1. PÓS MODERNIDADE E A LIQUIDEZ DO MUNDO
1.3 Consumo, logo existo: uma resposta ao descontentamento
O consumo sempre foi inerente ao ser humano. Seria quase impossível imaginar a vida sem nenhuma forma, ainda que rudimentar, de consumo. Bens, serviços, recursos naturais, etc., fazem parte de um cotidiano humano — seja ele individual ou coletivo — do qual não temos como nos desvencilhar56.
Na pós-modernidade, entretanto, o consumo atinge novas proporções nunca antes vistas, deixando de ser algo eminentemente necessário para satisfazer as necessidades humanas, se tornando o motor propulsor do próprio desenvolvimento da sociedade57. Em outras palavras, o homem torna-se cobaia de um processo desenvolvimentista no qual consumo se torna
54 SÓLON, Pablo. Alternativas sistêmicas: bem viver, desmerecimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Elefante, 2019, p. 177.
55 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 67.
56 Segundo Giddens, ao contrário do que ocorrido na pré-modernidade e até certa medida no período moderno, na pós-modernidade “ninguém pode optar por sair completamente dos sistemas abstratos envolvidos nas instituições […]” (GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 96).
57 “Na esteira das críticas que são tecidas ao modelo de desenvolvimento e de modernização contemporâneo, a sociedade atual também pode ser definida como sociedade de consumo. De fato, a modernidade nasceu sob o signo da racionalidade, do progresso e do desenvolvimento, mas logo degenerou para o racionalismo, o progressismo e o desenvolvimentismo. A bordo desse processo de transformação e desvirtuação, o homem, que de início foi o artífice e protagonista da modernidade, tornou-se escravo do progressismo, do superlativismo e do consumismo.
[…] em razão do processo de modernização, o homem separou-se da natureza e perdeu a noção de suas necessidades vitais, tornando-se presa da própria modernidade.” (SANTOS, Romualdo Batista dos.
Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 162).
consumismo58 e este, por sua vez, torna-se o propósito da existência humana59. Nesse sentido, explica Edgar Morin:
O homem produtor está subordinado ao homem consumidor, este ao produto vendido no mercado, e este último a forças libidinais cada vez menos controladas no processo circular no qual se cria um consumidor para o produto e não mais apenas um produto para o consumidor. Uma agitação superficial se apodera dos indivíduos assim que escapam às coerções escravizantes do trabalho. O consumo desregrado torna-se super-consumo insaciável que alterna com curas de privação; a obsessão dietética e a obsessão com a forma física multiplicam os temores narcísicos e os caprichos alimentares, sustentam o culto dispendioso das vitaminas e dos oligo-elementos. Entre os ricos o consumo se torna histérico, maníaco pelo prestígio, a autenticidade, a beleza, a tez pura, a saúde. Eles percorrem as vitrines, os grandes magazines, os antiquários, os mercados de pulgas. A bibelomania se conjuga com a bugigangomania.60
Diante da vida que se esvazia, a máxima Descartiana “penso, logo existo” é substituída pela lógica do “consumo, logo existo”, impondo ao ser humano — pressionado pela indústria cultural pós-moderna — uma série de padrões e comportamentos de consumo aos quais não consegue mais resistir. Na pós-modernidade, consumir se torna sinônimo de autonomia e liberdade61. Torna-se o caminho para a tão esperada felicidade62 que fora prometida ao homem desde a modernidade. Ocorre que, mais uma vez o homem se vê preso dentro de um ciclo vicioso do qual não consegue sair e muito menos encontrar o fim63.
58 Vale frisar que consumo e consumismo são termos e conceitos distintos, tratados de maneira diversa pela doutrina especializada. Embora não nos caiba aqui tecer grandes considerações a respeito das diferenças conceituais entre eles, é importante ressaltar que o consumismo (conceito aqui utilizado como típico da pós-modernidade), ao contrário da ideia básica de consumo, traz consigo consequências nefastas para a sociedade e para o planeta, dentre elas os riscos ambientais e geracionais da atualidade, tema que trataremos no próximo capítulo.
