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Processo 61/2010-JP

Data do documento 27 de junho de 2022

Relator José Almeida

JULGADOS DE PAZ | CÍVEL

Sentença

DESCRITORES

Direitos e deveres dos condóminos

SUMÁRIO

N.D.

TEXTO INTEGRAL

SENTENÇA

(26.º/1 da Lei n.º 78/2001, de 13 de Julho)

Matéria: Direitos e deveres dos condóminos (artigo 9.º/1/alínea c) da Lei n.º 78/2001, de 13 de Julho).

Valor da acção: 800,00 € (oitocentos euros).

Demandante: A Representante: X Demandado: Y Relatório:

O Demandante vem requerer que o Demandado seja condenado:

- a remover os haveres que tem no sótão do prédio;

- a pagar ao Condomínio a quantia de 500,00 € (quinhentos euros) a título de serviços de limpeza do espaço ocupado pelos haveres que tem no sótão do prédio;

- a pagar ao Condomínio a quantia de 300,00 €, respeitante ao acréscimo de custo das obras realizadas em Setembro de 2009 em virtude de não ter sido possível realizar a reparação completa no espaço ocupado pelos haveres do Demandado.

Para tanto alegou os factos constantes do requerimento inicial e respectivos anexos, que aqui se dão por reproduzidos (fls 1 a 18 dos autos).

Regularmente citado, o Demandado apresentou contestação e juntou documentos que aqui se dão por reproduzidos (fls. 27 a 44 dos autos), pedindo a improcedência da ação, defendendo-se:

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- por excepção, alegando a ilegitimidade activa do administrador uma vez que a assembleia de condóminos, reunida no dia 15 de Janeiro de 2010, “delegou poderes ao administrador para resolver o assunto e entregar o caso a um advogado e passar uma procuração ao mesmo”, não tendo o Demandado cumprido essa deliberação e

- por impugnação, alegando que era intenção do Demandado retirar os seus haveres do sótão, só não o tendo feito em virtude de, após conversa com os técnicos das obras os mesmos terem dito “que até seriam úteis para lhes facilitar o acesso ao topo do telhado.” Alegou ainda que esta situação ocorreu também com outros condóminos pelo que considera abusivo “atribuir a responsabilidade pela má execução das obras a um só condómino, uma vez que o mesmo teve uma conduta idêntica a todos os outros, ou seja, a não remoção dos objectos com a anuência dos técnicos das obras”.

- ainda por impugnação: relativamente à quantia de 300,00 €, relativa a defeito da obra, que a mesma terá de ser imputada ao empreiteiro ou ficar a cargo do condomínio, excluindo, por isso, a responsabilidade pelo seu pagamento; e relativamente à quantia de 500,00 €, a título de serviços de limpeza, que, de acordo com a acta n.º 15, de 30 de Março de 1997, foi deliberada a repartição do espaço do sótão pelos condóminos, ficando atribuída a cada um uma área determinada tendo ainda sido deliberado, nessa mesma acta, que os condóminos do 3.º Esquerdo e 3.º Direito limpam as áreas ocupadas.

Tendo o Demandado desistido da mediação foi, por despacho de fls. 58, designado o dia 26 de Março de 2010, pelas 12.00 horas, para a realização da audiência de discussão e julgamento.

No dia designado, iniciada a audiência na presença do representante do condomínio Demandante e do Demandado, o Juiz de Paz procurou conciliar as partes nos termos do artigo 26.º/1 da Lei n.º 78/2001, de 13 de Julho, não tendo essa diligência sido bem sucedida.

Foram ouvidas as partes nos termos do disposto no artigo 57.º da LJP e realizada a audiência de julgamento, como resulta da respectiva acta.

Cumpre apreciar e decidir:

O Julgado de Paz é competente em razão do valor, da matéria e do território.

As partes têm personalidade e capacidade judiciária. A excepção de ilegitimidade do Demandante deduzida pelo Demandado será apreciada em seguida.

Não existem outras excepções ou nulidades que cumpra conhecer.

Fundamentação de facto:

Com relevância para a decisão da causa ficaram provados os seguintes factos:

1 – A administração do condomínio é exercida pelo X, acima identificado, conforme acta da reunião da assembleia de condóminos realizada no dia 15 de Janeiro de 2010 (fls. 5 dos autos).

2 – O Demandado é titular da fracção autónoma, designada pela letra “H”, correspondente ao 3.º andar esquerdo do prédio urbano acima identificado, registada na Conservatória do Registo Predial sob o n.º x, conforme documento de fls. 14 dos autos.

3 – A assembleia de condóminos, na reunião de 30 de Março de 1997, deliberou repartir o espaço do sótão entre todos os condóminos, tendo sido atribuída a cada um uma área determinada, sendo que ao Demandado foi atribuída uma área no topo esquerdo. (fls. 32 e 33 dos autos)

4 – A assembleia de condóminos, na reunião de 17 de Janeiro de 2007, deliberou a remoção do sótão dos

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haveres dos condóminos do 3.º piso, “para que os técnicos possam trabalhar no sótão.” (fls. 2 dos autos) 5 – O Demandado, que estava presente na reunião, concordou com a deliberação tomada. (fls. 3 dos autos) 6 – A assembleia de condóminos, na reunião de 15 de Janeiro de 2009, tendo constatado que os haveres do Demandado ainda não tinham sido retirados do sótão, o que dificultava as obras da cobertura, deliberou a sua remoção no prazo de 60 dias. (fls. 5-6 dos autos)

7 – Os haveres do Demandado, embora não impeçam por completo a realização de obras na cobertura, dificultam-na.

8 – Apesar das obras já realizadas o prédio continua a necessitar de obras, designadamente a nível da cobertura.

