão às queridas professoras Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida e Regina Vera Villas Bôas, por todo o ensinamento, todo o apoio e por terem o poder de transformar as pessoas em pessoas melhores.
À minha amada esposa Renata Vinciprova Pileggi, com quem divido todas as minhas alegrias e aflições, por todo amor, dedicação e por sempre acreditar em mim.
Ao meu avô, Marcus Vinicius Pereira da Silva, exemplo de magistrado cujos valores morais incutiram em minha formação intelectual.
Por fim, agradeço aos queridos colegas Breno Ávila de Souza Pereira e Geraldo Lavigne, pela amizade e pelos momentos de descontração, essenciais à nossa conturbada existência.
Abraço fraterno a todos!
“No fim das contas, entre a Babilônia imaginada por Borges e o mundo que a modernidade outrora nos prometeu - que Jean-Paul Sartre captou na frase sublime ‘le choix que je suis’ (‘a escolha que eu sou’) - jaz o interregno no qual estamos vivendo agora: um espaço e um tempo estendidos, móveis, imateriais, sobre os quais reina o princípio da heterogenia de fins, talvez como nunca antes. Uma desordem que é nova, mas ainda assim babélica.”
Zygmunt Bauman
RESUMO
O presente trabalho ocupa-se do estudo das relações sociais contemporâneas e seus impactos sobre o meio ambiente, analisando-os a partir de três pressupostos teóricos complementares. O interrogante de pesquisa é: os riscos globais estão moldando nossa sociedade para um novo caminho? O primeiro pressuposto visa situar e explicar a sociedade no momento denominado de pós-modernidade. O segundo é a descrição da sociedade a partir da teoria da sociedade de risco mundial. Já o terceiro — de cunho mais filosófico — é o momento da virada cosmopolita, através da apresentação da teoria da metamorfose, tal como desenvolvida por Ulrich Beck.
Emergindo na discussão global das últimas décadas, os temas discutidos associam o problema da condição e do desenvolvimento humano, bem como da ordem político-econômica mundial, ao surgimento de uma sociedade de riscos de alta complexidade e consequentemente ao reconhecimento da fragilidade e vulnerabilidade da natureza e da própria sobrevivência humana na Terra. Partindo de sólida pesquisa bibliográfica e de exemplos práticos, portanto, o texto instiga o leitor a questionar, sob vários ângulos, as vantagens e limites da sociedade de risco, contrapondo-a sempre com novas possibilidades teóricas. O objetivo, entretanto, não é oferecer interpretações ou respostas concretas acerca dos problemas sociais que enfrentamos, e sim possibilitar e fomentar — através de seu reconhecimento — uma reflexão crítica capaz de contribuir com uma mudança de hábitos sociais que, mais do que nunca, se mostra necessária.
Ao fim, as considerações finais buscam elencar algumas possibilidades teóricas advindas da pesquisa, descortinando inquietações mais profundas, de modo a permitir ou suscitar o debate e a reflexão acerca dos rumos que decidiremos tomar enquanto sociedade global.
Palavras-chave: Pós-modernidade. Reflexividade. Sociedade de risco. Metamorfose. Ética.
ABSTRACT
The present work aims to study contemporary social relations and their impacts on the environment, analysed from three complementary theoretical assumptions. The query is: are global risks shaping our society into a new way of life? The first assumption situates and explains society at the moment called post-modernity. The second describes society based on the theory of world risk society. The third, more philosophical, is the moment of the cosmopolitan turn, presented in the theory of metamorphosis, as developed by Ulrich Beck.
Emerging in global discussion of the last decades, the topics discussed associate the problem of human condition and development, as well as the world political-economic order, with the emergence of a highly complex risk society and, consequently, with the recognition of nature's fragility and vulnerability and human survival itself on Earth. Based on solid bibliographic research and practical examples, this study encourages the reader to question, from various angles, the advantages and limits of the risk society, always contrasting it with new theoretical possibilities. The objective, however, is not to offer interpretations or concrete answers about the social problems we face, but to enable and encourage — through their recognition — a critical reflection capable of contributing to a change in social habits that, now more than ever, apear to be necessary. In the end, the final considerations seek to list some theoretical possibilities arising from this research, unveiling deeper concerns, in order to allow or raise the debate and reflection on the directions we will decide to take as a global society.
Keywords: Postmodernity. Reflexivity. Risk Society. Metamorphosis. Ethics.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ………... 10
1. PÓS MODERNIDADE E A LIQUIDEZ DO MUNDO ………... 14
1.1 Da providência ao niilismo ………... 16
1.1.1 A pré-modernidade ………... 16
1.1.2 A modernidade ………... 17
1.1.3 A pós-modernidade ………... 19
1.2 A desvalorização da vida e da natureza ………. 22
1.3 Consumo, logo existo: uma resposta ao descontentamento ………. 25
1.4 Do modelo piramidal à sociedade em rede ……….... 28
1.5 Da tecnologia ao risco ………... 30
2. A EMERGÊNCIA DE UMA SOCIEDADE DE RISCOS ………... 31
2.1. O que há de novo em nossa sociedade? ………. 34
2.2 Ciência apocalíptica ……… 38
2.3 Risco e perigo: realidades de uma sociedade amedrontada ………. 41
2.4 Reflexividade: da primeira à segunda modernidade ………... 45
2.5 Riscos globais e intergeracionais ………... 47
2.6 Riscos naturais ou intervenção humana? ……….. 50
3. METAMORFOSE DO MUNDO ……….. 53
3.1 O porquê da metamorfose: um esclarecimento conceitual ………... 54
3.1.1 Virada Copernicana 2.0 ………... 58
3.1.2 Catastrofismo emancipatório ……….... 60
3.2 Riscos ambientais e metamorfose: como o exemplo da catástrofe climática pode salvar o mundo ………... 62
3.3 Desglobalização ………... 69
3.4 Nietzsche e a metamorfose ………... 71
3.5 Uma visão do futuro ……… 73
3.6 Ética: uma proposta para o futuro ……… 75
3.7 Os efeitos do presente sobre o futuro como proposta ética ……….. 76
3.8 Prática moral e ética em tempos de metamorfose ………. 80
CONSIDERAÇÕES FINAIS ……… 85
REFERÊNCIAS ……….... 88
INTRODUÇÃO
Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar. A pandemia de COVID-19 que assola nossa sociedade desde o início de 2020 foi o que bastou para que presenciássemos uma verdadeira transformação do nosso modo de agir e pensar as relações sociais. Como que em um passe de mágica, de repente os preços dos combustíveis baixaram, os índices de poluição em países ultra industrializados como a China começaram a despencar, as águas de Veneza recebem os peixes e golfinhos há anos desaparecidos, o racionamento daquilo que a natureza nos provê se tornou uma realidade, as pessoas reencontraram um antigo conhecido, o tempo.
