2. A EMERGÊNCIA DE UMA SOCIEDADE DE RISCOS
2.3 Risco e perigo: realidades de uma sociedade amedrontada
Como vimos, nos encontramos em um período em que as estruturas sólidas dos valores e certezas desabam diante dos nossos olhos. Vivemos um mundo carregado e perigoso115, em que a incerteza em relação à vida paira no ar e com ela o medo constante116.
Assim como os tempos são líquidos, os nossos medos como sociedade também são. O conceito de medo líquido desenvolvido por Bauman lida com a ideia de um medo difuso, não adstrito a uma localização única117. A problemática do medo líquido, diferente do perigo específico concreto ao qual estamos familiarizados, é que não sabemos de onde e quando ele irá ocorrer.
114 A esse respeito ver BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011.
p. 73-85.
115 GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 20.
116 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 85.
117 “Uma vez investido sobre o mundo humano, o medo adquire um ímpeto e uma lógica de desenvolvimento próprios e precisa de poucos cuidados e praticamente nenhum investimento adicionais para crescer e se espalhar
— irrefreavelmente” (BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 15).
O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros; quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la.118
Em outras palavras, é como se caminhássemos sobre uma campo minado abandonado.
Nós estamos cientes que o terreno está repleto de explosivos, mas não podemos prever onde e quando uma explosão poderá ocorrer.
Viver sob o medo líquido, significa, em última instância, que não há estruturas sólidas ao nosso redor nas as quais possamos confiar e investir nossas esperanças e expectativas119. Em todos os níveis da vida humana, encontramos a mesma situação: incerteza120. Uma verdadeira impossibilidade de prever o futuro ou, mesmo supostamente prevendo-o ao tomar certa decisão (após uma longa deliberação, um cálculo muito cuidadoso e muito meticuloso), ao olhar retrospectivamente, ainda não ter certeza se foi a decisão certa ou errada.
Importante perceber, entretanto, que embora o medo sempre tenha feito parte da história do Homem, aquilo que enfrentamos na pós-modernidade em pouco se assemelha ao que encontrávamos no passado. A vida na terra sempre esteve cercada por situações perigosas, principalmente para o Homem. Mas a história era, até certo ponto, diferente no passado, dado que o medo era marcado em razão dos perigos inerentes ao próprio viver121 e não produzidos pelo modo de vida da sociedade moderna e pós-moderna.
A civilização atual — de cunho eminentemente tecnológico e fundada em modelos de exploração econômica de massa — tende a criar e reproduzir comportamentos capazes de gerar situações e estados de desfavorabilidade diretamente ligados à insustentabilidade desse próprio meio de exploração econômica122.
A caracterização dessas situações, entretanto, deixou de estar ligada à conexão quase que natural estabelecida entre estas e as ameaças involuntárias e imprevisíveis que permeavam
118 BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 08.
119 Interessante o paralelo proposto por Beck sobre essa mudança social: “A força motriz na sociedade de classes pode ser resumida na frase: tenho fome! O movimento desencadeado com a emergência da sociedade de risco, ao contrário, é expresso pela afirmação: tenho medo! A solidariedade da carência é substituída pela solidariedade do medo.” (BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011, p. 60).
120 De acordo com Bauman: “‘Medo’ é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito — do que pode e do que não pode — para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance.” (BAUMAN, op. cit., p. 08).
121 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 165.
122 “A sociedade de risco é uma sociedade catastrófica. Nela, o estado de exceção ameaça converter-se em normalidade.” (BECK, op. cit., p. 28).
a segurança dos indivíduos — tradicionalmente advindas de eventos orgânicos — para se lastrearem a um novo perfil, próprio da sociedade que se descortina123. Dentro desse contexto, risco e perigo, embora em muito se assemelhem e muitas vezes sejam utilizados um como sinônimo do outro, devem ser analisados e interpretados de forma distinta124. Isso porque, em que pese ambos os conceitos estejam intimamente relacionados, não são a mesma coisa125.
Na lição de Anthony Giddens,
Risco não é o mesmo que infortúnio ou perigo. Risco se refere a infortúnios ativamente avaliados em relação a possibilidades futuras. A palavra só passa a ser amplamente utilizada em sociedades orientadas para o futuro — que veem o futuro precisamente como um território a ser conquistado ou colonizado. O conceito de risco pressupõe uma sociedade que tenta ativamente romper com seu passado — de fato, a característica primordial da civilização industrial moderna.126
Pela teoria de Ulrich Beck (consubstanciada na ideia de seguridade), riscos são eventuais e abstratos, conquanto relativamente previsíveis, estando sujeitos a medidas de precaução tendentes a diminuirem a probabilidade de danos, mas que não são capazes de extingui-los (incerteza). Perigos, por sua vez, são ameaças de caráter mais concreto e real, passíveis de proteção através de medidas de prevenção capazes de totalmente elimina-los (certeza)127.