9 – As obras realizadas na cobertura sofreram um acréscimo de 300,00 €. (fls. 6 dos autos)

10 – O Demandante juntou orçamento para proceder à remoção do sótão dos haveres do Demandado, no valor de 500,00 €. (fls. 24 dos autos)

Para fixação da matéria de facto dada como provada concorreram os documentos juntos aos autos.

Para a fixação do facto dado como provado em 7 revelou-se essencial o depoimento da testemunha W, apresentada pelo Demandante, que revelou ter conhecimento directo e pessoal da cobertura do prédio, por tê-la visitado há pouco tempo.

Para a fixação do facto dado como provado em 8 revelou-se essencial o depoimento das testemunhas Z, apresentada pelo Demandado e W, apresentado pelo Demandante, por ambos terem conhecimento das infiltrações de água que vêm da cobertura.

Não ficou provado:

- que a não remoção do sótão dos haveres do Demandado seja a causa exclusiva do acréscimo de custo dos trabalhos realizados no telhado, no montante de 300,00 €.

A fixação da matéria de facto dada como não provada resultou da ausência de meios de prova credíveis, após análise dos documentos juntos aos autos e da audição das partes e das testemunhas.

Fundamentação de Direito:

A) Da excepção da ilegitimidade:

Na contestação o Demandado alega que o administrador do condomínio Demandante, X, não está devidamente autorizado pela assembleia de condóminos, tendo esta deliberado, na reunião havida no dia 15 de Janeiro de 2010, delegar “poderes ao administrador para resolver o assunto e entregar o caso a um advogado e passar uma procuração ao mesmo".

Nos termos do disposto no artigo 1430.º/1 do Código Civil, a administração das partes comuns do edifício compete à assembleia de condóminos e a um administrador, o qual tem, por direito próprio, que não lhe pode ser retirado pela assembleia de condóminos, legitimidade para agir em juízo em representação do condomínio, quer contra qualquer dos condóminos, quer contra terceiro na execução das funções que lhe pertencem, no que respeita às partes comuns do edifício e à prestação de serviços de interesse comum (artigos 1436.º/1 e 1437 do Código Civil). Assim e tendo em conta a matéria de facto dada como provada a administração do condomínio Demandante tem a legitimidade necessária para, por si só e independentemente de qualquer deliberação da assembleia de condóminos, representar o condomínio pleitos judiciais quando o objecto dos mesmos diga respeito à execução das suas funções. (artigo

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1436.º/alíneas f) e h) do Código Civil).

B) Do mérito da causa:

A matéria da presente acção circunscreve-se às relações de condomínio.

A administração das partes comuns do edifício cabe à assembleia dos condóminos e a um administrador (artigo 1430.º Código Civil), cabendo a este, entre outras, a função de “realizar os actos conservatórios dos direitos relativos aos bens comuns” e “executar as deliberações da assembleia” (artigo 1436.º/alíneas f) e h) do Código Civil)

Face à matéria provada é indubitável que a assembleia de condóminos, em reuniões realizadas nos dias 17 de Janeiro de 2007 e 15 de Janeiro de 2009 deliberou e aprovou a remoção dos haveres do Demandado a fim de permitir a realização de trabalhos no sótão, sendo certo que o edifício continua a carecer de obras a nível da cobertura.

A posição de condómino confere direitos e impõe deveres. Estando o Demandado presente na reunião da assembleia de condóminos do dia 17 de Janeiro de 2007 em que foi tomada aquela decisão, tendo concordado com a mesma e não tendo a mesma sido impugnada ao abrigo disposto no artigo 1433.º do Código Civil ela tornou-se obrigatória para o condómino Demandado, devendo este dar-lhe cumprimento. A remoção deliberada tem por finalidade facilitar os trabalhos a realizar na cobertura, conforme resulta da leitura das actas das reuniões realizadas em 17 de Janeiro de 2007 e 15 de Janeiro de 2009, não implicando, por isso, qualquer alteração da deliberação de repartição do sótão, tomada na reunião de 30 de Março de 1997, que continua válida enquanto a assembleia não decidir a desafectação do uso exclusivo por parte dos condóminos, uma vez que tal espaço era e continua a ser parte comum do prédio (artigo 1421.º/1/alínea b) do Código Civil).

Quanto ao montante peticionado de 500,00 €, a título de limpeza do espaço ocupado pelos pertences do Demandado, importa dizer que a limpeza do espaço do sótão ocupado pelo Demandado é da responsabilidade deste nos termos do disposto no artigo 1424.º/3 do Código Civil, pelo que a remoção do sótão dos haveres do Demandado deverá ser acompanhada da limpeza do local, tudo a expensas do Demandado.

Quanto ao montante peticionado de 300,00 €, correspondente ao acréscimo de custo dos trabalhos realizados na cobertura, não ficou provado que esse acréscimo de custo se deva exclusivamente à não remoção dos haveres por parte do Demandado, não podendo também o pedido ser atendido nesta parte.

Decisão

Face ao que antecede:

- condeno o Demandado a retirar do sótão os seus haveres e a limpar o espaço por eles ocupado até que sejam concluídas as obras a realizar na cobertura do edifício.

- absolvo o Demandado do pagamento da quantia peticionada de 500,00 €;

- absolvo o Demandado do pagamento da quantia peticionada de 300,00 €.

Custas

Custas em partes iguais.

Esta sentença foi proferida na presença do Representante do Demandante e das Ilustres Defensoras Oficiosas do Demandado, tendo todos sido dela notificados no acto.

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Registe.

Julgado de Paz de Sintra, 20 de Abril de 2010 O Juiz de Paz

José Almeida

Fonte: http://www.dgsi.pt

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