Tanto tempo de sobra que ninguém sabe ao certo o que fazer com ele. Famílias inteiras estão reunidas novamente em casa, jantando todos na mesma mesa e ao mesmo tempo. Depois de alguns dias o trabalho deixou de ser prioritário, assim como as viagens e o lazer fútil também.
Sem perceber, silenciosamente, tomamos consciência do nosso próprio ser e pela primeira vez entendemos o valor da palavra solidariedade.
Embarcamos todos em um único barco da democracia social, ricos e pobres, brancos e negros, cristãos ou muçulmanos, sem distinção. A cada dia que passa, as prateleiras dos supermercados vão esvaziando, as academias vão ficando às moscas, os shopping centres fecham suas portas. Enquanto isso os leitos hospitalares estão cada vez mais cheios e não há dinheiro ou seguro de saúde executivo que garanta o uso do último respirador mecânico disponível. Nas garagens e nas ruas das cidades estão parados igualmente os carros top de linha e ferros-velhos antigos, simplesmente porque ninguém pode sair.
Bastaram alguns meses, ou talvez dias, para que a sociedade global colocasse em prática
— ainda que de forma rudimentar — os tão sonhados preceitos de liberdade, igualdade e fraternidade sociais imaginados por François Fénelon ao final do século XVII e difundidos pelos líderes da Revolução Francesa, mas que até então pareciam ser impossíveis de a sociedade incorporar. Certo é que o medo invadiu a todos e a consciência de nossa vulnerabilidade abriu nossos olhos para a mudança necessária.
Embora soe como ficção, os fatos narrados acima demonstram de forma clara aquilo que se pretende com o presente trabalho: fomentar a reflexão acerca da conexão entre o desenvolvimento social e o meio ambiente em que estamos inseridos. Sem dúvida vivemos hoje a maior crise global de nossos tempos, crise esta capaz de moldar definitivamente a forma como vivemos e nos relacionamos econômica, política e culturalmente. Conforme bem advertiu Yuval Noah Harari, “Yes, the storm will pass, humankind will survive, most of us will still be
alive — but we will inhabit a different world”1. Mas que mundo será esse? Voltaremos aos antigos hábitos sociais de outrora? Esqueceremos o que passou na mesma velocidade com que fomos atacados? Ou será esse o momento da virada? O que quer que seja, não podemos cair na armadilha do discurso simplista enquanto encaramos um problema jamais imaginado.
Certamente não encontraremos respostas óbvias e quaisquer decisões precipitadas podem ser nocivas para toda uma gama de indivíduos. Mas uma coisa é certa, o momento é oportuno para a reflexão.
Reflexão esta que já havia feito Friedrich Nietzsche:
É tempo de que o homem visualize um objetivo para si. É tempo de que o homem plante a semente de sua mais alta esperança. Ainda é seu solo bastante rico. Mas um dia, pobre e avaro será ele, e, nele, já não poderá mais crescer nenhuma árvore elevada. Ah! Aproxima-se o tempo, em que o homem não lançará mais a flecha de seu desejo acima dos homens, e em que as cordas de seu arco já não saberão mais vibrar. Eu vos digo: é necessário ter um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela bailarina. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós.2
Assim como Zaratustra — fraco e exaurido pelo caos do seu mundo — subiu a montanha para buscar a luz e retornar à vida, chegado o século XXI repetimos seus passos e subimos não a montanha, mas ao cume do mundo dos ideais pós-modernos para tentar enxergar onde nos perdemos, onde nos encontramos e daqui para onde iremos.
Olhando ao nosso redor, a busca pelo conhecimento e pelo desenvolvimento material levou nossa sociedade em direção a danos extremamente nocivos para a natureza e, por consequência, para o próprio ser humano. Isso se deu, em grande parte, em virtude do desinteresse ou desatenção dada às consequências que o progresso descontrolado da técnica deixaria de herança.
Com o advento da modernidade clássica, caracterizada pelo seu acentuado grau de racionalidade e com o fortalecimento do regime de produção e de mercado capitalistas — que deram azo a uma sociedade construída sobre a lógica do lucro e do consumo desgovernados — vemos emergir as primeiras vicissitudes do paradigma da modernidade, fruto do conceito de total domínio do homem sobre a natureza através da ciência e da tecnologia. Sem sombra de dúvida os avanços na esfera social foram muitos, mas, paradoxalmente, riscos e perigos nunca antes imaginados passaram e fazer parte constante da vida em sociedade. Com o avanço da
1 HARARI, Yuval Noah. The world after coronavirus. Financial Times. London: 20 mar. 2020. Disponível em:
<https://www.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9-1fe6fedcca75>. Acesso em: 27 mar. 2020.
2 NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 19.
sociedade de mercado e, concomitantemente, com as novas relações sociais resultantes do rápido avanço da globalização, instaurou-se também o estremecimento ecológico. Nesse contexto, nos primeiros passos da pós-modernidade, passamos a viver em uma nova sociedade, na qual a produção social de riquezas abre espaço para a produção social de riscos.
Assim, diante de uma verdadeira crise civilizacional, a questão ambiental em seu sentido mais amplo, afetada por um longo processo histórico de domínio e devastação, também é diretamente afetada, descortinando consequências desastrosas à qualidade da vida na Terra.
Para tanto, é preciso estarmos preparados para enfrentar os novos cenários de riscos e incertezas com as quais somos ou poderemos ser acometidos a qualquer momento, através do desenvolvimento de uma consciência ecológica global.
O interrogante de pesquisa é: os riscos globais estão moldando nossa sociedade para um novo caminho? E o tema central do presente trabalho concentra-se no estudo das relações sociais e seus impactos sobre o meio ambiente a partir de três hipóteses teóricas distintas, mas conexas. Inicialmente propõe-se situar o momento atual de nossa sociedade, através do desenvolvimento histórico que nos levou ao que chamamos hoje de pós-modernidade. Em um segundo momento descreve-se a sociedade a partir da noção de sociedade de risco, tal qual proposta e difundida pelo sociólogo alemão Ulrich Beck. Por fim, centra-se a pesquisa no momento de transformação social, através da análise da teoria da metamorfose do risco, suas consequência e possíveis alternativas teóricas para o futuro.