Evoluindo a teoria de Beck, Luhmann sugere que embora ambos os termos se relacionem com a incerteza quanto a danos futuros, risco diz respeito a uma ação consciente enquanto perigo seria atribuído a causas externas128. Por este motivo, não há dúvida de que na
123 Segundo Beck: “É de se notar, porém, que as ameaças de então, à diferença das atuais, agastavam somente o nariz ou os olhos, sendo portanto sensorialmente perceptíveis, enquanto os riscos civilizatórios atuais tipicamente escapam à percepção, ficando pé sobretudo na esfera dos fórmulas físico-químicas [...] Os riscos e ameaças atuais diferenciam-se, portanto, de seus equivalentes medievais, com frequência semelhantes por faro, fundamentalmente por conta da globalidade de seu alcance (ser humano, fauna, flora) e de suas causas modernas. São riscos da modernização. São um produto de série do maquinário industrial do progresso, sendo sistematicamente agravados com seu desenvolvimento ulterior.” (BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011, p. 26).
124 Muitas são as tentativas de se distinguir os conceitos de risco e perigo. Em diferentes momentos e sob diferentes perspectivas, os termos são tratados de formas diversa por autores distintos. Para os fins dessa dissertação, entretanto, abordaremos alguns aspectos as distinções clássicas propostas por Anthony Giddens, Ulrich Beck e Niklas Luhmann.
125 GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 45.
126 GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro:
Record, 2000, p. 33.
127 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 164.
128 LUHMANN, Niklas. Sociologia del riesgo. Guadalajara: Walter de Gruyter, 1992, p. 37.
sociedade tecnológica pós-moderna o risco seja a espécie que mais mereça atenção e zelo129. Para ele, pouco importa se quem decide percebe o risco como desdobramento de sua decisão ou que eventual dano ocorra em virtude dessa decisão, sendo relevante apenas a possibilidade do dano ser evitado130. Isso porque, tratando-se de um estado de consciência, seria impossível pensar em condutas totalmente isentas de risco, tendo em vista que o conhecimento e a informação, por si só, não seriam capazes de evitar danos. Em outras palavras, mais conhecimento não migraria o risco para a seguridade, mas o inverso. Quanto maior a complexidade em que se observa o risco, maior o número de incertezas que surgem e maior o leque de alternativas de atribuição do risco131.
Anthony Giddens sugere ainda uma distinção que reside na consciência da ação ou do ato potencialmente lesivo. Isto é, embora de alguma forma o perigo esteja contemplado no risco
— afinal toda ação de risco pressupõe alguma forma de perigo ao resultado desejado — a atividade de risco não pressupõe a consciência deste perigo132.
Seja como for, a sociedade atual parece estar avançando em direção a uma civilização de riscos globais, em que o principal enfoque de discussão é a consciência do risco e as possíveis formas de evitá-lo. Essa consciência e precaução do risco adquire uma característica global, por exemplo, na medida em que é analisa sob o ponto de vista dos danos ambientais de larga escala.
Isso porque, não importa diretamente o local em que a produção do risco ou do consumo ocorram, dado que suas consequências não respeitam fronteiras e podem ser sentidas em locais diversos.
129 Conforme ilustra Hans Jonas: “A aventura da tecnologia impõe, com seus riscos extremos, o risco da reflexão extrema.” (JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006, p. 22).
130 LUHMANN, Niklas. Sociologia del riesgo. Guadalajara: Walter de Gruyter, 1992, p. 34.
131 “Qualquer tomada de decisão envolve riscos inevitavelmente — e mesmo o ‘não decidir’ já é uma decisão.
Portanto, acaba a esperança de que com mais e melhor conhecimento poder-se-ia migrar do risco para a seguridade.
De fato, ocorre o inverso. Quanto maior a complexificação do cálculo do risco, cresce a percepção do número de aspectos não considerados anteriormente e, consequentemente, já uma confrontação com mais incertezas e mais riscos.” (DAVID, Marília Luz. Sobre os conceitos de risco em Luhmann e Giddens. Revista eletrônica dos pós graduandos em sociologia política da UFSC. Florianópolis: UFSC, v.8, n.1, p. 30 - 45, jan./jul. 2011, p. 34).
Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/emtese/article/view/1806-5023.2011v8n1p30/20264>.
Acesso em: 13 jan. 2020.
132 “Qualquer um que assume um risco calculado está consciente da ameaça ou ameaças que uma linha de ação específica pode pôr em jogo. Mas é certamente possível assumir ações ou estar sujeito a situações que são inerentemente arriscadas sem que o os indivíduos envolvidos estejam conscientes do quanto estão se arriscando.
Em outras palavras, eles estão inconscientes dos perigos que correm.” (GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 45).