59 BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 38.
60 MORIN, Edgar. Terra pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003, p. 84.
61 Com essa base Lipovetsky desenvolve sua tese sobre a condição paradoxal vivida pelo consumidor pós-moderno: “Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um
‘consumator’, informado e ‘livre’, que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil.”
(LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007, p. 15).
62 “[…] possuir e consumir determinados objetos, e adotar certos estilos de vida, é a condição necessária para a felicidade, talvez até para a dignidade humana.” (BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 56).
63 “Se o consumo é a medida de uma vida bem sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana, então foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o manter-se ao nível dos padrões outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter - a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem distantes,
Isso porque, o consumismo, tal qual vivenciado na pós-modernidade, depende de um acelerado padrão de produção e consumo lastreado pelo excesso de ofertas, pelo rápido envelhecimento daquilo que é oferecido e pela sedução dos consumidores insaciáveis64. Em outras palavras, “o consumismo se renova e se retroalimenta nas dobras da própria modernidade a fim de manter seu curso”65. Assim, o consumismo se aproveita das sensações e experiências do consumidor, isto é, no momento em que o consumidor acredita estar satisfeito, este sentimento lhe é retirado pelo próprio mercado com alguma opção nova, ainda que o valor de uso do bem original não tenha expirado66.
Na sociedade em rede — globalizada e informacional — o consumidor encontra-se constantemente exposto a novos produtos e serviços, que lhe causam novos desejos e consequentemente novas necessidades artificiais que levam a novas aquisições, alimentando assim a cadeia do consumismo67. Como consequência, descortina-se uma sociedade depressiva, angustiada e ansiosa, contaminada por uma insaciedade que nunca parece se satisfazer68.
O consumismo exacerbado, produto do mal-estar social da pós-modernidade, não se limita ao poder do capital, isto é, da aquisição material de produtos. O consumismo hoje está inserido dentro de um mundo digital — da internet, dos meios de comunicação em massa, da alienação midiática — que acelera a sua reprodução na medida em que as fronteiras sociais vão sendo derrubadas. Em outras palavras, as possibilidades de conexão que o mundo digital pode oferecer quando aliado à “alienação midiática das reproduções imagéticas, tornam quem está usando poder tecnológico um simples produto da vontade do gozo, produzindo, assim, um
enquanto se tenta alcançá-las.” (BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 56).
64 Como analisa Jair Ferreira Santos: “As sociedades pós-industriais, planejadas pela tecnociência, programam a vida social nos seus menores detalhes, pois nelas tudo é mercadoria […]. Sendo economias muito ricas, que têm como única meta a elevação constante do nível de vida, elas deixam ao indivíduo a opção de consumir entre uma infinidade de artigos, mas não a opção de não consumir. Além disso, há o apelo constante do novo. Viver é estar de mudança para a próxima novidade. Com uma gama enorme de bens e serviços, para todas as faixas e gostos, a seu alcance, só resta ao indivíduo escolher entre eles e combiná-los para marcar fortemente sua individualidade.
Embora a produção seja massiva, o consumo é personalizado (vide o cheque personalizado). Assim, o sistema propõe, o indivíduo dispõe. É o pleno conformismo e o sistema parece triunfar de cabo a rabo.” (SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 87-88).
65 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 163.
66 Com relação a essa dinâmica do consumismo acelerado e despropositado, Bauman explica que “as modas vão e vem com velocidade estonteante, todos os objetos de desejo se tornam obsoletos, repugnantes e de mau gosto antes que tenhamos tempo de aproveitá-los”. (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 203).
67 SANTOS, op. cit., p. 163.
68 Bauman nos ensina que “O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de estabelecer prioridades […]. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha.” (BAUMAN, op.
cit., p. 82).
desejo niilista na conjuntura da sociedade em que vive”69. 1.4 Do modelo piramidal à sociedade em rede
No plano coletivo, abrimos mão da linha do raciocínio em prol das complexas conexões em rede. Deixamos o mundo material em prol do imaterial, da dualidade para a complexidade, do sucessivo para o simultâneo70. Vivemos em uma sociedade dos fluxos, conectada por redes ou grandes teias por meio das quais os sujeitos encontram-se interligados, de sorte que os interesses e prejuízos de um são, de alguma forma, os mesmos interesses e prejuízos dos outros71, ainda que o resultado dessas interações sejam praticamente imprevisíveis72.