Portanto, como veremos, a sociedade de riscos globais coloca como temática central do debate social o lado sombrio do progresso científico e tecnológico, verbi gratia, a desolação do meio ambiente natural, a possível destruição em massa da espécie humana e a nossa autocolocação em situações de risco. No fim das contas, não podemos perder de vista que os riscos aos quais estamos submetidos são frutos da nossa própria civilização e das nossas escolhas. Significa dizer que, antagonicamente, o próprio processo de modernização produziu consequências que hoje vemos expor a risco as condições básicas para a vida, por meio deste mesmo recurso.
Partindo dessas premissas e através de extensa pesquisa bibliográfica e demonstração de casos relevantes, pretende-se então dividir o trabalho em três partes. Um primeiro capítulo denominado “Pós-modernidade e a liquidez do mundo”, no qual será analisada a formação histórica e dogmática da sociedade atual, resgatando principalmente as bases teóricas propostas por Zygmunt Bauman e as relevantes agitações sociais que levaram à formação da sociedade de riscos globais.
Na sequência, abordou-se a leitura das obras de Ulrich Beck e Anthony Giddens no
desenvolvimento do capítulo “A emergência de uma sociedade de riscos”, cujo propósito era contrastar o atual cenário de riscos em uma sociedade complexa em comparação com o passado não tão remoto, iniciando a reflexão acerca do que podemos esperar para o futuro do ambiente em que habitamos.
No capítulo derradeiro, nomeado de “Metamorfose do mundo”, buscou-se alinhavar os pontos anteriores, demonstrando como a concepção do risco proposta pela teoria da metamorfose pode se adequar às complexidades da atual sociedade, elencando ao fim algumas possibilidades ou propostas teóricas que podem contribuir de forma essencial à mudança esperada ou ao menos para a reflexão que aqui se propõe. Vale frisar que o presente trabalho não pretende de forma alguma dar respostas às questões mais complexas da nossa sociedade, mas sim possibilitar a reflexão sobre o momento.
1. PÓS-MODERNIDADE E A LIQUIDEZ DO MUNDO
Certa vez, ouvindo uma palestra proferida pelo bispo anglicano John Robert Reid, me deparei com a mais simples e talvez perfeita definição da pós-modernidade. Contava o bispo uma piada na qual dois marinheiros australianos desembarcaram em uma cidade portuária inglesa e, a fim de aproveitar a vida noturna da cidade, se dirigiram ao primeiro pub que encontraram. Depois de algumas bebidas e já um tanto embriagados, os dois saíram do estabelecimento, caminhando sob a forte neblina típica da região. Neste momento avistaram um homem que vinha caminhando em sua direção. Sem saber que tratava-se de um condecorado oficial naval britânico, os australianos se dirigiram a ele e foram logo perguntando: “Diga aí cara, você sabe onde estamos?”. Nitidamente ofendido o oficial retrucou: “Vocês tem ideia com quem estão falando?”. Eis que um australiano vira para o outro e diz: “Estamos realmente encrencados, nós não sabemos onde estamos e esse ai não sabe nem quem ele é”. Esta parece ser a mais pura explicação da pós-modernidade. Não sabemos onde estamos, quem somos, mas ainda assim estamos tentando entender algo sobre a nossa realidade.
Mas afinal, o que é pós-modernidade? Segundo o Modern-day Dictionary of Received Ideas3 “This word has no meaning. Use it as often as possible”4. O termo pós-modernidade tem sido utilizado com grande frequência das mais variadas formas imagináveis. Sua popularidade parece derivar da facilidade com que o termo pode significar qualquer coisa para qualquer um.
Mas não se deve assumir que não há importância no verdadeiro sentido da palavra. Teria a pós- modernidade induzido uma transformação radical na cultura, principalmente entre os Estados ocidentais e, em caso afirmativo, teria sido tal mudança boa ou ruim. Definir a pós-modernidade não é apenas definir um termo. É definir verdadeiramente uma era e, a partir daí, medir como responder às novas realidades que dela emergem5.
Quais seriam as características mais marcantes da nossa era? Talvez quem mais tenha
3 Atualização da obra satírica de Gustave Flaubert - Le Dictionnaire des Idées Reçues - originalmente publicado em 1911.
4 FEATHERSTONE, Mike. Consumer culture and postmodernism. 2. ed. London: SAGE, 2007.
5 Já de início vale estabelecer que não há consenso na doutrina sociológica especializada sobre a localização tempo- espacial da pós-modernidade. Embora para a vasta maioria de autores a pós-modernidade seja uma realidade social indiscutível, tratada como um período próprio em relação à modernidade tradicional, autores como Bruno Latour em “Jamais Fomos Modernos” ou Anthony Giddens em “As Consequências da Modernidade”, por exemplo, irão argumentar que a pós-modernidade nunca existiu como uma era autônoma (ou no caso do primeiro autor, jamais chegou a existir). Para todos os fins, entretanto, o presente trabalho - embora em determinados momentos se utilize das obras acima mencionadas - parte da premissa que a pós-modernidade é de fato um período independente e novo em relação à modernidade que a precedeu, na esteira do pensamento de Bauman, Ulrich Beck, Jean-François Lyotard, David Lyon, dentre outros.
se aproximado de uma explicação clara a respeito da condição pós-moderna seja Jean-François Lyotard, para quem a era pós-moderna é aquela em que “o grande relato perdeu sua credibilidade”6, isto é, essencialmente, a perda na credibilidade do progresso.
Se for este o caso, estamos realmente diante de uma grande mudança cultural. Como abordaremos em seguida, toda a civilização — desde os tempos da antiguidade grega — guiou- se pela crença no progresso7 e na busca da felicidade. A modernidade — fundada na ideia de progresso pelo conhecimento, pela razão, pela tecnologia, pelas artes e pela economia — foi responsável pela secularização da escatologia e da escolástica cristã. As premissas centrais da civilização ocidental foram reescritas em uma nova linguagem. Acontece que, sem credibilidade no futuro, toda a estrutura na qual se sustentava a cultura ocidental se vê ameaçada de ruir.
Em seu projeto, Nietzsche — um crítico de seu tempo e da modernidade — conseguiu compreender o significado do surgimento, do desenvolvimento e da destruição da ideia de progresso na sociedade ocidental:
Desde a Antiguidade, pusemos o valor de uma ação, de um caráter, de uma existência na intenção, no fim em virtude do qual se fez, viveu, agiu: essa arcaica idiossincrasia do gosto toma, por fim, um rumo periclitante - posto que, nomeadamente, a falta de intenção e de fim do acontecer venha, cada vez mais, para o primeiro plano da consciência. Com isso, parece preparar-se uma desvalorização universal: “nada tem sentido” - essa melancólica sentença quer dizer que “todo sentido jaz na intenção e, como a intenção falta absolutamente, então falta também absolutamente o sentido”. Segundo aquela valoração, o valor da vida foi forçosamente deslocado para um “vida depois da morte”; ou para o progressivo desenvolvimento das ideias, ou da humanidade, ou do povo, ou para além do homem; com isso chegou-se, no progressus do fim, ao infinitum; tinha-se, enfim, a necessidade de constituir para si um lugar no
“mundo-processo” (com a perspectiva dessacralizante de que este talvez seja o processo em direção ao nada).8
Certo é que, conforme ensina Viviane Mosé, “o terreno firme onde sempre acreditamos pisar, a materialidade do mundo, a verdade, a realidade, hoje sabemos, é água corrente, fluxo sobre o qual construímos imensas parafernálias discursivas e técnicas que desabam”9.
6 LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 69.
7 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 26-27. Nesse sentido também MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 35.
8 NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001, p. 335.
9 MOSÉ, op. cit., p. 58.
1.1 Da providência ao niilismo
Ao longo da história, percebe-se uma constante na evolução do ser humano, sua eterna tentativa de melhorar o mundo e se fazer mais humano10. O que nos parece, entretanto, é que ao longo do caminho o homem se dirigiu em direção ao nada. Para entendermos o mundo em que vivemos, essencial que tenhamos em mente o processo do pensamento que conduziu o homem ao momento em que se encontra hoje. Para tanto, de forma breve, proponho abranger esse processo em três momentos distintos: o período pré-moderno (ou do niilismo negativo), o moderno (ou do niilismo reativo) e o pós moderno (ou do niilismo passivo).
1.1.1 A pré-modernidade
Historicamente, pode-se conceituar o período pré-moderno como aquele cunhado sob uma visão de mundo pautada no fundamentalismo judaico-cristão, isto é, na doutrina da providência11. Esta doutrina foi responsável por influenciar de forma eficaz toda a civilização ocidental, determinando a forma de agir, pensar e se organizar de toda a sociedade12.
À época, criou-se a ideia de que através do governo de Deus haveria uma ascensão natural do homem ao progresso. Ocorre que, embora muito se tenha esperado, tal melhoria não veio. Diante da falta de sucesso da proposta pré-moderna e de toda a confiança depositada na providência divina, começa a surgir ao final do século XVII13 um rápido processo de racionalização da sociedade, alavancado pelo impacto do pensamento iluminista emergente14. A insatisfação com o plano pré-modernista, aliado ao surgimento de um ideal científico sólido, possibilita ao homem enxergar a sua predisposição à criação e ao desenvolvimento, quando emancipado de Deus.
10 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 20.
11 Ibidem.
12 “A providência é o cuidado que Deus tem com o mundo depois da sua criação, supervisionando o processo da história de modo que esta avance numa linha em direção de um objetivo específico” (LYON, David. A pós- modernidade. São Paulo: Paulus, 1998, p. 14).
13 Vale ressaltar que a razão surge com o pensamento de Sócrates e Platão em meados do século V a.C.. Contudo, é com o postulado de René Descartes — “Penso, logo existo” — que vimos surgir o projeto de racionalidade que operamos ainda nos dias de hoje.
14 GREUEL, Sigolf. Religião e religiosidade na pós-modernidade. 2008. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Escola Superior de Teologia. Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, Religião e Educação, São Leopoldo, 2008, p. 9.
1.1.2 A modernidade
Dizia Nietzsche “Para onde foi Deus? […] Já lhes direi! Nós o matamos — você e eu.
Somos todos os seus assassinos”15. Com a morte de Deus, a intervenção divina foi finalmente substituída pela razão humana. Nesse momento, viu-se surgir um nome tipo de humano, o sujeito autorreferente moderno16.
O pensamento racional foi responsável por conduzir o ser humano em direção a um caminho supostamente sem incertezas ou ambivalências, libertando-o do mundo obscuro dos ditames da religião e da crença cega.
Este novo juízo de negação do saber da Igreja, em busca de uma visão autônoma em relação a Deus, é o que finalmente leva à modernização da sociedade como um todo (cultura, política, economia, relações sociais, etc), bem como à ciência como a conhecemos hoje (revolução científica moderna)17.
O homem assume as rédeas que conduzem sua própria história, se colocando não apenas como parte desta jornada, mas sim no eixo central deste novo sistemas de valores sustentado na técnica e na consciência humana de poder interferir e transformar a sua realidade a partir de sua própria inteligência18.
Na estrutura dessa sociedade encontra-se a afirmação da razão, da ciência e da técnica como as únicas fontes do conhecimento, capazes de guiar o homem em direção aos avanços que tanto almejava. Para Edgar Morin:
As sociedades, arrancadas de suas tradições, iluminavam seu devir não mais seguindo a lição do passado, mas indo em direção a um futuro promissor e prometido. O tempo era um movimento ascensional. O progresso era identificado com a própria marcha da história humana e impulsionado pelos desenvolvimentos da ciência, da técnica, da razão.19
Apenas aquilo que era capaz de ser medido pela razão e confirmado de forma
15 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das letras, 2012. af. 125.
16 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 36.
17 “A modernização cultural é o processo de racionalização das visões do mundo e especialmente da religião. Em consequência desse processo, vão se diferenciando esferas axiológicas autônomas, até então embutidas na religião:
a ciência, a moral e arte. A ciência moderna permite o aumento cumulativo do saber empírico e da capacidade de prognose, que podem ser postos a serviço do desenvolvimento das forças produtivas.” (ROUANET, Paulo Sérgio.
As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 231-232).
18 Como ensina Viviane Mosé, “Um novo modelo de humano é a grande invenção da modernidade […]. É este novo sujeito, racional, objetivo, claro que vai levar a diante o sonho de uma sociedade controlada pela inteligência humana, pela técnica […]”. (MOSÉ, op. cit., p. 36).
19 MORIN, Edgar. Terra pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003, p. 75.
experimental era tido como válido e verdadeiro. Essa segurança e certeza da ciência que florescia, deu azo a uma sociedade em que enquanto de um lado tínhamos a valorização da razão e do método, por outro encontrávamos a negação dos instintos, das paixões, das contradições e dos afetos, em prol da racionalidade pura20.