Segundo Bauman,
A sociedade é cada vez mais vista e tratada como uma rede em vez de uma estrutura (para não falar em uma totalidade sólida): ela é percebida e encarada como uma matriz de conexões e desconexões aleatórias e de um volume essencialmente infinito de permutações possíveis.73
O mecanismo de globalização dos meios econômicos e de comunicação fez com que empresas e pessoas se tornassem cada vez mais conectadas, ao ponto que acontecimentos em um determinado local atingem não somente aqueles diretamente envolvidos, mas também sujeitos muitas vezes tão distantes como em outros continentes74. Nesse sentido Manuel Castells escreve que as relações sociais em rede transcendem fronteiras e “a sua lógica chega a países em todo o planeta e difunde-se através do poder integrado nas redes globais de capital, bens, serviços, comunicação, informação, ciência e tecnologia”75.
69 SILVA, César Ferreira da; MARIANO, André Luiz Sena. A influência da sociedade no adoecimento psíquico:
contribuições da sociologia da educação no processo de superação do mal estar social. In: DICKMANN, Ivo;
LAZAROTTO, Aline Fátima (Orgs.). Educação: desafios da práxis e formação. v. 1. Chapecó: Plataforma Acadêmica, 2018, p. 22.
70 “A virtualidade rasgou o mundo fisico, abriu nele uma brecha que se descortinou em diversos novos mundos, em diversas realidades construídas a partir de novos parâmetros com outro tipo de saber material, no caso imaterial.” (MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 81).
71 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 159.
72 MOSÉ, op. cit., p. 78.
73 BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. São Paulo: Zahar, 2007, p. 09.
74 Essa noção de conectividade é de suma importância na medida em que se aplica diretamente à teoria do risco global — que será abordada mais adiante — mas que nos remete à ideia de que os riscos e eventuais danos também não estão mais adstritos apenas à localização em que ocorrem, atingindo uma gama potencial muito maior de pessoas (a exemplo dos desastres nucleares).
75 CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à política. In: CASTELLS, Manuel; CARDOSO, Gustavo (Orgs.). A sociedade em rede: do conhecimento à acção política. Lisboa: Imprensa Nacional, 2005, p.
18.
A pós-modernidade dá azo, portanto, a uma nova configuração de gestão social diferente daquela que estávamos mais naturalmente habituados. Refiro-me ao método de ordenação piramidal surgido no Egito, em cerca de 4 mil anos a.C., e que se desenvolveu ao longo da história, passando pela experiência racional grega, até meados da modernidade clássica.
Referido sistema configurava-se pela “compreensão de que a ordem depende do Um […]. Uma forma onde tudo caminha para o Um que está ao alto, acima, em um tipo de trono, a pirâmide é um tipo de louvor à centralização do poder”76. Tal sistema, entretanto, mostra-se imprestável e obsoleto, incapaz de organizar as multidões ou grandes massas que surgem, mormente no mundo digital globalizado. Nessa mudança de modelos (da hierarquia piramidal à rede), vamos sendo arrastados em direção ao futuro, queiramos ou não, e caímos de cabeça em uma sociedade reorganizada de forma horizontal e móvel77.
Nesse cenário, revela-se uma sociedade marcada, principalmente, por duas características peculiares: a da informação e a do espetáculo. A primeira diz respeito à democratização do acesso à informação, com a intensificação dos fluxos de comunicação advindos do desenvolvimento científico e tecnológico, responsável por derrubar barreiras físicas e temporais. Em outras palavras, a tecnologia “arrebentou os canais antes excludentes de circulação de saber que norteavam o conhecimento e a verdade”78, permitindo uma disseminação de conteúdos inéditos. Mas ao mesmo tempo que essa característica representa um ganho, ela não vem desprovida de perdas, dada a sua segunda característica, a do espetáculo.