Conforme bem resumiu David Lyon:
A modernidade abrange todas as mudanças significativas que aconteceram em muitos níveis desde o século XVI em diante, mudanças assinaladas pelas alterações que erradicaram os trabalhadores do campo e os transformaram em citadinos industriais móveis. A modernidade questiona todos os modos convencionais de fazer as coisas, substituindo autoridades por seu próprio arbítrio, baseada na ciência, no crescimento econômico, na democracia ou na lei. E ela debilita o eu; se, na sociedade tradicional, a identidade é dada, na modernidade ela é construída. A modernidade começou a conquistar o mundo em nome da razão; a certeza e a ordem social seriam erigidas sobre novas bases.21
Como resultado, a modernidade trouxe consigo mudanças expressivas nas relações sociais, descortinando um mundo de novos paradigmas sociais nunca antes imaginados. Para os fins deste estudo, podemos citar com maior relevância, por exemplo, a estreita relação formada entre o humano e a máquina no incessante processo de industrialização. Com ela, “[…]
aspectos como especialização, a uniformidade, a padronização, se tornaram características comuns da vida moderna”22. Podemos citar, ainda, as diversas mudanças sociais como a separação do trabalho, do lazer, da vida doméstica e da religião; a forte distinção entre o público e o privado; a delegação de tarefas antes atribuídas à família e à Igreja ao Estado (ensino, saúde, comunicação, etc); e o progressivo processo de urbanização.
Segundo Ulrich Beck:
20 “Neste pensamento e linguagem não cabem nem interessam os sentimentos, nem os valores, nem a procura de sentido, nem a espiritualidade, nem as utopias. Pois a racionalidade move-se no âmbito do prático, do útil e do verificável, e não dos valores e da gratuidade; do universal, não do particular; do uniforme, não do diferente.”
(GREUEL, Sigolf. Religião e religiosidade na pós-modernidade. 2008. Dissertação (Mestrado em Teologia).
Escola Superior de Teologia. Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, Religião e Educação, São Leopoldo, 2008, p. 10).
21 LYON, David. A pós-modernidade. São Paulo: Paulus, 1998, p. 37.
22 Ibidem, p. 39.
A visão de mundo moderna se baseava na chamada “fé no progresso” - a saber, a transferência da crença religiosa na salvação para as forças produtivas terrenas, seculares, da tecnologia e da ciência. Aqui, também, crença significa confiança no invisível, nesse caso, na potencial capacidade dos seres humanos e de suas instituições para resolver os problemas da existência com crescente precisão e eficiência.23
Em retrospecto, da mesma maneira que a providência não foi capaz de trazer o tão esperado progresso da humanidade em busca da felicidade, a promessa racional da modernidade também parece ter falhado em guiar o homem em direção ao bem-estar24. Assim, o término da esperança iluminista trouxe consigo uma espécie de niilismo social, uma falta de esperança em relação ao futuro25. É nesse momento de crise da modernidade que surge uma nova era denominada pós-modernidade26.
1.1.3 A pós-modernidade
Houve um tempo em que conceitos eram sólidos. Verdadeiros blocos de pensamento que moldavam a realidade e interação social. Um tempo de ideologias, ideias, relações; um tempo, como vimos, de grandes relatos norteadores da humanidade.
O século XX e XXI, com suas conquistas tecnológicas, embates políticos, guerras,
23 BECK, Ulrich. A metamorfose do mundo: novos conceitos para uma nova realidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2018, p. 85.
24 “Assim como no Idade Média as pessoas depositavam suas esperanças em uma vida depois da morte, na modernidade os humanos empenharam o seu presente na expectativa de um progresso científico que viria com o futuro. São estas expectativas que hoje desabam. Com a queda da modernidade […] viveremos o momento em que nem Deus nem o humano, nada valerá a pena.” (MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 48).
25 “Quando em 1977, ano de uma mudança radical, um grupo de músicos ingleses gritou ‘No future’, parecia um paradoxo a que não se deveria dar muita importância. Na realidade, tratava-se de um anúncio muito sério. A percepção do futuro começava a mudar. Porque o futuro não é uma dimensão natural da mente humana, é uma modalidade de percepção e de imaginação, de espera e de avanço. E essa modalidade se forma e se transforma no curso da história. O futurismo é o movimento cultural que encarnou e defendeu fortemente o futuro da plena modernidade. Esse movimento cultural e artístico anunciou o século XX - aquilo que há de mais essencial no século XX - porque o século XX concretizou a época que acreditou no futuro. Essa época acabou, não há dúvida.
Nós, os tardomodernos, não acreditamos no futuro da mesma maneira que os modernos. […] A modernidade não se limita a acreditar na existência do futuro, na continuidade de um tempo que segue ao tempo presente. Os modernos acreditam que o futuro seja confiável, espera-se do futuro a realização das promessas do presente. Não podemos dizer que os pós-modernos não acreditam mais na existência do futuro. Sabemos muito bem que amanhã de manhã vamos acordar de novo. Mas tendemos a não acreditar que o futuro estará à altura das expectativas deixadas para nós como herança pela época moderna. Não colocamos em dúvida a existência física do futuro, mas questionamos algo que era óbvio nos séculos XIX e XX, ou seja, que o futuro e progresso são equivalentes.”
(BERARDI, Franco. Depois do futuro. São Paulo: Ubu, 2019, p. 20-21).
26 Cumpre ressaltar que para alguns autores como Rouanet, por exemplo, a pós-modernidade não se revela como uma nova era social em relação à modernidade. Ela é apenas a radicalização da modernidade, seu prolongamento.
(ROUANET, Paulo Sérgio. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 267-268).
crises econômicas, etc, viu a ascensão e queda desse mundo sólido. A “pós-modernidade trouxe com ela a fluidez do líquido, ignorando divisões e barreiras, assumindo formas, ocupando espaços, diluindo certezas, crenças e práticas”27.
Não se trata de uma mudança no modo de ver o mundo, mas efetivamente de uma dissolução de qualquer forma integrada de vê-lo. Trata-se de uma transformação social que não caminha mais da visão de mundo A para visão de mundo B. Estamos diante da impossibilidade de se ter uma visão de mundo única ou uma metanarrativa que nos guie tal como ocorria nos tempos de outrora28. Pode-se dizer que a pós-modernidade trouxe consigo um ataque às teorias sociais que serviam de guia ao nosso caminho como humanidade29, superando-as.
“Tudo é pós”30, como diria Ulrich Beck. É o fim do estruturalismo, uma vez que este sugeria uma estrutura fundamental básica da mente humana. Somos pós-estruturalistas. A velha ordem política de um mundo colonizado desapareceu com o fim dos impérios europeus. Eis o pós-colonialismo. As certezas do feminismo que sugeriam uma igualdade básica e até uma natureza idêntica de homens e mulheres são fortemente contestadas. Então, o pós-feminismo.
O marxismo, com sua visão de determinar a base da superestrutura, não é mais sustentável teoricamente e é claramente inaceitável moralmente, à medida que aprendemos a história interior dos anos de Stalin, Mao Zedong e Pol Pot. Estamos diante do pós-marxismo. A crença iluminista no triunfo da razão humana e no inevitável progresso da sociedade e do conhecimento são insustentáveis, especialmente após os horrores do Holocausto. Descortina-se o pós-iluminismo ou o pós-racionalismo.