Isso porque, o acesso cada vez mais amplo e acelerado à informação é responsável por produzir uma espécie de virtualização da realidade79, uma forma de alienação em que a sociedade se desprende da sua realidade e considera como verdadeiro apenas aquilo que lhe é oferecido como espetáculo80.
76 MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 69-70.
77 Vale lembrar que é este hiato entre a hierarquia piramidal e a sociedade em rede que Viviane Mosé denomina de “abismo civilizatório” onde a vida perdeu o valor e não sabemos distinguir as coisas, não entendemos o nosso tempo, não compreendemos o conflitos que vivemos. (MOSÉ, op. cit., p. 86-87).
78 Ibidem, p. 87.
79 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 161.
80 “A vida desejada tende a ser a vida ‘vista na TV’. A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for remodelada na forma de imagens que possam aparecer na tela.” (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 108-109).
1.5 Da tecnologia ao risco
Como podemos perceber, a sociedade pós-moderna é, antes de qualquer coisa, uma sociedade tecnológica de consumo. Em que pese tal característica ser responsável em trazer conforto e conveniência ao ser humano, ela também foi responsável por colocar em xeque a própria existência e bem estar da humanidade81.
Certo é, que esta nova sociedade pós-moderna, baseada na pluralidade de perspectivas, na relativização e na multiplicação das verdades, trouxe consigo não apenas novos perigos naturais como também aqueles decorrentes dos riscos produzidos pelo próprio sistema sócio-econômico cada vez mais complexo e global82. Assim, o homem, “que é protagonista do desenvolvimento científico e tecnológico, tornou-se também vítima do próprio progresso”83.
O ser humano e a sociedade como um todo começa a perceber as consequências causadas pelas suas ações, bem como os seus limites (ou falta de). O avanço da técnica e o consumismo desenfreado, produzem riscos que colocam em perigo a própria existência do homem na terra, sem falar nos danos à natureza e ao próprio planeta. Isso porque, conforme nos ensina Pablo Sólon, vivemos em uma sociedade em que não existem mais cidadãos, apenas consumidores que se realizam com o aumento da capacidade de consumir. Assim, cada vez mais, “o progresso e a modernidade estão associados ao consumo e ao incremento da produtividade, e não ao cuidado do ser humano ou da natureza”84.
Conforme alerta Ulrich Beck, e esse será o fio condutor de sua obra, “no centro da questão estão os riscos e efeitos da modernização, que se precipitam sob o forma de ameaças à vida de plantas, animais, e seres humanos”85.
Os efeitos dessa sociedade, embora perceptíveis em diversas áreas, parece se fazer sentir especialmente sobre o meio ambiente, agudizando e globalizando a crise ambiental e suas consequências. No próximo capítulo, portanto, será trabalhada a relação entre as características da pós-modernidade aqui expostas, a sociedade de risco que dela emerge e os riscos ambientais que surgem desse comportamento humano.
81 Em síntese, “os ganhos estruturais que a tecnologia permitiu e continua permitindo não vieram acompanhados de um desenvolvimento humano: a civilização ganhou em técnica, em tecnologia, mas retrocedeu com relação ao humano.” (MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2018, p. 73).
82 BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: 34, 2011, p. 12.
83 SANTOS, Romualdo Batista dos. Responsabilidade civil por dano enorme. Curitiba: Juruá, 2018, p. 159.
84 SOLÓN, Pablo (Org.). Alternativas sistêmicas: bem viver, decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Elefante, 2019, p. 177.
85 BECK, op. cit., p. 16.
2. A EMERGÊNCIA DE UMA SOCIEDADE DE RISCOS
Em 1986, o devastador acidente na usina nuclear de Chernobyl despertou o mundo para uma espécie de risco que, como nunca antes, ameaçava a existência de um continente inteiro, revelando os desafios e consequências da sociedade em lidar com esse desastre, que se mostrou ainda mais aterrorizante por não ter sido causada por forças da natureza, mas pela obra e ingenuidade humana. Nesse contexto, a teoria do risco proposta por autores como Ulrich Beck e Anthony Giddens postula que entramos em uma nova etapa da modernidade, cada vez mais ocupada em debater, prevenir e gerenciar os riscos que nós mesmos produzimos; que são resultado direto de nosso próprio progresso tecnológico.