27 Entrevista concedida por Zygmunt Bauman ao jornalista Marcelo Lins, para o programa de entrevistas Milênio, pelo canal de televisão por assinatura GloboNews. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=7P1MAZXFVG0>. Acesso em: 27 dez. 2019.
28 Como explica Anthony Giddens, a condição pós-moderna “é caracterizada por uma evaporação da grand narrative - o ‘enredo’ dominante por meio do qual somo inseridos na história como seres tendo um passado definitivo e um futuro predizível”. (GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 12).
29 “O pós-modernismo está associado à decadência das grandes ideias, valores e instituições ocidentais - Deus, Ser, Razão, Sentido, Verdade, Totalidade, Ciência, Sujeito, Consciência, Produção, Estado, Revolução, Família.
Pela desconstrução, a filosofia atual é uma reflexão sobre ou uma aceleração dessa queda no niilismo. […] A pós- modernidade entre nessa: ela é a valsa do adeus ou o declínio das grandes filosofias explicativas, dos grandes textos esperançosos como o cristianismo (e sua fé na salvação), o Iluminismo (com sua crença na tecnociência e no progresso), […]” (SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 72).
30 No prefácio de sua principal obra — Sociedade de Risco —, o autor esclarece: “Tudo é ‘pós’. Ao pós- industrialismo já nos acostumamos há algum tempo. Ainda lhe associamos alguns conteúdos. Com a ‘pós- modernidade’, tudo já começa a ficar mais nebuloso. Na penumbra conceitual do pós-esclarecimento, todos os gatos são pardos. ‘Pós’ é a senha para a desorientação que se deixa levar pela moda. Ela aponta para um além que não é capaz de nomear, enquanto, nos conteúdos, que simultaneamente nomeia e nega, mantém-se na rigidez do que já é conhecido. Passado mais ‘pós’ - esse é a receita básica com a qual confrontamos, em verborrágica e obtusa confusão, uma realidade que parece sair dos trilhos.” (BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011, p. 11).
Saímos de economias baseadas na produção para aquelas fundadas no consumo, da fábrica para os serviços. Vivemos um mundo pós-industrial. Da mesma forma, embora a ciência laboratorial ainda seja essencial, não a consideramos mais infalível, estando sujeita a modas e repleta de contradições. Então, somos pós-científicos. Além disso, o período do Estado-nação como entidade terminou. Não existem nações reais, apenas comunidades imaginadas que não têm mais muito significado no fluxo global do capital e da comunicação eletrônica. Vivemos em um mundo pós-nacionalista31. É assim, pois, que entramos em uma era da pós-modernidade, uma época aparentemente do pós-tudo, intimamente associada à rejeição da tradição moderna32. Um sinal de que algo estranho está acontecendo é que não há acordo sobre o que é a pós-modernidad33, eis que composta por milhares de paradigmas simultâneos e contestadores34. Portanto, parece improvável que um novo paradigma ou visão de mundo volte a surgir, por ora. Existem muitos centros de conhecimento, pouca liderança estabelecida e reconhecida, muitas informações sobre um mundo que está mudando rápido demais para que qualquer coisa se enraíze35. A paisagem intelectual é como um recife rochoso sobre o qual as ondas batem à medida que as marés se arrastam para frente e para trás36. Não há profundidade para as ideias germinarem, pois novas e poderosas filosofias precisam de uma vida inteira para se estabelecerem.
Mais do que uma realidade cristalizada, a pós modernidade vem sendo moldada pouco e pouco, a partir da transformação que causa nos valores, nos costumes, nos hábitos sociais, nas instituições, no Direito, etc, esculpindo o estado de espírito daqueles que vivem em meio a esta
31 As ideias aqui apresentadas foram baseadas na fala do professor Alan Macfarlane (King’s College - Cambridge University) no vídeo A World Without a World View: the condition of post-modernity. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=OIrnud6X2qU>. Accesso em: 15 jul. 2020.
32 BARROSO, Luís Roberto. Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasileiro: pós modernidade, teoria crítica e pós-positivismo. Revista de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: FGV-RJ, n.
225, p. 5-37, jul./set. 2001, p. 10.
33 Um exemplo disso é a falta de consenso na doutrina sobre a própria nomenclatura do período em estudo:
“supermodernidade" (Georges Balandier), “modernidade reflexiva” (Ulrich Beck), “modernidade tardia” ou
“modernidade radicalizada” (Anthony Giddens), “pós-modernidade” e “modernidade líquida” (Zygmunt Bauman), “hipermodernidade” (Gilles Lipovestsky), etc.
34 Nesse sentido Bauman: “Hoje, os padrões e configurações não são mais ‘dados’, e menos ainda ‘autoevidentes’;
eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes […]” (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 15).
35 BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 34-35.
36 Isso demonstra aquilo que Bauman reconhece como a passagem da fase sólida para a fase líquida característica da pós-modernidade, ou seja, “uma condição em que as organizações sociais […] não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.” (BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. São Paulo: Zahar, 2007, p. 07).
transição37.
Como se vem afirmando, a pós-modernidade não surge como algo pensado, não é fruto de uma corrente filosófica. Muito menos constitui um grupo unitário e homogêneo de valores ou modificações facilmente identificáveis, mas configura como que uma força subterrânea a irromper na superfície somente para mostrar seu vigor, aqui e ali, trazendo instabilidade, erosões e erupções, sentidas como abalos da segurança territorial na qual se encontravam anteriormente instaladas as estruturas valorativas e as vigas conceptuais da modernidade. Certa sensação de instabilidade, de incerteza, de indeterminismo paira no ar, simultaneamente a fluxos e ondas de determinismo, de estabilidade conservadora, de certezas e de verdades modernas.38
Revela-se uma sociedade superficial, que exalta a fragmentação em detrimento do universal. Uma sociedade que está em todos os lugares, mas ao mesmo tempo em lugar nenhum.
Uma época sem pontos referenciais confiáveis, na qual a cultura do simulacro prevaleceu, deixando apenas representações e simulações. Não importa mais ser, e sim ter e parecer39.
Codificamos a vida, até esta perder o seu valor e demos lugar ao culto da linguagem, dos signos e de uma imagem falsa de mundo. Vivemos um período de niilismo passivo, no qual há uma descrença generalizada com o progresso da humanidade, em virtude das falsas promessas advindas da modernidade40.
1.2 A desvalorização da vida e da natureza
A sociedade atual “desaba junto com as suas conquistas. Nem Deus, nem a ciência, nada vale a pena. A vida já não vale nada”41. Sobretudo na pós-modernidade, nasce no ser humano um comportamento em relação à vida que é o de se sobrepor à natureza, de se orgulhar em
37 BITTAR, Eduardo C.B.. O direito na pós-modernidade. Revista Sequência. Florianópolis: UFSC, n. 57, p. 131- 152, dez. 2008, p. 132.
38 Ibidem, p. 135.
39 “É um cotidiano em que a máquina foi substituída pela informação, a fábrica pela shopping center, o contato de pessoa a pessoa pela relação com um vídeo. A estética impregna os objetos, para que eles se tornem mais atraentes.
O apelo da publicidade estetizante envolve a personalização e a erotização do mundo das mercadorias: o homem é seduzido pelo objeto para se integrar no circuito do capitalismo com obra de arte. O mundo social se desmaterializa, passa a ser signo, simulacro, hiper-realidade.” (ROUANET, Paulo Sérgio. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 233). Essa é também a ideia central que permeia toda a obra de Gilles Lipovestky em “A Felicidade Paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo”.
40 Como será abordado no terceiro capítulo, é essa força negativa da pós-modernidade, essa descrença destrutiva, que será responsável pela mudança, pelo gesto de afirmação em relação à vida, em uma espécie niilismo ativo (depois da queda, a negação nega a si mesma, e surge a transformação). É aquilo que trataremos como efeito colateral positivo dos males.
41 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 53.
poder dominá-la.
Entretanto, o novo projeto de mundo iniciado pela modernidade, somado à nossa eterna necessidade de consertar o planeta, deixou como herança uma revolução tecnológica falida quando confrontada com um meio ambiente e um ser humano exaustos pela exploração desenfreada à qual foram submetidos. Segundo Viviane Mosé, o “modelo racional de humano, do qual tanto já nos orgulhamos, nos levou também a situações de extrema brutalidade tanto individuais quanto coletivas, além de estar levando os recursos naturais do planeta à exaustão”42. Nesse mesmo sentido, Boaventura de Sousa Santos escreve que “olhando para trás, é fácil concluir que a ousadia de um propósito tão vasto contém em si a semente do seu próprio fracasso: promessas incumpridas e défices irremediáveis”43.
A promessa de felicidade e segurança através do controle da natureza, os avanços da ciência e da medicina prolongando nossas vidas e nos livrando de doenças, a tecnologia revolucionando a mão de obra e o mercado de trabalho, uma gama de produtos e serviços cada vez mais apta a atender as demandas dos consumidores, já não parecem mais existir como propunha a modernidade44. Na pós-modernidade, observamos a queda do compromisso que fizemos como sociedade de tornar a vida mais fácil e agora estamos pagando o preço por nossas ações45.
O progresso, que já foi a manifestação mais extrema do otimismo radical e uma promessa de felicidade universalmente compartilhada e permanente, se afastou totalmente em direção ao pólo oposto, distópico e fatalista da antecipação: ele agora representa a ameaça de uma mudança inexorável e inescapável que, em vez de augurar a paz e o sossego, pressagia somente a crise e a tensão e impede que haja um momento de descanso.46
42 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 28.
43 SANTOS, Boaventura de Sousa. Crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 6 ed. São Paulo: Cortês, 2007, p. 50.
44 Nesse sentido Lipovetsky: “No horizonte, desenha-se não a aniquilação dos valores e dos sentimentos, mas, mais prosaicamente, a desregulamentação das existências, a vida sem proteção, a fragilização dos indivíduos. […]
cada um acha cada vez mais penoso assumir as dificuldades da vida, cada um tem a impressão de que a vida é mais pesada, mais caótica, mais impossível no momento mesmo em que as condições materiais progridem.
Enquanto brilha a euforia do bem-estar, cada um tem, mais ou menos, a impressão de não ter vivido o que teria desejado viver, de ser mal compreendido, de estar à margem da verdadeira vida. […] A civilização que se anuncia não abole a sociabilidade humana, ela destrói a tranquilidade consigo e a paz com o mundo, tudo se passando como se as auto-insatisfações progredissem proporcionalmente às satisfações fornecidas pelo mercado. Um passo para a frente, um passo para trás: a alegria, a frivolidade de viver não têm encontro marcado com o progresso.
Sempre mais satisfações materiais, sempre mais viagens, jogos, esperança de vida: contudo, isso não nos escancarou as portas da alegria de viver.” (LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 149).
45“Vivemos a queda daquela infinidade de construções que erguemos para sustentar a promessa de uma vida sem sofrimentos, sem perdas, sem morte; a busca por uma vida ideal, uma vida perfeita. Mas estas promessas de felicidade, agora sabemos, sempre tiveram um custo muito alto.” (MOSÉ, op. cit., p. 28).
46 BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. São Paulo: Zahar, 2007, p. 16.
Algo parece ter saído muito errado com as escolhas civilizatórias que fizemos47. A maneira invasiva como exploramos a natureza revelou não somente um desequilíbrio ambiental e climático, mas também um modo insustentável de se levar a vida, tanto individualmente como o em sociedade48. Passamos a uma sociedade formada por vidas descartáveis49.
Terceirizamos e mercantilizamos a vida. Tudo de alguma forma se tornou fonte de lucro.
Não sabendo ou não querendo mais lidar com as próprias vidas, o ser humano entregou seu próprio destino nas mãos de pseudo-profissionais da vida (médicos, terapeutas, life-coaches, economistas, nutricionistas, personal trainers, jornalistas, celebridades, etc)50. Acreditamos estarmos nos cercando de pessoas responsáveis em tornar nossas vidas mais fáceis. Mas na realidade, pouco a pouco, fomos nos isolando do mundo real e, assim, quanto mais nos distanciávamos da realidade — quanto mais isolados da pessoa que nascemos para ser e do papel que devemos desempenhar em sociedade — mais difícil se tornaram nossas vidas e mais infelizes nos tornamos.
Assim, nos permitimos viver um verdadeiro hedonismo51, uma vida de prazeres individuais em que realidades humanas como o amor, a família e a ética social, por exemplo, são banalizadas e deixas de lado. Em sua fuga, “o rebanho humano imbecilizado pela conformismo”52 se esconde em um mundo de ilusões, em uma autêntica cultura do consumo e do espetáculo53.
O sonho era grande, mas morreu cedo. E com ele foi-se o gosto pela vida; foi-se a
47 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 31.
48 A isso Giddens denomina de “defeitos de projeto” (GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade.
São Paulo: Unesp, 1991, p. 165).
49 GREUEL, Sigolf. Religião e religiosidade na pós-modernidade. 2008. Dissertação (Mestrado em Teologia).
Escola Superior de Teologia. Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, Religião e Educação, São Leopoldo, 2008, p. 16.