Esses novos riscos de alta consequência são diferentes de tudo que já enfrentamos no passado, tanto em escala quanto em complexidade. E, por serem diferentes de tudo que conhecemos e por estarem inerentemente conectados a muitos dos aspectos essenciais da modernidade, tais riscos infectam nossa sociedade com um sentimento fundamental de vulnerabilidade. As sociedades modernas são moldadas por novos riscos e incertezas fabricadas. Suas fundações são abaladas pela antecipação da catástrofe global. Os riscos estão cada vez mais permeando a sociedade moderna, afetando nossa cultura, nossa política e nossos espíritos.
No advento da sociedade reflexiva de riscos, vemos florescer as incertezas científicas, o medo do desconhecido, o futuro incerto, tudo isso em meio a uma complexidade social, a uma crise do Estado-nação e ao colapso de uma ordem social sustentada por paradigmas que não mais respondem aos maiores anseios da sociedade pós-moderna. Embora sempre tenham sido inerentes à sociedade, os riscos de hoje se diferenciam daquelas de outrora por seus aspectos de globalidade, imperceptibilidade e irreversibilidade decorrentes do modelo político-econômico adotado. Como respondemos a tudo isso — enquanto sociedade global — é que continua um verdadeiro mistério.
A história do risco é, portanto, uma narrativa de ironia. Trata-se de uma sátira involuntária e futilmente otimista, com a qual as instituições mais desenvolvidas da sociedade moderna, mormente o Estado e a Ciência, tentam antecipar aquilo que não pode ser antecipado.
Já diz o paradoxo socrático: “só sei que nada sei”. A ironia fatal em que a sociedade técnico-científica mergulha é, como consequência de sua pseudo-perfeição, muito mais radical:
não sabemos o que é que não sabemos. O exemplo perfeito aqui é fornecido pelo debate sobre o agente de refrigeração CFC. Em 1974, cerca de 45 anos após a descoberta do CFC, os químicos Rowland e Molina apresentaram a hipótese de que os CFCs seriam responsáveis por
destruir a camada de ozônio da estratosfera e, como resultado, haveria o aumento da radiação ultravioleta que atingiria à Terra86. A cadeia de efeitos secundários imprevistos levaria, por exemplo, a um aumento significativo de casos de câncer em todo o mundo. Quando os gases de refrigeração foram inventados, ninguém sabia ou até suspeitava que eles criariam esse perigo.
A ironia do risco reside, portanto, no fato de que a racionalidade — a experiência do passado — estimula a antecipação do tipo errado de risco, aquele que acreditamos poder calcular e controlar, enquanto os verdadeiros desastres surgem daquilo que não sabemos e não podemos calcular. Tratam-se de riscos cujas consequências, normalmente de alta gravidade, são de difícil avaliação e precisão. Essa realidade é amarga e praticamente infinita, a exemplo de eventos recentes que assolaram nossa sociedade, como a doença da vaca louca, os diversos ataques terroristas ao redor do globo, as crises financeiras mundiais, os vírus da gripe suína, os desastres ambientais nas cidades de Mariana e Brumadinho, os acidentes nucleares, a ecotoxidade, a desertificação, a pandemia do novo Coronavírus, etc.
Importante destacar que falar em risco não significa falar em catástrofe, mas sim à sua antecipação87. Isto é, a previsão dos danos potenciais causados por determinadas ações ou atividades, na medida em que o risco passou a fazer parte constante da sociedade pós-moderna.
Significa dizer que o que caracteriza esta sociedade são suas incertezas fabricadas, ou seja, uma
Significa dizer que o que caracteriza esta sociedade são suas incertezas fabricadas, ou seja, uma