50 “Tem sempre alguém que sabe por você, que pensa por você, enquanto você trabalha como um louco para pagar pessoas para fazer algo que em última instância você, se tivesse disposição, faria: viver.” (MOSÉ, op. cit., p. 33).
51 “O hedonismo — moral do prazer (não de valores) buscada na satisfação aqui e agora — é sua filosofia portátil.
E a paixão por si mesmo, a glamurização da sua auto-imagem pelo cuidado com a aparência e a informação pessoal, o entregam a uma narcisismo militante. E o neo-individualismo decorado pelo narcisismo.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 87).
52 ROUANET, Paulo Sérgio. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 259.
53 “Os destinos do desejo assumem, pois, uma direção marcadamente exibicionista autocentrada, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas. Esse é o trágico cenário para a implosão e a explosão da violência que marcam a atualidade. […] A auto-exaltação desmesurada da individualidade no mundo do espetacular fosforescente implica a crescente volatilização da solidariedade.
Enquanto valor, esta se encontra assustadoramente em baixa. Cada um por si e foda-se o resto parece ser o lema maior que define o ethos da atualidade, já que não podemos, além disso, contar mais com a ajuda de Deus em nosso mundo desencantado.” (BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 24-25).
natureza; foi-se um projeto civilizatório de felicidade eterna e deu-se lugar ao esvaziamento social. Isso porque, como pode-se perceber, “o progresso e a modernidade estão associados ao consumo e ao incremento da produtividade, e não ao cuidado do ser humano ou da natureza”54. Assim, o ser humano da atualidade é movido a medicação psiquiátrica, plásticas, curtidas nas redes sociais, mesquinharias, com uma única finalidade, esquecer a fragilidade da própria condição de ser humano55. A configuração social da contemporaneidade, desprovida de referências concretas de identificação, produz no homem uma espécie de vivência do desamparo, não restando outra alternativa senão a busca por novos meios para se auto- referenciar. São estas novas referências, entretanto, que causam o estado de mal estar da pós- modernidade.
1.3 Consumo, logo existo: uma resposta ao descontentamento
O consumo sempre foi inerente ao ser humano. Seria quase impossível imaginar a vida sem nenhuma forma, ainda que rudimentar, de consumo. Bens, serviços, recursos naturais, etc., fazem parte de um cotidiano humano — seja ele individual ou coletivo — do qual não temos como nos desvencilhar56.
Na pós-modernidade, entretanto, o consumo atinge novas proporções nunca antes vistas, deixando de ser algo eminentemente necessário para satisfazer as necessidades humanas, se tornando o motor propulsor do próprio desenvolvimento da sociedade57. Em outras palavras, o homem torna-se cobaia de um processo desenvolvimentista no qual consumo se torna
54 SÓLON, Pablo. Alternativas sistêmicas: bem viver, desmerecimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Elefante, 2019, p. 177.
55 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 67.
56 Segundo Giddens, ao contrário do que ocorrido na pré-modernidade e até certa medida no período moderno, na pós-modernidade “ninguém pode optar por sair completamente dos sistemas abstratos envolvidos nas instituições […]” (GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 96).
57 “Na esteira das críticas que são tecidas ao modelo de desenvolvimento e de modernização contemporâneo, a sociedade atual também pode ser definida como sociedade de consumo. De fato, a modernidade nasceu sob o signo da racionalidade, do progresso e do desenvolvimento, mas logo degenerou para o racionalismo, o progressismo e o desenvolvimentismo. A bordo desse processo de transformação e desvirtuação, o homem, que de início foi o artífice e protagonista da modernidade, tornou-se escravo do progressismo, do superlativismo e do consumismo.
[…] em razão do processo de modernização, o homem separou-se da natureza e perdeu a noção de suas necessidades vitais, tornando-se presa da própria modernidade.” (SANTOS, Romualdo Batista dos.
Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 162).
consumismo58 e este, por sua vez, torna-se o propósito da existência humana59. Nesse sentido, explica Edgar Morin:
O homem produtor está subordinado ao homem consumidor, este ao produto vendido no mercado, e este último a forças libidinais cada vez menos controladas no processo circular no qual se cria um consumidor para o produto e não mais apenas um produto para o consumidor. Uma agitação superficial se apodera dos indivíduos assim que escapam às coerções escravizantes do trabalho. O consumo desregrado torna-se super-consumo insaciável que alterna com curas de privação; a obsessão dietética e a obsessão com a forma física multiplicam os temores narcísicos e os caprichos alimentares, sustentam o culto dispendioso das vitaminas e dos oligo-elementos. Entre os ricos o consumo se torna histérico, maníaco pelo prestígio, a autenticidade, a beleza, a tez pura, a saúde. Eles percorrem as vitrines, os grandes magazines, os antiquários, os mercados de pulgas. A bibelomania se conjuga com a bugigangomania.60
Diante da vida que se esvazia, a máxima Descartiana “penso, logo existo” é substituída pela lógica do “consumo, logo existo”, impondo ao ser humano — pressionado pela indústria cultural pós-moderna — uma série de padrões e comportamentos de consumo aos quais não consegue mais resistir. Na pós-modernidade, consumir se torna sinônimo de autonomia e liberdade61. Torna-se o caminho para a tão esperada felicidade62 que fora prometida ao homem desde a modernidade. Ocorre que, mais uma vez o homem se vê preso dentro de um ciclo vicioso do qual não consegue sair e muito menos encontrar o fim63.
58 Vale frisar que consumo e consumismo são termos e conceitos distintos, tratados de maneira diversa pela doutrina especializada. Embora não nos caiba aqui tecer grandes considerações a respeito das diferenças conceituais entre eles, é importante ressaltar que o consumismo (conceito aqui utilizado como típico da pós- modernidade), ao contrário da ideia básica de consumo, traz consigo consequências nefastas para a sociedade e para o planeta, dentre elas os riscos ambientais e geracionais da atualidade, tema que trataremos no próximo capítulo.
59 BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 38.
60 MORIN, Edgar. Terra pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003, p. 84.
61 Com essa base Lipovetsky desenvolve sua tese sobre a condição paradoxal vivida pelo consumidor pós- moderno: “Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um
‘consumator’, informado e ‘livre’, que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil.”
(LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007, p. 15).
62 “[…] possuir e consumir determinados objetos, e adotar certos estilos de vida, é a condição necessária para a felicidade, talvez até para a dignidade humana.” (BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 56).
63 “Se o consumo é a medida de uma vida bem sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana, então foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o manter-se ao nível dos padrões outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter - a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem distantes,